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	<title>Arquivos Retrato de uma Jovem em Chamas &#8211; Persona | Jornalismo Cultural</title>
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	<description>Desde 2015 provando que a distância entre Bergman, Lady Gaga e a novela das 9 nem existe.</description>
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		<title>Retrato de uma Jovem em Chamas ressignifica a dor</title>
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		<pubDate>Wed, 08 Jan 2020 21:59:46 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Cinema]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Jho Brunhara Alguns filmes são bons para se assistir e passar o tempo, outros para se emocionar e debulhar-se em lágrimas, outros para morrer de rir. Mas talvez um dos maiores problemas da velocidade em que consumimos arte audiovisual na era da informação &#8211; ainda mais após a popularização da Internet &#8211; é que nem &#8230; <a href="http://personaunesp.com.br/retrato-jovem-chamas-critica/" class="more-link">Continue lendo<span class="screen-reader-text"> "Retrato de uma Jovem em Chamas ressignifica a dor"</span></a></p>
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										<content:encoded><![CDATA[<figure id="attachment_13350" aria-describedby="caption-attachment-13350" style="width: 2000px" class="wp-caption alignnone"><img fetchpriority="high" decoding="async" class="size-full wp-image-13350" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2020/01/3b1b1b50-1b08-49cd-bdd7-e567680f1ee2.jpg" alt="" width="2000" height="2945" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2020/01/3b1b1b50-1b08-49cd-bdd7-e567680f1ee2.jpg 2000w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2020/01/3b1b1b50-1b08-49cd-bdd7-e567680f1ee2-204x300.jpg 204w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2020/01/3b1b1b50-1b08-49cd-bdd7-e567680f1ee2-768x1131.jpg 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2020/01/3b1b1b50-1b08-49cd-bdd7-e567680f1ee2-695x1024.jpg 695w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2020/01/3b1b1b50-1b08-49cd-bdd7-e567680f1ee2-1200x1767.jpg 1200w" sizes="(max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 1362px) 62vw, 840px" /><figcaption id="caption-attachment-13350" class="wp-caption-text">(Foto: Reprodução)</figcaption></figure>
<p><strong>Jho Brunhara</strong></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Alguns filmes são bons para se assistir e <a href="http://personaunesp.com.br/shazam-critica/">passar o tempo</a>, outros para se <a href="http://personaunesp.com.br/historia-de-um-casamento-critica/">emocionar</a> e debulhar-se em lágrimas, outros para morrer de rir. Mas talvez um dos maiores problemas da velocidade em que consumimos arte audiovisual na era da informação &#8211; ainda mais após a popularização da Internet &#8211; é que nem tudo é memorável. Muito do que assistimos é <a href="https://personaunesp.com.br/it-capitulo-dois-critica/">esquecível</a>, ou é visto com um sentimento de <a href="http://personaunesp.com.br/longe-de-casa-critica/">indiferença</a>, sendo só mais um para a lista. Retrato de uma Jovem em Chamas é o completo oposto disso. O longa da diretora francesa Céline Sciamma é como uma marca na alma, uma queimadura deixada por um rastro de fogo. Aquela cicatriz que ao se olhar remete à uma memória intensa, que por mais dolorida que tenha sido em um breve momento, carrega consigo algo muito maior &#8211; uma lembrança boa. </span></p>
<p><span id="more-13349"></span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Assim como o enredo &#8211; a ida da pintora Marianne (Noémie Merlant) até o castelo de Héloïse (Adèle Haenel), a pedido da mãe (Valeria Golino) da jovem herdeira para que pinte a filha em segredo -, a fotografia de tela inteira do longa revela de cara a intenção de Sciamma: que as cenas se apresentem como pinturas. E a direção passeia entre os cenários <a href="https://www.hisour.com/pt/chiaroscuro-17636/">claros e escuros</a> do casarão, apresentando grandes planos e pequenos detalhes, que às vezes acompanham a própria fala &#8211; redundantes em certos momentos, quase como se a diretora quisesse confirmá-los ao espectador. </span><i><span style="font-weight: 400;">Retrato de uma Jovem em Chamas</span></i><span style="font-weight: 400;"> bebe da fonte dos <a href="http://personaunesp.com.br/alex-strangelove-critica/">clichês românticos</a> e os transforma em uma história de amor homoafetiva entre duas mulheres em pleno século 18. E o maior diferencial do roteiro de Céline é o poder de contar uma paixão com suas provações e tribulações sem ter que se <a href="https://i-d.vice.com/en_uk/article/3ke888/the-problem-with-gay-coming-of-age-movies">explicar</a> do ponto de vista da sexualidade. Do enlace à primeira vista, a tensão, o faiscar dos olhares até o momento de entrega das personagens, tudo se constrói em volta do sentimento do amor em si, e não da dúvida ou do medo, mesmo estando em 1760. </span></p>
<figure id="attachment_13351" aria-describedby="caption-attachment-13351" style="width: 840px" class="wp-caption alignnone"><img decoding="async" class="wp-image-13351 size-large" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2020/01/portrait-of-a-lady-on-fire-3clilies-films-1024x540.jpg" alt="" width="840" height="443" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2020/01/portrait-of-a-lady-on-fire-3clilies-films-1024x540.jpg 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2020/01/portrait-of-a-lady-on-fire-3clilies-films-300x158.jpg 300w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2020/01/portrait-of-a-lady-on-fire-3clilies-films-768x405.jpg 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2020/01/portrait-of-a-lady-on-fire-3clilies-films-1200x633.jpg 1200w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2020/01/portrait-of-a-lady-on-fire-3clilies-films.jpg 1920w" sizes="(max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 1362px) 62vw, 840px" /><figcaption id="caption-attachment-13351" class="wp-caption-text">Noémie Merlant e Adèle Haenel (Foto: Reprodução)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">O sexo não é explícito em nenhum momento, e nenhuma cena parece ser desconfortável para as atrizes. Em comparação ao polêmico </span><a href="https://www.uol.com.br/universa/noticias/redacao/2019/04/24/a-historia-ocultada-do-abuso-contra-atrizes-de-azul-e-a-cor-mais-quente.htm"><span style="font-weight: 400;">Azul é a Cor Mais Quente</span></a><span style="font-weight: 400;">, o fato de </span><i><span style="font-weight: 400;">Retrato</span></i><span style="font-weight: 400;"> ser dirigido por uma mulher lésbica e com uma equipe repleta de representatividade feminina &#8211; Céline é uma das fundadoras do movimento 50/50, que acredita em uma participação igualitária de mulheres no cinema &#8211; sem dúvidas torna a produção uma experiência diferente. A francesa atualmente está em um relacionamento com a atriz Adèle Haenel, o que dá bagagem à sua visão sobre o afeto lésbico.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Distante de uma militância explícita, o longa condena o patriarcado através de sutilezas presentes no roteiro e o principal ponto de sua história: um amor contracorrente incapaz de vencer o sistema. Não por falta de vontade das protagonistas, mas por um conhecimento de resiliência. Em uma condição de falência das moradoras do castelo, evidente em comentários de Marianne e da empregada Sophie (Luana Bajrami), além da ambientação &#8211; salões vazios, móveis cobertos de pano e nenhum outro funcionário -, a mãe de Héloïse precisa que ela se case para que ambas voltem a ter dinheiro. Em nenhum momento é deixado claro se a filha tem consciência dessa necessidade, mas a raiva não parece ser direcionada à sua mãe. Em uma cena preciosa, a Condessa pede para que Héloïse lhe dê um beijo “como fazia quando criança”. Talvez até mesmo ela não queria aquele destino, mas foi daquela forma que havia herdado o castelo em que moravam, e sabia que não existia outra escolha. </span></p>
<figure id="attachment_13352" aria-describedby="caption-attachment-13352" style="width: 650px" class="wp-caption alignnone"><img decoding="async" class="size-full wp-image-13352" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2020/01/CANNES-INTERNATIONAL-FILM-FESTIVAL.jpg" alt="" width="650" height="423" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2020/01/CANNES-INTERNATIONAL-FILM-FESTIVAL.jpg 650w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2020/01/CANNES-INTERNATIONAL-FILM-FESTIVAL-300x195.jpg 300w" sizes="(max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 984px) 61vw, (max-width: 1362px) 45vw, 600px" /><figcaption id="caption-attachment-13352" class="wp-caption-text">Céline Sciamma com seu prêmio de melhor roteiro no Festival de Cannes 2019 (Foto: Reprodução)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">“Ele chegou antes de mim. Estava me esperando”, relembrou a Condessa enquanto contava sobre seu retrato pendurado na parede para Marianne. É também através desses pequenos momentos que Céline parece explorar sua visão feminista, como a objetificação feminina a ponto que a imagem de uma mulher, na época, &#8211; praticamente vendida por uma herança à seu pretendente &#8211; chegava antes mesmo que a própria noiva. Em outra cena, Marianne denuncia que mulheres são proibidas de pintar homens nus, segundo ela, “para nos prevenir de fazer artes boas”. O maior medo dos homens é se sentirem inferiores perante à uma mulher. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Enquanto o longa se desenrola e descobrimos mais sobre as protagonistas e a relação que se edifica, um dos ápices e uma das cenas mais importantes ocorre distante da trama principal. Uma gravidez indesejada resulta na decisão de realizar um aborto, e além da atenção ao mostrar os métodos abortivos do século 18, a direção e o roteiro seguros de Sciamma colocam o espectador diante de uma cena sensível, particular e extremamente consciente. Ao não retratar o aborto como uma angústia carregada de culpa, a mensagem é clara: não existe ódio ou uma moral. Existe somente uma escolha &#8211; “você quer uma criança?” -, e a resposta deve ser respeitada. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">A química entre Héloïse e Marianne é de tirar o fôlego desde o primeiro encontro das duas, em que a câmera desce as escadarias do castelo sem revelar o rosto da jovem, nem mesmo a cor de seus cabelos, cobertos por um capuz. Mas mesmo assim o olhar entregue por Noémie enquanto aguarda entre angústia e ansiedade pela revelação já convence do que as espera. A atuação de ambas as atrizes transita entre uma brutalidade tímida e uma aproximação tenra, ótimo trabalho tanto de Haenel quanto de Merlant.</span></p>
<figure id="attachment_13353" aria-describedby="caption-attachment-13353" style="width: 516px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-full wp-image-13353" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2020/01/Enrico_Scuri_-_Euridice_recedes_into_the_Underworld.jpg" alt="" width="516" height="680" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2020/01/Enrico_Scuri_-_Euridice_recedes_into_the_Underworld.jpg 516w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2020/01/Enrico_Scuri_-_Euridice_recedes_into_the_Underworld-228x300.jpg 228w" sizes="auto, (max-width: 516px) 85vw, 516px" /><figcaption id="caption-attachment-13353" class="wp-caption-text">&#8220;Eurídice retorna ao submundo&#8221;, Enrico Suri (Foto: Reprodução)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">Sciamma preza por frases bem ditas, o que é coerente à cordialidade superficial do século 18 &#8211; afinal, o filme ainda é um romance de época -, mas a diretora francesa o faz de uma forma poética e <a href="https://www.dicio.com.br/cupida-2/">cúpida</a>. Em dado momento de interação entre as duas protagonistas e a empregada Sophie &#8211; Luana também é excelente em sua personagem -, Héloïse lê o mito de Orfeu e Eurídice. Na história grega, Orfeu desce ao mundo dos mortos após a morte de sua esposa Eurídice, e pede à Hades que devolva a vida à sua amante. Hades aceita, mas com uma condição: que o mortal não olhe para sua esposa até retornarem à superfície. Orfeu olha para trás pela tentação de ver Eurídice e a condena à morte novamente. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Esse mito sem dúvidas é uma das peças chaves para entender a genialidade da obra de Sciamma. Enquanto debatem sobre a decisão de Orfeu, Marianne sugere que ele escolheu possuir a memória da amada. </span><i><span style="font-weight: 400;">Retrato de uma Jovem em Chamas</span></i><span style="font-weight: 400;"> é sobre se lembrar. Sem dúvidas também é um longa que retoma vontade de ser livre, feito de mulheres e sobre mulheres, mostrando a necessidade de imposição em um mundo que beneficia homens. Desde sua primeira cena em que Marianne quase perde seu material de pintura, que cai ao mar, e nenhum homem se oferece para buscá-lo, tendo de fazer o resgate sozinha. Mas é um filme principalmente sobre o poder da lembrança. Ao longo das quase duas horas de duração, e os poucos dias em que as personagens conviveram, o amor impossível se dissolve em sua própria realidade, e manter os pés no chão &#8211; ainda que cruel &#8211; é uma escolha que vem de dentro do peito, com muito amor e cuidado mútuo.</span></p>
<figure id="attachment_13354" aria-describedby="caption-attachment-13354" style="width: 1972px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-full wp-image-13354" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2020/01/portrait-of-a-lady-on-fire-4clilies-films.jpg" alt="" width="1972" height="1040" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2020/01/portrait-of-a-lady-on-fire-4clilies-films.jpg 1972w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2020/01/portrait-of-a-lady-on-fire-4clilies-films-300x158.jpg 300w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2020/01/portrait-of-a-lady-on-fire-4clilies-films-768x405.jpg 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2020/01/portrait-of-a-lady-on-fire-4clilies-films-1024x540.jpg 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2020/01/portrait-of-a-lady-on-fire-4clilies-films-1200x633.jpg 1200w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 1362px) 62vw, 840px" /><figcaption id="caption-attachment-13354" class="wp-caption-text">Os cenários espartanos dividem tela com pequenos planos dentro do casarão (Foto: Reprodução)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">E os dois momentos finais, que não farei maiores comentários pois não devem ser explicados e sim assistidos &#8211; e gravados na memória -, provam que pouco nos esquecemos das paixões verdadeiras, mas que nem por isso devemos lembrá-las com um gosto amargo e nos condenar à uma dor infinita. </span><i><span style="font-weight: 400;">Retrato</span></i><span style="font-weight: 400;"> não é só marcante e poético, é um dos filmes mais importantes que 2019 teve. Pela sua qualidade magistral, pela sua importância LGBT+, e por sua sinestesia de contraste, quente e gelada. Mais de dois mil anos e a humanidade continua <a href="https://www.nytimes.com/2019/02/09/style/love-infatuation-longing.html">escrevendo</a> sobre o amor. “Todos os amantes sentem que estão inventando alguma coisa?” Ainda bem que sim, a arte agradece. </span></p>
<p><i><span style="font-weight: 400;">Ne regrette pas, souviens-vous. </span></i></p>
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