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	<title>Arquivos Aly Muritiba &#8211; Persona | Jornalismo Cultural</title>
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	<description>Desde 2015 provando que a distância entre Bergman, Lady Gaga e a novela das 9 nem existe.</description>
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		<title>Cangaço Novo é um faroeste brasileiro que exalta o sertão e critica o banditismo social</title>
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		<pubDate>Wed, 20 Dec 2023 14:53:02 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p>Gabriel Gomes Santana “Eu não sei porque cheguei, mas sei tudo quanto fiz, maltratei, fui maltratado, não fui bom, não fui feliz, não fiz tudo quanto falam, não sou o que o povo diz”. Estas poucas palavras poderiam fazer parte de uma das falas do personagem Ubaldo, interpretado pelo ator Allan Souza Lima, o protagonista &#8230; <a href="http://personaunesp.com.br/cangaco-novo-critica/" class="more-link">Continue lendo<span class="screen-reader-text"> "Cangaço Novo é um faroeste brasileiro que exalta o sertão e critica o banditismo social"</span></a></p>
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										<content:encoded><![CDATA[<figure id="attachment_32372" aria-describedby="caption-attachment-32372" style="width: 512px" class="wp-caption alignnone"><img fetchpriority="high" decoding="async" class="size-full wp-image-32372" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/12/unnamed-3-1.png" alt="Cena da série em que aparecem os personagens Ubaldo (Allan Lima) e Ernesto (Ricardo Blat). Na imagem é possível ver ambos se encarando em um momento de tensão. Ubaldo (protagonista da trama) é um rapaz jovem, na casa de seus 30 anos de idade, branco, alto, careca e magro, que aparenta estar suado, com a cara suja. Nesta cena, Ubaldo aparece olhando séria e fixamente para Ernesto. Este por sua vez é um senhor de idade, mais baixo que Ubaldo, branco e barbudo, grisalho e calvo,  na casa de seus 70 anos, e retribui o olhar sério e fixo voltado para os olhos de seu filho, Ubaldo. Ambos parecem estar dentro de uma casa, numa sala de estar se encarando." width="512" height="384" /><figcaption id="caption-attachment-32372" class="wp-caption-text"><br />“Viver pouco como rei ou muito como um zé?” Esse é o dilema vivido pelo protagonista Ubaldo que, a princípio, não têm dimensão do tamanho de sua responsabilidade (Foto: Amazon Prime Video)</figcaption></figure>
<p>Gabriel Gomes Santana</p>
<p><span style="font-weight: 400;">“</span><i><span style="font-weight: 400;">Eu não sei porque cheguei, mas sei tudo quanto fiz, maltratei, fui maltratado, não fui bom, não fui feliz, não fiz tudo quanto falam, não sou o que o povo diz</span></i><span style="font-weight: 400;">”. Estas poucas palavras poderiam fazer parte de uma das falas do personagem Ubaldo, interpretado pelo ator </span><a href="https://www.atribuna.com.br/variedades/domingo-mais/talento-multiplo-o-ator-produtor-e-diretor-allan-souza-lima-fala-de-sua-carreira"><span style="font-weight: 400;">Allan Souza Lima</span></a><span style="font-weight: 400;">, o protagonista da série de sucesso da </span><i><span style="font-weight: 400;">Amazon Prime, Cangaço Novo</span></i><span style="font-weight: 400;">. Na realidade, fazem parte da primeira estrofe da canção “</span><i><span style="font-weight: 400;">Lampião Falou</span></i><span style="font-weight: 400;">”, de autoria emblemática de ninguém menos do que o </span><a href="https://www.une.org.br/2013/01/as-similaridades-entre-lampiao-e-gonzagao/"><span style="font-weight: 400;">Rei do Baião</span></a><span style="font-weight: 400;">, Luiz Gonzaga. E é no embalo destes três pernambucanos porretas que é possível entender o porquê do sucesso de uma das produções mais contagiantes do </span><i><span style="font-weight: 400;">streaming</span></i><span style="font-weight: 400;">.</span></p>
<p><span id="more-32368"></span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Lançada em 2023, </span><i><span style="font-weight: 400;">Cangaço Novo </span></i><span style="font-weight: 400;">mistura o que há de melhor do gênero nordestern, um modelo de sucesso em obras que retratam o semiárido nordestino, sobretudo pela representação de um ‘faroeste brazuca’, ou até mesmo pela inspiração da figura icônica do próprio Rei do Cangaço, o Lampião. Ainda que a ficção seja apenas um roteiro adaptado da realidade, a </span><a href="https://www.youtube.com/watch?v=1QUkwxUR4Uw"><span style="font-weight: 400;">produção cinematográfica</span></a><span style="font-weight: 400;"> dirigida por Fábio Mendonça e Aly Muritiba exala a essência do que realmente acontece nas histórias do sertão.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">O título por si só já diz muito sobre a trama. Ele faz alusão às </span><a href="https://www.cnnbrasil.com.br/nacional/o-que-sao-e-como-operam-as-quadrilhas-do-chamado-novo-cangaco/"><span style="font-weight: 400;">práticas de banditismo social </span></a><span style="font-weight: 400;">empregadas nos tempos atuais pelas quadrilhas que assaltam agências bancárias em diversos municípios nordestinos. Na realidade, muito do que acontece hoje em dia, nada mais é do que uma adaptação do </span><i><span style="font-weight: 400;">modus operandi</span></i><span style="font-weight: 400;"> utilizado por </span><a href="https://www.youtube.com/watch?v=DuUH4sWYfk4&amp;themeRefresh=1"><span style="font-weight: 400;">Virgulino Ferreira</span></a><span style="font-weight: 400;"> e seu bando nas décadas de 1920 e 1930. Foi pensando em um enredo carregado de dramaticidade, ação e reviravoltas que os roteiristas Eduardo Melo e Mariana Bardan acabaram trazendo o melhor dos dois mundos: tradição e contemporaneidade.</span></p>
<figure id="attachment_32370" aria-describedby="caption-attachment-32370" style="width: 512px" class="wp-caption alignnone"><img decoding="async" class="size-full wp-image-32370" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/12/unnamed-2-1.png" alt="Cena do seriado em que os membros da quadrilha posam com armas e olham fixamente em direção ao centro da camêra. Na imagem é possível observar oito homens que estão de pé, enfileirados lateralmente e, ao que tudo indica, em um terreno com uma construção antiga/abandonada, com paredes vazadas. Ao fundo, é possível ver a paisagem do local, típica dos arbustos e vegetações do semiárido nordestino. Dos oito homens que aparecem, cinco deles exibem armas, alguns deles em punho e outros com ela na linha da cintura. A maioria dos homens são rapazes da faixa etária de 30 a 40 anos de idade, com exceção de um senhor mais velho, negro, que aparenta ter seus 50 anos e aparece um passo à frente dos demais." width="512" height="384" /><figcaption id="caption-attachment-32370" class="wp-caption-text">A escolha de um elenco majoritariamente nordestino faz toda a diferença na ambientação e execução das filmagens da série (Foto: Amazon Prime Video)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">Em uma temporada composta por oito capítulos, o seriado retrata a vida de Ubaldo Vaqueiro. Na trama, o protagonista se encontra em uma péssima situação financeira, tendo que cuidar de seu ‘pai’ Ernesto, que está hospitalizado. Desesperado por ter perdido o emprego como bancário, o rapaz tenta solucionar sua vida e a situação do pai indo de encontro com suas raízes no sertão. Ocorre que ele é adotado e está ciente de que seus parentes, assim como o início de sua biografia, estão vivos e residem no município fictício de Cratará (na série, localizado no interior do Ceará). Desta maneira, caberá ao jovem lidar com os fantasmas de seu passado e tentar adquirir o que é seu por direito.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">A fim de vender alguns terrenos que estão no nome de seu pai biológico, Ubaldo acaba entrando em uma sucessão de enrascadas, tendo conflitos não apenas com suas irmãs </span><a href="https://www.youtube.com/watch?v=WrWkEPEw8zU"><span style="font-weight: 400;">Dinorah</span></a><span style="font-weight: 400;"> (Alice Carvalho) e </span><a href="https://oglobo.globo.com/play/series/noticia/2023/09/01/thaina-duarte-fara-maria-bonita-serie-do-star-com-isis-valverde.ghtml"><span style="font-weight: 400;">Dilvânia</span></a><span style="font-weight: 400;"> (Thainá Duarte), como também com os traumas de sua herança genética. Sabe aquele ditado que diz que a fruta não cai longe do pé? O </span><i><span style="font-weight: 400;">plot</span></i><span style="font-weight: 400;"> que dá clímax à narrativa acontece devido a essa metáfora popular que, neste contexto, faz total sentido.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Bombardeada por reviravoltas, violências, desigualdades e romances proibidos, a série transborda brasilidades e assuntos que traduzem bastante as mazelas de um </span><a href="https://www.researchgate.net/publication/276040516_Familias_desagregadas_sobre_a_terra_ressequida_Industria_da_seca_e_deslocamentos_familiares_no_Nordesde_do_Brasil"><span style="font-weight: 400;">povo marginalizado</span></a><span style="font-weight: 400;"> e carente (em todos os sentidos da palavra). Nesse sentido, as temáticas principais abordadas ao longo dos episódios não conseguem fugir de problemáticas sociais profundas e que, infelizmente, ainda fazem parte do cotidiano de muitos sertanejos, tais como: seca, matanças, escassez de recursos hídricos, violência, estupro, machismo, feminicídio, dentre outras questões lamentáveis presentes em outras regiões do país.</span></p>
<figure id="attachment_32369" aria-describedby="caption-attachment-32369" style="width: 512px" class="wp-caption alignnone"><img decoding="async" class="size-full wp-image-32369" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/12/unnamed-1-1-1.png" alt="Cena do seriado em que aparecem as personagens Ziza (Marcélia Cartaxo) e Leinneane (Hermila Guedes) em cima de um palanque no centro da cidade de Cratará. Na cena, a personagem Ziza segura um microfone e discursa em alto som para os espectadores (público figurante) que aparecem em primeiro plano, de costas para a câmera central e em um plano inferior. Ziza é uma mulher que aparenta ter uns 60 anos de idade, equanto Leinneane é uma mulher mais jovem, na casa de seus 30 e poucos anos. Ambas são pessoas brancas, com a diferensa que Leinneane é mais alta e mais jovem que Ziza. À direita de Leinneane há um cartaz escrito “SOS CRATARPA CONTRA O LEILÃO”." width="512" height="341" /><figcaption id="caption-attachment-32369" class="wp-caption-text">Quando o Estado é omisso, a única saída que há é a da mobilização popular (Foto: Amazon Prime Video)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">Embora tenha aspectos por vezes estereotipados, </span><i><span style="font-weight: 400;">Cangaço Novo </span></i><span style="font-weight: 400;">está, assim como </span><i><span style="font-weight: 400;">Bacurau</span></i><span style="font-weight: 400;">, na prateleira de obras que conseguem expor muito do que acontece nos bastidores de um </span><a href="https://www.migalhas.com.br/depeso/368270/intolerancia-contra-nordestinos-possiveis-causas-e-origem"><span style="font-weight: 400;">Brasil isolado</span></a><span style="font-weight: 400;"> e esquecido pelas grandes metrópoles, e, ao mesmo tempo, é sequestrado pela soberania de tiranos e oligarcas. </span><a href="https://aventurasnahistoria.uol.com.br/noticias/almanaque/o-curioso-dia-em-que-padre-cicero-encontrou-lampiao-que-foi-enganado.phtml"><span style="font-weight: 400;">Na contramão disso tudo</span></a><span style="font-weight: 400;">, há também um povo de fé, alegre e trabalhador, que mesmo com poucas perspectivas, tira proveito da maior força que existe ali: o coletivo. E é pensando na força da organização popular que a personagem Ziza, tia do protagonista errante, interpretada por Marcélia Cartaxo, se faz tão necessária.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">O apelo de Ubaldo e seus familiares esboça também a urgência de políticas de saneamento básico para a população do município e, ao mesmo tempo, conflita com os interesses particulares de uma pequena aristocracia rural detentora dos poderes financeiros e políticos da região. Em meio às aflições vividas pelo povo, Cratará vive sob a ausência de direitos coletivos, ao mesmo tempo em que contrasta com benefícios escusos e ações proselitistas, marcadas pelo coronelismo regional que ainda assola os diferentes sertões do país. À margem disso tudo, a ação dos anti-heróis cangaceiros é provocante e instiga ainda mais os espectadores. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Se engana quem pensa à primeira vista que a trama se trata de uma exaltação ao </span><a href="https://www.scielo.br/j/his/a/rJNDV4h9LfYRLfh4Q5RPH8y/"><span style="font-weight: 400;">banditismo social</span></a><span style="font-weight: 400;">. Na realidade, talvez este fenômeno seja trazido à tona uma das principais críticas negativas apontadas pelos </span><a href="https://www.youtube.com/watch?v=sHU1nFeeDhA"><span style="font-weight: 400;">idealizadores do seriado</span></a><span style="font-weight: 400;">. Basicamente, podemos dividi-lo em três partes: o resgate ao passado, a dureza do presente e as dificuldades de ter que lidar com um futuro incerto. Talvez estes sejam os emblemas que mais norteiam a trajetória do protagonista que, mesmo sem querer, jamais conseguiu se desvencilhar dos traumas vividos desde a infância.</span></p>
<figure id="attachment_32371" aria-describedby="caption-attachment-32371" style="width: 512px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-full wp-image-32371" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/12/unnamed-1-4.png" alt="A foto acima exibe duas mulheres agachadas, uma de frente para a outra. Pelo lado direito da imagem temos Dinorah, uma mulher parda, que aparece de cócoras, quase ajoelhada, pedindo perdão para a senhora que aparece à sua frente. Dinorah é uma jovem que aparenta ter entre 27 a 30 anos de idade. Ela aparece segurando as mãos de uma senhora (lado esquerdo) que usa vestes típicas de Maria Bonita e outros cangaceiros do início do século XX." width="512" height="341" /><figcaption id="caption-attachment-32371" class="wp-caption-text">A súplica de Dinorah é o retrato desesperado dos cavaleiros errantes do sertão (Foto: Amazon Prime Video)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">“</span><i><span style="font-weight: 400;">O sertanejo é, antes de tudo, um forte</span></i><span style="font-weight: 400;">”, prega a frase do eterno Euclides da Cunha em seu grande livro-reportagem sobre Canudos, traduzindo um emblema que se encaixa perfeitamente na situação da série. </span><i><span style="font-weight: 400;">Cangaço Novo</span></i><span style="font-weight: 400;">,</span> <span style="font-weight: 400;">assim como </span><a href="https://www.todamateria.com.br/os-sertoes-de-euclides-da-cunha/"><i><span style="font-weight: 400;">Os Sertões</span></i></a><span style="font-weight: 400;">,</span> <span style="font-weight: 400;">é uma produção voltada para os fortes. Tem que ter curiosidade e estômago para aguentar as cenas que não são nada fáceis de assistir. Da mesma forma, fortes são os indivíduos ali retratados, formados em sua maioria por sertanejos que exaltam um enredo intenso, bruto, severo e espinhoso, tal qual o cenário que dá vida a ele. Seja pelos absurdos vividos pelos personagens, como também pelo apego sentimental atribuído a estes.  </span></p>
<p>&nbsp;</p>
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		<title>Persona Entrevista: Daniel Galera</title>
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		<pubDate>Tue, 13 Sep 2022 20:33:28 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p>O escritor, tradutor e ensaísta fala sobre seu processo criativo, influências e os 10 anos do romance Barba ensopada de sangue, que está em adaptação para o Cinema e recebe uma edição comemorativa em 2022 Bruno Andrade  No final de Maio – num frenesi esquisito que faz parecer distante esses quatro meses –, me reuni &#8230; <a href="http://personaunesp.com.br/entrevista-daniel-galera/" class="more-link">Continue lendo<span class="screen-reader-text"> "Persona Entrevista: Daniel Galera"</span></a></p>
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										<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: right;"><span style="font-weight: 400;"><i>O escritor, tradutor e ensaísta fala sobre seu processo criativo, influências e os 10 anos do romance Barba ensopada de sangue, que está em adaptação para o Cinema e recebe uma edição comemorativa em 2022</i></span></p>
<figure id="attachment_28717" aria-describedby="caption-attachment-28717" style="width: 1024px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-full wp-image-28717" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/09/daniel_galera_persona_entrevista_wordpress.jpg" alt="Arte quadrada de fundo vermelho. No lado esquerdo, foi adicionado o texto " width="1024" height="538" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/09/daniel_galera_persona_entrevista_wordpress.jpg 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/09/daniel_galera_persona_entrevista_wordpress-800x420.jpg 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/09/daniel_galera_persona_entrevista_wordpress-768x404.jpg 768w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 1362px) 62vw, 840px" /><figcaption id="caption-attachment-28717" class="wp-caption-text">“Minha carreira de escritor não foi exatamente uma coisa planejada desde cedo”, diz Daniel Galera (Foto: Marco Antonio Filho e Companhia das Letras/Arte: Henrique Marinhos)</figcaption></figure>
<p><b>Bruno Andrade </b></p>
<p><span style="font-weight: 400;">No final de Maio – num frenesi esquisito que faz parecer distante esses quatro meses –, me reuni virtualmente com </span><span style="font-weight: 400;"><a href="https://danielgalera.info/">Daniel Galera</a></span><span style="font-weight: 400;"> para bater um papo sobre sua trajetória literária e os 10 anos de lançamento de </span><span style="font-weight: 400;"><i>Barba ensopada de sangue</i></span><span style="font-weight: 400;">, romance que ganha uma </span><span style="font-weight: 400;"><a href="https://www.amazon.com.br/Barba-ensopada-sangue-Edi%C3%A7%C3%A3o-especial/dp/6559211282/ref=tmm_hrd_swatch_0?_encoding=UTF8&amp;qid=1663270910&amp;sr=8-22">edição especial comemorativa</a></span><span style="font-weight: 400;"> com lançamento previsto para 4 de Novembro de 2022. Vencedor do Prêmio Machado de Assis, duas vezes 3º colocado no Prêmio Jabuti e já publicado na prestigiosa revista </span><span style="font-weight: 400;"><i><a href="https://www.theparisreview.org/blog/2021/12/22/the-god-of-ferns/">The Paris Review</a></i></span><span style="font-weight: 400;">, Galera desponta como um dos grandes nomes da Literatura brasileira contemporânea, relacionado a uma “nova geração de escritores”, mesmo que “nova” já não seja bem a palavra que defina sua carreira. Escrevendo e publicando desde os anos 1990, o escritor paulistano radicado em Porto Alegre construiu um sólido percurso em torno da Literatura, e veio ao </span><b><a href="https://personaunesp.com.br/tag/persona-entrevista/">Persona Entrevista</a></b><span style="font-weight: 400;"> compartilhar suas experiências, visões de futuro e revelar mais sobre suas obras.</span></p>
<p><span id="more-28680"></span></p>
<p><span style="font-weight: 400;"><i><a href="https://www.companhiadasletras.com.br/livro/9788535921878/barba-ensopada-de-sangue">Barba ensopada de sangue</a></i></span><span style="font-weight: 400;"> narra a história de um protagonista sem nome – por vezes chamado de “nadador” –, um professor de Educação Física que, após o suicídio do pai, se muda para Garopaba, cidade litorânea de Santa Catarina. Esse personagem possui uma condição peculiar (porém existente além da ficção): não é capaz de memorizar rostos. Sob esse contexto, se esquece também de suas próprias feições, percebendo posteriormente que são similares à do seu avô, supostamente assassinado no passado, cujas circunstâncias do crime seguem obscurecidas. A verdade é que </span><span style="font-weight: 400;"><i>Barba</i></span><span style="font-weight: 400;"> é um livro distinto, potente ao revelar as diversas situações e condições que se somam para constituir a identidade dos indivíduos.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">A edição comemorativa do romance foi uma sugestão que o próprio autor fez à </span><span style="font-weight: 400;"><i>Companhia das Letras</i></span><span style="font-weight: 400;">. “</span><span style="font-weight: 400;"><i>Sugeri que a editora fizesse uma edição especial, que sai em Setembro</i></span><span style="font-weight: 400;">”, revela Galera. O livro já está em </span><span style="font-weight: 400;"><a href="https://www.companhiadasletras.com.br/livro/9786559211289/barba-ensopada-de-sangue-edicao-especial-de-10-anos">pré-venda</a></span><span style="font-weight: 400;"> no </span><span style="font-weight: 400;"><em>site</em></span><span style="font-weight: 400;"> da editora. Em Janeiro e Fevereiro o escritor ministrou um curso, promovido pela </span><span style="font-weight: 400;"><a href="https://www.matinaljornalismo.com.br/rogerlerina/literatura/livraria-baleia-promove-oficinas-com-daniel-galera-e-marilia-f-kosby/">Livraria Baleia</a></span><span style="font-weight: 400;">, no qual revisitou a obra em uma espécie de leitura guiada junto à companhia do autor. “</span><span style="font-weight: 400;"><i>Também foi uma releitura minha – a primeira vez que eu próprio reli o livro inteiro assim, atentamente, desde a época da publicação</i></span><span style="font-weight: 400;">”, diz. “</span><span style="font-weight: 400;"><i>Foi uma forma de revisitar o livro e perceber o que ele significa pra mim dez anos depois, ver o que eu penso sobre ele e compartilhar essa leitura com o grupo de participantes que se inscreveu. É um ano de comemoração desses dez anos</i></span><span style="font-weight: 400;">”, reflete. Após uma década, </span><span style="font-weight: 400;"><i>Barba ensopada de sangue </i></span><span style="font-weight: 400;">segue como referência na Literatura brasileira pós virada do milênio.</span></p>
<figure id="attachment_28682" aria-describedby="caption-attachment-28682" style="width: 686px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-large wp-image-28682" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/09/91S8JkvvEMS-686x1024.jpg" alt="Capa do livro Barba ensopada de sangue. Na imagem, há um fundo vermelho com pequenas manchas em cor branca, simulando fios de barba. À direita, está escrito “Barba ensopada de sangue” em fonte de cor branca. Abaixo, está o logo da editora Companhia das Letras, em fonte de cor branca, e à esquerda está escrito “Daniel Galera”, também em fonte de cor branca." width="686" height="1024" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/09/91S8JkvvEMS-686x1024.jpg 686w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/09/91S8JkvvEMS-536x800.jpg 536w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/09/91S8JkvvEMS-768x1147.jpg 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/09/91S8JkvvEMS-1029x1536.jpg 1029w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/09/91S8JkvvEMS-1371x2048.jpg 1371w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/09/91S8JkvvEMS-1200x1792.jpg 1200w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/09/91S8JkvvEMS.jpg 1664w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 984px) 61vw, (max-width: 1362px) 45vw, 600px" /><figcaption id="caption-attachment-28682" class="wp-caption-text">Barba ensopada de sangue foi eleito o Livro do Ano no Prêmio São Paulo de Literatura, em 2013 (Foto: Alceu Chiesorin Nunes/Companhia das Letras)</figcaption></figure>
<p><b>Em 2022, <i>Barba ensopada de sangue</i> completa 10 anos de lançamento. Qual a importância dele na sua trajetória? Considera esse livro um marco na sua carreira?</b></p>
<p><b>Daniel Galera: </b><span style="font-weight: 400;">“</span><span style="font-weight: 400;"><i>Sem dúvidas. Ele foi um marco no sentido de que foi meu livro mais bem recebido, desde o início. É o livro que mais vendeu, ganhou um prêmio importante, o </i></span><span style="font-weight: 400;"><i><a href="https://rascunho.com.br/noticias/daniel-galera-e-o-grande-vencedor-do-premio-sao-paulo-de-literatura-2013/">Prêmio São Paulo de Literatura</a></i></span><span style="font-weight: 400;"><i>, em 2013, e foi um livro que também foi publicado no exterior muito rapidamente, traduzido para 15 idiomas… Então, sim, no contexto da carreira de qualquer autor, é um fenômeno. Foi de longe o livro mais bem sucedido e me colocou num outro patamar de reconhecimento. Até hoje, dez anos depois, é a obra mais comentada e mais lida. A que mais é referenciada quando as pessoas falam de mim, inclusive novos leitores. Continua vendendo aos pouquinhos, mas constantemente. O primeiro capítulo do </i></span><span style="font-weight: 400;">Barba ensopada de sangue</span><span style="font-weight: 400;"><i> saiu antes do livro ficar pronto, na revista </i></span><span style="font-weight: 400;"><a href="https://granta.com/">Granta</a></span><span style="font-weight: 400;"><i>, na edição dos </i></span><span style="font-weight: 400;"><a href="https://www.publishnews.com.br/materias/2012/07/06/69286-granta-divulga-selecao-de-20-escritores-brasileiros#:~:text=S%C3%A3o%20eles%20(com%20os%20respectivos,na%20pra%C3%A7a%E2%80%9D)%2C%20Emilio%20Fraia">20 Melhores Jovens Escritores Brasileiros</a></span><span style="font-weight: 400;"> (2012)</span><span style="font-weight: 400;"><i>.</i></span><span style="font-weight: 400;">”</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">“</span><span style="font-weight: 400;"><i>É um livro que tem fãs, pessoas que gostam muito, que entram em contato às vezes em eventos literários ou pela </i></span><span style="font-weight: 400;">internet</span><span style="font-weight: 400;"><i>; sei que essas pessoas existem. Tem muita gente nova que começa a me ler por causa dele, porque é um livro que as pessoas indicam umas pras outras no boca a boca também. Já os livros que eu publiquei depois do </i></span><span style="font-weight: 400;">Barba</span><span style="font-weight: 400;"><i> vão em direções diferentes; não é que o </i></span><span style="font-weight: 400;">Barba</span> <span style="font-weight: 400;">ensopada de sangue </span><span style="font-weight: 400;"><i>tenha marcado o meu trabalho no sentido de eu continuar escrevendo livros como ele. Os meus livros posteriores são diferentes. É um marco, mas também não sei se em termos de estilo, de escrita, ele estabeleça um ‘antes e depois’.</i></span><span style="font-weight: 400;">”</span></p>
<figure id="attachment_28683" aria-describedby="caption-attachment-28683" style="width: 1750px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-full wp-image-28683" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/09/danielgalera-800x-q80.jpg" alt="Foto colorida do escritor Daniel Galera. Na imagem, Daniel está olhando para a câmera. Ele é um homem branco, possui cabelos lisos e curtos, de cor castanha, e barba grisalha. Seus olhos são castanhos. Ele veste uma jaqueta de frio com capuz, em cor preta. " width="1750" height="1750" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/09/danielgalera-800x-q80.jpg 1750w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/09/danielgalera-800x-q80-800x800.jpg 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/09/danielgalera-800x-q80-1024x1024.jpg 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/09/danielgalera-800x-q80-150x150.jpg 150w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/09/danielgalera-800x-q80-768x768.jpg 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/09/danielgalera-800x-q80-1536x1536.jpg 1536w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/09/danielgalera-800x-q80-1200x1200.jpg 1200w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 1362px) 62vw, 840px" /><figcaption id="caption-attachment-28683" class="wp-caption-text">Como tradutor, Daniel Galera já verteu para o português obras de <a href="https://personaunesp.com.br/o-rei-palido-critica/">David Foster Wallace</a>, Simon Stalenhag e Chris Ware (Foto: Tonatiuh Ambrosetti/Fondation Jan Michalski)</figcaption></figure>
<p><b>Como surgiu a ideia para o enredo do <i>Barba</i>? A condição do protagonista, por exemplo, de não reconhecer rostos, me parece algo bastante singular, algo que torna as descrições dos ambientes muito relevantes na obra. Parece haver também uma certa influência do Cormac McCarthy.</b></p>
<p><b>Galera: </b><span style="font-weight: 400;">“</span><span style="font-weight: 400;"><i>Um romance como o </i></span><span style="font-weight: 400;">Barba ensopada de sangue</span><span style="font-weight: 400;"><i>, com a extensão que ele tem, com a quantidade de assuntos, temas e elementos que estão incluídos nele, sempre tem múltiplas origens e influências; dificilmente é uma coisa só. Nesse caso, tem algumas que podem ser destacadas como as mais importantes. Talvez a maior de todas seja o fato de que, em 2008, eu fui viver em Garopaba, e isso foi determinante. Me mudei pra lá e fui morar sozinho, assim como o protagonista do livro. Quando eu me mudei, já tinha alguns dos elementos que eu estava planejando incluir no próximo romance, mas ainda não estava formado.</i></span><span style="font-weight: 400;">”</span><span style="font-weight: 400;"><i> </i></span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">“</span><span style="font-weight: 400;"><i>Antes de me mudar pra lá, ainda em 2007, eu tinha lido um livro do neurocientista português António Damásio, chamado </i></span><span style="font-weight: 400;"><a href="https://www.companhiadasletras.com.br/livro/9788535925906/o-misterio-da-consciencia">O mistério da consciência</a></span><span style="font-weight: 400;"> (1999)</span><span style="font-weight: 400;"><i>, que saiu pela </i></span><span style="font-weight: 400;">Companhia das Letras</span><span style="font-weight: 400;"><i>. Nesse livro, ele trata de casos de </i></span><span style="font-weight: 400;"><i><a href="https://www.cnnbrasil.com.br/saude/entenda-o-que-e-a-cegueira-facial-ou-prosopagnosia-que-afeta-o-ator-brad-pitt/#:~:text=A%20prosopagnosia%20%C3%A9%20um%20dist%C3%BArbio,como%20focar%20em%20sua%20voz.">prosopagnosia</a></i></span><span style="font-weight: 400;"><i>, que são indivíduos com uma lesão cerebral que, como resultado, não conseguem reconhecer ou gravar bem o rosto das outras pessoas e, às vezes, em casos muito severos, o próprio rosto. Eu fiquei fascinado com essa ideia. Guardei isso de um dia colocar como uma característica de algum personagem de livro.</i></span><span style="font-weight: 400;">”</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">“</span><span style="font-weight: 400;"><i>Ao mesmo tempo, antes de me mudar pra Garopaba, eu tinha começado a ler os livros do </i></span><span style="font-weight: 400;"><i><a href="https://rascunho.com.br/noticias/apos-longo-hiato-cormac-mccarthy-publica-dois-romances-em-2022/">Cormac McCarthy</a></i></span><span style="font-weight: 400;"><i>, um escritor que fez muito a minha cabeça, fiquei realmente obcecado pela obra dele. Não me lembro exatamente qual foi o primeiro livro dele que eu li, mas foi ou </i></span><span style="font-weight: 400;"><a href="https://www.companhiadasletras.com.br/livro/9788556520463/todos-os-belos-cavalos">Todos os belos cavalos</a></span><span style="font-weight: 400;"> (1992)</span><span style="font-weight: 400;"><i> ou </i></span><span style="font-weight: 400;"><a href="https://www.companhiadasletras.com.br/livro/9788560281268/a-estrada">A estrada</a></span><span style="font-weight: 400;"> (2006)</span><span style="font-weight: 400;"><i>. Em Garopaba, li todos os livros dele – comprei todos em sebos e livrarias. A obra completa. O que não tinha em português, comprei em inglês. Foi uma influência muito forte, principalmente </i></span><span style="font-weight: 400;"><a href="https://open.spotify.com/episode/0dcQPLfu3FnNRyEYxukzMk?si=vePR85MDQuK0Ud0WzAST5A">A Travessia</a></span><span style="font-weight: 400;"> (1994)</span><span style="font-weight: 400;"><i>, o segundo livro da </i></span><span style="font-weight: 400;">Trilogia da Fronteira</span><span style="font-weight: 400;"><i>, e o </i></span><span style="font-weight: 400;"><a href="https://blogdoims.com.br/lost-in-translation-por-daniel-galera/">Suttree</a></span><span style="font-weight: 400;"> (1979)</span><span style="font-weight: 400;"><i>, que é um romance que não foi traduzido pro português e que, inclusive, </i></span><span style="font-weight: 400;"><i><a href="https://danielgalera.info/#traducoes">eu vou traduzir</a></i></span><span style="font-weight: 400;"><i>, mas no segundo semestre deste ano. Já estou em tratativas com uma editora. Esses livros foram bastante importantes também pra definir um pouco o estilo de narração do </i></span><span style="font-weight: 400;">Barba</span><span style="font-weight: 400;"><i> – o tipo de ambientação, de estilo narrativo e de linguagem. A obra do Cormac McCarthy influenciou bastante.</i></span><span style="font-weight: 400;">”</span></p>
<p><figure id="attachment_28684" aria-describedby="caption-attachment-28684" style="width: 1257px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-full wp-image-28684" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/09/The-Passenger-by-Cormac-McCarthy-cover.webp" alt="Foto colorida dos livros The Passenger e Stella Maris, respectivamente. Na primeira imagem vemos um céu laranja e, à borda, um rosto de criança em cor azul, com os olhos fechados. Acima está escrito, em fonte de cor branca, Cormac McCarthy, Pulitzer Prize-winning author of the road. Abaixo, de forma centralizada, está escrito The Passenger. Na imagem seguinte, está em destaque o rosto em cor azul da criança, o mesmo da imagem anterior, enquanto à borda esquerda está um pedaço do céu laranja também da imagem anterior. Acima está escrito, em fonte de cor branca, Cormac McCarthy, Pulitzer Prize-winning author of the road. Abaixo, de forma centralizada, está escrito Stella Maris. " width="1257" height="900" /><figcaption id="caption-attachment-28684" class="wp-caption-text">Após 16 anos de hiato, Cormac McCarthy lançará em 2022 dois romances inéditos (<a href="https://www.companhiadasletras.com.br/livro/9788556521590/o-passageiro">O Passageiro</a> e <a href="https://www.companhiadasletras.com.br/livro/9788556521620/stella-maris">Stella Maris</a>), que chegarão às prateleiras brasileiras no final do ano pelo selo <a href="https://www.instagram.com/p/Ca40MAYtuCY/?igshid=YmMyMTA2M2Y=">Alfaguara</a>, do Grupo Companhia das Letras [Foto: Penguin Random House]</figcaption></figure><span style="font-weight: 400;">Um dos principais elementos que marcaram a concepção do romance – além das referências literárias e vivência do autor na cidade – foi o fato de que, embora tenha se mudado para Garopaba em 2008, Daniel Galera já conhecia o município como visitante. Seus pais, no período de juventude dos anos 1970, também frequentaram a região, e relataram experiências relacionadas às viagens. “</span><span style="font-weight: 400;"><i>Uma das histórias que eu me lembrava do meu pai ter falado foi que, uma vez, contaram a eles sobre uma figura da cidade que tinha causado problemas e assassinaram essa pessoa num baile dominical</i></span><span style="font-weight: 400;">”, diz Galera.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;"> A história diz que, com todos os habitantes da pequena cidade no baile, apagaram-se as luzes e esfaquearam o indivíduo; somente depois a iluminação foi restabelecida. “</span><span style="font-weight: 400;"><i>Isso foi uma espécie de justiçamento da comunidade</i></span><span style="font-weight: 400;">”, diz Daniel. Não é absurdo pensar que a aura mítica em torno do protagonista de </span><span style="font-weight: 400;"><i>Barba ensopada de sangue</i></span><span style="font-weight: 400;"> ganhe forma além da ficção, embora a veracidade da narrativa se perca no emaranhado de meias-verdades que constituem todas as tramas da vida. “</span><span style="font-weight: 400;"><i>É uma história que contaram aos meus pais, e meu pai contou pra mim – nem dá pra saber se isso realmente aconteceu ou não, pode ser um causo sem fundamento. Mas o fato é que eu guardei essa história, e quando me mudei pra Garopaba eu me lembrei dela. Comecei a imaginar, se essa história fosse real, quem teria sido a pessoa que foi morta, e o motivo de terem matado</i></span><span style="font-weight: 400;">”.</span></p>
<div class="jetpack-video-wrapper"><iframe loading="lazy" title="Daniel Galera responde perguntas dos leitores" width="840" height="473" src="https://www.youtube.com/embed/w65nfdv6Nkk?feature=oembed" frameborder="0" allow="accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share" referrerpolicy="strict-origin-when-cross-origin" allowfullscreen></iframe></div>
<p><b>Galera: </b><span style="font-weight: 400;">“</span><span style="font-weight: 400;"><i>Juntei todos esses elementos que eu te contei e começou a vir a história desse professor de Educação Física que se muda pra cidade depois que o pai dele se mata, só que antes o pai dele conta sobre a morte do avô, morto em circunstâncias misteriosas em Garopaba, nos anos 1960. Todo esse embrião do romance, da história propriamente dita, vem dessa combinação de coisas. Aí entra o Cormac McCarthy, como um elemento de estilo, entra a prosopagnosia como uma característica definidora desse protagonista, que afeta a história tanto no nível do enredo como no nível da linguagem, do estilo como a história é contada. Como tu falou, essa atenção quase excessiva mesmo pros detalhes tem a ver com a forma desse personagem enxergar o mundo, relacionada também com a prosopagnosia.</i></span><span style="font-weight: 400;">”</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">“</span><span style="font-weight: 400;"><i>Quando eu voltei para Porto Alegre, no final de 2009, comecei de fato a escrever o livro. Eu escrevi só o primeiro capítulo lá em Garopaba – que foi o capítulo que saiu na revista </i></span><span style="font-weight: 400;">Granta</span><span style="font-weight: 400;"><i> –, o restante do romance eu escrevi já em Porto Alegre. O resto é junção de várias histórias, coisas que eu inventei e outros interesses como questões filosóficas sobre o determinismo; meu interesse, na época, pela filosofia da religião budista; meu interesse pela natação – esse aspecto do protagonista do livro, de ser apaixonado por nadar no oceano, é uma coisa minha. Eu sempre gostei muito de fazer isso, participava de travessias e tinha uma paixão por nadar no mar… Então, é um livro que, como uma esponja, absorve dúzias e dúzias de influências, leituras, relatos de coisas que eu ouvi falar, experiências pessoais. Um romance dessa magnitude – digo de extensão, complexidade – acaba pegando elementos dos mais variados tipos.</i></span><span style="font-weight: 400;">”</span></p>
<figure id="attachment_28688" aria-describedby="caption-attachment-28688" style="width: 1400px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-full wp-image-28688" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/09/1_5BXSipFJ5w3aOqs0C-fhbQ.jpeg" alt="Foto colorida do escritor Daniel Galera. Na imagem, Daniel está olhando para a câmera. Ele é um homem branco, possui cabelos lisos e curtos, de cor castanha, e barba grisalha. Seus olhos são castanhos. Ele veste uma camisa de cor verde com botões pretos. O fundo da imagem é cinza." width="1400" height="1875" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/09/1_5BXSipFJ5w3aOqs0C-fhbQ.jpeg 1400w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/09/1_5BXSipFJ5w3aOqs0C-fhbQ-597x800.jpeg 597w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/09/1_5BXSipFJ5w3aOqs0C-fhbQ-765x1024.jpeg 765w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/09/1_5BXSipFJ5w3aOqs0C-fhbQ-768x1029.jpeg 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/09/1_5BXSipFJ5w3aOqs0C-fhbQ-1147x1536.jpeg 1147w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/09/1_5BXSipFJ5w3aOqs0C-fhbQ-1200x1607.jpeg 1200w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 1362px) 62vw, 840px" /><figcaption id="caption-attachment-28688" class="wp-caption-text">“Os personagens não vêm assim de maneira muito imediata pra mim. São elementos da imaginação, interesses pessoais que vão se acumulando, às vezes por um período que demora meses ou anos” (Foto: Suhrkamp Verlag/The Paris Review)</figcaption></figure>
<p><b><i>Barba ensopada de sangue </i>está sendo adaptado para o Cinema pelo diretor <a href="https://oglobo.globo.com/cultura/filmes/noticia/2022/08/barba-ensopada-de-sangue-livro-de-daniel-galera-vai-ganhar-adaptacao-para-o-cinema.ghtml">Aly Muritiba</a>. No filme mais recente dele, <a href="https://personaunesp.com.br/deserto-particular-critica/"><i>Deserto Particular</i></a>, chama atenção a existência de uma certa importância das paisagens, enquanto se mantém uma violência implícita, um fundo de mistério e um tom mítico que cerca a reconstrução de histórias comuns – características que eu consigo relacionar com o <i>Barba</i>. Queria que você comentasse um pouco sobre isso e essas relações.</b></p>
<p><b>Galera: </b><span style="font-weight: 400;">“</span><span style="font-weight: 400;"><i>Eu não vejo muita ligação entre o </i></span><span style="font-weight: 400;">Barba ensopada de sangue</span><span style="font-weight: 400;"><i> e o trabalho anterior do Muritiba num nível de tema, de enredo, necessariamente. Mas eu acho que tem outras ligações muito interessantes de se pensar. A maneira como ele trata os personagens, e a construção de espaço que ele faz nos filmes dele, eu acho que tem muito a ver com o que acontece no </i></span><span style="font-weight: 400;">Barba ensopada de sangue</span><span style="font-weight: 400;"><i>. É algo muito interessado nessa textura da vida real e numa psicologia dos personagens que não é maniqueísta, que não busca ninguém exatamente bom ou mau. As pessoas são complicadas, e tem aspectos iluminados e bacanas, mas aspectos também sombrios e, às vezes, desagradáveis. Ele é muito bom em construir personagens desse tipo e eu fiz muito esforço pra que no romance os personagens fossem assim.</i></span><span style="font-weight: 400;">”</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">“</span><span style="font-weight: 400;"><i>O livro tem um protagonista que não é um cara legal, em todos os aspectos. Ele é muito estranho, complicado e às vezes uma pessoa que não necessariamente causa coisas boas aos outros. Acho que o Aly tem muita sensibilidade pra ver isso. E esse aspecto do romance que tem a ver com o retrato de um lugar e dos efeitos do progresso contemporâneo, das mudanças políticas e econômicas na vida de uma comunidade pequena, é uma coisa muito importante e eu acho que o Aly é muito bom também em olhar pra isso.” </i></span></p>
<p><span style="font-weight: 400;"><i>“O que as pessoas fazem? Como elas vivem? À medida em que uma mudança ecológica, uma mudança política ou uma história do passado, uma superstição, afeta, de fato, o que as pessoas precisam fazer pra viver no seu dia a dia, pra tocar suas vidas. Eu acho que o </i></span><span style="font-weight: 400;">Barba</span><span style="font-weight: 400;"><i> é muito feito dessas perguntas e desse olhar pra esses elementos da vida prática das pessoas, e acho que o Aly é muito bom nisso. Eu sou um grande fã do trabalho dele, então estou com expectativa de que ele vai produzir um ótimo filme.</i></span><span style="font-weight: 400;">”</span></p>
<figure id="attachment_28686" aria-describedby="caption-attachment-28686" style="width: 1024px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-full wp-image-28686" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/09/WhatsApp-Image-2019-10-24-at-21.36.44-1.jpeg" alt="Cena do filme Deserto Particular, do diretor Aly Muritiba. Na imagem, à direita, vemos um homem branco de costas, com uma faixa branca enrolada no braço direito, vestindo camiseta e calça de cor preta. Ele está num lugar que se parece com um deserto, repleto por terra, galhos e pequenos arbustos. O céu está acizentado, e ao longe é possível ver postes de luz e fios que os interligam." width="1024" height="575" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/09/WhatsApp-Image-2019-10-24-at-21.36.44-1.jpeg 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/09/WhatsApp-Image-2019-10-24-at-21.36.44-1-800x449.jpeg 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/09/WhatsApp-Image-2019-10-24-at-21.36.44-1-768x431.jpeg 768w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 1362px) 62vw, 840px" /><figcaption id="caption-attachment-28686" class="wp-caption-text">Exibido na <a href="https://personaunesp.com.br/tag/45-mostra/">45ª Mostra</a> Internacional de Cinema em São Paulo, Deserto Particular foi a submissão do Brasil na corrida pelo Oscar de Melhor Filme Internacional em 2021 (Foto: Pandora Filmes)</figcaption></figure>
<p><b>Tem algum trecho do <i>Barba </i>que é o seu favorito? Ou alguma característica desse romance que, como autor e escritor, você considera mais importante?</b></p>
<p><b>Galera:</b> <span style="font-weight: 400;">“</span><span style="font-weight: 400;"><i>Eu certamente tenho vários trechinhos que eu gosto muito até hoje, mas lembro de dois que consigo compartilhar assim, no calor da hora. Um deles é toda sequência da caminhada do protagonista pelos morros, quando ele ouve falar que o avô dele pode talvez estar vivo, como um ermitão meio louco que é visto, às vezes, nos morros da região de Garopaba, e resolve sair caminhando pra ver se por acaso encontra o avô ou pelo menos pra se sentir um pouco na pele dele. Gosto de toda a sequência dessa caminhada, que é justamente no mês de outubro de 2008, período em que houve chuvas muito fortes na região de Santa Catarina. Ele faz a caminhada bem nessa época.</i></span><span style="font-weight: 400;">”</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">“</span><span style="font-weight: 400;"><i>E existe um parágrafo bem curtinho do livro, não sei dizer em que página, mas que comenta sobre as matilhas de cachorros de raça, cachorros grandes, que vivem soltas em Garopaba e ficam meio que circulando à noite, como cachorros meio espectrais. É só um parágrafo curtinho e é baseado um pouco em uma coisa real também. Muitos desses cachorros grandes, de raça, estão abandonados naquela região, e deve ser uma coisa que acontece em muitas praias e locais de férias. As pessoas levam cachorros pras férias e, às vezes, aproveitam pra se livrar deles, quando não aguentam mais cuidar. Fazem a crueldade de simplesmente deixar o cachorro e ir embora.</i></span><span style="font-weight: 400;">”</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">“</span><span style="font-weight: 400;"><i>O resultado disso é que a gente vê </i></span><span style="font-weight: 400;">rottweilers </span><span style="font-weight: 400;"><i>e pastores alemães transformados nesses cachorros meio magros, andando em matilhas. É um parágrafo só, que quem ler o livro ou procurar talvez encontre, mas é um trecho curtinho que me chamou atenção, e tem vários outros. Gosto da maioria das partes do livro. Eu mudaria algumas coisinhas pequenas, se eu fosse escrever ele hoje, mas não muito. Sou muito feliz com o resultado dele.</i></span><span style="font-weight: 400;">”</span></p>
<figure id="attachment_28687" aria-describedby="caption-attachment-28687" style="width: 668px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-large wp-image-28687" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/09/912wTsT0V3L-668x1024.jpg" alt="Capa da edição inglesa do livro Barba ensopada de sangue. Na imagem colorida, está escrito Blood drenched beard, a novel, de forma centralizada. Blood e Beard estão escritos em cor preta, e Drenched e A novel em cor vermelha. Abaixo, de forma centralizada, está escrito Daniel Galera em fonte de cor branca. À direita, está o logo da editora Penguin Books, que consiste em um penguim branco e preto dentro de uma forma oval em cor laranja. O fundo da imagem é um borrão de cores cinza, azul e sépia. " width="668" height="1024" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/09/912wTsT0V3L-668x1024.jpg 668w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/09/912wTsT0V3L-522x800.jpg 522w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/09/912wTsT0V3L-768x1178.jpg 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/09/912wTsT0V3L-1001x1536.jpg 1001w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/09/912wTsT0V3L-1335x2048.jpg 1335w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/09/912wTsT0V3L-1200x1841.jpg 1200w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/09/912wTsT0V3L.jpg 1650w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 984px) 61vw, (max-width: 1362px) 45vw, 600px" /><figcaption id="caption-attachment-28687" class="wp-caption-text">A edição em inglês de Barba ensopada de sangue foi saudada pelo jornal <a href="https://www.nytimes.com/2015/01/20/arts/daniel-galeras-blood-drenched-beard.html">The New York Times</a> (Foto: Penguin Books)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">As incursões literárias de Daniel Galera se iniciaram ainda nos anos 1990, como editor e colunista de </span><span style="font-weight: 400;"><i>fanzines</i></span><span style="font-weight: 400;"> literários. Ele se formou em Publicidade e Propaganda na Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) – não porque se interessava em propaganda, mas porque, à época, era o curso que concentrava as pessoas interessadas em “</span><span style="font-weight: 400;"><i>trabalhar com Cinema, com Artes Visuais, com Design, e acabavam indo parar no curso de Publicidade porque havia menos cursos especializados nessas áreas mais artísticas ou técnicas</i></span><span style="font-weight: 400;">”. Interessado em computação, o autor acreditava que seria </span><span style="font-weight: 400;"><i>web designer</i></span><span style="font-weight: 400;">. “</span><span style="font-weight: 400;"><i>Eu mexia com computador, sabia usar programas de </i></span><span style="font-weight: 400;">design</span><span style="font-weight: 400;"><i> gráfico, de programação de </i></span><span style="font-weight: 400;">internet</span><span style="font-weight: 400;"><i>, achava que seria o que na época se chamava </i></span><span style="font-weight: 400;">web designer</span><span style="font-weight: 400;"><i>, ou que trabalharia com </i></span><span style="font-weight: 400;">design</span><span style="font-weight: 400;"><i> de produto ou com </i></span><span style="font-weight: 400;">design</span><span style="font-weight: 400;"><i> visual. Era isso que eu achava que iria fazer quando prestei vestibular</i></span><span style="font-weight: 400;">”, diz.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Mas foi durante o período universitário que Galera começou a lapidar seu interesse pela Literatura. Ainda na graduação, uma disciplina chamada “Criação em Língua Portuguesa” foi, na prática, uma oficina literária dada pelos professores de Letras. “</span><span style="font-weight: 400;"><i>Me interessei imediatamente por escrever ficção – até pra conseguir os créditos, inicialmente, mas porque era uma coisa que eu gostava. Acho que foi ali que, conhecendo esses professores e conhecendo outros alunos da faculdade que também estavam interessados por escrever ficção – mas sobretudo escrevendo e mostrando os meus textos pra colegas e professores –, percebi que achava que tinha uma vocação e um interesse muito grande em escrever Literatura</i></span><span style="font-weight: 400;">”, conta o autor.</span></p>
<div class="tumblr-post" data-href="https://embed.tumblr.com/embed/post/t:woNz66R949rnURLENv3ruQ/666662303877496832/v2" data-did="8996aefe2a1826db5133ad43955c266792b43f9b"  ><a href="https://www.tumblr.com/dentesguardados/666662303877496832/h%C3%A1-20-anos-criamos-a-editora-livros-do-mal-essas">https://www.tumblr.com/dentesguardados/666662303877496832/h%C3%A1-20-anos-criamos-a-editora-livros-do-mal-essas</a></div>
<p><script async src="https://assets.tumblr.com/post.js?_v=38df9a6ca7436e6ca1b851b0543b9f51"></script></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Em meados de 1997 – momento de popularização da </span><span style="font-weight: 400;"><i>internet</i></span><span style="font-weight: 400;"> no Brasil –, Daniel Galera começou efetivamente a participar como colaborador e editor de uma série de </span><span style="font-weight: 400;"><i>fanzines </i></span><span style="font-weight: 400;">eletrônicos e revistas digitais. </span><span style="font-weight: 400;"><i>“Teve uma que eu editei, chamada </i></span><span style="font-weight: 400;">Proa da Palavra</span><span style="font-weight: 400;"><i>, que era só de Literatura. Pra mim, a escrita veio junto com essa prática de publicar os outros e se auto-publicar na </i></span><span style="font-weight: 400;">internet</span><span style="font-weight: 400;"><i>”</i></span><span style="font-weight: 400;">, compartilha Galera. Então, em parceria com colegas de faculdade, criou o </span><span style="font-weight: 400;"><i>mail-zine </i></span><span style="font-weight: 400;"><i><a href="http://cabrapreta.org/COL/">CardosOnline</a></i></span> <span style="font-weight: 400;">(COL), que foi um pequeno fenômeno. </span><span style="font-weight: 400;"><i>“O </i></span><span style="font-weight: 400;">CardosOnline</span><span style="font-weight: 400;"><i> foi famoso na época, a gente tinha milhares de assinantes no Brasil inteiro e isso me deu um público inicial. Tinha um pessoal que acompanhava esse </i></span><span style="font-weight: 400;">fanzine</span><span style="font-weight: 400;"><i> e acompanhava o meu trabalho desde o início. Foi um incentivo grande”.</i></span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Pouco tempo depois, em 2001, em parceria com Guilherme Pilla e com o também escritor </span><span style="font-weight: 400;"><a href="https://www.companhiadasletras.com.br/livro/9788535922899/digam-a-sata-que-o-recado-foi-entendido">Daniel Pellizzari</a></span><span style="font-weight: 400;">, Galera criou a editora </span><span style="font-weight: 400;"><i><a href="https://periodicos.unb.br/index.php/estudos/article/view/37422">Livros do Mal</a></i></span><span style="font-weight: 400;">. A ideia era publicar em livro “</span><span style="font-weight: 400;"><i>alguns autores dessa nova geração que estavam surgindo na época</i></span><span style="font-weight: 400;">”. Além de publicar nomes como </span><span style="font-weight: 400;"><a href="https://todavialivros.com.br/livros/o-riso-dos-ratos">Joca Reiners Terron</a></span><span style="font-weight: 400;"> e </span><span style="font-weight: 400;"><a href="https://www1.folha.uol.com.br/ilustrada/2022/03/paulo-scott-e-indicado-ao-international-booker-prize-por-marrom-e-amarelo.shtml">Paulo Scott</a></span><span style="font-weight: 400;">, os seus primeiros livros também saíram pela </span><span style="font-weight: 400;"><i>Livros do Mal</i></span><span style="font-weight: 400;">: a estreante coleção de contos </span><span style="font-weight: 400;"><i><a href="https://personaunesp.com.br/entrevista-tobias-carvalho/">Dentes Guardados</a></i></span><span style="font-weight: 400;"> (2001) e o romance </span><span style="font-weight: 400;"><i><a href="https://www.companhiadasletras.com.br/livro/9788535909876/ate-o-dia-em-que-o-cao-morreu">Até o Dia em que o Cão Morreu</a></i></span> <span style="font-weight: 400;">(2003), que foi posteriormente relançado pela </span><span style="font-weight: 400;"><i>Companhia das Letras</i></span><span style="font-weight: 400;"> e adaptado para o Cinema. “</span><span style="font-weight: 400;"><i>Foram livros que eu publiquei de maneira independente; minha carreira começou assim. Não foi planejado, foi acontecendo organicamente. Vários caminhos e encontros que me fizeram perceber que era isso que eu queria fazer. Senti que eu tinha talento pra isso e comecei a vislumbrar que era uma profissão também</i></span><span style="font-weight: 400;">”</span><span style="font-weight: 400;"><i>.</i></span></p>
<figure id="attachment_28685" aria-describedby="caption-attachment-28685" style="width: 840px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-large wp-image-28685" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/09/304768_2d91c2feab83e41-1024x1024.jpg" alt="Foto colorida do escritor Daniel Galera. Na imagem, Daniel está olhando para a câmera, com as duas mãos no bolso de trás de sua calça. Ele é um homem branco, possui cabelos lisos e curtos, de cor castanha, e barba grisalha. Seus olhos são castanhos. Ele veste uma camisa xadrez em cores rosa e branco. Ao fundo vemos diversas plantas de cor verde espalhadas em vasos. " width="840" height="840" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/09/304768_2d91c2feab83e41.jpg 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/09/304768_2d91c2feab83e41-800x800.jpg 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/09/304768_2d91c2feab83e41-150x150.jpg 150w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/09/304768_2d91c2feab83e41-768x768.jpg 768w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 1362px) 62vw, 840px" /><figcaption id="caption-attachment-28685" class="wp-caption-text">“A Literatura é uma coisa da minha vida. Um gosto, um hobby, uma coisa muito importante”, compartilha Daniel Galera (Foto: Marco Antonio Filho)</figcaption></figure>
<p><b>Como funciona o seu processo de escrita?</b></p>
<p><b>Galera: </b><span style="font-weight: 400;">“</span><span style="font-weight: 400;"><i>Em geral, envolve um período bastante longo em que eu fico só pensando e tomando notas esporádicas dos assuntos que eu acho que podem virar ficção, um período muito longo de pensar no que escrever. Isso envolve, claro, um pouco de pesquisa, procurar leituras que tenham a ver com assuntos ou com estilos que estão me interessando, mas envolve, também, dar um tempo pra imaginação ficar gestando histórias e personagens. Os personagens não vêm de maneira muito imediata pra mim. São elementos da imaginação, interesses pessoais que vão se acumulando, às vezes por um período que demora meses ou anos.</i></span><span style="font-weight: 400;">”</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">“</span><span style="font-weight: 400;"><i>Quando eu começo a escrever, em geral, já sei bastante bem o que eu quero fazer. A escrita do livro em si não costuma ser muito demorada, eu levo em torno de um ano pra fazer um romance. É o período que envolve escrever bastante mesmo, diariamente, e fazer bastante pesquisa que ainda não foi feita, ler muita coisa. Conversar com pessoas, visitar lugares. A gente precisa de subsídios pra aprender sobre um tema ou vivenciar algumas coisas que vão ser úteis pro processo criativo e pra composição da trama.</i></span><span style="font-weight: 400;">”</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">“</span><span style="font-weight: 400;"><i>Digamos que, entre um livro e outro, tem um tempo médio de três, quatro anos, dos quais metade, pelo menos, eu não estou trabalhando no manuscrito, estou procurando a minha história por meio de exercício de imaginação, de anotações, de leitura, de pesquisa. É o momento que eu me encontro agora, por exemplo. Eu publiquei meu último livro </i></span><span style="font-weight: 400;">[O Deus das Avencas] </span><span style="font-weight: 400;"><i>em junho do ano passado. Desde então, não escrevi quase nada, mas estou no processo de procurar o meu próximo trabalho. Estou sempre pensando na direção de um próximo romance ou de um próximo conjunto de histórias.</i></span><span style="font-weight: 400;">”</span></p>
<figure id="attachment_28689" aria-describedby="caption-attachment-28689" style="width: 1200px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-full wp-image-28689" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/09/Prosa_Estar-sendo-ter-sido.jpeg" alt="Foto em preto e branco da escritora Hilda Hilst. Na imagem, Hilda está inclinada em uma mesa, olhando para a câmera e segurando na mão direita um cigarro aceso. Ela veste uma camisa social branca e uma calça preta. Possui cabelos loiros. Ao fundo, há uma parede branca com quadros acizentados, além de uma estante com livros." width="1200" height="801" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/09/Prosa_Estar-sendo-ter-sido.jpeg 1200w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/09/Prosa_Estar-sendo-ter-sido-800x534.jpeg 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/09/Prosa_Estar-sendo-ter-sido-1024x684.jpeg 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/09/Prosa_Estar-sendo-ter-sido-768x513.jpeg 768w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 1362px) 62vw, 840px" /><figcaption id="caption-attachment-28689" class="wp-caption-text">Daniel Galera elenca Hilda Hilst como uma de suas principais referências literárias (Foto: Instituto Hilda Hilst)</figcaption></figure>
<p><b>Você tem um livro brasileiro favorito?</b></p>
<p><b>Galera: </b><span style="font-weight: 400;">“</span><span style="font-weight: 400;"><i>Não acho que seja possível responder isso categoricamente, mas eu sou muito fã da obra da </i></span><span style="font-weight: 400;"><i><a href="https://www.companhiadasletras.com.br/livro/9788535930863/da-prosa">Hilda Hilst</a></i></span><span style="font-weight: 400;"><i>. Talvez os livros de ficção dela – seus textos de ficção em prosa – estejam entre as minhas coisas favoritas escritas por uma autora ou um autor brasileiro.</i></span><span style="font-weight: 400;">”</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">“</span><span style="font-weight: 400;"><i>A </i></span><span style="font-weight: 400;">Companhia das Letras</span><span style="font-weight: 400;"><i>, recentemente, editou a </i></span><span style="font-weight: 400;"><i><a href="https://www.companhiadasletras.com.br/livro/9788535928853/da-poesia">obra completa</a></i></span><span style="font-weight: 400;"><i> dela, em dois volumes: um de poesia e um de prosa; são duas caixas, na verdade, com dois volumes. E talvez seja o meu livro favorito. Se eu tivesse que escolher um só pra poder reler no futuro, acho que seria esse </i></span><span style="font-weight: 400;">[com toda a prosa dela]</span><span style="font-weight: 400;"><i>. Já reli várias vezes os textos dela, inclusive essa edição nova tem um posfácio meu. Só me dei conta disso agora, mas fica mais um motivo aí pra quem se interessar.</i></span><span style="font-weight: 400;">”</span></p>
<p><b><i><a href="https://repositorio.unesp.br/handle/11449/103698">Fluxo-floema</a></i></b> <b>foi uma das coisas que fizeram a minha cabeça como leitor também. </b></p>
<p><b>Galera: </b><span style="font-weight: 400;">“</span><span style="font-weight: 400;"><i>Ah, foi? Então tu conhece bem do que eu estou falando. Eu sou apaixonado por esses livros de prosa dela. Já reli muitas e muitas vezes e nunca perde a força. Então, se a gente entender o livro favorito da Literatura brasileira como ‘se fosse obrigado a guardar só um pra poder reler no futuro’, se ficar dessa maneira, eu colocaria a prosa reunida da Hilda Hilst como esse livro.</i></span><span style="font-weight: 400;">”</span></p>
<figure id="attachment_28690" aria-describedby="caption-attachment-28690" style="width: 683px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-large wp-image-28690" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/09/915l6xKslS-683x1024.jpg" alt="Capa do livro o deus das avencas, de Daniel Galera. Na imagem colorida vemos uma arte abstrata, em cores rosa, verde, cinza, branco e roxo, que se assemelha a uma flor. À direta, está escrito em fonte de cor branca, Daniel Galera, o deus das avencas. Acima está o logo da editora companhia das letras, também em cor branca." width="683" height="1024" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/09/915l6xKslS-683x1024.jpg 683w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/09/915l6xKslS-534x800.jpg 534w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/09/915l6xKslS-768x1152.jpg 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/09/915l6xKslS-1024x1536.jpg 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/09/915l6xKslS-1366x2048.jpg 1366w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/09/915l6xKslS-1200x1799.jpg 1200w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/09/915l6xKslS.jpg 1654w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 984px) 61vw, (max-width: 1362px) 45vw, 600px" /><figcaption id="caption-attachment-28690" class="wp-caption-text">“Eu fui sentindo como o realismo acabou se revelando pra mim apenas mais um gênero, apenas mais uma convenção narrativa”, diz Daniel Galera (Foto: Alceu Chiesorin Nunes/Companhia das Letras)</figcaption></figure>
<p><b>Fazendo um paralelo entre seu último livro e o <i>Barba ensopada de sangue</i>, parece que já havia no <i>Barba </i>uma noção de um futuro perdido, algo que paira sobre a vida do protagonista, mesmo que por razões diferentes daquelas presentes no <em>Deus das Avencas</em>. No <em>Barba</em>, parece estar presente de forma mais subjetiva, enquanto no <i>Deus</i> parece surgir, principalmente, através das condições climáticas e políticas. Você consegue enxergar essa ligação? Se sim, como você lida, nos seus escritos, com essa sensação de “<a href="https://autonomialiteraria.com.br/loja/teoria-politica/fantasmas-da-minha-vida-escritos-sobre-depressao-assombrologia-e-futuros-perdidos/">futuro perdido</a>”, algo que parece ser um horizonte mas que, no capitalismo, nunca se concretiza?</b></p>
<p><b>Galera: </b><span style="font-weight: 400;">“</span><span style="font-weight: 400;"><i>Sim, eu acho que dá pra enxergar uma progressão, inclusive colocando nessa progressão o romance que está entre </i></span><span style="font-weight: 400;">O Deus das Avencas</span><span style="font-weight: 400;"><i> e o </i></span><span style="font-weight: 400;">Barba ensopada de sangue</span><span style="font-weight: 400;"><i>: o </i></span><span style="font-weight: 400;"><a href="https://www.companhiadasletras.com.br/livro/9788535927979/meia-noite-e-vinte">Meia-noite e vinte</a></span><span style="font-weight: 400;"><i>, que saiu entre um e outro, em 2016. O </i></span><span style="font-weight: 400;">Barba ensopada de sangue</span><span style="font-weight: 400;"><i> foi concebido pra ser algo mais atemporal, digamos assim. Ele almeja ter uma estrutura e uma concepção um pouco mítica, uma história que representa um tipo de relação humana ou de experiência da condição humana que seria atemporal, uma coisa que viria pra qualquer época – questões de família, de heroísmo, de formação de identidade, de condição humana em geral. Embora se passe num lugar muito específico, numa época muito específica – e seja um romance, em grande medida, realista –, ele busca ter esse efeito. No entanto, se a gente lê com atenção, o </i></span><span style="font-weight: 400;">Barba ensopada de sangue</span><span style="font-weight: 400;"><i> tem vários elementos ali sobre política, economia e, sobretudo, questões ambientais e ecológicas, que surgem como elementos de ambientação e de construção de espaço, de cenário.</i></span><span style="font-weight: 400;">”</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">“</span><span style="font-weight: 400;"><i>É um livro que narra, por exemplo, como os pescadores artesanais estão perdendo o seu trabalho pra pesca industrial, e todas as consequências disso pra vida deles e pra economia da cidade. Ele narra como pessoas muito ricas, principalmente, acabam invadindo e ocupando lugares da região que deveriam ser preservados por lei, construindo na cidade e impondo uma urbanização ilegal e esteticamente terrível, e a forma como isso afeta a vida da região. Tem esses elementos ali no </i></span><span style="font-weight: 400;">Barba</span><span style="font-weight: 400;"><i>, e enquanto eu escrevia esse romance não pensava num livro que fosse sobre esses assuntos, mas eram assuntos importantes pra aquele lugar, naquela época, então eles acabam aparecendo.”</i></span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">“</span><span style="font-weight: 400;"><i>Olhando pro </i></span><span style="font-weight: 400;">Meia-noite e vinte</span><span style="font-weight: 400;"><i>, que é o romance seguinte, que saiu quatro anos depois, já é um livro em que essa questão do fim do mundo e das catástrofes políticas e ecológicas se coloca de uma maneira muito violenta. Ele é um livro sobre isso, sobre como a sensação de que esse mundo construído pelo progresso, pela modernidade, está ruindo no novo milênio, e como isso afeta as expectativas de vida de um grupo de quatro pessoas que eram jovens na virada do milênio e agora são adultos com família, profissão e carreira estabelecida, mas que, assim como todas as expectativas e os sonhos deles pro futuro, estão sendo destruídas pelo rumo político, econômico e cultural da civilização. Então, sim, o </i></span><span style="font-weight: 400;">Meia-noite e vinte</span><span style="font-weight: 400;"><i> já é um livro sobre esse tema, das crises contemporâneas e da destruição das noções conhecidas do futuro. Ou da substituição por outras outras visões de futuro que eram muito novas e um pouco ameaçadoras.</i></span><span style="font-weight: 400;">”</span></p>
<figure id="attachment_28691" aria-describedby="caption-attachment-28691" style="width: 683px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-large wp-image-28691" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/09/81NuC1leFZS-683x1024.jpg" alt="Capa do livro Meia-noite e vinte, de Daniel Galera. Na imagem colorida, vemos um fundo borrado, em cor azul, cinza e branco. À direita, escrito em forma de pontilhado e em cor vermelha, está escrito daniel galera. Abaixo, em fonte de cor branca, está escrito Autor de Barba ensopada de sangue, seguido por Meia-noite e vinte. Mais abaixo, à direita, está o logo da editora Companhia das Letras em cor cinza." width="683" height="1024" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/09/81NuC1leFZS-683x1024.jpg 683w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/09/81NuC1leFZS-534x800.jpg 534w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/09/81NuC1leFZS-768x1152.jpg 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/09/81NuC1leFZS-1024x1536.jpg 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/09/81NuC1leFZS-1366x2048.jpg 1366w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/09/81NuC1leFZS-1200x1799.jpg 1200w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/09/81NuC1leFZS.jpg 1654w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 984px) 61vw, (max-width: 1362px) 45vw, 600px" /><figcaption id="caption-attachment-28691" class="wp-caption-text">Meia-noite e vinte retrata com maestria a geração que cresceu nos anos 1990 (Foto: Alceu Chiesorin Nunes/Companhia das Letras)</figcaption></figure>
<p><b>Galera: </b><span style="font-weight: 400;">“</span><span style="font-weight: 400;"><i>Desse romance, eu depois fui pro </i></span><span style="font-weight: 400;">Deus das Avencas</span><span style="font-weight: 400;"><i>, publicado cinco anos depois, que é essa reunião de três novelas em que a ideia de fim do mundo e as catástrofes contemporâneas são levadas a um outro patamar, mais especulativo – ou seja, já projetando pra um futuro próximo e também não próximo, um futuro distante, no caso da terceira novela, </i></span><span style="font-weight: 400;">Bugônia</span><span style="font-weight: 400;"><i>. São possíveis desenlaces das crises do presente, ou pelo menos situações ficcionais que tentam elaborar o significado das crises do presente por meio de uma imaginação mais fantasiosa, situada num futuro distante.”</i></span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">“</span><span style="font-weight: 400;"><i>Se a gente observar, tem uma progressão um pouco coerente entre o </i></span><span style="font-weight: 400;">Barba</span><span style="font-weight: 400;"><i>, o </i></span><span style="font-weight: 400;">Meia-noite e vinte </span><span style="font-weight: 400;"><i>e </i></span><span style="font-weight: 400;">O Deus das Avencas</span><span style="font-weight: 400;"><i>. Acho que são saltos bem longos entre um livro e outro, na abordagem desse tema das crises contemporâneas e da crise do futuro. Não foi planejada dessa forma, claro. É uma coisa que eu só consigo perceber também como tu e como outros leitores ao olhar pra trás, mas sem dúvida se vê nesses três livros o despertar do meu interesse e da minha preocupação com esses assuntos, e depois o agravamento e a elaboração cada vez mais complexa, em termos de experiência e também de conceito dessas questões, pra mim, e como isso foi se transformando em ficção ao longo desses anos.”</i></span></p>
<p><figure id="attachment_28697" aria-describedby="caption-attachment-28697" style="width: 2560px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-full wp-image-28697" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/09/Brumadinho_Minas_Gerais_32132221927-1-scaled.jpg" alt="Fotografia colorida do rompimento da barragem em Brumadinho. Na imagem, retirada de cima, é possível ver uma área repleta por lama de cor marrom. Ao fundo, é possível ver uma enorme área verde. " width="2560" height="1707" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/09/Brumadinho_Minas_Gerais_32132221927-1-scaled.jpg 2560w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/09/Brumadinho_Minas_Gerais_32132221927-1-800x533.jpg 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/09/Brumadinho_Minas_Gerais_32132221927-1-1024x683.jpg 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/09/Brumadinho_Minas_Gerais_32132221927-1-768x512.jpg 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/09/Brumadinho_Minas_Gerais_32132221927-1-1536x1024.jpg 1536w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 1362px) 62vw, 840px" /><figcaption id="caption-attachment-28697" class="wp-caption-text">O rompimento da barragem em Brumadinho (MG), controlada pela empresa Vale – antiga Vale do Rio Doce –, caracterizou o maior acidente de trabalho na História do Brasil, e um dos maiores desastres ambientais do país [Foto: Vinícius Mendonça/Ibama]</figcaption></figure><span style="font-weight: 400;">Poucos meses depois do rompimento da </span><span style="font-weight: 400;"><a href="https://oeco.org.br/noticias/rompimento-da-barragem-de-brumadinho-e-a-primeira-grande-tragedia-ambiental-do-ano/">barragem em Brumadinho</a></span><span style="font-weight: 400;">, que ocorreu em janeiro de 2019, Daniel Galera teve publicado na revista </span><span style="font-weight: 400;"><i>Serrote </i></span><span style="font-weight: 400;">o ensaio </span><span style="font-weight: 400;"><i><a href="https://www.revistaserrote.com.br/2019/10/ondas-catastroficas-por-daniel-galera/">Ondas catastróficas</a></i></span><span style="font-weight: 400;">, no qual reflete sobre a dificuldade de manter a narração realista em meio às influências das imagens de catástrofe veiculadas diariamente. No texto, o autor analisa o lugar desse “realismo” na Literatura contemporânea. “</span><span style="font-weight: 400;"><i>Eu acho que o tipo de excesso e de fenômeno complexo que a gente está vivenciando no presente – em escalas globais, planetárias e universais – acaba revelando o quanto aquilo que a gente entende como ‘realismo’ sempre foi uma convenção narrativa também. A realidade mesmo se tornou muito inapreensível, mesmo com as técnicas do realismo. Parece que tudo escapa às convenções do realismo</i></span><span style="font-weight: 400;">”, diz. </span><span style="font-weight: 400;"><i>O Deus das Avencas</i></span><span style="font-weight: 400;"> ganhou forma como um resultado dessas reflexões.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">É curioso pensar que, no mundo frenético e absurdo da contemporaneidade – em que a realidade vem competindo de igual para igual com as </span><span style="font-weight: 400;"><a href="https://tab.uol.com.br/noticias/redacao/2022/09/11/imbrochavel-new-york-times-incorpora-o-vocabulario-do-governo-bolsonaro.htm">distopias</a></span><span style="font-weight: 400;"> e a ficção especulativa –, a noção de realismo seja colocada em xeque, devido a uma imposição quase silenciosa das interações sociais por meio da tecnologia. “</span><span style="font-weight: 400;"><i>A gente vive num tempo que, pelas características culturais, tecnológicas – a própria textura do dia a dia, mediado pelas tecnologias digitais –, tudo nos força a reformular um pouco o que merece ser narrado e como merece ser narrado. Porque algumas coisas se tornaram simplesmente redundantes ou sem sentido. As comunicações pessoais, por exemplo, hoje são feitas quase estritamente por meio de </i></span><span style="font-weight: 400;">WhatsApp</span><span style="font-weight: 400;"><i>, de celulares, de computadores, de telas… Como é que a gente narra isso? Como é que a gente escreve realisticamente sobre isso?</i></span><span style="font-weight: 400;">”, reflete o escritor.</span></p>
<blockquote>
<p style="text-align: center;"><span style="font-weight: 400;">“Às vezes a fantasia, a ficção científica, o horror, nos dão uma textura e um tipo de emoção e de experiência estética que captura com mais potência a experiência de viver neste presente.”</span></p>
</blockquote>
<p><span style="font-weight: 400;">Esse realismo – para além das convenções de escrita e de gênero literário – encontra ressonâncias no que </span><span style="font-weight: 400;"><a href="https://jacobin.com.br/2020/01/o-legado-anticapitalista-de-mark-fisher/">Mark Fisher</a></span><span style="font-weight: 400;"> chamou de “</span><span style="font-weight: 400;"><a href="https://autonomialiteraria.com.br/loja/teoria-politica/realismo-capitalista/">realismo capitalista</a></span><span style="font-weight: 400;">”, em sua obra homônima de 2009 na qual reflete que, sob a nova roupagem neoliberal do sistema econômico, parece ser mais fácil imaginar o fim do mundo do que o fim do capitalismo. É sob essa perspectiva que </span><span style="font-weight: 400;"><i>Tóquio</i></span><span style="font-weight: 400;">, segunda novela da coletânea </span><span style="font-weight: 400;"><i>O Deus das Avencas</i></span><span style="font-weight: 400;">, parece ganhar espaço, pois em meio às crises ambientais retratadas na trama, os indivíduos buscam uma transcendência do corpo (nesse aspecto, as similaridades com </span><span style="font-weight: 400;"><i><a href="https://www.companhiadasletras.com.br/livro/9788535929843/zero-k-romance">Zero K</a></i></span><span style="font-weight: 400;"> [2016], de </span><span style="font-weight: 400;"><a href="https://www.terra.com.br/diversao/cinema/ruido-branco-abre-festival-de-cinema-de-veneza-com-satira-a-cultura-americana,1606d970759ddd8dfcec6c3b7b095006f6vywbup.html">Don DeLillo</a></span><span style="font-weight: 400;">, também se mostram visíveis). O interessante é perceber que, mesmo retratando histórias sobre fins – de um possível bem-estar social a um mundo pós-apocalíptico –, Daniel Galera jamais recorre a clichês.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">A novela que dá título à coletânea, embora em um formato mais realista – que contempla o aspecto do trabalho anterior do autor –, foge de qualquer percepção alienada da realidade dos protagonistas Lucas e Manuela, às vésperas da eleição de Jair Bolsonaro em 2018. Por fim, as reflexões sobre a representação não devem se encerrar no novo formato explorado pelo escritor: “</span><span style="font-weight: 400;"><i>Depois de </i></span><span style="font-weight: 400;">O Deus das Avencas</span><span style="font-weight: 400;"><i>, estou num impasse, porque eu não sei se dobro a aposta nesse caminho ou se eu vou pra algum lugar inteiramente novo, que não trabalhei ainda</i></span><span style="font-weight: 400;">”</span><span style="font-weight: 400;"><i>.</i></span></p>
<div class="jetpack-video-wrapper"><iframe loading="lazy" title="Bate-papo sobre o livro “O deus das avencas”, com Daniel Galera e Sidarta Ribeiro" width="840" height="473" src="https://www.youtube.com/embed/gYZ1X0qANwA?start=2009&#038;feature=oembed" frameborder="0" allow="accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share" referrerpolicy="strict-origin-when-cross-origin" allowfullscreen></iframe></div>
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		<title>Vire-se, seus sonhos serão frutificados no Deserto Particular</title>
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		<pubDate>Wed, 27 Oct 2021 20:28:15 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p>Vitor Evangelista A tarefa de selecionar, entre uma vastidão de olhares e marcas, um único filme para representar o país mundo afora não é nada fácil. Afinal, qual a fórmula secreta para a submissão perfeita? Quais atributos um longa nacional deve possuir para, de fato, ser o “mais brasileiro” possível? Em 2022, a missão é &#8230; <a href="http://personaunesp.com.br/deserto-particular-critica/" class="more-link">Continue lendo<span class="screen-reader-text"> "Vire-se, seus sonhos serão frutificados no Deserto Particular"</span></a></p>
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										<content:encoded><![CDATA[<figure id="attachment_24189" aria-describedby="caption-attachment-24189" style="width: 1920px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-full wp-image-24189" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/10/Sara-2.jpg" alt="Cena do filme Deserto Particular, mostra uma mulher dentro do carro, escuro e com apenas seu nariz e cabelo iluminados pelo poste da rua." width="1920" height="1062" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/10/Sara-2.jpg 1920w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/10/Sara-2-800x443.jpg 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/10/Sara-2-1024x566.jpg 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/10/Sara-2-768x425.jpg 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/10/Sara-2-1536x850.jpg 1536w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/10/Sara-2-1200x664.jpg 1200w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 1362px) 62vw, 840px" /><figcaption id="caption-attachment-24189" class="wp-caption-text">Submissão do nosso país para o Oscar 2022, Deserto Particular estreou na seção Mostra Brasil da 45ª Mostra de SP (Foto: Pandora Filmes)</figcaption></figure>
<p><strong>Vitor Evangelista</strong></p>
<p><span style="font-weight: 400;">A tarefa de selecionar, entre uma vastidão de </span><a href="https://g1.globo.com/pop-arte/cinema/noticia/2019/08/27/a-vida-invisivel-de-euridice-gusmao-e-indicado-pelo-brasil-para-disputar-vaga-no-oscar-2020.ghtml"><span style="font-weight: 400;">olhares</span></a><span style="font-weight: 400;"> e </span><a href="https://www.dw.com/pt-br/brasil-escolhe-babenco-para-disputar-vaga-no-oscar/a-55655346#:~:text=A%20Academia%20Brasileira%20de%20Cinema,melhor%20filme%20internacional%20%E2%80%93%20a%20nova"><span style="font-weight: 400;">marcas</span></a><span style="font-weight: 400;">, um único filme para representar o país mundo afora não é nada fácil. Afinal, qual a fórmula secreta para a submissão perfeita? Quais atributos um longa nacional deve possuir para, de fato, ser o </span><i><span style="font-weight: 400;">“mais brasileiro”</span></i><span style="font-weight: 400;"> possível? Em 2022, a missão é de </span><i><span style="font-weight: 400;">Deserto Particular</span></i><span style="font-weight: 400;">, bela produção comandada por Aly Muritiba e presente na seção Mostra Brasil da 45ª </span><a href="https://personaunesp.com.br/tag/mostra-internacional-de-cinema-em-sao-paulo/"><span style="font-weight: 400;">Mostra Internacional</span></a><span style="font-weight: 400;"> de Cinema em São Paulo.</span></p>
<p><span id="more-24188"></span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Escolhido como a </span><a href="https://www.brasildefato.com.br/2021/10/17/deserto-particular-e-indicado-pelo-brasil-para-disputar-vaga-no-oscar-2022#:~:text=Deserto%20Particular%20%C3%A9%20roteirizado%20por,15%20de%20mar%C3%A7o%20de%202022."><span style="font-weight: 400;">submissão oficial do Brasil</span></a><span style="font-weight: 400;"> para o </span><i><span style="font-weight: 400;">Oscar </span></i><span style="font-weight: 400;">2022, </span><i><span style="font-weight: 400;">Deserto Particular</span></i><span style="font-weight: 400;"> nos apresenta Daniel (Antonio Saboia), um policial exemplar, mas agora afastado por um problema traumático que quebrou seu braço e colocou um homem na UTI. Desiludido, ele vive uma vida pacata em Curitiba, alternando sua rotina entre os trabalhos na Força e os cuidados do pai, um ex-sargento idoso e que sofre com problemas de memória.</span></p>
<figure id="attachment_24190" aria-describedby="caption-attachment-24190" style="width: 1920px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-full wp-image-24190" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/10/deserto-2.png" alt="Cena do filme Deserto Particular, mostra um homem e uma mulher deitados em um sofá, abraçados." width="1920" height="1084" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/10/deserto-2.png 1920w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/10/deserto-2-800x452.png 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/10/deserto-2-1024x578.png 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/10/deserto-2-768x434.png 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/10/deserto-2-1536x867.png 1536w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/10/deserto-2-1200x678.png 1200w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 1362px) 62vw, 840px" /><figcaption id="caption-attachment-24190" class="wp-caption-text">O personagem de Thomas Aquino é uma das presenças mais marcantes de Deserto Particular (Foto: Pandora Filmes)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">Os únicos lampejos de vida nos olhos de Daniel acontecem no mundo </span><i><span style="font-weight: 400;">on-line</span></i><span style="font-weight: 400;">, quando troca mensagens com Sara, sua namorada virtual, residente da Bahia. De repente, a mulher para de respondê-lo e, sem nada a perder, Daniel sobe na picape e viaja do Sul ao Nordeste em busca da amada.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Ao passo que o roteiro, escrito por Muritiba ao lado de Henrique dos Santos, se dedica aos percalços da viagem na estrada, </span><i><span style="font-weight: 400;">Deserto Particular</span></i><span style="font-weight: 400;"> parece estar migrando para uma trama simples de </span><a href="https://personaunesp.com.br/bacurau-critica/"><span style="font-weight: 400;">causa e efeito</span></a><span style="font-weight: 400;">, onde a selvageria de Daniel iria de encontro a quebra de expectativas com a qual ele bateria de frente no momento que respirasse o ar seco da região. Mas o ponto de tensão da obra não é bem por aí.</span></p>
<figure id="attachment_24191" aria-describedby="caption-attachment-24191" style="width: 1920px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-full wp-image-24191" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/10/46_39_Capture-decran-2019-10-28-a-22.32.22.jpg" alt="Cena do filme Deserto Particular, mostra um homem adulto de cueca deitado de bruços na cama." width="1920" height="1070" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/10/46_39_Capture-decran-2019-10-28-a-22.32.22.jpg 1920w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/10/46_39_Capture-decran-2019-10-28-a-22.32.22-800x446.jpg 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/10/46_39_Capture-decran-2019-10-28-a-22.32.22-1024x571.jpg 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/10/46_39_Capture-decran-2019-10-28-a-22.32.22-768x428.jpg 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/10/46_39_Capture-decran-2019-10-28-a-22.32.22-1536x856.jpg 1536w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/10/46_39_Capture-decran-2019-10-28-a-22.32.22-1200x669.jpg 1200w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 1362px) 62vw, 840px" /><figcaption id="caption-attachment-24191" class="wp-caption-text">Esmagando definições pré-concebidas sobre os personagens, Aly Muritiba oferece interpretações mais pessoais para sua harmoniosa história (Foto: Pandora Filmes)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">Na marca dos quarenta minutos, quando o filme se situa na outra ponta do Brasil e Sara surge em cena, a narrativa vira de cabeça para baixo e justifica, com primazia, o destaque dado ao filme pelo país. Quase como uma </span><a href="https://personaunesp.com.br/cidade-invisivel-critica/"><span style="font-weight: 400;">lenda mística</span></a><span style="font-weight: 400;"> digna de nossa Literatura, </span><i><span style="font-weight: 400;">Private Desert</span></i><span style="font-weight: 400;"> (como foi vendido lá fora) desvenda experiências humanas e sensoriais, abrindo espaço para discussões no eixo da sexualidade e da expressão de gênero, com a suavidade e o respeito que temas assim demandam.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">A inserção de Robson, papel do brilhante e inigualável Pedro Fasanaro, na história dá o brilho necessário para que essa se torne uma das </span><a href="https://bdtd.ibict.br/vufind/Record/SCAR_520ba9159a272fed833ee07c1c7e2236"><span style="font-weight: 400;">investidas </span><i><span style="font-weight: 400;">queer</span></i></a> <span style="font-weight: 400;">mais potentes que o Brasil verá em muito tempo. Na interpretação do jovem, o ator não poupa nuances e realça o conhecido sofrimento de ser diferente dentro de uma sociedade religiosa e nada mente aberta. Entretanto, longe de se encaixar no </span><a href="https://discopunisher.wordpress.com/2016/06/01/por-que-os-filmes-gays-nao-tem-final-feliz/"><span style="font-weight: 400;">estereótipo</span></a><span style="font-weight: 400;"> LGBTQIA+ que costumeiramente acaba em dor e perdição, Aly Muritiba dá sua cartada de mestre.</span></p>
<figure id="attachment_24192" aria-describedby="caption-attachment-24192" style="width: 1920px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-full wp-image-24192" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/10/34_Capture-decran-2019-10-23-a-21.55.36.jpg" alt="Cena do filme Deserto Particular, mostra um homem parado ao lado de seu carro e de uma árvore seca. Está de dia e o terreno é arenoso e inabitado. " width="1920" height="1074" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/10/34_Capture-decran-2019-10-23-a-21.55.36.jpg 1920w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/10/34_Capture-decran-2019-10-23-a-21.55.36-800x448.jpg 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/10/34_Capture-decran-2019-10-23-a-21.55.36-1024x573.jpg 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/10/34_Capture-decran-2019-10-23-a-21.55.36-768x430.jpg 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/10/34_Capture-decran-2019-10-23-a-21.55.36-1536x859.jpg 1536w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/10/34_Capture-decran-2019-10-23-a-21.55.36-1200x671.jpg 1200w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 1362px) 62vw, 840px" /><figcaption id="caption-attachment-24192" class="wp-caption-text">Catártico e contemplativo, Deserto Particular saúda o amor e a liberdade (Foto: Pandora Filmes)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">Ressignificando </span><a href="https://www.youtube.com/watch?v=lcOxhH8N3Bo"><i><span style="font-weight: 400;">Total Eclipse of the Heart</span></i></a><span style="font-weight: 400;">, </span><i><span style="font-weight: 400;">Deserto Particular</span></i><span style="font-weight: 400;"> prova que o Cinema é máquina potente de histórias e vida, e, acima de tudo, de cultivar sonhos, fazer florir esperança, mesmo denunciando uma lenda triste de intolerância, recheada de passagens potentes e chorosas, mas nunca em baixo astral. A própria epifania experienciada por Daniel evidencia o caráter separatório desta obra quando em comparação com longas mais </span><a href="https://personaunesp.com.br/carnaval-critica/"><span style="font-weight: 400;">engessados</span></a><span style="font-weight: 400;"> e que buscam a solução esperada.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Tudo morre no deserto coletivo, </span><a href="https://www.youtube.com/watch?v=GGfkPBi-Q00&amp;ab_channel=PandoraFilmesTrailers"><span style="font-weight: 400;">tudo se fortalece no deserto particular</span></a><span style="font-weight: 400;">. O árido do local físico é metáfora para reconstrução, é sinônimo de força, de reinvenção, é definição de sonho. O </span><i><span style="font-weight: 400;">Deserto Particular</span></i><span style="font-weight: 400;"> de Aly Muritiba, povoado por Daniéis, Robsons e Saras, é palco de revoluções. Com ciência do potencial nutritivo e fortalecedor do ecossistema que escolheu para cultivar suas ideias e concretudes, o diretor narra o amadurecimento, a vida, e o Brasil que merece ser visto aqui dentro e lá fora. </span></p>
<div class="jetpack-video-wrapper"><iframe loading="lazy" title="Deserto Particular - Teaser" width="840" height="473" src="https://www.youtube.com/embed/GGfkPBi-Q00?feature=oembed" frameborder="0" allow="accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share" referrerpolicy="strict-origin-when-cross-origin" allowfullscreen></iframe></div>
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		<title>O Caso Evandro é um marco na narrativa de crimes reais brasileiros</title>
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		<pubDate>Tue, 29 Jun 2021 18:18:38 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p>Aviso: o texto a seguir apresenta conteúdo descritivo de violência, podendo servir de gatilho para alguns leitores. Ma Ferreira Em abril de 1992, na cidade de Guaratuba, no Paraná, desapareceu o menino Evandro Ramos Caetano de apenas 6 anos. Na última vez que ele foi visto, disse que buscaria seu mini game em casa e &#8230; <a href="http://personaunesp.com.br/o-caso-evandro-critica/" class="more-link">Continue lendo<span class="screen-reader-text"> "O Caso Evandro é um marco na narrativa de crimes reais brasileiros"</span></a></p>
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										<content:encoded><![CDATA[<p><i><span style="font-weight: 400;">Aviso: o texto a seguir apresenta conteúdo descritivo de violência, podendo servir de gatilho para alguns leitores.</span></i></p>
<figure id="attachment_21356" aria-describedby="caption-attachment-21356" style="width: 700px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-full wp-image-21356" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/06/Imagem-1-3-1.jpg" alt="Cena da série documental O Caso Evandro. A imagem mostra um portão verde de madeira aberto, ao lado de uma parede pintada metade branca e metade verde, com uma faixa azul. Saindo pela porta está um menino branco, loiro, de costas, com um short estampado e uma camisa azul clara, segurando um molho de chaves. À sua frente está uma rua, com uma casa alaranjada e um muro baixo branco, notam-se algumas árvores ao fundo desta casa." width="700" height="466" /><figcaption id="caption-attachment-21356" class="wp-caption-text">O caso do desaparecimento do menino Evandro Ramos Caetano é objeto de investigação na nova série original Globoplay (Foto: Globoplay)</figcaption></figure>
<p><b>Ma Ferreira</b></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Em abril de 1992, na cidade de Guaratuba, no Paraná, desapareceu o menino </span><a href="http://www.projetohumanos.com.br/wiki/evandro-ramos-caetano/"><span style="font-weight: 400;">Evandro Ramos Caetano</span></a><span style="font-weight: 400;"> de apenas 6 anos. Na última vez que ele foi visto, disse que buscaria seu </span><i><span style="font-weight: 400;">mini game</span></i><span style="font-weight: 400;"> em casa e voltaria para a escola onde a mãe trabalhava, mas nunca mais voltou. Dias depois, alguns lenhadores encontram seu corpo em um matagal. O cadáver estava sem o couro cabeludo, sem as mãos e os dedos dos pés, com o ventre aberto, sem as vísceras e em avançado processo de decomposição.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Após esse bárbaro crime é que se desenvolve a trama apresentada na nova série original do </span><i><span style="font-weight: 400;">Globoplay</span></i><span style="font-weight: 400;">, </span><a href="https://www.youtube.com/watch?v=Bn95eukWYpo"><i><span style="font-weight: 400;">O Caso Evandro</span></i></a><span style="font-weight: 400;">. A narrativa é cheia de reviravoltas, infortúnios e grandes erros que foram cometidos na investigação do que foi o mais longo julgamento nacional. Com um clima de conspiração e mistério, somos convidados a participar de uma viagem no tempo para entender o pensamento da época de ocorrência do assassinato e como as informações eram apresentadas na investigação e na mídia.</span></p>
<p><span id="more-21355"></span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Na década de 1990, houve um grande desaparecimento de crianças no Paraná. Meses antes do desaparecimento de Evandro, outra criança de semelhantes características físicas, cabelo loiro e olhos claros, </span><a href="https://tribunapr.uol.com.br/blogs/nao-e-spoiler/o-caso-evandro-tera-episodio-especial-sobre-leandro-bossi-saiba-quem-foi-o-garoto/"><span style="font-weight: 400;">Leandro Bossi</span></a><span style="font-weight: 400;">, de 8 anos, também havia sido raptado. Até hoje não se sabe o paradeiro do garoto e muito se especula sobre as reais ligações entre esse incidente com o que houve com Evandro. As famílias tinham condições sociais diferentes e isso influenciou nas buscas e investigações de ambas as crianças.</span></p>
<figure id="attachment_21357" aria-describedby="caption-attachment-21357" style="width: 700px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-full wp-image-21357" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/06/Imagem-2-3-1.jpg" alt="Cena da série documental O Caso Evandro. A imagem mostra uma tiragem de jornal com vários rostos de crianças. O jornal está impresso em branco e preto e em destaque está escrito “Crianças Desaparecidas” com o escrito abaixo “Estas crianças sumiram sem deixar pistas. Seus pais aguardam notícias. Você pode ajudá-los”." width="700" height="466" /><figcaption id="caption-attachment-21357" class="wp-caption-text">Casos de crianças desaparecidas no Paraná (Foto: Globoplay)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">Meses após, sete pessoas confessaram o crime dizendo que o menino Evandro havia sido morto para ser usado como oferenda em um </span><a href="https://www.fg2021.eventos.dype.com.br/trabalho/view?ID_TRABALHO=1521&amp;impressao&amp;printOnLoad"><span style="font-weight: 400;">ritual satânico</span></a><span style="font-weight: 400;">. Entre os acusados estavam a esposa e a filha do prefeito da cidade, </span><a href="https://g1.globo.com/pr/parana/noticia/2021/04/29/acusadas-no-caso-evandro-lancam-livro-relatando-torturas-sofridas-antes-da-prisao-ele-esta-vivo-e-vai-aparecer-assim-como-a-verdade.ghtml"><span style="font-weight: 400;">Celina e Beatriz Abagge</span></a><span style="font-weight: 400;">, que foram apontadas como as principais mandantes do trabalho. O pai de santo </span><a href="https://noticiasdatv.uol.com.br/noticia/series/acusado-de-assassinato-pai-de-santo-rompe-o-silencio-apos-o-caso-evandro-59492"><span style="font-weight: 400;">Osvaldo Marcineiro</span></a><span style="font-weight: 400;"> teria realizado a morte da criança para trazer prosperidade aos negócios da família Abagge.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">A narrativa da acusação era a de um ritual de </span><a href="https://tab.uol.com.br/noticias/redacao/2021/06/18/o-que-e-panico-satanico-e-como-ele-tem-atrapalhado-investigacoes-desde-1970.htm"><span style="font-weight: 400;">magia negra</span></a><span style="font-weight: 400;">. A alegação era de que crianças estavam sendo raptadas para serem sacrificadas em prol de riqueza e poder a políticos da época. A maneira como eram citadas e apresentadas </span><a href="https://super.abril.com.br/sociedade/os-sacrificios-de-animais-nas-religioes-afrobrasileiras/"><span style="font-weight: 400;">as questões ligadas às religiões de matriz africana</span></a><span style="font-weight: 400;"> só causou maiores ações violentas da população da região. Até hoje, existem muitos </span><a href="https://www1.folha.uol.com.br/ilustrissima/2019/09/relatos-apontam-proliferacao-de-ataques-as-religioes-afro-brasileiras.shtml"><span style="font-weight: 400;">ataques a terreiros</span></a><span style="font-weight: 400;"> com esta mesma visão deturpada de ser algo ligado ao satânico, ponto que a série discute exemplarmente.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">A </span><a href="https://portalamazonia.com/seguranca-publica-e-cidadania/lazaro-barbosa-a-midia-e-os-riscos-do-efeito-copycat"><span style="font-weight: 400;">mídia viu a possibilidade de explorar</span></a><span style="font-weight: 400;"> o caso, auxiliando na acusação dos sete, apresentando grande desconhecimento e mesmo </span><a href="https://theintercept.com/2021/06/29/ritual-racista-imprensa-cobertura-caso-lazaro-barbosa/"><span style="font-weight: 400;">preconceitos</span></a><span style="font-weight: 400;"> para com as religiões de matriz africana, julgando as principais suspeitas de envolvimento como </span><a href="https://www.youtube.com/watch?v=iO4rNi4WIIw"><span style="font-weight: 400;">bruxas</span></a><span style="font-weight: 400;">. Por outro lado, havia uma grande pressão em relação ao trabalho da polícia e a uma resposta breve sobre o que havia ocorrido com as crianças. Neste processo de busca de respostas imediatas, </span><a href="https://aventurasnahistoria.uol.com.br/noticias/reportagem/o-maior-erro-da-justica-e-imprensa-diz-filho-donos-escola-base.phtml"><span style="font-weight: 400;">muito se errou e muito se inventou.</span></a></p>
<figure id="attachment_21358" aria-describedby="caption-attachment-21358" style="width: 1360px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-full wp-image-21358" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/06/Imagem-3-3.jpg" alt="Cena da série documental O Caso Evandro. Na imagem há uma mulher, Celina Abagge, que está vestida com uma blusa mostarda, ela usa um colar com miçangas rosas, amarelos e brancas, tem o cabelo curto e loiro. Ao fundo, percebe-se um sofá onde ela se encontra e um vaso preto com flores vermelhas, a imagem atrás dela está desfocada." width="1360" height="850" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/06/Imagem-3-3.jpg 1360w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/06/Imagem-3-3-800x500.jpg 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/06/Imagem-3-3-1024x640.jpg 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/06/Imagem-3-3-768x480.jpg 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/06/Imagem-3-3-1200x750.jpg 1200w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 1362px) 62vw, 840px" /><figcaption id="caption-attachment-21358" class="wp-caption-text">Beatriz Abagge, suspeita de ter sequestrado e pedido a morte de Evandro; ela e a mãe Celina eram consideradas as Bruxas de Guaratuba (Foto: Globoplay)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">Durante o processo, várias falhas foram levantadas e reviravoltas no processo ocorrem. Foram vários </span><a href="https://www.gazetadopovo.com.br/parana/caso-evandro-defesa-pedira-anulacao-de-condenacao-e-indenizacao-apos-revelacao-de-fitas/"><span style="font-weight: 400;">julgamentos</span></a><span style="font-weight: 400;">, páginas e páginas dos autos dos processos, provas perdidas e novos exames solicitados. Essa trama diabólica envolve uma investigação particular do tio de Evandro, </span><a href="http://www.projetohumanos.com.br/wiki/diogenes-caetano-dos-santos-filho/"><span style="font-weight: 400;">Diógenes Caetano</span></a><span style="font-weight: 400;">. Ele se tornou a principal referência para as equipes que investigaram o caso (Polícia Civil, </span><a href="http://www.projetohumanos.com.br/wiki/grupo-tigre/"><span style="font-weight: 400;">Grupo Tigre</span></a><span style="font-weight: 400;">, Polícia Militar, </span><a href="http://www.projetohumanos.com.br/wiki/grupo-aguia/"><span style="font-weight: 400;">Grupo Águia</span></a><span style="font-weight: 400;">) e fomentou várias conspirações com relação a família Abagge, que era sua rival política e pessoal.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Ao final da série, um novo material é apresentado: </span><a href="https://www.gazetadopovo.com.br/parana/caso-evandro-defesa-pedira-anulacao-de-condenacao-e-indenizacao-apos-revelacao-de-fitas/"><span style="font-weight: 400;">as fitas</span></a><span style="font-weight: 400;">. Convidados a ouvir as gravações, os acusados, a Promotoria e a Defensoria, reagiram ao conteúdo dos áudios. Neste momento de </span><i><span style="font-weight: 400;">O Caso Evandro</span></i><span style="font-weight: 400;">, têm-se a problemática clara da tortura sob a qual passaram os suspeitos para confessarem o crime e a história absurda. O que fica nítido é que o caso ainda pode ter mais novidades e que nada do que se sabe sobre ele realmente auxiliou a solucioná-lo.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">A produção é muito bem dirigida por </span><a href="https://www.youtube.com/watch?v=hNtfF_4WEtc"><span style="font-weight: 400;">Michelle Chevrand e Aly Muritiba</span></a><span style="font-weight: 400;">. O trabalho com a temática é cuidadoso, com a pesquisa base que veio do </span><a href="https://www.projetohumanos.com.br/temporada/o-caso-evandro/"><i><span style="font-weight: 400;">Podcast Projeto Humanos</span></i></a><span style="font-weight: 400;">, sob a coordenação de </span><a href="http://mizanzuk.com/"><span style="font-weight: 400;">Ivan Mizanzuk.</span></a><span style="font-weight: 400;"> O cuidado narrativo aos detalhes, a cronologia de informações que eram divulgadas à época, bem como a maneira que eram exploradas na mídia foram problematizadas. Outras questões que atravessavam a narrativa principal, como a tortura e a intolerância religiosa com relação à </span><a href="https://www.brasildefato.com.br/2019/06/17/umbanda-e-candomble-conhecer-e-o-caminho-para-a-quebra-do-preconceito"><span style="font-weight: 400;">Umbanda</span></a><span style="font-weight: 400;">, foram analisadas e debatidas com especialistas para um melhor entendimento do público sobre a questão.</span></p>
<figure id="attachment_21359" aria-describedby="caption-attachment-21359" style="width: 701px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-full wp-image-21359" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/06/Imagem-4.jpeg" alt="Cena da série documental O Caso Evandro. Na imagem há um homem, o podcaster e escritor Ivan Mizanzuk. Ele é um homem branco, de barba e cabelos médios e escuros. Está vestido com uma blusa preta, sentado em uma cadeira gamer. Ele gesticula enquanto fala. Ao fundo tem-se uma parede preta toda cheia de post-it coloridos, riscado com giz como se estivesse dividindo como uma lousa, uma escrivaninha preta com uma luminária azul ligada, um computador e ao lado uma estante escura com livros. Ao lado de Ivan está um microfone ao alto." width="701" height="438" /><figcaption id="caption-attachment-21359" class="wp-caption-text">Ivan Mizanzuk aparece ao longo da narrativa como um norteador dos caminhos que a investigação e o processo do caso tomaram (Foto: Globoplay)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">A problemática das investigações brasileiras no sentido de recursos e falta de alguns conhecimentos à época também é discutida, bem como a punição e a definição de culpados que é dada pela mídia antes mesmo de um julgamento judicial. Há um cuidado especial em dialogar com os envolvidos, que aparecem e contam a sua maneira as informações que não constam dos autos dos processos, por serem seus relatos de vida. A </span><a href="https://www.youtube.com/watch?v=vhGiiM9CG3w&amp;list=WL&amp;index=3&amp;t=366s"><span style="font-weight: 400;">série documental </span><i><span style="font-weight: 400;">O Caso Evandro</span></i></a><span style="font-weight: 400;"> é um marco no fazer narrativo policial de produções nacionais.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Ao final da série, tem-se a promessa de uma próxima série documental focada no </span><a href="https://www.google.com.br/amp/s/canaltech.com.br/amp/entretenimento/meninos-de-altamira-caso-macabro-documentario-globoplay-186644/"><span style="font-weight: 400;">Caso dos Emasculados de Altamira</span></a><span style="font-weight: 400;">, que ainda se encontra em pesquisa por Ivan Mizanzuk. Caso semelhante ao de Evandro quanto a maneira com que a polícia e a mídia o abordaram, bem como na ideia de uma seita satânica que usava crianças. </span></p>
<p><i><span style="font-weight: 400;">O Caso Evandro</span></i><span style="font-weight: 400;"> é uma importante reflexão para pensarmos em como atualmente o sistema judicial tem sido falho e a mídia muitas vezes faz o papel de juiz. Um exemplo recente é o </span><a href="https://www.google.com.br/amp/s/oglobo.globo.com/brasil/caso-lazaro-entenda-como-foi-cacada-de-20-dias-as-estrategias-de-fuga-do-criminoso-25073424%3fversao=amp"><span style="font-weight: 400;">Caso Lázaro</span></a><span style="font-weight: 400;">, que teve um final execrável, não dando ao acusado sua chance de ser julgado e condenado. O erro é grave por privar as famílias das vítimas da verdade. Evandro e outras pessoas ainda esperam por justiça.</span></p>
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