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	<title>Arquivos Spirit Awards &#8211; Persona | Jornalismo Cultural</title>
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	<description>Desde 2015 provando que a distância entre Bergman, Lady Gaga e a novela das 9 nem existe.</description>
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		<title>Segredos de Um Escândalo prova que a Arte não passa a história a limpo</title>
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		<pubDate>Mon, 26 Feb 2024 21:27:08 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p>Vitória Gomez Pode a Arte imitar a realidade sem se basear nela? Pode a vida de alguém virar arte se não houver autorização? Todd Haynes prova que sim. Tão melodramático quanto bem-humorado, Segredos de Um Escândalo, inspirado em uma história real, mostra que o papel da arte não é necessariamente passar as coisas a limpo. &#8230; <a href="http://personaunesp.com.br/segredos-de-um-escandalo-critica/" class="more-link">Continue lendo<span class="screen-reader-text"> "Segredos de Um Escândalo prova que a Arte não passa a história a limpo"</span></a></p>
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										<content:encoded><![CDATA[<figure id="attachment_32492" aria-describedby="caption-attachment-32492" style="width: 1200px" class="wp-caption alignnone"><img fetchpriority="high" decoding="async" class="size-full wp-image-32492" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2024/02/image5-3.png" alt="" width="1200" height="675" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2024/02/image5-3.png 1200w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2024/02/image5-3-800x450.png 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2024/02/image5-3-1024x576.png 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2024/02/image5-3-768x432.png 768w" sizes="(max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 1362px) 62vw, 840px" /><figcaption id="caption-attachment-32492" class="wp-caption-text">No Oscar 2024, May December concorre à categoria de Melhor Roteiro Original (Foto: Diamond Films)</figcaption></figure>
<p><b>Vitória Gomez</b></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Pode a Arte imitar a realidade sem se basear nela? Pode a vida de alguém virar arte se não houver autorização? Todd Haynes prova que sim. Tão melodramático quanto bem-humorado, </span><i><span style="font-weight: 400;">Segredos de Um Escândalo</span></i><span style="font-weight: 400;">, inspirado em uma </span><a href="https://www.rollingstone.com/culture/culture-features/mary-kay-letourneau-may-december-true-story-1234918355/#:~:text=May%20December%20is%20loosely%20based,in%20a%20car%20with%20Fualaau."><span style="font-weight: 400;">história real</span></a><span style="font-weight: 400;">, mostra que o papel da arte não é necessariamente passar as coisas a limpo. Do contrário, a obra disseca os restos do que um dia foi um escândalo, reimaginando os ecos reais dele muito tempo depois que os noticiários se esqueceram. </span></p>
<p><span id="more-32489"></span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">A tarefa de encarar o dramalhão é de Julianne Moore, Charles Melton e Natalie Portman. Os dois primeiros são um casal aparentemente feliz, mas que escondem mais do que a superfície mostra. Ela, Gracie, e ele, Joe, tem uma diferença de idade de praticamente 30 anos e começaram a se relacionar quando o menino tinha apenas 13. Já a última é Elizabeth Berry, uma atriz que passa a conviver com a dupla para estudar Gracie e interpretá-la fielmente em um filme independente. Quando o equilíbrio perfeito da casa é abalado pela convivência com a atriz, o </span><a href="https://variety.com/2023/film/news/may-december-true-story-mary-kay-letourneau-1235757908/"><span style="font-weight: 400;">passado volta à tona</span></a><span style="font-weight: 400;"> &#8211; dessa vez, para ser questionado e não endossado.</span></p>
<figure id="attachment_32494" aria-describedby="caption-attachment-32494" style="width: 728px" class="wp-caption alignnone"><img decoding="async" class="size-full wp-image-32494" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2024/02/image2-5.png" alt="" width="728" height="385" /><figcaption id="caption-attachment-32494" class="wp-caption-text">Gracie e Elizabeth travam uma guerra de narcisismo (Foto: Diamond Films)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">Tudo começa com a falta de cachorros quentes na geladeira. Longe de se autointitular </span><i><span style="font-weight: 400;">camp </span></i><span style="font-weight: 400;">ou </span><a href="https://www.vulture.com/2024/01/vili-fualaau-mary-kay-letourneau-may-december.html"><span style="font-weight: 400;">fazer justiça com as próprias mãos</span></a><span style="font-weight: 400;">, </span><i><span style="font-weight: 400;">May December </span></i><span style="font-weight: 400;">(no original) come pelas beiradas. Isso porque o caso por trás do escândalo-título é digno de tabloides, mas não requer uma nova exposição. Pelo contrário, a Elizabeth de Portman conhece as nuances da história na mesma ordem que o espectador: primeiro de fora, quando observa trechos de revistas e jornais sobre o julgamento do “</span><i><span style="font-weight: 400;">pet-shop romance</span></i><span style="font-weight: 400;">” ou fotos de Gracie tendo a primeira filha com Joe na prisão, ainda vestindo a tornozeleira eletrônica. Depois, de dentro, quando é confrontada com um casal calmo, com uma casa grande em um bairro familiar, uma churrasqueira com cachorros quentes, cervejas geladas, bolos de abacaxi, amigos preocupados, dois filhos adolescentes prestes a partir para a faculdade e uma encomenda com fezes dentro. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Se a conta não fecha, é aí que Elizabeth Berry entra. A </span><a href="https://slate.com/culture/2023/12/natalie-portman-may-december-movie-netflix-black-swan-jackie.html"><span style="font-weight: 400;">atriz</span></a><span style="font-weight: 400;"> assegura que só quer fazer jus à Gracie no filme, conhecer as zonas cinzas de onde o suposto romance nasceu. Aqui, não há opinião formada: ela está aberta para escutar o que seus objetos de estudo têm a dizer, não imputar suas próprias conclusões sobre eles. </span><i><span style="font-weight: 400;">Segredos de Um Escândalo </span></i><span style="font-weight: 400;">funciona justamente nessas áreas cinzas. Enquanto Gracie alega uma paixão avassaladora e um relacionamento feliz &#8211; e Joe acredita -, o dia a dia mostra uma dinâmica controladora, em que a mulher manda tão comumente quanto o marido obedece. Os anos de diferença evocam algo maternal. Você já está na segunda cerveja, desacelera. Não deixe suas coisas espalhadas na sala. Vá tomar banho antes de dormir.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Nisso, tanto Julianne Moore quanto Gracie se mostram uma raposa. Sempre que o assunto da diferença de idade vem à tona, a personagem declara o amor dos dois e lembra o quanto Joe a seduziu. Ela infla seu ego com comentários cortantes em direção a ele e às crianças, reitera o quanto sempre foi ingênua, reforça sua feminilidade e, quando precisa, chora desamparada como se não tivesse o dobro de maturidade do que qualquer um em cena. Na pele dela, Moore calibra seus gestos, ora se portando com inocência, ora com um ar de quem calcula cada movimento para ser percebida como quer. Modulando a voz, Gracie é </span><a href="https://deadline.com/2023/12/may-december-julianne-moore-interview-1235677359/"><span style="font-weight: 400;">incisiva e firme</span></a><span style="font-weight: 400;">, mas rapidamente muda e soa como uma criança que não sabe as consequências de seus atos, enganando a vizinhança e o próprio marido. Ou quem sabe ela é assim e realmente acredita na própria infantilidade?</span></p>
<figure id="attachment_32496" aria-describedby="caption-attachment-32496" style="width: 1503px" class="wp-caption alignnone"><img decoding="async" class="size-full wp-image-32496" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2024/02/may-december.png" alt="" width="1503" height="741" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2024/02/may-december.png 1503w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2024/02/may-december-800x394.png 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2024/02/may-december-1024x505.png 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2024/02/may-december-768x379.png 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2024/02/may-december-1200x592.png 1200w" sizes="(max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 1362px) 62vw, 840px" /><figcaption id="caption-attachment-32496" class="wp-caption-text">Todd Haynes e Segredos de um Escândalo concorreram ao Palma de Ouro no Festival de Cannes 2023; o prêmio foi para Justine Triet e Anatomia de uma Queda (Foto: Diamond Films)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">O cinismo é a chave de </span><i><span style="font-weight: 400;">Segredos de Um Escândalo</span></i><span style="font-weight: 400;">. Ao contrário de Moore, que nunca deixa transparecer a verdade por trás de suas intenções, Natalie Portman é ótima atriz em interpretar uma atriz mediana. Por mais que tente, Elizabeth Berry preenche a tela em branco com suas opiniões e intenções, mas, no caminho, rende cenas tensas ao lado de Joe e Gracie. A frente de um espelho ou em um consultório médico, o desconforto surge ao passo que ela cruza a linha entre </span><a href="https://www.hollywoodreporter.com/movies/movie-news/natalie-portman-film-decline-social-media-influencers-1235833116/"><span style="font-weight: 400;">observação e intromissão</span></a><span style="font-weight: 400;">, se aproveitando dos maneirismos de uma Moore brilhante para incorporar Gracie o máximo que pode &#8211; até de forma cômica, intencionalmente ou não.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">No meio disso está Joe. Como uma criança perdida, ele não cria conflito, assiste TV, cuida de suas lagartas e apazigua os ânimos quando convém. É na presença de </span><a href="https://www.hollywoodreporter.com/tv/tv-news/charles-melton-riverdale-juilliard-may-december-1235766201/"><span style="font-weight: 400;">Charles Melton</span></a><span style="font-weight: 400;"> que o trio protagonista se eleva: introvertido e retraído, o personagem é resultado do “escândalo pet-shop”, um adolescente para sempre preso no corpo de um homem adulto, que nunca teve a chance de amadurecer sozinho. Até a relação com os filhos, com pouco mais da metade da idade dele, é desigual, já que as crianças viveram experiências que o próprio nunca pôde. A mera constatação de que adultos fazem coisas de adulto o abala, como se ele não soubesse como agir como um.</span></p>
<figure id="attachment_32491" aria-describedby="caption-attachment-32491" style="width: 770px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-full wp-image-32491" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2024/02/image4-2.png" alt="" width="770" height="416" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2024/02/image4-2.png 770w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2024/02/image4-2-768x415.png 768w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 984px) 61vw, (max-width: 1362px) 45vw, 600px" /><figcaption id="caption-attachment-32491" class="wp-caption-text">Injustiçado, May December não levou nada no Globo de Ouro e no Critics Choice Awards (Foto: Diamond Films)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">Além das performances, a direção novelesca de Todd Haynes cria a atmosfera inquietante que move as incertezas de </span><i><span style="font-weight: 400;">May December</span></i><span style="font-weight: 400;">. A condução simples, mas eficiente, as metáforas escancaradas, composições visuais geniais e uma boa dose de humor fazem o filme passear entre um drama voraz e uma </span><a href="https://variety.com/2024/film/columns/may-december-comedy-camp-todd-haynes-julianne-moore-natalie-portman-1235860085/"><span style="font-weight: 400;">sátira</span></a><span style="font-weight: 400;"> à própria indústria do Cinema que pouco o reconheceu. Apesar de superar outras obras nomeadas, seu nome não foi mencionado o suficiente nas grandes premiações norte-americanas, como o </span><a href="https://personaunesp.com.br/tag/oscar/"><i><span style="font-weight: 400;">Oscar</span></i></a><span style="font-weight: 400;">,</span><i><span style="font-weight: 400;"> SAG Awards</span></i><span style="font-weight: 400;"> ou outros prêmios de sindicatos hollywoodianos. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Os poucos reconhecimentos foram os nomes de Melton, Moore e Portman em eventos como </span><i><span style="font-weight: 400;">Critics Choic Awards</span></i><span style="font-weight: 400;"> e Globo de Ouro, mas, ainda assim, sem receber os devidos louros. Um alívio foi a indicação certeira da roteirista Samy Burch, que dois domingos antes do </span><i><span style="font-weight: 400;">Oscar </span></i><span style="font-weight: 400;">consagrou seu nome junto de Alex Mechanik (responsável pela história, junto dela) no </span><a href="https://x.com/filmindependent/status/1761882269772660922?s=20"><i><span style="font-weight: 400;">Spirit Awards</span></i></a><span style="font-weight: 400;">, premiação de filmes independentes. Com um tato para desconcertar o espectador e não dar de bandeja se </span><i><span style="font-weight: 400;">Segredos de Um Escândalo </span></i><span style="font-weight: 400;">é </span><i><span style="font-weight: 400;">camp </span></i><span style="font-weight: 400;">ou não, a novata aproveitou uma polêmica real para criar algo maior do que uma cinebiografia não autorizada e mergulhou nas vulnerabilidades de seus personagens. A torcida é para que Burch continue sua caminhada representando o longa e faça uma competição grandiosa com </span><a href="https://personaunesp.com.br/anatomia-de-uma-queda-critica/"><i><span style="font-weight: 400;">Anatomia de uma Queda</span></i></a> <span style="font-weight: 400;">e </span><a href="https://personaunesp.com.br/past-lives-critica/"><i><span style="font-weight: 400;">Vidas Passadas</span></i></a><span style="font-weight: 400;">, deixando </span><i><span style="font-weight: 400;">Maestro </span></i><span style="font-weight: 400;">e </span><i><span style="font-weight: 400;">Os Rejeitados </span></i><span style="font-weight: 400;">para trás.</span></p>
<figure id="attachment_32493" aria-describedby="caption-attachment-32493" style="width: 640px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-full wp-image-32493" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2024/02/image1-4.png" alt="" width="640" height="360" /><figcaption id="caption-attachment-32493" class="wp-caption-text">Natalie Portman é uma das produtoras de May December e escolheu Todd Haynes a dedo para dirigi-lo (Foto: Diamond Films)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">Sem previsão para chegar na </span><i><span style="font-weight: 400;">Netflix </span></i><span style="font-weight: 400;">Brasil (nos Estados Unidos, o longa foi lançado direto na plataforma de </span><i><span style="font-weight: 400;">streaming</span></i><span style="font-weight: 400;">), </span><i><span style="font-weight: 400;">Segredos de Um Escândalo </span></i><span style="font-weight: 400;">adentra as entranhas do imaginário popular e ainda cutuca os adeptos ao método de atuação e às produções </span><a href="https://personaunesp.com.br/pacto-brutal-critica/"><i><span style="font-weight: 400;">true crime</span></i></a><span style="font-weight: 400;">. O segredo é não se levar a sério demais e render boas risadas proibidas no caminho, sem acreditar se a canalhice das </span><a href="https://x.com/Variety/status/1733263918565576833?s=20"><span style="font-weight: 400;">protagonistas são reais</span></a><span style="font-weight: 400;"> ou elas estão cegas na própria desonestidade que nos fazem acreditar junto. Ao final, quem sai ferido é Joe e quem sai curado é Charles Melton, que alça seu nome à </span><i><span style="font-weight: 400;">A-List </span></i><span style="font-weight: 400;">de Hollywood.</span></p>
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		<title>Quem são as mães das filhas perdidas?</title>
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		<pubDate>Fri, 25 Mar 2022 15:40:59 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p>Vitória Silva Dos tipos de representações que temos em relação à maternidade no Cinema e na TV, podemos citar vários. A mãe superprotetora, a mandona, a descolada, e, é claro, a clássica mãe que abdica de todas as suas vivências pessoais pelas conquistas dos filhos, ou até mesmo para encontrá-los no mundo. Pense em quantas &#8230; <a href="http://personaunesp.com.br/a-filha-perdida-critica/" class="more-link">Continue lendo<span class="screen-reader-text"> "Quem são as mães das filhas perdidas?"</span></a></p>
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										<content:encoded><![CDATA[<figure id="attachment_26968" aria-describedby="caption-attachment-26968" style="width: 800px" class="wp-caption aligncenter"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-medium wp-image-26968" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/03/0534956-800x450.jpg" alt="Cena do filme A Filha Perdida. Nela, a atriz Jessie Buckley, que interpreta Leda, está abraçando duas meninas, em que não é possível ver seus rostos. Jessie é uma mulher branca, de cabelos castanhos claros. " width="800" height="450" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/03/0534956-800x450.jpg 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/03/0534956-1024x576.jpg 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/03/0534956-768x432.jpg 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/03/0534956-1536x864.jpg 1536w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/03/0534956-1200x675.jpg 1200w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/03/0534956.jpg 1600w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 984px) 61vw, (max-width: 1362px) 45vw, 600px" /><figcaption id="caption-attachment-26968" class="wp-caption-text">Após levar o Leão de Ouro de Melhor Roteiro em Veneza, A Filha Perdida garantiu 3 indicações no Oscar 2022 (Foto: Netflix)</figcaption></figure>
<p><b>Vitória Silva</b></p>
<p style="text-align: left;"><span style="font-weight: 400;">Dos tipos de representações que temos em relação à maternidade no Cinema e na TV, podemos citar vários. A mãe superprotetora, a mandona, a </span><a href="https://personaunesp.com.br/gilmore-girls-20-anos/"><span style="font-weight: 400;">descolada</span></a><span style="font-weight: 400;">, e, é claro, a clássica mãe que abdica de todas as suas vivências pessoais pelas conquistas dos filhos, ou até mesmo para </span><a href="https://personaunesp.com.br/amor-de-mae-critica/"><span style="font-weight: 400;">encontrá-los no mundo</span></a><span style="font-weight: 400;">. Pense em quantas personagens mães você conhece, e quantas delas não estão associadas diretamente ao papel materno que as nutre. E, quando o renegam, na maior parte das vezes são movidas por uma </span><a href="https://personaunesp.com.br/carrie-a-estranha-45-anos/"><span style="font-weight: 400;">maldade sobrenatural</span></a><span style="font-weight: 400;"> ou pela construção de um </span><a href="https://personaunesp.com.br/enrolados-10-anos/"><span style="font-weight: 400;">aspecto vilanesco</span></a><span style="font-weight: 400;"> de sua personalidade. Afinal, que tipo de mãe não amaria seus filhos incondicionalmente?</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Transpondo para a realidade, a retórica continua a mesma. Em </span><a href="https://personaunesp.com.br/elena-ferrante-a-filha-perdida-critica/"><i><span style="font-weight: 400;">A Filha Perdida</span></i></a><span style="font-weight: 400;">, a misteriosa Elena Ferrante mergulha por inteiro neste que é apenas um dos papéis da feminilidade presentes em sua Literatura. E Maggie Gyllenhaal decide abraçar a mesma narrativa para construir o que seria a sua primeira obra na direção. A trama do filme homônimo segue Leda, interpretada pela magnífica </span><a href="https://personaunesp.com.br/meu-pai-critica/"><span style="font-weight: 400;">Olivia Colman</span></a><span style="font-weight: 400;">, que decide passar um período em uma ilha paradisíaca da Grécia, após deixar suas duas filhas, Bianca e Martha, com o ex-marido no Canadá.</span></p>
<p><span id="more-26967"></span></p>
<figure id="attachment_26974" aria-describedby="caption-attachment-26974" style="width: 800px" class="wp-caption aligncenter"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-medium wp-image-26974" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/03/imagem_2-800x453.jpg" alt="Cena do filme A Filha Perdida. Nela, a atriz Olivia Colman, que interpreta Leda, está olhando para trás, por cima do seu ombro direito. Leda é uma mulher branca de meia-idade, de cabelos castanhos curtos; ela veste um maiô azul-marinho. " width="800" height="453" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/03/imagem_2-800x453.jpg 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/03/imagem_2-1024x580.jpg 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/03/imagem_2-768x435.jpg 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/03/imagem_2.jpg 1200w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 984px) 61vw, (max-width: 1362px) 45vw, 600px" /><figcaption id="caption-attachment-26974" class="wp-caption-text">Olivia Colman é uma das atrizes da atualidade que carrega uma das melhores carreiras pós-vitória no Oscar, somando 3 indicações e 1 vitória nos últimos 4 anos de premiação (Foto: Netflix)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">Aproveitando o tempo consigo mesma, suas pacatas férias acabam sendo tomadas por lembranças antigas apenas pela súbita chegada de uma família no local. Nela, conhece Nina (Dakota Johnson) e sua filha Elena (Athena Martin Anderson), que de imediato desencadeiam memórias da protagonista em relação a sua própria experiência materna, o que a leva a uma estranha obsessão pela jovem mãe. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">A sinopse ou o </span><a href="https://www.youtube.com/watch?v=s63AZRGzUtc"><i><span style="font-weight: 400;">trailer</span></i></a><span style="font-weight: 400;"> do filme podem enganar, por também não ser simples traduzir em poucas palavras ou minutos a </span><a href="https://azmina.com.br/colunas/elena-ferrante-por-que-so-se-fala-nela/"><span style="font-weight: 400;">hipnotizante experiência que Elena Ferrante criou</span></a><span style="font-weight: 400;"> com </span><i><span style="font-weight: 400;">A Filha Perdida</span></i><span style="font-weight: 400;">. Assim como o livro, a produção não tem grandes ganchos narrativos, que prendem a atenção pelo desfecho ou em acompanhar as conquistas da personagem. Aliás, o que a obra mais faz é deixar finais de seus capítulos em aberto, o que foi fidelizado nas cenas do longa. Se podemos definir o que de fato fixa nossos olhos na tela, só poderia ser o trabalho de Olivia Colman. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">A </span><a href="https://www.omelete.com.br/filmes/retrato-omelete-olivia-colman-de-diarista-a-rainha-elizabeth-nas-telas"><span style="font-weight: 400;">vencedora do </span><i><span style="font-weight: 400;">Oscar</span></i></a><span style="font-weight: 400;"> compõe a peculiar Leda de forma que parecemos estar lendo letra por letra das descrições de Ferrante. Unida à atuação de </span><a href="https://personaunesp.com.br/estou-pensando-em-acabar-com-tudo-critica/"><span style="font-weight: 400;">Jessie Buckley</span></a><span style="font-weight: 400;">, que interpreta a versão mais jovem da protagonista, criam, juntas, um dualismo perfeito das mudanças sofridas nas fases da vida da professora. Tudo isso não seria possível sem a condução de Gyllenhaal, tanto pelas lentes quanto pela escrita do roteiro, que consegue traduzir até mesmo as entrelinhas da obra da escritora napolitana em frente aos nossos olhos. O que não é uma tarefa nem um pouco fácil, tendo em vista a composição de fluxos de consciência em que a história original foi construída. </span></p>
<figure id="attachment_26972" aria-describedby="caption-attachment-26972" style="width: 800px" class="wp-caption aligncenter"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-medium wp-image-26972" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/03/The-Lost-Daughter-800x475.jpg" alt="Cena do filme A Filha Perdida. Nela, está a atriz Dakota Johnson, que interpreta Nina, deitada em uma espreguiçadeira na praia, olhando para o lado. Nina é uma mulher branca, de cabelos escuros e compridos; ela veste um maiô colorido." width="800" height="475" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/03/The-Lost-Daughter-800x475.jpg 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/03/The-Lost-Daughter-1024x608.jpg 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/03/The-Lost-Daughter-768x456.jpg 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/03/The-Lost-Daughter-1536x912.jpg 1536w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/03/The-Lost-Daughter-1200x712.jpg 1200w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/03/The-Lost-Daughter.jpg 1654w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 984px) 61vw, (max-width: 1362px) 45vw, 600px" /><figcaption id="caption-attachment-26972" class="wp-caption-text">Enquanto Colman foi deixada para escanteio, Buckley conseguiu uma indicação ao BAFTA como Melhor Atriz Coadjuvante (Foto: Netflix)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">Não demora muito para a aproximação entre Leda e Nina ter uma virada de chave, quando a protagonista decide roubar a boneca da pequena Elena. E, assim, engata no acontecimento que perdura como pano de fundo durante toda a produção. A recepção para quem assiste </span><i><span style="font-weight: 400;">A Filha Perdida</span></i><span style="font-weight: 400;"> pode vir como uma avalanche de quebras de expectativas, talvez por esperar que a família de Toni (</span><a href="https://personaunesp.com.br/residencia-hill-critica/"><span style="font-weight: 400;">Oliver Jackson-Cohen</span></a><span style="font-weight: 400;">), marido de Nina, apontada como perigosa por motivos nunca declarados, fosse realizar algum ato direto contra a personagem; alguma filha fosse ser, de fato, perdida, ou qualquer outra reviravolta que em concepções gerais seja considerada crucial para o desenrolar da narrativa. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Mas o resultado final não poderia ser outro. Tanto a obra de Ferrante quanto de Gyllenhaal é composta por dosagens significativas de simbolismos, que, no cerne da palavra, não precisam ser entregues de bandeja. Diante disso, a provocação pela busca de respostas é gritante. Afinal, por que Leda decidiu roubar a boneca? Foi por inveja da relação de Nina com Elena? Como forma de ensinamento por a jovem ter cometido os mesmos erros que ela durante seu casamento? Ou até mesmo para tirar de Elena a </span><a href="https://www.youtube.com/watch?v=G3yLgETnBBo"><span style="font-weight: 400;">imposição do anseio materno</span></a><span style="font-weight: 400;"> que ela tanto negou durante a vida? </span></p>
<figure id="attachment_26975" aria-describedby="caption-attachment-26975" style="width: 800px" class="wp-caption aligncenter"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-medium wp-image-26975" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/03/imagem_5-800x450.jpeg" alt="Cena do filme A Filha Perdida. Nela, vemos uma boneca, que está sendo segurada pelas mãos de Leda. A boneca é branca, com cabelos castanhos claros e veste um vestido azul claro." width="800" height="450" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/03/imagem_5-800x450.jpeg 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/03/imagem_5-1024x576.jpeg 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/03/imagem_5-768x432.jpeg 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/03/imagem_5-1200x675.jpeg 1200w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/03/imagem_5.jpeg 1280w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 984px) 61vw, (max-width: 1362px) 45vw, 600px" /><figcaption id="caption-attachment-26975" class="wp-caption-text">Maggie Gyllenhaal já havia sido indicada ao careca dourado anteriormente, mas por sua atuação em Coração Louco, em que interpreta uma mãe solo (Foto: Netflix)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">Sentir qualquer empatia ou apego pela história da protagonista não é algo natural quando analisamos a narrativa apenas pelo que ela nos entrega explicitamente. Mesmo que com a frieza amenizada pela interpretação de Colman, Leda não é agradável, quem dirá simpática. Não podemos esperar qualquer afeição positiva por uma mulher de meia-idade que decide viajar sozinha apenas para gozar de sua liberdade. Ao decorrer da história, também descobrimos que afeto nenhum poderia vir por uma mãe que abandonou suas filhas por três anos e sentiu que </span><i><span style="font-weight: 400;">“foi maravilhoso”</span></i><span style="font-weight: 400;">. Mesmo que seu ex-marido tivesse realizado feito semelhante somando os finais de semana que precisava viajar a trabalho. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">A regra é clara, e a personagem Nora Fanshaw, que rendeu um </span><i><span style="font-weight: 400;">Oscar </span></i><span style="font-weight: 400;">para Laura Dern em </span><a href="https://personaunesp.com.br/historia-de-um-casamento-critica/"><i><span style="font-weight: 400;">História de um Casamento</span></i></a><span style="font-weight: 400;">, resume bem: </span><i><span style="font-weight: 400;">“Nós os amamos (os pais) por suas falhas, mas as pessoas absolutamente não aceitam essas mesmas falhas nas mães. Não a aceitamos estruturalmente e não a aceitamos espiritualmente. Porque a base da nossa baboseira judaico-cristão é Maria, Mãe de Jesus, e ela é perfeita”</span></i><span style="font-weight: 400;">. Se formos avaliar a cinematografia como um todo, a figura da mulher adulta é </span><a href="https://www.youtube.com/watch?v=kkM_kbZbRVY"><span style="font-weight: 400;">inerente à questão materna</span></a><span style="font-weight: 400;">. Se ela não tem filhos, por que não quer ter? E, se tem, onde eles estão?</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Mais do que isso, é algo intocável. E, é claro, que o mesmo não é comparável aos pais. Na Televisão, basta contestar o fato do porquê costumam estranhar a falta dos comentários ou ações de Midge (Rachel Brosnahan) em relação aos seus filhos em </span><a href="https://personaunesp.com.br/the-marvelous-mrs-maisel-critica/"><i><span style="font-weight: 400;">The Marvelous Mrs. Maisel</span></i></a><span style="font-weight: 400;">, enquanto personagens masculinos como Kendall Roy (</span><a href="https://personaunesp.com.br/os-7-de-chicago-critica/"><span style="font-weight: 400;">Jeremy Strong</span></a><span style="font-weight: 400;">), de </span><i><span style="font-weight: 400;">Succession</span></i><span style="font-weight: 400;">, sequer são lembrados como pai ou contestados por sua presença nada paterna. Mesmo com todas as suas questões, Bianca e Martha continuam sendo a principal referência de Leda para qualquer aspecto. Quando conversa com Will (</span><a href="https://personaunesp.com.br/normal-people-critica/"><span style="font-weight: 400;">Paul Mescal</span></a><span style="font-weight: 400;">) e ele conta a sua idade, a primeira coisa que ela faz é associar a de sua filha. O papel materno que lhe foi empurrado goela abaixo a vida inteira continua sendo intrínseco a ela. </span></p>
<figure id="attachment_26973" aria-describedby="caption-attachment-26973" style="width: 1400px" class="wp-caption aligncenter"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-full wp-image-26973" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/03/the-lost-daughter-dancing-1.webp" alt="Cena do filme A Filha Perdida. Nela, Leda, interpretada por Olivia Colman, está dançando em uma festa com Lyle, interpretado por Ed Harris. Leda é uma mulher branca de meia-idade, com cabelos castanhos curtos e escuros, ela usa um vestido rosa de mangas compridas. Lyle é um senhor branco, ele usa uma boina marrom, um casaco marrom escuro, e calças bege claro. É possível ver outros casais dançando ao redor deles. " width="1400" height="700" /><figcaption id="caption-attachment-26973" class="wp-caption-text">Essa edição marca a primeira vez que duas atrizes concorrem ao Oscar pela mesma personagem em um mesmo filme (Foto: Netflix)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">Em sua estreia, o que Maggie Gyllenhaal faz é digno de </span><a href="https://personaunesp.com.br/tag/oscar+2022/"><i><span style="font-weight: 400;">Oscar</span></i></a><span style="font-weight: 400;">. A primazia com que transpôs a narrativa de Ferrante, e até deu novos significados a ela, ganhou sua merecida indicação em Roteiro Adaptado. A profundidade de Leda em tela também, em dose dupla, com Olivia Colman, que já virou figurinha carimbada na premiação, e Jessie Buckley estreando na categoria. No circuito independente, </span><i><span style="font-weight: 400;">The Lost Daughter</span></i><span style="font-weight: 400;"> levou a melhor nas principais premiações do meio, o </span><a href="https://www.adorocinema.com/noticias/filmes/noticia-162650/"><i><span style="font-weight: 400;">Spirit</span></i></a><span style="font-weight: 400;"> e o </span><a href="https://ew.com/awards/2022-gotham-awards-winners-list/"><i><span style="font-weight: 400;">Gotham Awards</span></i></a><span style="font-weight: 400;">. No </span><a href="https://www.omelete.com.br/festival-de-veneza/festival-veneza-vencedores"><span style="font-weight: 400;">Festival de Veneza</span></a><span style="font-weight: 400;">, a diretora ainda ganhou Melhor Roteiro, sinalizando um vindouro reconhecimento da indústria para seu trabalho atrás das câmeras.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">A genialidade da narrativa nós deixamos para Ferrante, mas o trabalho sagrado de popularizar ela tem o mérito total de Gyllenhaal. Das representações maternas que temos culturalmente, </span><i><span style="font-weight: 400;">A Filha Perdida</span></i><span style="font-weight: 400;"> é uma das únicas que encara a questão com sinceridade e respeito a quem ocupa aquele lugar. Apesar da falta de representatividade no audiovisual, Leda está em todos os lugares, com as imperfeições, traumas e dificuldades que carrega. Daí a coragem de Olivia, Jessie, Dakota, Maggie e Elena em conseguirem retratar uma figura com tanta honestidade. De mães, e também filhas perdidas. </span></p>
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		<title>Summer of Soul… ou, Quando o Sonho se Tornou Possível</title>
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		<pubDate>Thu, 17 Mar 2022 17:25:39 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p>Bruno Andrade O ano é 1969. Seria mais um verão qualquer, não fosse as mais de 300 mil pessoas reunidas em seis finais de semana consecutivos nos Estados Unidos, envoltas por música, dança e fortes discursos indignados que sucederam o assassinato de Martin Luther King Jr. (após uma sequência de homícidios políticos com motivações racistas, &#8230; <a href="http://personaunesp.com.br/summer-of-soul-critica/" class="more-link">Continue lendo<span class="screen-reader-text"> "Summer of Soul… ou, Quando o Sonho se Tornou Possível"</span></a></p>
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]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p><figure id="attachment_26765" aria-describedby="caption-attachment-26765" style="width: 1425px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="wp-image-26765 size-full" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/03/Summer-of-Soul-...ou-Quando-a-Revolucao-Nao-Pode-Ser-Televisionada-5.jpg" alt="Cena do filme Summer of Soul. Na fotografia retangular colorida, vemos centenas de pessoas negras vestindo roupas populares nos anos 1960, que são camisetas listradas, blusas com golas grandes e óculos redondos. As três mulheres negras que estão à frente da fotografia possuem cabelos crespos e grandes, de cor preta, e vestem respectivamente uma camisa preta com uma blusa azul sobre os ombros; uma camiseta listrada; e uma blusa de couro marrom com detalhes em cor branca." width="1425" height="1079" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/03/Summer-of-Soul-...ou-Quando-a-Revolucao-Nao-Pode-Ser-Televisionada-5.jpg 1425w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/03/Summer-of-Soul-...ou-Quando-a-Revolucao-Nao-Pode-Ser-Televisionada-5-800x606.jpg 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/03/Summer-of-Soul-...ou-Quando-a-Revolucao-Nao-Pode-Ser-Televisionada-5-1024x775.jpg 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/03/Summer-of-Soul-...ou-Quando-a-Revolucao-Nao-Pode-Ser-Televisionada-5-768x582.jpg 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/03/Summer-of-Soul-...ou-Quando-a-Revolucao-Nao-Pode-Ser-Televisionada-5-1200x909.jpg 1200w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 1362px) 62vw, 840px" /><figcaption id="caption-attachment-26765" class="wp-caption-text">Vencedor do BAFTA de Melhor Documentário, Summer of Soul (&#8230;Or, When the Revolution Could Not Be Televised) é o favorito na mesma categoria do Oscar 2022 [Foto: Hulu]</figcaption></figure><b>Bruno Andrade</b></p>
<p><span style="font-weight: 400;">O ano é 1969. Seria mais um verão qualquer, não fosse as mais de 300 mil pessoas reunidas em seis finais de semana consecutivos nos Estados Unidos, envoltas por música, dança e fortes discursos indignados que sucederam o assassinato de Martin Luther King Jr. (após uma sequência de homícidios políticos com motivações racistas, de Malcolm X à posterior morte de Bobby Kennedy – e tantos outros). Mas ao contrário do que se possa imaginar, não se trata do famigerado festival de Woodstock, pois esse, apesar de dominar a cultura popular, aconteceu em somente quatro dias (15 à 18 de agosto de 1969). A 160 km dali, no antigo bairro periférico do Harlem, estava acontecendo uma revolução não televisionada. Indicado ao </span><a href="https://personaunesp.com.br/tag/oscar-2022/"><i><span style="font-weight: 400;">Oscar </span></i><span style="font-weight: 400;">2022</span></a><span style="font-weight: 400;"> na categoria de Melhor Documentário, </span><a href="https://aodisseia.com/summer-of-soul-critica-mostra-sp/"><i><span style="font-weight: 400;">Summer of Soul</span></i></a><i><span style="font-weight: 400;"> (…ou, Quando a Revolução Não Pôde Ser Televisionada) </span></i><span style="font-weight: 400;">traz à tona os registros do Festival Cultural do Harlem, um marco histórico na Música que se seguiu esquecido; até agora.</span></p>
<p><span id="more-26764"></span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">As filmagens – inéditas por mais de 50 anos – foram recuperadas pelo músico e diretor estreante </span><a href="https://www.youtube.com/watch?v=9Kxn1QCqRQU"><span style="font-weight: 400;">Ahmir “Questlove” Thompson</span></a><span style="font-weight: 400;">, e revelam um importante momento cultural estadunidense, guiado por nomes como B.B. King, </span><span style="font-weight: 400;">Mahalia Jackson e </span><span style="font-weight: 400;">Nina Simone. As ebulições sociais e sócio-políticas que se infiltraram na sociedade à época são jogadas na tela em cada discurso incisivo que os artistas trazem – seja através dos registros do Harlem Cultural Festival, seja pelas falas “contemporâneas” que ex-participantes relatam. Havia algo importante na existência de um evento do tipo naquele momento da História, e todos ali pareciam ter consciência disso; talvez por essa razão </span><i><span style="font-weight: 400;">Summer of Soul </span></i><span style="font-weight: 400;">permaneça contundente e avassalador: é um registro esquecido de uma revolta segmentada através da arte.</span></p>
<figure id="attachment_26766" aria-describedby="caption-attachment-26766" style="width: 1500px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="wp-image-26766 size-full" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/03/image.jpg" alt="Foto retangular colorida do diretor Ahmir Questlove. Na imagem, vemos Questlove sorrindo ao centro, olhando diretamente para a câmera, e ao fundo um poster do filme Summer of Soul. Questlove é um homem negro, possui cabelos pretos e crespos, barba de cor preta, utiliza um óculos de grau com hastes pretas e veste jaqueta em cor laranja com detalhes brancos. Ele está usando um colar de cor cinza e uma camiseta de cor verde." width="1500" height="1000" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/03/image.jpg 1500w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/03/image-800x533.jpg 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/03/image-1024x683.jpg 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/03/image-768x512.jpg 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/03/image-1200x800.jpg 1200w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 1362px) 62vw, 840px" /><figcaption id="caption-attachment-26766" class="wp-caption-text">Summer of Soul é a estreia promissora de Questlove na direção de longa-metragens, que veio acompanhada de uma série de premiações relevantes (Foto: Todd Williamson)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">O documentário, em si, não inventa muita firula. Trata-se de uma sobreposição de imagens de época em contraponto a entrevistas recentes. Na abertura – uma sequência genial –, vemos Stevie Wonder em um </span><i><span style="font-weight: 400;">solo </span></i><span style="font-weight: 400;">magistral de bateria. Esse trecho logo no começo não parece ter sido escolhido a mero acaso, pois Questlove é também baterista, e lidera a banda </span><a href="https://www.youtube.com/watch?v=ojC0mg2hJCc"><span style="font-weight: 400;">The Roots</span></a><span style="font-weight: 400;">, que integra o programa </span><i><span style="font-weight: 400;">The Tonight Show Starring Jimmy Fallon</span></i><span style="font-weight: 400;">.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;"> A montagem primorosa, a cargo de Joshua L. Pearson, também merece destaque, dado que cria lentamente em seus 118 minutos de duração as tensões sociais as quais o festival estava inserido. A junção de conteúdo e técnica impecável de edição rendeu ao filme duas indicações ao </span><a href="https://www.bafta.org/film/awards/2022-nominations-winners"><i><span style="font-weight: 400;">BAFTA</span></i></a><i><span style="font-weight: 400;">, </span></i><span style="font-weight: 400;">como Melhor Montagem e Melhor Documentário – categoria em que venceu –, e uma série de vitórias nos principais festivais de Cinema, incluindo o de</span><a href="https://cinemacomrapadura.com.br/noticias/594350/summer-of-soul-documentario-premiado-em-sundance-e-adquirido-pela-searchlight/"><i><span style="font-weight: 400;"> Sundance</span></i></a><span style="font-weight: 400;"> e o </span><a href="https://pitchfork.com/news/questloves-summer-of-soul-wins-best-documentary-at-2022-independent-spirit-awards/"><i><span style="font-weight: 400;">Independent Spirit Awards</span></i></a><span style="font-weight: 400;">. O longa também concorre no </span><a href="https://personaunesp.com.br/tag/grammy/"><i><span style="font-weight: 400;">Grammy</span></i></a><span style="font-weight: 400;"> 2022 na categoria Melhor Filme Musical.</span></p>
<p><i><span style="font-weight: 400;">Summer of Soul </span></i><span style="font-weight: 400;">ganha ainda mais fôlego ao se desenvolver entre os bastidores do Festival Cultural do Harlem. Diferente do que costuma ocorrer em filmes do gênero, o foco não está somente nos </span><i><span style="font-weight: 400;">shows </span></i><span style="font-weight: 400;">e na reação do público, mas também em seus entremeios e ligações externas, nos políticos envolvidos, na relação conturbada com a polícia (com medo de reações policiais violentas, os organizadores do evento contrataram os </span><a href="https://personaunesp.com.br/judas-e-o-messias-negro-critica/"><span style="font-weight: 400;">Panteras Negras</span></a><span style="font-weight: 400;"> para fazerem a segurança do festival) e todo o contexto repressivo que foi permitido esquecer em meio aos </span><i><span style="font-weight: 400;">solos </span></i><span style="font-weight: 400;">catatônicos das guitarras amplificadas, dos pianos melódicos e dos tambores que rugiam raivosamente.</span></p>
<figure id="attachment_26767" aria-describedby="caption-attachment-26767" style="width: 1400px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="wp-image-26767 size-full" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/03/Summer-of-Soul-02.jpg" alt="Cena do filme Summer of Soul. Na imagem retangular colorida vemos o palco do Festival Cultural do Harlem, com instrumentos e dezenove músicos espalhados ao longo dele. A imagem está distante e não conseguimos visualizar o rosto de cada um, mas todos eles são negros. Ao fundo, vemos o papel de parede do evento, escrito Festival em fonte de cor branca em meio a diversas formas geométricas coloridas." width="1400" height="786" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/03/Summer-of-Soul-02.jpg 1400w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/03/Summer-of-Soul-02-800x449.jpg 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/03/Summer-of-Soul-02-1024x575.jpg 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/03/Summer-of-Soul-02-768x431.jpg 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/03/Summer-of-Soul-02-1200x674.jpg 1200w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 1362px) 62vw, 840px" /><figcaption id="caption-attachment-26767" class="wp-caption-text">O documentário se desdobra nos eventos históricos sempre através da Música; por essa razão, não cai em clichês (Foto: Hulu)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">Em 1969, o “Homem Estadunidense” também foi à Lua, mas ele era branco, e não pretendia considerar a população negra em sua viagem interestelar. Uma das cenas mais marcantes do longa é durante a fala de Roger Parris, na qual ele diz que a comunidade do Harlem não estava interessada em ir à Lua, </span><i><span style="font-weight: 400;">“estava preocupada na realidade”</span></i><span style="font-weight: 400;">, e o real era cruel o suficiente para se negar o direito a sair da Terra. Como se não bastasse as complicações de todos os tipos que vinham externamente – principalmente por forças políticas –, outro inimigo dominou o bairro: a heroína. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">O final dos anos 1960, especificamente, foi um período duro, no qual a epidemia da droga ceifou a vida de vários jovens, cujos possíveis motivos do vício estavam ligados justamente à realidade abissal que a população negra havia sido jogada em decorrência do racismo, como sugere um entrevistado em uma das cenas. Foi também um momento chave na Guerra do Vietnã, onde o governo estadunidense enviou </span><a href="https://personaunesp.com.br/destacamento-blood-critica/"><span style="font-weight: 400;">jovens negros</span></a><span style="font-weight: 400;"> ao </span><i><span style="font-weight: 400;">front </span></i><span style="font-weight: 400;">em números muito maiores do que jovens brancos, e muitos daqueles que se negaram a ir foram caçados e mortos pela polícia. Por esses motivos, como o próprio documentário deixa no ar, Tony Lawrence idealizou o Harlem Cultural Festival para evitar que a cidade queimasse em meio às revoltas e protestos – totalmente legítimos.</span></p>
<figure id="attachment_26769" aria-describedby="caption-attachment-26769" style="width: 2400px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="wp-image-26769 size-full" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/03/Summer-of-Soul_Nina_Simone.jpg" alt="Cena do filme Summer of Soul. Na foto retangular colorida, vemos a cantora e musicista Nina Simone, sentada em um piano de cor marrom. Ela é uma negra, veste um vestido de cor amarela com detalhes pretos, utiliza dois brincos grandes, cujo tamanho é similar ao de uma bola de tênis, e está com a cabeça inclinada para a direita, em direção ao público que assiste ao seu show." width="2400" height="1800" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/03/Summer-of-Soul_Nina_Simone.jpg 2400w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/03/Summer-of-Soul_Nina_Simone-800x600.jpg 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/03/Summer-of-Soul_Nina_Simone-1024x768.jpg 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/03/Summer-of-Soul_Nina_Simone-768x576.jpg 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/03/Summer-of-Soul_Nina_Simone-1536x1152.jpg 1536w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/03/Summer-of-Soul_Nina_Simone-2048x1536.jpg 2048w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/03/Summer-of-Soul_Nina_Simone-1200x900.jpg 1200w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 1362px) 62vw, 840px" /><figcaption id="caption-attachment-26769" class="wp-caption-text">“Essa é a parte triste do apagamento; antes do nosso filme, você quase não conheceu nada sobre isso. Houve apenas rumores de que talvez isso tenha acontecido”, disse Questlove em entrevista a Variety (Foto: Hulu)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">O subtítulo de </span><i><span style="font-weight: 400;">Summer of Soul </span></i><span style="font-weight: 400;">remete a canção </span><a href="https://www.youtube.com/watch?v=vwSRqaZGsPw"><i><span style="font-weight: 400;">Revolution Will Not Be Televised</span></i></a><span style="font-weight: 400;">, do músico e poeta Gil Scott-Heron – considerado uma das fontes de inspiração para o surgimento do </span><i><span style="font-weight: 400;">rap </span></i><span style="font-weight: 400;">–, sustentado como um dos hinos de ativistas negros no final dos anos 1960. Ao longo do documentário, </span><span style="font-weight: 400;">os entrevistados explicam como a palavra “</span><i><span style="font-weight: 400;">Black</span></i><span style="font-weight: 400;">” mudou de um termo pejorativo para um lugar de autodeterminação e orgulho, valores que foram ainda mais impulsionados – e incentivados – no festival. </span><span style="font-weight: 400;">Algo que Questlove explorou muito bem foi o desenrolar de um novo mundo para a população negra que começava a ser consolidado, e os discursos dos artistas no evento giravam em torno de um mesmo tema: tenha orgulho de ser quem você é. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Próximo ao fim, Nina Simone surge cantando </span><i><span style="font-weight: 400;">“somos negros, somos lindos”</span></i><span style="font-weight: 400;">, reafirmando a essência do festival e sua importância histórica. Pela primeira vez, após um período intenso de crimes hediondos contra a comunidade, havia um evento que celebrava, enfim, a existência dessa mesma comunidade. Aquele era um período de mudanças sociais profundas, e embora fossem julgadas como inatingíveis e utópicas por uma parcela da população, </span><a href="https://www.youtube.com/watch?v=fz_7luovxPc"><span style="font-weight: 400;">sonhar ainda era possível</span></a><span style="font-weight: 400;">.</span></p>
<div class="jetpack-video-wrapper"><iframe loading="lazy" title="Summer of Soul (...ou, Quando a Revolução Não Pôde Ser Televisionada) | Trailer Oficial" width="840" height="473" src="https://www.youtube.com/embed/7A_A9IqC3Co?feature=oembed" frameborder="0" allow="accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share" referrerpolicy="strict-origin-when-cross-origin" allowfullscreen></iframe></div>
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		<title>Identidade: quanto vale o pertencimento?</title>
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		<pubDate>Wed, 09 Mar 2022 16:29:43 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p>Jamily Rigonatto  Em uma sociedade que precifica os seres humanos e os valoriza de forma desigual, vale a pena vender sua própria veracidade por dignidade plastificada? Caso esse não seja o principal questionamento inspirado por Passing – traduzido no Brasil como Identidade – com certeza é um de seus pilares. O longa-metragem lançado em novembro &#8230; <a href="http://personaunesp.com.br/identidade-passing-critica/" class="more-link">Continue lendo<span class="screen-reader-text"> "Identidade: quanto vale o pertencimento?"</span></a></p>
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										<content:encoded><![CDATA[<figure id="attachment_26407" aria-describedby="caption-attachment-26407" style="width: 770px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="wp-image-26407 size-full" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/03/imagem-01.jpg" alt="Cena do filme Identidade. Na imagem aparecem os rostos das personagens Irene Redfield, interpretada por Tessa Thompson, e ao seu lado Clare Bellew, interpretada por Ruth Negga. A fotografia é em preto e branco e as duas estão de perfil, Irene usa um chapéu com tons escuros e Clare usa um com cores claras, ao fundo a comunidade do Harlem aparece embaçada. " width="770" height="578" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/03/imagem-01.jpg 770w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/03/imagem-01-768x576.jpg 768w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 984px) 61vw, (max-width: 1362px) 45vw, 600px" /><figcaption id="caption-attachment-26407" class="wp-caption-text">Identidade foi lançado pela Netflix em 2021 e marca a estreia de Rebecca Hall como diretora (Foto: Netflix)</figcaption></figure>
<p><b>Jamily Rigonatto </b></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Em uma sociedade que precifica os seres humanos e os valoriza de forma desigual, vale a pena vender sua própria veracidade por dignidade plastificada? Caso esse não seja o principal questionamento inspirado por </span><i><span style="font-weight: 400;">Passing </span></i><span style="font-weight: 400;">– traduzido no Brasil como </span><i><span style="font-weight: 400;">Identidade </span></i><span style="font-weight: 400;">– com certeza é um de seus pilares. O longa-metragem lançado em novembro de 2021 na </span><i><span style="font-weight: 400;">Netflix</span></i><span style="font-weight: 400;"> é um retrato delicado do quanto a sua própria pele pode ser sufocante em uma sociedade estruturada pelo racismo. O filme é a adaptação audiovisual do </span><a href="http://ovelhamag.com/ultrapassando-os-limites-da-cor/"><span style="font-weight: 400;">livro</span></a><span style="font-weight: 400;"> de mesmo nome escrito por </span><a href="https://www1.folha.uol.com.br/ilustrada/2020/11/negra-que-se-passa-por-branca-move-as-tensoes-do-romance-identidade.shtml"><span style="font-weight: 400;">Nella Larsen</span></a><span style="font-weight: 400;">, e é também o trabalho de estreia da atriz </span><a href="https://www.npr.org/2021/11/30/1059824073/passing-rebecca-hall-film#:~:text=Music%20Of%202021-,'Passing'%20filmmaker%20Rebecca%20Hall%20shares%20the%20personal%20story%20behind%20her,mother%20also%20passed%20as%20white."><span style="font-weight: 400;">Rebecca Hall</span></a><span style="font-weight: 400;"> como diretora.</span></p>
<p><span id="more-26406"></span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Ambientada na Nova York de 1929, a produção nos coloca entre a dualidade de Irene Redfield (</span><a href="https://variety.com/2021/tv/features/tessa-thompson-passing-subtext-viva-maude-1235099237/"><span style="font-weight: 400;">Tessa Thompson</span></a><span style="font-weight: 400;">) e Clare Bellew (</span><a href="https://stylecaster.com/ruth-negga-passing/"><span style="font-weight: 400;">Ruth Negga</span></a><span style="font-weight: 400;">), duas amigas de infância que se reencontram de maneira inesperada em uma parte da cidade dominada pela elite branca. O que Irene não esperava é que esse momento nostálgico vem acompanhado de uma mentira: a amiga tem apagado sua própria identidade e </span><a href="https://www.correiobraziliense.com.br/app/noticia/opiniao/2020/07/18/internas_opiniao,873201/ancestralidade-africana-e-apropriacao-cultural.shtml"><span style="font-weight: 400;">ancestralidade</span></a><span style="font-weight: 400;"> enquanto finge ser uma mulher branca. </span></p>
<div class="jetpack-video-wrapper"><iframe loading="lazy" title="Passing | Official Trailer | Netflix" width="840" height="473" src="https://www.youtube.com/embed/trwq3CNCMkU?feature=oembed" frameborder="0" allow="accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share" referrerpolicy="strict-origin-when-cross-origin" allowfullscreen></iframe></div>
<p><span style="font-weight: 400;">Por mais aparente que seja a felicidade de Clare por desviar da discriminação e </span><a href="https://jornal.usp.br/atualidades/exclusao-social-do-negro-nao-pode-ser-ignorada-no-brasil/"><span style="font-weight: 400;">exclusão social</span></a><span style="font-weight: 400;">, isso tira dela o que realmente a faz feliz, sua </span><a href="https://racismoambiental.net.br/2020/04/23/a-cultura-negra-para-alem-da-escravidao/"><span style="font-weight: 400;">cultura</span></a><span style="font-weight: 400;">. Enquanto frequenta os melhores hotéis, bebe os champagnes mais caros e faz viagens pelo país, ela vive de modo artificial, e encontrar Irene revela um íntimo misto de esperança e tentação. Deslumbrada com a possibilidade de recuperar o tempo perdido longe das </span><a href="https://piaui.folha.uol.com.br/materia/a-destruicao-do-harlem/"><span style="font-weight: 400;">comunidades negras</span></a><span style="font-weight: 400;">, ela passa a se inserir na vida de Irene de forma transgressora. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">A personalidade marcante de Clare é perfeitamente moldada por Ruth Negga, que carrega em cada gesto a singularidade da personagem, sua postura e risada sempre extrovertidas revelam o quanto passar tantos anos vivendo como uma pessoa branca deram a ela uma confiança inabalável. Amparada por uma falsa segurança, ela afirma o que há de audacioso em si na circunstância de ser vista como parte de um privilégio em que a opressão nunca sequer foi uma possibilidade. Irene contraria esse comportamento – ainda que, coragem e confiança fossem características fortes dentro dos </span><a href="https://www.politize.com.br/movimento-negro/"><span style="font-weight: 400;">movimentos negros</span></a><span style="font-weight: 400;">– quando está em espaços intolerantes, anda com a cabeça baixa e faz gestos suaves e comedidos. Mesmo com a capacidade de se passar como branca, ela transborda um </span><a href="https://revistaperiferias.org/materia/que-se-afaste-o-medo/"><span style="font-weight: 400;">medo</span></a><span style="font-weight: 400;"> que Tessa Thompson sabe traduzir de maneira impecável.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Com a escolha de uma fotografia (responsabilidade de Eduard Grau) em formato quadrado e em </span><a href="https://screenrant.com/passing-movie-black-white-cinematography-story-why/"><span style="font-weight: 400;">preto e branco</span></a><span style="font-weight: 400;">, a direção de arte nos leva a uma verdadeira viagem no tempo e, em paralelo, concretiza as sensações de tensão e angústia que permeiam a narrativa. Os tons de cinza, preto e branco conferem aos personagens contrastes únicos e bastante simbólicos, as protagonistas aparecem em tons claros, o que reforça a questão da </span><a href="https://www.intrinseca.com.br/blog/2021/06/a-passabilidade-e-a-politica-de-embranquecimento/"><span style="font-weight: 400;">passabilidade</span></a><span style="font-weight: 400;"> e capacidade de camuflagem dentro da sociedade.</span></p>
<figure id="attachment_26408" aria-describedby="caption-attachment-26408" style="width: 800px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-full wp-image-26408" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/03/imagem-2..jpg" alt="Cena do filme Identidade. Na fotografia aparecem os personagens Clare Bellew, interpretada por Ruth Negga, e ao lado direito da imagem o marido, John Bellew, interpretado por Alexander Skarsgård. A cena é em preto e branco, ela aparece com os cabelos soltos e expressa um sorriso, ele está com os cabelos penteados para trás e usa uma barba curta. " width="800" height="519" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/03/imagem-2..jpg 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/03/imagem-2.-768x498.jpg 768w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 984px) 61vw, (max-width: 1362px) 45vw, 600px" /><figcaption id="caption-attachment-26408" class="wp-caption-text">O filme foi lançado durante o Festival de Sundance de 2021, e logo na sequência adquirido para distribuição pela Netflix (Foto: Netflix)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">A dinâmica da casa da família Redfield no </span><a href="https://amsterdamnews.com/news/2021/11/11/passing-brings-harlem-in-the-20s-to-netflix/"><span style="font-weight: 400;">Harlem</span></a><span style="font-weight: 400;"> muda após a chegada de Clare e traz à tona sensações de desconforto em Irene, que aos poucos começa a se incomodar com os sentimentos dos filhos e do marido Brian Redfield (</span><a href="https://www.instyle.com/celebrity/andre-holland-interview-passing-2021"><span style="font-weight: 400;">Andre Holland</span></a><span style="font-weight: 400;">) em relação a amiga. Como a própria Clare diz em um certo ponto do longa, ela faria de tudo para recuperar o que perdeu e isso dá a entender que roubar a vida de Irene para si é uma possibilidade. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Mesmo que o enredo deixe a </span><a href="https://www.pondoascartasnamesa.com/post/rivalidade-feminina-quem-ganha-com-isso"><span style="font-weight: 400;">rivalidade feminina</span></a><span style="font-weight: 400;"> entre elas em foco na história, </span><i><span style="font-weight: 400;">Identidade</span></i><span style="font-weight: 400;"> acaba desencadeando em suas entrelinhas a interpretação de que a relação delas poderia ser mais que apenas amizade. Os olhares e a inquietação presente nas cenas em que as duas interagem, deixam no ar a possibilidade de uma </span><a href="https://divamag.co.uk/2021/11/12/review-passing-netflix/"><span style="font-weight: 400;">atração romântica</span></a><span style="font-weight: 400;">. A hipótese parece ainda mais viável quando em um diálogo com o amigo Hugh (</span><a href="https://personaunesp.com.br/o-gambito-da-rainha-critica/"><span style="font-weight: 400;">Bill Camp</span></a><span style="font-weight: 400;">), Irene fala sobre o efeito de curiosidade que Clare causava nas pessoas.   </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Uma vez que a palavra passabilidade é sobre a capacidade de se encaixar em uma identidade diferente da originária, tanto o título original quanto o traduzido adquirem um significado ideal para a trama e todas as suas possibilidades. Da vida falsa que Clare leva a todas as camadas que Irene esconde, elas se passam, e misturadas ao preto e branco da tela se encontram em seus tons de cinza em comum. A leitura de terceiros e o que enxergam nas personagens não as faz menos pertencentes à racialidade negra, ainda assim, as coloca em uma posição em que partilham de vivências carregadas de incertezas sobre si mesmas. </span></p>
<figure id="attachment_26409" aria-describedby="caption-attachment-26409" style="width: 2560px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-full wp-image-26409" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/03/imagem-03.jpg" alt="Fotografia dos bastidores do filme Identidade. Na imagem aparecem as atrizes Ruth Negga e Tessa Thompson e a diretora Rebecca Hall. As três estão no cenário do café, Ruth é uma mulher negra e veste um vestido rosa e um sobretudo preto, Tessa é uma mulher negra e usa um vestido cinza e um chapéu bege, Rebecca é uma mulher de pele branca e veste um moletom vinho e uma saia preta. É possível ver o microfone e plantas ao fundo da foto. " width="2560" height="1707" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/03/imagem-03.jpg 2560w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/03/imagem-03-800x533.jpg 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/03/imagem-03-1024x683.jpg 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/03/imagem-03-768x512.jpg 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/03/imagem-03-1536x1024.jpg 1536w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/03/imagem-03-2048x1366.jpg 2048w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/03/imagem-03-1200x800.jpg 1200w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 1362px) 62vw, 840px" /><figcaption id="caption-attachment-26409" class="wp-caption-text"><i>Rebecca Hall </i><a href="https://www.rogerebert.com/chazs-blog/passing-director-rebecca-hall-learns-the-truth-of-her-family-history-on-finding-your-roots"><i>contou</i></a><i> que escolheu produzir, escrever e dirigir Identidade por causa de suas raízes afro-americanas (Foto: Netflix)</i></figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">Quanto ao racismo, este poucas vezes precisa ser dito em palavras para fazer parte do contexto, com comportamentos de personagens secundários e diálogos rápidos a história revela o quanto a </span><a href="https://brasil.elpais.com/brasil/2016/11/01/internacional/1478010009_616978.html"><span style="font-weight: 400;">segregação racial</span></a><span style="font-weight: 400;"> dos Estados Unidos construiu uma vivencia temerária para a população negra. Os espaços ainda inacessíveis para os afrodescendentes e os </span><a href="https://www.bbc.com/portuguese/noticias/2016/01/160110_eua_segregacao_fn"><span style="font-weight: 400;">bairros</span></a><span style="font-weight: 400;"> habitados exclusivamente por um grupo racial mostram o preconceito como uma parte natural da vida norte-americana. Além disso, brancos dizerem abertamente que odiavam pessoas negras era normalizado, e é algo que o próprio marido de Clare declara. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Apesar da discriminação, Irene se mostra totalmente alheia ao estado político e social alarmante em que vive, talvez por estar em um estado de apatia em que imagina que o máximo que pode acontecer é ser chamada pela </span><a href="https://www.efigenias.com.br/2010/10/n-word-o-que-e-afinal.html"><i><span style="font-weight: 400;">n-word</span></i></a><span style="font-weight: 400;">. Brian contraria esse comportamento e se mostra muito preocupado com a segurança da família, mas toda vez que tenta contar aos filhos sobre as mortes e torturas, é cortado por Irene e seu ideal de que proteger as crianças é omitir o que acontece. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Outro ponto presente na trama que chama atenção, é a relação da senhora Redfield com a empregada de sua casa. Quase todas as interações entre elas são ordens em cenas que sempre vêm acompanhadas de um serviço doméstico. O foco da filmagem nesses momentos, inconscientemente nos leva a questionar sobre a desigualdade existente dentro das </span><a href="https://www.politize.com.br/o-que-sao-minorias/"><span style="font-weight: 400;">minorias sociais</span></a><span style="font-weight: 400;">. Zu (Ashley Ware Jenkins) é uma mulher retinta que está em um lugar de menos oportunidades em relação à pessoas negras de pele clara, essa perspectiva evidencia a disparidade inserida nos grupos minoritários e a habitualidade que coloca pessoas mais distantes das camadas dominantes proporcionalmente distantes da ascensão e aceitação social.</span></p>
<figure id="attachment_26410" aria-describedby="caption-attachment-26410" style="width: 1920px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-full wp-image-26410" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/03/Imagem-4-5.jpg" alt="Cena do filme Identidade. Na imagem aparece Irene parada em frente a um ônibus, a  fotografia é em preto e branco. A personagem usa um chapéu e uma blusa de manga três quartos em tons claros, usa uma bolsa de mão e um colar de contas e segura sacolas de compras. " width="1920" height="1080" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/03/Imagem-4-5.jpg 1920w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/03/Imagem-4-5-800x450.jpg 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/03/Imagem-4-5-1024x576.jpg 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/03/Imagem-4-5-768x432.jpg 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/03/Imagem-4-5-1536x864.jpg 1536w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/03/Imagem-4-5-1200x675.jpg 1200w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 1362px) 62vw, 840px" /><figcaption id="caption-attachment-26410" class="wp-caption-text">“É fácil para um negro se passar por branco, não tenho certeza se seria simples um branco se passar por negro” (Foto: Netflix)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">Ao contrário do que era esperado, </span><i><span style="font-weight: 400;">Identidade</span></i><span style="font-weight: 400;"> foi esnobado pelo </span><a href="https://www.bbc.com/portuguese/geral-60303561"><i><span style="font-weight: 400;">Oscar</span></i><span style="font-weight: 400;"> 2022</span></a><span style="font-weight: 400;">: a expectativa era a de que Tessa e Ruth recebessem indicações de Melhor Atriz e Melhor Atriz Coadjuvante. Entretanto, a presença do filme não foi esquecida por outras premiações. No </span><i><span style="font-weight: 400;">Gotham Awards</span></i><span style="font-weight: 400;"> de 2021, recebeu cinco nomeações, assim como apareceu na lista de vencedores do </span><i><span style="font-weight: 400;">Black Film Critics Circle Awards</span></i><span style="font-weight: 400;"> do mesmo ano. No </span><i><span style="font-weight: 400;">BAFTA Awards</span></i><span style="font-weight: 400;"> e no </span><i><span style="font-weight: 400;">SAG</span></i><span style="font-weight: 400;"> (Sindicato dos Atores), Negga foi lembrada, assim como no Globo de Ouro. </span><i><span style="font-weight: 400;">Passing </span></i><span style="font-weight: 400;">também apareceu nas listas do </span><i><span style="font-weight: 400;">Film Independent Spirit Awards</span></i><span style="font-weight: 400;">, premiação independente mais importante dos EUA, e Negga venceu o prêmio de Melhor Atriz Coadjuvante</span><span style="font-weight: 400;">. Rebecca Hall ainda apareceu na prestigiosa lista do Sindicato dos Diretores, na categoria de Estreante.</span></p>
<p><i><span style="font-weight: 400;">Identidade</span></i><span style="font-weight: 400;"> abandona a ideia de uma narrativa impetuosa e direta e escolhe retratar a temática racial com suavidade, constituindo uma atmosfera que carrega muito de si dentro das entrelinhas e permite uma pluralidade de percepções admirável. Ao ser desenvolvida um momento temporal que ao mesmo tempo nos parece tão distante e – infelizmente – tão próximo, a produção abraça uma reflexão sobre </span><a href="https://cienciahoje.org.br/artigo/a-relacao-entre-branquitude-e-privilegio/"><span style="font-weight: 400;">privilégios</span></a><span style="font-weight: 400;">, </span><a href="https://www.politize.com.br/colorismo/"><span style="font-weight: 400;">colorismo</span></a><span style="font-weight: 400;"> e </span><a href="http://jornalismojunior.com.br/a-descoberta-da-negritude/"><span style="font-weight: 400;">pertencimento</span></a><span style="font-weight: 400;">.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Assim, a obra cumpre seu propósito de uma maneira muito bem aplicada enquanto passa longe de reconfortante, aliás, é aflita. A ausência de uma abordagem enérgica faz com que, como na vida, não consigamos julgar as atitudes dos personagens de forma extrema ou bem definida, afinal, cada um tem suas razões e não há como simplesmente escancarar o que é certo ou não. Ao fim, entre sobreviver pela metade ou viver inteiro e acompanhado pelo medo, em </span><i><span style="font-weight: 400;">Identidade</span></i><span style="font-weight: 400;">, nenhuma das opções parece contemplar o mínimo de justiça.</span></p>
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		<title>Time: tudo pode mudar em vinte anos e nada pode mudar em duzentos deles</title>
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		<pubDate>Thu, 25 Mar 2021 20:01:15 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p>Raquel Dutra “Não haverá, nos Estados Unidos ou em qualquer lugar sujeito à sua jurisdição, nem escravidão, nem trabalhos forçados”, diz a 13ª Emenda à Constituição dos Estados Unidos, que ‘aboliu’ a escravidão no país em 1865. Um dos maiores marcos da Terra da Liberdade, no entanto, guardou uma ressalva em seu texto, definindo logo &#8230; <a href="http://personaunesp.com.br/time-documentario-critica/" class="more-link">Continue lendo<span class="screen-reader-text"> "Time: tudo pode mudar em vinte anos e nada pode mudar em duzentos deles"</span></a></p>
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										<content:encoded><![CDATA[<figure id="attachment_19356" aria-describedby="caption-attachment-19356" style="width: 840px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-large wp-image-19356" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/03/Time-1024x576.jpg" alt="Imagem do filme Time. A imagem apresenta um porta-retrato de uma familía repousado em uma mesa inclinado levemente para a diagonal. No porta retrato, na vertical, está a foto de parte da família. Ao centro da fotografia, está a mãe, Fox Rich, uma mulher negra de cabelos cacheados que usa um lenço no pescoço. Ao redor dela, atrás e em cima e na frente e embaixo, estão quatro filhos, todos entre 10 e 6 anos negros. Os que estão atrás dela são os mais velhos, e os que estão na frente são os mais novos. Todos sorriem e posam para a câmera. A moldura do porta-retrato é simples, sem decorações trabalhadas, e branca. A imagem está toda em preto e branco." width="840" height="473" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/03/Time-1024x576.jpg 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/03/Time-300x169.jpg 300w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/03/Time-768x432.jpg 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/03/Time-1200x675.jpg 1200w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/03/Time.jpg 1366w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 1362px) 62vw, 840px" /><figcaption id="caption-attachment-19356" class="wp-caption-text">Time, filme realizado em parceria com o jornal The New York Times, debate os impactos do encarceramento em massa e pauta o abolicionismo penal na categoria de Melhor Documentário do Oscar 2021 (Foto: Reprodução)</figcaption></figure>
<p><b>Raquel Dutra</b></p>
<p><span style="font-weight: 400;">“</span><i><span style="font-weight: 400;">Não haverá, nos Estados Unidos ou em qualquer lugar sujeito à sua jurisdição, nem escravidão, nem trabalhos forçados”</span></i><span style="font-weight: 400;">, </span><span style="font-weight: 400;">diz a 13ª Emenda à Constituição dos Estados Unidos, que ‘aboliu’ a escravidão no país em 1865. Um dos maiores marcos da </span><a href="https://outraspalavras.net/outrasmidias/estados-unidos-terra-da-liberdade/"><span style="font-weight: 400;">Terra da Liberdade</span></a><span style="font-weight: 400;">, no entanto, guardou uma ressalva em seu texto, definindo logo em seguida que</span><i><span style="font-weight: 400;"> “os devidamente condenados por um crime</span></i><span style="font-weight: 400;">” eram a sua exceção, criando em si mesma uma condição que permitia a prática do que acabava de extinguir. A conclusão da premissa da Emenda é literal e simples: quando você é condenado, você se torna um escravo do Estado.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Não à toa, o termo que se usa para definir a quem luta pelo fim do sistema carcarário vigente é o mesmo que se usava para se referir a quem lutava pelo fim da escravidão. </span><span style="font-weight: 400;">A longo prazo, o que o governo de Abraham Lincoln fez com o que deveria ser um avanço na garantia do direito à liberdade, à vida e à igualdade foi permitir o desencadear de um fenômeno social denominado por estudiosos como o </span><a href="https://quilomboinvisivel.com/2020/08/29/industria-carceraria-a-escravidao-no-capitalismo-moderno-parte-1-eua/"><span style="font-weight: 400;">sistema escravista moderno</span></a><span style="font-weight: 400;">. No país que abriga 5% da população mundial, está </span><a href="https://www.conjur.com.br/2011-jul-27/sistema-penitenciario-americano-pressionado-desrespeitar-direitos"><span style="font-weight: 400;">25% da população carcerária do planeta</span></a><span style="font-weight: 400;">. Assim, a cada quatro presidiários ao redor do mundo, um está encarcerado nos Estados Unidos. Como diz sua própria lei, essas são <a href="https://www.youtube.com/watch?v=wkjtAAUmjPY">as pessoas submetidas à escravidão no século 21</a>, e essa é a provocação de </span><a href="https://www.youtube.com/watch?v=kq6Hh07oLvs"><i><span style="font-weight: 400;">Time</span></i></a><span style="font-weight: 400;">.</span></p>
<p><span id="more-19355"></span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">O tema já é conhecido nos debates provocados pelo Cinema. A estrutura de servidão que se fundamenta no sistema prisional dos Estados Unidos foi desenhada por </span><a href="https://www.netflix.com/br/title/80091741"><i><span style="font-weight: 400;">A 13ª Terceira Emenda</span></i></a> <span style="font-weight: 400;">(</span><i><span style="font-weight: 400;">13th</span></i><span style="font-weight: 400;">, no original, de 2016) e alastrada pelo </span><i><span style="font-weight: 400;">mainstream</span></i><span style="font-weight: 400;"> com o seu reconhecimento no </span><i><span style="font-weight: 400;">Oscar </span></i><span style="font-weight: 400;">2017. Cinco anos depois e numa estrutura narrativa oposta e complementar à obra precursora, </span><i><span style="font-weight: 400;">Time</span></i><span style="font-weight: 400;"> volta a clamar por atenção e resolução para uma das situações mais urgentes da América através da Sétima Arte, mais uma vez com um reconhecimento considerável da elite cultural norte-americana.</span></p>
<figure id="attachment_19357" aria-describedby="caption-attachment-19357" style="width: 2560px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="wp-image-19357 size-full" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/03/timee-scaled.jpg" alt="Imagem do filme Time. A fotografia é horizontal e em preto e branco, e registra a família Rich, foco da narrativa do documentário, se dirigindo à um evento. Eles estão caminhando pela rua. Ao fundo existe um prédio de tijolinhos e árvores secas. A família está caminhando junta em direção ao lado esquerdo da imagem, de perfil. Fox Rich, a mãe, está ao centro, vestindo um vestido branco e cabelos presos num rabo de cavalo. Os filhos vestem roupas formais, ternos e camisas sociais. " width="2560" height="1349" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/03/timee-scaled.jpg 2560w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/03/timee-300x158.jpg 300w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/03/timee-1024x540.jpg 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/03/timee-768x405.jpg 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/03/timee-1536x809.jpg 1536w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/03/timee-2048x1079.jpg 2048w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/03/timee-1200x632.jpg 1200w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 1362px) 62vw, 840px" /><figcaption id="caption-attachment-19357" class="wp-caption-text">Dados do Departamento de Justiça dos EUA trazidos em A 13ª Emenda apontam que homens negros (6,5% da população do país) são 40% da população prisional, integrando um índice que atualmente tem mais pessoas negras sobre supervisão criminal do que escravos no meio do século 18 (Foto: Reprodução)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">O diálogo com o documentário de <a href="https://institutodecinema.com.br/mais/conteudo/mulheres-no-cinema-ava-duvernay">Ava DuVernay </a></span><span style="font-weight: 400;">é direto e integra</span><span style="font-weight: 400;"> o raciocínio proposto pela cineasta em 2016. Enquanto </span><i><span style="font-weight: 400;">A 13ª Emenda</span></i><span style="font-weight: 400;"> retoma a história dos Estados Unidos para construir um debate completo, profissional, profundo e teórico &#8211; ótimo, inclusive, para quem quiser compreender a fundo a história dos direitos civis norte-americanos, tema comum em algumas das principais produções dessa temporada (como </span><a href="https://personaunesp.com.br/judas-e-o-messias-negro-critica/"><i><span style="font-weight: 400;">Judas e o Messias Negro</span></i></a><i><span style="font-weight: 400;">, <a href="https://www.youtube.com/watch?v=USi-ppCfxEA">Estados Unidos vs. Billie Holiday</a>, </span></i><a href="https://www.youtube.com/watch?v=23qQ1GzV2fo"><i><span style="font-weight: 400;">Uma Noite em Miami…</span></i></a><span style="font-weight: 400;"> e </span><a href="https://personaunesp.com.br/os-7-de-chicago-critica/"><i><span style="font-weight: 400;">Os 7 de Chicago</span></i></a><span style="font-weight: 400;">) -, </span><i><span style="font-weight: 400;">Time</span></i><span style="font-weight: 400;"> se volta para o micro, no retrato que a diretora <a href="https://www.imdb.com/name/nm3797834/">Garrett Bradley</a> captura de vidas atravessadas pela política do encarceramento em massa.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Aqui, estamos dentro da <a href="http://www.foxandrob.com/">família Richardson</a>, iniciada através daquele casal do Ensino Médio completamente apaixonado e sonhador que prioriza seu amor acima de tudo. Tão logo como eles juntam os sobrenomes e frutificam a árvore genealógica, surgem os desafios da vida que começam a tirar as coisas do eixo, mostrando que o </span><a href="https://personaunesp.com.br/nomadland-critica/"><i><span style="font-weight: 400;">sonho americano</span></i></a><span style="font-weight: 400;"> não é pra todo mundo e transformando medidas desesperadas que normalmente seriam inimagináveis como uma &#8211; e talvez a única &#8211; opção. Então, numa tentativa de assalto a um banco, a matriarca Sibil Fox Rich e seu amado Robert Rich são pegos. Ela, pilotando o carro de fuga, é condenada a 3 anos e meio de detenção enquanto grávida de gêmeos. Ele, liderando a ação que não teve desdobramentos violentos, deve 60 anos severos à justiça, inicialmente sem direito à condicional ou redução de pena. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Só que essa situação não é contextualizada ao pé da letra nos primeiros minutos. O que se vê na abertura do documentário (<a href="https://www.amazon.com/Time-Fox-Rich/dp/B08J7DDGJY">disponível</a> no <em>Amazon Prime Video</em>) são gravações curtas, caseiras e íntimas de uma mulher apaixonada e desolada que registra os momentos de sua família para um dia mostrá-los à quem a formou junto dela, que não está presente. Até que ela acaricia e divide com a câmera o ventre que abriga dois bebês, solenemente apresentados como </span><a href="https://www.gramatica.net.br/origem-das-palavras/etimologia-de-justica/"><span style="font-weight: 400;">Justus</span></a><span style="font-weight: 400;"> e </span><a href="https://pt.duolingo.com/dictionary/English/freedom/cff21c2fe1e74e766d2e004682553e36"><span style="font-weight: 400;">Freedom</span></a><span style="font-weight: 400;">, e revela a condição de sua família. Ali, no detalhe, </span><i><span style="font-weight: 400;">Time</span></i><span style="font-weight: 400;"> revela a que veio, colocando-nos diante de uma história sobre um amor radical, uma urgência de justiça e uma promessa de liberdade.</span></p>
<figure id="attachment_19358" aria-describedby="caption-attachment-19358" style="width: 1600px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="wp-image-19358 size-full" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/03/time-1.jpg" alt="Imagem do Filme Time. A imagem apresenta apenas o rosto de Fox Rich através de um espelho. Ela está se observando, com uma expressão alerta e séria. Ela é uma mulher negra, usa maquiagem no contorno dos olhos e seus cabelos estão alisados. No lado esquerdo da imagem, a moldura do espelho corta o reflexo de seu rosto. A imagem está em preto e branco." width="1600" height="900" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/03/time-1.jpg 1600w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/03/time-1-300x169.jpg 300w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/03/time-1-1024x576.jpg 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/03/time-1-768x432.jpg 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/03/time-1-1536x864.jpg 1536w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/03/time-1-1200x675.jpg 1200w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 1362px) 62vw, 840px" /><figcaption id="caption-attachment-19358" class="wp-caption-text">“Nós pensamos na magnitude das pessoas que estão encarceradas mas não temos nenhum exemplo visual de como é isso. Estamos lidando com uma comunidade invisível. De certa forma, a única maneira de testemunharmos sua experiência é por meio das pessoas que estão de fora”, disse a diretora do filme em <a href="https://deadline.com/2021/01/time-documentary-garrett-bradley-interview-fox-rich-amazon-contenders-1234670492/">entrevista</a> (Foto: Reprodução)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">O centro de tudo é <a href="https://www.instagram.com/foxandrob/">Fox Rich</a>, que conduz a narrativa, gerencia e mantém a família, luta pela liberdade de seu marido e é a principal colaboradora de </span><i><span style="font-weight: 400;">Time</span></i><span style="font-weight: 400;">, que de início, seria apenas um curta sobre a história de sua família. A ideia se transformou quando Rich apresentou à Bradley um</span><span style="font-weight: 400;"> material de 100 horas de vídeos caseiros que ela havia gravado nos últimos 18 anos como forma de dividir seus momentos com os filhos com o seu marido encarcerado.</span><span style="font-weight: 400;"> Reconhecendo a riqueza sentimental e subjetiva da história registrada dos Richardson, a jovem diretora mergulhou no passado e presente da família para debater os impactos do <a href="https://www.youtube.com/watch?v=-TU5iLbUcBw">encarceramento em massa</a> e pautar uma discussão sobre o <a href="https://www.youtube.com/watch?v=eMM0mETFyJ0">abolicionismo penal</a>.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">O poder de </span><i><span style="font-weight: 400;">Time</span></i><span style="font-weight: 400;">, aliás, está exatamente na mistura borrada do tempo, livre de qualquer progressão linear. Primeiro, vê-se as crianças brincando em parque de diversões, depois, elas estão se formando na faculdade, depois, estão de volta à infância indo para o primeiro dia na escola, e depois, são adultos acompanhando o dia a dia agitado da mãe no negócio da família. Em qualquer um dos momentos, o pai não está. O </span><i><span style="font-weight: 400;">tempo</span></i><span style="font-weight: 400;"> é distorcido, incerto, sugado pelo buraco negro da ausência, intensificado pela dor da injustiça perversa e pela energia drenada para a resistência na luta pela liberdade, sempre acompanhado pela tremulação do arrependimento e pelos silêncios oferecidos à quem espera anos por respostas.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">E quando o nosso entendimento ameaça cair em algo romantizado, estagnado numa admiração ao poder e à força do amor e adorador de um arco de redenção, </span><i><span style="font-weight: 400;">Time</span></i><span style="font-weight: 400;"> calibra sua mensagem na voz firme e desperta de sua principal figura através dos termos &#8220;</span><i><span style="font-weight: 400;">pessoas pobres</span></i><span style="font-weight: 400;">&#8220;, &#8220;</span><i><span style="font-weight: 400;">pessoas de cor</span></i><span style="font-weight: 400;">&#8221; e “</span><i><span style="font-weight: 400;">pessoas brancas</span></i><span style="font-weight: 400;">”. Logo, Fox (e às vezes sua mãe implacável) dá nome aos bois com a expressão </span><i><span style="font-weight: 400;">“sistema moderno de escravidão</span></i><span style="font-weight: 400;">” no meio de suas narrações em <em>off</em> ou nas palestras que ela ministra enquanto ativista abolicionista, assistidas majoritariamente por outras mulheres negras e pelas lentes observativas de </span>Zac Manuel, Justin Zweifach e Nisa East. Com p<span style="font-weight: 400;">lena consciência de seus atos e das consequências deles para todos ao seu redor, ela também entende muito bem o seu contexto, dominado por estruturas de poder que fizeram dela e sua família uma demonstração do <a href="https://www.geledes.org.br/e-essa-cara-de-pobre-minha-filha-e-pra-te-olhar-melhor/">classismo</a> e <a href="https://www.geledes.org.br/racismo-institucional-o-ato-silencioso-que-distingue-as-racas/">racismo institucional</a>.</span></p>
<figure id="attachment_19359" aria-describedby="caption-attachment-19359" style="width: 1353px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="wp-image-19359 size-full" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/03/time-documentary-documentario-oscar2021.png" alt="Imagem do filme Time. A fotografia mostra Sibil Fox Rich e Robert Rich jovens dentro de um carro. Sibil é uma mulher negra, seus cabelos estão presos com uma presilha, ela usa uma camiseta branca e brincos de argola e se vira de lado para beijar Robert, seu esposo. Ele, um homem negro de cabelos raspados, usa uma camiseta escura, e retribui o beijo de Sibil, olhando para a câmera, que está posicionada na altura do para-brisa do carro. A foto é em preto e branco." width="1353" height="773" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/03/time-documentary-documentario-oscar2021.png 1353w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/03/time-documentary-documentario-oscar2021-300x171.png 300w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/03/time-documentary-documentario-oscar2021-1024x585.png 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/03/time-documentary-documentario-oscar2021-768x439.png 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/03/time-documentary-documentario-oscar2021-1200x686.png 1200w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 1362px) 62vw, 840px" /><figcaption id="caption-attachment-19359" class="wp-caption-text">O simbolismo da história é tremendo: Robert Rich ficou detido numa prisão de segurança máxima no estado de Louisiana, a maior dos EUA, conhecida popularmente como “Angola”, em referência ao país de origem de muitos dos escravos que trabalharam na região (Foto: Reprodução)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">Com uma temática densa nas mãos, a direção de Garrett Bradley &#8211; premiada no Festival de Cinema de </span><i><span style="font-weight: 400;">Sundance</span></i><span style="font-weight: 400;">, onde também concorreu ao Grande Prêmio do Júri antes de passar pelo </span><i><span style="font-weight: 400;">Critics Choice Documentary Awards, Independent Spirit Awards</span></i><span style="font-weight: 400;"> até chegar na <a href="https://www.termometrooscar.com/melhor-documentaacuterio.html">seleção diversificada</a> dos Melhores Documentários do </span><a href="https://personaunesp.com.br/tag/oscar-2021/"><i><span style="font-weight: 400;">Oscar </span></i><span style="font-weight: 400;">2021</span></a> <span style="font-weight: 400;">&#8211; vai pelo caminho oposto ao da criminalização para alcançar uma linguagem poderosa de humanização. </span><i><span style="font-weight: 400;">Time</span></i><span style="font-weight: 400;"> é uma obra de escuta &#8211; tanto pelo verbal quanto pelo não-verbal, tanto para quem o fez quanto para quem o acompanha. Tocar nesse assunto é incitar polêmicas e opiniões inflamadas e</span><span style="font-weight: 400;"> todo filme demonstra saber disso. Então, ele conta com a abertura de quem o assiste, que esteja disposto a ir até ele </span><span style="font-weight: 400;">sem preconceitos, permitindo-se desmontar e bagunçar suas noções morais para <a href="https://www.aosfatos.org/noticias/cinco-fatos-sobre-o-sistema-prisional-brasileiro/">enxergar e compreender uma realidade</a> que <a href="https://www.justificando.com/2019/05/30/entendendo-o-basico-para-opinar-sobre-a-crise-no-sistema-penitenciario-brasileiro/">não é distante de nós</a> como pode parecer.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">O filme faz isso através de uma montagem e roteirização atenta, calma e compassiva, e de uma fotografia que procura pelos olhos de seus personagens, olha devagar e observa todos os detalhes. Nessa direção, cria-se também </span><span style="font-weight: 400;">um contraste estético inteligentíssimo: os registros antigos de Rich são repletos de texturas, mas as imagens do presente são chapadas, um tanto esmaecidas e etéreas, casadas na ausência de cor preenchida pelos tons de preto e branco. Ao contrário do que se esperaria de uma obra que retrata o passar do tempo, <i>Time</i> não deixa suas marcas visíveis objetivamente, forçando-nos a ouvir e observar com atenção. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Essa é a forma que </span><em><span style="font-weight: 400;">Time </span></em><span style="font-weight: 400;">encontra para dizer que</span><span style="font-weight: 400;"> não busca explicações, justificativas ou dicotomias morais. O filme não sangra a ferida do arrependimento, não espetaculariza, não alarma nem discute a legitimidade do crime ou da punição. O apontamento desses aspectos fica de fora da tela, exaustivamente julgados pela sociedade que, em contrapartida, não parecem ser importantes nem mesmo para a própria justiça, que aparelhada e viciada, tem uma outra finalidade no lugar de ser de fato justa. O que ocorre é um gesto de devolver o olhar humano para pessoas que só são vistas atrás das grades, quando não como apenas números, destacando sua existência para além de estereótipos e retratos rasos.</span></p>
<figure id="attachment_19363" aria-describedby="caption-attachment-19363" style="width: 1200px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="wp-image-19363" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/03/cineclube-1024x676.png" alt="Imagem do filme Time. A fotografia mostra um homem, negro e de cabelos curtos usando uma camisa, de costas e segurando um bebê. A imagem está em preto e branco." width="1200" height="792" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/03/cineclube-1024x676.png 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/03/cineclube-300x198.png 300w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/03/cineclube-768x507.png 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/03/cineclube-1200x792.png 1200w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/03/cineclube.png 1513w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 1362px) 62vw, 840px" /><figcaption id="caption-attachment-19363" class="wp-caption-text">“Uma justiça tardia é uma justiça negada” (Foto: Reprodução)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">A delicadeza de </span><i><span style="font-weight: 400;">Time</span></i><span style="font-weight: 400;">, entretanto, não o faz ser algo menos firme, preciso ou seguro, vide a forma como ele escolhe suas palavras e nomeia seus objetos: a vivência da família fala sobre um sistema organizado, não só de uma ação dentre muitas outras <a href="https://www.bbc.com/portuguese/internacional-36429539">sintomáticas de uma sociedade desigual</a>. A intenção da diretora (que também assina a produção junto de </span>Kellen Quinn e Lauren Domino) segue sua identidade de<span style="font-weight: 400;"> investigar em suas obras as tramas que compõem o tecido social norte-americano: entender as dinâmicas por trás do sistema prisional, que comprometem muito além da vida de quem é preso, e alertar para os seus efeitos de marginalização de populações específicas e propagação de estruturas de poder.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Ao fim, surge o óbvio: muito se reflete sobre o tempo em <em>Time</em>. Uma família que tem uma relação tão complexa com ele apresenta visões otimistas e pessimistas, esperançosas e revoltadas, age diante dele de muitas formas diferentes. “</span><i><span style="font-weight: 400;">O tempo é o que você faz dele</span></i><span style="font-weight: 400;">”, conclui um dos filhos em um dado momento, antes da luta de duas décadas encontrar sua resolução. Para eles, tempo é vida, tempo é resistir, tempo é esperança e também decepção. E a vida não acaba, a luta não acaba, o amor não acaba, o tempo não acaba. Dentre todos os devaneios filosóficos que podem surgir da sutileza do filme, a </span><span style="font-weight: 400;">reflexão sobre o tempo entre os 20 anos mais severos da história da família Richardson se transforma em algo dialógico à toda a história dos últimos 200 anos na América: iniciados com uma promessa de liberdade e inseridos num tempo que muda vidas em anos, dias e até minutos, mas que também é parte de um sistema que não mudou em dois séculos.</span></p>
<div class="jetpack-video-wrapper"><iframe loading="lazy" title="TIME – Official Trailer | Prime Video" width="840" height="473" src="https://www.youtube.com/embed/kq6Hh07oLvs?feature=oembed" frameborder="0" allow="accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share" referrerpolicy="strict-origin-when-cross-origin" allowfullscreen></iframe></div>
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		<title>A Assistente: os verdadeiros bastidores de Hollywood</title>
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		<pubDate>Fri, 19 Feb 2021 14:48:40 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p>Vitória Silva Em 2017, o mundo hollywoodiano virou do avesso. Denúncias de assédio sexual por parte de funcionários e funcionárias do meio artístico começaram a vir à tona para o grande público. A avalanche se desencadeou com as acusações sobre o magnata Harvey Weinstein, dono da grande produtora Miramax, e hoje condenado a 23 anos &#8230; <a href="http://personaunesp.com.br/a-assistente-critica/" class="more-link">Continue lendo<span class="screen-reader-text"> "A Assistente: os verdadeiros bastidores de Hollywood"</span></a></p>
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										<content:encoded><![CDATA[<figure id="attachment_18449" aria-describedby="caption-attachment-18449" style="width: 1558px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-full wp-image-18449" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/02/The-Assistant-Movie-2020.jpg" alt=" A imagem é uma cena do filme A Assistente. Nela, está a atriz Julia Garner, que interpreta a personagem Jane. Jane é uma mulher branca, de olhos azuis, cabelos loiros e amarrados em um coque, ela veste uma blusa rosa de gola alta e mangas compridas e usa um relógio preto em seu pulso esquerdo. Na cena, Jane está no escritório do trabalho sentada em uma cadeira, é possível ver da sua cintura para cima. Ela está falando a um telefone branco com fio, segurando-o com sua mão direita, e está com o que parece ser um passaporte em sua mão esquerda. Ela olha fixamente para o lado direito, com um olhar de preocupação. " width="1558" height="867" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/02/The-Assistant-Movie-2020.jpg 1558w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/02/The-Assistant-Movie-2020-300x167.jpg 300w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/02/The-Assistant-Movie-2020-1024x570.jpg 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/02/The-Assistant-Movie-2020-768x427.jpg 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/02/The-Assistant-Movie-2020-1536x855.jpg 1536w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/02/The-Assistant-Movie-2020-1200x668.jpg 1200w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 1362px) 62vw, 840px" /><figcaption id="caption-attachment-18449" class="wp-caption-text">Lançado em 2019, o filme se inspira em uma das denúncias que desatou os protestos do #MeToo (Foto: Reprodução)</figcaption></figure>
<p><strong>Vitória Silva</strong></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Em 2017, o mundo hollywoodiano virou do avesso. Denúncias de assédio sexual por parte de funcionários e funcionárias do meio artístico começaram a vir à tona para o grande público. A avalanche se desencadeou com as acusações sobre o magnata Harvey Weinstein, dono da grande produtora </span><i><span style="font-weight: 400;">Miramax</span></i><span style="font-weight: 400;">, e hoje condenado a </span><a href="https://www.bbc.com/portuguese/geral-51553491"><span style="font-weight: 400;">23 anos de prisão</span></a><span style="font-weight: 400;">. Com isso, outros escândalos emergiram para a superfície na crescente onda do movimento </span><a href="https://www.bbc.com/portuguese/geral-44164417"><i><span style="font-weight: 400;">#MeToo</span></i></a><span style="font-weight: 400;">, que acumula queixas de superiores até fora do meio cinematográfico.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Não ia demorar muito para que esses protestos tomassem forma nas telonas. </span><a href="https://personaunesp.com.br/o-escandalo-critica/"><i><span style="font-weight: 400;">O Escândalo</span></i></a><span style="font-weight: 400;">, lançado em 2019, foi um dos primeiros a cumprir a tarefa, ao tratar sobre casos de assédio causados por </span><a href="https://exame.com/mundo/colunista-da-fox-news-processa-chefe-por-assedio-sexual/"><span style="font-weight: 400;">Roger Ailes</span></a><span style="font-weight: 400;">, diretor da </span><i><span style="font-weight: 400;">Fox News</span></i><span style="font-weight: 400;">. Apesar de parecer promissor, o resultado acabou por ser uma prova nítida de que boas intenções não fazem um bom filme, muito menos justiça, se as pessoas erradas estiverem por trás das câmeras. Nesse caso, </span><i><span style="font-weight: 400;">A Assistente</span></i><span style="font-weight: 400;"> merece muito mais levar os créditos do pioneirismo. </span></p>
<p><span id="more-18448"></span></p>
<figure id="attachment_18450" aria-describedby="caption-attachment-18450" style="width: 862px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-full wp-image-18450" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/02/imagem2.jpg" alt=" A imagem é uma cena do filme A Assistente. Nela, está a atriz Julia Garner, que interpreta a personagem Jane. Jane é uma mulher branca, de olhos azuis, cabelos loiros e amarrados em um coque, ela veste uma blusa rosa de gola alta e mangas compridas e usa um relógio preto em seu pulso esquerdo. Na cena, Jane está no escritório do trabalho sentada em uma cadeira, é possível ver do seu peito para cima. Ela está com o queixo apoiado em sua mão esquerda. Atrás de Jane, ao seu lado esquerdo, está um dos seus colegas de escritório, um homem branco, de cabelos castanhos escuros, que usa óculos, uma calça jeans e uma camisa azul de manga comprida. Ao lado direito, está outro colega de escritório, um homem branco, de cabelos castanhos, barba, e que veste uma blusa verde-musgo de manga comprida e uma calça jeans. Todos os personagens estão olhando o que parece ser a tela de um computador." width="862" height="575" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/02/imagem2.jpg 862w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/02/imagem2-300x200.jpg 300w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/02/imagem2-768x512.jpg 768w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 1362px) 62vw, 840px" /><figcaption id="caption-attachment-18450" class="wp-caption-text">O movimento ganhou um braço independente em terras brasileiras, o <a href="https://metoobrasil.org.br/">#MeTooBrasil</a> (Foto: Reprodução)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">Escrita e dirigida por </span><a href="https://www.youtube.com/watch?v=qFhB9UY7lDU"><span style="font-weight: 400;">Kitty Green</span></a><span style="font-weight: 400;">, a produção se centra na rotina de Jane, uma aspirante à produtora de cinema, que trabalha como assistente em uma grande empresa do ramo. Mas essa narrativa não surge às claras logo de início. Acompanhamos cada passo de seu longo dia de trabalho, em que ela é a primeira a chegar e a última a sair, com a curiosidade em entender para onde esse caminho irá nos levar. As ligações, os agendamentos e os roteiros que ela imprime são algumas peças do quebra-cabeça que vão se juntando ao longo dos agonizantes minutos. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">O conflito principal da trama também não é entregue de bandeja, e, para quem esteve por fora dos últimos acontecimentos do mundo midiático, talvez nada tenha feito sentido até agora. Entre os afazeres de nossa protagonista, há diversos encobrimentos sobre alguns atos do seu chefe, que, bem nas entrelinhas, é possível entender bem sobre o que se trata. Um chefe que não possui rosto, sendo apenas um fantasma sobre a narrativa. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Essa impessoalidade sobre o filme é o acerto principal de Kitty Green. Não identificamos quem é o poderoso magnata que se esconde no escritório, e nem é preciso. Os homens que cometem atos indecentes com seus empregados não possuem nome nem endereço na vida real. Basta muito poder nas mãos e uma mentalidade advinda de anos de construção de uma cultura patriarcal repulsiva. Deixar esse espaço em aberto mostra o quanto é uma situação aplicável para qualquer lugar e qualquer pessoa, seja Weinstein, Ailes ou </span><a href="https://g1.globo.com/pop-arte/noticia/kevin-spacey-e-acusado-de-assedio-sexual-por-homens-da-equipe-de-house-of-cards-diz-tv.ghtml"><span style="font-weight: 400;">Kevin Spacey</span></a><span style="font-weight: 400;">. </span></p>
<figure id="attachment_18451" aria-describedby="caption-attachment-18451" style="width: 2400px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-full wp-image-18451" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/02/r2_g_r709.195416_R.jpg" alt=" A imagem é uma cena do filme A Assistente. Nela, está a atriz Julia Garner, que interpreta a personagem Jane, e a atriz Kristine Froseth, que interpreta Sienna. Ambas estão sentadas no banco de trás de um carro, uma olhando para a outra. Jane é uma mulher branca, de olhos azuis, cabelos loiros e amarrados em um coque, ela veste um casaco cinza, um cachecol bege e calça preta. Sienna é uma mulher branca, de olhos azuis e cabelos castanhos claros, longos e lisos, ela veste um agasalho verde e uma calça jeans clara." width="2400" height="1200" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/02/r2_g_r709.195416_R.jpg 2400w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/02/r2_g_r709.195416_R-300x150.jpg 300w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/02/r2_g_r709.195416_R-1024x512.jpg 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/02/r2_g_r709.195416_R-768x384.jpg 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/02/r2_g_r709.195416_R-1536x768.jpg 1536w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/02/r2_g_r709.195416_R-2048x1024.jpg 2048w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/02/r2_g_r709.195416_R-1200x600.jpg 1200w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 1362px) 62vw, 840px" /><figcaption id="caption-attachment-18451" class="wp-caption-text">A Assistente recebeu três indicações para o <a href="https://www.omelete.com.br/filmes/spirit-awards-2021-indicados">Spirit Awards 2021</a>, o Oscar do Cinema Independente: Melhor Atriz, Melhor Roteiro de Estreia e Melhor Direção de Fotografia (Foto: Reprodução)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">O papel de Jane é simbólico em diversos aspectos. Sua inocência é representada desde sua blusa rosa e sua caneca colorida, em meio a um ambiente cinza e perverso. A angústia é clara no </span><a href="https://deadline.com/2021/01/the-assistant-julia-garner-kitty-green-interview-contenders-1234679018/"><span style="font-weight: 400;">olhar de Julia Garner</span></a><span style="font-weight: 400;"> ao observar cada detalhe da rotina que a cerca, as situações que acoberta sem ter conhecimento, os comentários machistas entre funcionários e as atitudes daqueles que normalizam a situação criminosa que os envolve. Ela acaba por ser uma vítima indireta das pequenas agressões que a rodeiam naquele ambiente. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">A condução da narrativa é um exemplo perfeito sobre como denunciar assuntos delicados com objetividade e sem ferir suas vítimas. O filme não foca em nenhum momento em </span><a href="https://www.indiewire.com/video/assistant-kitty-green-interview-metoo-male-predator-1202207482/"><span style="font-weight: 400;">mostrar detalhes nefandos</span></a><span style="font-weight: 400;"> dos abusos sexuais que acontecem por trás da porta, deixando a vista mais do que o suficiente para que se possa entender e sentir a situação. O protagonismo da assistente é uma representação daqueles que se veem impunes em meio a situações de assédio, e dos que sofrem ao observar a crueldade de atos sem ter certeza completa sobre eles. </span></p>
<figure id="attachment_18452" aria-describedby="caption-attachment-18452" style="width: 2560px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-full wp-image-18452" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/02/FD7A3512-scaled-1.jpg" alt="A imagem é uma cena do filme A Assistente. Nela, está a atriz Julia Garner, que interpreta a personagem Jane. Jane é uma mulher branca, de olhos azuis, cabelos loiros e amarrados em um coque, ela veste um casaco cinza, um cachecol bege e calça preta. Na cena, ela está em um elevador segurando várias pastas em seus braços, com o olhar voltado para baixo. " width="2560" height="1789" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/02/FD7A3512-scaled-1.jpg 2560w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/02/FD7A3512-scaled-1-300x210.jpg 300w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/02/FD7A3512-scaled-1-1024x716.jpg 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/02/FD7A3512-scaled-1-768x537.jpg 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/02/FD7A3512-scaled-1-1536x1073.jpg 1536w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/02/FD7A3512-scaled-1-2048x1431.jpg 2048w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/02/FD7A3512-scaled-1-1200x839.jpg 1200w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 1362px) 62vw, 840px" /><figcaption id="caption-attachment-18452" class="wp-caption-text">Vencedora de dois Emmys por <a href="https://personaunesp.com.br/ozark-critica/">Ozark,</a> Julia Garner é uma das atrizes cotadas para interpretar a cantora Madonna <a href="https://www.papelpop.com/2021/01/florence-pugh-e-julia-garner-se-destacam-na-disputa-para-estrelar-cinebiografia-de-madonna-diz-tabloide/">nos cinemas</a> (Foto: Reprodução)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">A ficha demora para cair de vez, mas ela cai. O clímax do filme se dá quando Jane resolve tentar fazer uma queixa em relação aos acontecimentos que tem observado, e vemos aí a cena mais dilacerante da produção. A sutileza com que ela é acolhida para falar sobre os problemas, e a reação agressiva que recebe na mesma intensidade, que completa o bingo dos questionamentos às denúncias de abuso sexual:</span><i><span style="font-weight: 400;"> “você está com inveja”</span></i><span style="font-weight: 400;">,</span><i><span style="font-weight: 400;"> “vai destruir sua carreira”</span></i><span style="font-weight: 400;"> e </span><i><span style="font-weight: 400;">“não se preocupe, você nem faz o tipo dele”</span></i><span style="font-weight: 400;">. </span></p>
<p><i><span style="font-weight: 400;">A Assistente</span></i><span style="font-weight: 400;"> é um filme cruel até o último minuto. </span><a href="https://personaunesp.com.br/i-know-this-much-is-true-critica/"><span style="font-weight: 400;">Quebrando os paradigmas</span></a><span style="font-weight: 400;"> de final feliz que estamos tão acostumados, não há nenhum arco de justiça ou empoderamento. Kitty Green nos agride com a realidade na sua forma mais pura e fria: a falta de apoio e a descrença sobre as vítimas de assédio. E traz uma resposta para um questionamento de muito tempo, sobre como Hollywood conseguiu esconder escândalos sexuais por tantos anos. Não foi muito difícil.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">O final da trama deixa o destino de Jane em aberto, sobre qual seria sua decisão diante de uma <em>escolha de Sofia</em>. A narrativa se fecha restando uma ponta de ansiedade e curiosidade, e também a certeza de que qualquer um dos caminhos escolhidos seria igualmente destruidor. O futuro da assistente não precisa ser mostrado, pois já o vemos se repetir inúmeras vezes todos os dias.</span></p>
<figure id="attachment_18453" aria-describedby="caption-attachment-18453" style="width: 1200px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="wp-image-18453 size-full" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/02/A-Assistente-Amazon-Prime-Video-filme-critica.jpg" alt="A imagem é a foto do cartaz do filme A Assistente. Nela, está a atriz Julia Garner, que interpreta a personagem Jane. Jane é uma mulher branca, de olhos azuis, cabelos loiros e amarrados em um coque, ela veste uma blusa rosa de gola alta e mangas compridas. Na imagem, Jane está virada de perfil para o lado esquerdo, ela segura várias folhas de papel, em seu braço esquerdo, e está folheando com a mão direita. Ao fundo, é possível ver fotos de várias mulheres, que aparentam ser atrizes." width="1200" height="675" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/02/A-Assistente-Amazon-Prime-Video-filme-critica.jpg 1200w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/02/A-Assistente-Amazon-Prime-Video-filme-critica-300x169.jpg 300w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/02/A-Assistente-Amazon-Prime-Video-filme-critica-1024x576.jpg 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/02/A-Assistente-Amazon-Prime-Video-filme-critica-768x432.jpg 768w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 1362px) 62vw, 840px" /><figcaption id="caption-attachment-18453" class="wp-caption-text">O movimento #MeToo teve e ainda tem suas conquistas, mais de 200 homens já <a href="https://oglobo.globo.com/sociedade/levantamento-mostra-que-movimento-metoo-tirou-201-homens-do-poder-23183032">foram demitidos</a> após acusações públicas de assédio sexual (Foto: Reprodução)</figcaption></figure>
<p><i><span style="font-weight: 400;">A Assistente</span></i><span style="font-weight: 400;"> cutuca as feridas que Hollywood insiste em tentar cicatrizar. A falsa vitória dos protestos em prol das vítimas, enquanto </span><a href="https://www.omelete.com.br/filmes/oscar-2020-diretoras-esnobadas#13"><span style="font-weight: 400;">mal consegue reconhecer</span></a><span style="font-weight: 400;"> o esforço de mulheres no meio profissional e manter uma indústria saudável e segura. De nada adiantam as denúncias e manifestações bem sucedidas se abusadores continuarem sendo aplaudidos, ou até mesmo </span><a href="https://brasil.elpais.com/brasil/2020/02/28/cultura/1582925639_379411.html"><span style="font-weight: 400;">premiados</span></a><span style="font-weight: 400;">, como se as consequências de seus atos fosse um mero deslize. </span></p>
<p>O post <a href="http://personaunesp.com.br/a-assistente-critica/">A Assistente: os verdadeiros bastidores de Hollywood</a> apareceu primeiro em <a href="http://personaunesp.com.br">Persona | Jornalismo Cultural</a>.</p>
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