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	<title>Arquivos Otto Preminger &#8211; Persona | Jornalismo Cultural</title>
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	<description>Desde 2015 provando que a distância entre Bergman, Lady Gaga e a novela das 9 nem existe.</description>
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		<title>No aniversário de 80 anos, Laura, de Otto Preminger, mostra o poder da imagem</title>
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		<pubDate>Fri, 17 Oct 2025 13:10:47 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Cinema]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Guilherme Moraes O assassinato de uma moça acontece; um detetive escava a vida dela, a fim de descobrir quem é o culpado. Nessa investigação, o policial acaba por perceber que a maioria dos homens na vida dela a amava. Sem se dar conta, ele se apaixona também, apenas pelos resquícios da existência de Laura Hunt &#8230; <a href="http://personaunesp.com.br/critica-laura/" class="more-link">Continue lendo<span class="screen-reader-text"> "No aniversário de 80 anos, Laura, de Otto Preminger, mostra o poder da imagem"</span></a></p>
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										<content:encoded><![CDATA[<figure id="attachment_35925" aria-describedby="caption-attachment-35925" style="width: 800px" class="wp-caption alignnone"><img fetchpriority="high" decoding="async" class="size-medium wp-image-35925" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2025/10/image4-2-800x450.png" alt="Cena de Laura. O filme é em preto e branco. O cenário é o interior de uma casa. À direita está o detetive McPherson, ele usa um sobretudo claro e um chapéu escuro. Ele está olhando para o quadro na esquerda da tela, pendurado na parede, com o rosto impassível. O quadro é uma pintura da personagem Laura. Ela está usando um vestido preto até a altura do peito, deixando seus ombros e braços expostos. Sua cabeça está um pouco inclinada para o ombro esquerdo. O fundo da imagem é um degradê preto e branco, com o preto ao fundo e o branco contornando Laura, dando um aspecto dramático." width="800" height="450" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2025/10/image4-2-800x450.png 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2025/10/image4-2-1024x576.png 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2025/10/image4-2-768x432.png 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2025/10/image4-2-1200x675.png 1200w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2025/10/image4-2.png 1280w" sizes="(max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 984px) 61vw, (max-width: 1362px) 45vw, 600px" /><figcaption id="caption-attachment-35925" class="wp-caption-text">Laura foi lançado em 1944, porém chegou ao Brasil em Janeiro de 1945 (Foto: 20th Century Studios)</figcaption></figure>
<p><b>Guilherme Moraes</b></p>
<p><span style="font-weight: 400;">O assassinato de uma moça acontece; um detetive escava a vida dela, a fim de descobrir quem é o culpado. Nessa investigação, o policial acaba por perceber que a maioria dos homens na vida dela a amava. Sem se dar conta, ele se apaixona também, apenas pelos resquícios da existência de Laura Hunt (Gene Tierney). </span><a href="https://www.planocritico.com/critica-laura-1944/"><i><span style="font-weight: 400;">Laura</span></i></a><span style="font-weight: 400;"> (1944),</span> <span style="font-weight: 400;">de Otto Preminger, é mais um dos grandes filmes da história que, apesar de ser inevitavelmente uma representação de seu tempo, se torna mais atual a cada revisão.</span></p>
<p><span id="more-35921"></span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">A relação entre o protagonista e a imagem idealizada da personagem permite diversos olhares. Pensando no próprio Cinema, é possível estabelecer paralelos com </span><a href="https://www.youtube.com/watch?v=_ykyccq69ns"><i><span style="font-weight: 400;">Vertigo</span></i></a> <span style="font-weight: 400;">(1958) de Alfred Hitchcock, na forma como ambos lidam com o tropo da mulher morta. Nesse sentido, o longa de Otto Preminger questiona se o ‘Mestre do Suspense’ é um cineasta clássico ou um maneirista. Contudo, há uma outra forma de enxergar, a partir do advento da internet, das redes sociais e, mais recentemente, das IAs.</span></p>
<figure id="attachment_35922" aria-describedby="caption-attachment-35922" style="width: 800px" class="wp-caption alignnone"><img decoding="async" class="size-medium wp-image-35922" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2025/10/image1-6-800x450.png" alt="Cena de Laura. O filme é em preto e branco. O cenário é o interior de uma casa. À direita está o detetive McPherson em primeiro plano, ele está com uma camiseta branca com gravata. Seu olhar está vago e seu rosto demonstra certa perturbação, ele segura em sua mão direita um copo com alguma bebida. Em segundo plano está o quadro de Laura, que aparenta olhar diretamente para McPherson, que está de costas para a pintura." width="800" height="450" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2025/10/image1-6-800x450.png 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2025/10/image1-6-768x432.png 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2025/10/image1-6.png 960w" sizes="(max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 984px) 61vw, (max-width: 1362px) 45vw, 600px" /><figcaption id="caption-attachment-35922" class="wp-caption-text">No filme, a pintura é um personagem, que morre no momento em que Laura aparece (Foto: 20th Century Studios)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">Em termos gerais, o </span><a href="https://www.youtube.com/watch?v=cvbT0nUJscE"><span style="font-weight: 400;">maneirismo no Cinema</span></a><span style="font-weight: 400;"> é uma tendência dos cineastas que vieram, principalmente, após o fim do Cinema Moderno. Estes artistas entendiam que haviam chegado ‘tarde demais’ e perderam a época dos grandes filmes. Assim, eles passaram a buscar sua identidade e marca, a partir das obras clássicas e modernas. Dentro desse contexto, um dos maiores nomes do Cinema Maneirista foi Brian De Palma, que buscava dissecar e, de certa forma, deturpar os clássicos de Hitchcock, encontrando certos aspectos relacionados ao desejo e à violência que, a priori, não eram vistos, formando um traço próprio em sua filmografia. Ou seja, De Palma encontrava sua própria assinatura a partir de outra.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Com isso posto, voltemos a </span><a href="https://www.cinealerta.com.br/basico-do-cinema/o-basico-do-cinema-conhecendo-um-classico-laura/"><i><span style="font-weight: 400;">Laura</span></i></a> <span style="font-weight: 400;">e a </span><i><span style="font-weight: 400;">Vertigo</span></i><span style="font-weight: 400;">. É muito complicado taxar Hitchcock como maneirista, principalmente por esses argumentos, afinal, ambos os diretores eram contemporâneos e o próprio já havia trabalhado com essa figura ‘necrófila’ em </span><i><span style="font-weight: 400;">Rebecca </span></i><span style="font-weight: 400;">(1940). A preexistência de um filme sobre o mesmo tema já poderia apontar uma falha nesse raciocínio, contudo, a chave para entender essa questão está relacionada à cena do ‘ressurgimento’ de Laura, que pode se conectar com o momento em que Madeleine (Kim Novak) reaparece sobre a personalidade de Judy Barton (também interpretada por Kim Novak).</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Para compreender a natureza dessa relação, é preciso contextualizar a ideia geral das duas obras. No longa de Otto Preminger, o detetive McPherson (Dana Andrews) se apaixona pela figura de Laura, uma mulher morta, cuja presença ainda é sentida. Enquanto em </span><a href="https://letterboxd.com/cahierspt_br/film/vertigo/"><i><span style="font-weight: 400;">Um Corpo que Cai</span></i></a> <span style="font-weight: 400;">(em português), John Ferguson (James Stewart), Madeleine e Judy Barton formam um triângulo amoroso macabro. No primeiro, o protagonista se encanta pela ideia que constrói, a partir de resquícios da existência de Laura – uma pintura de sua imagem, seu perfume, suas roupas e os relatos de outras pessoas –, no de 1958, o personagem de James Stewart conhece, de fato, Madeleine, e ama aquela pessoa que conheceu. No entanto, mais tarde é descoberto que a mulher nunca existiu, era apenas um papel interpretado por Judy Barton.</span></p>
<div class="jetpack-video-wrapper"><iframe title="Vertigo (10/11) Movie CLIP - Judy Becomes Madeleine (1958) HD" width="840" height="473" src="https://www.youtube.com/embed/tesqTwX7cpc?list=PL30BAE1E1D714C205" frameborder="0" allow="accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share" referrerpolicy="strict-origin-when-cross-origin" allowfullscreen></iframe></div>
<p><span style="font-weight: 400;">Em ambos os casos, essas </span><a href="https://www.britannica.com/topic/femme-fatale"><i><span style="font-weight: 400;">femmes fatales</span></i></a> <span style="font-weight: 400;">parecem sofrer uma ‘ressurreição forçada’. Em </span><i><span style="font-weight: 400;">Laura</span></i><span style="font-weight: 400;">, os personagens evocam a sua memória e estabelecem relações com sua imagem mesmo após sua ‘morte’. O momento em que ela retorna é quase a materialização de um sonho de McPherson, o que só é reforçado pela maneira como Preminger dispõe os atores em cena: a chegada de Laura enquanto o detetive dorme e a iluminação no rosto quase desfocada, trazendo um aspecto onírico. Entretanto, este retorno causa uma perturbação no protagonista, que se vê confrontado pela ideia que criou de Laura, com a verdadeira que ‘revive’ na sua frente.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Enquanto isso, em </span><a href="https://www.youtube.com/watch?v=mHvAoOi_Hio"><i><span style="font-weight: 400;">Vertigo</span></i></a><span style="font-weight: 400;"> não há muito segredo quanto a essa ‘ressurreição forçada’. Afinal, John tenta a todo custo transformar Judy Barton na mulher que ele amava, resultando na clássica cena de Judy saindo do banheiro idêntica a sua alter-ego. A iluminação esverdeada e esfumaçada torna a sua volta algo fantasmagórico. A diferença entre a obsessão e o sonho; entre o que é falso e o que é verdadeiro, sugere um dessecamento, ou anamorfose da imagem original; além disso, na obra, há a tentativa de imputar a existência de algo prévio (Madeleine) no que é ‘novo’ (Judy Barton). Esses dois pontos podem colocar em questão se, de fato, Hitchcock foi um cineasta maneirista, e nesse caso, ele seria quase que um maneirista antecipado, pois ainda não havia terminado o Cinema Moderno – e em alguns países nem sequer havia chegado.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Em </span><a href="https://www.teses.usp.br/teses/disponiveis/27/27161/tde-29062015-123125/pt-br.php"><i><span style="font-weight: 400;">Vertigo, a teoria artística de Hitchcock</span></i></a> <span style="font-weight: 400;">(2015) –</span> <span style="font-weight: 400;">tese de Doutorado feita pelo crítico de Cinema Luiz Carlos de Oliveira Jr. –, essa mesma relação entre Madeleine e o maneirismo é citada e analisada de forma que coloca Hitchcock entre um dos possíveis maneiristas. No capítulo ‘Uma teoria maneirista da arte?’, o autor questiona a posição histórica e o estilo do diretor para reforçar o seu ponto. Afinal, historicamente, </span><i><span style="font-weight: 400;">Vertigo </span></i><span style="font-weight: 400;">se situa ao final do estilo hollywoodiano clássico e, nesse sentido, o cineasta busca encontrar a sua forma limite. “</span><i><span style="font-weight: 400;">Tal atitude o leva a uma série de procedimentos maneiristas: a construção de espaços irreais (&#8230;), a hipertrofia dos signos plásticos (o trabalho intenso com as luzes, os filtros, os reflexos, as sombras, os efeitos de enquadramento), a anamorfose (os planos da vertigem de Scottie)</span></i><span style="font-weight: 400;">”</span></p>
<figure id="attachment_35923" aria-describedby="caption-attachment-35923" style="width: 800px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-medium wp-image-35923" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2025/10/image2-6-800x616.png" alt="Cena de Laura. O filme é em preto e branco. O cenário é o interior de uma casa. À direita está o detetive McPherson, usando uma camisa branca com gravata. Ele está sentado em uma poltrona florida de lado para a câmera. Ele olha para a verdadeira Laura que está à esquerda da imagem. Ela usa um sobretudo claro e um chapéu da mesma cor. Seu rosto demonstra irritação e olha diretamente para McPherson. A iluminação a deixa em evidência. Ao centro, entre os dois, está a pintura, que ganha aspectos ainda mais dramáticos por causa da cena." width="800" height="616" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2025/10/image2-6-800x616.png 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2025/10/image2-6-768x591.png 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2025/10/image2-6.png 998w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 984px) 61vw, (max-width: 1362px) 45vw, 600px" /><figcaption id="caption-attachment-35923" class="wp-caption-text">A produção começou sob direção de Rouben Mamoulian que não agradou o produtor Darryl Zanuck, com isso o filme passou para as mão de Otto Preminger (Foto: 20th Century Studios)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">Todavia, é claro que o longa de Otto Preminger tem valores além de sua relação com Hitchcock. O sentimento ‘necrófilo’ que o detetive começa a nutrir surge a partir dos vestígios da vida de Laura, principalmente pela pintura em sua sala. Essas peças soltas que vão se conectando, quase como um quebra-cabeça mental, formam uma imagem romantizada. Assim, o olhar – normalmente investigativo, mas muitas vezes </span><i><span style="font-weight: 400;">voyeurístico</span></i><span style="font-weight: 400;"> – que, geralmente, pertence ao detetive em filmes </span><i><span style="font-weight: 400;">noir</span></i><span style="font-weight: 400;"> e que utiliza essa percepção para encurralar outros personagens – vide a própria cena no </span><i><span style="font-weight: 400;">whisky </span></i><span style="font-weight: 400;">no longa –, passa a tornar-se uma armadilha contra si próprio. É interessante como </span><a href="https://www.youtube.com/watch?v=iVk34sJpULE"><i><span style="font-weight: 400;">Garota Exemplar</span></i></a> <span style="font-weight: 400;">(2014) opera na mesma lógica de </span><i><span style="font-weight: 400;">Laura</span></i><span style="font-weight: 400;">, mas com algumas inversões. O olhar parece disperso, fazendo com que o público seja ignorante sobre a persona Amy (Rosamund Pike) e, após a aparição dela, começa a desconstruir essa figura criada na primeira metade.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Sobre essa perspectiva, é possível compreender o poder da imagem na construção de uma ideia e como isso se relaciona com o mundo contemporâneo em que somos constantemente sufocados por tais imagens e temos um acervo de informações muito grande na palma da mão. Com as redes sociais, a existência no imaginário coletivo passa a ser associada à divulgação de seus </span><a href="https://www.instagram.com/reel/DOrcMyrgClr/?igsh=aHMxZXp3cmhzdG1m"><span style="font-weight: 400;">dados</span></a><span style="font-weight: 400;"> e à exposição de sua vida. Com tanto conteúdo pessoal disposto na internet à mercê de todos, é criado um duplo digital. Essa persona é quem se relaciona com os outros, afinal, estamos cronicamente </span><i><span style="font-weight: 400;">online</span></i><span style="font-weight: 400;"> e entramos mais em contato com outras pessoas virtualmente do que pessoalmente.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Uma imagem do outro é formada em nosso imaginário a partir do que nos é apresentado via redes sociais. Lemos uma resposta e imaginamos o som e o tom da voz; ouvimos um áudio e pensamos na expressão; vemos um </span><i><span style="font-weight: 400;">post </span></i><span style="font-weight: 400;">ou um </span><i><span style="font-weight: 400;">stories </span></i><span style="font-weight: 400;">e damos vazão a nossa imaginação para criar contexto. No final, existem três versões de uma pessoa: o </span><a href="https://www.instagram.com/reel/DLipiWGA6fO/?igsh=MWtobGx2OWZ0OHZqag=="><span style="font-weight: 400;">duplo virtual</span></a><span style="font-weight: 400;">, a idealizada na mente dos outros e a real. É nesse aspecto que entra Laura</span> <span style="font-weight: 400;">e suas variantes. A criada a partir da pintura, do perfume, do vestido e das memórias – a que surgiu na mente de McPherson e a de carne e osso.</span></p>
<figure id="attachment_35924" aria-describedby="caption-attachment-35924" style="width: 800px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-medium wp-image-35924" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2025/10/image3-5-800x450.png" alt=" Cena de Laura. O filme é em preto e branco. O cenário é do interior de uma delegacia, em uma sala de interrogatório. A câmera está próxima dos personagens, enquadrando McPherson e Laura acima dos ombros. À esquerda está McPherson, ele está de costas para a câmera com seu chapéu e casaco, olhando para Laura. Ela olha diretamente para McPherson, com uma expressão um pouco dúbia, que é reforçada pela iluminação, que ilumina metade do rosto dela. Laura está abaixo de McPherson na cena. À direita está uma lâmpada que ilumina o rosto de Laura." width="800" height="450" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2025/10/image3-5-800x450.png 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2025/10/image3-5-1024x576.png 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2025/10/image3-5-768x432.png 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2025/10/image3-5.png 1140w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 984px) 61vw, (max-width: 1362px) 45vw, 600px" /><figcaption id="caption-attachment-35924" class="wp-caption-text">Laura se enquadra no gênero noir, com a personagem de nome homônimo sendo uma possível Femme Fatale (Foto: 20th Century Studios)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">As </span><a href="https://feitoporelas.com.br/laura-1944/"><span style="font-weight: 400;">imagens</span></a><span style="font-weight: 400;"> dispostas neste texto não foram selecionadas aleatoriamente, e sim para reforçar, por meio de exemplos claros, essa ideia. Na primeira, o detetive olha para a pintura, dando início ao processo de construção dessa pessoa. Na segunda, é ela quem olha para ele, que parece mais exposto sem o sobretudo e o chapéu. Nesse momento, Laura já está na imaginação do detetive. Na terceira, McPherson é confrontado pela verdadeira Laura. Joseph LaShelle, o diretor de fotografia, faz questão de enquadrar o quadro com a atriz, evidenciando a diferença entre o real, semblante irritado e postura cansada, contra o ideal, aparência meiga e imutável. Por fim, na quarta, ele finalmente a observa verdadeiramente, e nesse momento a perturbação que sentia desde que se apaixonara por sua imagem some.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Voltando um pouco às questões tecnológicas, lógica da pessoa morta e da ‘ressurreição forçada’, com o advento das </span><a href="https://www.instagram.com/reel/DNZB3FWhYUx/?igsh=anp2azNnYmN1ajR2"><span style="font-weight: 400;">Inteligências Artificiais</span></a><span style="font-weight: 400;"> e dos </span><i><span style="font-weight: 400;">remakes </span></i><span style="font-weight: 400;">em Hollywood, pessoas mortas, de certa forma, voltam à vida de maneira compulsória. A moda atual é utilizar o </span><i><span style="font-weight: 400;">Chat GPT </span></i><span style="font-weight: 400;">ou outras IAs para abraçar virtualmente pessoas, dentre elas artistas e parentes ou amigos mortos. Laura foi evocada pela obsessão de Waldo (Clifton Webb) e McPherson; mas, em Hollywood, Peter Cushing (1913-1994) é recriado digitalmente em </span><a href="https://personaunesp.com.br/rogue-one-uma-historia-star-wars-5-anos/"><i><span style="font-weight: 400;">Rogue One:</span></i> <i><span style="font-weight: 400;">Uma História Star Wars</span></i></a> <span style="font-weight: 400;">(2016) por causa da necessidade incessante de lucro do capitalismo. Familiares, amigos e artistas retornam a partir de uma sociedade que já não reconhece os limites, ou pelo menos busca romper, entre a </span><a href="https://personaunesp.com.br/o-senhor-dos-mortos-critica/"><span style="font-weight: 400;">vida e a morte</span></a><span style="font-weight: 400;">. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">É razoável pensar que sua influência e relevância sejam eclipsadas por causa de </span><i><span style="font-weight: 400;">Vertigo</span></i><span style="font-weight: 400;"> – talvez o filme mais refeito na história –, porém, com 80 anos desde que foi lançado no Brasil, </span><a href="http://www.contracampo.com.br/79/dvdlaura.htm"><i><span style="font-weight: 400;">Laura</span></i></a> <span style="font-weight: 400;">continua</span> <span style="font-weight: 400;">envelhecendo como vinho, permitindo o surgimento de novas interpretações a cada revisitada. O período histórico e a relação com </span><i><span style="font-weight: 400;">Vertigo</span></i><span style="font-weight: 400;">, podem ter ajudado a se converter em um clássico do Cinema. Contudo, é mais admirável como as mudanças sociais e tecnológicas não o tornaram obsoleto, pelo contrário, fortaleceram suas qualidades.</span></p>
<div class="jetpack-video-wrapper"><iframe loading="lazy" title="Laura | #TBT Trailer | 20th Century FOX" width="840" height="473" src="https://www.youtube.com/embed/nzrm_vgoDX0?feature=oembed" frameborder="0" allow="accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share" referrerpolicy="strict-origin-when-cross-origin" allowfullscreen></iframe></div>
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		<title>Anatomia de uma Queda explora os abismos da percepção</title>
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		<pubDate>Fri, 27 Oct 2023 21:05:09 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p>A verdade, como a luz, cega. Albert Camus, A queda (1956) Bruno Andrade Ao parafrasear Luis Buñuel, a renomada crítica Pauline Kael faz uma reflexão interessante: “Um elaborado conjunto de teorias trata o Cinema como ‘a viagem noturna ao inconsciente’ [&#8230;]. O Cinema parece ter sido inventado com a finalidade de expressar a vida do &#8230; <a href="http://personaunesp.com.br/anatomia-de-uma-queda-critica/" class="more-link">Continue lendo<span class="screen-reader-text"> "Anatomia de uma Queda explora os abismos da percepção"</span></a></p>
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										<content:encoded><![CDATA[<figure id="attachment_31705" aria-describedby="caption-attachment-31705" style="width: 2400px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-full wp-image-31705" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/10/1.jpeg" alt="Cena do filme Anatomia de uma queda. Na imagem colorida, um homem está à esquerda, deitado no chão branco da neve com um ferimento na cabeça, repleto de sangue. À direita, uma mulher loira fala ao telefone e o filho do casal se esconde nos braços da mulher, para não olhar o corpo. A imagem apresenta uma imagem aérea da cena." width="2400" height="1600" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/10/1.jpeg 2400w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/10/1-800x533.jpeg 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/10/1-1024x683.jpeg 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/10/1-768x512.jpeg 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/10/1-1536x1024.jpeg 1536w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/10/1-2048x1365.jpeg 2048w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/10/1-1200x800.jpeg 1200w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 1362px) 62vw, 840px" /><figcaption id="caption-attachment-31705" class="wp-caption-text">Vencedor da Palma de Ouro em Cannes, o longa de Justine Triet integra a seção Perspectiva Internacional da 47ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo (Foto: Diamond Films)</figcaption></figure>
<blockquote><p><i><span style="font-weight: 400;">A verdade, como a luz, cega.</span></i></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Albert Camus, </span><i><span style="font-weight: 400;">A queda </span></i><span style="font-weight: 400;">(1956)</span></p></blockquote>
<p><b>Bruno Andrade</b></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Ao parafrasear </span><a href="https://mubi.com/pt/br/films/un-chien-andalou"><span style="font-weight: 400;">Luis Buñuel</span></a><span style="font-weight: 400;">, a renomada crítica </span><a href="https://www1.folha.uol.com.br/ilustrada/2020/02/documentario-sobre-pauline-kael-e-carta-de-amor-a-figura-apaixonada-pelo-cinema.shtml"><span style="font-weight: 400;">Pauline Kael</span></a><span style="font-weight: 400;"> faz uma reflexão interessante: “</span><i><span style="font-weight: 400;">Um elaborado conjunto de teorias trata o Cinema como ‘a viagem noturna ao inconsciente’ [&#8230;]. O Cinema parece ter sido inventado com a finalidade de expressar a vida do subconsciente</span></i><span style="font-weight: 400;">”</span><i><span style="font-weight: 400;">.</span></i><span style="font-weight: 400;"> As narrativas nunca se limitam apenas à superfície – mergulham nas entranhas do pensamento. </span><i><span style="font-weight: 400;">Anatomia de uma Queda</span></i><span style="font-weight: 400;">, longa que integra a seção Perspectiva Internacional da 47ª </span><a href="https://personaunesp.com.br/tag/mostra-internacional-de-cinema-em-sao-paulo/"><span style="font-weight: 400;">Mostra Internacional</span></a><span style="font-weight: 400;"> de Cinema em São Paulo, tem domínio dessa sensação, e trabalha em sintonia às verdades ocultas e dilemas da interpretação.</span></p>
<p><span id="more-31701"></span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Em </span><a href="https://www1.folha.uol.com.br/ilustrada/2023/10/anatomia-de-uma-queda-abre-a-mostra-com-retrato-da-morte-de-um-casamento.shtml"><i><span style="font-weight: 400;">Anatomie d&#8217;une Chute</span></i></a><span style="font-weight: 400;"> (no título original em francês), cuja direção é assinada por </span><a href="https://www1.folha.uol.com.br/ilustrada/2023/05/justine-triet-emociona-cannes-com-julgamento-hipnotico-de-uma-escritora.shtml"><span style="font-weight: 400;">Justine Triet</span></a><span style="font-weight: 400;">, com roteiro original de Arthur Harari, Clémentine Schaeffer e da própria diretora, somos convidados a uma experiência cinematográfica que desafia as expectativas convencionais do gênero que se propôs a trabalhar. Logo no início, numa manhã de inverno nos Alpes franceses, Samuel é encontrado morto no chão em frente à sua casa, com um ferimento profundo na cabeça.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Durante suas duas horas e meia de duração, o drama evita o terreno seguro dos clichês sobre a vida, caminhos trilhados ou da relação entre o casamento e dois contadores de histórias (neste caso, uma escritora em alta e um escritor que não consegue escrever) – possibilidades quase irresistíveis nos dramas de tribunal e nas </span><a href="https://personaunesp.com.br/historia-de-um-casamento-critica/"><span style="font-weight: 400;">histórias de casamento</span></a><span style="font-weight: 400;">. Ainda assim, Triet encontra uma forma mais cerebral e original de insistir nessa última ideia, buscando a realidade através das histórias de Sandra (Sandra Hüller) e Samuel (</span><a href="https://c7nema.net/entrevistas/item/107465-softie-realismo-social-de-samuel-theis-deixa-a-sua-marca-no-festival-do-cairo.html"><span style="font-weight: 400;">Samuel Theis</span></a><span style="font-weight: 400;">), mas, principalmente, da relação complexa entre a representação da verdade e aquilo que realmente aconteceu.</span></p>
<figure id="attachment_31703" aria-describedby="caption-attachment-31703" style="width: 2560px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-full wp-image-31703" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/10/2-scaled.jpeg" alt="Cena do filme Anatomia de uma queda. Na imagem colorida, o ator Milo Machado Graner está com uma blusa de cor cinza, com a mão apoiada em uma parede de madeira. Ele olha de maneira assustada para a frente. Ele é um menino branco, de 11 anos, com cabelo liso preto e olhos azuis." width="2560" height="1384" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/10/2-scaled.jpeg 2560w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/10/2-800x432.jpeg 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/10/2-1024x554.jpeg 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/10/2-768x415.jpeg 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/10/2-1536x830.jpeg 1536w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 1362px) 62vw, 840px" /><figcaption id="caption-attachment-31703" class="wp-caption-text">O personagem de Milo Machado Graner torna-se o principal com o passar do filme (Foto: Diamond Films)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">Um salto temporal intrigante acontece na metade do longa, arremessando a história para um ano depois. A princípio, essa intervenção parece desconectada do clímax, deixando uma sensação estranha conforme as cenas avançam – nada muda, e o </span><a href="https://personaunesp.com.br/dark-critica/"><span style="font-weight: 400;">salto temporal</span></a><span style="font-weight: 400;"> parece completamente descartável. No entanto, uma análise mais aproximada pode indicar essa mudança – para além do avanço das investigações no tribunal – como uma espécie de ‘lupa’ para o desenvolvimento de Daniel (Milo Machado Graner), o filho de 11 anos do casal e parcialmente cego, no piano. Trata-se da primeira cena imediatamente depois da passagem: o menino frente às teclas, repetindo as melodias de cenas anteriores.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">A busca pela verdade parece novamente uma metáfora poética possível para a condição de Daniel. Ele possui a capacidade de ouvir e falar, mas não pode enxergar. Em contraste, Snoop, o cão da família (interpretado pelo simpático border collie Messi, que ganhou o prêmio </span><a href="https://rpet.r7.com/fotos/border-collie-messi-leva-palm-dog-premio-do-festival-de-cannes-para-animais-que-aparecem-nos-filmes-26052023"><i><span style="font-weight: 400;">Palm Dog</span></i><span style="font-weight: 400;"> em Cannes</span></a><span style="font-weight: 400;">), consegue ver, mas não pode falar. Sandra vê, ouve e fala, mas afirma não ter presenciado o momento da morte de Samuel, tornando seus sentidos inúteis. O mistério central permanece sem resposta: o pai caiu da janela, pulou intencionalmente ou foi empurrado? A intensidade com que Daniel se dedica ao piano, a ponto de transpirar intensamente tocando sempre a mesma melodia, revela seu desconforto diante dessa questão.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Sem a capacidade de ler partituras, ele se apoia no som e na experimentação, demonstrando que os ruídos podem revelar verdades profundas. Durante as investigações sobre a morte de Samuel, quando o primeiro juiz (Pierre-François Garel) realiza a reconstituição do ocorrido, Daniel – que sente todo o processo como um divórcio tardio dos pais – revela ter se enganado quanto ao local onde sentiu o couro preso à parede (uma maneira que seu pai desenvolveu de dar autonomia ao filho com deficiência visual, espalhando pedaços de couro por toda a região da casa para que pudesse se </span><a href="https://personaunesp.com.br/o-cao-que-nao-se-cala-critica/"><span style="font-weight: 400;">guiar com o cachorro</span></a><span style="font-weight: 400;">).</span></p>
<figure id="attachment_31706" aria-describedby="caption-attachment-31706" style="width: 1600px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-full wp-image-31706" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/10/3.jpeg" alt="Fotografia colorida da diretora Justine Triet. Na imagem, ela está com uma estatueta de folha, o prêmio recebido no Festival de Cannes, apoiado à sua frente, com o seu queixo inclinado sobre ele. Ela é uma mulher branca, de cabelos loiros, veste uma roupa inteiramente preta e usa batom vermelho." width="1600" height="1117" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/10/3.jpeg 1600w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/10/3-800x559.jpeg 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/10/3-1024x715.jpeg 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/10/3-768x536.jpeg 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/10/3-1536x1072.jpeg 1536w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/10/3-1200x838.jpeg 1200w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 1362px) 62vw, 840px" /><figcaption id="caption-attachment-31706" class="wp-caption-text">Justine Triet foi a terceira mulher a vencer a Palma de Ouro como diretora (Foto: Sipa/Chine Nouvelle)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">Para a impaciência do juiz, Daniel não estava onde disse, dias antes, que estava – o tato, um de seus principais sentidos, foi incapaz de trazer a verdade. Essa mesma metáfora indica a importância que </span><i><span style="font-weight: 400;">Anatomia de uma Queda</span></i><span style="font-weight: 400;"> dá a outros elementos cinematográficos: o som, a fotografia interessante de Simon Beaufils, o roteiro complexo e inteligente e as atuações brilhantes, que são coroadas numa direção precisa. Esses elementos, em conjunto, fizeram do longa o vencedor da </span><a href="https://g1.globo.com/pop-arte/cinema/noticia/2023/05/27/francesa-justine-triet-vence-a-palma-de-ouro-em-cannes-com-anatomia-de-uma-queda.ghtml"><span style="font-weight: 400;">Palma de Ouro no Festival de Cannes</span></a><span style="font-weight: 400;"> e de Justine Triet apenas a terceira mulher a levar o prêmio, após ter sido indicada em 2019 por</span> <a href="https://gauchazh.clicrbs.com.br/pioneiro/cultura-e-lazer/noticia/2021/11/literatura-cinema-e-memorias-se-entrelacam-no-frances-sibyl-que-estreia-em-caxias-ckvtxp45e000c017f2evcwlpl.html"><i><span style="font-weight: 400;">Sibyl</span></i></a><span style="font-weight: 400;">, mas perder para </span><i><span style="font-weight: 400;">Parasita</span></i><span style="font-weight: 400;">, de Bong Joon-ho.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Na atuação, é </span><a href="https://www.hollywoodreporter.com/movies/movie-features/sandra-huller-interview-anatomy-of-a-fall-zone-of-interest-star-1235579238/"><span style="font-weight: 400;">Sandra Hüller</span></a><span style="font-weight: 400;"> que se destaca, dando a força emocional do filme – “Sandra Hüller”, guarde este nome. A substância dramática do longa parece ser encapsulada na sua atuação em harmonia com a fotografia de Beaufils, que acrescenta nuances de documentário por meio de um jogo de câmeras revelador. Hüller compreende a necessidade de manter a ambiguidade, particularmente em relação a sua personagem, acusada de matar o marido – o mesmo homem que, de maneira trágica e desintencional, causou a cegueira do filho. Essa ambiguidade paira sobre a narrativa, e ela e Triet trabalham em conjunto dentro desse limiar.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Anos atrás, a atriz surgiu como uma estrela em ascensão em </span><a href="https://www.youtube.com/watch?v=jnkCzL62QjQ"><i><span style="font-weight: 400;">Toni Erdmann</span></i></a> <span style="font-weight: 400;">(2016), drama de </span><a href="https://www.scielo.br/j/pg/a/tJKGQrWBk4KcCWG78bytn6S/?lang=pt"><span style="font-weight: 400;">Maren Ade</span></a><span style="font-weight: 400;"> que, para muitos, deveria ter levado a Palma de Ouro quando concorreu. Hüller, agora, desempenha papéis de destaque em dois dos principais filmes do ano: o próprio </span><i><span style="font-weight: 400;">Anatomia de uma Queda</span></i><span style="font-weight: 400;"> e a </span><a href="https://www.companhiadasletras.com.br/livro/9788535925821/a-zona-de-interesse"><span style="font-weight: 400;">adaptação do romance</span></a><span style="font-weight: 400;"> de Martin Amis, </span><a href="https://47.mostra.org/filmes/zona-de-interesse-47a"><i><span style="font-weight: 400;">Zona de Interesse</span></i></a><span style="font-weight: 400;">, dirigida por </span><a href="https://www.youtube.com/watch?v=1uYWYWPc9HU"><span style="font-weight: 400;">Jonathan Glazer</span></a><span style="font-weight: 400;"> e que também integra a 47ª Mostra Internacional de São Paulo.</span></p>
<figure id="attachment_31704" aria-describedby="caption-attachment-31704" style="width: 2165px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-full wp-image-31704" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/10/4.png" alt="Cena do filme Anatomia de uma queda. Na imagem colorida, a atriz Sandra Huller veste um suéter de cor amarela. Ela está sentada numa mesa na cozinha, com a mão esquerda levemente levantada. Ela é uma mulher branca, loira e de olhos azuis." width="2165" height="1170" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/10/4.png 2165w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/10/4-800x432.png 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/10/4-1024x553.png 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/10/4-768x415.png 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/10/4-1536x830.png 1536w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/10/4-2048x1107.png 2048w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/10/4-1200x648.png 1200w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 1362px) 62vw, 840px" /><figcaption id="caption-attachment-31704" class="wp-caption-text">Por Toni Erdmann, Sandra Hüller foi vencedora do Prêmio de Cinema Alemão na categoria de Melhor Atriz (Foto: Diamond Films)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">Um elemento intrigante no filme é a recorrência da versão instrumental de </span><a href="https://www.youtube.com/watch?v=BaNSuQxD_cI"><i><span style="font-weight: 400;">P.I.M.P.</span></i></a><span style="font-weight: 400;">, de 50 Cent, cuja letra é notória por sua profundidade misógina. Essa música se repete ao longo de </span><i><span style="font-weight: 400;">Anatomia de uma Queda</span></i><span style="font-weight: 400;">, tornando-se uma trilha sonora não oficial que, de maneira cômica e sinistra, parece projetada para perturbar Sandra. O som está presente desde a cena inicial, na qual acompanhamos a entrevista entre ela e Zoe (</span><a href="https://mubi.com/pt/br/films/mary-queen-of-scots-2013"><span style="font-weight: 400;">Camille Rutherford</span></a><span style="font-weight: 400;">), uma estudante de pós-graduação interessada na sua escrita, trabalhos de tradução e literatura em geral. Essa entrevista, contudo, se converte em um encontro sedutor.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Como uma renomada autora alemã que, a exemplo de boa parte dos escritores contemporâneos, utiliza a </span><a href="https://personaunesp.com.br/o-acontecimento-livro-critica/"><span style="font-weight: 400;">autoficção para conceber seus trabalhos</span></a><span style="font-weight: 400;">, Sandra faz carreira em Londres e se muda para uma casa nos Alpes franceses para realizar um desejo do marido, um homem francês de origem. Ela tem o alemão como língua materna, mas utiliza o inglês para se comunicar – embora às vezes, num esforço, fale o francês – e vive num país de língua francesa. Sandra não parece estar definitivamente em lugar algum.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Ela e Zoe, então, tomam taças de vinho e a conversa sorrateiramente muda de foco – não se trata mais dela, mas sim </span><a href="https://personaunesp.com.br/o-essencial-de-perigosas-sapatas-critica/"><i><span style="font-weight: 400;">delas</span></i></a><span style="font-weight: 400;">. </span><i><span style="font-weight: 400;">P.I.M.P.</span></i><span style="font-weight: 400;"> começa a tocar do alto das escadas, e a entrevista precisa ser encerrada – nenhuma das duas consegue mais se ouvir, atrapalhadas pela melodia de uma canção que, na sua versão original, repete “</span><i><span style="font-weight: 400;">she feed them foolish fantasies</span></i><span style="font-weight: 400;">” (</span><i><span style="font-weight: 400;">ela alimenta o sonho dos tolos</span></i><span style="font-weight: 400;">). O marido sabia que Sandra estava flertando lá embaixo?</span></p>
<figure id="attachment_31707" aria-describedby="caption-attachment-31707" style="width: 2048px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-full wp-image-31707" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/10/5.jpeg" alt="Cena do filme Anatomia de uma queda. Na imagem colorida, a atriz Sandra Huller está num tribunal, vestindo um terno feminino. Ela é uma mulher loira e está com as duas mãos juntas e cruzadas próximo a barriga. Ela está de pé." width="2048" height="1107" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/10/5.jpeg 2048w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/10/5-800x432.jpeg 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/10/5-1024x554.jpeg 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/10/5-768x415.jpeg 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/10/5-1536x830.jpeg 1536w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/10/5-1200x649.jpeg 1200w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 1362px) 62vw, 840px" /><figcaption id="caption-attachment-31707" class="wp-caption-text">Justine Triet revelou em entrevista à CBC que escreveu a personagem de Sandra Hüller pensando nela como atriz (Foto: Diamond Films)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">A confusão inicial, na mistura entre biografia e ficção, é o motivo que leva a estudante de pós-graduação a entrevistar Sandra inicialmente, a fim de recolher informações para a tese que vem escrevendo. “</span><i><span style="font-weight: 400;">Nos faz querer descobrir qual é qual</span></i><span style="font-weight: 400;">”, insiste. A protagonista, ao sorrir, revela que sua liberdade dependerá da forma como o júri, logo menos, analisará suas afirmações – sempre interpretativas, num jogo de verdade-mentira e dos limites da interpretação. Antes do julgamento, é isso que o advogado e melhor amigo, Vincent  (</span><a href="https://45.mostra.org/filmes/eu-quero-falar-sobre-duras"><span style="font-weight: 400;">Swann Arlaud</span></a><span style="font-weight: 400;">), diz: não importa se ela matou Samuel ou não, “</span><i><span style="font-weight: 400;">esse não é o ponto</span></i><span style="font-weight: 400;">”.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Na metade do filme, o promotor (</span><a href="https://mubi.com/pt/br/films/softie-2021"><span style="font-weight: 400;">Antoine Reinartz</span></a><span style="font-weight: 400;">) questiona se Zoe sabia da bissexualidade de Sandra, mesmo sem a necessidade de afirmar nada além do que vimos. A revelação – que mais parece uma constatação – traz outras informações: existia um acordo tácito entre Sandra e Samuel, ou pelo menos parecia existir, no qual se relacionar com outras pessoas não seria um problema – uma tentativa de aliviar as tensões conjugais após o acidente que acabou parcialmente com a visão do filho, quando ele tinha 4 anos. Mas fica evidente que esse acordo tácito tornou-se uma fonte de conflito para o marido.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Ao evocar diretamente </span><a href="https://50anosdefilmes.com.br/2012/anatomia-de-um-crime-anatomy-of-a-murder/"><i><span style="font-weight: 400;">Anatomia de um Crime</span></i></a> <span style="font-weight: 400;">(1959), de Otto Preminger, e </span><a href="https://www.record.com.br/produto/a-queda-3/"><i><span style="font-weight: 400;">A queda</span></i></a> <span style="font-weight: 400;">(1956), de </span><a href="https://www.quatrocincoum.com.br/br/noticias/listao-da-semana/a-pena-de-morte-segundo-camus-e-mais-6-lancamentos"><span style="font-weight: 400;">Albert Camus</span></a><span style="font-weight: 400;">, a obra de Triet parece dar ênfase à exploração de elementos do comportamento humano e da moral, utilizando a ‘queda’ como metáfora ou ponto de partida. Em </span><i><span style="font-weight: 400;">Anatomia de uma Queda</span></i><span style="font-weight: 400;">, não é apenas o corpo do marido que cai da janela: o casamento de Sandra e Samuel tomba de maneira constante, cujos motivos da queda são esmiuçados nas sessões do tribunal.</span></p>
<figure id="attachment_31702" aria-describedby="caption-attachment-31702" style="width: 2560px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-full wp-image-31702" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/10/6.png" alt="Cena do filme Anatomia de uma queda. Na imagem colorida, veste um tribunal repleto de pessoas. À esquerda está a protagonista, Sandra Huller, sendo questionada por um advogado que veste roupa preta. À direita há um homem de cabelos pretos, com os braços cruzados, ouvindo. Ao fundo diversas pessoas estão sentadas." width="2560" height="1440" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/10/6.png 2560w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/10/6-800x450.png 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/10/6-1024x576.png 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/10/6-768x432.png 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/10/6-1536x864.png 1536w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 1362px) 62vw, 840px" /><figcaption id="caption-attachment-31702" class="wp-caption-text">&#8220;O tribunal é sempre o espaço que passa a funcionar como espelho moral da imposição social&#8221;, disse Justine Triet (Foto: Diamond Films)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">Em essência, </span><i><span style="font-weight: 400;">Anatomia de uma Queda</span></i><span style="font-weight: 400;"> é um </span><a href="https://www.estadao.com.br/cultura/luiz-zanin/mostra-2023-1-o-caso-goldman-mais-um-eletrizante-drama-de-tribunal-frances/"><span style="font-weight: 400;">drama de tribunal</span></a><span style="font-weight: 400;">, embora apresente uma abordagem fresca e original dentro desse sub-gênero. Sendo possível dividir o filme em partes iguais sob o idioma inglês e o francês, o núcleo da narrativa gira em torno das revelações feitas perante o júri, e os momentos de vulnerabilidade de Sandra são compartilhados com Vincent, seu melhor amigo, mas também seu advogado, que revela ter se apaixonado por ela no passado. Esses aspectos da vida pessoal da protagonista ganham destaque nos dilemas do julgamento, revelando que as expectativas sociais, personificadas pelo júri, têm mais influência em sua condenação e redenção do que os detalhes específicos que cercam a morte do marido.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Essa narrativa complexa e emocional nos lembra como a verdade, muitas vezes, é subjetiva e multifacetada, e que o Cinema, como expressão artística, tem o poder de revelar as profundezas do </span><a href="https://personaunesp.com.br/o-rei-palido-critica/"><span style="font-weight: 400;">subconsciente humano</span></a><span style="font-weight: 400;">. O filme se encerra com as situações aparentemente resolvidas, mas longe de serem definitivas. Sob um estado de incerteza, talvez o filho de Sandra, Daniel, saiba mais do que foi expressamente revelado. Não há forma mais clara de se alienar do que alimentar a sensação de que se sabe de tudo. Assim, a verdade permanece elusiva, e aceitar a versão apresentada parece ser a única opção.</span></p>
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