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	<title>Arquivos Renata Sorrah &#8211; Persona | Jornalismo Cultural</title>
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	<description>Desde 2015 provando que a distância entre Bergman, Lady Gaga e a novela das 9 nem existe.</description>
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		<title>Solar e emocionante, Vai na Fé não tem medo de ser novela</title>
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		<pubDate>Fri, 15 Dec 2023 17:19:00 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p>Felipe Nunes A jornada de uma mulher evangélica que vende marmitas para sustentar a família é o retrato de diversas brasileiras. A trama poderia ser capaz de fisgar a atenção do público pela representação e, ao mesmo tempo, se perder em um marasmo de clichês e monotonias? Com certeza, caso não tivesse explorado a modernidade &#8230; <a href="http://personaunesp.com.br/vai-na-fe-critica/" class="more-link">Continue lendo<span class="screen-reader-text"> "Solar e emocionante, Vai na Fé não tem medo de ser novela"</span></a></p>
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										<content:encoded><![CDATA[<figure id="attachment_32290" aria-describedby="caption-attachment-32290" style="width: 800px" class="wp-caption alignnone"><img fetchpriority="high" decoding="async" class="size-medium wp-image-32290" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/12/Imagem-1-Vai-na-Fe-800x450.jpg" alt="Foto de Sheron Menezzes como a personagem Sol, de Vai na Fé. A personagem sorri, tem cabelos cacheados em tons castanhos e veste uma blusa vermelha, além de um par de brincos e um colar. O cenário da foto é a entrada de uma casa e um portão." width="800" height="450" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/12/Imagem-1-Vai-na-Fe-800x450.jpg 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/12/Imagem-1-Vai-na-Fe-1024x576.jpg 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/12/Imagem-1-Vai-na-Fe-768x432.jpg 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/12/Imagem-1-Vai-na-Fe-1200x675.jpg 1200w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/12/Imagem-1-Vai-na-Fe.jpg 1280w" sizes="(max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 984px) 61vw, (max-width: 1362px) 45vw, 600px" /><figcaption id="caption-attachment-32290" class="wp-caption-text">Folhetim é o mais lucrativo da faixa das sete na história da Globo, de acordo com a Folha de S. Paulo (Foto: Rede Globo)</figcaption></figure>
<p><b>Felipe Nunes</b></p>
<p><span style="font-weight: 400;">A jornada de uma mulher evangélica que vende marmitas para sustentar a família é o </span><a href="https://labdicasjornalismo.com/noticia/12308/-vai-na-fe--e-a-novela-que-reflete-a-historia-de-muitas-brasileiras"><span style="font-weight: 400;">retrato de diversas brasileiras</span></a><span style="font-weight: 400;">. A trama poderia ser capaz de fisgar a atenção do público pela representação e, ao mesmo tempo, se perder em um marasmo de clichês e monotonias? Com certeza, caso não tivesse explorado a modernidade de forma tão livre. Lançada em Janeiro de 2023, </span><a href="https://www.youtube.com/watch?v=xQQgyMbLohc"><i><span style="font-weight: 400;">Vai na Fé</span></i></a> <span style="font-weight: 400;">surge em uma era dificultosa para a teledramaturgia, que, aos trancos e barrancos, não retornou ao lugar magistral que ocupava na vida dos espectadores televisivos antes do contexto pandêmico. Subestimada inicialmente, a produção superou as expectativas de todos, incluindo da própria </span><i><span style="font-weight: 400;">Rede Globo</span></i><span style="font-weight: 400;">.</span></p>
<p><span id="more-32282"></span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">O trunfo da superação é de </span><a href="http://teledramaturgia.com.br/rosane-svartman/"><span style="font-weight: 400;">Rosane Svartman</span></a><span style="font-weight: 400;">, que sabe bem como transformar narrativas consideradas simples em situações profundas e cativantes. Afinal, toda história, até mesmo a mais disruptiva e inovadora, parte de um lugar-comum e trivial. O encanto não é gerado apenas pelo conteúdo – na verdade, é, em grande parte, ocasionado por quem conta essas histórias e, também, por quem as interpreta. Nesse caso, pela sintonia de Svartman e Sheron Menezzes, que brilharam juntas ao longo dos 179 capítulos. O texto escrito pela novelista conflui ao tom da interpretação dada pela atriz e o sucesso da obra se deve muito a isso.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Aos poucos, a trajetória de Sol (Menezzes) se mostra bem mais peculiar do que a apresentada na sinopse inicial. Perder o esposo, Carlão (Che Moais); virar dançarina do </span><i><span style="font-weight: 400;">ballet</span></i><span style="font-weight: 400;"> de Lui Lorenzo (José Loreto); reencontrar o grande amor, Benjamin (Samuel de Assis); revisitar os </span><a href="https://www.brasildefato.com.br/2023/07/24/novela-vai-na-fe-muda-retrato-da-violencia-contra-a-mulher-na-teledramaturgia"><span style="font-weight: 400;">traumas do abuso</span></a><span style="font-weight: 400;"> que sofreu de Theo (Emilio Dantas); e descobrir que a primogênita, Jennifer (Bella Campos), é resultado de um estupro, são arcos intensos e super importantes na construção da personagem. Menezzes passeou com destreza por todas essas fases, mostrando que há tempos merecia um </span><a href="https://gshow.globo.com/novelas/vai-na-fe/noticia/sheron-menezzes-celebra-primeira-protagonista-e-representatividade-em-vai-na-fe-sol-e-encantadora.ghtml#:~:text=H%C3%A1%20quase%2021%20anos%2C%20Sheron,%2C%20e%20a%20personagem%2C%20J%C3%BAlia."><span style="font-weight: 400;">papel de destaque</span></a><span style="font-weight: 400;">.</span></p>
<figure id="attachment_32289" aria-describedby="caption-attachment-32289" style="width: 800px" class="wp-caption alignnone"><img decoding="async" class="size-medium wp-image-32289" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/12/Imagem-2-Vai-na-Fe-800x500.jpeg" alt="Cena de Vai na Fé. Sol (Sheron Menezzes), que veste blusa preta e tem cabelos castanhos cacheados com luzes loiras, abraça Jennifer (Bella Campos), que tem cabelos castanhos cacheados e veste blusa amarela." width="800" height="500" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/12/Imagem-2-Vai-na-Fe-800x500.jpeg 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/12/Imagem-2-Vai-na-Fe-768x480.jpeg 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/12/Imagem-2-Vai-na-Fe.jpeg 990w" sizes="(max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 984px) 61vw, (max-width: 1362px) 45vw, 600px" /><figcaption id="caption-attachment-32289" class="wp-caption-text">Mãe e filha na ficção, Sheron Menezzes e Bella Campos vivenciaram o tema mais sensível, que versou sobre o abuso sexual que Sol sofreu e do qual Jenifer foi gerada (Foto: Rede Globo)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">Torcer pela ‘mocinha’ não foi um sacrifício como acontece frequentemente em produções que colocam as protagonistas como figuras bobas repletas de ações pautadas em bondades hiperbólicas, burras e irreais. Sol não é ingênua. Pelo contrário, é forte, combatente, decidida e corajosa. Acompanhá-la, nos momentos bons ou ruins, é como procurar notícias de uma velha amiga. A mescla entre ganhos e perdas também é um fator considerável, porque mostra como a vida é: cheia de reviravoltas. A trama quebra o paradigma constante de que um personagem principal precisa sofrer do início ao fim. Em gêneros longos como novelas, isso, na verdade, é torturante. É por esse motivo que foi tão emocionante ver </span><a href="https://gshow.globo.com/novelas/vai-na-fe/personagem/sol/"><span style="font-weight: 400;">Sol</span></a><span style="font-weight: 400;"> conquistando um sonho de cada vez ao decorrer da obra, mesmo que enfrentasse percalços.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">O carisma da mocinha, além da entrega de Menezzes, foi gestado já pelo texto de Svartman e de sua equipe de colaboradores: </span><span style="font-weight: 400;">Sabrina Rosa, Fabrício Santiago, Renata Sofia, Mário Viana, Renata Corrêa e Pedro Alvarenga. Inquestionavelmente, a multiplicidade de vozes de cada colaborador foi impressa no roteiro, tornando-o fresco. A concentração textual novelística em apenas um autor foi realidade nos antigos folhetins, mas </span><a href="https://oglobo.globo.com/cultura/televisao/noticia/2023/07/12/autora-de-vai-na-fe-rosane-svartman-nao-sonha-com-a-novela-das-21h-estou-fazendo-o-que-gosto.ghtml"><span style="font-weight: 400;">a colaboração é o futuro</span></a><span style="font-weight: 400;">. Com ela, os temidos furos não são tão recorrentes e as sequências ganham novas roupagens. Monotonia passa longe quando diversos olhares estão envolvidos na contação de uma história, e o alcance do folhetim foi alicerçado nesse pilar.</span></p>
<p><a href="https://mundonegro.inf.br/representatividade-e-autenticidade-de-vai-na-fe-novela-protagonizada-por-sheron-menezzes-conquistam-o-brasil/"><span style="font-weight: 400;">Representativa</span></a><span style="font-weight: 400;">, </span><i><span style="font-weight: 400;">Vai na Fé</span></i><span style="font-weight: 400;"> contou não apenas com protagonistas pretos, mas com grande parte do elenco como um todo. De acordo com </span><a href="https://www.uol.com.br/splash/noticias/2023/01/18/samuel-de-assis-comemora-representatividade-em-vai-na-fe-globo.htm"><span style="font-weight: 400;">Samuel de Assis</span></a><span style="font-weight: 400;">, responsável pelo advogado e galã Benjamin, 70% dos atores da novela são pretos. A representação transcende o eixo temático do racismo, que, embora tenha sido abordado na narrativa, não foi o único – o que é uma enorme conquista. Tratar do tema é essencial, porém os personagens pretos não estão lá apenas para essa função. Diante disso, acompanhá-los em outros dramas do cotidiano e vê-los em posição de destaque na história foi um ponto positivo que quebra os </span><a href="https://www1.folha.uol.com.br/podcasts/2021/09/podcast-discute-racismo-na-teledramaturgia-e-a-novela-nos-tempos-do-imperador.shtml"><span style="font-weight: 400;">estigmas impregnados na teledramaturgia</span></a><span style="font-weight: 400;"> – a qual, por muito tempo, deu espaço aos intérpretes negros somente para coadjuvantes, ou em papéis de empregados e ladrões.</span></p>
<figure id="attachment_32288" aria-describedby="caption-attachment-32288" style="width: 800px" class="wp-caption alignnone"><img decoding="async" class="size-medium wp-image-32288" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/12/Imagem-3-Vai-na-Fe-800x450.jpg" alt="Parte do elenco de atores pretos da novela Vai na Fé. Na foto há intérpretes como Sheron Menezzes, Samuel de Assis, Jean Paulo Campos, Isacque Lopes, Jê Soares, Clara Moneke e Orlando Caldeira, que aparecem sorrindo para a foto." width="800" height="450" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/12/Imagem-3-Vai-na-Fe-800x450.jpg 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/12/Imagem-3-Vai-na-Fe-1024x576.jpg 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/12/Imagem-3-Vai-na-Fe-768x432.jpg 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/12/Imagem-3-Vai-na-Fe-1200x675.jpg 1200w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/12/Imagem-3-Vai-na-Fe.jpg 1280w" sizes="(max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 984px) 61vw, (max-width: 1362px) 45vw, 600px" /><figcaption id="caption-attachment-32288" class="wp-caption-text">Personagens pretos bem construídos e em destaque foram a maior conquista da novela, sem sombra de dúvidas (Foto: Rede Globo)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">O minucioso trabalho da escalação de elenco foi a mola propulsora para essa representatividade. Antes nunca vista em folhetins, </span><a href="https://g1.globo.com/fantastico/noticia/2023/07/30/sucesso-em-vai-na-fe-conheca-a-trajetoria-de-clara-moneke-muito-orgulho-de-ter-comecado-em-um-curso-de-teatro-gratuito.ghtml"><span style="font-weight: 400;">Clara Moneke</span></a><span style="font-weight: 400;"> é, de longe, uma grata revelação e exemplo da importância da negritude em obras culturais audiovisuais. Coube a ela vivenciar a engraçada, intensa, sensível e carismática </span><a href="https://www.youtube.com/watch?v=A5YVDkAPDTM"><span style="font-weight: 400;">Kate</span></a><span style="font-weight: 400;">. Ainda que como coadjuvante, ganhou maior tempo de tela e se consolidou como uma das melhores personagens. O mesmo vale para Carla Cristina Cardoso como Bruna, mãe de Kate na ficção. Isso porque, se no início ela era apenas o apoio de Sol, nos desdobramentos do arco maternal pôde brilhar através da relação construída com a filha e teve, enfim, uma trama para chamar de sua.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Por outro lado, vale ressaltar que veteranos também foram ‘revelados’ outra vez. É o caso de </span><a href="https://revistaquem.globo.com/entretenimento/tv-e-novelas/vai-na-fe/noticia/2023/07/carolina-dieckmann-sobre-lumiar-em-vai-na-fe-pessoas-passaram-pano-para-as-maiores-loucuras.ghtml"><span style="font-weight: 400;">Carolina Dieckmann</span></a><span style="font-weight: 400;">, que viveu seu melhor papel na teledramaturgia brasileira como Lumiar Lorenzo. Eternizada como a Lindalva, de </span><a href="https://memoriaglobo.globo.com/entretenimento/novelas/senhora-do-destino/"><i><span style="font-weight: 400;">A Senhora do Destino</span></i></a><span style="font-weight: 400;">, e Camila, de </span><a href="https://memoriaglobo.globo.com/entretenimento/novelas/lacos-de-familia/"><i><span style="font-weight: 400;">Laços de Família</span></i></a><span style="font-weight: 400;">, a atriz se consagrou entre as complexidades da dúbia, porém profunda, professora universitária e advogada Lumiar. É característico de Rosane Svartman criar esse tipo de personagem, com camadas que misturam as piores e as melhores facetas da humanidade: egoísmo, arrogância e crueldade entrelaçadas com bondade, intensidade e passionalidade. Também criada pela autora de </span><i><span style="font-weight: 400;">Vai na Fé</span></i><span style="font-weight: 400;"> com Paulo Halm, </span><a href="https://tvhistoria.com.br/carolina-castilho-foi-a-melhor-personagem-de-totalmente-demais/"><span style="font-weight: 400;">Carolina Castilho (Juliana Paes)</span></a><span style="font-weight: 400;">, de </span><a href="http://teledramaturgia.com.br/totalmente-demais/"><i><span style="font-weight: 400;">Totalmente Demais</span></i></a><span style="font-weight: 400;">, ilustra essa tipologia de personagem e se assemelha ao papel defendido por Dieckmann.</span></p>
<figure id="attachment_32287" aria-describedby="caption-attachment-32287" style="width: 800px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-medium wp-image-32287" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/12/Imagem-4-Vai-na-Fe-800x500.jpg" alt="Cena de Totalmente Demais, novela das sete de Rosane Svartman para a Globo. Na direita, está a atriz Juliana Paes como a personagem Carolina Castilho, a vilã da novela. A personagem tem cabelos pretos castanhos, usa batom vermelho escuro e um roupão marrom. Na cena, ela sorri." width="800" height="500" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/12/Imagem-4-Vai-na-Fe-800x500.jpg 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/12/Imagem-4-Vai-na-Fe-768x480.jpg 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/12/Imagem-4-Vai-na-Fe.jpg 990w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 984px) 61vw, (max-width: 1362px) 45vw, 600px" /><figcaption id="caption-attachment-32287" class="wp-caption-text">Carolina Castilho e Lumiar são criadas a partir da mesma receita: contraditórias, intensas, dúbias, emocionais e, sobretudo, humanas (Fotos: Rede Globo)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">Além disso, os arcos, de forma geral, são bem equilibrados. É como se, além da narrativa central, micronarrativas ganhassem espaço a cada bloco de capítulos semanais, garantindo que cada parte do elenco tenha seu momento de esplendor. Regiane Alves como a volátil Clara; </span><a href="https://gente.ig.com.br/tvenovela/2023-06-20/caio-manhente-fala-de-tecnicas-para-interpretar-caio-em-vai-a-fe.html"><span style="font-weight: 400;">Caio Manhente</span></a><span style="font-weight: 400;"> na pele do traumatizado Rafa; Claudia Ohana na interpretação da bondosa Dora; e Renata Sorrah, que representou a atriz decadente Wilma Campos, balanceiam a trama sem invadir o espaço do enredo principal. Essa ampliação escancara o talento dos atores, é óbvio, mas não deixa de demonstrar a destreza da autora e dos colaboradores em não se perderem nos núcleos paralelos, o que acontece com outras produções novelísticas, como em </span><a href="https://labdicasjornalismo.com/noticia/12105/todas-as-flores-reforca-a-importancia-do-anticapacitismo-na-teledramaturgia"><i><span style="font-weight: 400;">Todas as Flores</span></i></a><span style="font-weight: 400;">, que estreou na TV aberta após ser disponibilizada no </span><i><span style="font-weight: 400;">Globoplay</span></i><span style="font-weight: 400;">.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">As sequências também foram embaladas com uma </span><a href="https://open.spotify.com/playlist/1afCc1xdNSmnxO6wG52IEW?si=3fdb39504f1c4989"><span style="font-weight: 400;">trilha sonora</span></a><span style="font-weight: 400;"> irretocável; aliás, a Música foi um dos fios condutores de todas as histórias. A abertura com </span><a href="https://www.youtube.com/watch?v=spkM__G1iLI"><i><span style="font-weight: 400;">Vai Dar Certo (Vai na Fé)</span></i></a><span style="font-weight: 400;"> na voz de Negra Li e MC Liro é um espetáculo à parte e virou </span><i><span style="font-weight: 400;">hit</span></i><span style="font-weight: 400;">, assim como as canções de Lui e Sol. </span><a href="https://www.youtube.com/watch?v=svUp8isgmes&amp;pp=ygUiYXBlbmFzIG1haXMgdW1hIGRlIGFtb3IgdmFpIG5hIGbDqQ%3D%3D"><i><span style="font-weight: 400;">Apenas Mais uma de Amor</span></i></a><span style="font-weight: 400;">, de </span><a href="https://labdicasjornalismo.com/noticia/13132/aos-70-anos-lulu-santos-celebra-inicio-de-novo-ciclo-com-lancamento-de-sua-nova-turne-baritono-"><span style="font-weight: 400;">Lulu Santos</span></a><span style="font-weight: 400;">; </span><a href="https://www.youtube.com/watch?v=v8DOybU8eEM&amp;pp=ygUPaGVsbG8gc3Vuc2hpbmUg"><i><span style="font-weight: 400;">Hello Sunshine</span></i></a><span style="font-weight: 400;">, de Aretha Franklin; e </span><a href="https://www.youtube.com/watch?v=Wi5pah0DYpM&amp;pp=ygUVbHVtaWFyIHJvYmVydGEgY2FtcG9z"><i><span style="font-weight: 400;">Lumiar</span></i></a><span style="font-weight: 400;">, de Roberta Campos, também imperam na trama. Contudo, é impossível não citar </span><a href="https://www.youtube.com/watch?v=p70o2XWlZ7A&amp;pp=ygUQZ2Fyb3RhIG5vdGEgMTAwIA%3D%3D"><i><span style="font-weight: 400;">Garota Nota 100</span></i></a><span style="font-weight: 400;">, </span><a href="https://www.youtube.com/watch?v=hUj_hwsIrSU&amp;pp=ygUQZ2Fyb3RhIG5vdGEgMTAwIA%3D%3D"><span style="font-weight: 400;">reinterpretada por Ludmilla</span></a><span style="font-weight: 400;"> e cantada originalmente pelo pioneiro no funk MC Marcinho. A faixa, responsável pelos momentos românticos do casal principal, fica eternizada como uma homenagem ao funkeiro, que, após sofrer uma parada cardíaca, </span><a href="https://g1.globo.com/rj/rio-de-janeiro/noticia/2023/08/26/mc-marcinho-o-principe-do-funk-morre-no-rio-aos-45-anos.ghtml"><span style="font-weight: 400;">morreu, aos 45 anos</span></a><span style="font-weight: 400;">, no dia 26 de agosto, duas semanas após o fim da novela.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Fora a competência dos atores, a direção de Paulo Silvestrini é outro acerto que equilibrou a novela. Conhecido pelos trabalhos em obras de sucesso na emissora, como </span><a href="https://memoriaglobo.globo.com/entretenimento/novelas/a-favorita/"><i><span style="font-weight: 400;">A Favorita</span></i></a><span style="font-weight: 400;"> e </span><a href="https://personaunesp.com.br/avenida-brasil-10-anos/"><i><span style="font-weight: 400;">Avenida Brasil</span></i></a><span style="font-weight: 400;">, o diretor entregou cenas catárticas e emocionantes na bela parceria com a autora da produção. Dentre elas, destacam-se o término de Lumiar e Ben; a morte de Dora; a prisão de Kate; a </span><a href="https://f5.folha.uol.com.br/televisao/2023/08/vai-na-fe-renata-sorrah-e-disputada-por-gloria-perez-joao-emanuel-e-walcyr-carrasco-e-emociona-web.shtml"><span style="font-weight: 400;">reunião</span></a><span style="font-weight: 400;"> de Wilma Campos com os novelistas João Emanuel Carneiro, Gloria Perez e Walcyr Carrasco; o incêndio promovido por Theo; e o casamento dos protagonistas.</span></p>
<figure id="attachment_32286" aria-describedby="caption-attachment-32286" style="width: 600px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-full wp-image-32286" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/12/Imagem-5-Vai-na-Fe.png" alt="Carla Cristina Cardoso e Clara Moneke caracterizadas como as personagens Bruna e Kate, de Vai na Fé. Bruna, com expressão séria, usa camiseta preta e tem cabelos pretos trançados. Já Kate, que faz bico para a foto, usa uma blusa estampada nas cores amarela, azul e rosa. Ela tem cabelos pretos longos cacheados. As personagens estão em uma sala de estar." width="600" height="400" /><figcaption id="caption-attachment-32286" class="wp-caption-text">Do humor ao drama, Carla Cristina Cardoso e Clara Moneke ganharam espaço na narrativa devido a imensa popularidade que conquistaram com o público (Foto: Rede Globo)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">O </span><a href="https://gshow.globo.com/novelas/vai-na-fe/noticia/vai-na-fe-viaje-por-dentro-da-cidade-cenografica-da-novela-das-7.ghtml"><span style="font-weight: 400;">núcleo do Icaes</span></a><span style="font-weight: 400;">, faculdade fictícia da trama, também mostra a familiaridade do diretor e da escritora com tramas juvenis. Nesse enredo paralelo, a dupla abordou com profundidade eixos temáticos relacionados a cotas universitárias, desigualdades sociais, racismo e sexualidade. Silvestrini trabalhou em </span><a href="http://teledramaturgia.com.br/malhacao-viva-a-diferenca/"><i><span style="font-weight: 400;">Malhação: Viva a Diferença</span></i></a><span style="font-weight: 400;">, ganhadora do </span><a href="http://personaunesp.com.br/tag/emmy/"><i><span style="font-weight: 400;">Emmy</span></i></a><i><span style="font-weight: 400;"> Kids</span></i><span style="font-weight: 400;"> Internacional como </span><a href="https://tvefamosos.uol.com.br/noticias/redacao/2019/04/09/malhacao---viva-a-diferenca-vence-emmy-awards-maior-premio-de-tv-mundial.htm"><span style="font-weight: 400;">Melhor Série</span></a><span style="font-weight: 400;">. Já Svartman é responsável pelas célebres temporadas: </span><a href="http://teledramaturgia.com.br/malhacao-2012/"><i><span style="font-weight: 400;">Malhação: Intensa como a Vida</span></i></a><span style="font-weight: 400;"> e </span><a href="https://f5.folha.uol.com.br/televisao/2021/02/malhacao-sonhos-relembre-quem-e-quem-na-novela.shtml"><i><span style="font-weight: 400;">Malhação Sonhos</span></i></a><span style="font-weight: 400;">. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">No meio de tantas bonanças e acertos, a história de </span><i><span style="font-weight: 400;">Vai na Fé </span></i><span style="font-weight: 400;">é manchada pela </span><a href="https://veja.abril.com.br/coluna/veja-gente/o-que-ha-por-tras-da-censura-ao-beijo-lesbico-em-vai-na-fe"><span style="font-weight: 400;">censura</span></a><span style="font-weight: 400;"> da direção da </span><i><span style="font-weight: 400;">Globo</span></i><span style="font-weight: 400;">. Uma das subtramas mais potentes, a de Clara, que após anos de abuso do marido se apaixona pela </span><i><span style="font-weight: 400;">personal trainer</span></i><span style="font-weight: 400;"> Helena (Priscila Sztejnman), foi subalternizada. Cenas homoafetivas de beijos das personagens foram </span><a href="https://gente.ig.com.br/celebridades/2023-06-20/globo-censurou-5-beijos-homoafetivos-vai-na-fe-revoltou-publico.html.ampstories"><span style="font-weight: 400;">cortadas inúmeras vezes</span></a><span style="font-weight: 400;">, o que prejudicou o folhetim e mostrou o retrocesso da emissora em retratar narrativas LGBTQIAP+. </span><a href="https://gente.ig.com.br/tvenovela/2023-05-26/regiane-alves-expoe-reacao-censura-beijo-vai-na-fe-senti-baque.html"><span style="font-weight: 400;">Regiane Alves</span></a><span style="font-weight: 400;">, que deixou a empresa televisiva</span> <span style="font-weight: 400;">após a novela, não se isentou frente ao conservadorismo e à censura. “</span><i><span style="font-weight: 400;">Um passo de cada vez para a construção de um futuro onde todas as formas de amor possam ser aceitas e celebradas</span></i><span style="font-weight: 400;">”, escreveu via </span><a href="https://x.com/RegianeAlves/status/1656425698192416770?s=20"><i><span style="font-weight: 400;">X</span></i></a><span style="font-weight: 400;">. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Após a pressão popular, tendo em vista as inúmeras desaprovações dos espectadores, críticos especializados e do próprio elenco, novas cenas foram gravadas e liberadas. No entanto, </span><a href="https://www.uol.com.br/splash/noticias/2023/08/01/reta-final-de-vai-na-fe-nao-faz-jus-ao-que-sol-merece.htm"><span style="font-weight: 400;">outros erros</span></a><span style="font-weight: 400;"> se somam ao que não foi tão bom na novela. As famigeradas ‘barrigas’ – períodos em que nada catártico acontece e as tramas parecem monótonas – dominaram a obra. Do meio ao final, a história se tornou cansativa. O interminável julgamento de Theo durou quase um mês e é o maior exemplo, assim como as situações envolvendo o exame de DNA de Jenifer, a gravidez de Guiga (Mel Maia) e muitas outras.</span></p>
<figure id="attachment_32285" aria-describedby="caption-attachment-32285" style="width: 768px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-full wp-image-32285" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/12/Imagem-6-Vai-na-Fe.jpg" alt="Cena do beijo de Clara (Regiane Alves) e Helena (Priscila Sztejnman). Helena, que está do lado esquerdo, tem cabelos castanhos curtos e veste uma blusa com listras brancas e verdes. Clara, que está do lado direito e tem cabelos loiros, veste uma blusa roxa. As personagens estão se beijando em uma sala." width="768" height="512" /><figcaption id="caption-attachment-32285" class="wp-caption-text">Adesão popular foi fundamental para que as cenas de beijos homoafetivos das personagens Clara e Helena fossem liberadas (Foto: Rede Globo)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">Se por um lado o folhetim ficou lento, por outro, alguns arcos foram concluídos com superficialidade e correria. A carreira musical de Sol, infelizmente, é um desses casos. Depois de uma longa jornada como cozinheira e dançarina, a protagonista alcançou o sonho de ser cantora solo somente na reta final da trama e, como outras situações também precisavam ser abordadas, a trajetória profissional foi jogada para escanteio. A inserção de Ângelo Paes Leme como um novo </span><a href="https://gente.ig.com.br/tvenovela/2023-07-31/novo-vilao-entra-em-vai-na-fe.html#:~:text=Os%20cap%C3%ADtulos%20finais%20de%20%E2%80%9CVai,de%20Sol%20(Sheron%20Menezzes)."><span style="font-weight: 400;">vilão</span></a><span style="font-weight: 400;"> não foi bem aproveitada pelo pouco tempo destinado ao enredo, por exemplo. Na pele de Mauro Vieira, um empresário abusador, Paes Leme poderia ter trazido frescor ao folhetim caso sua entrada não tivesse sido tão tardia, visto que ele integrou o elenco somente na última semana da novela.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">A mudança na linearidade é uma das inovações do folhetim. </span><i><span style="font-weight: 400;">Flashbacks</span></i><span style="font-weight: 400;"> são pouco usados nas novelas e quando aparecem são breves, padrão que </span><i><span style="font-weight: 400;">Vai na Fé</span></i><span style="font-weight: 400;"> rompeu. De forma geral, a fase atual é mais presente, mas isso não impediu que a narrativa principal estivesse totalmente </span><a href="https://gshow.globo.com/novelas/vai-na-fe/noticia/conheca-as-versoes-mais-jovens-de-samuel-de-assis-e-sheron-menezzes-em-vai-na-fe.ghtml"><span style="font-weight: 400;">interligada com o passado</span></a><span style="font-weight: 400;">. O relacionamento de Sol e Ben, inclusive, não caiu no clichê de amor à primeira vista e foi construído, principalmente, na fase jovem dos personagens, assumidos por Jê Soares e Isacque Lopes. A escalação e a caracterização foram condizentes. Em diversas cenas passado e presente se misturam, recurso narrativo que reflete a modernidade de Rosane Svartman para escrever novelas.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Nessas sequências temporais, Ben e Theo se destacam em ambas as fases. A relação conturbada por eles é percebida logo nos primeiros capítulos. Entretanto, quando o rompimento – motivado pela revelação do estupro do vilão contra Sol – acontece no meio da novela, a obsessão do personagem de Emilio Dantas é aprofundada. O ator vivenciou o </span><a href="https://noticiasdatv.uol.com.br/noticia/novelas/dissimulado-dubio-e-aterrorizante-como-theo-virou-o-vilao-perfeito-da-tv-104360"><span style="font-weight: 400;">pior vilão da faixa das sete</span></a><span style="font-weight: 400;">. Desprezível, nojento, abusador e cruel são características rasas para definir o que ele representa. Já Ben é o exato oposto, o contraponto que liquefaz a maldade. Samuel de Assis sustentou o carisma do galã sem perder as complexidades e representatividades que o personagem carregava. Ele e Dantas fizeram uma ótima dupla.</span></p>
<figure id="attachment_32284" aria-describedby="caption-attachment-32284" style="width: 730px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-full wp-image-32284" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/12/Imagem-7-Vai-na-Fe.jpg" alt="Cena de Vai na Fé. Emilio Dantas, que está ao lado esquerdo, é segurado por Samuel de Assis. Emilio é branco, tem cabelos e barbas loiras e veste uma camisa azul escura. Samuel de Assis está de costas para a câmera, é negro, tem cabelos pretos e veste uma blusa azul clara, enquanto segura o personagem de Emilio Dantas. Os personagens estão em uma rua." width="730" height="430" /><figcaption id="caption-attachment-32284" class="wp-caption-text">Obcecado, Theo atormentou Ben até o último capítulo (Foto: Rede Globo)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">Leve e, ao mesmo tempo, intensa, </span><i><span style="font-weight: 400;">Vai na Fé</span></i><span style="font-weight: 400;"> marca a teledramaturgia da </span><i><span style="font-weight: 400;">Rede Globo</span></i><span style="font-weight: 400;"> como um dos </span><a href="https://f5.folha.uol.com.br/televisao/2023/08/vai-na-fe-supera-recorde-de-cheias-de-charme-e-se-torna-o-maior-faturamento-da-globo-as-19h.shtml"><span style="font-weight: 400;">maiores fenômenos novelísticos do horário</span></a><span style="font-weight: 400;">. A particularidade em retratar temas sérios sem perder a essência clássica dos folhetins mostra que, embora seja composta por um texto moderno, a produção não tem medo de ser novela e é o que se cumpre a ser. Ao longo de 179 capítulos, retrata histórias profundas e reais, com o apoio de uma direção e um elenco em total sintonia. Ancorada na musicalidade, a obra, que tropeçou na reta final, reforça a importância de seguir em frente e ir na fé, até mesmo quando fazer isso pode parecer uma missão impossível em meio às turbulências da vida. Sucesso estrondoso, a trama mostra que, sim, os brasileiros amam novelas; mais do que isso: eles sempre vão amar.</span></p>
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		<title>Medida Provisória: uma distopia iminente se anuncia</title>
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		<pubDate>Mon, 23 May 2022 15:00:34 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p>Gabriel Gomes Santana Em um Brasil distópico, mas não muito distante da presente realidade, resgatar as origens deixa de ser uma opção e passa a ser uma lei. É diante desse bizarro cenário que Medida Provisória, primeiro longa dirigido por Lázaro Ramos, se desenvolve e quebra recordes de bilheteria nacional. O filme trata de uma &#8230; <a href="http://personaunesp.com.br/medida-provisoria-critica/" class="more-link">Continue lendo<span class="screen-reader-text"> "Medida Provisória: uma distopia iminente se anuncia"</span></a></p>
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										<content:encoded><![CDATA[<figure id="attachment_27678" aria-describedby="caption-attachment-27678" style="width: 800px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="wp-image-27678" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/05/Imagem-1-MP.png" alt="Cena do filme Medida Provisória. A foto exibe dois atores negros com olhares atentos em um ambiente noturno, cena de um momento de tensão do filme. À esquerda aparece o personagem Antônio, interpretado pelo ator Alfred Enoch. Ele é um rapaz alto, com cerca de 1,90 de altura, usa barba e cavanhaque e está encapuzado com uma jaqueta preta. Ao lado esquerdo da imagem temos o personagem André, interpretado pelo ator Seu Jorge. Ele é um pouco menor que Antônio, usa bigode e cavanhaque, carrega um colar por cima de uma jaqueta preta. Diferente de Antônio, André não veste um capuz. " width="800" height="467" /><figcaption id="caption-attachment-27678" class="wp-caption-text">Conduzido por uma direção inédita e uma trilha sonora composta por nomes como Elza Soares, Rincon Sapiência, Baco Exu do Blues, Cartola e Liniker, Medida Provisória chega aos cinemas quebrando paradigmas, emocionando e alarmando para um futuro não tão distante (Foto: Elo Company)</figcaption></figure>
<p><b>Gabriel Gomes Santana</b></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Em um Brasil distópico, mas não muito distante da presente realidade, resgatar as origens deixa de ser uma opção e passa a ser uma lei. É diante desse bizarro cenário que </span><i><span style="font-weight: 400;">Medida Provisória</span></i><span style="font-weight: 400;">, primeiro longa dirigido por </span><a href="https://personaunesp.com.br/falas-negras-critica/"><span style="font-weight: 400;">Lázaro Ramos</span></a><span style="font-weight: 400;">, se desenvolve e quebra recordes de bilheteria nacional. O filme trata de uma tragicomédia, que aborda o que há de pior em nosso jeitinho brasileiro de mascarar problemas profundos dos porões racistas e cordiais, nos quais Gilberto Freyre de maneira dualista e polêmica tanto criticou em </span><a href="https://www.anpocs.com/index.php/papers-39-encontro/gt/gt28/9704-casa-grande-e-senzala-e-o-mito-da-democracia-racial/file"><i><span style="font-weight: 400;">Casa Grande e Senzala</span></i></a><span style="font-weight: 400;">.</span></p>
<p><span id="more-27677"></span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Se procurarmos no dicionário jurídico, uma </span><a href="https://www.politize.com.br/medida-provisoria/"><span style="font-weight: 400;">Medida Provisória (MP)</span></a><span style="font-weight: 400;"> nada mais é do que uma ação emergencial que tem uma força representativa de lei, sem necessariamente a aprovação do Poder Legislativo. Ela só entrará como lei oficial da nação a partir de uma posterior votação na Câmara; e é justamente através desse artifício de poder, sem a consulta daqueles que serão impactados, que a narrativa apresenta, na ficção, a decisão do governo brasileiro em deportar todas as pessoas consideradas negras, ou como o próprio filme cita, </span><i><span style="font-weight: 400;">“pessoas de melanina acentuada”</span></i><span style="font-weight: 400;">, para o continente africano.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">A ideia de trazer essa história para as telonas surgiu do próprio Lázaro Ramos, mas o diretor admite que o roteiro foi inspirado, em grande parte, numa adaptação da peça teatral</span> <a href="https://www.researchgate.net/publication/270404417_Back_to_the_roots_-_Namibia_Nao_de_Aldri_Anunciacao"><i><span style="font-weight: 400;">Namíbia Não!</span></i></a><span style="font-weight: 400;">, obra escrita por Aldri Anunciação (que também é roteirista do filme) e dirigida por Lázaro. Na peça, André é um advogado que entra com um processo contra o Estado Brasileiro pelo tempo de escravidão e ganha uma indenização bizarra: passagem só de ida para Namíbia. Apesar de sofrer algumas alterações, sobretudo no que diz respeito ao elenco, a película representou fielmente a essência bizarra e espetacular da peça.</span></p>
<figure id="attachment_27679" aria-describedby="caption-attachment-27679" style="width: 800px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="wp-image-27679" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/05/Imagem-2-MP.png" alt="Foto do ator Lázaro Ramos. Ele é um homem negro, barbudo, de estatura média. Ele aparece de camisa branca e boné azul e branco. Na imagem, Lázaro aparece atrás de uma tela que faz parte dos equipamentos de filmagem. Ao fundo, em segundo plano, uma mulher negra que usa óculos e que, provavelmente trabalha junto à equipe, aparece conversando com um rapaz de boné." width="800" height="533" /><figcaption id="caption-attachment-27679" class="wp-caption-text">Em seu primeiro trabalho como diretor de Cinema, Lázaro Ramos admitiu em entrevista ao Podpah que a princípio não tinha nenhuma pretensão de comandar Medida Provisória, pois o artista considera que seu maior trunfo está na arte da atuação (Foto: GQ Brasil)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">Composto por um núcleo de estrelas nacionais e internacionais, </span><i><span style="font-weight: 400;">Medida Provisória </span></i><span style="font-weight: 400;">conta com 77 atores e atrizes negros, se destacando assim como a produção cinematográfica com maior representatividade negra da história do Cinema nacional. Além disso, a equipe técnica dos bastidores também é predominantemente preta. No time principal, nomes como Alfred Enoch (Antonio), Taís Araújo (Capitú), Seu Jorge (André), Aldri Anunciação (Ivan), Adriana Esteves (Isabel) e Renata Sorrah (Dona Izildinha) protagonizam o longa-metragem. Há também diversas participações especiais, como é o caso de figuras como </span><a href="https://personaunesp.com.br/amarelo-emicida-critica/"><span style="font-weight: 400;">Emicida</span></a><span style="font-weight: 400;">, Tia Má e Luis Miranda.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Basicamente, podemos dividir o enredo em três partes: cômica, trágica e dramática, em uma narrativa que prende a atenção do espectador do início ao fim. Seja pelos absurdos, como também pelo apego sentimental aos personagens, </span><i><span style="font-weight: 400;">Medida Provisória</span></i><span style="font-weight: 400;"> acaba nos colocando como torcida da resistência de Antônio e André. No filme, ambos são irmãos inseparáveis que protestam contra todas as terríveis </span><a href="https://technewsbrasil.com.br/historia-real-que-inspirou-olhos-que-condenam-da-netflix/"><span style="font-weight: 400;">ações estatais racistas</span></a><span style="font-weight: 400;">, mas apesar de serem indivíduos combativos, suas personalidades diferem bastante, o que traz maior sinergia para as cenas.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Caso a abordagem crítica de Lázaro apontasse apenas uma perspectiva de narrativa dramática, o filme por si só já seria digno de boas avaliações. No entanto, impressiona positivamente a maneira como a narrativa consegue alarmar assuntos sérios e importantes, de um jeito leve e descontraído. Essa mescla é feita à perfeição, já que instiga a refletir a respeito de uma autocrítica coletiva, sem desrespeitar causas tão relevantes, quanto a questão do </span><a href="https://www.politize.com.br/equidade/blogpost/o-que-e-racismo-estrutural/"><span style="font-weight: 400;">racismo estrutural</span></a><span style="font-weight: 400;">. </span></p>
<figure id="attachment_27680" aria-describedby="caption-attachment-27680" style="width: 800px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="wp-image-27680" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/05/Imagem-3-MP.png" alt="Foto dos bastidores do filme Medida Provisória. Antônio, Capitu (Taís Araújo) e André se divertem em um bar. A imagem ilustra uma mesa cheia de canecas de chopp e alguns petiscos. O casal Antônio e Capitu está abraçado e sentado, enquanto André está de pé, se curvando para conversar com o casal," width="800" height="450" /><figcaption id="caption-attachment-27680" class="wp-caption-text">Os olhares desse trio nesta cena dizem muito a respeito da conexão dos atores nas gravações, chave fundamental para o sucesso de qualquer filmagem (Foto: Elo Company)</figcaption></figure>
<p><b>A terrível semelhança entre ficção e realidade</b></p>
<p><span style="font-weight: 400;">É bem perceptível que </span><i><span style="font-weight: 400;">Medida Provisória </span></i><span style="font-weight: 400;">explora temáticas sensíveis de nossa cruel e preconceituosa contemporaneidade. É válido destacar, porém, que o filme não denuncia exclusivamente as mazelas do racismo estrutural, já que o roteiro também aponta características ligadas aos demais estigmas e comportamentos preocupantes. A exemplo disso podem ser citados os obstáculos enfrentados pela personagem </span><a href="https://personaunesp.com.br/falas-femininas-critica/"><span style="font-weight: 400;">Capitu (Taís Araújo)</span></a><span style="font-weight: 400;">. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Por ser uma mulher negra, médica de um hospital particular, a mesma tem de lidar com diversos preconceitos que, assim como a questão racial, também estão enraizados em nossa sociedade. Outro ponto se dá pelas semelhanças envolvendo as duas antagonistas brancas da narrativa: Isabel (Adriana Esteves) e Dona Izildinha (Renata Sorrah). Enquanto Isabel inferniza a vida daqueles que são considerados de </span><i><span style="font-weight: 400;">“melanina acentuada”</span></i><span style="font-weight: 400;">, Izildinha busca a todo momento se sentir útil e notável para as pessoas (da maneira errada, é claro).</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Tanto Isabel quanto Izildinha representam o perfil de indivíduos que têm o prazer em constranger outrem. São pessoas ressentidas e preocupadas com o mal estar alheio que, ao depositarem todo o seu ódio em terceiros, tentam mascarar os assuntos pessoais mal resolvidos. Isabel possui uma </span><a href="https://blogbr.clear.sale/contas-falsas#:~:text=Para%20as%20plataformas%20de%20m%C3%ADdias,em%20preju%C3%ADzos%20financeiros%20e%20psicol%C3%B3gicos."><span style="font-weight: 400;">conta </span><i><span style="font-weight: 400;">fake</span></i></a> <span style="font-weight: 400;">na </span><i><span style="font-weight: 400;">internet</span></i><span style="font-weight: 400;">, onde expõe amarguradamente comentários racistas. Ao mesmo tempo, a personagem se vê refém de si mesma quando passa a ser desprezada e ignorada por seu chefe e por seu assessor. Já Izildinha não vê sua família há anos, algo que diz bastante sobre o seu </span><a href="https://www.bbc.com/portuguese/brasil-52922015"><span style="font-weight: 400;">comportamento repugnante</span></a><span style="font-weight: 400;">.</span></p>
<figure id="attachment_27681" aria-describedby="caption-attachment-27681" style="width: 800px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="wp-image-27681" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/05/Imagem-4-MP.png" alt="Cena do filme Medida Provisória. Capitu (Taís Araújo) está centralizada à frente de uma multidão que a observa com olhares desconfiados e surpresos. Ela veste uma regata branca e uma saia de estampa. Ao seu lado esquerdo, há dois soldados com trajes pretos (um deles porta uma metralhadora). À direita, Isabel (Adriana Esteves) aparece com um paletó executivo roxo. Capitu está com uma expressão facial de angústia e forte emoção." width="800" height="420" /><figcaption id="caption-attachment-27681" class="wp-caption-text">As expressões faciais dessa cena são autoexplicativas e ricas em detalhes (Foto: Elo Company)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">Por mais esdrúxula que seja a Medida Provisória que intitula o filme, ela infelizmente não está tão longe de nossa realidade. Com um Estado que </span><a href="https://www.cartacapital.com.br/cultura/crise-na-ancine-impede-que-centenas-de-novos-filmes-sejam-lancados/"><span style="font-weight: 400;">ameaça e boicota</span></a><span style="font-weight: 400;"> o campo da Cultura, que incentiva a prática violenta das polícias, reprime movimentos sociais e legitima ataques de ódio e mentira, sobretudo pelas redes sociais, certamente um futuro semelhante ao da ficção se torna um risco cada vez mais iminente. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Contudo, felizmente ainda prevalece uma esperança em meio ao caos. Antes mesmo de sua estreia, </span><i><span style="font-weight: 400;">Medida Provisória </span></i><span style="font-weight: 400;">foi indicada a diversos</span><a href="https://gshow.globo.com/Famosos/noticia/lazaro-ramos-ganha-seu-primeiro-premio-internacional-com-medida-provisoria.ghtml"><span style="font-weight: 400;"> prêmios internacionais</span></a><span style="font-weight: 400;">. Saiu vencedor do Festival de Cinema Itinerante da Língua Portuguesa (FESTin) nas categorias de Melhor Realizador e Melhor Ator; foi o Melhor Roteiro </span><i><span style="font-weight: 400;">Indie do </span></i><span style="font-weight: 400;">Memphis Film Festival; e ainda campeão do Prêmio Manuel Barba, do Festival de Cinema Ibero-americano de Huelva. Diante dessa maravilhosa repercussão, é possível enxergar com bons olhos o impacto de milhares de pessoas que prestigiam o Cinema nacional.</span></p>
<figure id="attachment_27682" aria-describedby="caption-attachment-27682" style="width: 716px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="wp-image-27682" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/05/Imagem-5-MP.png" alt="Cena do filme Medida Provisória. Os atores Aldri Anunciação e Diva Guimarães aparecem juntos em um dos momentos mais marcantes do filme. O enquadramento da imagem reflete uma luz potente emergindo em um ambiente escuro. Diva é uma senhora idosa negra, na casa de seus 80 anos, com cabelo crespo grisalho. Ela veste uma camisa amrela tom mostarda e usa colar.Aldri é um homem negro, na casa de seus 45 anos, com cabelo dread. Ele veste um colete verde escuro. Aldri é mais alto que Diva e leva uma tatuagem no pescoço." width="716" height="800" /><figcaption id="caption-attachment-27682" class="wp-caption-text">É como diz o poeta Jorge Aragão: “E quando pisar no terreiro, procure primeiro saber quem eu sou, respeite quem pôde chegar aonde a gente chegou” (Foto: Elo Company)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">Para entender melhor sobre as propostas críticas dessa obra, nada melhor do que interpretar as falas de </span><a href="https://elastica.abril.com.br/especiais/medida-provisoria-filme-racismo-tais-araujo-lazaro-ramos-alfred-enoch/"><span style="font-weight: 400;">Lázaro Ramos</span></a><span style="font-weight: 400;"> a respeito do contexto com o qual ela se insere: </span><i><span style="font-weight: 400;">“Estamos falando de um filme que foi baseado em uma peça de teatro escrita em 2011. O roteiro foi escrito em 2015 com o propósito de alertar sobre problemas e questões que a gente não gostaria que acontecesse. Depois disso, várias delas aconteceram. É um sinal de que não podemos calar debates importantes para a gente melhorar enquanto sociedade e comunidade”.</span></i></p>
<p><i><span style="font-weight: 400;">Medida Provisória</span></i><span style="font-weight: 400;"> é um grito de alerta, mas também de </span><a href="https://mundonegro.inf.br/lazaro-ramos-explica-a-presenca-de-dona-diva-em-medida-provisoria-um-simbolo-de-potencia/"><span style="font-weight: 400;">esperança </span></a><span style="font-weight: 400;">em meio ao caos. Não podemos desconsiderar que se trata de uma dramatização surgida num momento de rivalidades, disputas eleitorais e todo chorume desse desgoverno que flerta com situações antes consideradas impensáveis (no pior sentido da palavra). Nada é mais mirabolante que uma bela dramatização que escracha nossa condição. Os problemas são apresentados de maneira confortavelmente incômoda. É rir de si mesmo, sabendo os defeitos que precisam ser superados, sobretudo em momentos de transição. É daí que vem a esperança.</span></p>
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