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	<title>Arquivos O2 Play &#8211; Persona | Jornalismo Cultural</title>
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	<description>Desde 2015 provando que a distância entre Bergman, Lady Gaga e a novela das 9 nem existe.</description>
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		<title>A ruína dos homens em Oeste Outra Vez</title>
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		<pubDate>Wed, 30 Oct 2024 20:00:33 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p>Davi Marcelgo Já tem alguns anos que o Cinema, principalmente o western, tem desconstruído os mitos que solidificaram gêneros. Oeste Outra Vez, de Erico Rassi, segue pela mesma boiada, colocando em duelo os homens e seus relacionamentos. Nesse sertão, Toto (Ângelo Antônio) contrata um pistoleiro para dar um fim no homem que conquistou sua mulher. &#8230; <a href="http://personaunesp.com.br/oeste-outra-vez-critica/" class="more-link">Continue lendo<span class="screen-reader-text"> "A ruína dos homens em Oeste Outra Vez"</span></a></p>
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										<content:encoded><![CDATA[<figure id="attachment_34231" aria-describedby="caption-attachment-34231" style="width: 1920px" class="wp-caption alignnone"><img fetchpriority="high" decoding="async" class="size-full wp-image-34231" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2024/10/image2-9.png" alt="Na imagem, em formato horizontal, Toto e Jerominho cavalgam por uma paisagem de mato amarelado e morros ao fundo. O fundo é azul com árvores. Toto está do lado esquerdo, mais atrás de Jerominho, em cima de um cavalo com pelagem cinza. Ele veste uma camisa de botão na cor branca e calça jeans. Ele é um homem na faixa dos 60 anos, de pele escura e cabelos grisalhos. Jerominho está mais à frente, montado em um cavalo branco, bem sujo. Ele veste uma jaqueta azul e calça cinza, Usa na cabeça um chapéu preto. Ele é um homem na faixa dos 80 anos. " width="1920" height="709" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2024/10/image2-9.png 1920w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2024/10/image2-9-800x295.png 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2024/10/image2-9-1024x378.png 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2024/10/image2-9-768x284.png 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2024/10/image2-9-1536x567.png 1536w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2024/10/image2-9-1200x443.png 1200w" sizes="(max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 1362px) 62vw, 840px" /><figcaption id="caption-attachment-34231" class="wp-caption-text">As filmagens foram feitas no sertão de Goiás (Foto: O2 Play)</figcaption></figure>
<p><b>Davi Marcelgo</b></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Já tem alguns anos que o Cinema, principalmente o </span><i><span style="font-weight: 400;">western</span></i><span style="font-weight: 400;">, tem desconstruído os mitos que solidificaram gêneros. </span><i><span style="font-weight: 400;">Oeste Outra Vez</span></i><span style="font-weight: 400;">, de Erico Rassi, segue pela mesma boiada, colocando em duelo os homens e seus relacionamentos. Nesse sertão, Toto (Ângelo Antônio) contrata um pistoleiro para dar um fim no homem que conquistou sua mulher. O filme faz parte da seção Mostra Brasil da </span><a href="https://personaunesp.com.br/tag/48a-mostra-internacional-de-cinema-em-sao-paulo/"><span style="font-weight: 400;">48ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo</span></a><span style="font-weight: 400;">.</span></p>
<p><span id="more-34230"></span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Não é exagero afirmar que o trabalho de </span><a href="https://telaviva.com.br/23/10/2024/erico-rassi-e-rafaela-camelo-diretores-do-centro-oeste-crescem-no-cinema-nacional/"><span style="font-weight: 400;">Rassi</span></a><span style="font-weight: 400;"> é um dos melhores desta edição da Mostra; diálogos assombrosos, </span><i><span style="font-weight: 400;">takes </span></i><span style="font-weight: 400;">riquíssimos e a perfeita escolha de cores são os destaques no mar de qualidades deste clima árido. O longa é muito duro, são poucos cortes, quase nenhuma movimentação de câmera e planos que se estendem, simulando a vida desses personagens chucros, que convivem com muita sujeira e precariedade: dividem um mesmo prato com três colheres. No início, a primeira coisa que se ouve é o zumbido de uma mosca e o que se vê é um campo árido cheio de lixo. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">A casa do protagonista, dos coadjuvantes e os espaços que todos frequentam expressam a falta de alguma coisa. Um caco de vidro é usado como espelho, quase nada aparenta limpeza – nem roupas ou louça –, os bares estão vazios, se cheios, sem mulheres e o jogo de sinuca não tem vencedor. Se estamos no oeste </span><a href="https://cinemaemcena.com.br/coluna/ler/524/nos-rastros-do-western"><span style="font-weight: 400;">outra vez</span></a><span style="font-weight: 400;">, o que mudou desde a primeira vez que um caubói marcou a pegada de sua bota? </span></p>
<figure id="attachment_34232" aria-describedby="caption-attachment-34232" style="width: 750px" class="wp-caption alignnone"><img decoding="async" class="size-full wp-image-34232" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2024/10/image1-8.png" alt="Na imagem, Durval está sentado no balcão de um bar, segurando entre as mãos um copo de cerveja. Ele é um homem negro na faixa dos 40 anos, de cabelos crespos. Ele veste uma camisa de botões xadrez na cor vermelha e um relógio de pulso na cor dourada. As paredes são metade azul e metade vermelha. Ao fundo há dois carros estacionados. Um branco e o outro vermelho. " width="750" height="394" /><figcaption id="caption-attachment-34232" class="wp-caption-text">O filme ganhou o prêmio de Melhor Longa-Metragem Brasileiro no Festival de Gramado de 2024 (Foto: O2 Play)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">Os homens do diretor goiano não são heróis, grandes pistoleiros ou símbolos de honra. Mas, sim, sórdidos; o que sabem fazer melhor é beber e pouco conversam. Porém, são muito parecidos, não existem vilões ou maniqueísmos, todos estão ligados pela ausência do amor e a incapacidade de viver sozinho. Em certo momento, Toto, ao telefone, diz que Jerominho (</span><a href="https://personaunesp.com.br/bacurau-critica/"><span style="font-weight: 400;">Rodger Rogério</span></a><span style="font-weight: 400;">) não é seu amigo, mesmo que ambos atravessem um sertão juntos, eles não reconhecem nesses homens um senso de irmandade e de afeto. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Toto, Durval (</span><a href="https://personaunesp.com.br/falas-negras-critica/"><span style="font-weight: 400;">Babu Santana</span></a><span style="font-weight: 400;">) e todos os personagens tratam as mulheres como posses, algo que foi roubado, perdido ou tirado deles por alguém. Não como uma pessoa que optou em ir embora. Esse comportamento, faz sentido na construção desta história, afinal, é uma das poucas realizações que eles têm na vida. Outros nem possuem e só viveram uma paixão de “</span><i><span style="font-weight: 400;">longe</span></i><span style="font-weight: 400;">”. A única mulher que aparece em todo filme, sem aparecer seu rosto, é a razão para todos os confrontos existirem, mas ela dá as costas e vai embora, deixando que os homens briguem. Eles continuam repetindo ciclos de violência até quando quem estava ali não vai voltar.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">A direção de </span><a href="https://www.youtube.com/watch?v=mpfIuJh_skU"><span style="font-weight: 400;">Erico Rassi</span></a><span style="font-weight: 400;"> é seca como o deserto, dura como o cacto e ardida como o sol. Ele não é pomposo ao contar a história de homens perdidos em suas masculinidades, com poucas falas e muitos momentos silenciosos. O </span><i><span style="font-weight: 400;">western </span></i><span style="font-weight: 400;">brasileiro mantém eles no mesmo lugar que saíram, distanciando a câmera cada vez mais; não há planos detalhe, os horizontes são muito maiores que eles e as cenas de ação escassas. As escolhas narrativas de Rassi não dão margem para salvação dos personagens e levam-nos ao </span><i><span style="font-weight: 400;">Oeste Outra Vez</span></i><span style="font-weight: 400;">.</span></p>
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		<title>Folhas de Outono é uma comédia romântica sem paixão</title>
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		<pubDate>Tue, 21 Nov 2023 20:42:52 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p>Vitória Gomez Em um dia cinza, uma trabalhadora de um supermercado é demitida por furtar uma refeição vencida, que iria para o lixo. Pouca diferença faz, já que um serviço tão mecânico poderia ser melhor aplicado em qualquer outro lugar. Na mesma cidade, mas aparentemente sem conexão nenhuma, um homem alcoólatra é dispensado por beber &#8230; <a href="http://personaunesp.com.br/folhas-de-outono-critica/" class="more-link">Continue lendo<span class="screen-reader-text"> "Folhas de Outono é uma comédia romântica sem paixão"</span></a></p>
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										<content:encoded><![CDATA[<figure id="attachment_31892" aria-describedby="caption-attachment-31892" style="width: 1847px" class="wp-caption alignnone"><img decoding="async" class="size-full wp-image-31892" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/11/fallen-leaves-6.jpg" alt="" width="1847" height="1039" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/11/fallen-leaves-6.jpg 1847w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/11/fallen-leaves-6-800x450.jpg 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/11/fallen-leaves-6-1024x576.jpg 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/11/fallen-leaves-6-768x432.jpg 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/11/fallen-leaves-6-1536x864.jpg 1536w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/11/fallen-leaves-6-1200x675.jpg 1200w" sizes="(max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 1362px) 62vw, 840px" /><figcaption id="caption-attachment-31892" class="wp-caption-text">Vencedor do Prêmio do Júri no Festival de Cannes, Folhas de Outono integrou a seção Perspectiva Internacional da 47ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo (Foto: O2 Play)</figcaption></figure>
<p><b>Vitória Gomez</b></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Em um dia cinza, uma trabalhadora de um supermercado é demitida por furtar uma refeição vencida, que iria para o lixo. Pouca diferença faz, já que um serviço tão mecânico poderia ser melhor aplicado em qualquer outro lugar. Na mesma cidade, mas aparentemente sem conexão nenhuma, um homem alcoólatra é dispensado por beber no trabalho. Para ele, a mesma coisa: com exceção do salário no fim do mês, pouco importa. É nesse cenário de desilusão e desesperança total que ambos se encontram, e </span><a href="https://47.mostra.org/filmes/fallen-leaves-47a"><i><span style="font-weight: 400;">Folhas de Outono</span></i></a> <span style="font-weight: 400;">mostra que é possível fazer comédia romântica sem nenhuma paixão ou graça.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Presente na 47ª </span><a href="https://personaunesp.com.br/tag/mostra-internacional-de-cinema-em-sao-paulo/"><span style="font-weight: 400;">Mostra Internacional de Cinema em São Paulo</span></a><span style="font-weight: 400;"> e no Festival de Cannes, o longa do finlandês Aki Kaurismäki parte de um lugar comum: uma demissão &#8211; ou melhor, duas demissões. No entanto, com a constante frieza do trabalho assombrando o dia a dia, as risadas se fazem no absurdo e na solidão compartilhada entre dois protagonistas que igualmente buscam por conexão humana (ou animal) em meio a um cotidiano de sobrevivência.</span></p>
<p><span id="more-31891"></span></p>
<figure id="attachment_31894" aria-describedby="caption-attachment-31894" style="width: 1600px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-full wp-image-31894" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/11/fallen-leaves-4.jpg" alt="" width="1600" height="900" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/11/fallen-leaves-4.jpg 1600w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/11/fallen-leaves-4-800x450.jpg 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/11/fallen-leaves-4-1024x576.jpg 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/11/fallen-leaves-4-768x432.jpg 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/11/fallen-leaves-4-1536x864.jpg 1536w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/11/fallen-leaves-4-1200x675.jpg 1200w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 1362px) 62vw, 840px" /><figcaption id="caption-attachment-31894" class="wp-caption-text">Kaurismäki é adepto a colocar cães em seus longas e dessa vez foi a vez de Chaplin roubar a cena (Foto: O2 Play)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">O rádio toca notícias da guerra na Ucrânia, dois elementos quase contraditórios. No primeiro encontro de Ansa (<a href="https://www.vogue.com/article/fallen-leaves-alma-poysti-interview">Alma Pöysti</a>) e Holappa (Jussi Vatanen), os dois assistem a </span><i><span style="font-weight: 400;">Os Mortos não Morrem</span></i><span style="font-weight: 400;">, de 2019, e a ex-atendente de mercado anota seu número de celular em um pedaço de papel para dar ao alcoólatra. Depois, ela procura emprego em uma </span><i><span style="font-weight: 400;">lan house</span></i><span style="font-weight: 400;">. Para além dessa sequência de elementos, </span><i><span style="font-weight: 400;">Fallen Leaves</span></i><span style="font-weight: 400;"> parece existir em uma realidade semelhante à nossa, mas que não é exatamente igual. Com um design de produção que mistura o </span><i><span style="font-weight: 400;">vintage</span></i><span style="font-weight: 400;"> a referências contemporâneas, o longa cria um tempo próprio, ao passo que se mostra universal e atemporal.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Isso porque o trabalho e a solidão não são experiências individuais. Se a Finlândia foi eleita o país mais feliz do mundo, o cenário em que as vidas de Ansa e Holappa se cruzam são tudo, menos repletas de felicidade. Na verdade, a ânsia de ambos por conexão ultrapassa o limite da tela e contamina o espectador, rendendo risadas a partir de diálogos absurdos, que nem de longe seriam ideias para dois protagonistas interessados um no outro. O <a href="https://www.filmcomment.com/blog/cannes-2023-dog-days-justine-triet-anatomy-of-a-fall-wes-anderson-asteroid-city-review/">afeto</a> não existe, muito menos a paixão, mas a vontade de que o casal ache alento em meio a um cotidiano cinza prevalece.</span></p>
<figure id="attachment_31893" aria-describedby="caption-attachment-31893" style="width: 2362px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-full wp-image-31893" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/11/fallen-leaves-5.jpg" alt="" width="2362" height="1577" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/11/fallen-leaves-5.jpg 2362w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/11/fallen-leaves-5-800x534.jpg 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/11/fallen-leaves-5-1024x684.jpg 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/11/fallen-leaves-5-768x513.jpg 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/11/fallen-leaves-5-1536x1026.jpg 1536w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/11/fallen-leaves-5-2048x1367.jpg 2048w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/11/fallen-leaves-5-1200x801.jpg 1200w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 1362px) 62vw, 840px" /><figcaption id="caption-attachment-31893" class="wp-caption-text">No European Film Awards, os protagonistas concorrem nas categorias de Melhor Atriz e Melhor Ator (Foto: O2 Play)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">Nisso, Alma Pöysti e Jussi Vatanen têm grande parte. O <a href="https://personaunesp.com.br/conversas-pela-noite-critica/">casal protagonista</a> encara o marasmo do dia a dia sem um sorriso no rosto e demonstra interesse um pelo outro em gestos quase despercebidos. Em alguns momentos, como quando Holappa está em coma no hospital e acorda sem sequer mudar de expressão após um beijo de Ansa, é possível sentir o humor despontando da ausência e do distanciamento. Se os finlandeses são conhecidos pela racionalidade e frieza, </span><i><span style="font-weight: 400;">Folhas de Outono </span></i><span style="font-weight: 400;">parece zombar disso, mas sem fazer nada para mudar essa percepção.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Inclusive, além da atuação, é a junção da direção e do roteiro do veterano Aki Kaurismäki com a fotografia de Timo Salminen que extrai o <a href="https://personaunesp.com.br/carvao-critica/">cômico do rotineiro</a>. Desde a técnica sóbria do filme, destacando cenários cinzentos e repletos de outras pessoas igualmente solitárias, até a falta de expressividade e dureza na entrega das falas dos atores, toda a aura da obra corrobora com o ar de desesperança. Curiosamente, é o absurdo do contraste entre essa frieza à necessidade de quebrá-la que rendem os momentos mais encantadores e, para uma sessão lotada da 47ª Mostra de São Paulo, altas risadas. </span></p>
<figure id="attachment_31895" aria-describedby="caption-attachment-31895" style="width: 2560px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-full wp-image-31895" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/11/fallen-leaves-3.png" alt="" width="2560" height="1379" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/11/fallen-leaves-3.png 2560w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/11/fallen-leaves-3-800x431.png 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/11/fallen-leaves-3-1024x552.png 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/11/fallen-leaves-3-768x414.png 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/11/fallen-leaves-3-1536x827.png 1536w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 1362px) 62vw, 840px" /><figcaption id="caption-attachment-31895" class="wp-caption-text">Aki Kaurismäki disputa Melhor Diretor e Melhor Roteirista no European Film Awards; Fallen Leaves foi indicado como Melhor Filme Europeu (Foto: O2 Play)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">Ao final, </span><i><span style="font-weight: 400;">Fallen Leaves </span></i><span style="font-weight: 400;">mostra que o romance, assim como a comédia, vem do corriqueiro. Se o dia a dia é repetitivo, o longa aproveita dessa constância para crescer nos momentos de quebra de rotina e expectativa, arrancando, no mínimo, surpresa. Abocanhando cinco indicações no </span><a href="https://x.com/mubi/status/1721840957010702573?s=46"><i><span style="font-weight: 400;">European Film Awards</span></i></a><span style="font-weight: 400;">, importante premiação do Cinema europeu, a obra caminha na direção oposta da dramaticidade e destitui da paixão o que ela realmente é: busca por conexão.</span></p>
<p>O post <a href="http://personaunesp.com.br/folhas-de-outono-critica/">Folhas de Outono é uma comédia romântica sem paixão</a> apareceu primeiro em <a href="http://personaunesp.com.br">Persona | Jornalismo Cultural</a>.</p>
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		<title>Atravessando gerações, O Homem Cordial está sempre à espreita</title>
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		<pubDate>Tue, 11 Jul 2023 14:54:32 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p>Vitória Gomez Na tentativa de entender o Brasil da década de 1930, com as aspirações nacionalistas e a valorização da cultura brasileira, o sociólogo Sérgio Buarque de Holanda propõe a ideia do “homem cordial”. O conceito definia um cidadão movido pelo coração, afeto e pelo sentimentalismo em detrimento da razão, que extrapola o âmbito pessoal &#8230; <a href="http://personaunesp.com.br/o-homem-cordial-critica/" class="more-link">Continue lendo<span class="screen-reader-text"> "Atravessando gerações, O Homem Cordial está sempre à espreita"</span></a></p>
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										<content:encoded><![CDATA[<figure id="attachment_31275" aria-describedby="caption-attachment-31275" style="width: 2154px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-full wp-image-31275" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/07/O-HOMEM-CORDIAL_02.png" alt="Cena do filme O Homem Cordial. A cena se passa durante a noite em um bar, desfocado ao fundo. No primeiro plano, vemos à esquerda um homem branco de cerca de 50 anos, com cabelos e barba grisalhos, vestindo uma jaqueta preta e com a mão apoiada em um balcão. Do lado esquerdo, vemos uma mulher negra de cerca de 25 anos, com cabelos escuros presos em tranças, vestindo uma jaqueta jeans. Os dois olham para frente, para algo que está fora do quadro." width="2154" height="914" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/07/O-HOMEM-CORDIAL_02.png 2154w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/07/O-HOMEM-CORDIAL_02-800x339.png 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/07/O-HOMEM-CORDIAL_02-1024x435.png 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/07/O-HOMEM-CORDIAL_02-768x326.png 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/07/O-HOMEM-CORDIAL_02-1536x652.png 1536w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/07/O-HOMEM-CORDIAL_02-2048x869.png 2048w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/07/O-HOMEM-CORDIAL_02-1200x509.png 1200w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 1362px) 62vw, 840px" /><figcaption id="caption-attachment-31275" class="wp-caption-text">A semelhança do título com o conceito sociológico do Homem Cordial não é mera coincidência (Foto: O2 Play)</figcaption></figure>
<p><b>Vitória Gomez</b></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Na tentativa de entender o Brasil da década de 1930, com as aspirações nacionalistas e a valorização da cultura brasileira, o sociólogo Sérgio Buarque de Holanda propõe a ideia do “homem cordial”. O conceito definia um cidadão movido pelo coração, afeto e pelo sentimentalismo em detrimento da razão, que extrapola o âmbito pessoal e o aplica no coletivo. Para Buarque de Holanda, essa seria a razão pela qual o brasileiro adota uma figura paternalista, familiar e passional. No entanto, é a mesma pessoa que se esconde por trás da face da cordialidade até que a hostilidade tome conta. Mais de oito décadas depois, </span><i><span style="font-weight: 400;">O Homem Cordial </span></i><span style="font-weight: 400;">busca a </span><a href="https://ciceronogueira.com.br/homem-cordial-9df1a2f48ff3"><span style="font-weight: 400;">revitalização dessa ideia</span></a><span style="font-weight: 400;"> durante uma única e violenta noite em São Paulo.</span></p>
<p><span id="more-31269"></span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Na trama, Aurélio (</span><a href="https://jornaldebrasilia.com.br/blogs-e-colunas/hashtag-cinema/ibere-carvalho-e-paulo-miklos-falam-sobre-o-filme-o-homem-cordial/"><span style="font-weight: 400;">Paulo Miklos</span></a><span style="font-weight: 400;">) é vocalista de uma banda de </span><i><span style="font-weight: 400;">rock </span></i><span style="font-weight: 400;">que fez sucesso nos anos 1980, mas, no </span><i><span style="font-weight: 400;">show </span></i><span style="font-weight: 400;">de reencontro do grupo, é linchado ao entoar canções de cunho social. Mais cedo, ele havia defendido um menino negro de uma acusação de assalto, que culminou na morte de um policial. O vídeo da abordagem viralizou e, de um lado, o artista é rechaçado pelo público, em defesa do suposto agente da lei. Do lado contrário, o menor de idade está desaparecido e não recebe a mesma comoção. Nas próximas horas, o personagem de Miklos enfrenta a pressão social, o radicalismo, a dor da família do garoto e, ele mesmo, a violência policial.</span></p>
<figure id="attachment_31271" aria-describedby="caption-attachment-31271" style="width: 1920px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-full wp-image-31271" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/07/O-HOMEM-CORDIAL_16.jpg" alt="Cena do filme O Homem Cordial. Ao centro da imagem, vemos Aurélio do peito para cima durante um show. Ele é um homem branco, aparentando cerca de 50 anos, com cabelos e barba grisalhos. Ela usa uma camiseta branca e está suado enquanto canta em um microfone. Vemos uma bateria desfocada atrás dele." width="1920" height="802" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/07/O-HOMEM-CORDIAL_16.jpg 1920w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/07/O-HOMEM-CORDIAL_16-800x334.jpg 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/07/O-HOMEM-CORDIAL_16-1024x428.jpg 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/07/O-HOMEM-CORDIAL_16-768x321.jpg 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/07/O-HOMEM-CORDIAL_16-1536x642.jpg 1536w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/07/O-HOMEM-CORDIAL_16-1200x501.jpg 1200w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 1362px) 62vw, 840px" /><figcaption id="caption-attachment-31271" class="wp-caption-text">O longa estreou em 2019 no Cairo International Film Festival e chegou aos cinemas brasileiros em maio de 2023 (Foto: O2 Play)</figcaption></figure>
<p><i><span style="font-weight: 400;">O Homem Cordial </span></i><span style="font-weight: 400;">foi mais uma das obras brasileiras que sofreu com o </span><a href="https://piaui.folha.uol.com.br/cinema-brasileiro-desejado-ou-rejeitado/"><span style="font-weight: 400;">atraso no lançamento</span></a><span style="font-weight: 400;">: o filme estreou em 2019, mas só alcançou as telas nacionais em 2023. À época, o extremismo que permeava o país, fruto da recente eleição de Jair Bolsonaro, normalizava a barbárie e o ódio, sobretudo nas redes sociais. Afinal, é a partir de um vídeo viral na </span><i><span style="font-weight: 400;">internet </span></i><span style="font-weight: 400;">que Aurélio se torna o novo alvo de um grupo radical, que fará de tudo para culpabilizá-lo por ter o mínimo de humanidade diante da injustiça social.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Na produção, o </span><a href="https://www.cartacapital.com.br/politica/a-ira-dos-bolsonaristas-nao-poupa-nem-os-influenciadores-da-direita/"><span style="font-weight: 400;">linchamento</span></a><span style="font-weight: 400;">, tanto ao cantor quanto à vítima, é o ponto de partida. A ação é simbólica em externalizar o ódio e preconceito (antes) contido e que, no governo passado, ganhava tons de normalidade em prol de uma falsa proteção à pátria e aos valores tradicionais. A situação em que o menino é repetidamente hostilizado acontece justamente em um bairro de classe média alta de São Paulo, onde sua presença é vista como ameaçadora. Ali, ele é culpado até que se prove o contrário &#8211; e nem assim.</span></p>
<figure id="attachment_31273" aria-describedby="caption-attachment-31273" style="width: 1920px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-full wp-image-31273" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/07/O-HOMEM-CORDIAL_10.jpg" alt="Cena do filme O Homem Cordial. A imagem é uma avenida vazio durante a noite. Do lado esquerdo, em segundo plano, vemos um carro amarelo com os faróis ligados. Ao centro, em um primeiro plano, vemos uma pessoa com jaqueta vermelha e capacete preto dirigindo uma moto, como se estivesse sendo perseguida pelo carro." width="1920" height="805" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/07/O-HOMEM-CORDIAL_10.jpg 1920w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/07/O-HOMEM-CORDIAL_10-800x335.jpg 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/07/O-HOMEM-CORDIAL_10-1024x429.jpg 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/07/O-HOMEM-CORDIAL_10-768x322.jpg 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/07/O-HOMEM-CORDIAL_10-1536x644.jpg 1536w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/07/O-HOMEM-CORDIAL_10-1200x503.jpg 1200w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 1362px) 62vw, 840px" /><figcaption id="caption-attachment-31273" class="wp-caption-text">Os roteiristas contaram que o filme estava praticamente pronto, mas jogaram o roteiro fora e começaram do zero após ataques contra o cantor Chico Buarque em um restaurante no Rio de Janeiro, em 2015 (Foto: O2 Play)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">Se tivesse sido lançado no ano em que estreou, </span><i><span style="font-weight: 400;">O Homem Cordial </span></i><span style="font-weight: 400;">assumiria um tom de urgência ao retratar uma parcela da sociedade que se sentia confortável com a </span><a href="https://personaunesp.com.br/alvorada-critica/"><span style="font-weight: 400;">violência</span></a><span style="font-weight: 400;">, inclusive encorajada a usá-la como meio e fim &#8211; e tendo o </span><a href="https://personaunesp.com.br/medida-provisoria-critica/"><span style="font-weight: 400;">aval das autoridades</span></a><span style="font-weight: 400;"> para fazê-la. Quatro anos e uma eleição depois, a história escrita pelo sociólogo e diretor Iberê Carvalho e pelo cineasta Pablo Stoll permanece relevante de ser discutida (com os ecos da eleição de 2018 e do que a seguiu, nunca deixará de ser), mas perde parte do seu impacto.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Resultado esse que, com o lançamento em seu devido ano, seria potencializado pela condução frenética da obra, já que horas de uma única noite são suficientes para </span><a href="https://www.nytimes.com/2023/01/08/world/americas/brazil-election-protests-bolsonaro.html?unlocked_article_code=Iap5HJeAXfc5QEjc1a60YQadCauvMeMb30GFcRXvKyqdlJesf4hxjd6Zr_5gAZXYub8NHHOk0MgVqxWBFhWk_d--TYHt7afjSmzUEo8J3FAYmX_hYBN9jamnGa49XALvdwEINhLx-Ho_F9-FHpLycHrIthmD8XTZUA-HrJ_SBsINGiMuZGRTrGoHKBG9Q3f0j3LZy4VJaWzmvLgzbetQOIyxu6TM62T45kjbLKiqNWBmnt2JpVnyGJHKEPNfR3U5VEvshy1am-UkXu_-kbx5O_7efzCUSrd_pg4XeyBWzniX3bP0bPBvfXYUsuZi4rjO2ZjQ_sb_7KGl-9kQdRrcP19Te5fzVVT2yCWQh_xzK8k_9DB6"><span style="font-weight: 400;">levar a situação ao extremo</span></a><span style="font-weight: 400;">. No decorrer da trama, Aurélio vai de um artista bem-sucedido em um </span><i><span style="font-weight: 400;">show </span></i><span style="font-weight: 400;">de reencontro a perder contratos e ser seguido por civis enraivecidos, defensores de uma autoridade criminosa. Quando uma jornalista o aborda para saber do paradeiro do menino desaparecido, ele se envolve na investigação jornalística e passa a, ele mesmo, ser alvo da polícia.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Na pele do ator e </span><a href="https://personaunesp.com.br/cabeca-dinossauro-35-anos/"><span style="font-weight: 400;">Titã</span></a><span style="font-weight: 400;"> Paulo Miklos, o musicista surge como uma tela em branco. As informações acerca de seu passado e do envolvimento com o acontecido vêm aos poucos, e somos inseridos na caoticidade junto do cantor &#8211; exceto que ele sabe do que tudo se trata. Com a breve contextualização, a atenção é dividida entre acompanhar o rumo do artista durante aquela noite e se situar no próprio espaço e tempo, uma vez que, durante a primeira metade do filme, a frenética câmera na mão de Pablo Baião nunca tira os olhos do personagem.</span></p>
<figure id="attachment_31272" aria-describedby="caption-attachment-31272" style="width: 1920px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-full wp-image-31272" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/07/O-HOMEM-CORDIAL_12.jpg" alt="Cena do filme O Homem Cordial. A cena se passa no que aparenta ser uma praça, durante a noite. Do lado esquerdo, vemos uma mulher de perfil. Ela é negra, tem os cabelos presos em uma trança e aparenta ter cerca de 25 anos. Ela encara um homem que está à direita do quadro. Também de perfil, ele é branco, aparenta ter cerca de 50 anos, tem cabelo castanho curto e barba grisalha." width="1920" height="807" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/07/O-HOMEM-CORDIAL_12.jpg 1920w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/07/O-HOMEM-CORDIAL_12-800x336.jpg 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/07/O-HOMEM-CORDIAL_12-1024x430.jpg 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/07/O-HOMEM-CORDIAL_12-768x323.jpg 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/07/O-HOMEM-CORDIAL_12-1536x646.jpg 1536w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/07/O-HOMEM-CORDIAL_12-1200x504.jpg 1200w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 1362px) 62vw, 840px" /><figcaption id="caption-attachment-31272" class="wp-caption-text">O trabalho da Dandara de Morais como a jornalista Helena é um destaques da atuação junto de Paulo Miklos (Foto: O2 Play)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">Experiente, Miklos não coloca o carro na frente dos bois, em uma performance reconhecida como Melhor Ator no Festival de Cinema de Gramado. O ator sabe como a banda toca e, mesmo com o desenvolvimento desordenado de seu protagonista, dá espaço suficiente para a trama prevalecer. </span><i><span style="font-weight: 400;">O Homem Cordial </span></i><span style="font-weight: 400;">é menos sobre Aurélio e mais sobre o </span><a href="https://www.brasildefato.com.br/2023/04/18/erika-hilton-sao-paulo-vive-crise-humanitaria-sob-gestao-de-tarcisio-e-ricardo-nunes"><span style="font-weight: 400;">contexto social</span></a><span style="font-weight: 400;"> e a própria cidade de </span><a href="https://g1.globo.com/globonews/conexao-globonews/video/padre-julio-lancellotti-situacao-da-populacao-de-rua-e-uma-crise-humanitaria-em-sao-paulo-10235483.ghtml"><span style="font-weight: 400;">São Paulo</span></a><span style="font-weight: 400;">, que, segundo o próprio diretor, é uma dos personagens principais da história: a metrópole que nunca dorme está sempre de olho no que todos fazem e é impossível fugir.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">É a partir do envolvimento com a família e a comunidade do menino desaparecido que o filme</span> <span style="font-weight: 400;">aprofunda a relação com o </span><a href="https://www.metropoles.com/entretenimento/cinema/protagonista-de-o-homem-cordial-paulo-miklos-reforca-que-toda-arte-e-politica"><span style="font-weight: 400;">presente da época</span></a><span style="font-weight: 400;">. Inicialmente uma narrativa sobre discursos de ódio e como as redes sociais criam um ambiente propício para a violência, que passa a se materializar na vida real, os roteiristas se viram obrigados a tratar também sobre o racismo, já que a normalização da barbárie tem impactos diferentes de acordo com o grupo étnico-racial e social.</span></p>
<figure id="attachment_31276" aria-describedby="caption-attachment-31276" style="width: 2560px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-full wp-image-31276" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/07/O-HOMEM-CORDIAL_28_Foto-de-Marcello-Vitorino-1-scaled.jpg" alt="Cena do filme O Homem Cordial. A imagem se passa em um ambiente de uma casa. À esquerda, vemos um homem branco, aparentando ter cerca de 50 anos, com cabelo castanho e barba grisalha, vestindo uma jaqueta preta e camiseta branca em pé e com a mão apoiada em uma mesa. Ele olha para o jovem ao centro da imagem, um homem de cerca de 25 anos, vestindo uma camisa e touca e que mexe em um laptop. À direita, uma mulher também encara o computador. Ela é negra, aparenta ter cerca de 25 anos, tem cabelos pretos presos em tranças e veste uma jaqueta jeans." width="2560" height="1707" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/07/O-HOMEM-CORDIAL_28_Foto-de-Marcello-Vitorino-1-scaled.jpg 2560w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/07/O-HOMEM-CORDIAL_28_Foto-de-Marcello-Vitorino-1-800x533.jpg 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/07/O-HOMEM-CORDIAL_28_Foto-de-Marcello-Vitorino-1-1024x683.jpg 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/07/O-HOMEM-CORDIAL_28_Foto-de-Marcello-Vitorino-1-768x512.jpg 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/07/O-HOMEM-CORDIAL_28_Foto-de-Marcello-Vitorino-1-1536x1024.jpg 1536w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 1362px) 62vw, 840px" /><figcaption id="caption-attachment-31276" class="wp-caption-text">No Festival de Gramado, O Homem Cordial também levou o troféu de Trilha Musical (Foto: O2 Play)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">Com Paulo Miklos, eles optam pela perspectiva de um homem branco. Por um lado, a escolha permite que nos coloquemos como espectadores da violência e não o alvo dela. Para os realizadores, aqui a intenção é discutir qual o papel da branquitude na luta antirracista, ponto no qual </span><i><span style="font-weight: 400;">O Homem Cordial </span></i><span style="font-weight: 400;">sucede: apesar da perseguição inicial, o linchamento de Aurélio após sair em defesa do menino vira o foco, enquanto a dor e dúvida da família quanto ao paradeiro do garoto não ganha nenhuma atenção. É só ao cutucar a </span><a href="https://ponte.org/somos-o-legado-de-marielle-afirma-angela-davis-icone-do-feminismo-negro-e-da-luta-antirracista/"><span style="font-weight: 400;">impunidade da força policial</span></a><span style="font-weight: 400;"> durante a investigação jornalística que o musicista entra na mira das autoridades. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Por outro lado, o personagem de Béstia (Thaíde), um velho amigo do protagonista, lembra que “</span><i><span style="font-weight: 400;">o mundo visto pelos olhos de branco devem ser lindos</span></i><span style="font-weight: 400;">”. Afinal, Aurélio só se envolve com o caso depois de muita insistência e da perturbação de sua própria paz. O trunfo do diretor se apoia em justamente admitir que não entende a </span><a href="https://personaunesp.com.br/falas-negras-critica/"><span style="font-weight: 400;">perspectiva do outro</span></a><span style="font-weight: 400;"> e, no final das contas, realmente vê o mundo por trás de seus privilégios até que estes são abalados, sem pretensão de equiparar a falta de sossego com a dor de uma família. </span></p>
<figure id="attachment_31274" aria-describedby="caption-attachment-31274" style="width: 1920px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-full wp-image-31274" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/07/O-HOMEM-CORDIAL_07.jpg" alt="Cena do filme O Homem Cordial. A cena se passa a noite e os personagens no quadro estão contra a luz de um automóvel, desfocado em segundo plano. Do lado esquerdo, vemos dos ombros para cima um homem branco careca, aparentando cerca de 50 anos. Ao centro, vemos uma arma encostada no pescoço do personagem à direita, um homem branco de cerca de 50 anos, com cabelos e barba grisalhos." width="1920" height="809" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/07/O-HOMEM-CORDIAL_07.jpg 1920w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/07/O-HOMEM-CORDIAL_07-800x337.jpg 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/07/O-HOMEM-CORDIAL_07-1024x431.jpg 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/07/O-HOMEM-CORDIAL_07-768x324.jpg 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/07/O-HOMEM-CORDIAL_07-1536x647.jpg 1536w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/07/O-HOMEM-CORDIAL_07-1200x506.jpg 1200w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 1362px) 62vw, 840px" /><figcaption id="caption-attachment-31274" class="wp-caption-text">O “cordial” do conceito de Buarque de Holanda vem do latim Cordis, que significa coração (Foto: O2 Play)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">Sérgio Buarque de Holanda propôs a ideia do homem cordial em 1936. Quase uma década depois, a observação do conceito na prática soa pertinente &#8211; afinal, o filme partiu do </span><a href="https://www.metropoles.com/brasil/chico-buarque-bate-boca-com-jovens-em-frente-a-restaurante-no-rio-de-janeiro"><span style="font-weight: 400;">episódio de linchamento</span></a><span style="font-weight: 400;"> do seu descente direto, </span><a href="https://personaunesp.com.br/chico-buarque-construcao-50-anos/"><span style="font-weight: 400;">Chico Buarque</span></a><span style="font-weight: 400;">. Inegavelmente a obra foi prejudicada pela dinâmica de lançamento, que já submeteu outras </span><a href="https://personaunesp.com.br/marighella-critica/"><span style="font-weight: 400;">produções brasileiras</span></a><span style="font-weight: 400;"> à mesma condição e chegou sem o senso de urgência que a própria história almeja. No final, </span><i><span style="font-weight: 400;">O Homem Cordial </span></i><span style="font-weight: 400;">soa como um estudo de anos passados, mas também como um alerta: não nos livramos de nada e a parcela da sociedade que normaliza a selvageria está sempre à espreita.</span></p>
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		<title>Holy Spider cai em sua própria teia</title>
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		<pubDate>Mon, 08 May 2023 16:21:21 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p>Mariana Pinheiro “Estarei de volta quando você acordar&#8220;, diz uma mulher ao seu filho horas antes de ser brutalmente assassinada enquanto trabalhava. Ela arrumou-se e o beijou pela última vez sem saber o que aconteceria em mais uma noite nas ruas. Essa é a primeira cena de Holy Spider, a qual elucida tudo o que &#8230; <a href="http://personaunesp.com.br/holy-spider-critica/" class="more-link">Continue lendo<span class="screen-reader-text"> "Holy Spider cai em sua própria teia"</span></a></p>
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										<content:encoded><![CDATA[<figure id="attachment_30853" aria-describedby="caption-attachment-30853" style="width: 1200px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-full wp-image-30853" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/05/image4.jpg" alt="cena do filme Holy Spider. Mulher caído ao chão com apenas sua mão e tronco à mostra no take do filme, foco central em sua mão derrubada - tudo acima de um tapete estampado" width="1200" height="501" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/05/image4.jpg 1200w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/05/image4-800x334.jpg 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/05/image4-1024x428.jpg 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/05/image4-768x321.jpg 768w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 1362px) 62vw, 840px" /><figcaption id="caption-attachment-30853" class="wp-caption-text">“Cada homem encontrará o que deseja evitar” Imam Ali &#8211; Nahj Al-Balagha &#8211; Sermão 149. (Foto: MUBI)</figcaption></figure>
<p><b>Mariana Pinheiro</b></p>
<p><span style="font-weight: 400;">“</span><i><span style="font-weight: 400;">Estarei de volta quando você acordar</span></i><span style="font-weight: 400;">&#8220;, diz uma mulher ao seu filho horas antes de ser brutalmente assassinada enquanto trabalhava. Ela arrumou-se e o beijou pela última vez sem saber o que aconteceria em mais uma noite nas ruas. Essa é a primeira cena de </span><a href="https://www.youtube.com/watch?v=iPkE7VT8SOY"><i><span style="font-weight: 400;">Holy Spider</span></i></a><span style="font-weight: 400;">, a qual elucida tudo o que o filme pretende contar durante sua exibição. Nela, uma prostituta iraniana caminha pela cidade de Mashhad enfrentando olhares mal-intencionados e buscando refúgio em drogas para escapar da realidade assombrosa a qual é condenada a viver. </span></p>
<p><span id="more-30849"></span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">À espera de dinheiro em uma viela escura, a personagem é convocada a prestar serviço e surpreende o telespectador quando é sequestrada e, depois, enforcada pelo seu próprio lenço &#8211; ato extremamente simbólico para a construção do enredo. Em </span><i><span style="font-weight: 400;">takes</span></i><span style="font-weight: 400;"> longos de agonia explícita, a mulher havia caído na teia de assassinatos do “matador de aranhas”, caso real que o diretor Ali Abassi faz releitura nesse longa-metragem destaque no Festival de </span><a href="http://personaunesp.com.br/tag/cannes/"><span style="font-weight: 400;">Cannes</span></a><span style="font-weight: 400;"> e pré-selecionado ao</span> <a href="https://personaunesp.com.br/tag/oscar-2023/"><i><span style="font-weight: 400;">Oscar</span></i></a><span style="font-weight: 400;">. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Indicado e aclamado por grandes premiações de Cinema, </span><i><span style="font-weight: 400;">Holy Spider</span></i><span style="font-weight: 400;"> promove a representação essencial da orientalidade para o mundo &#8211; pouco valorizada nas academias cinematográficas historicamente </span><a href="https://www.adorocinema.com/noticias/filmes/noticia-157993/"><span style="font-weight: 400;">xenofóbicas</span></a><span style="font-weight: 400;">. Porém, a obra não resume-se a isso e expõe em detalhe a realidade do Irã. Em análise geral, a proposta do filme demonstra e examina o baque entre a estrutura social política religiosa no País e os atos revoltosos que lutam pela aplicação efetiva dos Direitos Humanos no local. </span></p>
<figure id="attachment_30850" aria-describedby="caption-attachment-30850" style="width: 1999px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-full wp-image-30850" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/05/image1.jpg" alt="A fotografia retrata certo centro urbano iraniano em que está sendo realizada uma manifestação popular. O fundo está desfocado e ao ponto médio apresenta-se apenas o recorte superior da cabeça de uma mulher e suas mãos levantadas, essas que carregam uma imagem de Jina Mahsa Amini. É dia durante o mutuado protesto, os manifestantes usam roupas de frio e suas expressões não são possíveis de serem visualizadas devido ao desfoque da câmera" width="1999" height="1333" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/05/image1.jpg 1999w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/05/image1-800x533.jpg 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/05/image1-1024x683.jpg 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/05/image1-768x512.jpg 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/05/image1-1536x1024.jpg 1536w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/05/image1-1200x800.jpg 1200w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 1362px) 62vw, 840px" /><figcaption id="caption-attachment-30850" class="wp-caption-text">Uma mensagem ao Irã é deixada no epitáfio de Amini: &#8220;Querida Jina, você não está morta. Seu nome será um símbolo&#8221; (Foto: Ozan Kose)</figcaption></figure>
<p><a href="https://www.dw.com/pt-br/a-hist%C3%B3ria-de-jina-mahsa-amini-o-rosto-dos-protestos-no-ir%C3%A3/a-64003741"><span style="font-weight: 400;">Jina Mahsa Amini</span></a><span style="font-weight: 400;"> e sua injusta morte produziram um paralelo significante da realidade para a narrativa fílmica: a jovem foi assassinada pela Polícia Militar sem motivo aparente &#8211; considerada infligidora da lei devido à exposição mínima de seu cabelo publicamente. O evento repercutiu e paralisou as ruas do país inteiro dada a tirania militar e a supremacia religiosa que tirou sua vida em Setembro de 2022. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Ali Abassi lançou </span><i><span style="font-weight: 400;">Holy Spider</span></i><span style="font-weight: 400;">, seu segundo longa-metragem, em Maio do mesmo ano, poucos meses antes do caso de Amini, o que confirma o retrato sangrento do diretor acerca da vida no Irã. “</span><i><span style="font-weight: 400;">A ideia do filme acabou se misturando com a realidade da sociedade. Se você está falando sobre o apartheid contra as mulheres, isso acontece há muito tempo, e não é um sistema sustentável [..], uma hora, ia explodir</span></i><span style="font-weight: 400;">”, </span><a href="https://www.terra.com.br/amp/diversao/entre-telas/filmes/diretor-de-holy-spider-vai-de-misogino-a-feminista-em-poucos-meses,3e41e5057313782140d438652e145fbdjvemcyaf.html"><span style="font-weight: 400;">Abassi</span></a><span style="font-weight: 400;"> reconhece.</span></p>
<figure id="attachment_30851" aria-describedby="caption-attachment-30851" style="width: 1200px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-full wp-image-30851" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/05/image5.jpg" alt="cena do filme Holy Spider. No centro encontram-se a protagonista Arezoo Rahimi, de burca preta longa, e seu parceiro de trabalho, de terno cinzento e uma maleta de couro nas mãos, lado a lado, rodeados de políticos e da família de Saee Hanaei. Cada um que integra a cena está vestido formalmente e olham em direções diferentes com faces sérias. Localizados em um tribunal, em que a parede atrás da protagonista é azul com uma pintura geométrica direcionada ao chão, uma faixa de azul mais escura" width="1200" height="501" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/05/image5.jpg 1200w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/05/image5-800x334.jpg 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/05/image5-1024x428.jpg 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/05/image5-768x321.jpg 768w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 1362px) 62vw, 840px" /><figcaption id="caption-attachment-30851" class="wp-caption-text">“Matador de aranhas” foi um apelido dado ao real assassino pelo modo que os crimes eram realizados: estrangulamento com os lenços das próprias vítimas (Foto: MUBI)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">Saeed Hanaei (Mehdi Bajestani), um </span><i><span style="font-weight: 400;">serial-killer, </span></i><span style="font-weight: 400;">juntamente com Arezoo Rahimi (Zar Amir Ebrahimi), uma jornalista estudando os assassinatos cometidos por ele, estrelam esse terror psicológico inspirado na história real de um dos criminosos mais temidos do Irã entre os anos de 2000 e 2001. Hanei &#8211; nome fictício atribuído a </span><a href="https://www.estadao.com.br/amp/internacional/preso-no-ira-assassino-de-19-prostitutas/"><span style="font-weight: 400;">Saeed Hanali</span></a><span style="font-weight: 400;"> pelo filme &#8211; mata prostitutas porque as vê como “indignas à sociedade”. Ele acredita fazer uma limpeza social ao retirar “pecadoras” das ruas, trazê-las para sua casa e enforcá-las até a morte. Enquanto isso, Rahimi &#8211; personagem criada para auxiliar no desenvolvimento da história &#8211; chega à Mashhad para investigar a massa de homicídios semelhantes que estavam acontecendo. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Assemelhar a obra a um caso real acarreta na responsabilidade de expor a realidade via linguagem audiovisual. </span><i><span style="font-weight: 400;">Holy Spider </span></i><span style="font-weight: 400;">apropria-se grandemente de sua fotografia, realizada por Nadim Carlsen, para simbolizar suas temáticas. Pouca iluminação e tons esverdeados ou azuis aludem às próprias luzes da noite na cidade &#8211; seu cenário principal &#8211; e motiva o medo e a aflição na audiência. Essas características são propositalmente postas para se assemelharem aos filmes </span><a href="https://7marte.com/2019/09/o-que-e-filme-noir.html"><i><span style="font-weight: 400;">noir</span></i></a><span style="font-weight: 400;">,</span> <span style="font-weight: 400;">conhecidos pelos seus jogos de iluminação, enquadramentos inusitados e cenários urbanos criminais.</span></p>
<figure id="attachment_30855" aria-describedby="caption-attachment-30855" style="width: 1200px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-full wp-image-30855" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/05/image3.jpg" alt="cena do filme Holy Spider. À esquerda, no fundo desfocado, encontra-se um carro e caixas que estão iluminados por uma luz verde. A localização é a rua vazia e escura, nela está a atriz Zar Amir Ebrahimi - à direita da imagem - interpretando Arezoo Rahimi quando liga em um telefone público, retratada em certa cena da obra cinematográfica, seu rosto é de surpresa e está vestindo uma burca preta com uma jaqueta da mesma cor sobreposta" width="1200" height="686" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/05/image3.jpg 1200w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/05/image3-800x457.jpg 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/05/image3-1024x585.jpg 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/05/image3-768x439.jpg 768w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 1362px) 62vw, 840px" /><figcaption id="caption-attachment-30855" class="wp-caption-text">Ali Abbasi também foi responsável pela direção dos dois últimos episódios de The Last of Us (Foto: MUBI)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">Abassi tece sua cinematografia com focos frequentes nos rostos do elenco, a fim de demonstrar claramente os sentimentos dos personagens diante das desconfortáveis situações em que atuam. Tal técnica, por exemplo, submete o público a enxergar verdadeiramente as </span><a href="https://www.bbc.com/portuguese/internacional-60780061"><span style="font-weight: 400;">prostitutas</span></a><span style="font-weight: 400;"> apresentadas, com o objetivo de humanizá-las, empatia esquecida por grande parte da população. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">A interpretação dos artistas foi explorada profundamente como peça essencial na qualidade do filme, o que resultou em elogios por parte dos críticos. Uma atuação medíocre tornaria </span><i><span style="font-weight: 400;">Holy Spider</span></i><span style="font-weight: 400;"> detestável à plateia: por possuir uma narrativa cruel, performances ruins tornariam a obra uma piada de mau gosto ou em uma produção sem nexo e vazia. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Dentre os atores, Zar Amir Ebrahimi, intérprete de Rahimi, foi destaque em sua categoria. Não por menos, ela recebeu uma indicação à Melhor Atriz no Festival de Cannes e no Prêmio Robert da Academia de Cinema Irlandês. Neste último, levou o troféu para casa. O talento e duro esforço da atriz foram realçados pela vivência pessoal, da qual ela soube utilizar como ferramenta para representar seu emblemático papel. A artista fugiu do Irã no começo de sua carreira após ter conteúdo íntimo vazado. Com medo de ser proibida de trabalhar ou até presa, ela </span><a href="https://istoe.com.br/atriz-zar-amir-ebrahimi/"><span style="font-weight: 400;">escapa</span></a><span style="font-weight: 400;"> do País e contrapõe a imagem idealizada da mulher iraniana, experiência próxima à de sua personagem.</span></p>
<figure id="attachment_30854" aria-describedby="caption-attachment-30854" style="width: 1500px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-full wp-image-30854" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/05/image2.jpg" alt="Cena do filme Holy Spider. Em uma moto, está Saeed, interpretado por Mehdi Bajestani, e uma mulher de burca, esta tem seu rosto encostado aos ombros dele durante a viagem, então não é possível ver seu rosto claramente. O homem usa uma jaqueta cinza e uma camisa social por baixo, não tem expressões, está sério. Durante a noite, os dois estão em uma avenida escura e as luzes da cidade refletem na câmera como pontos iluminados, o tom da imagem é quente esverdeado, assim como o restante do filme. A posição de filmagem mostra apenas diante a cintura para cima dos atores, estão de lado para o público e bem centralizados" width="1500" height="620" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/05/image2.jpg 1500w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/05/image2-800x331.jpg 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/05/image2-1024x423.jpg 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/05/image2-768x317.jpg 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/05/image2-1200x496.jpg 1200w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 1362px) 62vw, 840px" /><figcaption id="caption-attachment-30854" class="wp-caption-text">“Meu tipo de Cinema é aquele que expõe as coisas” rebate Abassi diante críticas às mortes gráficas do filme (Foto: MUBI)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">A aranha, contudo, cai em sua própria armadilha: a crítica que o roteiro &#8211; escrito por Ali Abassi e Afshin Kamran &#8211; propõe para o machismo estrutural iraniano é camuflada pela violência gráfica e protagonização do assassino, ocasionando em um desenvolvimento insuficiente que o eixo </span><a href="https://midianinja.org/news/mulheres-denunciam-feminicidio-em-protesto-no-festival-de-cannes/"><span style="font-weight: 400;">feminino</span></a><span style="font-weight: 400;"> não poderia ter no </span><i><span style="font-weight: 400;">script</span></i><span style="font-weight: 400;">. A hipocrisia se sobrepõe ao que é originalmente proposto. As mulheres de </span><i><span style="font-weight: 400;">Holy Spider</span></i><span style="font-weight: 400;"> são apresentadas superficialmente, como acontece com a própria co-protagonista, Arezoo Rahimi, cujas tramas foram abandonadas durante o longa. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Todos os pontos levantados pela equipe de roteiristas são válidos e bem postos, mas não evoluem posteriormente. A relação de trabalho entre a jornalista e um agente local que estava na investigação serve como exemplo disso. O homem a assedia ao prometer ajudá-la em seu caso fora do horário de expediente. Então, comete </span><a href="https://www.estadao.com.br/amp/politica/blog-do-fausto-macedo/slutshaming-dois-crimes-em-um-ato-so/?type=post"><i><span style="font-weight: 400;">slutshamming</span></i></a><span style="font-weight: 400;"> às custas de uma denúncia feita por ela no cargo anterior, em que sofreu outro abuso de autoridade. Apesar de contar uma situação comum e de abordagem necessária &#8211; ainda mais no Irã, onde tais temas são completamente omitidos -, a cena apenas é lançada como se para preencher uma pauta temática sobre feminismo, sem retomada futura. Isso se repete em vários eventos e ocasiões durante o filme. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">O processo de criação não teve o intuito de transmitir uma mensagem sobre a situação de gênero no País, mas sua preocupação geral soa como uma exposição panorâmica das problemáticas sociais e religiosas. Com isso, a obra prefigura uma abordagem esvaziada da trama principal: um caso de assassinato em massa de prostitutas pelo machismo sacro do Estado iraniano. Ali Abbasi, aliás, </span><a href="https://www.em.com.br/app/noticia/cultura/2023/01/19/interna_cultura,1446455/amp.html"><span style="font-weight: 400;">admite</span></a><span style="font-weight: 400;"> não estar centrado no ponto de vista feminino, já que ele acredita ser uma “</span><i><span style="font-weight: 400;">história com muitas camadas</span></i><span style="font-weight: 400;">”.</span></p>
<p><figure id="attachment_30852" aria-describedby="caption-attachment-30852" style="width: 1500px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-full wp-image-30852" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/05/image6.jpg" alt="Texto alternativo: cena do filme Holy Spider. Essa, foi narrada no parágrafo 12 da matéria, Saee Hanaei tem seu rosto coberto pela grade de segurança perolada do templo religioso que está, apenas seu olho é nítido na imagem. A iluminação é esverdeada com um tom vermelho de luz apenas no olhar do ator" width="1500" height="626" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/05/image6.jpg 1500w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/05/image6-800x334.jpg 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/05/image6-1024x427.jpg 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/05/image6-768x321.jpg 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/05/image6-1200x501.jpg 1200w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 1362px) 62vw, 840px" /><figcaption id="caption-attachment-30852" class="wp-caption-text">&#8220;[&#8230;] Os assassinatos em si não têm nada de especial, há certa banalidade neles. Mas o que está no entorno do assassino e o respeito que ele inspirou, isso, sim, é fascinante&#8221; (Foto: MUBI)</figcaption></figure><span style="font-weight: 400;">Ainda assim, o longa-metragem sucede em outros objetivos, como a perspectiva sobre </span><a href="https://www.maxwell.vrac.puc-rio.br/56441/56441_5.PDF"><span style="font-weight: 400;">religiosidade</span></a><span style="font-weight: 400;">, família e </span><a href="https://www.bbc.com/portuguese/internacional-51048426"><span style="font-weight: 400;">política</span></a><span style="font-weight: 400;">, exibidos com uma linguagem visual chocante. O fechamento demonstra em precisão tais aspectos, já que metáforas são muito bem utilizadas durante a situação final do protagonista Saee Hanaei: a arma de crime da qual abatia suas “presas” é utilizada contra o “predador”. Porém, a simbologia já está presente anteriormente dentro da cinematografia. Em certa cena, grades de segurança em um templo aparentam ser de uma cadeia, devido ao enquadramento fotográfico, o que revela uma interpretação de aprisionamento mental que a devoção pode causar, além do sentido literal de um criminoso pertencer ao presídio.  </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Em face de problemáticas e sucessos, </span><i><span style="font-weight: 400;">Holy Spider</span></i><span style="font-weight: 400;"> ocupa um espaço importante no Cinema internacional, mas que poderia reproduzir com mais apreço a mulher iraniana por meio do desenvolvimento das personagens e seus merecidos enfoques. O inconveniente da produção não é a crueza retratada durante os dias no Irã, característica intrigante do diretor em seus filmes, mas sim o esquecimento do caso real que relata e seu profundo transtorno societário implícito. Esse, do qual o sexo feminino sofre regularmente e é de conhecimento geral no País. </span></p>
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