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	<title>Arquivos Teatro &#8211; Persona | Jornalismo Cultural</title>
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	<description>Desde 2015 provando que a distância entre Bergman, Lady Gaga e a novela das 9 nem existe.</description>
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		<title>Brenda Lee e o Palácio das Princesas resgata a memória da Anjo da Guarda das Travestis na impiedosa São Paulo da década de 80</title>
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		<pubDate>Fri, 15 Dec 2023 18:21:20 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p>Flora Vieira da Silva Amorim Brenda Lee e o Palácio das Princesas, musical teatral escrito e produzido pela companhia Núcleo Experimental, conta a história de Brenda Lee (Verónica Valenttino), travesti que criou, na São Paulo da década de 1980, a primeira casa de apoio para pessoas trans e travestis portadoras do vírus HIV. Misturando a &#8230; <a href="http://personaunesp.com.br/brenda-lee-palacio-princesas-critica/" class="more-link">Continue lendo<span class="screen-reader-text"> "Brenda Lee e o Palácio das Princesas resgata a memória da Anjo da Guarda das Travestis na impiedosa São Paulo da década de 80"</span></a></p>
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										<content:encoded><![CDATA[<figure id="attachment_32294" aria-describedby="caption-attachment-32294" style="width: 1200px" class="wp-caption alignnone"><img fetchpriority="high" decoding="async" class="size-full wp-image-32294" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/12/image2-7.jpg" alt=" Fotografia das personagens da peça. Fundo brilhante feito com fitas de carnaval de cor prateada, que refletem luz azul e amarela. Da esquerda para a direita, está Isabelle, uma mulher negra de cabelo crespo estilo black power, vestindo shorts preto e uma camiseta amarela simples, embaixo de uma camisa rosa com as mangas dobradas até o cotovelo; Blanche, mulher parda de cabelos castanhos longos e lisos, veste uma camisa azul florida; Brenda Lee, mulher branca de cabelo loiro que usa um vestido laranja; Cínthia, mulher branca que veste preto e uma cartola; Raíssa, mulher parda de cabelos cacheados que usa um vestido rosa, e, finalmente, Ariela, mulher branca, de cabelo preto, usa um vestido que mescla as cores vermelho, roxo e rosa." width="1200" height="800" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/12/image2-7.jpg 1200w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/12/image2-7-800x533.jpg 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/12/image2-7-1024x683.jpg 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/12/image2-7-768x512.jpg 768w" sizes="(max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 1362px) 62vw, 840px" /><figcaption id="caption-attachment-32294" class="wp-caption-text">A peça foi exibida como parte do Festival Internacional de Teatro de São José do Rio Preto no Teatro Municipal Paulo Moura (Foto: FIT Rio Preto 2023)</figcaption></figure>
<p><b>Flora Vieira da Silva Amorim</b><span style="font-weight: 400;"><br />
</span><span style="font-weight: 400;"><br />
</span><a href="https://fitriopreto.com.br/2023/obras/brenda-lee-e-o-palacio-das-princesas/"><i><span style="font-weight: 400;">Brenda Lee e o Palácio das Princesas</span></i></a><span style="font-weight: 400;">, musical teatral escrito e produzido pela companhia </span><a href="http://nucleoexperimental.com.br/"><i><span style="font-weight: 400;">Núcleo Experimental</span></i></a><span style="font-weight: 400;">, conta a história de Brenda Lee (Verónica Valenttino), travesti que criou, na São Paulo da década de 1980, a primeira casa de apoio para pessoas trans e travestis portadoras do vírus HIV. Misturando a história real de Lee com cinco outras travestis inspiradas nas clássicas princesas da </span><i><span style="font-weight: 400;">Disney</span></i><span style="font-weight: 400;">, a peça de teatro vencedora dos prêmios Bibi Ferreira (Atriz Revelação em Musicais e Melhor Roteiro), APCA (Melhor Espetáculo do Ano) e Shell (Melhor Atriz) explora, de forma sensível e impactante, a realidade dessas mulheres no Brasil, que, desde aquele tempo, pouco mudou.</span></p>
<p><span id="more-32292"></span></p>
<p><span style="font-weight: 400;"><br />
</span><span style="font-weight: 400;">A história começa com Cínthia Minelli (Olivia Lopes), a narradora-personagem, apresentando as protagonistas Blanche de Niège (Leona Jhovs), Ariela Del Mare (Tyller Antunes), Raíssa (Andrea Rosa Sá) e Isabelle Labette (Elix). Abandonadas, expulsas ou desprezadas pela família, todas elas foram obrigadas a recorrer à prostituição – e, em algum momento da vida, encontraram </span><a href="https://www.terra.com.br/nos/memoria-trans-brenda-lee-anjo-da-guarda-das-travestis,b1ffd9361471e0a94aa749492c93b335ptvb3fvh.html"><span style="font-weight: 400;">Brenda Lee</span></a><span style="font-weight: 400;">, que as acolheu, oferecendo casa, comida e, principalmente, amor. Minelli, a mais diferente das cinco, nasceu rica, mas também foi abandonada pelos pais e procurou Lee já infectada pelo HIV, arrependida de uma briga que ambas tiveram no passado.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Acompanhando o dia-a-dia dessas meninas, a história primeiro explora a realidade das ruas, principalmente por meio das músicas </span><i><span style="font-weight: 400;">A Rua é Mundo Cão</span></i><span style="font-weight: 400;"> e </span><i><span style="font-weight: 400;">A Rua é Cruel, é Sina</span></i><span style="font-weight: 400;">. Enquanto a primeira, cantada por Brenda Lee, explicita a </span><a href="https://memoriasdaditadura.org.br/lgbt/"><span style="font-weight: 400;">corda bamba</span></a><span style="font-weight: 400;"> em que as personagens se encontram – entre a violência policial, dos clientes e do tráfico – a segunda acontece entre dois momentos cruciais: a demissão de Raíssa, que se vê nesse momento obrigada a trabalhar nas ruas, e uma ‘operação policial’ (claramente uma </span><a href="https://revistahibrida.com.br/brasil/operacao-tarantula-trans-travestis-ditadura/"><span style="font-weight: 400;">operação de extermínio</span></a><span style="font-weight: 400;">), que mata uma travesti e fere outras onze, incluindo algumas das personagens.</span></p>
<figure id="attachment_32293" aria-describedby="caption-attachment-32293" style="width: 1200px" class="wp-caption alignnone"><img decoding="async" class="size-full wp-image-32293" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/12/image1-6.jpg" alt="Fotografia da peça, com fundo preto, que contém apenas uma estrutura de madeira coberta de lonas de plástico. Na frente, o médico personagem, um homem branco de cabelos castanhos que veste um jaleco branco, aperta a mão de Brenda Lee, posicionada um pouco acima dele, que usa um vestido laranja. As mãos apertadas estão posicionadas no centro da imagem." width="1200" height="800" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/12/image1-6.jpg 1200w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/12/image1-6-800x533.jpg 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/12/image1-6-1024x683.jpg 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/12/image1-6-768x512.jpg 768w" sizes="(max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 1362px) 62vw, 840px" /><figcaption id="caption-attachment-32293" class="wp-caption-text">Um corte da peça está disponível no YouTube, com elenco um pouco diferente, mas nada substitui assisti-la no teatro (Foto: FIT Rio Preto 2023)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">Um tema recorrente durante as duas horas e quarenta de duração é a convivência com o </span><a href="https://www.gov.br/saude/pt-br/assuntos/saude-de-a-a-z/a/aids-hiv"><span style="font-weight: 400;">HIV</span></a><span style="font-weight: 400;">, vírus causador da AIDS. Nos anos 1980, quando o tratamento para a doença era inexistente ou ainda muito tímido, ser soropositivo era quase uma </span><a href="https://www.bbc.com/portuguese/brasil-42779392"><span style="font-weight: 400;">sentença de morte</span></a><span style="font-weight: 400;">, e não era diferente na São Paulo daquela década. A peça trabalha o tema com ternura, mas com a seriedade necessária, principalmente na figura de Cínthia Minelli que, ao longo da história, vai ficando cada vez mais fraca e pálida, condição que transparece durante as narrações que faz ao longo da apresentação. A música </span><i><span style="font-weight: 400;">Somos só o Medo e Eu</span></i><span style="font-weight: 400;"> também trata da angústia que é receber o diagnóstico e de como, em uma rotina de trabalho degradante, a exposição à doença é quase inevitável.</span><span style="font-weight: 400;"><br />
</span><span style="font-weight: 400;"><br />
</span><span style="font-weight: 400;">A trajetória de Brenda Lee e sua relação com o </span><a href="https://jornalcomunicacao.ufpr.br/brenda-lee-e-o-palacio-das-princesas-e-o-resgate-de-uma-memoria-transcestral/"><span style="font-weight: 400;">palácio das princesas</span></a><span style="font-weight: 400;"> percorre toda a história. A peça nos apresenta uma mulher forte e esperançosa, que vivia com a casa em reforma e que sonhava em transformá-la num porto seguro às mulheres trans e travestis que iam até ela à procura de abrigo, mas que, diante das circunstâncias, teve que se adaptar e transformar o sonhado palácio numa </span><a href="https://www.uol.com.br/ecoa/stories/brenda-lee-criou-primeira-casa-de-apoio-para-pessoas-com-hiv-no-brasil/"><span style="font-weight: 400;">casa de apoio</span></a><span style="font-weight: 400;">. A música </span><i><span style="font-weight: 400;">Palácio das Princesas</span></i><span style="font-weight: 400;">, cantada por ela no começo da narrativa, explicita bem esse sonho. Outra versão da canção também aparece do meio para o final do espetáculo, mais melancólica que a primeira, marcando a transformação daquele espaço, após o acordo com a figura do Médico (</span><span style="font-weight: 400;">Fábio Redkowicz).</span><span style="font-weight: 400;"><br />
</span><span style="font-weight: 400;"><br />
</span><span style="font-weight: 400;">Cada uma das outras personagens também tem uma trajetória impactante à sua maneira; Blanche de Niège luta contra o vício em cocaína, Ariela Del Mare faz planos para realizar uma cirurgia de </span><a href="https://www.uol.com.br/vivabem/noticias/redacao/2022/10/09/ela-conta-como-foi-cirurgia-de-redesignacao-sexual-sonhava-em-ter-vagina.htm"><span style="font-weight: 400;">redesignação sexual</span></a><span style="font-weight: 400;">, Raíssa sonha em se tornar cabeleireira e Isabelle Labette em </span><a href="https://vestibular.brasilescola.uol.com.br/blog/trans-e-travestis-nas-universidades-o-dificil-acesso-ao-ensino-superior-no-brasil.htm"><span style="font-weight: 400;">estudar numa faculdade</span></a><span style="font-weight: 400;">. Essas realidades são apresentadas também em músicas cantadas individualmente pelas personagens, explorando seus conflitos familiares, ambições e, principalmente, a solidão para qual são empurradas graças ao preconceito muitas vezes explícito de uma sociedade doente e ignorante. O que todas as histórias têm em comum é que Lee está presente em cada uma delas, sacrificando-se para que todas consigam realizar seus sonhos.</span><span style="font-weight: 400;"><br />
</span></p>
<p><iframe title="Spotify Embed: Brenda Lee e o Palácio das Princesas" style="border-radius: 12px" width="100%" height="352" frameborder="0" allowfullscreen allow="autoplay; clipboard-write; encrypted-media; fullscreen; picture-in-picture" loading="lazy" src="https://open.spotify.com/embed/album/1qnzunViXRxBZ9VZpOobvs?si=5GGZcV2FSHiw0FqD_6wvLg5d4&#038;utm_source=oembed"></iframe></p>
<p><span style="font-weight: 400;">É impossível expressar em palavras a potência das canções e da dramaturgia da peça, montada por Fernanda Maia. É também impressionante como ela consegue tratar de temas tão pesados e intensos de forma sensível, capaz de fazer chorar qualquer pessoa que tenha vivenciado, mesmo que só um pouco, do que cada uma daquelas personagens viveu. Os números musicais são extremamente criativos e bem distribuídos, as atrizes, </span><a href="https://observatorio3setor.org.br/noticias/como-a-falta-de-representatividade-gera-violencia-contra-as-pessoas-trans/"><span style="font-weight: 400;">todas travestis</span></a><span style="font-weight: 400;">, são extremamente talentosas, e a história é forte e, por mais difícil que para alguns seja admitir, muito atual. A única crítica se direciona à estrutura de som do teatro Paulo Moura, que muitas vezes dificulta o entendimento de diálogos tão bem escritos e canções tão bem produzidas, o que é uma pena.</span><span style="font-weight: 400;"><br />
</span><span style="font-weight: 400;"><br />
</span><span style="font-weight: 400;">Brenda Lee foi assassinada por um ex-companheiro em 1996, e, no fim, nem </span><a href="https://www1.folha.uol.com.br/fsp/1996/5/31/cotidiano/40.html"><span style="font-weight: 400;">direito a ser tratada no feminino</span></a><span style="font-weight: 400;"> teve pela imprensa, que insistia, junto da polícia, em enxergar a transgeneridade como um monstro, uma doença, uma anormalidade que merecesse combate. </span><a href="https://www.youtube.com/watch?v=Sdzhg3ri6eg"><span style="font-weight: 400;">Uma vida que existiu para ajudar os outros</span></a><span style="font-weight: 400;">, para dar uma família àquelas que foram abandonadas, que cuidou de quem pôde até o fim, merecia muito mais. A missão que o </span><i><span style="font-weight: 400;">Núcleo Experimental</span></i><span style="font-weight: 400;"> assumiu para si respeita e engrandece sua memória, com muito brilho, diversão e, no fim, muitas lágrimas também. </span><i><span style="font-weight: 400;">Brenda Lee e o Palácio das Princesas</span></i><span style="font-weight: 400;"> é, facilmente, uma das representações mais fiéis da realidade, dentro dos limites de uma peça teatral, do íntimo do que significa ser travesti no Brasil.</span><span style="font-weight: 400;"><br />
</span></p>
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		<title>NÃO! rompe as amarras do sim irrestrito com Adriana Birolli</title>
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		<pubDate>Wed, 21 Jun 2023 19:15:10 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p>Mateus Conte A atriz curitibana Adriana Birolli, conhecida por seus trabalhos nas novelas globais Viver a Vida, Fina Estampa, Império e Totalmente Demais, estreou no interior de São Paulo seu novo espetáculo, NÃO!. A primeira exibição ocorreu na cidade de Barra Bonita, seguida por Botucatu e Lençóis Paulista, sempre com casa cheia. Sem dúvidas, é &#8230; <a href="http://personaunesp.com.br/nao-critica/" class="more-link">Continue lendo<span class="screen-reader-text"> "NÃO! rompe as amarras do sim irrestrito com Adriana Birolli"</span></a></p>
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										<content:encoded><![CDATA[<figure id="attachment_31146" aria-describedby="caption-attachment-31146" style="width: 800px" class="wp-caption alignnone"><img decoding="async" class="size-medium wp-image-31146" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/06/1-800x450.png" alt="Cena da peça teatral Não!. A atriz Adriana Birolli está em primeiro plano, vestindo uma camisa preta e uma saia vermelha cortada na diagonal, além de um elegante par de sapatos de salto alto vermelhos, destacados pela luz vermelha que o refletor incide sobre a atriz. Atrás da atriz, no chão de tacos do teatro, é visível a sombra da profissional. No fundo do palco, um quadro de fios pretos emaranhados está à frente de uma enorme cortina branca, com a palavra &quot;NÃO&quot; incidindo sobre ela" width="800" height="450" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/06/1-800x450.png 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/06/1-1024x576.png 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/06/1-768x432.png 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/06/1.png 1080w" sizes="(max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 984px) 61vw, (max-width: 1362px) 45vw, 600px" /><figcaption id="caption-attachment-31146" class="wp-caption-text">Em NÃO!, o advérbio que dá nome ao espetáculo nunca sai de cena (Foto: Ivan Zettel)</figcaption></figure>
<p><b>Mateus Conte</b></p>
<p><span style="font-weight: 400;">A atriz curitibana Adriana Birolli, conhecida por seus trabalhos nas novelas globais </span><i><span style="font-weight: 400;">Viver a Vida</span></i><span style="font-weight: 400;">, </span><i><span style="font-weight: 400;">Fina Estampa</span></i><span style="font-weight: 400;">, </span><i><span style="font-weight: 400;">Império</span></i><span style="font-weight: 400;"> e </span><i><span style="font-weight: 400;">Totalmente Demais</span></i><span style="font-weight: 400;">, estreou no interior de São Paulo seu novo espetáculo, </span><i><span style="font-weight: 400;">NÃO!</span></i><span style="font-weight: 400;">. A primeira exibição ocorreu na cidade de Barra Bonita, seguida por Botucatu e Lençóis Paulista, sempre com casa cheia. Sem dúvidas, é uma grande honra para os interioranos receber as primeiras apresentações da peça de uma profissional conhecida em todo o país. O monólogo também representa uma realização pessoal para a atriz, que conta com a parceria dos irmãos </span><a href="https://www.youtube.com/watch?v=SrMf-fHUsE4&amp;pp=ygUPQ2FybGl0byBCaXJvbGxp"><span style="font-weight: 400;">Carlito Birolli</span></a><span style="font-weight: 400;">, na trilha sonora original, e Letícia Birolli, no figurino, além do namorado, o fotógrafo Ivan Zettel.</span></p>
<p><span id="more-31145"></span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Ao adentrar o teatro, é possível ver projetado ao fundo do palco o monossilábico título do espetáculo, “NÃO”, em letras garrafais. A luz vermelha que emana dos refletores dá a tônica que a obra adota: um texto sobre proibições – neste caso, autoinfligidas –, performando um ótimo uso da psicologia das cores na dramaturgia. Também figura no cenário uma tela de fios pretos emaranhados, tal qual a da brincadeira infantil ‘</span><a href="https://museugrandesnovidades.com/brincadeira-cama-de-gato/"><span style="font-weight: 400;">Cama de Gato</span></a><span style="font-weight: 400;">’, representando a desordem na vida da protagonista. Completam a cena uma pequena banqueta, uma mesinha e uma tigela repleta de gelo com uma garrafa de champanhe.</span></p>
<figure id="attachment_31148" aria-describedby="caption-attachment-31148" style="width: 800px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-medium wp-image-31148" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/06/2-800x450.jpg" alt="Cena da peça teatral Não!.A atriz Adriana Birolli está em primeiro plano, descalça, sentada sobre suas próprias pernas e vestindo uma camisa preta com uma saia vermelha. No fundo do palco, um quadro de fios pretos emaranhados guarda diversos quadros com fotos editadas que contam a história. Este quadro está à frente de uma enorme cortina branca, que toma as cores roxas com o auxílio dos refletores. No canto da imagem, há uma tigela cheia de gelo e uma garrafa de champanhe sobre uma banqueta preta." width="800" height="450" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/06/2-800x450.jpg 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/06/2-1024x576.jpg 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/06/2-768x432.jpg 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/06/2.jpg 1200w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 984px) 61vw, (max-width: 1362px) 45vw, 600px" /><figcaption id="caption-attachment-31148" class="wp-caption-text">Cada quadro, um sonho (não) realizado (Foto: Ivan Zettel)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">A protagonista, interpretada por Birolli, é pressionada por sua família a comemorar seu </span><a href="https://personaunesp.com.br/parabens-senhor-presidente-critica/"><span style="font-weight: 400;">aniversário</span></a><span style="font-weight: 400;">, cerimônia que não lhe agrada. Este é o ponto de partida para uma história sobre as dificuldades que muitas pessoas enfrentam ao dizer “não” às mais diversas propostas ao longo da vida, ainda que esta recusa as prejudique de alguma forma. A atriz inicia a peça entrando pelos fundos do teatro e interagindo com a plateia, imediatamente causando uma maior sensação de proximidade com o público – além, é claro, da temática abordada que é comum a todos nós.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Afinal, a carga dramática em torno do primeiro “não” não dito nos leva a uma sequência de “sins” que nos afastam, cada vez mais, dos planos que buscamos realizar ao longo da vida; sonhos estes representados por quadros pendurados na &#8216;Cama de Gato&#8217; citada anteriormente. &#8220;Não&#8221; para o amor, para o trabalho, para a família, para os amigos… são muitas as ocasiões em que o medo de desagradar sobrepõe o nosso bem-estar. Estas reflexões são trazidas pela protagonista ao longo da obra, que se torna uma espécie de </span><a href="https://personaunesp.com.br/o-pior-de-mim-critica/"><span style="font-weight: 400;">terapia</span></a><span style="font-weight: 400;"> em grupo com toda a plateia.</span></p>
<figure id="attachment_31147" aria-describedby="caption-attachment-31147" style="width: 774px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-full wp-image-31147" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/06/3.png" alt="Cena da peça teatral Não!. A atriz Adriana Birolli está em primeiro plano, de pé, vestindo uma camisa preta com uma saia vermelha. No fundo do palco, há um quadro de fios pretos emaranhados em frente a uma enorme cortina branca, que ganha a cor azul através dos refletores" width="774" height="575" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/06/3.png 774w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/06/3-768x571.png 768w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 984px) 61vw, (max-width: 1362px) 45vw, 600px" /><figcaption id="caption-attachment-31147" class="wp-caption-text">Ao final, o público percebe a importância de saber dizer &#8220;não&#8221; (Foto: Diário do Rio)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">Uma importante frase proferida pela protagonista, que vale a menção e de certa forma resume a ideia do roteiro, é </span><i><span style="font-weight: 400;">“Não é nossa responsabilidade a forma que as pessoas recebem o nosso não”</span></i><span style="font-weight: 400;">. Apesar das aflições causadas pela indecisão entre escolher o “sim” ou o “não” fazerem parecer se tratar de um espetáculo angustiante e amargurado, a obra é uma deliciosa </span><a href="https://personaunesp.com.br/quem-e-quem-teatro-critica/"><span style="font-weight: 400;">comédia</span></a><span style="font-weight: 400;"> que permite a própria libertação ao representar os fatos corriqueiros de nosso cotidiano de forma facilmente identificável pelo público.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">O ato final retoma o diálogo com a plateia ao sugerir uma enquete, aos moldes do global “Você Decide”, sobre qual atitude a protagonista deveria tomar: o “sim” contrariado ou o primeiro “não” determinado? A peça se encerra sem um final estabelecido, delegando ao espectador a função de se imaginar na cena e tomar sua própria decisão – como bem cantava </span><a href="https://personaunesp.com.br/abalando-a-sua-fabrica-20-anos/"><span style="font-weight: 400;">Chorão</span></a><span style="font-weight: 400;">, líder da banda de </span><i><span style="font-weight: 400;">rock</span></i><span style="font-weight: 400;"> Charlie Brown Jr., “</span><i><span style="font-weight: 400;">Cada escolha, uma renúncia</span></i><span style="font-weight: 400;">”.</span></p>
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		<title>Parabéns, Senhor Presidente e a rara sintonia entre contrários</title>
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		<dc:creator><![CDATA[]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 14 Apr 2023 20:36:51 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Teatro]]></category>
		<category><![CDATA[Claudia Ohana]]></category>
		<category><![CDATA[Edital ProAC Expresso]]></category>
		<category><![CDATA[Fernando Duarte]]></category>
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		<category><![CDATA[Peça de Teatro]]></category>
		<category><![CDATA[Rita Elmôr]]></category>
		<category><![CDATA[Secretaria de Cultura e Economia Criativa do Governo do Estado de São Paulo.]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Mateus Conte O Teatro Municipal de Botucatu recebeu, em uma noite de sábado, o drama musical Parabéns, Senhor Presidente &#8211; In Concert. A casa lotou para recepcionar as atrizes globais Claudia Ohana, que interpreta a soprano Maria Callas, e Juliana Knust, que dá vida à sex symbol Marilyn Monroe. Com texto de Fernando Duarte (que &#8230; <a href="http://personaunesp.com.br/parabens-senhor-presidente-critica/" class="more-link">Continue lendo<span class="screen-reader-text"> "Parabéns, Senhor Presidente e a rara sintonia entre contrários"</span></a></p>
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										<content:encoded><![CDATA[<figure id="attachment_30682" aria-describedby="caption-attachment-30682" style="width: 920px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-full wp-image-30682" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/04/Imagem-1-1.jpg" alt="A foto em preto e branco apresenta as duas atrizes, Juliana Knust e Cláudia Ohana, vestidas como suas personagens. Ambas estão sorrindo e olhando para o lado esquerdo da câmera" width="920" height="738" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/04/Imagem-1-1.jpg 920w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/04/Imagem-1-1-800x642.jpg 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/04/Imagem-1-1-768x616.jpg 768w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 1362px) 62vw, 840px" /><figcaption id="caption-attachment-30682" class="wp-caption-text">Marilyn Monroe e Maria Callas foram convidadas ao aniversário do presidente Kennedy; como seria se as duas tivessem se encontrado? (Foto: Pino Gomes/A Crítica)</figcaption></figure>
<p><b>Mateus Conte</b></p>
<p><span style="font-weight: 400;">O Teatro Municipal de </span><a href="https://personaunesp.com.br/o-pior-de-mim-critica/"><span style="font-weight: 400;">Botucatu</span></a><span style="font-weight: 400;"> recebeu, em uma noite de sábado, o drama musical </span><i><span style="font-weight: 400;">Parabéns, Senhor Presidente &#8211; In Concert</span></i><span style="font-weight: 400;">. A casa lotou para recepcionar as atrizes globais Claudia Ohana, que interpreta a soprano Maria Callas, e Juliana Knust, que dá vida à </span><i><span style="font-weight: 400;">sex symbol</span></i> <a href="https://personaunesp.com.br/blonde-critica/"><span style="font-weight: 400;">Marilyn Monroe</span></a><span style="font-weight: 400;">. Com texto de Fernando Duarte (que estava presente naquela noite) e Rita Elmôr, a peça é uma adaptação musical para a obra de mesmo nome, encenada em 2019. A apresentação contou com entrada franca e ainda passa por seis municípios do estado, dentro da programação do Edital ProAC Expresso, através da Secretaria de Cultura e Economia Criativa do Governo do Estado de São Paulo.</span></p>
<p><span id="more-30680"></span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">A peça retrata o encontro fictício entre as duas artistas nos bastidores do Madison Square Garden, casa de espetáculos na cidade estadunidense de Nova Iorque, por ocasião do 45º aniversário do então presidente John F. Kennedy, comemorado em 19 de Maio de 1962. O momento ficou marcado na memória coletiva dos anos 1960 com a imagem de Marilyn Monroe usando um sensual vestido coberto de cristais brilhantes, cantando aos sussurros a memorável </span><a href="https://www.youtube.com/watch?v=Tr1Faa9cEbo"><i><span style="font-weight: 400;">Happy Birthday</span></i></a><span style="font-weight: 400;">. Nessa mesma noite, a maior estrela da ópera de todos os tempos, Maria Callas, foi protagonista da apresentação mais aplaudida da noite, ao interpretar </span><i><span style="font-weight: 400;">Habanera</span></i><span style="font-weight: 400;">, ária integrante da ópera </span><i><span style="font-weight: 400;">Carmen</span></i><span style="font-weight: 400;">, apresentações cujos vídeos foram exibidos ao fundo do cenário da peça.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Independentes e bem-sucedidas, </span><a href="https://eduerj.com/a-mulher-nos-anos-60-uma-perspectiva-de-genero/"><span style="font-weight: 400;">o que era raro nos anos 1960</span></a><span style="font-weight: 400;">, as icônicas personagens partem de suas próprias histórias para, durante 65 minutos, mergulhar no drama feminino dos tempos modernos, abordando o papel a ser desempenhado pelas mulheres em um mundo ainda governado pelos homens. No entanto, a narrativa da obra não deixa de também envolver o público masculino, pois apresenta as consequências de relações abusivas no trato psicológico das protagonistas.</span></p>
<figure id="attachment_30683" aria-describedby="caption-attachment-30683" style="width: 768px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-full wp-image-30683" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/04/Imagem-2.webp" alt="Juliana Knust, trajada com o sensual vestido de brilhantes utilizado por Monroe na festa de aniversário de Kennedy, está com os braços abertos enquanto olha para o lado esquerdo da câmera. Seu braço esquerdo segura uma blusa branca e felpuda, que se encontra no encosto de uma cadeira branca, com estampa losangular e pernas de madeira marrom-escuro. Outra cadeira idêntica aparece ao lado direito de Monroe. Atrás dela, encoberto por seu corpo, é visível uma garrafa" width="768" height="512" /><figcaption id="caption-attachment-30683" class="wp-caption-text">Marilyn Monroe sofreu com relações abusivas ao longo da vida (Foto: Roberto Filho/Brazil News)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">Exemplo disso são os relatos das crises conjugais de Monroe com a lenda do </span><i><span style="font-weight: 400;">baseball</span></i><span style="font-weight: 400;"> Joe DiMaggio, que lhe abusava fisicamente. O momento impactante é muito bem utilizado pelo espetáculo para divulgar a campanha contra a violência doméstica </span><a href="https://www.gov.br/mdh/pt-br/ligue180"><span style="font-weight: 400;">Ligue 180</span></a><span style="font-weight: 400;">, projetado no seu sóbrio cenário, que se passa no camarim da apresentação ao presidente Kennedy. Também choca a ocasião em que a atriz fala sobre os abortos espontâneos que sofreu, em uma carga dramática impressionante.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">As personagens viviam momentos distintos em sua vida. Em pleno auge profissional, Marilyn estava cansada de ser vista apenas como um </span><a href="https://yatahaze.medium.com/anatomia-de-um-s%C3%ADmbolo-sexual-9e3c9e151635"><span style="font-weight: 400;">símbolo sexual</span></a><span style="font-weight: 400;">. Amante do presidente JFK, ela sentia-se preterida pela primeira-dama Jacqueline Kennedy –  um dos fatores que supostamente desencadeou seu vício em bebida e calmantes, o que lhe resultou na morte por overdose de barbitúricos, em 1962 (embora a peça aposte na </span><a href="https://g1.globo.com/pop-arte/noticia/2022/08/09/os-misterios-que-ainda-persistem-sobre-a-morte-de-marilyn-monroe-apos-60-anos.ghtml"><span style="font-weight: 400;">hipótese de homicídio</span></a><span style="font-weight: 400;"> por parte de um agente da CIA, a Agência Central de Inteligência dos Estados Unidos).</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Callas, por sua vez, se incomoda com os críticos – inclusive ironizando aqueles que redigem críticas culturais nos jornais – e reconhece que sua voz está se exaurindo aos poucos. Ela ainda sofre por ter priorizado a arte em detrimento de sua vida pessoal, enfrentando problemas no relacionamento com o magnata grego </span><a href="https://revistaquem.globo.com/QUEM-News/noticia/2021/04/biografia-revela-que-maria-callas-foi-drogada-e-abusada-por-aristotle-onassis.html"><span style="font-weight: 400;">Aristóteles Onassis</span></a><span style="font-weight: 400;">. As crises conjugais passadas pelas personagens são os momentos em que o texto mais investe em comédia, incluindo piadas sexuais que levaram o público às gargalhadas, à revelia da classificação indicativa de 14 anos.</span></p>
<figure id="attachment_30681" aria-describedby="caption-attachment-30681" style="width: 768px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-full wp-image-30681" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/04/Imagem-3.webp" alt="Cláudia Ohana, trajada com o clássico vestido vermelho de Maria Callas, sorri enquanto olha para cima, levantando sua mão direita em poética interpretação em frente a um fundo com cortinas brancas reluzentes" width="768" height="512" /><figcaption id="caption-attachment-30681" class="wp-caption-text">Maria Callas passa por tribulações em seu casamento (Foto: Roberto Filho/Brazil News)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">A conversa entre Callas, introspectiva e melancólica, e Monroe, extrovertida e sanguínea, resulta em uma rara sintonia entre contrários, também espelhados na destoância entre seus figurinos e suas caracterizações, que refletem suas personalidades distintas. Enquanto os espontâneos desabafos de Marilyn são respondidos pela grega com sua objetividade racional, assemelhando-se a uma terapeuta, as confissões da soprano são devolvidas com espirituosidade e uma certa dose de despudor pela atriz, em oposição ao </span><a href="https://www.uol.com.br/splash/noticias/2022/09/29/marilyn-monroe-foi-a-indecifravel-esfinge-que-acabou-devorado-por-hollywood.htm"><span style="font-weight: 400;">momento difícil</span></a><span style="font-weight: 400;"> pelo qual sua vida passava.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">A nova adaptação, </span><i><span style="font-weight: 400;">In Concert</span></i><span style="font-weight: 400;">, conta com canções compostas por Maíra Freitas e interpretadas pelas atrizes, tanto em duetos como em solos, tanto em </span><a href="https://www.youtube.com/watch?v=KlWPLbVoWfQ"><span style="font-weight: 400;">óperas</span></a><span style="font-weight: 400;"> como em ritmos convencionais. Surpreende a excelência na execução das músicas, tanto por Ohana quanto por Knust, bem como a qualidade do arranjo e das letras, totalmente em português. A cena em que Callas ensina técnicas vocais para Monroe é um dos (muitos!) pontos altos do espetáculo, momentos em que nos perguntamos quais fatos apontados naquele roteiro realmente ocorreram na vida real.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Dentre os aspectos técnicos, ressaltam-se a captação de som, realizada por meio de microfones de cabeça que valorizam as </span><a href="https://www.youtube.com/watch?v=2HXr2cKNm2M"><span style="font-weight: 400;">vozes das atrizes</span></a><span style="font-weight: 400;">, assim como a iluminação, que variava conforme a intensidade das emoções de cada momento da peça, cujas cenas são divididas por sessões musicais. A última delas é a principal apoteose de<em> Parabéns, Senhor Presidente</em>, fechando-se as cortinas e encerrando-se o espetáculo em grande estilo, combinando aquelas duas figuras tão distintas através de uma de suas poucas paixões em comum: a Arte.</span></p>
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		<title>O Pior de Mim: o palco como divã</title>
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		<pubDate>Thu, 26 May 2022 17:40:40 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Teatro]]></category>
		<category><![CDATA[2022]]></category>
		<category><![CDATA[Análise]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Mateus Conte Na noite de 13 de maio, um Teatro Municipal lotado recebeu, em Botucatu, a atriz Maitê Proença em seu monólogo O Pior de Mim. Redigida pela própria atriz e dirigida por Rodrigo Portella, a obra aborda de forma áspera a vida e a carreira da ex-global, que por diversas vezes percorreu os palcos &#8230; <a href="http://personaunesp.com.br/o-pior-de-mim-critica/" class="more-link">Continue lendo<span class="screen-reader-text"> "O Pior de Mim: o palco como divã"</span></a></p>
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										<content:encoded><![CDATA[<figure id="attachment_27707" aria-describedby="caption-attachment-27707" style="width: 2560px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="wp-image-27707 size-full" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/05/Imagem-1.jpeg" alt="A imagem apresenta um fundo todo preto destacando a atriz Maitê Proença, uma mulher branca e loira, que veste um vestido preto com bolinhas brancas sobre uma blusinha branca e calça vermelha, enquanto sorri e abre os braços olhando para cima" width="2560" height="1440" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/05/Imagem-1.jpeg 2560w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/05/Imagem-1-800x450.jpeg 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/05/Imagem-1-1024x576.jpeg 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/05/Imagem-1-768x432.jpeg 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/05/Imagem-1-1536x864.jpeg 1536w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/05/Imagem-1-2048x1152.jpeg 2048w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/05/Imagem-1-1200x675.jpeg 1200w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 1362px) 62vw, 840px" /><figcaption id="caption-attachment-27707" class="wp-caption-text">Maitê Proença transforma sua vida em texto e seu divã em peça (Foto: Reprodução)</figcaption></figure>
<p><b>Mateus Conte</b></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Na noite de 13 de maio, um Teatro Municipal lotado recebeu, em Botucatu, a atriz Maitê Proença em seu monólogo </span><i><span style="font-weight: 400;">O Pior de Mim</span></i><span style="font-weight: 400;">. Redigida pela própria atriz e dirigida por Rodrigo Portella, a obra aborda de forma áspera a vida e a carreira da </span><a href="https://veja.abril.com.br/cultura/maite-proenca-conta-como-soube-de-demissao-da-globo/"><span style="font-weight: 400;">ex-global</span></a><span style="font-weight: 400;">, que por diversas vezes percorreu os palcos do interior paulista com suas apresentações.</span></p>
<p><span id="more-27706"></span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Logo de início, a peça surpreende por sua sobriedade. O figurino aparenta vir diretamente do guarda-roupas da atriz, sendo os mesmos </span><i><span style="font-weight: 400;">looks</span></i><span style="font-weight: 400;"> que vemos nas atentas fotos da Revista </span><i><span style="font-weight: 400;">CARAS</span></i><span style="font-weight: 400;"> ou nas páginas do finado </span><a href="http://ego.globo.com/famosos/noticia/2017/04/o-ego-se-despede-e-relembra-flagrantes-inesqueciveis-de-famosos.html"><i><span style="font-weight: 400;">Ego</span></i></a><span style="font-weight: 400;">. Seu objetivo é claro: trazer autenticidade aos relatos contados pela protagonista-autora, tornando sua imagem no palco o mais próximo possível da realidade cotidiana de Maitê.</span></p>
<figure id="attachment_27708" aria-describedby="caption-attachment-27708" style="width: 840px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="wp-image-27708 size-full" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/05/Imagem-2.png" alt="A imagem apresenta a atriz Maitê Proença, uma mulher branca e loira, de olhos verdes, que olha para cima enquanto toca um pano preto, mas transparente, que a cobre totalmente" width="840" height="1024" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/05/Imagem-2.png 840w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/05/Imagem-2-656x800.png 656w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/05/Imagem-2-768x936.png 768w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 1362px) 62vw, 840px" /><figcaption id="caption-attachment-27708" class="wp-caption-text">A interação de Maitê com o tecido transparente no fundo do cenário nos remete ao véu que cobre aquilo que preferimos manter às escuras (Foto: Reprodução)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">A luz, por sua vez, também é simples: sem muita pompa, a direção sabe o que fazer com o mínimo, apostando em um enfoque básico durante as falas e trocas repentinas de cores em momentos mais impactantes da trama, servindo como marcador temporal para passagem de um bloco narrativo para outro. Mérito de </span><a href="https://gpslifetime.com.br/conteudo/entretenimento/arte/80/diretor-rodrigo-portella-desembarca-em-brasilia-para-bate-papo"><span style="font-weight: 400;">Portella</span></a><span style="font-weight: 400;">, que também coordena a iluminação do espetáculo.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Mas não só de trivialidade vive </span><i><span style="font-weight: 400;">O Pior de Mim</span></i><span style="font-weight: 400;">. Em uma experiência rara no teatro </span><i><span style="font-weight: 400;">mainstream</span></i><span style="font-weight: 400;">, o próprio diretor entra em cena para filmar a protagonista. As imagens – em preto e branco, vale ressaltar – captadas pela câmera são exibidas automaticamente nas cortinas localizadas atrás do palco, em uma inovação narrativa recheada de significado: demonstra como a presença das lentes é constante na carreira da atriz, que </span><a href="http://teledramaturgia.com.br/dinheiro-vivo/"><span style="font-weight: 400;">estreou</span></a><span style="font-weight: 400;"> nas novelas em 1979.</span></p>
<figure id="attachment_27709" aria-describedby="caption-attachment-27709" style="width: 1024px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="wp-image-27709 size-full" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/05/Imagem-3-1.png" alt="A imagem apresenta um fundo todo preto destacando a atriz Maitê Proença, uma mulher branca e loira, que veste um vestido preto com bolinhas brancas sobre uma blusinha branca e sapatos dourados, enquanto senta e olha sorrindo para a plateia" width="1024" height="683" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/05/Imagem-3-1.png 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/05/Imagem-3-1-800x534.png 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/05/Imagem-3-1-768x512.png 768w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 1362px) 62vw, 840px" /><figcaption id="caption-attachment-27709" class="wp-caption-text">As tragédias da vida de Maitê Proença propiciam uma rápida identificação com a plateia (Foto: Reprodução)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">Tratando de artifícios pouco utilizados nas grandes </span><a href="https://personaunesp.com.br/quem-e-quem-teatro-critica/"><span style="font-weight: 400;">peças que vêm ao interior</span></a><span style="font-weight: 400;">, uma logo chama a atenção dos espectadores: a não-linearidade da narrativa. Cada história se intercala com as outras, sem haver um ponto medular que as organize, trazendo a sensação de uma aparente confusão. Mas isso tem um porquê.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Durante a peça, Maitê assume que, durante quatro horas por semana, fez terapia pelo período de quatro anos. Não há dúvidas que essa experiência de autoconhecimento foi transportada para o roteiro, transformando o palco em um </span><a href="https://midiamax.uol.com.br/variedades/saude/2018/saiba-porque-o-teatro-terapia-ajuda-a-tratar-timidez-estresse-e-depressao"><span style="font-weight: 400;">divã psicanalítico</span></a><span style="font-weight: 400;">. A intertextualidade com uma sessão de terapia se reflete até mesmo na duração do espetáculo: a peça dura escassos cinquenta minutos, o que não foge do tempo médio de um encontro marcado com um psicólogo.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Esta psicanálise com a presença do público passa pelas mais trágicas histórias da vida da autora, o que tende a justificar os traumas e bloqueios mais profundos de sua mente ao longo da apresentação. Como nem tudo são espinhos, também há espaço para os </span><a href="https://f5.folha.uol.com.br/colunistas/renatokramer/2015/03/1596585-eu-nunca-fui-infeliz-diz-maite-proenca.shtml"><span style="font-weight: 400;">relatos de superação</span></a><span style="font-weight: 400;"> que Maitê passou para conseguir deixar todos esses obstáculos para trás.</span></p>
<figure id="attachment_27710" aria-describedby="caption-attachment-27710" style="width: 5497px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="wp-image-27710 size-full" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/05/Imagem-4.png" alt="A imagem apresenta a atriz Maitê Proença, uma mulher branca e loira, que veste um pijama branco com listras azuis. Ela está sentada em um sofá cinza e podem-se ver um quadro indiano e um quadro de uma pequena árvore na parede do fundo" width="5497" height="3665" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/05/Imagem-4.png 5497w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/05/Imagem-4-800x533.png 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/05/Imagem-4-1024x683.png 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/05/Imagem-4-768x512.png 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/05/Imagem-4-1536x1024.png 1536w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/05/Imagem-4-2048x1365.png 2048w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/05/Imagem-4-1200x800.png 1200w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 1362px) 62vw, 840px" /><figcaption id="caption-attachment-27710" class="wp-caption-text">A peça iniciou sua temporada de forma on-line durante a pandemia de covid-19 (Foto: Dalton Valério)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">O teatro não é apenas o que se apresenta no palco, mas também aquilo que  </span><a href="https://www.em.com.br/app/noticia/cultura/2019/11/10/interna_cultura,1099586/artistas-falam-das-razoes-e-dos-perrengues-de-interagir-com-a-plateia.shtml"><span style="font-weight: 400;">impacta na plateia</span></a><span style="font-weight: 400;">; ao vivo, ela acompanha ininterruptamente o espetáculo. Por isso, é impossível não perceber que, ainda que possam ser diferentes, sempre existem momentos nos quais o público se identifica com a atriz que está em cena.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Um sentimento específico do público é, ao mesmo tempo, alimentado e escrachado pelo texto: o prazer em bisbilhotar os detalhes mais sórdidos da vida alheia, ainda mais quando se tratam de celebridades. Como diz a própria sinopse da peça, </span><i><span style="font-weight: 400;">“neste </span></i><a href="https://www1.folha.uol.com.br/fsp/cotidian/ff0408200609.htm"><i><span style="font-weight: 400;">voyeurismo</span></i></a><i><span style="font-weight: 400;"> desenfreado, nos comparamos, para melhor compreendermos a nós mesmos. Não é assim? Venha espiar, eu deixo”</span></i><span style="font-weight: 400;">. Esta descrição acompanha o espetáculo desde sua primeira exibição, realizada de forma totalmente </span><i><span style="font-weight: 400;">on-line</span></i><span style="font-weight: 400;">, no pandêmico ano de 2020.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Esta exposição das aflições vividas pela atriz, por trás das populares câmeras das inúmeras novelas que estrelou, evidencia o fato de que, antes de ser uma profissional, Maitê Proença é uma pessoa de carne, osso e sentimentos. Sentimentos, esses, que foram atingidos pela </span><a href="https://www1.folha.uol.com.br/fsp/ilustrad/fq0204200807.htm"><span style="font-weight: 400;">exploração massiva</span></a><span style="font-weight: 400;"> e impiedosa de sua vida privada por parte da imprensa e que, nesta peça </span><i><span style="font-weight: 400;">O Pior de Mim</span></i><span style="font-weight: 400;">, resolve escancarar para o mundo – mas, desta vez, a sua versão dos fatos. Maitê Proença, volte sempre!</span></p>
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		<title>tick, tick… BOOM! sabe exatamente o que é</title>
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		<pubDate>Mon, 14 Mar 2022 20:27:42 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p>Marcela Zogheib Quando falamos de musicais, alguns nomes vêm imediatamente à cabeça. Clássicos contos de bruxas cantados por Bernadette Peters, felinos noturnos cantando sobre amor e memórias, romances proibidos com fantasmas mascarados… Tudo isso morou por anos na cabeça de Jonathan Larson. O grande nome da Broadway inovou e mudou a cena do teatro musical &#8230; <a href="http://personaunesp.com.br/tick-tick-boom-critica/" class="more-link">Continue lendo<span class="screen-reader-text"> "tick, tick… BOOM! sabe exatamente o que é"</span></a></p>
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										<content:encoded><![CDATA[<figure id="attachment_26704" aria-describedby="caption-attachment-26704" style="width: 970px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-full wp-image-26704" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/03/imagem-2-2.jpeg" alt="Cena do filme tick, tick…BOOM! O personagem de Andrew Garfield está sentado de perfil olhando para cima. Ele é branco, com cabelo liso e está vestindo camisa azul. Na sua frente há um piano e um microfone. O fundo da imagem é branco e tem algumas palavras soltas em letras cursivas." width="970" height="360" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/03/imagem-2-2.jpeg 970w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/03/imagem-2-2-800x297.jpeg 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/03/imagem-2-2-768x285.jpeg 768w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 1362px) 62vw, 840px" /><figcaption id="caption-attachment-26704" class="wp-caption-text">O longa foi indicado ao Oscar 2022 de Melhor Montagem e Melhor Ator pela atuação de Andrew Garfield (Foto: Netflix)</figcaption></figure>
<p><b>Marcela Zogheib</b></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Quando falamos de musicais, alguns nomes vêm imediatamente à cabeça. Clássicos </span><a href="https://www.youtube.com/watch?v=N87Mk5GUmtg"><span style="font-weight: 400;">contos de bruxas</span></a><span style="font-weight: 400;"> cantados por Bernadette Peters, </span><a href="https://personaunesp.com.br/cats-critica/"><span style="font-weight: 400;">felinos noturnos</span></a><span style="font-weight: 400;"> cantando sobre amor e memórias, romances proibidos com fantasmas mascarados… Tudo isso morou por anos na cabeça de Jonathan Larson. O grande nome da Broadway inovou e mudou a cena do teatro musical por anos ao escrever </span><a href="https://www.youtube.com/watch?v=hJWOhA5R-vg&amp;t=4501s"><span style="font-weight: 400;">o fenômeno </span><i><span style="font-weight: 400;">Rent</span></i></a><span style="font-weight: 400;">, que ficou em cartaz por muito tempo, sendo remontado milhares de vezes em diferentes palcos ao redor do mundo.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Mas antes de </span><i><span style="font-weight: 400;">Rent</span></i><span style="font-weight: 400;">, existiu </span><a href="https://www.youtube.com/watch?v=w0nRmpUAUKI"><i><span style="font-weight: 400;">tick, tick… BOOM!</span></i></a><span style="font-weight: 400;">. Nesse musical originalmente estrelado por seu próprio criador, acompanhamos a história de Jon, um nova-iorquino aspirante a compositor no início dos anos 90. Ele está preocupado com a chegada dos 30 anos, se comparando com grandes nomes que haviam conquistado muitas vitórias antes de atingir a fatídica idade. No </span><a href="https://www.youtube.com/watch?v=gOSGZGdp0lI"><span style="font-weight: 400;">longa-metragem, dirigido por Lin-Manuel Miranda</span></a><span style="font-weight: 400;"> e roteirizado por Steven Levenson, vemos mais detalhes da vida de Jonathan que tornam a obra original um trabalho semi-autobiográfico, traçando paralelos das vivências reais de Larson com as dos personagens que ele criou. </span></p>
<p><span id="more-26703"></span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Jonathan Larson era </span><a href="https://www.youtube.com/watch?v=1Deblb-QQ78"><span style="font-weight: 400;">uma estrela cadente</span></a><span style="font-weight: 400;">. O gênio aclamado da Broadway, responsável por criar um dos musicais mais ovacionados do meio, foi embora cedo demais, no auge de seus 35 anos, na noite da estreia </span><a href="https://www1.folha.uol.com.br/fsp/turismo/fx20079814.htm"><i><span style="font-weight: 400;">Off-Broadway</span></i></a><span style="font-weight: 400;"> de </span><i><span style="font-weight: 400;">Rent</span></i><span style="font-weight: 400;">. Mas seu legado vive, muitos anos, pelos teatros lotados em suas produções, sem contar o </span><a href="https://www.youtube.com/watch?v=KGciEYSshrQ"><span style="font-weight: 400;">longa-metragem</span></a><span style="font-weight: 400;">, as </span><a href="https://www.youtube.com/watch?v=DDDtFjjieH4"><span style="font-weight: 400;">produções internacionais</span></a><span style="font-weight: 400;"> e, principalmente, as pessoas impactadas pela vida e obra do compositor que jamais assistiu sua composição. Relatos daqueles que conheceram Jonathan destacam a sua genialidade, carisma, criatividade e muito sobre sua pressa. A família e os amigos do escritor dizem que ele nunca parava, que ele nunca queria perder tempo, quase dizendo que ele escrevia como se </span><a href="https://www.youtube.com/watch?v=DPgE7PNzXag"><span style="font-weight: 400;">seu tempo estivesse acabando</span></a><span style="font-weight: 400;">.</span></p>
<figure id="attachment_26705" aria-describedby="caption-attachment-26705" style="width: 1024px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-full wp-image-26705" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/03/imagem-1-2.jpeg" alt="Fotografia de Jonathan Larson segurando um copo. O homem está no canto direito da imagem. Ele é branco, de cabelo liso e está sorrindo. O homem está vestindo uma blusa azul, camisa preta e uma calça jeans. Ao fundo há uma porta de vidro com algumas placas." width="1024" height="806" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/03/imagem-1-2.jpeg 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/03/imagem-1-2-800x630.jpeg 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/03/imagem-1-2-768x605.jpeg 768w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 1362px) 62vw, 840px" /><figcaption id="caption-attachment-26705" class="wp-caption-text">Jonathan Larson ao lado de uma divulgação de Rent sem nem imaginar o sucesso que teria (Foto: Netflix)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">O longa se inicia com uma pequena introdução sobre Jonathan (Andrew Garfield), mostrando cenas de sua família e do que </span><i><span style="font-weight: 400;">Rent </span></i><span style="font-weight: 400;">se tornou e o tornou. Nos apresentando a uma das tradições mais bonitas do Teatro, o filme é dedicado ao idealizador de sua história, com o mesmo ritual que inicia cada apresentação de suas peças, sempre através de uma dedicatória à importância e legado de Larson. Logo somos introduzidos ao queridinho das massas e dos estúdios, e Andrew Garfield está na pele do nosso protagonista, recriando umas das performances mais conhecidas da produção, </span><i><span style="font-weight: 400;">30/90</span></i><span style="font-weight: 400;">. A partir daí, o trabalho de edição, que faz as cenas transitarem de forma muito natural e coerente, dá o tom que o longa segue durante toda sua duração, proporcionando a indicação ao </span><a href="https://personaunesp.com.br/?s=oscar"><i><span style="font-weight: 400;">Oscar</span></i> </a><span style="font-weight: 400;">de Melhor Montagem de 2022, creditada a Myron Kerstein e Andrew Weisblum.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">A atuação de Andrew Garfield externaliza </span><a href="https://www.youtube.com/watch?v=axU8Ue_qOtg"><span style="font-weight: 400;">o amor</span></a><span style="font-weight: 400;"> que o ator tem pelo personagem, construído com a preocupação em fazer jus a uma figura tão importante. As palavras de Jonathan, registradas na memória coletiva daqueles que amaram e amam o compositor, transparece em olhares, trejeitos e maneirismo representados com naturalidade e leveza pelo intérprete. A indicação ao </span><i><span style="font-weight: 400;">Oscar</span></i><span style="font-weight: 400;"> e ao </span><i><span style="font-weight: 400;">SAG</span></i><span style="font-weight: 400;">, e as vitórias no Globo de Ouro e </span><i><span style="font-weight: 400;">Hollywood Critics Association Awards </span></i><span style="font-weight: 400;">não vieram sem fundamento, desde seu primeiro momento em tela, o ator some e se revive como seu personagem.</span></p>
<figure id="attachment_26706" aria-describedby="caption-attachment-26706" style="width: 2000px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-full wp-image-26706" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/03/imagem-3-8.jpg" alt="Cenas do filme tick, tick…BOOM! A imagem é dividida em duas cenas. A esquerda, está um homem branco e uma mulher negra, eles estão se olhando encostados em uma parede de tijolos. À direita, imagem de três pessoas, um homem latino, de cabelos pretos e roupa social, uma mulher negra de cabelos vermelhos e um homem branco de cabelos castanhos sentado." width="2000" height="1000" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/03/imagem-3-8.jpg 2000w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/03/imagem-3-8-800x400.jpg 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/03/imagem-3-8-1024x512.jpg 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/03/imagem-3-8-768x384.jpg 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/03/imagem-3-8-1536x768.jpg 1536w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/03/imagem-3-8-1200x600.jpg 1200w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 1362px) 62vw, 840px" /><figcaption id="caption-attachment-26706" class="wp-caption-text">Os amigos sempre foram um ponto crucial na vida de Jonathan, que mesmo sem dinheiro e morando em um apartamento minúsculo, costumava convidar todo para banquetes bancados por ele (Foto: Netflix)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">Os personagens são espelhados dentro e fora dos palcos, e Jon tem um grupo de pessoas que o apoia e está com ele na sua jornada para alcançar sucesso com sua peça de teatro </span><a href="https://cm-ob.pt/is-superbia-tick-tick-boom-real-musical"><i><span style="font-weight: 400;">Superbia</span></i></a><span style="font-weight: 400;">. Karessa Johnson (</span><a href="https://personaunesp.com.br/?s=vanessa+hudgens"><span style="font-weight: 400;">Vanessa Hudgens</span></a><span style="font-weight: 400;">) e Roger Bart (Joshua Henry) performam ao seu lado, representando nos palcos aqueles que cercam Jonathan. Na lanchonete </span><i><span style="font-weight: 400;">Moonshine</span></i><span style="font-weight: 400;">, Freddy (Ben Levi Ross) e Carolyn (</span><a href="https://personaunesp.com.br/?s=Michaela+Ja%C3%A9+Rodriguez"><span style="font-weight: 400;">Michaela Jaé Rodriguez</span></a><span style="font-weight: 400;">) trabalham servindo mesas ao lado do protagonista, compondo a família que ele busca nos ambientes. Seu melhor amigo, </span><a href="https://www.youtube.com/watch?v=XsbQSnN3d6c&amp;list=PLxA687tYuMWhvsRGAx25DJE_o7IOoT7tk&amp;index=11"><span style="font-weight: 400;">Michael</span></a><span style="font-weight: 400;"> (Robin de Jesús), sonhava em viver a vida como ator, mas desistiu para trabalhar em um escritório, onde ganha o suficiente para abandonar a vida boêmia e se mudar do apartamento em que morava com Jon. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Um ponto bastante explorado nas produções de Larson é o surto da epidemia de AIDS, que abalou o mundo entre os anos 1980 e 1990. O compositor traz isso de forma muito </span><a href="https://cinemacao.com/2020/12/01/dia-mundial-luta-contra-aids-rent/"><span style="font-weight: 400;">vívida e presente</span></a><span style="font-weight: 400;"> na vida de seus personagens, sendo Michael um exemplo, principalmente por ter sido inspirado no melhor amigo de infância de Jon, que foi diagnosticado com HIV. Outro ponto essencial da trama é </span><a href="https://www.youtube.com/watch?v=6hlTdLsgSMQ"><span style="font-weight: 400;">Susan</span></a><span style="font-weight: 400;"> (Alexandra Shipp), a namorada de Jonathan. Ela é uma dançarina que está cansada da vida brutal de alguém que vive das artes em Nova Iorque e está no dilema entre continuar com Jon, ou se mudar para dar aulas no subúrbio da cidade. Os conflitos do casal são apresentados na música </span><a href="https://www.youtube.com/watch?v=r-eGnWLqOVY&amp;list=PLxA687tYuMWhvsRGAx25DJE_o7IOoT7tk&amp;index=8"><i><span style="font-weight: 400;">Therapy</span></i></a><span style="font-weight: 400;">, em que discutem o que querem falar um para o outro, o que acham que o outro quer ouvir e o que vai ser da relação deles.</span></p>
<figure id="attachment_26707" aria-describedby="caption-attachment-26707" style="width: 1024px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-full wp-image-26707" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/03/imagem-4-1.jpeg" alt="Cena do filme tick, tick…BOOM! O homem é branco, veste camisa de manga comprida preta. Ele está com as duas mãos levantadas e fazendo um cara de choque. No fundo da imagem há uma lousa com algumas frases coloridas." width="1024" height="512" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/03/imagem-4-1.jpeg 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/03/imagem-4-1-800x400.jpeg 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/03/imagem-4-1-768x384.jpeg 768w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 1362px) 62vw, 840px" /><figcaption id="caption-attachment-26707" class="wp-caption-text">Moondance Diner é um lugar real em que Jonathan realmente trabalhou por muito tempo enquanto escrevia suas peças (Foto: Netflix)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">Como um clichê sempre discutido em conversas sobre musicais, há quem não veja sentido em sequências em lanchonetes onde os clientes e garçons param o que estão fazendo para cantar justamente sobre o que estão fazendo. Mas </span><a href="https://www.youtube.com/watch?v=-pEcMV8PXjU&amp;list=PLxA687tYuMWhvsRGAx25DJE_o7IOoT7tk&amp;index=6"><i><span style="font-weight: 400;">Sunday</span></i></a><span style="font-weight: 400;"> já nasce como um tributo à composição de mesmo nome, com autoria de Stephen Sondheim para </span><i><span style="font-weight: 400;">Sunday in the Park with George</span></i><span style="font-weight: 400;">, que ficou ainda mais delicada e simbólica após a </span><a href="https://www.youtube.com/watch?v=fr99DVmFt2c"><span style="font-weight: 400;">morte do compositor em 2021</span></a><span style="font-weight: 400;">. E é uma das cenas na lanchonete em que o trabalho da montagem mais transparece, encaixando perfeitamente cada movimento e apresentação dos intérpretes da música com naturalidade às cenas anteriores e posteriores.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">De volta à relação de Larson com o veterano da Broadway (interpretado por Bradley Whitford), o longa se preocupa em retratar como ela impactou a jornada do protagonista. Uma cena, em específico, mostra a participação de Jon em um </span><i><span style="font-weight: 400;">workshop</span></i><span style="font-weight: 400;">, onde Sondheim sugere a inserção de mais uma música na obra do compositor, desencadeando uma série de ideias em sua mente para criar em seu musical e direcionar o rumo de suas produções. Além disso, o verdadeiro Stephen Sondheim realmente faz uma participação no filme, mostrando a inversão do impacto, em que Jonathan Larson também se tornou </span><a href="https://www.youtube.com/watch?v=vtswKLJHN4A&amp;t=21s"><span style="font-weight: 400;">respeitado por seu ídolo</span></a><span style="font-weight: 400;">.</span></p>
<figure id="attachment_26711" aria-describedby="caption-attachment-26711" style="width: 1024px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-full wp-image-26711" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/03/imagem-5-3.jpg" alt="Fotografia de cena do musical tick, tick…BOOM! Ao lado esquerdo se encontra um homem negro vestindo terno escuro e calça bege. No centro da imagem, há um outro homem que está de mãos dadas com as outras duas pessoas. Ele é branco e está olhando para o lado. Veste camisa azul claro, toca vermelha e calça jeans. Ao lado direito da imagem há uma mulher branca de vestido florido e colete jeans. Ela está com o cabelo trançado na altura do peito." width="1024" height="683" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/03/imagem-5-3.jpg 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/03/imagem-5-3-800x534.jpg 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/03/imagem-5-3-768x512.jpg 768w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 1362px) 62vw, 840px" /><figcaption id="caption-attachment-26711" class="wp-caption-text">Produção de tick, tick… BOOM em 2014, estrelando Leslie Odom, Jr., Lin-Manuel Miranda e Karen Olivo (Foto: The Encores!)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">A junção de </span><a href="https://www.youtube.com/watch?v=DSCKfXpAGHc"><span style="font-weight: 400;">Lin-Manuel Miranda</span></a><span style="font-weight: 400;"> com Jonathan Larson traz medidas perfeitas com milhares de referências como resultado. Os dois amantes do teatro musical cresceram com o sonho de criar algo novo para trazer um público diferente para o palco e a plateia da Broadway. Jonathan esteve sempre entre dois mundos, por ter crescido na era de auge da </span><i><span style="font-weight: 400;">MTV</span></i><span style="font-weight: 400;"> via um desinteresse na sua geração em frequentar um ambiente de musicais que não representavam as questões que viviam. E apesar de amar musicais como </span><i><span style="font-weight: 400;">Cats</span></i><span style="font-weight: 400;"> e </span><i><span style="font-weight: 400;">Les Misérables</span></i><span style="font-weight: 400;">, ele entendia que estavam distantes das vivências de seus amigos, então sonhava em criar uma mistura que trouxesse toda essa excitação jovem regada de ritmos atuais para um local que usualmente era frequentado por um público mais tradicional. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Em seus musicais, Larson sempre buscou trazer ritmos e letras que falassem com as pessoas da sua geração, e indo atrás disso, transcendeu barreiras que ele sempre acreditou que o teatro não deveria ter. Já Lin-Manuel Miranda iniciou sua carreira de compositor contando histórias do seu bairro latino nos palcos da Broadway com </span><a href="https://personaunesp.com.br/em-um-bairro-de-nova-york-critica/"><i><span style="font-weight: 400;">In The Heights</span></i></a><span style="font-weight: 400;">. Em sua obra principal, </span><a href="https://personaunesp.com.br/hamilton-critica/"><i><span style="font-weight: 400;">Hamilton</span></i></a><span style="font-weight: 400;">, reescreveu a história dos Estados Unidos com um elenco constituído por pessoas que foram tradicionalmente apagadas dessa narrativa, utilizando músicas que falassem com um novo público.</span></p>
<figure id="attachment_26710" aria-describedby="caption-attachment-26710" style="width: 963px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-full wp-image-26710" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/03/imagem-5.jpeg" alt="Cena do filme tick, tick…BOOM! O fundo é composto por uma parede de tijolos azuis e duas janelas nas extremidades. Na frente, ao lado esquerdo, há um homem branco com as duas mãos no peito e olhando para a direita na imagem. Ele veste uma calça preta e uma parca verde. No centro, há uma mulher branca com cabelo castanho claro na altura dos ombros. Ela está com as mãos no peito e olhando para a direita da imagem. Ao lado dela, há um homem branco com as mãos no peito olhando para a direita da imagem. Ele está usando uma touca, jaqueta marrom e calça branca." width="963" height="481" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/03/imagem-5.jpeg 963w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/03/imagem-5-800x400.jpeg 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/03/imagem-5-768x384.jpeg 768w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 1362px) 62vw, 840px" /><figcaption id="caption-attachment-26710" class="wp-caption-text">Adam Pascal, Daphne Rubin-Vega e Wilson Jermaine Heredia, do elenco original de Rent, em Sunday (Foto: Netflix)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">A direção de Lin traz um olhar que só ele poderia ter. A enciclopédia humana dos musicais sabe onde colocar os </span><a href="https://www.townandcountrymag.com/leisure/arts-and-culture/a38252686/tick-tick-boom-netflix-easter-eggs/"><span style="font-weight: 400;">mínimos detalhes</span></a><span style="font-weight: 400;">, desde os pingos nos is, passando pelas Elizas e Angelicas nas cafeterias com tiaras referenciando vestidos, até os boêmios cantando sobre gastar dinheiro com </span><i><span style="font-weight: 400;">brunch </span></i><span style="font-weight: 400;">de domingo. A escolha de direção foi tudo menos à toa, e a genialidade de Lin preenche todas as lacunas deixadas pela partida prematura de Larson. Além de tudo, o diretor também já tinha uma conexão com </span><i><span style="font-weight: 400;">tick, tick… BOOM!</span></i><span style="font-weight: 400;"> dos seus dias de ator, onde </span><a href="https://www.youtube.com/watch?v=dNMp2mPN0Do"><span style="font-weight: 400;">interpretou Jon</span></a><span style="font-weight: 400;"> em uma produção do musical em 2014.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Dos grandes </span><a href="https://www.youtube.com/watch?v=1fe4P7_SbWs"><span style="font-weight: 400;">números extravagantes até as minúcias de caracterização</span></a><span style="font-weight: 400;">, o longa segue à risca o padrão obsessivo de perfeição do diretor que transparece em cada cena. Nos números </span><i><span style="font-weight: 400;">Therapy</span></i><span style="font-weight: 400;"> e </span><i><span style="font-weight: 400;">Swimming </span></i><span style="font-weight: 400;">é possível ver e sentir aquilo que Jonathan sentia e com certeza Lin-Manuel também. Assim como seus diretores, seus personagens sofrem paralelos tentando conciliar a vida real com seus sonhos de sucesso, em que Jon e Hamilton vão sempre além por aquilo que acreditam.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Jonathan Larson criou porque era isso que ele sabia fazer. O sucesso que o acompanhou foi o resultado de uma vida doada à sua arte e o amor por tudo e todos que o cercavam. </span><i><span style="font-weight: 400;">tick, tick… BOOM!</span></i><span style="font-weight: 400;"> é fruto da tentativa de expor os medos, as vontades e todas as questões que cercavam alguém tão singular que soube falar com uma pluralidade que atravessou todas as fronteiras de gerações. Apesar dos números, do sucesso, da lucratividade, dos prêmios, sua obra, vida e legado devem ser, acima de tudo, </span><a href="https://www.youtube.com/watch?v=UvyHuse6buY"><span style="font-weight: 400;">medidos em amor</span></a><span style="font-weight: 400;">.</span></p>
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		<title>Antígona 442 A.C.: aplausos para Andrea Beltrão</title>
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		<pubDate>Thu, 04 Nov 2021 21:11:13 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p>Ana Júlia Trevisan Antígona. Filha de Édipo Rei e Jocasta; irmã de Etéocles, Polinice e Ismênia; sobrinha de Creonte. Antígona. Obra do dramaturgo grego Sófocles que conversa com a atualidade e com os valores humanos pautados pela razão e pela emoção, e é a terceira peça da trilogia tebana. Antígona 442 A.C. Monólogo de Andrea &#8230; <a href="http://personaunesp.com.br/antigona-442-a-c-critica/" class="more-link">Continue lendo<span class="screen-reader-text"> "Antígona 442 A.C.: aplausos para Andrea Beltrão"</span></a></p>
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										<content:encoded><![CDATA[<figure id="attachment_24467" aria-describedby="caption-attachment-24467" style="width: 2560px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-full wp-image-24467" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/11/img1_antigona-scaled.jpg" alt="Cena de Antígona 442 A.C.. Nela está Andrea Beltrão. Vemos apenas o busto da atriz. Ela veste jaqueta de couro preta e em sua mão direita há uma luva preta que não cobre os dedos. Suas mãos estão na altura do rosto e elas seguram uma máscara branca que cobre o rosto da atriz. A imagem é escura e o fundo é preto." width="2560" height="1440" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/11/img1_antigona-scaled.jpg 2560w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/11/img1_antigona-800x450.jpg 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/11/img1_antigona-1024x576.jpg 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/11/img1_antigona-768x432.jpg 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/11/img1_antigona-1536x864.jpg 1536w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/11/img1_antigona-2048x1152.jpg 2048w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/11/img1_antigona-1200x675.jpg 1200w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 1362px) 62vw, 840px" /><figcaption id="caption-attachment-24467" class="wp-caption-text">Após a pausa nos teatros, Antígona 442 A.C. estreia na 45ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo (Foto: Taba Filmes)</figcaption></figure>
<p><b>Ana Júlia Trevisan</b></p>
<p><a href="https://brasilescola.uol.com.br/filosofia/a-tragedia-na-peca-teatral-antigona-sofocles.htm"><span style="font-weight: 400;">Antígona</span></a><span style="font-weight: 400;">. Filha de Édipo Rei e Jocasta; irmã de Etéocles, Polinice e Ismênia; sobrinha de Creonte. Antígona. Obra do dramaturgo grego Sófocles que conversa com a atualidade e com os valores humanos pautados pela razão e pela emoção, e é a terceira peça da trilogia tebana. </span><i><span style="font-weight: 400;">Antígona 442 A.C</span></i><span style="font-weight: 400;">. Monólogo de Andrea Beltrão, dirigido por Maurício Farias, destaque que integra a Mostra Brasil na 45ª </span><a href="https://personaunesp.com.br/tag/mostra-internacional-de-cinema-em-sao-paulo/"><span style="font-weight: 400;">Mostra Internacional</span></a><span style="font-weight: 400;"> de Cinema em São Paulo.</span></p>
<p><span id="more-24466"></span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Foi em 2015 que a vontade de </span><a href="https://personaunesp.com.br/hebe-a-estrela-do-brasil-critica/"><span style="font-weight: 400;">Andrea Beltrão</span></a><span style="font-weight: 400;"> de ter uma peça de teatro de resistência e que pudesse ser feita a qualquer momento, floresceu. Instigada por </span><a href="https://personaunesp.com.br/amor-e-sorte-critica/"><span style="font-weight: 400;">Fernanda Torres</span></a><span style="font-weight: 400;">, Beltrão condecorou</span><i><span style="font-weight: 400;"> Antígona </span></i><span style="font-weight: 400;">como um de seus textos favoritos e assim surgiu o desafio, transformar uma peça de teatro com no mínimo quinze personagens em um monólogo. A estreia de </span><i><span style="font-weight: 400;">Antígona</span></i><span style="font-weight: 400;"> aconteceu, oficialmente, nos palcos em 2019, mas o contexto epidêmico de covid-19 fez com que a peça tivesse um pouso forçado. Após esse hiato, </span><i><span style="font-weight: 400;">Antígona 442 A.C. </span></i><span style="font-weight: 400;">estreia na 45ª Mostra em forma de espetáculo filmado, onde a montagem é reestruturada para o Cinema, variando em cenas dos bastidores com estudo e mapas mentais da obra e partes da encenação no teatro.</span></p>
<figure id="attachment_24468" aria-describedby="caption-attachment-24468" style="width: 1362px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-full wp-image-24468" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/11/img2_antigona.jpg" alt="Cena de Antígona 442 A.C.. Nela está Andrea Beltrão. Uma mulher branca, de olhos castanhos, cabelo curto e castanho. Ela veste uma blusa listrada de azul e rosa. Sua mão direita está tocando a parede. Na parede há várias folhas brancas com nomes de personagens escritos em preto. Na imagem lemos “LAIO”. Entre as folhas há fitas adesivas nas cores azul, rosa e vermelho. O fundo da imagem ao lado direito é branco" width="1362" height="579" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/11/img2_antigona.jpg 1362w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/11/img2_antigona-800x340.jpg 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/11/img2_antigona-1024x435.jpg 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/11/img2_antigona-768x326.jpg 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/11/img2_antigona-1200x510.jpg 1200w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 1362px) 62vw, 840px" /><figcaption id="caption-attachment-24468" class="wp-caption-text">“Ninguém aprendeu muito com essa história de Sófocles” (Foto: Taba Filmes)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">A peça se inicia com o prólogo de </span><a href="https://ims.com.br/titular-colecao/millor-fernandes/"><span style="font-weight: 400;">Millôr Fernandes</span></a><span style="font-weight: 400;"> que ilustra todo contraponto com a realidade que vamos encarar de </span><i><span style="font-weight: 400;">Antígona 442 A.C</span></i><span style="font-weight: 400;">.:</span><i><span style="font-weight: 400;"> “e assim a história avança, em luta fratricida, ódio mortal, violência coletiva, tudo pago por fim, naturalmente, com a escravidão do povo,</span></i> <i><span style="font-weight: 400;">na derrota final.”</span></i><span style="font-weight: 400;"> O texto sobre a destruição de uma cidade parecia um tanto distópico em 2015. Mas, quando Andrea Beltrão estreou sua peça em 2019, qualquer semelhança com a realidade se tornou mera coincidência e com sua chegada ao digital em 2021, sua subversão política ecoa em notas agudas.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Antígona enfrenta a ordem do rei Creonte de deixar seu irmão Polinice, que lutou na guerra, sem sepultura para que seus restos mortais sejam devorados por animais selvagens. A jovem desobedece, realiza um ritual funerário digno ao irmão e rebate seu ato afirmando: </span><i><span style="font-weight: 400;">“morrer mais cedo não é amargura, deixar o corpo do meu irmão é amargura”</span></i><span style="font-weight: 400;">. Soberana em tela, Andrea Beltrão comove ao mesmo ponto que se </span><a href="https://www.youtube.com/watch?v=BIl-yhr4giY&amp;ab_channel=CanalCurta%21"><span style="font-weight: 400;">emociona</span></a><span style="font-weight: 400;"> com as próprias falas, usando o texto para não apenas gerar reflexão, mas também para provocar.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">O diferencial que torna magnífico é ver a própria Andrea Beltrão contando a história e se preparando para a peça. Há cortes para o teatro entre as cenas, que é quando a atriz aparece maquiada já em cima do palco, encenando com força cada uma de suas falas. Em seu estúdio de ensaio a entrega é com a mesma intensidade e precisão. De cara limpa, Andrea revela todo empenho aos estudos e a história que estava interpretando. Em sua parede, uma mapa mental dos personagens de Zeus aos </span><a href="https://greciantiga.org/arquivo.asp?num=0662"><span style="font-weight: 400;">tebanos</span></a><span style="font-weight: 400;">; em seu computador, roteiro e fotos que guiam a atriz por essa viagem entre séculos.</span></p>
<figure id="attachment_24469" aria-describedby="caption-attachment-24469" style="width: 2560px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-full wp-image-24469" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/11/img3_antigona-scaled.jpg" alt="Cena de Antígona 442 A.C.. Nela, ao lado direito, está Andrea Beltrão. Uma mulher branca, de olhos castanhos, cabelo curto e castanho. Ela veste blusa e jaqueta de couro pretas e um lenço vermelho envolta sua cabeça e seu pescoço. Seus olhos estão carregados por uma maquiagem preta e suas têmporas estão com glitter dourado. O lado esquerdo é uma parede de concreto com a iluminação preta." width="2560" height="1440" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/11/img3_antigona-scaled.jpg 2560w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/11/img3_antigona-800x450.jpg 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/11/img3_antigona-1024x576.jpg 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/11/img3_antigona-768x432.jpg 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/11/img3_antigona-1536x864.jpg 1536w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 1362px) 62vw, 840px" /><figcaption id="caption-attachment-24469" class="wp-caption-text">“Cara, um herói; coroa, um tirano” (Foto: Taba Filmes)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">Tamanha é a devoção mostrada nos bastidores que Andrea Beltrão se firma como dona de um conhecimento inigualável sobre o </span><a href="https://www.youtube.com/watch?v=kRLKAbzsUoU&amp;ab_channel=AncelmoGois"><span style="font-weight: 400;">texto de </span><i><span style="font-weight: 400;">Antígona 442 A.C</span></i><span style="font-weight: 400;">.</span></a><span style="font-weight: 400;">. As mudanças no tom de voz conforme ela encarna uma nova persona elucida a confiança da atriz e o conhecimento de cada vírgula da peça teatral; por meio da sua voz fica claro o poder e a importância da personagem na odisseia. Sua narrativa com olhar fixo para a plateia consagra a atriz dona do tablado, que domina o palco com tamanha destreza que não sentimos falta da plateia lotada. Sua linguagem corporal fala tão alto quanto a verbal, concentrando total atenção a figura da atriz, independente do lugar de onde a câmera esteja.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Imersa no próprio oásis, Andrea se emociona com a crescente narrativa. A razão e a emoção são postas lado a lado e Antígona não cede, ela abre mão de sua posição social e de poder para arriscar dar um último ato humano à memória do irmão. A peça teatral ganha nova ótica e substância no contexto pandêmico e tirano do </span><a href="https://www.bbc.com/portuguese/brasil-59096013"><span style="font-weight: 400;">Brasil de Bolsonaro</span></a><span style="font-weight: 400;">, enquanto os governantes responsáveis por esse genocídio não querem seus nomes correlacionados a essa tirania, temos milhares de Antígonas que lutam pelo </span><a href="https://g1.globo.com/politica/noticia/2020/04/20/nao-sou-coveiro-ta-diz-bolsonaro-ao-responder-sobre-mortos-por-coronavirus.ghtml"><span style="font-weight: 400;">respeito da memória</span></a><span style="font-weight: 400;"> de seus entes. E as palavras finais de Andrea reverberam com ainda mais precisão: </span><i><span style="font-weight: 400;">“os tebanos não tiveram outra chance, mas pra nós ainda há esperança”</span></i><span style="font-weight: 400;">.</span></p>
<div class="jetpack-video-wrapper"><iframe loading="lazy" title="ANTIGONA 442a.C.- PRÓLOGO" src="https://player.vimeo.com/video/555916110?dnt=1&amp;app_id=122963" width="840" height="473" frameborder="0" allow="autoplay; fullscreen; picture-in-picture; clipboard-write"></iframe></div>
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		<title>Quem somos e para onde vamos: a Utopia de David Byrne</title>
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		<pubDate>Wed, 25 Aug 2021 18:05:54 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p>João Batista Signorelli Quem precisa de cabos? Eles enrolam, estragam, dão nó, e não te deixam sair do lugar. Se isso já é um pesadelo pra mim, que tenho que lidar com um computador que não funciona com internet sem fio e precisa ficar ligado na tomada pra não morrer, imagina para um grupo musical &#8230; <a href="http://personaunesp.com.br/david-byrnes-american-utopia-critica/" class="more-link">Continue lendo<span class="screen-reader-text"> "Quem somos e para onde vamos: a Utopia de David Byrne"</span></a></p>
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										<content:encoded><![CDATA[<figure id="attachment_22552" aria-describedby="caption-attachment-22552" style="width: 1998px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-full wp-image-22552" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/08/american-utopia-1.jpg" alt="Cena do especial David Byrne’s American Utopia. A imagem mostra David Byrne, um homem branco de meia-idade, sentado à uma carteira escolar e segurando um modelo de um cérebro de plástico. Ele o estende à sua frente segurando-o com sua mão esquerda, enquanto aponta para ele com a mão esquerda apoiada. Ao fundo desfocada, há uma cortina feita de correntes finas prateadas. " width="1998" height="1129" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/08/american-utopia-1.jpg 1998w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/08/american-utopia-1-800x452.jpg 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/08/american-utopia-1-1024x579.jpg 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/08/american-utopia-1-768x434.jpg 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/08/american-utopia-1-1536x868.jpg 1536w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/08/american-utopia-1-1200x678.jpg 1200w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 1362px) 62vw, 840px" /><figcaption id="caption-attachment-22552" class="wp-caption-text">O especial foi responsável por 6 das 130 indicações da HBO no Emmy 2021 (Foto: HBO)</figcaption></figure>
<p><b>João Batista Signorelli</b></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Quem precisa de cabos? Eles enrolam, estragam, dão nó, e não te deixam sair do lugar. Se isso já é um pesadelo pra mim, que tenho que lidar com um computador que não funciona com </span><i><span style="font-weight: 400;">internet </span></i><span style="font-weight: 400;">sem fio e precisa ficar ligado na tomada pra não morrer, imagina para um grupo musical que precisa enfrentar todo dia uma teia de aranha no palco? David Byrne também se questionou, e chegou à conclusão de que dividir o palco com um emaranhado de cabos definitivamente </span><a href="https://www.prosoundweb.com/american-utopia-behind-the-scenes-on-a-technologically-challenging-tour/"><span style="font-weight: 400;">não estaria mais em seus planos</span></a><span style="font-weight: 400;">.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">O resultado dessa simples decisão foi o gigantesco </span><i><span style="font-weight: 400;">David Byrne’s American Utopia</span></i><span style="font-weight: 400;">, um </span><i><span style="font-weight: 400;">show</span></i><span style="font-weight: 400;"> que lotou teatros em 2018 e 2019, em uma aclamada turnê ovacionada pela crítica e pelo público, e que marcou passagem inclusive pelo Brasil, com apresentações</span> <span style="font-weight: 400;">em Porto Alegre, Rio de Janeiro, Belo Horizonte, e no </span><a href="https://g1.globo.com/pop-arte/musica/lollapalooza/2018/noticia/david-bryne-faz-espetaculo-e-deixa-novinhos-com-cara-de-ahn-em-show-impressionante-no-lolla.ghtml"><i><span style="font-weight: 400;">Lollapalooza</span></i></a><span style="font-weight: 400;"> de 2018 em São Paulo. Paralisada pela pandemia, a performance já tem </span><a href="https://broadwaydirect.com/david-byrnes-american-utopia-returns-to-broadway-new-theatre-announced/"><span style="font-weight: 400;">data marcada</span></a><span style="font-weight: 400;"> para voltar aos palcos da </span><i><span style="font-weight: 400;">Broadway</span></i><span style="font-weight: 400;">.</span></p>
<p><span id="more-22551"></span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Impelido a registrar a performance, Byrne </span><a href="https://www.youtube.com/watch?v=1CsrhM5sv4Y"><span style="font-weight: 400;">contatou</span></a><span style="font-weight: 400;"> outro nome de peso para transformar em filme o espetáculo: Spike Lee. A então parceria produzida pela </span><i><span style="font-weight: 400;">HBO </span></i><span style="font-weight: 400;">entre o ex-vocalista do Talking Heads e o diretor de </span><a href="https://personaunesp.com.br/destacamento-blood-critica/"><i><span style="font-weight: 400;">Destacamento Blood</span></i></a><span style="font-weight: 400;"> rendeu seis indicações ao </span><a href="https://personaunesp.com.br/tag/emmy-2021/"><i><span style="font-weight: 400;">Emmy </span></i><span style="font-weight: 400;">2021</span></a><i><span style="font-weight: 400;">. American Utopia </span></i><span style="font-weight: 400;">marca presença ao lado de </span><a href="https://personaunesp.com.br/bo-burnham-inside-critica/"><span style="font-weight: 400;">Bo Burnham</span></a><span style="font-weight: 400;">,</span> <a href="https://personaunesp.com.br/hamilton-critica/"><i><span style="font-weight: 400;">Hamilton</span></i></a><span style="font-weight: 400;"> e </span><a href="https://personaunesp.com.br/friends-the-reunion-critica/"><i><span style="font-weight: 400;">Friends</span></i></a><span style="font-weight: 400;"> na concorrida categoria de Melhor Especial de Variedades (Pré-Gravado),  além de Melhor Direção em Especial de Variedades para Spike Lee, Direção Musical e mais quatro categorias técnicas em Especial de Variedades: Iluminação, Mixagem</span> <span style="font-weight: 400;">de Som, e Direção Técnica/Trabalho de Câmera.</span></p>
<figure id="attachment_22553" aria-describedby="caption-attachment-22553" style="width: 2048px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-full wp-image-22553" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/08/american-utopia-2.jpg" alt="Cena do especial David Byrne's American Utopia. Cinco pessoas vestindo ternos cinzas e descalços se encontram em pé, voltados para a mesma direção. A ambientação se encontra toda escura, com exceção de cinco quadrados iluminados posicionados logo abaixo das pessoas. Da esquerda para a direita são vistos um homem branco tocando um tambor, uma mulher jovem e negra, um jovem branco e ruivo, e um homem branco de meia idade, os três com os braços paralelos ao corpo, e por fim um homem branco calvo tocando um teclado suspenso em seu próprio corpo. Todos têm sua fisionomia ofuscada pela ausência de luz frontal, com exceção do homem de meia idade, que é David Byrne, que recebe uma luz frontal criando uma sombra atrás de si para além do quadrado." width="2048" height="1365" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/08/american-utopia-2.jpg 2048w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/08/american-utopia-2-800x533.jpg 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/08/american-utopia-2-1024x683.jpg 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/08/american-utopia-2-768x512.jpg 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/08/american-utopia-2-1536x1024.jpg 1536w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/08/american-utopia-2-1200x800.jpg 1200w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 1362px) 62vw, 840px" /><figcaption id="caption-attachment-22553" class="wp-caption-text">O elaborado jogo de luz nunca desvia a atenção do elemento principal: os seres humanos (Foto: HBO)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">Não é a primeira vez que David Byrne é destaque em um filme de um diretor consagrado documentando um concerto seu. </span><a href="https://www.rogerebert.com/reviews/stop-making-sense-1984"><i><span style="font-weight: 400;">Stop Making Sense</span></i></a><i><span style="font-weight: 400;">, </span></i><span style="font-weight: 400;">de 1986, considerado um dos mais importantes filmes-concerto da história, trazia Byrne à frente dos Talking Heads vestindo o icônico terno gigante, com direção de Jonathan Demme, que alguns anos mais tarde subiria a um outro palco para receber o </span><i><span style="font-weight: 400;">Oscar </span></i><span style="font-weight: 400;">de Melhor Direção por </span><a href="https://personaunesp.com.br/o-silencio-dos-inocentes-30-anos/"><i><span style="font-weight: 400;">O Silêncio dos Inocentes</span></i></a><i><span style="font-weight: 400;">. </span></i><span style="font-weight: 400;">Spike Lee, por sua vez, já é um veterano dos videoclipes, tendo trabalhado com artistas como Stevie Wonder, Public Enemy, e até Michael Jackson no </span><a href="https://www.youtube.com/watch?v=QNJL6nfu__Q"><span style="font-weight: 400;">icônico clipe</span></a><span style="font-weight: 400;"> de </span><i><span style="font-weight: 400;">They Don’t Care About Us, </span></i><span style="font-weight: 400;">gravado no Brasil. O encontro destas duas mentes brilhantes resulta em uma das mais expressivas realizações artísticas do passado recente. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">O espetáculo se inicia com Byrne sozinho no palco, sentado à uma carteira escolar, trocando uma caveira por um cérebro e cantando o seu próprio </span><i><span style="font-weight: 400;">“</span></i><a href="https://www.youtube.com/watch?v=5ks-NbCHUns&amp;t=116s"><i><span style="font-weight: 400;">To be or not to be</span></i></a><i><span style="font-weight: 400;">” </span></i><span style="font-weight: 400;">em </span><a href="https://www.youtube.com/watch?v=kP58AVjZCqE"><i><span style="font-weight: 400;">Here</span></i></a><span style="font-weight: 400;">. Mas ao invés de refletir sobre o propósito do existir aos moldes de Shakespeare, ele faz uma descrição da geografia do órgão principal do sistema nervoso. O que parece a princípio uma aula de biologia logo aponta para seus desdobramentos mais humanos: através do telencéfalo, nós entendemos o mundo, sentimos, amamos, vivemos. A partir daí, o artista nos leva a uma jornada através da experiência humana, buscando entender aquilo que nos conecta uns aos outros como semelhantes.</span></p>
<figure id="attachment_22554" aria-describedby="caption-attachment-22554" style="width: 780px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-full wp-image-22554" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/08/american-utopia-3.jpg" alt="Cena do especial David Byrne’s American Utopia. A imagem mostra de perto um homem branco de meia-idade, David Byrne, vestindo um terno cinza e cantando com um microfone na lateral de seu rosto. Em seus dois lados, há bem próxima uma cortina formada por correntes prateadas finas." width="780" height="439" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/08/american-utopia-3.jpg 780w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/08/american-utopia-3-768x432.jpg 768w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 984px) 61vw, (max-width: 1362px) 45vw, 600px" /><figcaption id="caption-attachment-22554" class="wp-caption-text">Lançado em 2020 no HBO Max norte-americano, o especial ainda não tem previsão de chegada ao Brasil (Foto:HBO)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">Pouco se passa até que ele não se encontre mais sozinho no palco, agora acompanhado por uma legião de músicos e uma dupla de dançarinos-cantores, todos descalços, vestindo ternos cinzas, e sempre ocupando o palco à frente de um único cenário. Em contraponto aos concertos de </span><i><span style="font-weight: 400;">rock </span></i><span style="font-weight: 400;">tradicionais, com a tentativa de compensar o tédio de ver os músicos em uma mesma disposição por duas horas com telões cheios de projeções com imagens pra lá de óbvias, Byrne se esvazia de todos os elementos distrativos, e chama a atenção para aquilo que importa até mais do que a própria música: as pessoas. Pois afinal, se existe a música para ser tocada e ouvida, é porque também há, inevitavelmente, seres humanos com o impulso criativo de comunicá-la para seus semelhantes.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">As músicas escolhidas são uma mistura de uma seleção de clássicos do Talking Heads como </span><a href="https://www.youtube.com/watch?v=_3eC35LoF4U"><i><span style="font-weight: 400;">Burning Down the House</span></i></a> <span style="font-weight: 400;">e </span><a href="https://www.youtube.com/watch?v=JccW-mLdNe0"><i><span style="font-weight: 400;">This Must Be the Place (Naive Melody)</span></i></a><span style="font-weight: 400;">, com canções de seu mais recente álbum solo, que também leva o título de </span><i><span style="font-weight: 400;">American Utopia</span></i><span style="font-weight: 400;">.</span> <span style="font-weight: 400;">Ainda que carreguem conteúdos tão variados em suas letras, elas ainda parecem se encaixar com certa coerência, representando a longa busca que é fruto da tentativa de entender quem somos, como nos relacionamos, ou o que é de fato um lar. Muitas das canções parecem funcionar ainda melhor ao vivo, como é o caso das perguntas retóricas de </span><a href="https://www1.folha.uol.com.br/poder/2020/03/veja-tudo-o-que-se-sabe-sobre-a-morte-de-marielle-dois-anos-depois.shtml"><i><span style="font-weight: 400;">Once in a Lifetime</span></i></a><i><span style="font-weight: 400;">, </span></i><span style="font-weight: 400;">que ganham um novo sentido ao ter a plateia como interlocutora.</span></p>
<div class="jetpack-video-wrapper"><iframe loading="lazy" title="David Byrne&#039;s American Utopia (2020): Creating American Utopia | HBO" width="840" height="473" src="https://www.youtube.com/embed/1CsrhM5sv4Y?feature=oembed" frameborder="0" allow="accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share" referrerpolicy="strict-origin-when-cross-origin" allowfullscreen></iframe></div>
<p><span style="font-weight: 400;">Não por acaso, o possível desconhecimento do repertório de canções do cantor pouco interfere no aproveitamento da experiência. Voltando ao formato de </span><i><span style="font-weight: 400;">show</span></i><span style="font-weight: 400;"> convencional, este tende a funcionar com suas limitações em grande parte devido ao engajamento do público com a </span><i><span style="font-weight: 400;">setlist</span></i><span style="font-weight: 400;">.</span> <span style="font-weight: 400;">A relação entre os artistas e a plateia é intermediada pela música, luzes e pirotecnia, mas Byrne nos mostra que não precisa ser assim. Ele nos pega pela mão, e convida a participar daquela sua Utopia junto com sua trupe, cuja humanidade nunca sai do foco. Mesmo o elaborado jogo de luzes, merecedor de sua indicação ao </span><i><span style="font-weight: 400;">Emmy</span></i><span style="font-weight: 400;">,</span> <span style="font-weight: 400;">mantém-se fiel à sua missão de dar destaque às pessoas, nunca roubando seu protagonismo. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Outro aspecto que colabora para enriquecer o aspecto humano de <em>David Byrne&#8217;s American Utopia</em></span><i><span style="font-weight: 400;"> </span></i><span style="font-weight: 400;">é a abolição dos cabos, substituídos por tecnologias sem fio, o que se torna o maior catalisador de possibilidades criativas para o espetáculo. Livrando-se das amarras limitadoras impostas pelo sistema de som, os músicos têm agora a possibilidade de movimentar-se por todas as direções. As </span><a href="https://www.vulture.com/2019/11/american-utopia-broadway-annie-b-parson-david-byrne.html"><span style="font-weight: 400;">coreografias desenhadas por Annie-B Parson</span></a><span style="font-weight: 400;"> exploram todo o espaço do palco, dando uma unidade àquele grupo de indivíduos tão diversos, e que mesmo vestindo um mesmo uniforme e marchando em conjunto ordenadamente, não deixam de transparecer suas cores e modo de ser, em um raro contexto onde a homogeneidade de um coletivo não ofusca as identidades individuais.</span></p>
<figure id="attachment_22556" aria-describedby="caption-attachment-22556" style="width: 2560px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-full wp-image-22556" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/08/american-utopia-4-1-scaled.jpg" alt="Cena do especial David Byrne’s American Utopia. A imagem mostra parte do elenco do musical no palco enfileirada à esquerda, todos de terno cinza e descalços, com os instrumentistas voltados para o centro do palco onde David Byrne, um homem branco de meia-idade, faz um passo de dança com as pernas torcidas e os braços suspensos no ar. Da frente para trás à esquerda, são vistos um homem e uma mulher negros tocando respectivamente baixo e guitarra, uma mulher negra com cabelo preso cheio de tranças executando um passo de dança com um braço estendido para cima, quatro instrumentistas, e ao fundo um homem branco e ruivo executando o mesmo passo que a mulher negra. O palco é cercado por uma alta cortina formada por correntes prateadas finas. " width="2560" height="1707" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/08/american-utopia-4-1-scaled.jpg 2560w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/08/american-utopia-4-1-800x533.jpg 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/08/american-utopia-4-1-1024x683.jpg 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/08/american-utopia-4-1-768x512.jpg 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/08/american-utopia-4-1-1536x1024.jpg 1536w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/08/american-utopia-4-1-2048x1365.jpg 2048w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/08/american-utopia-4-1-1200x800.jpg 1200w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 1362px) 62vw, 840px" /><figcaption id="caption-attachment-22556" class="wp-caption-text">A energia de American Utopia é contagiante (Foto: HBO)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">Entre o elenco oriundo de diversos países, em <em>David Byrne&#8217;s American Utopia</em> figuram dois brasileiros: o baiano </span><a href="https://www.instagram.com/gustavodidalva/?hl=pt-br"><span style="font-weight: 400;">Gustavo Di Dalva</span></a><span style="font-weight: 400;"> e </span><a href="https://www.instagram.com/maurorefosco/?hl=pt"><span style="font-weight: 400;">Mauro Refosco</span></a><span style="font-weight: 400;"> de Santa Catarina. Com eles, berimbaus, atabaques, e outros instrumentos nacionais marcam presença no palco. O carinho de Byrne com o Brasil é antigo, já tendo</span><a href="https://rollingstone.uol.com.br/blog/musica-popular-brasileira/era-uma-vez-caetano-veloso-e-david-byrne-ha-8-anos-no-carnegie-hall/"><span style="font-weight: 400;"> gravado um disco</span></a><span style="font-weight: 400;"> ao vivo com Caetano Veloso, além de ser um dos principais responsáveis pela popularização de Os Mutantes fora do Brasil através do seu selo </span><a href="https://www.luakabop.com/artists"><span style="font-weight: 400;">Luaka Bop</span></a><span style="font-weight: 400;">, e de ter levado para o exterior diversos nomes da música brasileira como </span><a href="https://personaunesp.com.br/tim-maia-o-sonho-todo-azul-que-se-tornou-realidade/"><span style="font-weight: 400;">Tim Maia</span></a><span style="font-weight: 400;"> e Tom Zé. Reunindo diferentes culturas através de seu elenco diverso, David Byrne nos dá um gostinho do como seria essa sua utopia.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Tornar o mundo um lugar para todos viverem é um dos principais ideais que movem a performance. E do mesmo modo que a simples rejeição aos fios possibilita uma infinitude de novas perspectivas para a expressão artística no palco, é nas pequenas coisas que fazem grande diferença que Byrne alicerça sua utopia. Exemplo disso é o segmento onde ele, educadamente, demonstra o quão importante é a participação de todos nas eleições, determinantes para o futuro daquele e de todos os países. O engajamento social também se faz presente na canção </span><i><span style="font-weight: 400;">Hell You Talmbout</span></i><span style="font-weight: 400;">, uma homenagem respeitosa e solene à </span><a href="https://www.history.com/this-day-in-history/eric-garner-dies-nypd-chokehold"><span style="font-weight: 400;">Eric Garner</span></a><span style="font-weight: 400;">, </span><a href="https://www.bbc.com/news/world-us-canada-32400497"><span style="font-weight: 400;">Freddie Gray</span></a><span style="font-weight: 400;">, </span><a href="https://www1.folha.uol.com.br/poder/2020/03/veja-tudo-o-que-se-sabe-sobre-a-morte-de-marielle-dois-anos-depois.shtml"><span style="font-weight: 400;">Marielle Franco</span></a><span style="font-weight: 400;">, e às tantas outras vidas negras perdidas para o sistema que deveria protegê-las.</span></p>
<figure id="attachment_22557" aria-describedby="caption-attachment-22557" style="width: 1917px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-full wp-image-22557" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/08/american-utopia-5.jpg" alt="Cena do especial David Byrne’s American Utopia. A imagem mostra o elenco aglomerado no palco, doze pessoas vestindo ternos cinzentos e descalços, grande parte deles tocando diferentes instrumentos. Há três berimbaus à esquerda, além de guitarra, baixo, e instrumentos percussivos. Ao centro e à frente, David Byrne, um homem branco de meia-idade, faz um gesto de dança com os braços. Atrás deles, algumas das pessoas levantam os braços com os punhos fechados. O palco é cercado por uma alta cortina formada por correntes prateadas finas." width="1917" height="1078" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/08/american-utopia-5.jpg 1917w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/08/american-utopia-5-800x450.jpg 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/08/american-utopia-5-1024x576.jpg 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/08/american-utopia-5-768x432.jpg 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/08/american-utopia-5-1536x864.jpg 1536w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/08/american-utopia-5-1200x675.jpg 1200w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 1362px) 62vw, 840px" /><figcaption id="caption-attachment-22557" class="wp-caption-text">“Como eu não sou como meu irmão? Como você não é como eu?” (Foto: HBO)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">Tal posicionamento justifica ainda mais a escolha de Spike Lee para a direção do projeto. Lee, que vem chacoalhando o </span><i><span style="font-weight: 400;">status quo </span></i><span style="font-weight: 400;">desde que </span><a href="https://www.indiewire.com/2019/06/do-the-right-thing-spike-lee-30-anniversary-1202154208/"><i><span style="font-weight: 400;">Faça a Coisa Certa</span></i></a> <span style="font-weight: 400;">estreou em </span><i><span style="font-weight: 400;">Cannes </span></i><span style="font-weight: 400;">em 1989, oferece sempre um olhar certeiro para os conflitos sociais. O diretor enriquece através de sua lente um </span><i><span style="font-weight: 400;">show </span></i><span style="font-weight: 400;">que por si já era espetacular, transportando toda a sua vivacidade para as telas daqueles que não tiveram a oportunidade de testemunhar este evento ao vivo, e eternizando a utopia que, caso não fosse registrada, seria apenas um acontecimento passageiro. O encontro entre David Byrne e Spike Lee, duas vozes tão marcantes de uma mesma geração, não poderia ter sido tão bem-sucedido. </span></p>
<p><i><span style="font-weight: 400;">David Byrne&#8217;s American Utopia </span></i><span style="font-weight: 400;">nos mostra que é possível fazer muito com pouco, e que certos excessos podem se tornar elementos limitadores para a liberdade criativa. Sem cabos e sem amarras, testemunhamos a enormidade de coisas que podem ser feitas em um palco, ou mais do que isso, a enormidade de coisas que podem ser feitas em um palco</span><i><span style="font-weight: 400;"> por pessoas</span></i><span style="font-weight: 400;">. Pois no final, o que buscamos em uma obra de arte, nos relacionamentos, ou na própria vida, vai muito além de meras emoções ou sensações satisfatórias. Buscamos aquilo que é humano em si mesmo, e que nos revela que também o somos.</span></p>
<div class="jetpack-video-wrapper"><iframe loading="lazy" title="David Byrne&#039;s American Utopia (2020): Official Trailer | HBO" width="840" height="473" src="https://www.youtube.com/embed/lg4hcgtjDPc?feature=oembed" frameborder="0" allow="accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share" referrerpolicy="strict-origin-when-cross-origin" allowfullscreen></iframe></div>
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		<title>45 anos de Falso Brilhante: a vida de Elis Regina é a nossa joia mais preciosa</title>
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		<pubDate>Wed, 17 Mar 2021 20:06:26 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p>Raquel Dutra O legado na música brasileira não é o suficiente para eu me conformar. Vez ou outra, ainda me pergunto como é que alguém conseguiu convencer o sofrido povo brasileiro de que “viver é melhor que sonhar”. O sentido ensaia desenhar-se segundos depois, quando eu me lembro que quem cantou isso foi a sonhadora &#8230; <a href="http://personaunesp.com.br/falso-brilhante-45-anos/" class="more-link">Continue lendo<span class="screen-reader-text"> "45 anos de Falso Brilhante: a vida de Elis Regina é a nossa joia mais preciosa"</span></a></p>
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										<content:encoded><![CDATA[<figure id="attachment_19092" aria-describedby="caption-attachment-19092" style="width: 840px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-large wp-image-19092" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/03/EaEvgYJX0AIk89R-1024x819.jpg" alt="Fotografia de Elis Regina apresentando seu espetáculo Falso Brilhante. A artista está ao centro da imagem, numa passarela, cercada pelo público. Ela está de frente para a câmera mas contra a luz, que impede de exergarmos seu rosto. Ela segura uma bandeira grande na mão direita e um microfone na mão esquerda. Elis usa um vestido lingo, branco, de alças finas e estampado por estrelas prateadas. Ela também usa uma chapéu com uma pena grande e seus cabelos são curtos. A fotografia está colorida em tons de amarelo e um cinza azulado." width="840" height="672" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/03/EaEvgYJX0AIk89R-1024x819.jpg 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/03/EaEvgYJX0AIk89R-300x240.jpg 300w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/03/EaEvgYJX0AIk89R-768x614.jpg 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/03/EaEvgYJX0AIk89R.jpg 1200w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 1362px) 62vw, 840px" /><figcaption id="caption-attachment-19092" class="wp-caption-text">O disco que nasceu do espetáculo sobre a vida de Elis Regina é considerado um dos mais importantes da música brasileira e da carreira da artista (Foto: Reprodução)</figcaption></figure>
<p><b>Raquel Dutra</b></p>
<p><span style="font-weight: 400;">O legado na música brasileira não é o suficiente para eu me conformar. Vez ou outra, ainda me pergunto como é que alguém conseguiu convencer o sofrido povo brasileiro de que “</span><i><span style="font-weight: 400;">viver é melhor que sonhar</span></i><span style="font-weight: 400;">”. O sentido ensaia desenhar-se segundos depois, quando eu me lembro que quem cantou isso foi a sonhadora que é a concretização da ideia mais pura e completa do que pode vir a ser a vida. Mas mesmo assim, ainda é instigante, já que ela, em toda sua grandiosidade e relevância, ainda acrescenta que “</span><i><span style="font-weight: 400;">qualquer canto é menor do que a vida de qualquer pessoa</span></i><span style="font-weight: 400;">”.  </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Quer profundidade mais condizente com a maior artista do Brasil do que a que ela mesma cria na obra que conta a sua história de vida, realiza seus maiores </span><a href="https://www.letras.com/elis-regina/1012329/"><span style="font-weight: 400;">sonhos</span></a><span style="font-weight: 400;"> e desmistifica sua própria arte? Muito significado, muita intensidade e muita pulsão de vida: assim foi <a href="http://www.elisregina.com.br/index.php">Elis Regina</a>, e assim foi </span><a href="http://enciclopedia.itaucultural.org.br/obra70098/falso-brilhante"><i><span style="font-weight: 400;">Falso Brilhante</span></i></a><i><span style="font-weight: 400;">, </span></i><span style="font-weight: 400;">cuja riqueza era autoexplicativa em 1976 e assim permanece até os dias de hoje &#8211; e muito provavelmente, assim será por todo o resto da nossa história.</span></p>
<p><span id="more-19091"></span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Há 45 anos, o disco é responsável por confirmar a preciosidade da artista e abrigar algumas das canções mais atemporais da música brasileira. Considerado um dos álbuns mais importantes dentre todas as coletâneas mais maravilhosas que um dia já surgiram dos nossos artistas, <em>Falso Brilhante</em> é também a obra mais relevante da vasta discografia e carreira de Elis.</span></p>
<figure id="attachment_19093" aria-describedby="caption-attachment-19093" style="width: 564px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-full wp-image-19093" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/03/71e3d578aecd93c7294f248ddc7377e8.jpg" alt="Fotografia de Elis Regina no espetáculo Falso Brilhante. Na imagem, a artista segura uma barra com as mãos e parece estar pendurada. Ela olha para baixo, com os olhos quase fechados, e veste uma roupa branca. " width="564" height="660" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/03/71e3d578aecd93c7294f248ddc7377e8.jpg 564w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/03/71e3d578aecd93c7294f248ddc7377e8-256x300.jpg 256w" sizes="auto, (max-width: 564px) 85vw, 564px" /><figcaption id="caption-attachment-19093" class="wp-caption-text">Quando questionada sobre o conceito do espetáculo, Elis afirmava com certeza: “Não há brilhante mais falso que a vida de artista” (Foto: Reprodução)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">O projeto </span><i><span style="font-weight: 400;">Falso Brilhante</span></i><span style="font-weight: 400;"> nasceu no coração e mente de Elis misturando influências circenses com a sua história de vida e uma carga política sagaz em plena <a href="http://memoriasdaditadura.org.br/">ditadura militar</a>. Ainda bem, a pisciana nunca teve medo de apostar em seus sonhos e nas ideias mirabolantes que surgiam dos seus botões de artista. Ela investiu tudo o que tinha, armou o circo e colocou no mundo um <a href="https://www.looke.com.br/filmes/elis-regina-falso-brilhante">espetáculo grandioso</a>, que permaneceu em cartaz no Teatro Bandeirante na cidade de São Paulo entre dezembro de 1975 e fevereiro de 1977, em mais de 300 apresentações apreciadas por cerca de 280 mil pessoas, que ocupavam as mil cadeiras do teatro de quarta à domingo.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">O ponto chave não era o conteúdo em si, já que a estrela havia crescido junto com o Brasil e <a href="https://elainectimm.medium.com/elis-regina-o-sentimento-entre-as-notas-6e12cfe4549">sua história</a>, origem humilde e percalços até engatar a carreira eram de conhecimento do público tanto quanto suas mais bem-sucedidas canções. Para contar sua trajetória em </span><i><span style="font-weight: 400;">Falso Brilhante</span></i><span style="font-weight: 400;">, Elis foi além. Não buscando uma narrativa de ascensão e realização plena de sonhos, mas subvertendo as expectativas e obviedades para ser, como sempre, verdadeira com o que sentia. E naquele momento, a dimensão sensível da artista era tomada pela decepção. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Como todo fenômeno conduzido por uma alma vivaz, a relevância de </span><i><span style="font-weight: 400;">Falso Brilhante</span></i><span style="font-weight: 400;">, que ainda tinha a direção cênica de <a href="http://enciclopedia.itaucultural.org.br/pessoa109259/myrian-muniz">Myriam Muniz</a> e musical de seu esposo, o pianista <a href="https://www.cesarcamargomariano.com/biografia/">Cesar Camargo Mariano</a>, superou todas as expectativas e transcendeu qualquer rotulação possível. O que de início tratava sobre os sentimentos pessoais de Elis quanto ao país e sua profissão se tornou um registro histórico e denunciante da situação do artista brasileiro e da sociedade como um todo da década de 70, que ainda sentia o reverberar dos <a href="https://www.camara.leg.br/radio/programas/279778-periodo-da-historia-do-brasil-conhecido-como-os-anos-de-chumbo/#:~:text=Nos%20%C3%BAltimos%20anos%20da%20d%C3%A9cada,chamados%20%22anos%20de%20chumbo%22.">anos de chumbo</a> do regime militar. </span></p>
<figure id="attachment_19094" aria-describedby="caption-attachment-19094" style="width: 840px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-large wp-image-19094" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/03/capa-do-disco-e1616005157699-1024x509.jpg" alt="Capa e contracapa do disco Falso Brilhante, de Elis Regina. A imagem tem o fundo amarelo suave e é decorada por arabescos e pequenos elefantes, ilustrações com referências circenses que contornam a imagem. No lado direito, que compõe a capa do disco, está escrito o nome da artista em fonte circense colorida em branco e vermelho, em caixa alta. Embaixo do nome de Elis, está o nome do disco, numa fonte mais fina ainda clássica e em caixa alta, em preto. No lado esquerdo, que é a contracapa, existe uma ilustração de uma boneca segurando um ovo grande ao centro. Na lateral esquerda, pequeno, está a lista das músicas do disco." width="840" height="418" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/03/capa-do-disco-e1616005157699-1024x509.jpg 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/03/capa-do-disco-e1616005157699-300x149.jpg 300w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/03/capa-do-disco-e1616005157699-768x382.jpg 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/03/capa-do-disco-e1616005157699-1536x764.jpg 1536w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/03/capa-do-disco-e1616005157699-1200x597.jpg 1200w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/03/capa-do-disco-e1616005157699.jpg 1920w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 1362px) 62vw, 840px" /><figcaption id="caption-attachment-19094" class="wp-caption-text">O nome do projeto foi retirado do bolero Dois Pra Lá, Dois Pra Cá, letra de Aldir Blanc famosa na voz de Elis que nada tinha a ver com a temática que a artista queria explorar, mas caiu como uma luva (Foto: Reprodução)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">O </span><i><span style="font-weight: 400;">show</span></i><span style="font-weight: 400;"> era impossível de se parar, e quando a ideia de registrar parte do repertório de </span><i><span style="font-weight: 400;">Falso Brilhante</span></i><span style="font-weight: 400;"> em estúdio surgiu, o tempo que Elis e sua equipe encontraram para gravar e </span><i><span style="font-weight: 400;">mixar </span></i><span style="font-weight: 400;">o disco foi um dos intervalos de folga das exibições, com a produção de <a href="https://www.correiobraziliense.com.br/app/noticia/diversao-e-arte/2011/08/21/interna_diversao_arte,266412/marco-mazzola-o-homem-que-testemunhou-e-fez-acontecer-a-historia-da-mpb.shtml">Marcos Mazzola</a>. E a aura do disco é especial desde sua mais inicial concepção. Gravado sob a produção entre as apresentações do espetáculo, o álbum tem o gosto raro da energia de Elis nos palcos. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Um dos maiores triunfos acaba por ser também um dos seu único defeitos. A rotina pesada do </span><i><span style="font-weight: 400;">show</span></i><span style="font-weight: 400;"> obviamente desgastou a artista e a disposição da banda, e é por isso que, numa análise unicamente técnica, o álbum é considerado inferior às obras anteriores &#8211; o maravilhoso </span><a href="https://open.spotify.com/album/3SE9n6EaVOJ81KA1KPLUWS?si=3fIdrnp4SgW9NVT1hdow6g"><i><span style="font-weight: 400;">Elis &amp; Tom</span></i></a><span style="font-weight: 400;">, de 1974 &#8211; e posteriores &#8211; o memorável </span><a href="https://open.spotify.com/album/67UdOjU4vLZx8yoHgXkNes?si=7IGHsz2VTSqsJGm9cKZDqg"><i><span style="font-weight: 400;">Elis</span></i></a><span style="font-weight: 400;">, de 1977, que carrega a canção que inspirou seu próximo espetáculo, </span><a href="http://enciclopedia.itaucultural.org.br/obra67781/transversal-do-tempo"><i><span style="font-weight: 400;">Transversal do Tempo</span></i></a><span style="font-weight: 400;">.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">O repertório também estava longe de ser leviano e exigia tudo e mais um pouco da artista. As 42 canções do </span><i><span style="font-weight: 400;">show</span></i><span style="font-weight: 400;"> dividiam-se em dois atos, passeando entre diferentes gêneros, tons, arranjos, </span><i><span style="font-weight: 400;">performances</span></i><span style="font-weight: 400;"> e línguas. Para o disco, a lista se condensou em 10 canções escolhidas a dedo para resumir perfeitamente o que era a ideia e execução de </span><i><span style="font-weight: 400;">Falso Brilhante</span></i><span style="font-weight: 400;">, contando ainda com algumas inéditas. Delas, surgem cantos de amor e versos apaixonados, protestos políticos, hinos de resistência evocando irmandade e expressões de sonhos e idealismo, ritmados no </span><i><span style="font-weight: 400;">samba</span></i><span style="font-weight: 400;">, </span><i><span style="font-weight: 400;">bolero</span></i><span style="font-weight: 400;"> e </span><i><span style="font-weight: 400;">rock</span></i><span style="font-weight: 400;"> e interpretados em português e espanhol.</span></p>
<figure id="attachment_19095" aria-describedby="caption-attachment-19095" style="width: 540px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-full wp-image-19095" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/03/Elis.jpg" alt="Fotografia de Elis Regina apresentando seu espetáculo Falso Brilhante. A artista está ao centro da imagem, ajoelhada no palco, segurando um microfone com a mão esquerda e esticando a direita para o lado. Elis olha para baixo, usando um chapéu com uma pena e um vestido branco estampado por estrelas prateadas. Ao fundo, é possível observar parte do cenário do show desfocado. A imagem está em preto e branco e Elis é iluminada por um foco de luz." width="540" height="525" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/03/Elis.jpg 540w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/03/Elis-300x292.jpg 300w" sizes="auto, (max-width: 540px) 85vw, 540px" /><figcaption id="caption-attachment-19095" class="wp-caption-text">Reza a lenda que quando os músicos e demais profissionais envolvidos no show, preocupados com Elis, alertaram-na sobre os riscos de forçar tanto as cordas vocais, ela respondeu: “Não se preocupe, não é a voz que canta” (Foto: Reprodução)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">O primeiro contato que </span><i><span style="font-weight: 400;">Falso Brilhante</span></i><span style="font-weight: 400;"> estabelece com o ouvinte já é irresistível de tamanha honra. Com o grande prazer que é ser chamado de “</span><i><span style="font-weight: 400;">meu grande amor</span></i><span style="font-weight: 400;">” por Elis Regina, somos convidados ao disco com uma das últimas músicas da </span><i><span style="font-weight: 400;">setlist</span></i><span style="font-weight: 400;"> do </span><i><span style="font-weight: 400;">show</span></i><span style="font-weight: 400;"> que se encaixa perfeitamente em sua abertura. “</span><i><span style="font-weight: 400;">Não quero lhe falar (…) /Das coisas que aprendi nos discos/Quero lhe falar como eu vivi/E tudo que aconteceu comigo</span></i><span style="font-weight: 400;">”, ela explica suas intenções com o projeto sob um acordes de um violão calmo e certeiro. Estamos na inconfundível </span><a href="https://genius.com/Elis-regina-como-nossos-pais-lyrics"><i><span style="font-weight: 400;">Como Nossos Pais</span></i></a><span style="font-weight: 400;">.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Não existe nada mais especial do que ser apresentado à obra da vida de Elis Regina &#8211; em todos os sentidos possíveis da expressão &#8211; do que através da canção que é uma das mais marcantes de sua carreira e de toda a história da música brasileira. Escrita por <a href="https://enciclopedia.itaucultural.org.br/pessoa101849/belchior">Belchior</a>, o gênio que ela descobriu e impulsionou, a canção fez história na interpretação da artista, que externalizava suas maiores desilusões numa universalidade e identificação que só pode ser atingida pelo artista que é tomado de sinceridade e coragem.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Aqui, já é possível concluir a adoração que a artista mantinha pela vida &#8211; a sua, a do próximo, da arte, da música e do Brasil. A Elis refletida em </span><i><span style="font-weight: 400;">Falso Brilhante</span></i><span style="font-weight: 400;"> é assim, fincada no presente, sempre visionária e nunca nostálgica. Seu inferno era o passado e o retrocesso, como ela continua a confessar “</span><i><span style="font-weight: 400;">Minha dor é perceber/Que apesar de termos feito tudo o que fizemos/Ainda somos os mesmos/E vivemos (…)Como os nossos pais</span></i><span style="font-weight: 400;">” em um dos versos mais conhecidos e atemporais da música brasileira.</span></p>
<div class="jetpack-video-wrapper"><iframe loading="lazy" title="Elis Regina - Como Nossos Pais" width="840" height="630" src="https://www.youtube.com/embed/2qqN4cEpPCw?feature=oembed" frameborder="0" allow="accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share" referrerpolicy="strict-origin-when-cross-origin" allowfullscreen></iframe></div>
<p><span style="font-weight: 400;">Da sua maior paixão nasce seu maior protesto, residente nos versos mais marcantes de </span><i><span style="font-weight: 400;">Falso Brilhante</span></i><span style="font-weight: 400;">. A artista que não chegou a viver seu futuro ousava vislumbrá-lo e pregar as possibilidades como forma de incentivar as pessoas a enfrentarem a situação do país e jamais se curvarem diante dela. “</span><i><span style="font-weight: 400;">Mas é você que ama o passado e que não vê (&#8230;)/Que o novo sempre vem”</span></i><span style="font-weight: 400;">, </span><i><span style="font-weight: 400;">“Vejo vir vindo no vento o cheiro da nova estação”</span></i><span style="font-weight: 400;"> e demais profecias esperançosas era o que mais se ouvia da obra da vida de Elis. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Tudo continua em </span><a href="https://genius.com/Elis-regina-velha-roupa-colorida-lyrics"><i><span style="font-weight: 400;">Velha Roupa Colorida</span></i></a><span style="font-weight: 400;">, mais uma composição de Belchior que decolou na voz da artista. Desafiada por um arranjo numa escala um pouco mais alta que o comum e com os vocais já arranhados da rotina intensa dos espetáculos, a <em>Pimentinha </em>canta com rouquidão “</span><i><span style="font-weight: 400;">Você não sente, não vê/Mas eu não posso deixar de dizer, meu amigo/ Que uma mudança em breve/Vai acontecer</span></i><span style="font-weight: 400;">” em um dos </span><i><span style="font-weight: 400;">rocks</span></i><span style="font-weight: 400;"> de </span><i><span style="font-weight: 400;">Falso Brilhante</span></i><span style="font-weight: 400;">. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Mudanças essas que se não acontecessem por si só, ela fazia acontecer, como foi com a sua existência vasta embora curta no planeta Terra e com </span><i><span style="font-weight: 400;">Falso Brilhante</span></i><span style="font-weight: 400;">. Elis ia atrás do novo. <a href="https://personaunesp.com.br/elis-viver-e-melhor-que-sonhar-critica/">Inaugurar</a> gêneros, </span><a href="https://www.youtube.com/watch?v=f0uOI__Gno8"><span style="font-weight: 400;">descobrir</span></a><span style="font-weight: 400;"> artistas, </span><a href="https://www.youtube.com/watch?v=ghUnVxgXvus"><span style="font-weight: 400;">impulsionar</span></a><span style="font-weight: 400;"> carreiras… Sua potência criativa já era conhecida e fascinante, então, quando ela propôs inverter a lógica do mercado musical &#8211; que primeiro pensava no disco e depois nos </span><i><span style="font-weight: 400;">shows</span></i><span style="font-weight: 400;"> e não o contrário, como ela fez ao arquitetar primeiro o espetáculo sem ter um material sonoro em processo de divulgação &#8211; o público, ou melhor dizendo, </span><i><span style="font-weight: 400;">o grande amor de Elis</span></i><span style="font-weight: 400;">, comprou a ideia de imediato. Juntos, eles transformaram o projeto sobre a sua vida no sucesso que foi, um recorde de bilheteria e até hoje <a href="https://genius.com/albums/Elis-regina/Falso-brilhante">o maior espetáculo do Brasil</a>. </span></p>
<figure id="attachment_19097" aria-describedby="caption-attachment-19097" style="width: 686px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="wp-image-19097 size-full" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/03/3482d60b372fe1c45bc9c88659fde7c7.jpg" alt="Fotografia de Elis Regina apresentando seu espetáculo Falso Brilhante. Na imagem, ela está à direita, sorridente e fantasiada de Carmem Miranda, com um adereço de frutas na cabeça. Ela veste uma outra fantasia junto com um de seus bailarinos, que está à sua frente, à esquerda da imagem. Eles estão de lado e a fotografia é em preto e branco." width="686" height="472" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/03/3482d60b372fe1c45bc9c88659fde7c7.jpg 686w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/03/3482d60b372fe1c45bc9c88659fde7c7-300x206.jpg 300w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 984px) 61vw, (max-width: 1362px) 45vw, 600px" /><figcaption id="caption-attachment-19097" class="wp-caption-text">“No presente, a mente, o corpo é diferente/E o passado é uma roupa/Que não nos serve mais” (Foto: Reprodução)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">Ecoar sua verdade, denúncias, coragem, história e pulsão de vida pelo Brasil inteiro ainda não saciava a sede de justiça e de verdade de Elis. Enxergando a amplitude e complexidade da <a href="http://memoriasdaditadura.org.br/sequencias-didaticas/ditaduras-militares-na-america-sul/">situação política da América Latina</a> naquele momento, ela sentiu a dor dos outros países que também vivam um dos momentos mais sombrios de suas histórias protagonizadas por regimes militares através de </span><a href="https://genius.com/Elis-regina-los-hermanos-lyrics"><i><span style="font-weight: 400;">Los Hermanos</span></i></a><span style="font-weight: 400;">, a primeira das canções em espanhol de </span><i><span style="font-weight: 400;">Falso Brilhante</span></i><span style="font-weight: 400;">. Nela, a artista veste um </span><i><span style="font-weight: 400;">flamenco</span></i><span style="font-weight: 400;"> cheio de identidade da resistência popular latino-americana e canta com sua força característica pelos muitos irmãos que se perdiam entre a repressão, exílio e a morte.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">No português, Elis disse o que tinha que dizer em </span><a href="https://genius.com/Elis-regina-um-por-todos-lyrics"><i><span style="font-weight: 400;">Um Por Todos</span></i></a><span style="font-weight: 400;">. Além de incentivar a união que a sociedade brasileira e a classe artística tanto precisavam exercitar naquele momento, ela também reconhecia o fatídico dia em que <a href="https://globoplay.globo.com/v/7289328/">sucumbiu ao medo</a> e abaixou a cabeça para a ditadura militar. Ligando isso com a decepção da vida de artista que é o tema central de </span><i><span style="font-weight: 400;">Falso Brilhante</span></i><span style="font-weight: 400;">, ela canta quase em tom de confissão e arrependimento: “</span><i><span style="font-weight: 400;">Eu te conheço, sei o preço da fama/E não esqueço/Que deitei em tua cama, em teu berço/Eu sei teu preço, eu te conheço”</span></i><span style="font-weight: 400;"> e revela a forma como lidou com seus próprios erros, reconhecendo sua responsabilidade e o apoio que encontrou: “</span><i><span style="font-weight: 400;">Lavo as mãos e prossigo adiante/Eu por mim mesma/Todos por mim”.</span></i></p>
<figure id="attachment_19096" aria-describedby="caption-attachment-19096" style="width: 650px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="wp-image-19096" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/03/18218_show-falso-brilhante-1976-acervo-pessoal.jpeg" alt="Fotografia de Elis Regina apresentando seu espetáculo Falso Brilhante. Na imagem, a artista está de lado, segurando uma bandeira com a mão direita virada para trás, e um microfone com a mão esquerda. Ela também usa um vestido branco estampado com estrelas prateadas e um chapéu com uma pena. O fundo da imagem é escuro e está em preto e branco." width="650" height="433" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/03/18218_show-falso-brilhante-1976-acervo-pessoal.jpeg 500w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/03/18218_show-falso-brilhante-1976-acervo-pessoal-300x200.jpeg 300w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 984px) 61vw, (max-width: 1362px) 45vw, 600px" /><figcaption id="caption-attachment-19096" class="wp-caption-text">“Nos perdemos pelo mundo/Voltamos a nos encontrar/E assim nos reconhecemos/Pelo longínquo olhar/Pelas estrofes que mordemos/Sementes de imensidão/E assim seguimos andando/Habituados à solidão/E em nós nossos mortos/Para que ninguém fique para trás” (Foto: Reprodução)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">A arte de Elis sentia tanto a vida e enxergava a realidade com tanta lucidez que, às vezes, sua criadora precisava escapar. E ciente de seu inferno, ela também sabia muito bem como era o seu paraíso, dividindo as paisagens dos seus sonhos em </span><a href="https://genius.com/Elis-regina-quero-lyrics"><i><span style="font-weight: 400;">Quero</span></i></a><span style="font-weight: 400;">. Guiada por flautas doces e coros suaves, a artista flutua na imaginação dos seus desejos, construídos em “</span><i><span style="font-weight: 400;">um mundo sem portas ou vidraças”</span></i><span style="font-weight: 400;"> e com “</span><i><span style="font-weight: 400;">floresta no lugar da cidade”</span></i><span style="font-weight: 400;">, incluindo “</span><i><span style="font-weight: 400;">beijar a face da lua”</span></i><span style="font-weight: 400;"> e acabar com tudo de ruim ao “</span><i><span style="font-weight: 400;">cobrir com flores campos de aço”</span></i><span style="font-weight: 400;">. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Nem toda a vida e fisicalidade do mundo era o suficiente para Elis. Ela precisava atingir o que estava além, e dentro das canções oníricas, ela também criava algo a mais e desenhava algo muito belo sobre as almas sonhadoras. As imaginações de </span><i><span style="font-weight: 400;">Falso Brilhante</span></i><span style="font-weight: 400;"> abraçam uma imensidão de pessoas que não são menos determinadas, corajosas ou firmes por ousar ir além da realidade, e </span><a href="https://genius.com/Elis-regina-o-cavaleiro-e-os-moinhos-lyrics"><i><span style="font-weight: 400;">O Cavaleiro E Os Moinhos</span></i></a><span style="font-weight: 400;"> comprova a tese. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">A composição dos consagradíssimos <a href="https://brasil.elpais.com/cultura/2020-05-04/aldir-blanc-compositor-de-grandes-hinos-da-luta-contra-a-ditadura-brasileira-morre-pelo-coronavirus.html">Aldir Blanc</a> e <a href="http://www.joaobosco.com.br/">João Bosco</a>, dupla frequente na música de Elis Regina, é um retrato de quem está pronto para ir à luta pela revolução porque já imaginou como tudo vai ser. Exaltando a capacidade de olhar além e imaginar o futuro, a artista defende a relevância do ser sonhador, que consiste, como ela mesma bem representou, em contar as possibilidades para as outras pessoas, torná-lo um pouco mais palpável e assim, motivar a luta por ele.</span></p>
<figure id="attachment_19098" aria-describedby="caption-attachment-19098" style="width: 463px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-full wp-image-19098" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/03/bd12c2110d3b5c93fb88607dd1b77ae2.jpg" alt="Fotografia de Elis Regina apresentando seu espetáculo Falso Brilhante. Na imagem, a artista está sentada em um balanço de madeira suspenso no palco, decorado por flores. Ela segura um microfone com a mão esquerda e olha para o público, cantando. Elis usa um vestido branco de mangas e o fundo da imagem é preto. A imagem é em preto e branco." width="463" height="718" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/03/bd12c2110d3b5c93fb88607dd1b77ae2.jpg 463w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/03/bd12c2110d3b5c93fb88607dd1b77ae2-193x300.jpg 193w" sizes="auto, (max-width: 463px) 85vw, 463px" /><figcaption id="caption-attachment-19098" class="wp-caption-text">Acreditar na existência dourada do sol/Mesmo que em plena boca/Nos bata o açoite contínuo da noite/Arrebentar a corrente que envolve o amanhã/Despertar as espadas/(&#8230;)/Sem fazer movimento/Mas tecendo o fio da água e do vento” (Foto: Reprodução)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">Voltando à vida, </span><i><span style="font-weight: 400;">Falso Brilhante</span></i><span style="font-weight: 400;"> também a adora. As músicas profundas em <a href="https://www1.folha.uol.com.br/poder/2020/08/arte-e-cultura-desafiaram-os-anos-de-chumbo-ao-propor-nas-entrelinhas-novos-modos-de-vida.shtml">significado e vivacidade</a> eram a forma que os artistas encontravam de se opor aos governos e políticas de morte, e em </span><a href="https://genius.com/Elis-regina-gracias-a-la-vida-lyrics"><i><span style="font-weight: 400;">Gracias a La Vida</span></i></a><span style="font-weight: 400;">, que abria o segundo ato do </span><i><span style="font-weight: 400;">show</span></i><span style="font-weight: 400;">, Elis explode a paixão que sentia por viver com uma riqueza enorme nas estrelinhas. A canção foi escrita e originalmente interpretada pela chilena <a href="https://www.youtube.com/watch?v=Y9OLbzGOxWY">Violeta Parra</a>, fundadora da música popular chilena e compositora de muitas das <a href="http://memoriasdaditadura.org.br/artistas/violeta-parra/">canções de resistência</a> que ecoaram pelo país na época.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Sem separar suas celebrações de seus protestos, </span><i><span style="font-weight: 400;">Falso Brilhante </span></i><span style="font-weight: 400;">geniosamente aniquila qualquer noção de oposição que pudesse surgir entre os dois elementos e grita da melhor maneira que nossa mera existência é política. Até brincando, Elis conseguia espalhar sua mensagem, inovando nas maneiras de driblar a <a href="http://memoriasdaditadura.org.br/sequencias-didaticas/censura/">censura</a>. A canção mais divertida do repertório, </span><i><span style="font-weight: 400;"><a href="https://genius.com/Elis-regina-jardins-de-infancia-lyrics">Jardins De Infância</a>, </span></i><span style="font-weight: 400;">critica o governo </span><span style="font-weight: 400;">de forma teatral e narrativizada, camuflada em um toque de </span><i><span style="font-weight: 400;">jazz</span></i><span style="font-weight: 400;">.</span></p>
<figure id="attachment_19106" aria-describedby="caption-attachment-19106" style="width: 800px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="wp-image-19106" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/03/9.png" alt="Fotografia de Elis Regina apresentando seu espetáculo Falso Brilhante. A artista está sentada no palco, ao centro da imagem, e apenas ela está iluminada. Ela está de lado, segura um microfone com a mão esquerda e olha para o lado esquerdo da imagem. Elis usa um vestido branco come strelas prateadas e um chapéu com uma pena azul." width="800" height="899" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/03/9.png 854w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/03/9-267x300.png 267w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/03/9-768x863.png 768w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 984px) 61vw, (max-width: 1362px) 45vw, 600px" /><figcaption id="caption-attachment-19106" class="wp-caption-text"><span style="font-weight: 400;">Registros de jornais disponibilizados no site oficial da artista contam que, nos bastidores de Falso Brilhante,  Elis era encontrada costurando as próprias roupas, em grande parte reaproveitadas de outros </span><i><span style="font-weight: 400;">shows</span></i><span style="font-weight: 400;">, fazendo a própria maquiagem e coordenando a montagem junto do resto da equipe, o que reforçava seu apelido de </span><span style="font-weight: 400;">a “</span><i><span style="font-weight: 400;">anti estrela</span></i><span style="font-weight: 400;">” da música brasileira </span>(Foto: Reprodução)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">A militante só descansava no amor. Ali, não tinha jeito, Elis se derretia na presença daquele que acordava sua veia romântica, sempre marcada na paixão das interpretações e nos arranjos musicais. A primeira declaração de <em>Falso Brilhante</em> é </span><a href="https://genius.com/Elis-regina-fascinacao-lyrics"><i><span style="font-weight: 400;">Fascinação</span></i></a><span style="font-weight: 400;">,</span><span style="font-weight: 400;"> popular valsa francesa traduzida para o português por Armando Louzada para que Elis e Cesar pudessem dançar entre as notas doces que cada um expressava à sua maneira, sob o cenário rico preparado pelos instrumentos clássicos. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Em </span><a href="https://genius.com/Elis-regina-tatuagem-lyrics"><i><span style="font-weight: 400;">Tatuagem</span></i></a><span style="font-weight: 400;">, o deleite é ainda mais especial. Nela, Elis só conversa com o piano do amado, numa profunda intimidade e marcante sensualidade. “</span><i><span style="font-weight: 400;">Quero brincar no teu corpo feito bailarina/Que logo te alucina, salta e te ilumina quando a noite vem/E nos músculos exaustos do teu braço/Repousar frouxa, farta, murcha, morta de cansaço”, </span></i><span style="font-weight: 400;">ela canta a letra de Chico Buarque olhando nos olhos de Cesar ao piano, de modo a deixar qualquer um que assistisse a cena constrangido por tamanha intensidade. Elis, no entanto, por nada conservava timidez. Muito menos da arte, muito menos do amor.</span></p>
<div class="jetpack-video-wrapper"><iframe loading="lazy" title="Elis Regina - &quot;Tatuagem&quot;" width="840" height="630" src="https://www.youtube.com/embed/sQGX1BmsLJk?feature=oembed" frameborder="0" allow="accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share" referrerpolicy="strict-origin-when-cross-origin" allowfullscreen></iframe></div>
<p><span style="font-weight: 400;">A intensidade que a viagem pela vida e sentimentos de Elis trazia era numa narrativa por si só disruptiva. A mensagem de </span><i><span style="font-weight: 400;">Falso Brilhante </span></i><span style="font-weight: 400;">era clara, e o </span><i><span style="font-weight: 400;">glamour </span></i><span style="font-weight: 400;">e a idealização &#8211; que não fosse de um sonho revolucionário &#8211; não cabiam na verdade de Elis</span><span style="font-weight: 400;">. Os que esperavam assistir algo melodramático sobre as lamentações de uma artista arrependida eram surpreendidos, já que a decepção, matéria-prima principal do projeto, não era algo romantizado, exaltado ou pintado como paralisante. O que Elis queria era superá-la, com a urgência de quem <a href="https://documentosrevelados.com.br/interrogatorio-de-elis-regina-pela-ditadura-militar-inspirou-sua-interpretacao-de-agnus-sei/">sentiu na pele</a> e viu de perto as ameaças contundentes ao que ela mais valorizava: a vida e a arte.  </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">O que ela criou como forma de se opor a isso tudo é o que se vê em </span><i><span style="font-weight: 400;">Falso Brilhante</span></i><span style="font-weight: 400;">. Com sua história de plano de fundo, ela desabafa, profetiza, imagina, desmente, celebra, denuncia, cuida, representa e sente. Vasta, ativa e complexa, ela mudou pra sempre a arte ao criar dentro de sua música algo que ilustra a própria vida, </span><span style="font-weight: 400;">motivada pela coragem, que nos faz continuar mesmo com o arrepio na espinha de medo do que virá pela frente, e na ousadia de tomar o coração como razão, de assumir sua personalidade, sua identidade, acertar e errar, se desculpar e continuar.</span></p>
<figure id="attachment_19100" aria-describedby="caption-attachment-19100" style="width: 990px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-full wp-image-19100" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/03/elis_falso_brilhante-1.jpg" alt="Fotografia de Elis Regina apresentando seu espetáculo Falso Brilhante. Na imagem, aparece apenas o rosto da artista, de perfil. Ela canta com as mãos no peito e olha para fora da imagem. Elis veste uma camiseta branca, seus cabelos são curtos." width="990" height="720" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/03/elis_falso_brilhante-1.jpg 990w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/03/elis_falso_brilhante-1-300x218.jpg 300w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/03/elis_falso_brilhante-1-768x559.jpg 768w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 1362px) 62vw, 840px" /><figcaption id="caption-attachment-19100" class="wp-caption-text">“Graças à vida, que tem me dado tanto/Tem me dado o sorriso e tem me dado o choro/Assim eu diferencio felicidade de dor/Os dois materiais que formam o meu canto/E o vosso canto que é o mesmo canto/E o canto de todos que é o meu próprio canto” (Foto: Reprodução)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">“</span><a href="https://tvcultura.com.br/videos/52486_elis-regina-jogo-da-verdade.html"><i><span style="font-weight: 400;">Eu queria morrer sendo eu</span></i></a><span style="font-weight: 400;">” ela disse em sua última entrevista em janeiro de 1982, seis anos depois de </span><i><span style="font-weight: 400;">Falso Brilhante</span></i><span style="font-weight: 400;"> e duas semanas antes de um dos eventos mais tristes que o calendário brasileiro já viu, o dia de sua morte. Nunca se contentando com nada menos do que ela tinha exatamente em mente, esse foi o maior feito que Elis Regina atingiu: ficar marcada na nossa história sendo ela. Sendo presente, sendo atemporal, sendo relevante, sendo transformadora, sendo corajosa, sendo expressiva, sendo sonhadora e sendo viva. E se ela disse que viver é melhor que sonhar, é melhor a gente acreditar.</span></p>
<p><iframe loading="lazy" title="Spotify Embed: Falso Brilhante" width="300" height="380" allowtransparency="true" frameborder="0" allow="encrypted-media" src="https://open.spotify.com/embed/album/18p3b48JyIK5XY90JmWxET?si=VHA2B3-ZSxaa87ErSrF4WA"></iframe></p>
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		<title>Musical Hamilton no Disney+ e a experiência do teatro durante a quarentena</title>
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		<pubDate>Mon, 27 Jul 2020 22:02:08 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p>O filme do espetáculo de sucesso da Broadway teve sua estreia adiantada em streaming Letícia Machado e Rafaela Thimoteo   Como um bastardo, órfão, filho de uma prostituta e pai fundador dos Estados Unidos presente na nota de dez dólares se tornou um dos maiores fenômenos na indústria dos musicais e plataformas de streaming de todos &#8230; <a href="http://personaunesp.com.br/hamilton-critica/" class="more-link">Continue lendo<span class="screen-reader-text"> "Musical Hamilton no Disney+ e a experiência do teatro durante a quarentena"</span></a></p>
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]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: left;"><em><span style="font-weight: 400;">O filme do espetáculo de sucesso da Broadway teve sua estreia adiantada em </span><span style="font-weight: 400;">streaming</span></em></p>
<figure id="attachment_14374" aria-describedby="caption-attachment-14374" style="width: 970px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-full wp-image-14374" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2020/07/IMAGEM-1-3.jpg" alt="" width="970" height="546" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2020/07/IMAGEM-1-3.jpg 970w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2020/07/IMAGEM-1-3-300x169.jpg 300w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2020/07/IMAGEM-1-3-768x432.jpg 768w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 1362px) 62vw, 840px" /><figcaption id="caption-attachment-14374" class="wp-caption-text">Da esquerda para a direita: Leslie Odom Jr., Daveed Diggs, Lin-Manuel Miranda, Christopher Jackson and Renee Elise Goldsberry (Foto: Joan Marcus/Playbill)</figcaption></figure>
<p><b>Letícia Machado </b><b>e </b><b>Rafaela Thimoteo  </b></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Como um bastardo, órfão, filho de uma prostituta e pai fundador dos Estados Unidos presente na nota de dez dólares se tornou um dos maiores fenômenos na indústria dos musicais e plataformas de </span><i><span style="font-weight: 400;">streaming </span></i><span style="font-weight: 400;">de todos os tempos?</span></p>
<p><i><span style="font-weight: 400;">Hamilton: An American Musical</span></i><span style="font-weight: 400;"> é um musical composto, escrito e protagonizado por Lin-Manuel Miranda. Norte-americano de família porto-riquenha que nasceu em Nova York, em 1980, Miranda se inspirou na biografia de Alexander Hamilton do historiador Ron Chernow para criar essa peça.</span></p>
<p><span id="more-14373"></span></p>
<figure id="attachment_14315" aria-describedby="caption-attachment-14315" style="width: 1086px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-full wp-image-14315" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2020/07/MV5BNjViNWRjYWEtZTI0NC00N2E3LTk0NGQtMjY4NTM3OGNkZjY0XkEyXkFqcGdeQXVyMjUxMTY3ODM@._V1_.jpg" alt="" width="1086" height="1609" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2020/07/MV5BNjViNWRjYWEtZTI0NC00N2E3LTk0NGQtMjY4NTM3OGNkZjY0XkEyXkFqcGdeQXVyMjUxMTY3ODM@._V1_.jpg 1086w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2020/07/MV5BNjViNWRjYWEtZTI0NC00N2E3LTk0NGQtMjY4NTM3OGNkZjY0XkEyXkFqcGdeQXVyMjUxMTY3ODM@._V1_-202x300.jpg 202w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2020/07/MV5BNjViNWRjYWEtZTI0NC00N2E3LTk0NGQtMjY4NTM3OGNkZjY0XkEyXkFqcGdeQXVyMjUxMTY3ODM@._V1_-691x1024.jpg 691w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2020/07/MV5BNjViNWRjYWEtZTI0NC00N2E3LTk0NGQtMjY4NTM3OGNkZjY0XkEyXkFqcGdeQXVyMjUxMTY3ODM@._V1_-768x1138.jpg 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2020/07/MV5BNjViNWRjYWEtZTI0NC00N2E3LTk0NGQtMjY4NTM3OGNkZjY0XkEyXkFqcGdeQXVyMjUxMTY3ODM@._V1_-1037x1536.jpg 1037w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 1362px) 62vw, 840px" /><figcaption id="caption-attachment-14315" class="wp-caption-text">Pôster oficial da estreia do musical Hamilton no Disney+<br />(Foto: Walt Disney Studios)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">Miranda estava férias de outro espetáculo que escreveu para a Broadway, </span><i><span style="font-weight: 400;">In the Heights</span></i><span style="font-weight: 400;">, em 2008, quando leu a biografia sobre Hamilton. Decidiu, então, não desperdiçar sua chance de fazer um musical totalmente inspirado na vida de um dos pais-fundadores dos Estados Unidos. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">O gênio por trás da obra já havia mencionado durante entrevistas que as pessoas subestimavam o potencial, a história e relacionamento de Alexander Hamilton com a cidade de Nova York. Foi a partir deste sentimento que o </span><i><span style="font-weight: 400;">show </span></i><span style="font-weight: 400;">começou a ser desenvolvido. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Em maio de 2009, Miranda foi à Casa Branca, durante o evento </span><i><span style="font-weight: 400;">Evening of Poetry, Music and the Spoken Word</span></i><span style="font-weight: 400;"> apresentar uma </span><a href="https://www.youtube.com/watch?v=WNFf7nMIGnE"><span style="font-weight: 400;">versão inicial da abertura</span></a><span style="font-weight: 400;"> do futuro espetáculo. Ele acabou surpreendendo e arrancando risadas dos convidados ao anunciar que faria um musical de </span><i><span style="font-weight: 400;">hip hop</span></i><span style="font-weight: 400;"> sobre o primeiro Secretário do Tesouro dos EUA.</span></p>
<figure id="attachment_14377" aria-describedby="caption-attachment-14377" style="width: 1024px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-full wp-image-14377" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2020/07/IMAGEM-3-2.jpg" alt="" width="1024" height="709" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2020/07/IMAGEM-3-2.jpg 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2020/07/IMAGEM-3-2-300x208.jpg 300w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2020/07/IMAGEM-3-2-768x532.jpg 768w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 1362px) 62vw, 840px" /><figcaption id="caption-attachment-14377" class="wp-caption-text">Lin-Manuel Miranda recebendo o prêmio de Melhor Trilha Sonora por Hamilton (Foto: Sara Krulwich/The New York Times)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">O musical estreou em fevereiro de 2015</span><i><span style="font-weight: 400;"> off-Broadway </span></i><span style="font-weight: 400;">(termo utilizado quando um musical é exibido em outros teatros profissionais menores que a Broadway), no Teatro Público de Nova York e tornou-se um sucesso de bilheteria e críticas positivas. Em agosto do mesmo ano, foi transferido para o Teatro Richard Rodgers na Broadway e os ingressos foram esgotados ainda na pré-venda. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">De acordo com a </span><i><span style="font-weight: 400;">Forbes</span></i><span style="font-weight: 400;">, após esta estreia a disputa por lugares foi tão acirrada que alguns ingressos chegaram a custar cerca de US$ 11 mil. Ainda em 2015, o musical rendeu a Lin-Manuel Miranda o prêmio </span><i><span style="font-weight: 400;">History Makers Award</span></i><span style="font-weight: 400;"> pela </span><i><span style="font-weight: 400;">New York Historical Society</span></i><span style="font-weight: 400;">, assim como o de Melhor Música, Melhor Letra e Melhor Libreto de Musical no </span><i><span style="font-weight: 400;">Drama Desk Awards</span></i><span style="font-weight: 400;">. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Em 2016, </span><i><span style="font-weight: 400;">Hamilton </span></i><span style="font-weight: 400;">obteve o recorde de 16 indicações ao </span><i><span style="font-weight: 400;">Tony Awards</span></i><span style="font-weight: 400;">, e conquistando 11 prêmios, entre eles o de Melhor Trilha Sonora Original, Melhor Ator, Melhor Figurino, Melhor Direção, Melhor Coreografia e o principal da noite: Melhor Musical. Hamilton também venceu como Melhor Álbum de Teatro Musical no Grammy e Lin Manuel Miranda recebeu o aclamado </span><i><span style="font-weight: 400;">Prêmio Pulitzer de Drama</span></i><span style="font-weight: 400;">.</span></p>
<figure id="attachment_14378" aria-describedby="caption-attachment-14378" style="width: 1024px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-full wp-image-14378" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2020/07/IMAGEM-4.png" alt="" width="1024" height="683" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2020/07/IMAGEM-4.png 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2020/07/IMAGEM-4-300x200.png 300w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2020/07/IMAGEM-4-768x512.png 768w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 1362px) 62vw, 840px" /><figcaption id="caption-attachment-14378" class="wp-caption-text">Renée Elise Goldsberry, Daveed Diggs, Leslie Odom, Jr. e o elenco de Hamilton comemorando os prêmios recebidos no Tony Awards de 2016 (Foto: Sara Krulwich/The New York Times)</figcaption></figure>
<p><b>Da Broadway diretamente para o </b><b><i>streaming</i></b><b> </b></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Após o sucesso estrondoso, Lin decidiu realizar uma versão do </span><i><span style="font-weight: 400;">show </span></i><span style="font-weight: 400;">para o cinema com o elenco original. As filmagens foram realizadas em 3 apresentações diferentes, o que gerou alguns erros pontuais de continuidade, como a mudança de detalhes na roupa de alguns personagens, mas que não atrapalharam o êxito da obra. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Devido à pandemia de COVID-19, o lançamento do filme que estava previsto para 15 de outubro de 2021, foi antecipado para 3 de julho de 2020, diretamente na plataforma de </span><i><span style="font-weight: 400;">streaming </span></i><span style="font-weight: 400;">Disney +, que chegará no Brasil somente em novembro deste ano. O </span><a href="https://www.youtube.com/watch?v=DSCKfXpAGHc"><i><span style="font-weight: 400;">trailer </span></i><span style="font-weight: 400;">de </span><i><span style="font-weight: 400;">Hamilton</span></i></a> <span style="font-weight: 400;">alcançou mais de 4 milhões de visualizações na data em que foi lançado. </span></p>
<p><b>Influências</b></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Se na música introdutória Alexander Hamilton afirma que </span><i><span style="font-weight: 400;">“há milhões de coisas que ele ainda não fez”</span></i><span style="font-weight: 400;"> o </span><i><span style="font-weight: 400;">show</span></i><span style="font-weight: 400;"> segue na direção oposta e faz o que outros musicais premiados da Broadway como </span><i><span style="font-weight: 400;">O Fantasma da Ópera (1986)</span></i><span style="font-weight: 400;"> e </span><i><span style="font-weight: 400;">Wicked (2003)</span></i><span style="font-weight: 400;"> não fizeram. De uma forma super contemporânea, o musical explora uma mistura gêneros usando o </span><i><span style="font-weight: 400;">hip-hop</span></i><span style="font-weight: 400;">, </span><i><span style="font-weight: 400;">R&amp;B</span></i><span style="font-weight: 400;">, o </span><i><span style="font-weight: 400;">pop </span></i><span style="font-weight: 400;">e o </span><i><span style="font-weight: 400;">soul</span></i><span style="font-weight: 400;">. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Com </span><i><span style="font-weight: 400;">raps </span></i><span style="font-weight: 400;">que chegam a alcançar a marca de 19 palavras em 3 segundos, como acontece em </span><i><span style="font-weight: 400;">Guns and Ships</span></i><span style="font-weight: 400;">, o ator coadjuvante Daveed Diggs (que interpreta tanto Lafayette quanto Thomas Jefferson) possui o recorde de </span><i><span style="font-weight: 400;">rapper </span></i><span style="font-weight: 400;">mais rápido da </span><i><span style="font-weight: 400;">Broadway</span></i><span style="font-weight: 400;">. Sua performance foi tão excepcional que ele recebeu o prêmio de Melhor Ator Coadjuvante de Musical no </span><i><span style="font-weight: 400;">Tony</span></i><span style="font-weight: 400;">. O espetáculo entrega também um número difícil de ser batido: segundo o </span><a href="https://fivethirtyeight.com/features/hamilton-is-the-very-model-of-a-modern-fast-paced-musical/"><i><span style="font-weight: 400;">Five Thirty Eight</span></i><span style="font-weight: 400;">,</span></a> <i><span style="font-weight: 400;">Hamilton </span></i><span style="font-weight: 400;">apresenta uma média de 144 palavras por minuto, quando na média, musicais da Broadway apresentam de 58 a 77 palavras por minuto. </span></p>
<figure id="attachment_14379" aria-describedby="caption-attachment-14379" style="width: 1174px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-full wp-image-14379" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2020/07/IMAGEM-5.gif" alt="" width="1174" height="681" /><figcaption id="caption-attachment-14379" class="wp-caption-text">Momento em que a platéia vai ao delírio com Daveed Diggs e o rap mais rápido da noite em Guns and Ships (Gif: Walt Disney Studios)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">O estilo musical de cada personagem também é individual, o que atrai ainda mais  à atenção para os mínimos detalhes. Enquanto o personagem Lafayette canta com um tom mais rouco em um </span><i><span style="font-weight: 400;">rap </span></i><span style="font-weight: 400;">rápido, certeiro, rimando várias palavras por estrofe em referência à </span><i><span style="font-weight: 400;">rappers </span></i><span style="font-weight: 400;">dos anos 90 como DMX, Ja Rule e Big Pun, Aaron Burr possui músicas com raízes no estilo musical popular jamaicano </span><i><span style="font-weight: 400;">Dancehall</span></i><span style="font-weight: 400;">.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Ao longo de quase 3 horas, os espectadores são capazes de se emocionarem com o </span><i><span style="font-weight: 400;">R&amp;B</span></i><span style="font-weight: 400;"> de </span><i><span style="font-weight: 400;">Helpless</span></i><span style="font-weight: 400;"> e a balada romântica de </span><i><span style="font-weight: 400;">Dear Theodosia</span></i><span style="font-weight: 400;">, ou rirem do personagem Rei George III em </span><i><span style="font-weight: 400;">You’ll Be Back</span></i><span style="font-weight: 400;"> e </span><i><span style="font-weight: 400;">What Comes Next?</span></i><span style="font-weight: 400;"> no ritmo de um </span><i><span style="font-weight: 400;">pop </span></i><span style="font-weight: 400;">leve e divertido. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Assim, o </span><i><span style="font-weight: 400;">show </span></i><span style="font-weight: 400;">apresenta músicas que atraem diversos tipos de público, que se emocionam, acredite se quiser, com a história de como o sistema econômico americano foi estabelecido. O sucesso das músicas também foi comprovado em 2016, quando o álbum </span><i><span style="font-weight: 400;">The Hamilton Mixtape </span></i><span style="font-weight: 400;">foi lançado e estreou em primeiro lugar na Billboard 200 com mais de 187 mil cópias vendidas.</span></p>
<p><iframe loading="lazy" title="Spotify Embed: The Hamilton Mixtape" width="100%" height="380" allowtransparency="true" frameborder="0" allow="encrypted-media" src="https://open.spotify.com/embed/album/5AgsHUKFxr5DApRCmulIqJ?si=B-yaZEkOT96Cnk3ywc69aQ"></iframe></p>
<p><b>A experiência visual</b></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Um dos diferenciais que também garantiu pontos positivos para o filme foi a grande direção de Thomas Kail, cineasta norte-americano, também premiado com o </span><i><span style="font-weight: 400;">Tony</span></i><span style="font-weight: 400;">. A forma como as coreografias e o cenário foram meticulosamente montados colabora para que quem assista sinta a emoção dos atores. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">O terceiro dia de gravação do musical, que aconteceu sem a presença da platéia, garantiu cenas em planos fechados que detalham os sentimentos dos atores e até mesmo a saliva do Rei George III, interpretado por Jonathan Groff (</span><a href="http://personaunesp.com.br/mindhunter-critica/"><span style="font-weight: 400;">Mindhunter</span></a><span style="font-weight: 400;">), o que provoca uma experiência diferente até mesmo para quem já assistiu o musical no teatro.</span></p>
<figure id="attachment_14380" aria-describedby="caption-attachment-14380" style="width: 1344px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-full wp-image-14380" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2020/07/IMAGEM-6.gif" alt="" width="1344" height="687" /><figcaption id="caption-attachment-14380" class="wp-caption-text">“Satisfeito” fica o público com essa produção e performance (Foto: Walt Disney Studios)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">O palco com o mecanismo circular móvel colabora para cenas em que as irmãs Schuyler andam pela “rua”, assim como em cenas no estilo </span><i><span style="font-weight: 400;">Matrix</span></i><span style="font-weight: 400;"> no qual após um tiro a bala “caminha” lentamente pelo ambiente durante um monólogo.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Um dos destaques deste mecanismo está presente na música </span><a href="https://www.youtube.com/watch?v=Bd2psryPDuo"><i><span style="font-weight: 400;">Satisfied</span></i></a><span style="font-weight: 400;">, quando o movimento e a troca repetitiva de câmeras, combinados com as luzes e coreografia, provocam o efeito de retrospectiva e confusão de Angelica Schuyler. A personagem conta os fatos narrados na música anterior, mas desta vez do seu ponto de vista.</span></p>
<p><b>O palco da diversidade  </b></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Além da inovar ao contar a história da independência dos Estados Unidos, um dos pontos mais marcantes de </span><i><span style="font-weight: 400;">Hamilton </span></i><span style="font-weight: 400;">é a inclusão de diversidade tanto nas letras das músicas quanto no elenco. Em alguns momentos da peça, as músicas falam sobre a questão dos imigrantes, sobre a busca por uma vida melhor e também fazem críticas à escravidão. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Em </span><i><span style="font-weight: 400;">Cabinet Battle #1</span></i><span style="font-weight: 400;">, Hamilton enfrenta Thomas Jefferson em uma batalha de </span><i><span style="font-weight: 400;">rap </span></i><span style="font-weight: 400;">e critica o oponente dizendo que o Estado de Jefferson só possuía dinheiro suficiente para pagar as dívidas porque não distribuía salários, ou seja, seu lucro vinha da exploração de escravos.</span></p>
<figure id="attachment_14381" aria-describedby="caption-attachment-14381" style="width: 1121px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-full wp-image-14381" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2020/07/IMAGEM-7.gif" alt="" width="1121" height="570" /><figcaption id="caption-attachment-14381" class="wp-caption-text">Os pais fundadores se enfrentam numa competição de rimas (Gif: Walt Disney Studios)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">O musical destaca atores negros, asiáticos e latinos para protagonizar os personagens da peça, quebrando paradigmas e mostrando que apesar da adaptação falar sobre figuras históricas que eram em sua maioria brancas, nada impede que sejam interpretados por pessoas de etnias diferentes.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">A questão migratória também está muito atrelada a narrativa, tanto que em 2016, no lançamento de </span><i><span style="font-weight: 400;">The Hamilton Mixtape</span></i><span style="font-weight: 400;">, uma das músicas, intitulada </span><a href="https://www.youtube.com/watch?v=6_35a7sn6ds"><i><span style="font-weight: 400;">Immigrants (We Get The Job Done)</span></i></a><span style="font-weight: 400;">, aborda a situação dos imigrantes, a injustiça que sofrem e critica o discurso xenofóbico.</span></p>
<figure id="attachment_14382" aria-describedby="caption-attachment-14382" style="width: 1174px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-full wp-image-14382" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2020/07/IMAGEM-8.gif" alt="" width="1174" height="681" /><figcaption id="caption-attachment-14382" class="wp-caption-text">Marquis de Lafayette (da França) e Alexander Hamilton (do Caribe) celebram o fato de serem imigrantes e contribuírem para a revolução no país (Gif: Walt Disney Studios)</figcaption></figure>
<p><b>A História está de olho em você</b></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Mesmo recebendo prêmios e reconhecimento por contar de uma forma atual e dinâmica a história da independência dos EUA e a vida de Hamilton, é importante lembrar que o musical é uma adaptação de fatos reais, não um livro de História. Lin- Manuel Miranda alterou alguns elementos para desenvolver a narrativa. </span></p>
<figure id="attachment_14383" aria-describedby="caption-attachment-14383" style="width: 1121px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-full wp-image-14383" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2020/07/IMAGEM-9.gif" alt="" width="1121" height="570" /><figcaption id="caption-attachment-14383" class="wp-caption-text">John Laurens, interpretado pelo ator Anthony Ramos fala sobre seus ideais abolicionistas (Gif: Walt Disney Studios)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">Em </span><i><span style="font-weight: 400;">My Shot</span></i><span style="font-weight: 400;">, Alexander fala sobre “</span><i><span style="font-weight: 400;">um grupo de amigos abolicionistas</span></i><span style="font-weight: 400;">” em referência a seus companheiros Laurens, Lafayette e Mulligan. Porém, mesmo participando de uma organização em prol da abolição e criticando Jefferson, alguns historiadores afirmam que Hamilton não tinha essa luta como prioridade. A família de sua esposa tinha escravos, assim como George Washington, de quem ele era muito próximo.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Em entrevista à </span><a href="https://www.vanityfair.com/culture/2016/04/christopher-jackson-hamilton-interview"><i><span style="font-weight: 400;">Vanity Fair</span></i></a><span style="font-weight: 400;">, Christopher Jackson, que interpreta George Washington, diz que como um homem negro, teve de conciliar estar na pele desse personagem e mostrar de alguma forma a vergonha de Washington em relação a escravidão, assunto que o personagem não cita diretamente durante a peça, mas que retorna em </span><i><span style="font-weight: 400;">Who Lives, Who Dies, Who Tells Your Story.</span></i></p>
<figure id="attachment_14384" aria-describedby="caption-attachment-14384" style="width: 1121px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-full wp-image-14384" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2020/07/IMAGEM-10.gif" alt="" width="1121" height="570" /><figcaption id="caption-attachment-14384" class="wp-caption-text">Eliza se posiciona contra a escravidão e fala sobre Washington; o personagem se afasta dos holofotes e abaixa a cabeça em sinal de vergonha (Gif: Walt Disney Studios)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">Outro ponto de destaque é a presença das </span><i><span style="font-weight: 400;">Schuyler Sisters</span></i><span style="font-weight: 400;">: Angelica, Peggy e Eliza. Lin Manuel Miranda mudou pontos da história das irmãs, como ao escrever que Angelica era a mais velha e não tinha irmãos, portanto tinha que casar com um homem rico e subir socialmente ao invés de ceder à sua paixão pelo pobre Alexander.  </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Registros históricos apontam que isso não é verdade. Angelica Schuyler tinha diversos irmãos, já era casada há anos e inclusive tinha filhos antes de conhecer Hamilton. Além disso, não estava presente quando ele e Eliza se encontraram. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Miranda diz que ignorou esses fatores pois o musical seria dramaticamente mais interessante se Angelica não pudesse se casar com Hamilton por pressões sociais. Ele também buscava mostrar a personagem como uma intelectual, com visões feministas. Em </span><i><span style="font-weight: 400;">The Schuyler Sisters</span></i><span style="font-weight: 400;">, a atriz Renée Elise Goldsberry que interpreta Angelica, canta: </span><i><span style="font-weight: 400;">“Eu tenho lido O Senso Comum de Thomas Paine e, por isso, os homens dizem que sou intensa ou louca”</span></i><span style="font-weight: 400;">. </span></p>
<figure id="attachment_14385" aria-describedby="caption-attachment-14385" style="width: 1174px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-full wp-image-14385" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2020/07/IMAGEM-11.gif" alt="" width="1174" height="681" /><figcaption id="caption-attachment-14385" class="wp-caption-text">Angelica fala sobre incluir as mulheres nas decisões enquanto caminha com suas irmãs pelas “ruas de Nova York” (Gif: Walt Disney Studios)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">Em </span><i><span style="font-weight: 400;">Ten Duel Commandments</span></i><span style="font-weight: 400;"> os personagens falam sobre as dez regras que devem seguir durante os duelos armados. Apesar de pesquisas apontarem que existiam na verdade vinte, Miranda decidiu colocar apenas metade influenciado pela música </span><a href="https://www.youtube.com/watch?v=ZYb_8MM1tGQ"><i><span style="font-weight: 400;">Ten Crack Commandments</span></i><span style="font-weight: 400;"> do </span><i><span style="font-weight: 400;">rapper </span></i><span style="font-weight: 400;">Biggie Smalls.</span></a></p>
<p><b>Uma batalha de momentos marcantes </b></p>
<p><span style="font-weight: 400;">É impossível falar desse musical e não destacar o trabalho do ator e cantor Leslie Odom Jr., que inclusive ganhou o </span><i><span style="font-weight: 400;">Tony </span></i><span style="font-weight: 400;">de Melhor Ator pelo personagem Aaron Burr. Seu papel como do rival de Hamilton evidencia a diferença na personalidade de ambos. Em </span><i><span style="font-weight: 400;">Wait For It</span></i><span style="font-weight: 400;"> e </span><a href="https://www.youtube.com/watch?v=UMD14n4UOVQ"><i><span style="font-weight: 400;">Room Where It Happens</span></i></a><span style="font-weight: 400;"> conhecemos mais sobre o personagem, suas ambições e o porquê dele agir da forma que age.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">A relação entre Alexander Hamilton e Aaron Burr ao longo da narrativa é um aspecto essencial na história. Somos apresentados aos personagens e descobrimos mais sobre a guerra, seguindo sempre um contraponto entre as opiniões de ambos. Burr é mais sucinto e contido, enquanto Hamilton sempre expõe suas opiniões.</span></p>
<figure id="attachment_14386" aria-describedby="caption-attachment-14386" style="width: 1140px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-full wp-image-14386" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2020/07/IMAGEM-12.gif" alt="" width="1140" height="650" /><figcaption id="caption-attachment-14386" class="wp-caption-text">Na primeira vez que se encontram Burr aconselha Hamilton a ser mais discreto e a cena desperta risadas da plateia (Gif: Walt Disney Studios)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">Há sempre um paralelo entre os dois, como quando dizem que duelos são imaturos e não resolvem nada, mas no final acabam duelando entre si. Em </span><i><span style="font-weight: 400;">Dear Theodosia</span></i><span style="font-weight: 400;">, Burr expressa seu amor pela filha, enquanto Hamilton fala sobre seu filho. Por um momento a rivalidade entre eles dá lugar a um tom de delicadeza e emoção. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">E por falar em trechos emocionantes, a atriz de ascendência chinesa Philippa Soo, que interpreta Eliza, protagoniza um dos momentos mais marcantes do </span><i><span style="font-weight: 400;">show </span></i><span style="font-weight: 400;">na música </span><i><span style="font-weight: 400;">Burn</span></i><span style="font-weight: 400;">. Ressentida, ela canta enquanto põe fogo nas cartas que recebeu de Alexander.</span></p>
<figure id="attachment_14388" aria-describedby="caption-attachment-14388" style="width: 1140px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-full wp-image-14388" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2020/07/imagem-13.gif" alt="" width="1140" height="650" /><figcaption id="caption-attachment-14388" class="wp-caption-text">Alexander sempre se dedicava à escrita, nesse momento, porém, vemos Eliza queimar as palavras que um dia ele escreveu para conquistá-la (Foto: Walt Disney Studios)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">Os paralelos entre as cenas continuam, a exemplo da primeira frase do musical: “</span><i><span style="font-weight: 400;">como um bastardo, órfão, filho de uma prostituta&#8230;</span></i><span style="font-weight: 400;">”, que surge quando Burr se refere a Hamilton. O protagonista também repete “</span><i><span style="font-weight: 400;">eu imagino tanto a morte que parece mais uma memória</span></i><span style="font-weight: 400;">”, pois um dos seus objetivos era deixar um legado antes de morrer. O mesmo paralelismo ocorre nas músicas mais voltadas ao desenvolvimento das batalhas, como em </span><i><span style="font-weight: 400;">Right Hand Man</span></i><span style="font-weight: 400;"> e </span><i><span style="font-weight: 400;">Yorktown</span></i><span style="font-weight: 400;">. Em </span><i><span style="font-weight: 400;">Non Stop</span></i><span style="font-weight: 400;"> trechos de várias outras músicas são cantadas ao mesmo tempo, em uma espécie de catarse. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">O fenômeno cultural </span><i><span style="font-weight: 400;">Hamilton </span></i><span style="font-weight: 400;">não apenas abriu portas para uma nova maneira de se contar um fato histórico, como também inovou o cenário teatral em aspectos como a construção das letras, ritmo musical, diversidade no elenco e interação com o público. Seguindo um modelo diferente das adaptações convencionais como </span><i><span style="font-weight: 400;">Les Misérables (2012)</span></i><span style="font-weight: 400;"> e </span><a href="https://personaunesp.com.br/cats-critica/"><i><span style="font-weight: 400;">Cats (2019)</span></i></a><i><span style="font-weight: 400;">,</span></i> <i><span style="font-weight: 400;">Hamilton </span></i><span style="font-weight: 400;">foi um dos primeiros musicais a ser disponibilizado por </span><i><span style="font-weight: 400;">streaming </span></i><span style="font-weight: 400;">em sua versão original, entregando para muitos fãs que ansiavam pelo lançamento e acompanhavam pelo </span><a href="https://open.spotify.com/artist/3UUJfRbrA2nTbcg4i0MOwu"><i><span style="font-weight: 400;">Spotify</span></i></a><span style="font-weight: 400;">, </span><a href="https://twitter.com/hamiltonmusical"><i><span style="font-weight: 400;">Twitter</span></i></a> <span style="font-weight: 400;">e </span><a href="https://www.youtube.com/channel/UCKhSqWRvBtjlivrs_xeT5aQ"><i><span style="font-weight: 400;">Youtube</span></i></a><span style="font-weight: 400;">, a sensação de assistirem diretamente da Broadway, </span><i><span style="font-weight: 400;">da sala onde tudo aconteceu.</span></i></p>
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		<title>É Preciso Falar de Amor Sem Dizer Eu te Amo, mesmo que não haja amor nenhum</title>
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		<pubDate>Thu, 26 Mar 2020 21:59:00 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Teatro]]></category>
		<category><![CDATA[Crítica]]></category>
		<category><![CDATA[É Preciso Falar de Amor Sem Dizer Eu Te Amo]]></category>
		<category><![CDATA[Mateus Conte]]></category>
		<category><![CDATA[Priscilla Fantin]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Pilar e Bento, em um dos momentos descontraídos da peça (Foto: Divulgação) Mateus Conte A peça É Preciso Falar de Amor Sem Dizer Eu te Amo, estrelada pelo casal Priscilla Fantin e Bruno Lopes, foi apresentada no dia 29 do último mês no Teatro Municipal de Bauru. Em sua turnê no interior paulista, a peça &#8230; <a href="http://personaunesp.com.br/e-preciso-falar-de-amor-sem-dizer-eu-te-amo-mesmo-que-nao-haja-amor-nenhum/" class="more-link">Continue lendo<span class="screen-reader-text"> "É Preciso Falar de Amor Sem Dizer Eu te Amo, mesmo que não haja amor nenhum"</span></a></p>
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<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:12px"><em>Pilar e Bento, em um dos momentos descontraídos da peça (Foto: Divulgação) </em></p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>Mateus Conte</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph">A peça<em> É Preciso Falar de Amor Sem Dizer Eu te Amo</em>, estrelada pelo casal Priscilla Fantin e Bruno Lopes, foi apresentada no dia 29 do último mês no Teatro Municipal de Bauru. Em sua turnê no interior paulista, a peça levou ao teatro mais de três mil pessoas, divididas em seis sessões em cinco cidades; na cidade-lanche, foram duas sessões.</p>



<span id="more-13680"></span>



<p class="wp-block-paragraph">O entrosamento entre os atores e o seu bem-estar no palco favorece a inserção de piadas e outros elementos fora do roteiro, dificultando uma avaliação fria da peça. Por isso, analisarei a apresentação como um todo, tanto a parte roteirizada quanto as partes improvisadas.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Logo no começo do espetáculo, é apresentado que os personagens são jovens viúvos que se conheceram em um aplicativo de relacionamento. O alívio que tive ao perceber que este não seria o tema central da peça foi imenso – afinal, esse assunto já está muito (mas não bem) desenvolvido na dramaturgia mainstream nacional.</p>



<p class="wp-block-paragraph">O primeiro encontro da agente de trânsito Pilar (Priscilla Fantin) e o “<a href="https://www.uol.com.br/universa/noticias/redacao/2019/12/13/faria-limers-capa-de-revista-sobre-o-bairro-paulistano-diverte-a-web.htm">ex-faria limer</a>” Bento (Bruno Lopes) é permeado por um certo estranhamento entre eles e dúvidas sobre o que viria a seguir. A conversa vai e vem, com alguns olhares, algumas pequenas discussões e principalmente descobertas sobre o outro, que já conversavam há três meses pelo aplicativo. Os personagens contam histórias sobre si mesmos, que são simples mas bem estruturadas.</p>



<p class="wp-block-paragraph">A peripécia no roteiro se dá no final do segundo ato, quando um dos personagens descobre um segredo fúnebre sobre o outro, tornando mais tenso o ambiente da peça. Porém, este problema para os personagens se converte em um problema para nós, espectadores: o fato apresentado não tinha nenhum precedente ou indício que poderia acontecer, causando um <a href="https://www.omelete.com.br/segredos-do-cinema/deus-ex-machina-o-que-e-isso-segredos-do-cinema"><em>deus ex machina</em></a><em> </em>às avessas: em vez de uma solução, o que aparece “do nada” é um problema. </p>



<figure class="wp-block-image size-large"><img loading="lazy" decoding="async" width="1024" height="576" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2020/03/FOTO-2-1-1-1024x576.jpg" alt="" class="wp-image-13685" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2020/03/FOTO-2-1-1-1024x576.jpg 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2020/03/FOTO-2-1-1-300x169.jpg 300w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2020/03/FOTO-2-1-1-768x432.jpg 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2020/03/FOTO-2-1-1-1200x675.jpg 1200w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2020/03/FOTO-2-1-1.jpg 1280w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 1362px) 62vw, 840px" /></figure>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:12px"><em>Um dos momentos de diversão entre Bento e Pilar (Foto: Divulgação)</em> </p>



<p class="wp-block-paragraph">Assim como as demais peças que assisto, somente no final do espetáculo que compreendo o significado do título e a sua relação com o roteiro. Neste caso, entendi o sentido do nome, mas não entendi o vínculo com o texto; de fato, a frase “eu te amo” não é falada em toda a peça, mas tem um motivo: porque não há amor ali.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Não, não me refiro aos atores, que são casados; mas aos personagens, que ainda estavam em seu primeiro encontro. Deixando de lado a fúnebre coincidência do roteiro – que prefiro não “<em>spoilar” </em>– os dois não têm nenhuma relação prévia entre si, e o título pretende forçar que já existe um amor ali mesmo com apenas um encontro.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Embora seja interessante esta proposta de considerar o “amor líquido” como amor real, em contraste com as demais peças que escarnecem desta característica da modernidade, ela não foi tão bem desenvolvida a ponto de considerá-la convincente. No final, é apresentada uma aceitável lição de moral sobre doação de órgãos, mas sem aprofundar nesta problemática.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Depois do fechar das cortinas, os atores explicam como surgiu a peça, a importância da doação de órgãos e suas apresentações no Instituto Hakumana, em Moçambique, que visa atender pacientes com HIV em situação de extrema pobreza, e associa com o valor social do teatro. Este foi o melhor momento da peça: mais que um produto da indústria cultural, foi mostrado que o teatro tem um papel de protagonismo na transformação de seus espectadores, que nunca saem do anfiteatro da mesma forma que entraram.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Em suma, um bom adjetivo para descrever a peça é “bacaninha”. Agrada ao público médio que só quer uma diversão para relaxar, com uma dupla de atores entrosada e com uma boa pauta social. Por outro lado, o roteiro bagunçado e a reviravolta sem sustentação no roteiro podem incomodar os espectadores mais exigentes, mas sem atrapalhar a diversão. Nesta peça, aprendemos com Bento que “uma história sempre dá espaço para outra”, e saímos do espetáculo com esperança que os próximos sejam ainda melhores.</p>
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