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	<title>Arquivos Capitalismo &#8211; Persona | Jornalismo Cultural</title>
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	<description>Desde 2015 provando que a distância entre Bergman, Lady Gaga e a novela das 9 nem existe.</description>
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		<title>O sonho da Ascensão é uma farsa</title>
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		<pubDate>Fri, 25 Mar 2022 16:39:07 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p>Enrico Souto “Trabalhe duro, e todos os seus sonhos se realizarão”. Esse é um tipo de fala muito familiar para nós, que vivemos imersos em um sociedade capitalista que preza por liberdade acima de tudo – inclusive, de nossa própria humanidade. E, afinal, se mesmo Bong Joon-Ho se surpreendeu em como pessoas do mundo inteiro &#8230; <a href="http://personaunesp.com.br/ascensao-documentario-critica/" class="more-link">Continue lendo<span class="screen-reader-text"> "O sonho da Ascensão é uma farsa"</span></a></p>
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										<content:encoded><![CDATA[<figure id="attachment_26943" aria-describedby="caption-attachment-26943" style="width: 3840px" class="wp-caption alignnone"><img fetchpriority="high" decoding="async" class="size-full wp-image-26943" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/03/IMAGEM-1.webp" alt="Cena do documentário Ascension. Imagem retangular e colorida. Nela, vemos uma garota asiática, sentada de frente para o seu celular, que fica preso sobre um tripé com uma iluminação de luz branca em formato de anel. Ela fala algo enquanto olha para o aparelho e levanta com a mão esquerda um tênis branco na altura de seu rosto." width="3840" height="2160" /><figcaption id="caption-attachment-26943" class="wp-caption-text">Indicado a Melhor Documentário no Oscar 2022, Ascension está entre três dos cinco filmes selecionados para a categoria este ano que são dirigidos por mulheres (Foto: MTV Documentary Films)</figcaption></figure>
<p><b>Enrico Souto</b></p>
<p><i><span style="font-weight: 400;">“Trabalhe duro, e todos os seus sonhos se realizarão”</span></i><span style="font-weight: 400;">. Esse é um tipo de fala muito familiar para nós, que vivemos imersos em um sociedade capitalista que preza por liberdade acima de tudo – inclusive, de nossa </span><a href="https://latinoamerica21.com/br/entre-o-sonho-americano-e-o-purgatorio/"><span style="font-weight: 400;">própria humanidade</span></a><span style="font-weight: 400;">. E, afinal, se mesmo </span><a href="https://www.ihu.unisinos.br/78-noticias/596211-quanto-mais-extremo-o-capitalismo-mais-extrema-e-a-desigualdade-afirma-diretor-do-filme-parasita"><span style="font-weight: 400;">Bong Joon-Ho</span></a><span style="font-weight: 400;"> se surpreendeu em como pessoas do mundo inteiro se identificaram com o seu (mais localizado possível) </span><a href="https://personaunesp.com.br/parasita-critica/"><span style="font-weight: 400;">retrato</span></a><span style="font-weight: 400;"> do capitalismo tardio sul-coreano, nossas vivências dentro desse sistema começam a se costurar, transcendendo territórios e aproximando-se de uma experiência universal. Entretanto, essa frase em específico é retirada de uma propaganda de rua do governo chinês. E a China não é capitalista.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">A atual conjuntura econômica chinesa é complexa e um fenômeno único na história. Vivendo hoje um “</span><a href="https://www.youtube.com/watch?v=o5sXPAUmeKg"><span style="font-weight: 400;">socialismo de mercado</span></a><span style="font-weight: 400;">”, essa </span><a href="https://www.youtube.com/watch?v=eJpqTO-PaY0"><span style="font-weight: 400;">alternativa</span></a><span style="font-weight: 400;"> ao socialismo tradicional surge quando a China, para evitar sofrer boicotes, embargos e barrar seu desenvolvimento produtivo, se viu na necessidade de fundir-se à lógica mundial de comércio capitalista, em concomitante à outras formas coletivas de propriedade. Contudo, o que parecia uma </span><a href="https://revistas.face.ufmg.br/index.php/novaeconomia/article/view/5544"><span style="font-weight: 400;">relação mutualística</span></a><span style="font-weight: 400;"> logo revela-se um violento parasitismo, que passa a contaminar cada aspecto de sua sociedade. E, à vista disso, os efeitos desse fenômeno são percebidos com muita sensibilidade por </span><a href="https://www.youtube.com/watch?v=lHLGfZjm4vM"><span style="font-weight: 400;">Jessica Kingdon</span></a><span style="font-weight: 400;"> em </span><a href="https://personaunesp.com.br/tag/melhor-documentario/"><i><span style="font-weight: 400;">Ascension</span></i></a><span style="font-weight: 400;">, sua estreia como diretora de longa-metragens, que consta entre os indicados a Melhor Documentário do </span><a href="https://personaunesp.com.br/tag/oscar-2022/"><i><span style="font-weight: 400;">Oscar </span></i><span style="font-weight: 400;">2022</span></a><span style="font-weight: 400;">. </span></p>
<p><span id="more-26942"></span></p>
<figure id="attachment_26944" aria-describedby="caption-attachment-26944" style="width: 1920px" class="wp-caption alignnone"><img decoding="async" class="size-full wp-image-26944" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/03/IMAGEM-2-10.jpg" alt="Cena do documentário Ascension. Imagem retangular e colorida. Nela, vemos uma operária chinesa, vestindo uma jaqueta azul e vermelha, com o cotovelo e a mão apoiados sobre uma bacia cinza. Ela segura uma garrafa de plástico transparente em uma das mãos, e a posiciona de forma que dê a impressão de que ela está dirigindo o objeto até a sua boca. Na bacia, se encontram inúmeras garrafas iguais às que ela segura." width="1920" height="1080" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/03/IMAGEM-2-10.jpg 1920w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/03/IMAGEM-2-10-800x450.jpg 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/03/IMAGEM-2-10-1024x576.jpg 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/03/IMAGEM-2-10-768x432.jpg 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/03/IMAGEM-2-10-1536x864.jpg 1536w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/03/IMAGEM-2-10-1200x675.jpg 1200w" sizes="(max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 1362px) 62vw, 840px" /><figcaption id="caption-attachment-26944" class="wp-caption-text">Gravado por 52 locações chinesas ao todo, Ascension foi comercializado no Brasil pelo serviço de streaming Paramount+ (Foto: MTV Documentary Films)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">O filme gira em torno da doutrina do “</span><a href="https://chinavistos.com.br/sonho-chines/"><span style="font-weight: 400;">sonho chinês</span></a><span style="font-weight: 400;">” – que pouco se conecta essencialmente com o que conhecemos como “sonho americano”. Esse conceito foi apresentado por Xi Jinping, presidente do país, em 2012 e, desde então, tem sido posto como projeto político nacional. Baseando-se em condutas da China Antiga, seu maior objetivo é finalmente </span><a href="https://pcdob.org.br/noticias/socialismo-na-nova-era-garantia-da-realizacao-do-sonho-chines/"><span style="font-weight: 400;">expurgar os traumas</span></a><span style="font-weight: 400;"> do país – com um longo passado de colonização e </span><a href="https://www.terra.com.br/noticias/educacao/historia/japao-contra-china-o-massacre-de-nanquim,8008affdfb1ea310VgnCLD200000bbcceb0aRCRD.html"><span style="font-weight: 400;">dominação externa</span></a><span style="font-weight: 400;"> –, superar suas crises, ultrapassar a hegemonia capitalista e estabelecer-se como a maior potência econômica e tecnológica da civilização moderna.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Ao contrário dos fundamentos de liberdade e crescimento individual pregados no ocidente, o sonho chinês, além de basear-se em um forte sentimento nacionalista e em rígidas normas sociais, coloca-se como um processo coletivo em seu cerne. </span><i><span style="font-weight: 400;">“O sonho chinês é, acima de tudo, o sonho do povo. Nós devemos realizá-lo dependendo proximamente das pessoas”</span></i><span style="font-weight: 400;">, </span><a href="http://portuguese.people.com.cn/n3/2019/0930/c309806-9619647.html"><span style="font-weight: 400;">são as palavras</span></a><span style="font-weight: 400;"> de Xi Jinping. Porém, a obra de Kingdon demonstra como, conforme o país se entrelaçou com a economia mundial, a busca pelo “rejuvenescimento da nação chinesa” confirma-se corrompida. De </span><a href="https://www.consumidormoderno.com.br/2019/07/23/made-in-china-como-virou-a-industria-do-mundo/"><span style="font-weight: 400;">fábrica do mundo</span></a><span style="font-weight: 400;"> a </span><a href="https://www.indexlaw.org/index.php/revistadtmat/article/view/1240"><span style="font-weight: 400;">sociedade de consumo</span></a><span style="font-weight: 400;">, a estrutura socioeconômica inerentemente contraditória da China faz com que os cenários expostos pelo longa sejam assustadoramente reconhecíveis a nós.  </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Apesar da contextualização geral feita aqui, não é necessária nenhuma dessas informações para absorver a </span><a href="https://www.theguardian.com/film/2022/jan/10/ascension-review-chinas-bizarre-descent-into-capitalist-excess"><span style="font-weight: 400;">mensagem de </span><i><span style="font-weight: 400;">Ascensão</span></i></a><span style="font-weight: 400;"> – como foi traduzido para cá. Diferente do que pode ter parecido até agora, o documentário não tem cunho teórico, muito menos informativo. A partir de uma estética limpa e minimalista, Kingdon dispensa explicações metódicas e narrações expositivas, decidindo focar somente na observação silenciosa das pessoas e de como aquelas condições afetam tanto sua rotina quanto sua relação com os outros e com sua própria subjetividade.</span></p>
<figure id="attachment_26945" aria-describedby="caption-attachment-26945" style="width: 1200px" class="wp-caption alignnone"><img decoding="async" class="size-full wp-image-26945" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/03/IMAGEM-3-13.jpg" alt="Fotografia retangular e colorida. Nela, vemos um grupo de três pessoas que se apoiam sobre uma parede. Sobre ela, está colado um outdoor com uma propaganda chinesa. A imagem que entra em foco na peça publicitária é a de uma boneca japonesa, que veste um kimono vermelho estampado com flores, e os dizeres são todos escritos em ideogramas chineses. Porém, o que chama a atenção são grandes rasgos que se apresentam sobre parte do pôster." width="1200" height="675" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/03/IMAGEM-3-13.jpg 1200w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/03/IMAGEM-3-13-800x450.jpg 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/03/IMAGEM-3-13-1024x576.jpg 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/03/IMAGEM-3-13-768x432.jpg 768w" sizes="(max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 1362px) 62vw, 840px" /><figcaption id="caption-attachment-26945" class="wp-caption-text">As propagandas do governo, que disseminam a palavra do sonho chinês, costumam se apropriar a arte tradicional do país, evocando o nacionalismo da população; na imagem, três pessoas à frente de um pôster do sonho chinês adulterado (Foto: Reprodução)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">Jessica Kingdon já havia explorado as circunstâncias humanitárias da China no premiado documentário de curta-metragem </span><a href="https://vimeo.com/265913637"><i><span style="font-weight: 400;">Commodity City</span></i></a><span style="font-weight: 400;">, que examina a vida de comerciantes do </span><a href="https://destinochina.com/atacado-no-mercado-de-yiwu-na-china/"><span style="font-weight: 400;">Mercado de Yuwi</span></a><span style="font-weight: 400;">, mas decide expandir seus horizontes e investigar um panorama mais amplo. De descendência judaica e chinesa, a cineasta americana, sem nunca necessitar de verbalizações, não esconde o quão pessoais estes registros são para ela. Seu primeiro longa é nomeado a partir de um poema do seu próprio avô, Zheng Ze, escrito no ápice do </span><a href="https://iscap.pt/cei/e-rei/n9vol1/artigos/Lanfeng%20Zhou_O%20S%C3%A9culo%20de%20Humilha%C3%A7%C3%A3o%20e%20a%20sua%20influ%C3%AAncia%20na%20constru%C3%A7%C3%A3o%20da%20identidade%20nacional%20na%20China.pdf"><span style="font-weight: 400;">Século da humilhação</span></a><span style="font-weight: 400;">, em 1912 – um período de grande crise na história da China, logo antes da Primeira Guerra Mundial. Kingdon, então, se apossa das inquietudes de seu avô e ressignifica aqueles versos para tentar compreender a realidade de hoje.</span></p>
<blockquote><p><span style="font-weight: 400;">“Minha espada em mãos, eu ascendo até a torre.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Eu olho para longe, esperando aliviar minhas aflições.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">A torre é alta demais para escalar.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Em vez disso, meus problemas só aumentam.”</span></p></blockquote>
<p><span style="font-weight: 400;">Após esse enxerto, logo nos transportamos para dentro do </span><a href="https://www.youtube.com/watch?v=WeIsyqRLjXI"><span style="font-weight: 400;">sensível olhar</span></a><span style="font-weight: 400;"> de Kingdon. Acompanhamos uma comoção em um centro comercial chinês, onde os recrutadores das fábricas, com seus megafones, gritam a plenos pulmões ofertas de trabalho à multidão aflita. Os direitos mais básicos, como um ambiente ventilado ou cadeiras para se sentar, são anunciados como benefícios exclusivos e imperdíveis, enquanto a falta de rigor sanitário é considerada um atrativo para uma população que não consegue acesso sequer a exames médicos. Tudo isso por um salário pífio e irrisório, o que não impede que as ruas continuem abarrotadas.</span></p>
<p><figure id="attachment_26946" aria-describedby="caption-attachment-26946" style="width: 1200px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-full wp-image-26946" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/03/IMAGEM-4-1.webp" alt="Cena do documentário Ascension. Imagem retangular e colorida. Vemos, de cima, em uma visão panorâmica, a imagem de uma extensa piscina que ocupa o terraço de um prédio luxuoso. Além disso, três funcionários vestindo ternos andam sobre a ponta do terraço, aparentemente concluindo uma manutenção na piscina, sem nenhum tipo de equipamento de segurança." width="1200" height="675" /><figcaption id="caption-attachment-26946" class="wp-caption-text">“Para mim, [fazer o filme] foi muito sobre entender o capitalismo em um contexto diferente, fora dos Estados Unidos, em um país que ainda nomeia-se comunista”, disse Jessica Kingdon, <a href="https://www.youtube.com/watch?v=hhSyuhHroW0">em entrevista</a> ao GoldDerby (Foto: MTV Documentary Films)</figcaption></figure><span style="font-weight: 400;">Nesse início, a câmera posiciona-se afastada, separada daquele corpo social e fluxo urbano. A perspectiva vêm de cima e exprime-se através de um olhar invasivo, que se embrenha sobre o cotidiano dessas pessoas sem que elas nem percebam. Mesmo com o distanciamento, a sensação é de abjeção, como se o simples ato de observar fosse rude ou até imoral. Com isso, Kingdon – que também assina a cinematografia – assume o mesmo lugar de nós, </span><a href="https://pantheon.ufrj.br/handle/11422/2501"><span style="font-weight: 400;">espectadores ocidentais</span></a><span style="font-weight: 400;">: o de estrangeira. Ainda que seja parte de sua ancestralidade, a cineasta entende sua posição como leiga e se prontifica a mergulhar no âmago da humanidade daquele povo.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">E, então, ao invés do que a introdução incita, somos levados a uma jornada interna e confidente a esse universo lúgubre. Cruzamos por diversos fragmentos da vida chinesa e, toda vez que pulamos de um cenário a outro, essa consciência de uma aproximação comedida volta a aparecer, dando ao filme um </span><a href="https://repositorio.bc.ufg.br/bitstream/ri/4205/5/TCCG%20-%20Jornalismo%20-%20Marielle%20Alves.pdf"><span style="font-weight: 400;">caráter lúdico</span></a><span style="font-weight: 400;"> de curiosidade e constante descoberta, sempre acompanhado de um incômodo frio na espinha. A fotografia é hipnotizante, utilizando-se do contraste entre enquadramentos abertos e fechados para criar uma </span><a href="https://www.youtube.com/watch?v=8QwIXfNACK0"><span style="font-weight: 400;">corrente surreal de imagens</span></a><span style="font-weight: 400;">. </span><i><span style="font-weight: 400;">Ascension</span></i><span style="font-weight: 400;"> não precisa dizer nada, não só porque toda a sua carga de significado se apresenta dentro da sua rica linguagem cinematográfica, mas também pois sua narrativa depende de uma bagagem de signos que somente a enunciação jamais abarcaria. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Assim sendo, os trabalhadores das fábricas chinesas são os primeiros contingentes a serem abordados. Se a promessa de urbanização e modernização chinesa foi cumprida, isso não impediu que o mercado de exportação do país continuasse explorando a população local mais vulnerável, a partir de uma </span><a href="https://www.engeplus.com.br/noticia/economia/2017/por-que-os-produtos-da-china-sao-mais-baratos"><span style="font-weight: 400;">mão-de-obra barata</span></a><span style="font-weight: 400;"> e sucateada, implementada em condições insalubres e indignas. Presenciamos as trabalhadoras debruçadas sobre diferentes linhas de montagem, ocupando funções automatizadas, </span><a href="https://jacobin.com.br/2022/01/para-marx-a-alienacao-era-central-para-a-compreensao-do-capitalismo/"><span style="font-weight: 400;">alheios do processo</span></a><span style="font-weight: 400;"> de formação daqueles produtos e, consequentemente, do valor legítimo de seu trabalho – ao mesmo tempo que nunca verão os frutos dessa labuta.</span></p>
<figure id="attachment_26947" aria-describedby="caption-attachment-26947" style="width: 1800px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-full wp-image-26947" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/03/IMAGEM-5-6.jpg" alt="Cena do documentário Ascension. Imagem retangular e colorida. Nela, vemos uma mulher de costas, segurando seu celular em uma das mãos, e a cabeça de uma boneca realista em tamanho real, posta sobre uma torre de apoio, na outra. Nas duas mãos ela veste luvas de proteção brancas. Sobre a mesma mesa onde se apoia a cabeça, vemos espalhadas diversas outras partes da boneca, como pernas, braços e torsos." width="1800" height="1013" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/03/IMAGEM-5-6.jpg 1800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/03/IMAGEM-5-6-800x450.jpg 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/03/IMAGEM-5-6-1024x576.jpg 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/03/IMAGEM-5-6-768x432.jpg 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/03/IMAGEM-5-6-1536x864.jpg 1536w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/03/IMAGEM-5-6-1200x675.jpg 1200w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 1362px) 62vw, 840px" /><figcaption id="caption-attachment-26947" class="wp-caption-text">Essa abordagem observacional e sutil também possibilitou que o filme transmitisse sua mensagem de forma mais sofisticada e menos tendenciosa, dando abertura para interpretações alternativas do público, mas sem deixar de se posicionar da sua maneira (Foto: MTV Documentary Films)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">É desse modo que os paradoxos inerentes ao socialismo chinês tomam forma na nossa frente. Aliando-se à </span><a href="https://www.uol/noticias/especiais/retrospectiva-nyt-china.htm#china-abraca-a-globalizacao"><span style="font-weight: 400;">globalização</span></a><span style="font-weight: 400;">, no esforço por alçar autonomia política e econômica, ironicamente a China se vê mais uma vez refém do imperialismo ocidental. Da produção de camisetas que estampam o </span><i><span style="font-weight: 400;">slogan</span></i><span style="font-weight: 400;"> do </span><a href="https://www.cnnbrasil.com.br/internacional/inteligencia-de-trump-china-e-a-maior-ameaca-aos-eua-desde-a-segunda-guerra/"><span style="font-weight: 400;">governo de Trump</span></a><span style="font-weight: 400;"> à grotescamente meticulosa fabricação de bonecas sexuais: todos produtos que serão exportados e consumidos por homens de uma elite ocidental branca, e esculpidos por mulheres da classe operária chinesa em circunstâncias impróprias e perigosas. Fatalmente, espelha-se ali as </span><a href="https://www.comciencia.br/a-china-na-economia-mundo-capitalista-de-1840-aos-dias-atuais-da-incorporacao-forcada-a-integracao-total-voluntaria-e-irreversivel/"><span style="font-weight: 400;">convenções sistemáticas do capitalismo</span></a></p>
<p><i><span style="font-weight: 400;">Ascension</span></i><span style="font-weight: 400;"> também mostra como esse modelo de </span><a href="https://www.youtube.com/watch?v=4a4XBSaNTBQ"><span style="font-weight: 400;">produção alienada</span></a><span style="font-weight: 400;"> é conduzida para outras </span><a href="http://www.anpad.org.br/admin/pdf/2012_GPR310%20TC.pdf"><span style="font-weight: 400;">dimensões sociais</span></a><span style="font-weight: 400;">. Cursos de preparação profissional formam-se sobre um molde praticamente militarizado, baseado em </span><a href="http://www.justificando.com/2017/12/12/acesso-justica-o-drama-da-classe-trabalhadora-nao-comecou-com-reforma-trabalhista/"><span style="font-weight: 400;">hierarquias severas</span></a><span style="font-weight: 400;"> e sem espaço para debate e pensamento crítico. Em um treinamento de mordomos, por exemplo, eles são ensinados a manter sempre a postura de submissão: </span><i><span style="font-weight: 400;">“Nossos clientes são principalmente pessoas ricas, que tendem a fazer o que bem entenderem e a depositar seu mau-humor em vocês. E vocês, como membros da indústria de serviço, precisam agir profissionalmente”</span></i><span style="font-weight: 400;">, é o que aponta a instrutora.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">São nesses momentos, quando Kingdon aprofunda-se na contraposição entre os trabalhadores e a aristocracia chinesa – cegamente obcecada pela cultura europeia –, que o documentário ganha um tom quase tragicômico. A partir de sua segunda metade, vemos as implicações da tal busca por desenvolvimento tecnológico e a </span><a href="http://www.anpad.org.br/admin/pdf/2012_GPR310%20TC.pdf"><span style="font-weight: 400;">transição do país</span></a><span style="font-weight: 400;"> de uma nação industrial para mais uma </span><a href="https://aun.webhostusp.sti.usp.br/index.php/2021/09/02/economia-da-atencao-e-universo-das-telas-entenda-por-que-e-tao-dificil-se-desconectar/"><span style="font-weight: 400;">economia de atenção</span></a><span style="font-weight: 400;"> no auge do </span><a href="https://ambitojuridico.com.br/cadernos/direito-do-trabalho/uberizacao-da-revolucao-no-mundo-capitalista-a-evolucao-das-novas-formas-de-trabalho-humano/"><span style="font-weight: 400;">capitalismo selvagem</span></a><span style="font-weight: 400;">. A ideia de que, na </span><a href="https://www.youtube.com/watch?v=rrXFBSD0nRw"><span style="font-weight: 400;">era da </span><i><span style="font-weight: 400;">internet</span></i></a><span style="font-weight: 400;">, ou você influencia ou é influenciado, é completamente abraçada por uma nova classe empreendedora que reduz tudo à mercadoria. Qualquer conhecimento que não possa ser monetizado torna-se obsoleto, enquanto a concepção do sonho chinês é deturpada e transformada em um discurso meritocrático vazio de ascensão e </span><a href="https://www.brasildefato.com.br/2019/10/25/e-preciso-combater-o-individualismo-e-o-consumismo-diz-stedile-em-evento-na-ufpa"><span style="font-weight: 400;">ganho individual</span></a><span style="font-weight: 400;">.</span></p>
<figure id="attachment_26948" aria-describedby="caption-attachment-26948" style="width: 4096px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-full wp-image-26948" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/03/IMAGEM-6-1.webp" alt="Cena do documentário Ascension. Imagem retangular e colorida. Nela, vemos de cima, um grupo enorme de pessoas, vestindo bóias rosas e amarelas, sendo levados pela correnteza de uma grande piscina de um parque aquático. O cenário é dia." width="4096" height="2160" /><figcaption id="caption-attachment-26948" class="wp-caption-text">Mesmo liderando as indicações no Critics Choice Documentary Awards ao lado de Summer of Soul, Ascension infelizmente saiu da premiação sem ser contemplado (Foto: MTV Documentary Films)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">A trilha sonora de Dan Deacon, ainda que excessivamente eclética – ora firmada em uma </span><a href="http://akgerber.com/moi.html"><span style="font-weight: 400;">sonoridade rumorosa</span></a><span style="font-weight: 400;">, ora acústica, regrada por instrumentos de corda –, cumpre seu papel em denotar a discrepância absurda entre contextos tão fisicamente próximos. Quando os sintetizadores futuristas e sintéticos do compositor são sobrepostos aos ruídos caóticos e indistintos de uma festa de formatura de um grupo de estudantes de </span><a href="https://www.youtube.com/watch?v=VFaEaJakl_A"><span style="font-weight: 400;">classe-média</span></a><span style="font-weight: 400;">, procurando sobre aquele parque aquático algum tipo de validação e </span><a href="https://www.scielo.br/j/tes/a/FZdfwbdkV66fsJGzJwyGVpP/?lang=pt"><span style="font-weight: 400;">recompensa imediata</span></a><span style="font-weight: 400;">, crentes de que com empenho eles conquistarão tudo que desejarem, prova-se ainda mais artificial a construção dessas relações – superficiais e alheias da realidade.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Indo além do seu formidável comentário político, Jessica Kingdon entrega uma brilhante experiência sensorial. Mostrando que fazer um bom documentário não depende apenas de um extenso acervo de informação, a diretora usa todos os elementos da linguagem cinematográfica ao seu favor, instigando nossos sentidos e nos transferindo para dentro desse cenário destrutivo da forma mais palpável que uma obra audiovisual chega. No </span><i><span style="font-weight: 400;">Oscar</span></i><span style="font-weight: 400;">, em que foi indicado para Melhor Documentário, </span><i><span style="font-weight: 400;">Ascension</span></i><span style="font-weight: 400;"> acompanha uma leva de documentários sobre a questão da China que deram as caras em anos anteriores, como o curta </span><a href="https://personaunesp.com.br/do-not-split-critica/"><i><span style="font-weight: 400;">Do Not Split</span></i></a><span style="font-weight: 400;"> e </span><a href="https://www.brasildefato.com.br/2020/03/01/artigo-filme-industria-americana-mostra-precarizacao-do-trabalho-crua-e-desigual"><i><span style="font-weight: 400;">Indústria Americana</span></i></a><span style="font-weight: 400;">, que ganhou na mesma categoria em 2020. Porém, para esse ano, sua chance de vitória é pouca, dado que saiu de mãos vazias na maioria das grandes premiações em que foi indicado, enquanto compete aqui com gigantes como </span><a href="https://personaunesp.com.br/flee-critica/"><i><span style="font-weight: 400;">Flee</span></i></a><span style="font-weight: 400;"> e </span><a href="https://personaunesp.com.br/summer-of-soul-critica/"><i><span style="font-weight: 400;">Summer of Soul</span></i></a><span style="font-weight: 400;">.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Por meio de um estudo íntimo e refinado, </span><i><span style="font-weight: 400;">Ascension</span></i><span style="font-weight: 400;"> revela que ecos da ideologia americana contaminaram os quatro cantos da China. Talvez o “sonho chinês” já não pareça tão distante dos preceitos do “sonho americano”. No fim das contas, é a mesma falácia de que, com persistência e força de vontade, tudo é possível. Ideia essa calcada sobre o sangue de trabalhadores e de uma falsa esperança que legitima opressões, à medida que edificada minuciosamente para esterilizar qualquer fagulha de reação e isentar os verdadeiros responsáveis por tamanhas atrocidades. E é assim que, ao testemunhar paralelos entre a decadente realidade chinesa e a nossa, sob o olhar preciso de Jessica Kingdon, não existe outra conclusão possível: </span><a href="https://www.youtube.com/watch?v=ChgT6KcJfog"><span style="font-weight: 400;">reconciliações são impossíveis</span></a><span style="font-weight: 400;"> com a farsa do capitalismo. </span></p>
<div class="jetpack-video-wrapper"><iframe loading="lazy" title="Ascension Trailer | MTV Entertainment Studios" width="840" height="473" src="https://www.youtube.com/embed/c7Z4DRhy9pI?feature=oembed" frameborder="0" allow="accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share" referrerpolicy="strict-origin-when-cross-origin" allowfullscreen></iframe></div>
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		<title>Os 5 anos de The Good Place nos deixam uma pergunta: o que devemos uns aos outros?</title>
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		<pubDate>Fri, 29 Oct 2021 15:14:00 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p>Gina Zapparoli Nunca é esperado que alguém tome notas de ações boas e ruins que fazemos durante o tempo em que as pessoas passam na Terra, correto? Talvez colar em uma prova importante a qual você queira muito passar ou comprar uma &#8220;mistura de margarita para mulheres solitárias&#8221; para passar o fim de semana não &#8230; <a href="http://personaunesp.com.br/the-good-place-5-anos/" class="more-link">Continue lendo<span class="screen-reader-text"> "Os 5 anos de The Good Place nos deixam uma pergunta: o que devemos uns aos outros?"</span></a></p>
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										<content:encoded><![CDATA[<figure id="attachment_23763" aria-describedby="caption-attachment-23763" style="width: 650px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="wp-image-23763" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/10/tgp-1.png" alt="Cena da série The Good Place. A imagem mostra os seis personagens principais dentro de um balão, eles sorriem e olham para a câmera. " width="650" height="292" /><figcaption id="caption-attachment-23763" class="wp-caption-text">Seis narrativas diferentes que trazem uma história única (Foto: NBC)</figcaption></figure>
<p><b>Gina Zapparoli</b></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Nunca é esperado que alguém </span><a href="https://youtu.be/ut0ai4s4mjU"><span style="font-weight: 400;">tome notas de ações boas e ruins</span></a><span style="font-weight: 400;"> que fazemos durante o tempo em que as pessoas passam na Terra, correto? Talvez colar em uma prova importante a qual você queira muito passar ou comprar uma </span><a href="https://youtu.be/og0WTK4sobY"><i><span style="font-weight: 400;">&#8220;mistura de margarita para mulheres solitárias&#8221;</span></i></a><span style="font-weight: 400;"> para passar o fim de semana não parecem ser opções tão ruins vez ou outra.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">No entanto, </span><a href="http://personaunesp.com.br/the-good-place-critica/"><i><span style="font-weight: 400;">The Good Place</span></i></a><span style="font-weight: 400;"> mostra que há sempre uma pessoa anotando seus erros e acertos e que, bem, isso poderá te dar uma futura dor de cabeça. A narrativa da série se baseia em como as decisões dos personagens principais Eleanor Shellstrop (Kristen</span> <span style="font-weight: 400;">Bell), Tahani Al-Jamil (Jameela Jamil), Jason Mendoza (Manny Jacinto) e Chidi Anagonye (William Jackson Harper), por mais bobas que sejam, tragam grandes consequências para os mesmos.</span></p>
<p><span id="more-23762"></span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Além dos quatro protagonistas, a história ainda acompanha Michael (</span><a href="https://www.tecmundo.com.br/minha-serie/170185-ted-danson-comenta-sobre-o-destino-de-seu-personagem-em-the-good-place.htm"><span style="font-weight: 400;">Ted Danson</span></a><span style="font-weight: 400;">), o suposto arquiteto que planejou toda a vizinhança que geraria o Bom</span> <span style="font-weight: 400;">Lugar</span><i><span style="font-weight: 400;">,</span></i><span style="font-weight: 400;"> e sua assistente que possui conhecimento de tudo, Janet (</span><a href="https://feededigno.com.br/serie/the-good-place-darcy-carden-fala-sobre-despedida-da-serie/"><span style="font-weight: 400;">D’Arcy Carden</span></a><span style="font-weight: 400;">). Ambos personagens trazem ao grupo o “ar” fantasioso que a série brinca &#8211; principalmente ao considerar que Janet é alguém que detém todo conhecimento do mundo, enquanto Michael consegue produzir lugares para o pós-vida.</span></p>
<figure id="attachment_23766" aria-describedby="caption-attachment-23766" style="width: 650px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="wp-image-23766" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/10/tgp-2.png" alt="Cena da série The Good Place. A imagem mostra os personagens principais abraçados uns aos outros. O do meio, um homem caucasiano de cabelos grisalhos e óculos, olha diretamente para a câmera, enquanto os outros mantém um sorriso e olhos fechados. " width="650" height="390" /><figcaption id="caption-attachment-23766" class="wp-caption-text">Cada um dos personagens traz consigo seus próprios demônios &#8211; por mais literais que possam ser (Foto: NBC)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">A trama inicial gira em torno de Eleanor percebendo que não pertence a vizinhança, já que este é basicamente o lugar onde todas as auras bondosas e benfeitoras do mundo foram alocadas no pós-vida. E, bem… Ela está meio longe de fazer parte dessa minoria de pessoas que causaram uma real mudança nele. Chidi acaba sendo puxado para dentro dessa bagunça criada por Eleanor ao receber o papel de sua “</span><a href="https://youtu.be/NKuTyKuSla0"><span style="font-weight: 400;">alma-gêmea</span></a><span style="font-weight: 400;">”.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">É importante frisar que Eleanor e Chidi são como faces opostas da mesma moeda. Ela é impulsiva e não consegue ter tanta empatia pelos outros, enquanto ele se baseia em pensar demais e é sua gentileza que faz com que a farsa de Eleanor continue. Michael, mais adiante na série, admite que o pareamento dos dois era para incomodá-los, mas eles fazem com que tudo aquilo dê certo.</span></p>
<figure id="attachment_23767" aria-describedby="caption-attachment-23767" style="width: 650px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="wp-image-23767" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/10/tgp-3.png" alt="Cena da série The Good Place. Na cena estão duas pessoas olhando com expressões incrédulas uma para a outra." width="650" height="390" /><figcaption id="caption-attachment-23767" class="wp-caption-text">Chidi e Eleanor são a resposta (Foto: NBC)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">A partir daí, a história se desenrola. Eleanor passa por bons bocados durante a primeira temporada, enquanto tenta se alocar aos </span><a href="https://www.bbc.com/portuguese/vert-fut-52928657"><span style="font-weight: 400;">padrões éticos</span></a><span style="font-weight: 400;"> que Chidi a ensina. Ao mesmo passo, a protagonista tenta ser ajudante de Michael para que ele não a descubra como uma “penetra” na vizinhança.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">As coisas se tornam mais complicadas, quando Eleanor descobre que o monge Jianyu, na verdade, é um aspirante a </span><i><span style="font-weight: 400;">DJ</span></i><span style="font-weight: 400;"> originário da Flórida. O grande clímax da história é que, ao Michael descobrir a existência de Jason e da Eleanor “falsa”, como ela passa a ser chamada, ele precisa mandá-los para o Lugar Ruim. Mas… Surpresa! </span><a href="https://youtu.be/JWd1m83fptY"><span style="font-weight: 400;">Eles já estavam lá</span></a><span style="font-weight: 400;">.</span></p>
<figure id="attachment_23768" aria-describedby="caption-attachment-23768" style="width: 650px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="wp-image-23768" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/10/tgp-4.gif" alt="GIF da série The Good Place, na qual uma das personagens diz ao outro que ‘este é o lugar ruim’ enquanto abre os braços para demonstrar a descoberta." width="650" height="325" /><figcaption id="caption-attachment-23768" class="wp-caption-text">Ninguém esperava por essa, nem mesmo o próprio Michael (GIF: NBC)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">E sim, eles realmente estavam no Lugar Ruim. Toda a farsa sobre o Bom Lugar era um plano novo de tortura que Michael gostaria de apresentar para seu chefe e seus companheiros de trabalho. Ao ser descoberto, o até então arquiteto apaga a mente das pessoas de seu experimento, incluindo Janet. E, com isso, a primeira temporada termina.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Mas o objetivo dessa resenha não é discorrer  sobre como as quatro temporadas são desenvolvidas &#8211; já que isso daria um texto muito grande. Ela é voltada para os pontos positivos que faz dessa série única. Um deles é baseado na escolha narrativa da obra, sendo a série toda pautada em filosofia. Até o conceito da tortura proposta por Michael é baseado em uma teoria filosófica apresentada por </span><a href="https://guiadoestudante.abril.com.br/especiais/jean-paul-sartre/"><span style="font-weight: 400;">Jean-Paul Sartre</span></a><span style="font-weight: 400;"> de que </span><i><span style="font-weight: 400;">&#8220;o Inferno são os outros&#8221;</span></i><span style="font-weight: 400;"> &#8211; essa frase se dá pela peça, </span><a href="https://www.bonslivrosparaler.com.br/livros/resenhas/entre-quatro-paredes/5361"><i><span style="font-weight: 400;">Entre Quatro Paredes (Huis Clo)</span></i></a><i><span style="font-weight: 400;">,</span></i><span style="font-weight: 400;"> do filósofo. </span></p>
<figure id="attachment_23769" aria-describedby="caption-attachment-23769" style="width: 650px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="wp-image-23769" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/10/tgp-5.png" alt="Foto em preto e branco do filósofo Jean-Paul Sartre, na foto ele segura um cachimbo e o seu fundo é composto por vários livros." width="650" height="366" /><figcaption id="caption-attachment-23769" class="wp-caption-text">Jean-Paul Sartre é uma das maiores influências da série e um dos nomes mais conhecidos do Existencialismo (Foto: Reprodução)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">A peça se baseia na ideia de três pessoas que convivem entre quatro paredes e basicamente se torturam psicologicamente, enquanto discutem sobre seus pecados. Toda essa ideia é bem próxima da primeira temporada da </span><a href="https://minhaseriefavorita.com/2019/06/01/sitcom-seriado-serie-diferenca/"><i><span style="font-weight: 400;">sitcom</span></i></a><span style="font-weight: 400;">, lançada em 2016</span><i><span style="font-weight: 400;">. </span></i></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Não apenas a tese de Sartre é discutida. Durante os anos seguintes, novas teorias são levantadas e comentadas, de maneira cômica e até educativa. Filósofos como </span><a href="https://monografias.brasilescola.uol.com.br/administracao-financas/platao-aristoteles.htm"><span style="font-weight: 400;">Aristóteles e Platão</span></a><span style="font-weight: 400;"> são citados, como nomes para a construção da moral e da ética. E truques de filosofia, no qual se destaca </span><i><span style="font-weight: 400;">&#8220;</span></i><a href="https://youtu.be/9xpnaYrtO3A"><i><span style="font-weight: 400;">o problema do bonde</span></i></a><i><span style="font-weight: 400;">&#8220;</span></i><span style="font-weight: 400;">, são colocados para fazerem analogia com o contexto que os personagens passam.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;"> </span><i><span style="font-weight: 400;">The Good Place</span></i><span style="font-weight: 400;"> se torna uma aventura de auto-descoberta </span><a href="https://youtu.be/stHk4_VePds"><span style="font-weight: 400;">filosófica da ética e da moral</span></a><span style="font-weight: 400;"> dos próprios telespectadores. A questão da possibilidade de mudança também é um assunto bastante discutido, sendo mostrado que várias vezes, por mais difícil que seja, é possível mudar.</span></p>
<figure id="attachment_23770" aria-describedby="caption-attachment-23770" style="width: 650px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="wp-image-23770" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/10/tgp-6.gif" alt="GIF da série The Good Place onde é apresentado a uma personagem feminina. No GIF está escrito: “é uma grande confusão lá embaixo, sabe?”, se referindo a terra. A personagem usa roupas estereotipadas de um juiz nos Estados Unidos. " width="650" height="332" /><figcaption id="caption-attachment-23770" class="wp-caption-text">A vida humana é tão confusa que nem a Juíza consegue entender (GIF: NBC)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">Em todas temporadas, existe esse </span><i><span style="font-weight: 400;">&#8220;</span></i><a href="https://youtu.be/brZtP21eLrs"><i><span style="font-weight: 400;">reboot</span></i></a><i><span style="font-weight: 400;">&#8220;</span></i><span style="font-weight: 400;"> da realidade, tendo que começar de novo e de novo os universos alternativos que os personagens passam.  Em todas as tentativas, eles crescem juntos &#8211; tanto que é isso que arruína várias e várias vezes os planos de Michael em torturá-los, já que sempre que tentava apertar as feridas dos protagonistas, eles se juntam e se reerguem, cada vez melhores.</span></p>
<p><i><span style="font-weight: 400;">The Good Place</span></i><span style="font-weight: 400;"> constantemente questiona o </span><a href="https://brasilescola.uol.com.br/sociologia/determinismo.htm"><span style="font-weight: 400;">determinismo</span></a><span style="font-weight: 400;">. São várias as vezes que ela demonstra que até mesmo uma Zé Ninguém de Phoenix pode ser alguém moralmente boa &#8211; mesmo que essa pessoa tenha nascido em uma casa desestruturada e sem pessoas eticamente boas para guiá-la. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Ver Eleanor ajudar a mãe Donna Shellstrop (Leslie Grossman), com quem ela tem uma </span><a href="https://youtu.be/1spMbeEPF_w"><span style="font-weight: 400;">parede emocional</span></a><span style="font-weight: 400;"> grande e se sente inferior já que não recebeu o amor materno o qual ela desejava, é doloroso. Mas, ao mesmo passo, mostra como a personagem cresceu de uma ladra de camarões em festa, para uma personagem que consegue sentir empatia e se colocar em segundo plano para salvar quem ama.</span></p>
<figure id="attachment_23771" aria-describedby="caption-attachment-23771" style="width: 650px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="wp-image-23771" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/10/tgp-7.gif" alt="GIF da série The Good Place onde uma personagem feminina expressa a dor quanto a cena passada. No GIF está escrito: “isso significa que ela sempre foi capaz de mudança”. A mulher usa uma jaqueta jeans e uma blusa com listras coloridas." width="650" height="289" /><figcaption id="caption-attachment-23771" class="wp-caption-text">A dor da rejeição materna é grande demais, ainda mais quando a mesma sempre pôde mudar (GIF: NBC)</figcaption></figure>
<p><i><span style="font-weight: 400;">The Good Place</span></i><span style="font-weight: 400;"> também discorre temas sociais, como o desenvolvimento do capitalismo, as questões penais e de gênero e sexualidade. A série traz essa última em um tom leve e sem muita profundidade, mas em vários momentos é possível ver Eleanor comentando sobre bissexualidade e demonstrando interesses em pessoas de gêneros opostos &#8211; tanto que em um dos </span><i><span style="font-weight: 400;">reboots</span></i><span style="font-weight: 400;">, sua alma gêmea é Tahani e ela já comentou sobre se atrair por Janet. Além é claro, de Janet, que se intitula como </span><i><span style="font-weight: 400;">&#8220;not a girl&#8221;</span></i><span style="font-weight: 400;"> &#8211; remetendo a possibilidade da ajudante de Michael ser uma representação </span><a href="https://revistagalileu.globo.com/Sociedade/Comportamento/noticia/2021/05/o-que-e-genero-nao-binario-e-como-usar-linguagem-neutra-no-dia-dia.html"><span style="font-weight: 400;">não-binária</span></a><span style="font-weight: 400;">. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Ainda neste tópico, é possível ver problemas reais como o abandono maternal e negligência familiar &#8211; tanto no caso de Eleanor quanto no de Jason e Tahani, além do </span><a href="https://drauziovarella.uol.com.br/doencas-e-sintomas/ansiedade-transtorno-de-ansiedade-generalizada/"><span style="font-weight: 400;">transtorno de ansiedade</span></a><span style="font-weight: 400;"> de Chidi. Esse último caso é relatado em  por volta de 19 milhões de brasileiros, segundo uma </span><a href="https://g1.globo.com/fantastico/noticia/2020/12/06/ansiedade-e-o-transtorno-mais-comum-entre-os-brasileiros-sintomas-pioraram-durante-a-pandemia.ghtml"><span style="font-weight: 400;">reportagem</span></a><span style="font-weight: 400;"> do <em>Fantástico</em>. Tais situações próximas da realidade de muitas pessoas, faz com que a representação desses personagens seja mais “crua” e, logo, mais próxima de se tornar identificável.</span></p>
<figure id="attachment_23772" aria-describedby="caption-attachment-23772" style="width: 650px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="wp-image-23772" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/10/tgp-8.gif" alt="GIF da série The Good Place onde são apresentados uma personagem, possivelmente, não-binária e um rapaz. No GIF está escrito: “Não quero perder você, garota”, seguido por: “Eu não sou uma garota”. " width="650" height="277" /><figcaption id="caption-attachment-23772" class="wp-caption-text">A diversidade apresentada na série é algo que a destaca (GIF: NBC)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">O quê anti-capitalista também é presente na série. Durante as várias idas e vindas do grupo, descobrimos que ninguém sobe para o Bom Lugar há mais de quinhentos anos e, ainda nesse episódio, é apresentado que a vida contemporânea é complicada, </span><a href="https://youtu.be/hY-Rzou38k4"><span style="font-weight: 400;">porque o capitalismo faz com que ela o seja</span></a><span style="font-weight: 400;">. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">O ato de dar uma flor no passado causava pontos positivos; enquanto a mesma ação, nos dias atuais, faz com que a pessoa os perca, já que o mercado é algo volátil e que muitas vezes não colabora com o meio ambiente ou com a sociedade em uma esfera maior &#8211; o exemplo dado na série, por exemplo, faz com que o personagem possua uma desvantagem por ter contribuído com o trabalho em condições insalubres e com um empresário acusado por assédio, mesmo que o comprador de uma simples flor não soubesse disso. No fim, </span><a href="https://youtu.be/R8m_5HDZF7w"><span style="font-weight: 400;">não há uma ética no capitalismo</span></a><span style="font-weight: 400;">.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">As questões penais também pesam durante a quarta e última temporada, onde os personagens são julgados a quase serem apagados da história, já que o novo experimento conduzido por Michael, dessa vez para salvar a humanidade, dá errado. </span><a href="https://ferlap.pt/good-placeseason-4-episode-10-review"><i><span style="font-weight: 400;">Você mudou, cara</span></i></a><i><span style="font-weight: 400;"> (You’ve Changed, Man)</span></i><span style="font-weight: 400;"> é um ótimo episódio que discorre sobre como o sistema judicial poderia reintegrar e re-educar as pessoas que já foram punidas por ele mesmo.</span></p>
<figure id="attachment_23774" aria-describedby="caption-attachment-23774" style="width: 650px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="wp-image-23774" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/10/tgp-9.png" alt="Cena da série The Good Place onde os quatro personagens principais estão meio agachados, conversando entre si. No fundo está uma personagem olhando para cima e esperando o grupo acabar o diálogo." width="650" height="433" /><figcaption id="caption-attachment-23774" class="wp-caption-text">Os personagens não desistem da humanidade, por mais falha e complicada que ela seja (Foto: NBC)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">No fim, tudo dá certo. O Bom Lugar passa por uma nova </span><a href="https://youtu.be/cWrYyvXJRHI"><span style="font-weight: 400;">reforma estrutural</span></a><span style="font-weight: 400;"> e passa a ser o objetivo de todos, que colocam um processo de reeducação dos erros cometidos na vida passada. Aquela realidade parece perfeita, os personagens finalmente tem aqueles minutinhos de paz para só aproveitarem tudo que alcançaram até ali. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Até que eles percebem que a eternidade não é tudo isso, ainda mais em um lugar utópico como o que estão. Um por um, os protagonistas conseguem reparar que já atingiram sua meta naquele lugar e, vendo que não existe mais a necessidade de ajudarem outras pessoas ou aproveitarem o suposto paraíso, os personagens se </span><a href="https://youtu.be/l1IchzbtNj0"><span style="font-weight: 400;">despedem</span></a><span style="font-weight: 400;"> para voltarem ao universo.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Ao se ver solitário naquela utopia que Michael criou, ele decide </span><a href="https://youtu.be/YeWBBBVFQyI"><span style="font-weight: 400;">desistir do paraíso em que vivia e tentar viver de forma humana</span></a><span style="font-weight: 400;"> &#8211; por mais que ele saiba as dificuldades, as questões de ter um trabalho e de possuir glândulas sudoríparas. Dando assim, um fim ao ciclo. Fechando os pontos soltos das histórias: Tahani conseguindo ser alguém importante sem estar a sombra de sua irmã, Chidi se contentando com as coisas ao seu redor e Jason desistindo de todos os objetivos bobões que ele possuía, tendo Janet ao seu lado.</span></p>
<figure id="attachment_23775" aria-describedby="caption-attachment-23775" style="width: 650px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="wp-image-23775" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/10/tgp-10.gif" alt="GIF da série The Good Place onde mostra uma mulher andando em uma floresta, em direção a um portal composto por árvores. " width="650" height="314" /><figcaption id="caption-attachment-23775" class="wp-caption-text">O encerramento da série mostra o crescimento pessoal de todos os personagens, principalmente de Eleanor (GIF: NBC)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">Eleanor também se </span><a href="https://youtu.be/hDAczwSmzRU"><span style="font-weight: 400;">despede</span></a><span style="font-weight: 400;"> do lugar, dando adeus para seus pensamentos mesquinhos, dias solitários e a autossuficiência que desenvolveu como mecanismo de defesa. É um arco que completa a personagem, que agora entende a importância de ouvir e ser ouvida.</span></p>
<p><i><span style="font-weight: 400;">The Good Place</span></i><span style="font-weight: 400;"> traz questões importantes de </span><a href="https://www.uai.com.br/app/noticia/series-e-tv/2019/12/06/noticias-series-e-tv,253864/the-good-place-da-uma-aula-de-filosofia-por-meio-do-humor.shtml"><span style="font-weight: 400;">forma gostosa de se acompanhar</span></a><span style="font-weight: 400;">, trazendo um humor leve e inteligente que faz com que o entendimento de bases filosóficas antigas e acadêmicas seja mais acessível e amplo. Sua narrativa, vez ou outra, soa liberal, mas não diminui as questões sociais e ético-morais que a série nos apresenta. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">A história possui personagens envolventes que crescem e nos fazem rir e chorar junto. Questões como não se sentir o suficiente para ser amado, as dificuldades envolvendo a ansiedade de Chidi, da inferioridade de Tahani, a vontade de Jason de ser uma pessoa melhor. Sua narrativa é acolhedora e nos ensina que todos somos capazes de mudança e de melhora.</span></p>
<figure id="attachment_23776" aria-describedby="caption-attachment-23776" style="width: 650px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="wp-image-23776" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/10/tgp-11.gif" alt="GIF da série The Good Place onde mostra dois personagens, a primeira estende a mão para o segundo, que em seguida a abraça. " width="650" height="289" /><figcaption id="caption-attachment-23776" class="wp-caption-text">Às vezes, sentimos que não somos dignos de mudanças, mas sempre há a possibilidade de melhora (GIF: NBC)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">Além, é claro, de Chidi e Eleanor. É realmente possível acreditar na questão de </span><a href="https://youtu.be/Uzsa1Nc4CaM"><span style="font-weight: 400;">almas-gêmeas</span></a><span style="font-weight: 400;"> ao vê-los se reencontrando tantas vezes e, em todas elas, conseguindo manter um elo forte e seguro. Um ajudando o outro com suas falhas, havendo o aprendizado de ambos os lados, possuindo a vontade de sempre se encontrarem. É um amor </span><a href="https://maestrovirtuale.com/william-shakespeare-biografia-generos-e-estilo/"><span style="font-weight: 400;">estilo </span><i><span style="font-weight: 400;">shakespeariano</span></i></a><span style="font-weight: 400;">, mas que parece dar certo em seus próprios moldes.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Por fim, a pergunta que fica é: </span><a href="https://mosteirodoconhecimento.wordpress.com/2020/01/08/o-que-nos-devemos-aos-outros-o-contratualismo-moral-de-t-m-scanlon/"><i><span style="font-weight: 400;">&#8220;o que devemos uns aos outros?&#8221;</span></i></a><span style="font-weight: 400;"> &#8211; outra vertente da filosofia que a série usa como esqueleto, mas que também serve como questionamento para o dia a dia: o que se pode aprender da pessoa com quem você convive? E o que pode ensinar? Por ora, o ensinamento que esse texto tem a dar é: reassista </span><i><span style="font-weight: 400;">The Good Place</span></i><span style="font-weight: 400;">, ainda há muito que os 5 anos da série podem lhe entregar.</span></p>
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		<title>Não existe uniformidade quando estamos Lidando com a Morte</title>
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		<pubDate>Tue, 19 Oct 2021 19:05:27 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p>Raquel Dutra  A morte deve ser o aspecto mais globalizado da experiência humana no planeta Terra. Universalmente particular, a única certeza da vida é sujeita à forma como nos estabelecemos no mundo antes dela, originando questões culturais, familiares, sociais, e também econômicas. O paradoxo se intensifica quando ela chega: seja no Oriente ou no Ocidente, &#8230; <a href="http://personaunesp.com.br/lidando-com-a-morte-critica/" class="more-link">Continue lendo<span class="screen-reader-text"> "Não existe uniformidade quando estamos Lidando com a Morte"</span></a></p>
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										<content:encoded><![CDATA[<figure id="attachment_23851" aria-describedby="caption-attachment-23851" style="width: 2560px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-full wp-image-23851" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/10/still2_Dealingwithdeath-copy-scaled.jpg" alt="Cena do documentário Lidando com a Morte." width="2560" height="1440" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/10/still2_Dealingwithdeath-copy-scaled.jpg 2560w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/10/still2_Dealingwithdeath-copy-800x450.jpg 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/10/still2_Dealingwithdeath-copy-1024x576.jpg 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/10/still2_Dealingwithdeath-copy-768x432.jpg 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/10/still2_Dealingwithdeath-copy-1536x864.jpg 1536w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/10/still2_Dealingwithdeath-copy-2048x1152.jpg 2048w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/10/still2_Dealingwithdeath-copy-1200x675.jpg 1200w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 1362px) 62vw, 840px" /><figcaption id="caption-attachment-23851" class="wp-caption-text">O documentário Lidando com a Morte é parte da Competição Novos Diretores da 45ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo (Foto: Witfilm)</figcaption></figure>
<p><b>Raquel Dutra</b><i><span style="font-weight: 400;"> </span></i></p>
<p><span style="font-weight: 400;">A morte deve ser o aspecto mais globalizado da experiência humana no planeta Terra. Universalmente particular, a única certeza da vida é sujeita à forma como nos estabelecemos no mundo antes dela, originando questões culturais, familiares, sociais, e também econômicas. O paradoxo se intensifica quando ela chega: seja no Oriente ou no Ocidente, no hemisfério norte ou no sul, todos vivenciam <a href="https://revistas.ufpr.br/clio/article/download/40217/24580">uma mesma situação à sua própria maneira</a>. E essa é a única conclusão de </span><i><span style="font-weight: 400;">Lidando com a Morte</span></i><span style="font-weight: 400;">, um dos primeiros documentários exibidos nas cabines de imprensa da 45ª</span><a href="http://personaunesp.com.br/tag/mostra-internacional-de-cinema-em-sao-paulo/"><span style="font-weight: 400;"> Mostra Internacional</span></a><span style="font-weight: 400;"> de Cinema em São Paulo.</span></p>
<p><span id="more-23850"></span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">O filme holandês elege como personagem principal <a href="https://www.otempo.com.br/turismo/conheca-pijp-bairro-multicultural-e-efervescente-em-amsterda-1.2071072">a sociedade multicultural</a> de Amsterdã de um lado, e uma agente funerária de outro. A primeira é composta por grupos hindus, muçulmanos e ganeses, e a segunda é Anita Van Loon, funcionária responsável por um empreendimento ambicioso da empresa em que trabalha, que almeja construir o primeiro centro funerário multicultural da Holanda. A partir destes elementos, </span><i><span style="font-weight: 400;">Dealing with Death</span></i><span style="font-weight: 400;"> acompanha a jornada longa que suas figuras principais desbravaram ao longo de 7 anos em busca da conciliação entre a população de uma cidade de diversidade efervescente e o interesse financeiro dos representantes de um <a href="https://periodicos.ufsc.br/index.php/cadernosdepesquisa/article/download/1201/4444/15895">capitalismo uniformizador</a>.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">A direção de <a href="https://www.paulrigter.nl/">Paul Sin Nam Rigter</a> e a montagem de Noud Holtman entregam o contraste da história desde o início. Aos primeiros minutos de </span><i><span style="font-weight: 400;">Lidando com a Morte</span></i><span style="font-weight: 400;">, o documentário acompanha a preparação para um rito religioso de luto, realizado por pessoas que estão em estado profundo de lamentação. Então, de forma abrupta, o filme nos coloca dentro da funerária, onde Anita recepciona a câmera de forma solícita e gentil. </span></p>
<figure id="attachment_23852" aria-describedby="caption-attachment-23852" style="width: 2560px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-full wp-image-23852" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/10/still1_Dealingwithdeath-copy-scaled.jpg" alt="Cena do documentário Lidando com a Morte." width="2560" height="1440" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/10/still1_Dealingwithdeath-copy-scaled.jpg 2560w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/10/still1_Dealingwithdeath-copy-800x450.jpg 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/10/still1_Dealingwithdeath-copy-1024x576.jpg 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/10/still1_Dealingwithdeath-copy-768x432.jpg 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/10/still1_Dealingwithdeath-copy-1536x864.jpg 1536w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/10/still1_Dealingwithdeath-copy-2048x1152.jpg 2048w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/10/still1_Dealingwithdeath-copy-1200x675.jpg 1200w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 1362px) 62vw, 840px" /><figcaption id="caption-attachment-23852" class="wp-caption-text">O filme foi premiado como Melhor Documentário Holandês no IDFA 2020, o Festival Internacional de Documentários de Amsterdã (Foto: Witfilm)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">Ali, aliás, é onde o filme vai permanecer por um tempo, acompanhando o dia a dia de Anita no planejamento do novo projeto &#8211; e ainda não é do nosso conhecimento, mas ele tem tudo a ver com a cena que toma o prelúdio de </span><i><span style="font-weight: 400;">Lidando com a Morte</span></i><span style="font-weight: 400;">. Não demora para conhecermos parte do processo e entendermos assim quais são os objetivos de cada instância retratada no filme, já que alguns minutos depois de percorrer a empresa atrás da funcionária, somos colocados junto de Van Loon num encontro com um grupo de representantes religiosos e demais membros da empresa para discutir sobre seus <a href="https://centralsantacasa.com.br/funerais-em-diferentes-culturas/">processos funerários</a>.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">A roda de conversa composta por empresários brancos e representantes religiosos não-brancos faz com que os próximos 74 minutos pareçam óbvios para todos, menos para Anita. A funcionária se envolve com a ideia romântica do projeto de abarcar a diversidade cultural da cidade e com o processo de pesquisa para a sua realização, que inclui visitas amistosas aos centros religiosos para entender como cada <a href="https://history.uol.com.br/historia-geral/assim-e-morte-de-acordo-com-diferentes-culturas">cultura se comporta diante da morte</a> e compreender suas necessidades no que diz respeito a viver este momento como imigrantes em Amsterdã. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Entre as negociações do empreendimento e a pesquisa de campo de Anita, a narrativa de </span><i><span style="font-weight: 400;">Lidando com a Morte</span></i><span style="font-weight: 400;"> não encontra nenhuma constância. O único fio parece ser a morte, que por sua vez, é sempre é um assunto presente mas nunca o ponto principal. Essa construção cria um clima de espera pelo momento em que a razão de tudo ali irá assumir o protagonismo do filme. E quando ele vem, trabalha apenas para reforçar <a href="https://www.gazetadopovo.com.br/viver-bem/comportamento/como-diferentes-culturas-vivenciam-a-morte-e-o-luto/">as diferenças</a> que existem entre os aspectos abordados pelo documentário, que se destacam no paralelo síncrono que o filme constrói entre um rito fúnebre do povo ganês local e o velório do próprio pai de Anita.</span></p>
<figure id="attachment_23853" aria-describedby="caption-attachment-23853" style="width: 2560px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-full wp-image-23853" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/10/still4_Dealingwithdeath-copy-scaled.jpg" alt="Cena do documentário Lidando com a Morte" width="2560" height="1072" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/10/still4_Dealingwithdeath-copy-scaled.jpg 2560w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/10/still4_Dealingwithdeath-copy-800x335.jpg 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/10/still4_Dealingwithdeath-copy-1024x429.jpg 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/10/still4_Dealingwithdeath-copy-768x322.jpg 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/10/still4_Dealingwithdeath-copy-1536x643.jpg 1536w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/10/still4_Dealingwithdeath-copy-2048x858.jpg 2048w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/10/still4_Dealingwithdeath-copy-1200x503.jpg 1200w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 1362px) 62vw, 840px" /><figcaption id="caption-attachment-23853" class="wp-caption-text">Lidando com a morte é o primeiro documentário em longa-metragem do cineasta coreano-holandês Paul Sin Nam Rigter (Foto: Witfilm)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">Primeiro, </span><i><span style="font-weight: 400;">Lidando com a Morte</span></i><span style="font-weight: 400;"> se coloca na companhia de quem <a href="https://personaunesp.com.br/a-caminho-da-lua-critica/">sente o luto</a> e processa a morte com tudo o que tem direito, capturando desabafos doloridos de quem acredita que o ente querido está em um lugar melhor, mas que também entende como ninguém a dimensão da sua ausência. Compreendendo a profundidade do rito e seus significados culturais e simbólicos, o documentário também sabe registrar os ritos que surgem a partir da morte como símbolos de florescimento cultural em solo estrangeiro, de <a href="https://personaunesp.com.br/minari-critica/">manutenção das raízes</a> longe de casa e de conexão com seus similares.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Depois, chega o momento de Anita, de fato, <a href="https://personaunesp.com.br/a-ghost-story-critica/">lidar com a morte</a>. E este também é o momento em que o documentário cria seu valor em significado. O pai da protagonista do filme se foi, depois que ela se envolve com os processos fúnebres das outras culturas e planeja de forma descomplicada o dia com o próprio em vida. Enquanto ela reflete sobre o que o luto do pai significou para ela, a personagem também enfrenta outro fim: o do projeto onde ela depositou tanta dedicação. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">O final é como o já calculado: a empresa não enxergava o mesmo valor no centro funerário multicultural e muito menos conservava apreço pelo trabalho de Anita, que ia na direção oposta à que os interesses financeiros apontavam. Na inauguração do projeto que levou sete anos e muito envolvimento emocional para ser desenvolvido, ela não está lá. Assim é que as inconstâncias de </span><i><span style="font-weight: 400;">Lidando com a Morte</span></i><span style="font-weight: 400;"> se entrelaçam no final ao mostrar que <a href="https://aodisseia.com/lidando-com-a-morte-critica/">não existe conciliação em diferentes interesses</a>. O sistema econômico que rege quase todo o mundo não consegue lidar com as particularidades de cada um, e assim, a máquina imparável do capitalismo só pode continuar se for de maneira uniforme. Essa deve ser a face mais universal da morte. E temos de lidar com ela.</span></p>
<div class="jetpack-video-wrapper"><iframe loading="lazy" title="trailer Dealing with Death" src="https://player.vimeo.com/video/445598270?dnt=1&amp;app_id=122963" width="840" height="352" frameborder="0" allow="autoplay; fullscreen; picture-in-picture; clipboard-write"></iframe></div>
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		<title>Arlequina e as Aves de Rapina em: o feminismo liberal</title>
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		<pubDate>Tue, 24 Mar 2020 22:30:08 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p>Como a luta das mulheres mascara o caráter mercadológico das produções O colorido mosaico de Aves de Rapina explode em tela a loucura e extravagância de suas personagens (Foto: Warner Bros.)  Julia Paes de Arruda Empresas como Avon, O Boticário e Marisa têm as mulheres como seu público-alvo. Recentemente, elas vêm integrando o movimento feminista &#8230; <a href="http://personaunesp.com.br/aves-de-rapina-critica/" class="more-link">Continue lendo<span class="screen-reader-text"> "Arlequina e as Aves de Rapina em: o feminismo liberal"</span></a></p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<p class="wp-block-paragraph" style="text-align: right;"><em>Como a luta das mulheres mascara o caráter mercadológico das produções</em></p>



<figure class="wp-block-image size-large"><img loading="lazy" decoding="async" width="1024" height="576" class="wp-image-13660" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2020/03/foto-1-1024x576.jpeg" alt="" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2020/03/foto-1-1024x576.jpeg 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2020/03/foto-1-300x169.jpeg 300w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2020/03/foto-1-768x432.jpeg 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2020/03/foto-1-1536x864.jpeg 1536w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2020/03/foto-1-1200x675.jpeg 1200w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2020/03/foto-1.jpeg 1920w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 1362px) 62vw, 840px" /></figure>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size: 12px;"><em>O colorido mosaico de Aves de Rapina explode em tela a loucura e extravagância de suas personagens (Foto: Warner Bros.) </em></p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>Julia Paes de Arruda </strong></p>



<p class="wp-block-paragraph">Empresas como <em>Avon</em>, <em><a href="https://www.youtube.com/watch?v=mBjRYtN0YNo">O Boticário</a></em> e <em>Marisa</em> têm as mulheres como seu público-alvo. Recentemente, elas vêm integrando o movimento feminista aos seus produtos. O exemplo clássico é a adesão de um <em>girlpower </em>nas camisetas. Porém, isso não fica restrito à beleza e vestuário. O Cinema também acompanha essa onda. Não é à toa que <em>Aves de Rapina: Arlequina e sua Emancipação Fantabulosa</em>, a nova produção da <em><a href="https://personaunesp.com.br/aquaman-critica/">DC Studios</a>,</em> ganhou esse título. </p>



<p><span id="more-13659"></span></p>



<p class="wp-block-paragraph">Após estrelar em <a href="https://personaunesp.com.br/esquadrao-suicida-machismo-super-vilao/"><em>Esquadrão Suicida</em></a> (2016), de David Ayer, ao lado de Will Smith e Jared Leto, Arlequina (Margot Robbie) ganha seu primeiro filme <em>solo</em>. A escolhida para a direção foi Cathy Yan. De origem chinesa, ela tem no currículo o longa <a href="https://variety.com/2018/film/reviews/dead-pigs-review-1202675664/"><em>Dead Pigs</em></a> (2018) e o curta <a href="http://www.accordingtomymother.com/team"><em>According To My Mother</em></a> (2016). Seu novo trabalho conta a trajetória da então vilã, depois do término de seu relacionamento com o Coringa. Agora, Arlequina precisa enfrentar seus inimigos sozinha, vivendo às escondidas de todos à sua volta na companhia de Bruce, sua hiena de estimação. </p>



<p class="wp-block-paragraph">Simultaneamente à história da anti-heroína, conhecemos o percurso da jovem ladra Cassandra Cain (Ella Jay Basco). A cidade inteira está em busca da garota pois a pequena carrega um precioso diamante do vilão Máscara Negra (Ewan McGregor). É nesse momento que os caminhos de Arlequina, Caçadora (Mary Elizabeth Winstead), Canário Negro (<a href="https://personaunesp.com.br/lovecraft-country-critica/">Jurnee Smollett-Bell</a>) e Renee Montoya (Rosie Perez) se cruzam. Sem muita escolha, elas se unem para que possam agir em defesa de Cain.</p>



<figure class="wp-block-image size-large"><img loading="lazy" decoding="async" width="1024" height="576" class="wp-image-13661" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2020/03/foto-2-1024x576.png" alt="" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2020/03/foto-2-1024x576.png 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2020/03/foto-2-300x169.png 300w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2020/03/foto-2-768x432.png 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2020/03/foto-2.png 1200w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 1362px) 62vw, 840px" /></figure>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size: 12px;"><em>Seria muita coincidência o nome da hiena ser o mesmo que a verdadeira identidade do Cavaleiro das Trevas? (Foto: Warner Bros.)</em></p>



<p class="wp-block-paragraph">O primeiro passo da emancipação, além do corte de cabelo, é a mudança de traje. No filme anterior, a anti-heroína usava uma camiseta com os escritos &#8220;<em>Daddy’s Lil Monster&#8221;,</em> referência clara ao seu relacionamento com o Palhaço do Crime. Como a própria protagonista diz, a profissão de <a href="https://escola.britannica.com.br/artigo/Arlequim/483079">arlequim</a> é seguir um mestre: no seu caso, o Coringa. Já no de Yan, seu traje apresenta o nome de seu alter ego: Harley Quinn. Um detalhe pequeno mas significante, já que a partir daí Arlequina começa contar sua história com seus próprios passos. Seu empoderamento individual, porém, não é reflexo do que acontece na realidade. </p>



<p class="wp-block-paragraph">O movimento feminista é <a href="http://www.marchamundialdasmulheres.org.br/desafio-de-organizacao-de-feminismo-anticapitalista-e-discutido-pela-marcha-mundial-das-mulheres/">antissistêmico</a> e se baseia na luta contra as opressões sofridas pelas mulheres e pela igualdade de gênero. O auge no Brasil começou a partir com o movimento <a href="https://epoca.globo.com/vida/noticia/2015/11/primavera-das-mulheres.html">Primavera das Mulheres</a>, em 2015, seguido da criação da campanha <em><a href="https://revistaforum.com.br/noticias/em-campanha-no-twitter-mulheres-relatam-primeiros-casos-de-assedio-que-sofreram/">#Meu</a><a href="https://revistaforum.com.br/noticias/em-campanha-no-twitter-mulheres-relatam-primeiros-casos-de-assedio-que-sofreram/">PrimeiroAssédio</a></em>, que se deu após o episódio do <em>Masterchef </em>envolvendo a menina Valentina, além do movimento <a href="https://brasil.elpais.com/brasil/2015/11/25/politica/1448451683_866934.html">#<em>MeuAmigoSecreto</em></a>, que mostrava casos de machismo no cotidiano das mulheres. </p>



<p class="wp-block-paragraph">Com o aumento do público e de interesse pelo tema, falar sobre emancipação e direito das mulheres se tornou algo lucrativo. O primeiro indício do feminismo mercadológico surgiu em 2014, quando as marcas <em>Whistles</em> e <em>Fawcett Foundation</em> criaram uma camiseta com os dizeres <em>“This is what a feminist looks like”</em>. Muitas celebridades começaram a aderir e todo o dinheiro seria usado para caridade. A grande ironia é que as roupas eram produzidas por mulheres em situação análogas à escravidão. </p>



<figure class="wp-block-image size-large"><img loading="lazy" decoding="async" width="1024" height="615" class="wp-image-13662" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2020/03/foto-3-1024x615.jpg" alt="" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2020/03/foto-3-1024x615.jpg 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2020/03/foto-3-300x180.jpg 300w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2020/03/foto-3-768x461.jpg 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2020/03/foto-3-1536x923.jpg 1536w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2020/03/foto-3-1200x721.jpg 1200w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2020/03/foto-3.jpg 1908w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 1362px) 62vw, 840px" /></figure>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size: 12px;"><em>As peças eram produzidas por mulheres das Ilhas Maurício, no Oceano Índico (Foto: Reprodução) </em></p>



<p class="wp-block-paragraph">Dali em diante, mais marcas foram surgindo com essa proposta de “feminismo”.  A questão é que esse discurso, apesar de parecer inovador, só mascara o que realmente está intrínseco na sociedade e esvazia de sentido o movimento em si. De volta às <em>Aves de Rapina</em>, temos a personagem da <a href="https://olhardigital.com.br/2021/08/23/cinema-e-streaming/jurnee-smollett-volta-como-canario-negro-em-filme-da-heroina/">Canário Negro</a>. Aos olhos do telespectador, ela é uma mulher cheia de si e independente. Porém, Dinah vive como prisioneira do Máscara Negra, realizando todos os seus desejos. Uma clara visão distorcida do que é ser empoderada. </p>



<p class="wp-block-paragraph">Pouco se é debatido sobre as outras personagens. <a href="https://personaunesp.com.br/the-flight-attendant-critica/">Renee Montoya</a> é quem mais sai prejudicada. E, querendo ou não, ela é o exemplo mais concreto do que se pode encontrar na nossa realidade: mulher, lésbica e policial. Além disso, a detetive não é levada a sério por seus colegas de trabalho, ainda mais depois que seu parceiro foi promovido a tenente no seu lugar. Muitas vezes, ela é taxada de “ciumenta” e invejosa por causa disso e seus pressentimentos não levados em conta nas investigações. </p>



<p class="wp-block-paragraph">O personagem de Ewan McGregor é outro que não ganha aprofundamento. As informações dadas sobre o vilão são sobre o olhar de Arlequina, porém as imagens complementam o que não é exposto por palavras. Independente disso, a atuação de McGregor é surpreendente. Não há como discordar de que suas expressões fizeram que o vilão não caísse no esquecimento. Ele se mostra muito à vontade nas cenas, dando vida ao papel que lhe foi designado.</p>



<figure class="wp-block-image size-large is-resized"><img loading="lazy" decoding="async" class="alignnone wp-image-13663" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2020/03/foto-4.gif" alt="" width="800" height="340" /></figure>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size: 12px;"><em>Na ausência do Coringa, Máscara Negra é o grande nêmesis de Harley (GIF: Warner Bros) </em></p>



<p class="wp-block-paragraph">O jogo de câmeras de Yan foi essencial para a construção da narrativa. Em contrapartida a <em>Esquadrão Suicida</em>, o olhar da diretora favorece a luta e a ação das personagens em detrimento da sua sensualidade. Não dá pra esquecer a cena bizarra do primeiro filme, a qual Arlequina começa a trocar de roupa em meio a muitos homens. Tirando o fato de que, enquanto ela troca de roupa, a câmera de Ayer caminha pelo corpo de Margot Robbie.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Esse tipo de situação foi semelhante em outro filme da <em><a href="https://personaunesp.com.br/shazam-critica/">DC Studios</a></em>. Em 2017, <a href="https://personaunesp.com.br/critica-mulher-maravilha/"><em>Mulher-Maravilha</em></a> chegou contando a história de Diana Prince. É o primeiro filme com uma super-heroína como protagonista. Assim como em <em>Aves de Rapina</em>, a direção estava em mãos femininas, dessa vez nas de Patty Jenkins (<em>Monster: Desejo Assassino</em>). No mesmo ano, Diana teve sua participação em <a href="https://personaunesp.com.br/liga-da-justica-carece-de-tracos-autorais-e-cai-no-ordinario/"><em>Liga da Justiça</em></a>, mas desta vez retratada pelo <a href="https://medium.com/qg-feminista/olhar-masculino-como-a-m%C3%ADdia-monta-uma-mulher-para-o-p%C3%BAblico-a53091897f49">olhar masculino</a> de Zack Snyder e Joss Whedon. A <a href="https://cdn.ome.lt/Exx9SBaPHRPNkoUMuncYCCuE4Bw=/fit-in/837x500/smart/uploads/conteudo/fotos/mulher_comparacao_2.jpg">diferença</a> entre os dois é nítida. </p>



<p class="wp-block-paragraph">A representatividade é tão importante que não só abrange o contexto do filme. Ter um olhar feminino é ótimo não só para a direção, mas também para as outras áreas da criação. No caso de <em>Aves de Rapina: Arlequina e sua Emancipação Fantabulosa</em>, a grande maioria dos encarregados eram mulheres. Margot Robbie, inclusive, também atuou como produtora. Quanto mais profissionais femininas estiveram envolvidas, menos do olhar masculino será visto.</p>



<figure class="wp-block-image size-large is-resized"><img loading="lazy" decoding="async" class="alignnone wp-image-13664" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2020/03/foto-5.gif" alt="" width="800" height="326" /></figure>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size: 12px;"><em>Mesmo a produção sendo de maior parte feminina, a direção de fotografia é de Matthew Libatique, de Cisne Negro e Nasce uma Estrela (GIF: Warner Bros)</em></p>



<p class="wp-block-paragraph">O ponto central do enredo de <em>Aves de Rapina: Arlequina e sua Emancipação Fantabulosa</em> é a quebra do paradigma da competição. Todas as personagens se unem e trabalham juntas contra seu inimigo em comum, deixando para trás qualquer tipo de desavença ou preconceito umas das outras. O trabalho em equipe ressalta ainda mais o contexto da sororidade. E, independente do resultado do confronto final, elas já saem vitoriosas. </p>



<p class="wp-block-paragraph">Mesmo com o filme passando uma imagem de feminista, sua principal função é gerar lucro. Nesse contexto, o discurso da vida real deve ser uma exposição de que os preceitos vinculado à mulheres são ultrapassados e inaplicáveis hoje em dia. O interesse pelo feminismo é cada vez maior. Por isso, não há como deixar que ele acabe se tornando uma arma do capitalismo para deslegitimar o movimento. </p>



<p class="wp-block-paragraph">É interessante que mais filmes abordem essa temática. Porém, não devemos nos satisfazer na lógica de mercado que nos é apresentado. O feminismo de verdade acontece nas ruas, nas conversas e nas nossas atitudes. Vivenciá-lo na prática e observá-lo em diferentes campos de visão é defender a sororidade. Só assim nossa emancipação, como em <em>Aves de Rapina</em>, será fantabulosa. </p>
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