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	<title>Arquivos Mariana Bezerra &#8211; Persona | Jornalismo Cultural</title>
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	<description>Desde 2015 provando que a distância entre Bergman, Lady Gaga e a novela das 9 nem existe.</description>
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	<title>Arquivos Mariana Bezerra &#8211; Persona | Jornalismo Cultural</title>
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		<title>A Sombra do Meu Pai: quando o luto vira poesia</title>
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		<pubDate>Fri, 15 May 2026 11:27:52 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Cinema]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Mariana Bezerra A sombra do meu pai é resultado da união criativa entre os irmãos Akinola Davies Jr (diretor e co-roteirista) e Wale Davies (co-roteirista) e do mergulho de ambos em um passado íntimo em relação às interações de ambos com o falecido pai, que morreu quando os cineastas tinham apenas 2 e 4 anos, &#8230; <a href="http://personaunesp.com.br/critica-a-sombra-do-meu-pai/" class="more-link">Continue lendo<span class="screen-reader-text"> "A Sombra do Meu Pai: quando o luto vira poesia"</span></a></p>
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										<content:encoded><![CDATA[<figure id="attachment_37306" aria-describedby="caption-attachment-37306" style="width: 800px" class="wp-caption alignnone"><img fetchpriority="high" decoding="async" class="size-medium wp-image-37306" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2026/05/11593-large-800x390.jpg" alt="Homem negro adulto, vestindo camisa roxa listrada e um relógio no pulso direito, está sentado entre dois meninos, olha à frente com expressão séria. O garoto do lado esquerdo veste uma blusa clara de botões e carrega uma mochila nas costas; tem pele negra e cabelos crespos e curtos e apoia a mão no ombro do homem mais velho. Já o outro menino, também de pele negra e cabelo curto, descansa o rosto na mão. Ao fundo, há uma parede repleta de sapatos enfileirados." width="800" height="390" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2026/05/11593-large-800x390.jpg 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2026/05/11593-large-1024x500.jpg 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2026/05/11593-large-768x375.jpg 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2026/05/11593-large-1536x750.jpg 1536w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2026/05/11593-large-1200x586.jpg 1200w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2026/05/11593-large.jpg 2000w" sizes="(max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 984px) 61vw, (max-width: 1362px) 45vw, 600px" /><figcaption id="caption-attachment-37306" class="wp-caption-text">“Isso quer dizer que pessoas que nos amam muito, nós não vemos elas com frequência?” pergunta Remi ao pai, se referindo a ele e a Deus (Foto: Filmes da Mostra)</figcaption></figure>
<p><b>Mariana Bezerra</b><br />
<span style="font-weight: 400;"><i>A sombra do meu pai </i></span><span style="font-weight: 400;">é resultado da união criativa entre os irmãos Akinola Davies Jr (diretor e co-roteirista) e Wale Davies (co-roteirista) e do mergulho de ambos em um passado íntimo em relação às interações de ambos com o falecido pai, que morreu quando os cineastas tinham apenas 2 e 4 anos, respectivamente. O que começou com uma carta de amor a um ente querido, feita por Wale durante uma aula de escrita criativa, se tornou um filme que marcou presença em grandes festivais, como o Festival Internacional de Cinema de Toronto e o Festival de </span><span style="font-weight: 400;"><a href="https://www-festival--cannes-com.translate.goog/en/f/my-father-s-shadow/?_x_tr_sl=en&amp;_x_tr_tl=pt&amp;_x_tr_hl=pt&amp;_x_tr_pto=tc"><i>Cannes</i></a></span><span style="font-weight: 400;"><i> –</i></span><span style="font-weight: 400;"> onde ganhou menção especial da Caméra d’Or – além da </span><span style="font-weight: 400;"><a href="https://personaunesp.com.br/tag/49a-mostra-internacional-de-cinema-em-sao-paulo/">49ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo</a></span><span style="font-weight: 400;">, na qual ganhou o prêmio da crítica. O longa também foi reconhecido no </span><span style="font-weight: 400;"><i>BAFTA</i></span><span style="font-weight: 400;">, levando o prêmio de Melhor Estreia de Roteirista, Diretor ou Produtor britânico.</span></p>
<p><span id="more-37305"></span><br />
<span style="font-weight: 400;">O filme articula o drama familiar ao contexto político ao retratar o cenário da Nigéria em 1993 – não apenas como um plano de fundo, mas como um elemento que atravessa profundamente a jornada do trio formado pelo pai, Folarin (Ṣọpẹ́ Dìrísù), e seus dois filhos, Akin (Godwin Egbo) e Remi (Chibuike Marvellous Egbo). O roteiro acompanha um único dia na vida desses personagens, que saem de uma cidade rural rumo à capital Lagos para que Folarin pudesse obter o pagamento por serviços prestados na cidade. Assim, a narrativa íntima e afetiva contrasta com as tensões visíveis na capital durante o dia das primeiras </span><span style="font-weight: 400;"><a href="https://www.bbc.com/pidgin/tori-57438699">eleições</a></span><span style="font-weight: 400;"> presidenciais do país após o golpe de estado de 1983, permeado, no filme, pelo recente e ficcional massacre da base militar Bonny Camp, em que civis foram assassinados por militares.</span></p>
<div class="jetpack-video-wrapper"><iframe title="MY FATHER’S SHADOW | In Conversation With the Director &amp; Cast | MUBI" width="840" height="473" src="https://www.youtube.com/embed/d9U3_eC1QAs?feature=oembed" frameborder="0" allow="accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share" referrerpolicy="strict-origin-when-cross-origin" allowfullscreen></iframe></div>
<p><span style="font-weight: 400;">A narrativa constrói personagens complexos, intensos, cujas nuances se revelam </span><span style="font-weight: 400;">a partir das performances deslumbrantes e cativantes trazidas pelos protagonistas. Nesse caso, o brilho avassalador dos três atores se revela na simplicidade e, muitas vezes, no silêncio. Essa é uma história que surge diante da tentativa dos roteiristas de preencher uma ausência; uma lacuna permeada por </span><span style="font-weight: 400;"><a href="https://youtu.be/IJTao2ZbKO4?si=UJ1vVlSv8i3C88bC">memórias</a></span><span style="font-weight: 400;"> quase oníricas e por relatos de familiares acumulados ao longo da vida. Assim, a dramatização contida, a representação da inocência dos meninos e o esforço do pai em preservá-la – em confronto com as suas tormentas financeiras e pessoais – são entregues sem qualquer necessidade de espetacularização, mesmo diante do contexto intensamente dramático. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Nesse sentido, a dinâmica </span><span style="font-weight: 400;"><a href="https://www.nytimes.com/2026/02/13/arts/my-fathers-shadow-movie.html">familiar</a></span><span style="font-weight: 400;"> e a ingenuidade infantil se tornam uma terna mensagem sobre amor em seu sentido mais amplo. A figura de Folarin, que exala uma imagem forte e quase irredutível em um primeiro momento, em grande parte pelas responsabilidades que carrega, revela-se, aos poucos, na de um homem preocupado, acima de tudo, com o caráter e a união entre os filhos. Algumas cenas ilustram bem esse cenário, como quando o mais velho, Remi, diz que comprará um sorvete apenas para si, recusando-se a dividir com o irmão por afirmar que o dinheiro lhe pertence. A atitude é prontamente repreendida pelo pai, que não tolera essa postura individualista. Até mesmo pela sua ausência constante em função do trabalho, o homem busca fortalecer a presença de amor e parceria entre os meninos; uma relação que, de fato, se consolidou na história real por trás do filme.</span></p>
<figure id="attachment_37307" aria-describedby="caption-attachment-37307" style="width: 800px" class="wp-caption alignnone"><img decoding="async" class="size-medium wp-image-37307" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2026/05/176123445768fa4e19bfb32_1761234457_3x2_lg-800x534.jpg" alt="O pefil de Folarin, um homem negro contra a luz do sol, e carregando dois meninos, um nos ombros e o outro nas mãos. Ao fundo, aparece o céu em um tom claro acinzentado." width="800" height="534" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2026/05/176123445768fa4e19bfb32_1761234457_3x2_lg-800x534.jpg 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2026/05/176123445768fa4e19bfb32_1761234457_3x2_lg-768x512.jpg 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2026/05/176123445768fa4e19bfb32_1761234457_3x2_lg.jpg 1024w" sizes="(max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 984px) 61vw, (max-width: 1362px) 45vw, 600px" /><figcaption id="caption-attachment-37307" class="wp-caption-text">&#8220;Tudo o que podemos esperar é que você seja uma boa pessoa” diz Folarin a um dos filhos (Fonte: Filmes da Mostra)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">O retrato dessa </span><span style="font-weight: 400;"><a href="https://youtu.be/qAIOfII8TgU?si=U8QHl_ePDS6E8HBG&amp;t=65">intimidade</a></span><span style="font-weight: 400;"> é quase imersivo; elaborado a partir de uma parceria precisa entre direção, roteiro, fotografia e som (Pius Olamilekan Fatoke e CJ Mirra). No filme, tudo o que é necessário para composição da narrativa recebe a devida atenção dessa combinação de elementos: a intensidade do drama familiar, os conflitos políticos e até mesmo o otimismo da população diante da eleição histórica – que foi anulada pelos militares – são atravessados por escolhas técnicas que potencializam essas camadas. </span><br />
<span style="font-weight: 400;">Nesse sentido, há um caráter documental na fotografia de </span><span style="font-weight: 400;"><a href="https://mubi.com/en/cast/jermaine-edwards">Jermaine Edwards</a></span><span style="font-weight: 400;">, uma proximidade da câmera com o lugar, que conecta os cenários à história e ao contexto. Esse aspecto parece valioso para Akinola em sua proposta de resgatar as próprias raízes e a sua herança diaspórica. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">De um lado, enquadramentos fechados, que conectam o espectador aos personagens; de outro, planos mais abertos que permitem uma observação ampliada do cenário e das tensões ao redor, o que vem acompanhado de efeitos sonoros densos e provocantes, completando de forma harmônica a atmosfera de estresse social e político e econômico, os quais também são enfatizados pelo transmissão de rádio, televisão e manchetes de jornais que aparecem no longa.</span></p>
<figure id="attachment_37308" aria-describedby="caption-attachment-37308" style="width: 800px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-medium wp-image-37308" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2026/05/a-sombra-do-meu-pai-meio-amargo-2-800x312.jpg" alt="Folarin, homem negro, vestindo camisa roxa e calça escura, caminha por uma estrada de terra segurando a mão de dois menino, enquanto outro o da esquerda usa uma camiseta amarela com listras azuis e o da direita usa uma camisa clara de tom alaranjado. Ao redor, a vegetação e o céu claro compõem a paisagem." width="800" height="312" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2026/05/a-sombra-do-meu-pai-meio-amargo-2-800x312.jpg 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2026/05/a-sombra-do-meu-pai-meio-amargo-2-768x300.jpg 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2026/05/a-sombra-do-meu-pai-meio-amargo-2.jpg 900w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 984px) 61vw, (max-width: 1362px) 45vw, 600px" /><figcaption id="caption-attachment-37308" class="wp-caption-text">Os jovens atores que contracenam em A sombra de meu pai são irmãos na vida real (Fonte: Filmes da Mostra)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">Para além da química entre os personagens principais e o cenário que os envolve, os nomes secundários da trama também desenvolvem um papel que é valorizado pelo roteiro. Nessa perspectiva, a mãe dos meninos e esposa de Folarin, é apresentada através de uma imagem alegre e gentil; especialmente se tratando da mulher que construiu, anos antes, juntamente com o atual esposo, as lembranças ternas que ele possui da cidade de Lagos – memórias que são passadas para os filhos enquanto percorrem o local. Aqui, há também discussões que surgem quanto à distância do pai da família e sofrimento dessa que parece ser uma grande mulher em relação a sua ausência. Nesse sentido, </span><span style="font-weight: 400;"><a href="https://mostra.org/filmes/a-sombra-do-meu-pai"><i>A sombra de meu pai</i></a></span> <span style="font-weight: 400;">se coloca como um drama capaz de mergulhar em nuances múltiplas e profundas dentro de um contexto familiar, mas sem cair no vitimismo. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Ao fim, o filme aprofunda o ar melancólico, quando as frustrações coletivas ecoam diretamente na tragédia pessoal da família: o assassinato de Folarin. Nesse contexto, a anulação das eleições converte o otimismo da população em uma série de revoltas. Assim, a efemeridade e impotência diante da vida, abordadas ao longo do longa como um todo, se tornam ainda mais latentes com a morte do pai e diante da frustração da população </span><span style="font-weight: 400;"><a href="https://afriquenoirmagazine.com/my-fathers-shadow-a-new-dawn-for-african-cinema-at-cannes/">nigeriana</a></span><span style="font-weight: 400;">. Nesse momento, o ar denso e contemplativo tomam conta da tela; não há necessidade de investigar a fundo o assassinato de Fola; aqui, os irmãos por trás da câmera voltaram seus olhares para o luto, justamente o sentimento que foi a matéria prima da obra, e optaram por retratar uma comunidade devastada, seja a familiar ou a nacional, em face da perda de um futuro que nunca se concretizou.</span></p>
<div class="jetpack-video-wrapper"><iframe loading="lazy" title="A SOMBRA DO MEU PAI | Trailer Oficial" width="840" height="473" src="https://www.youtube.com/embed/b31Z5zwzgqM?feature=oembed" frameborder="0" allow="accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share" referrerpolicy="strict-origin-when-cross-origin" allowfullscreen></iframe></div>
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		<title>Velhos Bandidos: os gigantes Fernanda Montenegro e Ary Fontoura salvam a si mesmos – e ao próprio filme</title>
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		<pubDate>Tue, 05 May 2026 13:00:10 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Cinema]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Aviso: O texto contém alguns spoilers Mariana Bezerra  O filme brasileiro Velhos Bandidos, dirigido por Cláudio Torres, chega às telonas com um elenco de peso, a começar por Fernanda Montenegro, que diz esse ser o seu último filme. Inclusive, em uma de suas apresentações de Fernanda Montenegro lê Simone de Beauvoir, a atriz deixou claro &#8230; <a href="http://personaunesp.com.br/critica-velhos-bandidos/" class="more-link">Continue lendo<span class="screen-reader-text"> "Velhos Bandidos: os gigantes Fernanda Montenegro e Ary Fontoura salvam a si mesmos – e ao próprio filme"</span></a></p>
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										<content:encoded><![CDATA[<p><b><i>Aviso: </i></b><i><span style="font-weight: 400;">O texto contém alguns spoilers</span></i></p>
<figure id="attachment_37233" aria-describedby="caption-attachment-37233" style="width: 800px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="wp-image-37233 size-medium" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2026/04/critica_velhos_bandidos-800x533.jpg" alt="Marta e Rodolfo aparecem em primeiro plano, lado a lado, olhando para a câmera. Ela tem cabelos brancos curtos, usa roupas escuras e segura as mãos próximas ao peito; ele veste terno e gravata e sorri levemente. Ao fundo, desfocados, estão Syd e Nancy, um casal mais jovem observando a cena. " width="800" height="533" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2026/04/critica_velhos_bandidos-800x533.jpg 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2026/04/critica_velhos_bandidos-1024x683.jpg 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2026/04/critica_velhos_bandidos-768x512.jpg 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2026/04/critica_velhos_bandidos.jpg 1170w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 984px) 61vw, (max-width: 1362px) 45vw, 600px" /><figcaption id="caption-attachment-37233" class="wp-caption-text">Fernanda Montenegro diz que a nova comédia é seu último filme (Fonte: Paris Filmes)</figcaption></figure>
<p><b>Mariana Bezerra </b></p>
<p><span style="font-weight: 400;">O filme brasileiro </span><i><span style="font-weight: 400;">Velhos Bandidos</span></i><span style="font-weight: 400;">, dirigido por Cláudio Torres, chega às telonas com um elenco de peso, a começar por </span><a href="https://personaunesp.com.br/?s=Fernanda+Montenegro#google_vignette"><span style="font-weight: 400;">Fernanda Montenegro</span></a><span style="font-weight: 400;">, que diz esse ser o seu último filme. Inclusive, em uma de suas apresentações de </span><i><span style="font-weight: 400;">Fernanda Montenegro lê Simone de Beauvoir</span></i><span style="font-weight: 400;">, a atriz deixou claro que a obra não se tratava de um drama social, mas de uma comédia. Além dela, apenas para começar a citar o restante do elenco, estão em cena Ary Fontoura, Lázaro Ramos, Bruna Marquezine e Vladimir Brichta. Apesar dos estigmas existentes sobre as comédias nacionais – alguns verdadeiros, outros nem tanto – havia uma expectativa natural em relação a esse lançamento diante da força dos nomes envolvidos.</span></p>
<p><span id="more-37232"></span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">De fato, o </span><a href="https://www.cnnbrasil.com.br/entretenimento/elenco-de-velhos-bandidos-diz-se-e-mais-facil-fazer-publico-rir-ou-chorar/"><span style="font-weight: 400;">elenco</span></a><span style="font-weight: 400;"> se dá muito bem com a trama. Marta (Fernanda Montenegro) e Rodolfo (Ary Fontoura) são um casal de nonagenários que sofrem uma tentativa de assalto arquitetada por Nancy (Bruna Marquezine) e Syd (Vladimir Brichta). O plano do jovem casal parecia perfeito: invadir a casa de idosos que estavam em uma viagem de cruzeiro organizada pela própria personagem de Marquezine. No entanto, o esquema logo se revela um tiro no próprio pé. Inesperadamente, Marta e Rodolfo retornam a casa por causa de um passaporte esquecido, surpreendendo os invasores e – pasmem – sequestrando-os. A partir desse momento, a narrativa revela o seu diferencial: por trás da aparência frágil, os dois idosos subvertem as expectativas e assumem o controle da situação.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">O casal mais jovem é forçado a se tornar uma engrenagem essencial em um plano mirabolante dos velhinhos: o roubo de um banco. Aqui, a trama constrói uma dimensão social com a ideia do ‘bom bandido’, quase um justiceiro à la Robin Hood. Isso porque a motivação do assalto nasce de uma injustiça sofrida pelo casal décadas antes: Rodolfo foi demitido sem receber os seus direitos trabalhistas após denunciar a corrupção dentro da construtora responsável pela obra do banco. Além disso, para completar esse arquétipo, há a figura do Osvaldo (</span><a href="https://personaunesp.com.br/medida-provisoria-critica/"><span style="font-weight: 400;">Lázaro Ramos</span></a><span style="font-weight: 400;">), um investigador da polícia, cuja filha se encontra em estado de saúde crítico e que depende de um medicamento de alto custo que demora a ser disponibilizado devido aos trâmites e burocracias do plano de saúde. </span></p>
<figure id="attachment_37236" aria-describedby="caption-attachment-37236" style="width: 800px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-medium wp-image-37236" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2026/04/fernanda-montenegro-e-ary-fontoura-chegam-as-telas0329254900202603251545-800x420.jpg" alt="Marta, uma idosa de pele e cabelos brancos, usando óculos vermelhos e roupa elegante em preto e branco, está ao lado de Rodolfo, um idoso de pele e cabelos brancos que usa um terno marrom. Os dois aparecem com expressões atentas e surpresas, em um ambiente interno bem iluminado." width="800" height="420" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2026/04/fernanda-montenegro-e-ary-fontoura-chegam-as-telas0329254900202603251545-800x420.jpg 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2026/04/fernanda-montenegro-e-ary-fontoura-chegam-as-telas0329254900202603251545-1024x538.jpg 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2026/04/fernanda-montenegro-e-ary-fontoura-chegam-as-telas0329254900202603251545-768x403.jpg 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2026/04/fernanda-montenegro-e-ary-fontoura-chegam-as-telas0329254900202603251545-1536x806.jpg 1536w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2026/04/fernanda-montenegro-e-ary-fontoura-chegam-as-telas0329254900202603251545-1200x630.jpg 1200w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2026/04/fernanda-montenegro-e-ary-fontoura-chegam-as-telas0329254900202603251545.jpg 1920w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 984px) 61vw, (max-width: 1362px) 45vw, 600px" /><figcaption id="caption-attachment-37236" class="wp-caption-text">Os figurinos (Valeria Stephanie) do casal são importantes para a construção desses personagens (Foto: Paris Filmes)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">Embora o tecido narrativo seja construído com alguns clichês, a história ainda consegue ser envolvente. Por um lado, o roteiro (Cláudio Torres,  Fabio Mendes e Renan Flumian) traz uma justificativa para o plano ardiloso de Marta e Rodolfo, por outro, Fontoura e Montenegro garantem que a sagacidade e a química marquem presença graças às suas performances, como sempre, brilhantes. Nesse sentido, </span><i><span style="font-weight: 400;">Velhos Bandidos</span></i><span style="font-weight: 400;"> contribui para uma onda ainda jovem de uma nova perspectiva sobre a </span><a href="https://personaunesp.com.br/a-incrivel-eleanor-critica/"><span style="font-weight: 400;">velhice</span></a><span style="font-weight: 400;">. Enquanto esses dois personagens se mostram fortes e independentes uma série de estigmas e preconceitos é colocada à prova, haja vista a representação em tela da sexualidade dos nonagenários e a forma como são capazes de desbancar os invasores utilizando as habilidades certas, ainda que estivessem em desvantagem no que tange a força física.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Para além do núcleo do casal, o filme traz outros grandes nomes brasileiros que compõem uma equipe da terceira idade dotada das mais inusitadas habilidades, como a produção de gás sonífero e um laser extremamente poderoso, que se tornam essenciais na execução do roubo. Em oposição desse frescor trazido para o público, há o casal mais jovem, que carrega clichês em excesso, ultrapassando o limite confortável e beirando uma caricatura nada relevante – a exemplo de Nancy executando o roubo em um traje de </span><a href="https://graziamagazine.com/us/articles/catwomans-catsuit-evolution/"><span style="font-weight: 400;">mulher gato</span></a><span style="font-weight: 400;">.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Apesar desse retrato desinteressante, os dois casais principais desenvolvem uma química agradável e reconfortante de se assistir enquanto planejam o grande crime. Os comparsas desenvolvem uma amizade natural e acabam compartilhando entre si questões íntimas, como o câncer raro e praticamente intratável do personagem de </span><a href="https://youtu.be/9-pRGbBvgCw?si=KXTgFsxNiSwuG12H&amp;t=70"><span style="font-weight: 400;">Fontoura</span></a><span style="font-weight: 400;">, que precisa do dinheiro do roubo para custear um tratamento experimental no exterior. Esse fator, definitivamente, traz mais uma camada de calor humano à trama e intensifica a torcida pelos personagens. </span></p>
<figure id="attachment_37234" aria-describedby="caption-attachment-37234" style="width: 650px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-full wp-image-37234" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2026/04/VELHOS-BANDIDOS-Credito-Laura-Campanella-Divulgacao-5.jpeg.jpg.webp" alt="Grupo de cinco idosos posa junto em um ambiente com iluminação colorida e decoração descontraída. Vestem roupas estilosas e variadas, alguns usando óculos escuros, transmitindo atitude confiante e irreverente." width="650" height="433" /><figcaption id="caption-attachment-37234" class="wp-caption-text">Tony Tornado, Vera Fischer, Teca Pereira, Hamilton Vaz Pereira e Reginaldo Faria formam um quinteto fantástico na trama (Foto: Paris Filmes)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">O desenrolar do enredo é cercado de reviravoltas e culmina em um </span><i><span style="font-weight: 400;">plot twist </span></i><span style="font-weight: 400;">sensacional: o casal de </span><a href="https://youtu.be/liiEk_MSfLc?si=BO5Ly3yT-4JFUORf"><span style="font-weight: 400;">velhos bandidos</span></a><span style="font-weight: 400;"> se uniu a seus amigos de longa data e ao policial Oswaldo para darem uma lição em Nancy e Syd. Os aliados forjaram desde intrigas entre si até a morte de Rodolfo, que envolveu tiro e sangue falsos. Assim, os jovens fogem pensando ter deixado os pobres velhinhos para trás, sendo obrigados a carregar todo o ouro consigo &#8211; o que, na verdade, já planejavam fazer &#8211; apenas para descobrirem que a mala que os tornaria milionários estava preenchida com chumbo. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Esse final não é necessariamente cativante pela sua imprevisibilidade, mas pela carga irônica e sagaz que acrescenta, novamente, às figuras de Marta e Rodolfo. Esse aspecto reforça que o maior mérito de </span><i><span style="font-weight: 400;">Velhos Bandidos</span></i><span style="font-weight: 400;"> está nos retratos desses personagens e nas interações entre eles. Isso porque o planejamento do crime em si não faz muito sentido e recorre a todo momento às conveniências do roteiro, além de ser apresentado como simplificado demais para ser credível. Assim, o longa passa a depender inteiramente dos conflitos dramáticos, quando deveria haver um equilíbrio entre as temáticas abordadas, especialmente se tratando de um </span><a href="https://personaunesp.com.br/critica-truque-de-mestre-o-3-ato/"><span style="font-weight: 400;">filme de assalto</span></a><span style="font-weight: 400;">.</span></p>
<figure id="attachment_37235" aria-describedby="caption-attachment-37235" style="width: 750px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-full wp-image-37235" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2026/04/Velhos-Bandidos-2.jpg.jpg-750x500-1.jpeg" alt="Sid, um homem branco de cabelo curto castanho e bigode escuros e Nancy, mulher branca de cabelo castanho e ondulado, estão presas com fita adesiva envolvendo o corpo. Eles se olham e parecem confusos. Ambos usam jaquetas de tons escuros. O ambiente apresenta uma janela ao fundo e vegetação do lado de fora do ambiente." width="750" height="500" /><figcaption id="caption-attachment-37235" class="wp-caption-text">Velhos Bandidos conta com um elenco renomado, o que provoca grandes expectativas no público (Foto: Paris Filmes)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">Infelizmente, nem mesmo a grande e revigorante surpresa narrativa é sustentada, já que é seguida de um outro </span><a href="https://www.vogue.in/content/best-plot-twist-movies-that-will-shock-and-compel-you"><i><span style="font-weight: 400;">plot twist</span></i></a> <span style="font-weight: 400;">moralmente correto – pelo menos a partir de uma perspectiva clichê e romantizada – e consideravelmente mais sem graça; após o tratamento bem sucedido do personagem de Fontoura, Marta e Rodolfo retornam ao Brasil para se reconciliarem com o casal que os enganaram e que agora espera a chegada de um bebê. Nesse sentido, há uma grande quebra de expectativas ao final. Infelizmente, Marta e Rodolfo, que mereciam um final controverso, engraçado e ambíguo, ganham um desfecho convencional e arrependido nas posições de ‘vovó’ e ‘vovô’, enquanto poderiam ter tido um ‘quê’ vilanesco mais coerente com a construção narrativa. E, claro, isso não é um demérito a essas posições familiares tão prestigiadas, mas uma ressalva as decisões contraditórias e pouco elaboradas adotadas em um momento decisivo da trama. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Apesar dessas questões, o filme não deixa de ser agradável – pelo menos até que o clímax seja interrompido – e há espaço para o riso e a emoção diante uma obra para toda a família. Infelizmente, Velhos Bandidos cai na tediosa posição de uma produção que não é reconhecida pela primazia, mas que, com o manejo da expectativa, pode se tornar uma boa experiência. De qualquer forma, mais uma vez, os louvores aos protagonistas </span><a href="https://veja.abril.com.br/cultura/fernanda-montenegro-fala-a-veja-com-quase-cem-anos-ainda-raciocino/"><span style="font-weight: 400;">veteranos</span></a><span style="font-weight: 400;"> são mais do que necessários devido à responsabilidade que carregam consigo. “</span><i><span style="font-weight: 400;">Nunca subestime os velhos</span></i><span style="font-weight: 400;">” é o que Marta diz no fim do longa. Aqui, eles – personagens e elenco – não apenas não devem ser subestimados como merecem todos os aplausos por fazerem a ida ao cinema valer a pena.</span></p>
<div class="jetpack-video-wrapper"><iframe loading="lazy" title="Velhos Bandidos | Trailer Oficial" width="840" height="473" src="https://www.youtube.com/embed/FWIX2wi9nNU?feature=oembed" frameborder="0" allow="accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share" referrerpolicy="strict-origin-when-cross-origin" allowfullscreen></iframe></div>
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		<title>Sistema prisional no Oscar: o documentário brutal que mostra a realidade por trás dos muros das penitenciárias no Alabama</title>
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		<pubDate>Tue, 17 Mar 2026 13:00:07 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Cinema]]></category>
		<category><![CDATA[2025]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Mariana Bezerra  Qual a imagem que se tem de um presídio e da vivência dentro deles? Certamente não uma das melhores, nem das mais harmoniosas. Apesar do que parece óbvio, Alabama: Presos do sistema têm muito a dizer sobre esse contexto. A produção da HBO indicada ao Oscar 2026 na categoria de Melhor Documentário, mostra &#8230; <a href="http://personaunesp.com.br/critica-alabama-presos-do-sistema/" class="more-link">Continue lendo<span class="screen-reader-text"> "Sistema prisional no Oscar: o documentário brutal que mostra a realidade por trás dos muros das penitenciárias no Alabama"</span></a></p>
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										<content:encoded><![CDATA[<figure id="attachment_37081" aria-describedby="caption-attachment-37081" style="width: 800px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-medium wp-image-37081" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2026/03/image2-7-800x450.png" alt="Cena de Alabama: Presos do Sistema. Homens vestidos com uniformes brancos caminham em fila por um corredor ao ar livre cercado por grades e arame farpado, ao lado de um prédio carcerário." width="800" height="450" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2026/03/image2-7-800x450.png 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2026/03/image2-7-1024x576.png 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2026/03/image2-7-768x432.png 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2026/03/image2-7-1536x864.png 1536w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2026/03/image2-7-1200x675.png 1200w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2026/03/image2-7.png 1920w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 984px) 61vw, (max-width: 1362px) 45vw, 600px" /><figcaption id="caption-attachment-37081" class="wp-caption-text">“Como um jornalista pode ir para uma zona de guerra, mas não pode entrar em uma prisão nos Estados Unidos da América?” disse Melvin Ray, detento no Alabama, à documentarista (Foto: HBO Max)</figcaption></figure>
<p><b>Mariana Bezerra </b></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Qual a imagem que se tem de um presídio e da vivência dentro deles? Certamente não uma das melhores, nem das mais harmoniosas. Apesar do que parece óbvio, </span><i><span style="font-weight: 400;">Alabama: Presos do sistema </span></i><span style="font-weight: 400;">têm muito a dizer sobre esse contexto. A produção da </span><i><span style="font-weight: 400;">HBO</span></i><span style="font-weight: 400;"> indicada ao </span><a href="https://www.bbc.com/portuguese/articles/c3dmm1047ndo"><span style="font-weight: 400;">Oscar 2026</span></a><span style="font-weight: 400;"> na categoria de Melhor Documentário, mostra que a realidade é muito pior do que se possa imaginar. Nesse sentido, o longa se destaca por atravessar os muros – literalmente – ao manter contato direto com os presidiários através de aparelhos telefônicos comumente contrabandeados obtidas a partir de mais de seis anos de investigação a respeito do sistema carcerário do estado do Alabama, nos Estados Unidos.</span></p>
<p><span id="more-37078"></span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">O título traduzido carrega o posicionamento do longa: as pessoas privadas de liberdade no Alabama não estão presas a uma sentença, mas sim a um sistema, algo muito maior do que as 28 instituições estaduais. Essa ideia pode fazer sentido em muitos outros cenários carcerários, no entanto, o sistema desse estado é um dos mais polêmicos e mortais, considerado, inclusive, </span><a href="https://www.npr.org/2020/07/23/894830930/doj-alabama-prisons-for-men-are-unconstitutional-because-staff-abuse-inmates"><span style="font-weight: 400;">inconstitucional</span></a><span style="font-weight: 400;"> pelo</span> <span style="font-weight: 400;">Departamento de Justiça dos Estados Unidos devido às condições precárias e aos abusos de poder e violência por parte dos servidores. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Aqui se encontra o ponto chave do trabalho dos diretores Andrew Jarecki</span><span style="font-weight: 400;"> (</span><a href="https://www.gazetadopovo.com.br/cultura/serie-crimes-the-jinx-volta-desfecho-surpreendente/"><i><span style="font-weight: 400;">The Jinx</span></i></a><i><span style="font-weight: 400;">)</span></i><span style="font-weight: 400;"> e Charlotte Kaufman: se um </span><span style="font-weight: 400;">dos aspectos mais importantes da apuração jornalística é a fonte, o que fazer quando as histórias que estão sendo investigadas se passam dentro de um presídio? O que fazer quando apenas um lado consegue constantemente expor a sua versão na mídia tradicional e através das fontes oficiais? No início do longa, Jarecki demonstra dificuldades em acessar o cerne do problema e ter contato direto com os presidiários através de visitas regulares em virtude da extrema dificuldade de acesso da imprensa a esses lugares.</span></p>
<figure id="attachment_37079" aria-describedby="caption-attachment-37079" style="width: 800px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-medium wp-image-37079" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2026/03/image1-2-800x450.jpg" alt="Cena de Alabama: Presos do Sistema. Há um grupo de pessoas reunidas em uma manifestação. Elas seguram grandes retratos de diversos homens com expressões sérias em um fundo neutro. " width="800" height="450" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2026/03/image1-2-800x450.jpg 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2026/03/image1-2-1024x576.jpg 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2026/03/image1-2-768x432.jpg 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2026/03/image1-2-1536x864.jpg 1536w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2026/03/image1-2-1200x675.jpg 1200w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2026/03/image1-2.jpg 2000w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 984px) 61vw, (max-width: 1362px) 45vw, 600px" /><figcaption id="caption-attachment-37079" class="wp-caption-text">Os relatos dos detentos aliados as investigações paralelas dos criadores leva a exposição de casos de violência extrema, que não são isolados (Foto: HBO Max)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">Após o primeiro e </span><a href="https://youtu.be/vadQsrAHLSw?si=r3R2401oh38gBv5z&amp;t=27"><span style="font-weight: 400;">conturbado</span></a><span style="font-weight: 400;"> contato, um grupo de detentos ativistas decide pedir para que um projeto de denúncia se tornasse realidade. Assim, foi preciso pensar em algo diferente; sem câmeras profissionais, iluminação e microfones de alto nível, o conteúdo chega através de uma imagem de má qualidade, frequentemente comprometida pelo sinal de internet ou interrompida por visitas dos agentes carcerários. O amadorismo toma conta em função da necessidade, mas, no que diz respeito à condução das entrevistas e a edição do longa, o profissionalismo é muito bem executado a fim de apurar o necessário para que fosse estabelecida a tese central do documentário.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">É interessante perceber a movimentação das testemunhas – que são os câmeras e narradores ao mesmo tempo – em contribuir com a produção. É como se aquela fosse uma chance única de fazer algo inédito. Assim, surgem narrativas permeadas de violência e segredos. Além disso, as imagens mostram ambientes insalubres, extremamente lotados, homens doentes – inclusive adictos – e sem qualquer tratamento. São lugares onde a ressocialização parece não ter vez. Em alguns aspectos, lembram de </span><i><span style="font-weight: 400;">Carandiru </span></i><span style="font-weight: 400;">(2009), o filme brasileiro que retrata histórias e a </span><a href="https://youtu.be/9E8BpLo1D7g?si=UCf1YvNlrb-Hmovm"><span style="font-weight: 400;">chacina</span></a><span style="font-weight: 400;"> em uma rede prisional em São Paulo, inspirado em um livro de memórias do Dr. Drauzio Varella. São dois fatores compartilhados que evocam essa lembrança: a pessoalidade dos relatos e as cenas chocantes.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">O desenrolar do documentário acontece quase como um </span><i><span style="font-weight: 400;">thriller</span></i><span style="font-weight: 400;">. Enquanto as histórias vão chegando aos profissionais através das gravações, ligações e mensagens, o público vai tomando contato com alguns casos concretos de vítimas de violência dentro das prisões, além de conhecer de perto as </span><a href="https://youtu.be/RAo8xufzXVo?si=qHKpSjJMT1by3K-k&amp;t=126"><span style="font-weight: 400;">famílias</span></a><span style="font-weight: 400;"> que se unem por justiça. Além disso, a obra aborda o contexto político dos Estados Unidos e do Alabama no que diz respeito aos conflitos entre o governo estadual e o Departamento de Justiça. O primeiro condenou qualquer tipo de intervenção do órgão federal, pois afirmou que os problemas do Alabama deveriam ser solucionados internamente, daí o título original </span><i><span style="font-weight: 400;">The Alabama Solution</span></i><span style="font-weight: 400;">. </span></p>
<figure id="attachment_37080" aria-describedby="caption-attachment-37080" style="width: 800px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-medium wp-image-37080" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2026/03/image3-1-800x533.jpg" alt="Cena de Alabama: Presos do Sistema. Vários homens usando uniformes brancos estão posicionados em um campo gramado e dão as mãos, formando um grande círculo. No fundo, aparece árvores e o céu azul." width="800" height="533" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2026/03/image3-1-800x533.jpg 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2026/03/image3-1-768x512.jpg 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2026/03/image3-1.jpg 900w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 984px) 61vw, (max-width: 1362px) 45vw, 600px" /><figcaption id="caption-attachment-37080" class="wp-caption-text">Os principais narradores, Melvin Ray, Robert Earl e Raoul Paul foram transferidos e colocados em solitária durante a divulgação do filme (Foto: HBO Max)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">É claro que existem vítimas do outro lado da moeda, que sofreram algo que causou a prisão dos homens aos quais assistimos, no entanto, o </span><a href="https://personaunesp.com.br/pcc-poder-secreto-critica/"><span style="font-weight: 400;">documentário</span></a><span style="font-weight: 400;"> não chega nem perto e não tem a mínima intenção de inocentar nenhum dos detentos – e pressupor tal posicionamento seria de tamanha ignorância. O que importa para os envolvidos no projeto é a lei e o bem público. De um lado, os detentos cumprem a pena; a lei é seguida; de outro, a produção aponta que os criminosos estão perdendo não a liberdade, mas a dignidade. Diante dos casos letais de violência e negligência apresentados, é como se a pena de morte, legalizada nos Estados Unidos, ocupasse um papel não oficial no sistema.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Em entrevista, Kauffman afirmou que o estado gasta </span><a href="https://youtu.be/IuzYbR7Tn8c?si=WP2F_DqSmxIrTZVf&amp;t=335"><span style="font-weight: 400;">80 bilhões</span></a><span style="font-weight: 400;"> de dólares com a rede prisional. A co-diretora pontua que a população não sabe como esse dinheiro é investido e parte do princípio de que a transparência é essencial para determinar em que medida o sistema funciona ou prejudica ainda mais a sociedade. Nesse sentido, é construído um material sóbrio, informativo e que também provoca as mais variadas emoções em razão da progressão rítmica e temática realizada com maestria. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Quanto à corrida pelo Oscar, um dos principais concorrentes foi a </span><a href="https://www.cnnbrasil.com.br/entretenimento/a-vizinha-perfeita-conheca-historia-do-documentario-no-top-10-da-netflix/"><i><span style="font-weight: 400;">A vizinha Perfeita</span></i></a><span style="font-weight: 400;"> (2025), que também adota um estilo diferenciado: quase todo o documentário é composto por gravações de câmeras das roupas de policiais e de segurança. Entretanto, no fim a estatueta foi para </span><a href="https://youtu.be/pd2NuCDqlRI?si=Zt2MuWBcrPNj6eck&amp;t=49"><i><span style="font-weight: 400;">Mr. Nobody Against Putin</span></i></a> <span style="font-weight: 400;">(2025), que</span> <span style="font-weight: 400;">expõe a máquina de propaganda russa e a militarização das escolas do país. De qualquer forma, </span><i><span style="font-weight: 400;">The Alabama Solution </span></i><span style="font-weight: 400;">cumpre seu papel para além das telas, e ao alçar voos tão altos na temporada de premiações, segue instigando debates múltiplos.</span></p>
<div class="jetpack-video-wrapper"><iframe loading="lazy" title="The Perfect Neighbor | Official Trailer | Netflix" width="840" height="473" src="https://www.youtube.com/embed/fNp85HGJtoo?feature=oembed" frameborder="0" allow="accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share" referrerpolicy="strict-origin-when-cross-origin" allowfullscreen></iframe></div>
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		<title>Na pele de Marjorie Estiano, Ângela Diniz não pede para ser amada, mas exige liberdade – assim como todas as mulheres</title>
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		<pubDate>Wed, 25 Feb 2026 13:00:59 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p>Mariana Bezerra O final de 2025 foi marcado por um clima de luto. Enquanto as festividades se aproximavam, as histórias de alguns nomes femininos começaram a ocupar as redes sociais e ganharam mais tempo de audiência nos jornais. Infelizmente, os comentários e matérias não se tratavam do sucesso profissional dessas mulheres, ou de alguma história &#8230; <a href="http://personaunesp.com.br/critica-angela-dinizassassinada-e-condenada/" class="more-link">Continue lendo<span class="screen-reader-text"> "Na pele de Marjorie Estiano, Ângela Diniz não pede para ser amada, mas exige liberdade – assim como todas as mulheres"</span></a></p>
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										<content:encoded><![CDATA[<figure id="attachment_36802" aria-describedby="caption-attachment-36802" style="width: 800px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-medium wp-image-36802" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2026/01/image1-3-800x450.jpg" alt="Cena de Ângela Diniz: Assassinada e Condenada. Ângela, uma mulher de pele clara aparece em ambiente externo, durante o dia. Ela tem cabelo castanho ondulado e solto. Ela sorri enquanto ergue um dos braços, parecendo estar dançando. Na outra mão, segura uma taça com Champagne. Usa um vestido bege com listras brilhosas, sem mangas e com decote profundo, além de brincos grandes e um cordão. Ao fundo, há outras pessoas desfocadas e árvores e plantas que compõem a paisagem." width="800" height="450" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2026/01/image1-3-800x450.jpg 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2026/01/image1-3-1024x576.jpg 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2026/01/image1-3-768x432.jpg 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2026/01/image1-3-1200x675.jpg 1200w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2026/01/image1-3.jpg 1280w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 984px) 61vw, (max-width: 1362px) 45vw, 600px" /><figcaption id="caption-attachment-36802" class="wp-caption-text">A série foi inspirada na história de Ângela Diniz, a socialite a frente de seu tempo vítima de feminicídio (Fonte: HBO Max)</figcaption></figure>
<p><b>Mariana Bezerra</b></p>
<p><span style="font-weight: 400;">O final de 2025 foi marcado por um clima de luto. Enquanto as festividades se aproximavam, as histórias de alguns nomes femininos começaram a ocupar as redes sociais e ganharam mais tempo de audiência nos jornais. Infelizmente, os comentários e matérias não se tratavam do sucesso profissional dessas mulheres, ou de alguma história curiosa ou cativante de suas vidas; não ouvimos sobre o brilho delas ou sobre suas paixões. Isso só foi ouvido depois, e das bocas dos amigos e familiares que, em busca de justiça, relembram a coragem, os sorrisos e sonhos daquelas mulheres que tiveram as vidas roubadas pelo </span><a href="https://g1.globo.com/jornal-nacional/noticia/2025/12/01/brasil-tem-mais-de-mil-casos-de-feminicidio-registrados-em-2025.ghtml"><span style="font-weight: 400;">feminicídio</span></a><span style="font-weight: 400;">.</span></p>
<p><span id="more-36801"></span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">No mesmo período, estreou</span><i><span style="font-weight: 400;"> Ângela Diniz: Assassinada e Condenada</span></i><span style="font-weight: 400;">. A série retrata a história da </span><i><span style="font-weight: 400;">socialite</span></i><span style="font-weight: 400;"> brasileira conhecida como ‘A Pantera de Minas’, que nos anos 1970 ocupava os tabloides com narrativas sobre a sua beleza avassaladora e seu jeito livre de ser. A produção é baseada no podcast </span><a href="https://radionovelo.com.br/originais/praiadosossos/"><i><span style="font-weight: 400;">Praia dos Ossos</span></i></a><span style="font-weight: 400;">, da Rádio Novelo, cujo título carrega o nome do local onde o brilho de Ângela (Marjorie Estiano) chegou ao fim. Em 30 de dezembro de 1976, ela foi assassinada pelo namorado Raul Fernando do Amaral Street (Emílio Dantas) com quatro tiros na Praia do Ossos, na Armação de Búzios, no Rio de Janeiro. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">A Pantera teve sua história interrompida pela maldade e possessividade do companheiro, mas, ainda que não parecesse ter consciência disso, construiu um legado eterno; a lembrança de sua figura irreverente foi marcante no julgamento do crime: mais determinado a condená-la por seu estilo de vida do que em punir de forma efetiva o seu assassino. Sem metáforas ou eufemismos: em um tribunal cujo juiz era homem, os advogados eram homens e a maior parte do júri também, a defesa, baseado na legislação da época, afirmou que Doca matou Ângela em um ato de </span><a href="https://noticias.stf.jus.br/postsnoticias/tese-da-legitima-defesa-da-honra-e-inconstitucional/"><span style="font-weight: 400;">legítima defesa de sua honra</span></a><span style="font-weight: 400;">, como se ela fosse a verdadeira culpada.</span></p>
<figure id="attachment_36804" aria-describedby="caption-attachment-36804" style="width: 800px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-medium wp-image-36804" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2026/01/image3-4-800x450.jpg" alt="Cena de Ângela Diniz: Assassinada e condenada. Ângela, uma mulher de pele clara está próxima a uma porta azul. Ela tem cabelo castanho escuro, veste um biquíni e apresenta uma expressão tensa, olhando para um homem à sua frente. Doca, de costas para a câmera, tem cabelo escuro e veste uma camisa marrom escuro. O cenário inclui alguns móveis e objetos ao fundo." width="800" height="450" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2026/01/image3-4-800x450.jpg 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2026/01/image3-4-1024x576.jpg 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2026/01/image3-4-768x432.jpg 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2026/01/image3-4-1536x864.jpg 1536w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2026/01/image3-4-1200x675.jpg 1200w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2026/01/image3-4.jpg 1920w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 984px) 61vw, (max-width: 1362px) 45vw, 600px" /><figcaption id="caption-attachment-36804" class="wp-caption-text">O roteiro faz um bom trabalho ao criar uma narrativa completa sobre a relação violenta de Ângela e seu assassino, afim de esclarecer a sequência de abusos que termina em tragédia (Fonte: HBO Max)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">Cinco décadas depois, pensando com otimismo, era de se esperar que a série ressoasse como um olhar ao passado, uma lembrança do que não se pode repetir. No entanto, o luto e a revolta que ainda levam milhares de mulheres às ruas, especialmente nos últimos meses de 2025, mostraram que a misoginia enfrentada por Ângela – ainda em vida e após a sua morte – segue mais viva do que nunca. Diante disso, a pertinência da produção seria suficiente para instigar os espectadores, contudo, além disso, de antemão, o elenco da obra agregou um grande valor a ela. Mais uma vez, Marjorie Estiano entrega uma performance da mais alta qualidade, acompanhada de nomes como Emílio Dantas, </span><a href="https://www.cnnbrasil.com.br/entretenimento/foi-dificil-dormir-a-noite-diz-atriz-de-angela-diniz/"><span style="font-weight: 400;">Camila Mardila</span></a><span style="font-weight: 400;">, Renata Gaspar, Thiago Lacerda e Antônio Fagundes. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">A série, dividida em 6 episódios, é absolutamente honesta, não deixa nada de fora; as polêmicas, as atitudes intempestivas, as festas, os casos, o divórcio e a sede por diversão e liberdade de Ângela. Ao fazer isso, o roteiro de Elena Soárez, Pedro Perazzo e Thais Tavares e a direção de Andrucha Waddington – que dirigiu Marjorie no filme </span><i><span style="font-weight: 400;">Sob Pressão</span></i><span style="font-weight: 400;"> (2016) – constroem uma narrativa extremamente coerente, que nos fazem compreender todo o contexto que tornava a protagonista </span><i><span style="font-weight: 400;">persona non grata</span></i><span style="font-weight: 400;"> no imaginário social coletivo </span><a href="https://youtu.be/UIA2V7W8a3c?si=4D9sLtqtbmF9V0Z9&amp;t=136"><span style="font-weight: 400;">conservador</span></a><span style="font-weight: 400;"> e tradicional da época. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Logo no primeiro episódio, </span><i><span style="font-weight: 400;">Quero Me Separar</span></i><span style="font-weight: 400;">, é retratado o divorcio da protagonista, que representou uma significativa ruptura dos padrões da época. Para Ângela, não era importante manter as aparências, mas sim ser genuinamente feliz, e é claro que ela pagou as consequências emocionais e sociais pelo pensamento à frente de seu tempo. Nesse sentido, a ambientação e as discussões trazidas foram delicadamente pensadas para construírem a atmosfera do período e a complexidade de Ângela, sem deixar que a sua imagem caísse no discurso estereotipado que assassina repetidamente as vítimas de violência de </span><a href="https://personaunesp.com.br/maid-critica/#google_vignette"><span style="font-weight: 400;">gênero</span></a><span style="font-weight: 400;"> mesmo após a sua morte.</span></p>
<figure id="attachment_36805" aria-describedby="caption-attachment-36805" style="width: 800px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-medium wp-image-36805" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2026/01/image4-800x390.jpg" alt="Cena de Ângela Diniz: Assassinada e Condenada. Duas mulheres estão em um ambiente interno bem iluminado, com quadros pendurados na parede ao fundo. À esquerda, Ângela, uma mulher de pele clara e cabelo castanho ondulado preso lê um livro, olhando para baixo. Ela usa um vestido azul-marinho sem mangas. À direita, um pouco mais ao fundo, outra mulher de pele clara e cabelos castanhos curtos observa a leitura. Ela usa óculos e veste uma camisa clara com um colete em tons de vermelho e laranja. No fundo, aparece uma parede branca com quadros pendurados. " width="800" height="390" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2026/01/image4-800x390.jpg 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2026/01/image4-1024x500.jpg 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2026/01/image4-768x375.jpg 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2026/01/image4.jpg 1178w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 984px) 61vw, (max-width: 1362px) 45vw, 600px" /><figcaption id="caption-attachment-36805" class="wp-caption-text">Renata Gaspar interpreta Gilda Ribeiro, uma amiga de Ângela, intelectual e feminista, que representa a diferenca entre uma suposta imagem militante com a verdadeira figura da protagonista (Fonte: HBO Max)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">Ela era livre, e também era uma mãe, filha e amiga apaixonada; ela era tudo isso, e, ao mesmo tempo, também era intempestiva e, pode ser vista como insensível pelas esposas dos homens casados com os quais se envolveu. Era independente, no entanto, também foi refém de uma relação essencialmente abusiva. Ângela é uma revolução, que vivia sua sexualidade livremente, como queria e com quem queria, mas não era uma </span><a href="https://elle.com.br/cultura/marjorie-estiano-angela-diniz"><span style="font-weight: 400;">feminista</span></a><span style="font-weight: 400;"> convicta, não se importava com a teoria, ou com as intelectuais que discutiam o porque mulheres como ela mesma podiam viver como viviam. Apenas queria viver conforme desejasse.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">A genialidade do roteiro, diga-se de passagem, é acompanhada de uma curadoria musical feita a dedo, que embala a narrativa assertivamente. Além disso, o figurino (</span><a href="https://www.imdb.com/name/nm1315505/?ref_=ttfc_fcr_10_1"><span style="font-weight: 400;">Marcelo Pies</span></a><span style="font-weight: 400;">) também merece destaque. Desde o glamour das festas no Rio de Janeiro até a funebridade do julgamento de Doca – ou de Ângela. Tudo colabora para que essa seja uma produção primorosa e quase resolutiva para a protagonista e para todas as mulheres: criou-se uma imagem poderosa e repleta de camadas para a personagem de Marjorie, contudo, nunca pejorativa, e ainda, sem se dar ao trabalho de forjar uma figura imaculada. O que </span><i><span style="font-weight: 400;">Ângela Diniz: Assassinada e Condenada</span></i><span style="font-weight: 400;"> diz, ou melhor, grita tão alto quanto as vítimas de violência é: por que a sua régua moral determina se eu </span><a href="https://auniao.pb.gov.br/noticias/colunistas/sandra-raquew-azevedo/estereotipo-e-feminicidio"><span style="font-weight: 400;">merecia</span></a><span style="font-weight: 400;"> morrer ou não?</span></p>
<figure id="attachment_36803" aria-describedby="caption-attachment-36803" style="width: 800px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-medium wp-image-36803" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2026/01/image2-3-800x539.jpg" alt="Cena de Ângela Diniz: Assassinada e Condenada. Grupo de mulheres reunidas em protesto em frente a um prédio com colunas. Ao fundo, uma grande faixa com os dizeres &quot;Quem ama não mata&quot;. No centro, uma mulher abraça outra emocionada. Algumas manifestantes aplaudem e uma segura um cartaz escrito ‘Eu não quero ser a próxima’ em vermelho." width="800" height="539" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2026/01/image2-3-800x539.jpg 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2026/01/image2-3-1024x690.jpg 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2026/01/image2-3-768x518.jpg 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2026/01/image2-3.jpg 1080w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 984px) 61vw, (max-width: 1362px) 45vw, 600px" /><figcaption id="caption-attachment-36803" class="wp-caption-text">A série recria cenas de protestos organizados nos anos 1980 (Fonte: HBO Max)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">Quando Doca Street saiu do Tribunal de Cabo Frio após o primeiro julgamento em 1979, o fez como um homem livre, pois já havia cumprido um terço da pena decretada pelo juiz. Cinco anos depois, o Ministério Público recorreu e Doca e o novo </span><span style="font-weight: 400;">veredicto</span><span style="font-weight: 400;"> foi uma pena de 15 anos que foi cumprida em sua totalidade. Nessa época, o movimento feminista, fortemente atuando e em processo de organização, foi essencial para essa decisão. Elas carregavam o lema “</span><a href="https://catarinas.info/quem-ama-nao-mata-40-anos-de-luta/"><i><span style="font-weight: 400;">Quem ama, não mata</span></i></a><span style="font-weight: 400;">”, uma referência à tese jurídica do crime passional. Na série, Camila Márdila e Renata Gaspar entregam performances emocionantes, carregadas de dor e revolta, como amigas de Ângela que estariam à frente de manifestações. </span></p>
<p><i><span style="font-weight: 400;">Angela Diniz: Assassinada e Condenada</span></i><span style="font-weight: 400;"> – e os boletins de ocorrência brasileiros – escancaram que, na realidade em que vivemos, toda e qualquer mulher pode ser considerada merecedora de sofrimento e que não há nenhuma tentativa de rendição aos padrões que possa salvá-la. </span><a href="https://personaunesp.com.br/capitu-e-o-capitulo-critica/#google_vignette"><span style="font-weight: 400;">Machado de Assis</span></a><span style="font-weight: 400;">, em 1899, no clássico </span><i><span style="font-weight: 400;">Dom Casmurro</span></i><span style="font-weight: 400;">, já nos alertava sobre isso: em uma história narrada por homens, é fácil criar a imagem da “</span><i><span style="font-weight: 400;">cigana dos olhos de ressaca</span></i><span style="font-weight: 400;">”. Ou seja, é urgente celebrar a liberdade, parar de tentar justificar o injustificável e tomar as rédeas do ponto de vista.</span></p>
<div class="jetpack-video-wrapper"><iframe loading="lazy" title="Ângela Diniz: Assassinada e Condenada | Trailer | Nova Série | HBO Max" width="840" height="473" src="https://www.youtube.com/embed/3AUUI4sejs8?feature=oembed" frameborder="0" allow="accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share" referrerpolicy="strict-origin-when-cross-origin" allowfullscreen></iframe></div>
<p>O post <a href="http://personaunesp.com.br/critica-angela-dinizassassinada-e-condenada/">Na pele de Marjorie Estiano, Ângela Diniz não pede para ser amada, mas exige liberdade – assim como todas as mulheres</a> apareceu primeiro em <a href="http://personaunesp.com.br">Persona | Jornalismo Cultural</a>.</p>
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		<title>Jogar a obra prima de Brontë na fogueira foi só o início, a ‘não adaptação’ de Emerald Fennell entrega quase nada além da estética</title>
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		<pubDate>Tue, 17 Feb 2026 13:00:38 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p>Aviso: O texto contém spoilers Mariana Bezerra O novo filme de Emerald Fennell, diretora de Saltburn (2023) e Bela Vingança (2020), provocou agitação nas redes sociais desde o primeiro anúncio. Inspirado no homônimo clássico da literatura inglesa de Emily Brontë, publicado em 1847, o nome na direção gerou estranheza, afinal, a diretora é conhecida pela &#8230; <a href="http://personaunesp.com.br/critica-o-morro-dos-ventos-uivantes/" class="more-link">Continue lendo<span class="screen-reader-text"> "Jogar a obra prima de Brontë na fogueira foi só o início, a ‘não adaptação’ de Emerald Fennell entrega quase nada além da estética"</span></a></p>
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]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p><b><i>Aviso: </i></b><i><span style="font-weight: 400;">O texto contém spoilers</span></i></p>
<figure id="attachment_36914" aria-describedby="caption-attachment-36914" style="width: 800px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-medium wp-image-36914" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2026/02/image3-1-800x450.jpg" alt="Cena de “O Morro dos Ventos Uivantes” Heathcliff, um homem branco de roupa preta de época, encosta-se à parede segurando uma bengala e olha para o lado. Ao seu lado, Catherine, uma mulher branca e loira, atravessa a porta usando um vestido volumoso vermelho brilhante com mangas brancas bufantes. O ambiente é o interior de uma casa com portas brancas e paredes brancas." width="800" height="450" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2026/02/image3-1-800x450.jpg 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2026/02/image3-1-1024x576.jpg 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2026/02/image3-1-768x432.jpg 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2026/02/image3-1-1536x864.jpg 1536w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2026/02/image3-1-1200x675.jpg 1200w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2026/02/image3-1.jpg 1999w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 984px) 61vw, (max-width: 1362px) 45vw, 600px" /><figcaption id="caption-attachment-36914" class="wp-caption-text">Em “O Morro dos Ventos Uivantes”, Emerald Fennell se aproveita de parcerias anteriores, tanto em cena, como nos bastidores (Foto: Warner Bros)</figcaption></figure>
<p><b>Mariana Bezerra</b></p>
<p><span style="font-weight: 400;">O novo filme de Emerald Fennell, diretora de </span><i><span style="font-weight: 400;">Saltburn</span></i><span style="font-weight: 400;"> (2023) e </span><a href="https://personaunesp.com.br/bela-vinganca-critica/"><i><span style="font-weight: 400;">Bela Vingança</span></i></a><span style="font-weight: 400;"> (2020), provocou agitação nas redes sociais desde o primeiro anúncio. Inspirado no homônimo clássico da literatura inglesa de Emily </span><span style="font-weight: 400;">Brontë</span><span style="font-weight: 400;">, publicado em 1847, o nome na direção gerou estranheza, afinal, a diretora é conhecida pela estética e erotismo extravagantes, que pouco conversam – ao menos à primeira vista – com o estilo gótico do livro. No entanto, foi o anúncio do elenco que aqueceu o debate: Jacob Elordi foi escalado para interpretar Heathcliff, um personagem descrito como não branco – cuja etnia é incerta – e a sua cor e origem são motivos de uma série de abusos, que o tornaram um homem cruel e violento.</span></p>
<p><span id="more-36917"></span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">A diretora e roteirista explicou que o longa não era de fato uma adaptação, mas a sua interpretação da história, o que poderia explicar as </span><a href="https://youtube.com/shorts/BoWcFhRMQAE?si=mhC_tLd7OXuJHDHL"><span style="font-weight: 400;">aspas</span></a><span style="font-weight: 400;"> no título. No entanto, o recurso gramatical nesse caso não funciona como algo sofisticado e respeitoso à obra original, e sim como uma estratégia defensiva. Ela parece justificar o esvaziamento do filme diante das mudanças no enredo, que não servem para facilitar a sua adaptação, por exemplo, e sim reduzir discussões centrais de uma narrativa extremamente potente. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">A primeira parte do longa, assim como a do livro, é voltada para a infância dos protagonistas Heathcliff (</span><a href="https://personaunesp.com.br/critica-adolescencia/"><span style="font-weight: 400;">Owen Cooper</span></a><span style="font-weight: 400;">) – que não possui sobrenome – e Catherine Earnshaw (Charlotte Mellington), que dividem a infância no Morro dos Ventos Uivantes. Apesar de ela ser a filha do dono da casa e ele, um empregado, ambos desenvolvem um forte laço de amizade e afeto fortalecido pelo sentimento de proteção nutrido diante das violências, sofridas por ambos, de formas distintas, e pelo clima hostil desse ambiente marcado por tons agressivos, abuso de álcool e problemas financeiros.</span></p>
<figure id="attachment_36916" aria-describedby="caption-attachment-36916" style="width: 800px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-medium wp-image-36916" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2026/02/image4-2-800x450.png" alt="Cena de “O Morro dos Ventos Uivantes”. A versão infantil de Catherine, uma jovem loira observa Heathcliff preocupada. O garoto está deitado de lado na cama, com a face avermelhada, chorando. Ambos vestem roupas simples de época, e o fundo da cena é pouco iluminado." width="800" height="450" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2026/02/image4-2-800x450.png 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2026/02/image4-2-1024x576.png 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2026/02/image4-2-768x432.png 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2026/02/image4-2-1536x864.png 1536w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2026/02/image4-2-1200x675.png 1200w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2026/02/image4-2.png 1999w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 984px) 61vw, (max-width: 1362px) 45vw, 600px" /><figcaption id="caption-attachment-36916" class="wp-caption-text">Apesar da personalidade problemática da menina, as crianças compartilham entre si um refúgio emocional e afetivo (Foto: Warner Bros)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">Em ambas as obras, a união entre os dois, durante a infância e a adolescência, não anula o caráter mimado e egoísta de Catherine, cujas versões adolescente e adulta são interpretadas por </span><a href="https://personaunesp.com.br/eu-tonya-5-anos-critica/"><span style="font-weight: 400;">Margot Robbie</span></a><span style="font-weight: 400;">. Seu jeito caprichoso coloca em evidência a posição de inferioridade do companheiro e o desejo dela de ascender socialmente e garantir um maior status social, que claramente não seria atingido com o homem que desejava. Nesse cenário, a cenografia (Suzie Davies) e os figurinos (Jacqueline Durran) são fiéis à época, a iluminação é baixa, não há nada de alarmante. Diante disso, no início do filme, Fennell imprimiu o seu DNA através do erotismo: alimentos e movimentos sugestivos entram em jogo, acompanhados de uma cena de masturbação e uma tensão sexual entre os protagonistas. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Nesse primeiro momento, há sim uma discussão interessante sobre classe, algo que a roteirista havia feito anteriormente em </span><i><span style="font-weight: 400;">Saltburn</span></i><span style="font-weight: 400;">, uma outra parceria entre ela, Elordi e Robbie, a qual atua na produção. Além disso, o afeto entre os protagonistas gera empatia no espectador e, inclusive, o </span><a href="https://youtu.be/WD3vluuGIiA?si=KiRxDu0m8PUl8FfB"><span style="font-weight: 400;">tom sexual</span></a><span style="font-weight: 400;"> cai muito bem à narrativa original, carregada de tensões e provocações – em que nada erótico é citado explicitamente. No entanto, as mudanças adotadas para a primeira parte começam a cobrar o seu preço a partir do momento em que os novos personagens, Edgar (Shazad Latif) e Isabella (Alison Oliver), entram em cena. Ele, um homem sem origem nobre, que fez fortuna no ramo dos tecidos; ela, sua pupila, e possivelmente irmã, o que no filme não fica claro. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Insatisfeita com a indiferença dos novos vizinhos, a jovem mulher interpretada por Robbie vai até a Granja dos Tordos, desafiando as normas impostas a uma dama, e encanta Edgar, que a pede em casamento. Nesse momento, há um contraste gritante entre o novo cenário, marcado por tecidos marcantes, cores intensas e elementos absurdos, quase psicodélicos, no estilo </span><a href="https://personaunesp.com.br/15-anos-de-alice-no-pais-das-maravilhas-critica/"><i><span style="font-weight: 400;">Alice no País das Maravilhas</span></i></a> <span style="font-weight: 400;">(2010)</span><i><span style="font-weight: 400;">, </span></i><span style="font-weight: 400;">à exemplo de um morango gigante e uma casa de bonecas aos moldes da granja.</span></p>
<figure id="attachment_36913" aria-describedby="caption-attachment-36913" style="width: 800px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-medium wp-image-36913" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2026/02/image2-3-800x533.jpg" alt="Cena de “O Morro dos Ventos Uivantes”. À esquerda, Catherine, uma mulher de pele clara e cabelo loiro preso usa vestido branco volumoso com mangas bufantes e óculos de lentes vermelhas. À direita, um homem de pele mais escura, cabelo e bigode castanhos veste terno bege com detalhes dourados, colete e cartola. Eles seguram taças que contém um líquido azul. Ao fundo, a decoração é composta por fios de pérolas sobre parede azul. Na mesa à frente deles, há uma espécie de caranguejo servido em um recipiente de vidro." width="800" height="533" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2026/02/image2-3-800x533.jpg 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2026/02/image2-3-1024x682.jpg 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2026/02/image2-3-768x512.jpg 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2026/02/image2-3-1536x1024.jpg 1536w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2026/02/image2-3-1200x800.jpg 1200w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2026/02/image2-3.jpg 2000w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 984px) 61vw, (max-width: 1362px) 45vw, 600px" /><figcaption id="caption-attachment-36913" class="wp-caption-text">A estética não fidedigna à época é o menor dos problemas do filme, se não a sua maior qualidade (Foto: Warner Bros)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">Apesar da inadequação à época, os figurinos (incluindo um de plástico) e a direção de arte, de Suzie Davies, são um deleite para os olhos. Além disso, a trilha sonora, também fora da caixa, assinada por Anthony Willis, e composta por músicas originais de </span><a href="https://youtube.com/playlist?list=OLAK5uy_lT54f3kMlnn8x7ijp7HeWwatHtFkjIX60&amp;si=aSN55qpFbkw2YBtR"><span style="font-weight: 400;">Charli XCX</span></a><span style="font-weight: 400;"> figura uma escolha interessante, que orna bem com o contraste envolvente. Além disso, a cinematografia (Linus Sandgren) também é um destaque, que, em um primeiro momento capta os sentimentos intensos e o estado emocional dos personagens.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Quando Heathcliff retorna após um período de fuga e distanciamento diante da notícia do casamento, ele parece um novo homem: rico, debochado e perverso, um perfil que destoa muito do homem bruto, porém sensível visto no início, graças a performance precisa de </span><a href="https://personaunesp.com.br/frankenstein-critica/"><span style="font-weight: 400;">Elordi</span></a><span style="font-weight: 400;"> e, novamente, a caracterização impecável. O roteiro (Emerald Fennell) não explora a dimensão da humilhação e do aniquilamento social sofrido por Heathcliff e reduz a sua crueldade à dinâmica de um relacionamento tóxico.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">O protagonista se casa com Isabella apenas para atormentar Catherine, e os abusos psicológicos e sexuais são fetichizados com um ar de </span><a href="https://brasil.elpais.com/brasil/2015/02/13/opinion/1423857401_027273.html"><i><span style="font-weight: 400;">50 Tons de Cinza</span></i></a><span style="font-weight: 400;"> (2015). É ultrajante que Fennell tenha transformado Isabella em uma caricatura estereotipada de uma mulher irritante, enquanto, na visão de </span><span style="font-weight: 400;">Brontë</span><span style="font-weight: 400;">, no século XIX, ela, apesar de ingênua no início, é destemida a ponto de fugir para criar sozinha o filho do seu marido violento. Aqui, isso não é complexo; é cruel.</span></p>
<figure id="attachment_36915" aria-describedby="caption-attachment-36915" style="width: 800px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-medium wp-image-36915" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2026/02/image1-6-800x432.png" alt="Cena de “O Morro dos Ventos Uivantes”. Isabella, uma mulher de pele clara e cabelos escuros, usa um vestido claro com mangas bufantes e detalhes dourados. Ela está inclinada para frente, apoiada nas mãos e mantém a boca aberta, língua para fora e os olhos voltados para cima. Além disso, há um uma espécie de coleira de ferro em seu pescoço. A iluminação é baixa no fundo e aparecem apenas um barril e algumas garrafas de vidro empilhadas no chão." width="800" height="432" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2026/02/image1-6-800x432.png 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2026/02/image1-6-768x415.png 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2026/02/image1-6.png 1000w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 984px) 61vw, (max-width: 1362px) 45vw, 600px" /><figcaption id="caption-attachment-36915" class="wp-caption-text">A diretora afirma que a nova versão tem muito dos diálogos do clássico, mas nesse caso eles possuem pouco efeito diante da banalização generalizada da trama (Foto: Warner Bros)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">Apesar da improbabilidade da combinação entre a diretora e a escritora, era de se esperar que a </span><a href="https://mubi.com/pt/cast/emerald-fennell"><span style="font-weight: 400;">cineasta</span></a><span style="font-weight: 400;"> conseguisse trabalhar a ambiguidade dos seres humanos, uma vez que, em </span><i><span style="font-weight: 400;">Bela Vingança</span></i><span style="font-weight: 400;"> apresentou uma personagem moralmente complicada. Infelizmente, Fennell almeja, de certa forma, inocentar o seu Heathcliff ao romantizar e justificar suas atitudes, além de não deixá-lo atingir o seu máximo potencial. Nessa supérflua toada romântica, é construído quase um arco de redenção, um apelo emocional, que cria uma armadilha barata para que os protagonistas sejam vistos mais como Romeu e Julieta, do que como os seres detestáveis que são – no filme e na obra original.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">O longa apresenta a figura de uma vilã na personagem de Nelly (Hong Chao), a dama de companhia de Cathy, que é usada por Fennell como uma peça desse xadrez maluco, que parece estar sempre interrompendo a felicidade da ama, ou mesmo desejando o seu mal, enquanto no livro, ela é uma narradora enviesada, que envolve seus julgamentos pessoais e preconceitos em seus relatos. No entanto, </span><a href="https://time.com/7373005/wuthering-heights-adaptations-differences-from-book/"><i><span style="font-weight: 400;">O Morro dos Ventos Uivantes</span></i></a><span style="font-weight: 400;"> nunca precisou de um vilão, pois a maldade e a discriminação sistemáticas para com uma crianca já é suficentemente cruel. Até porque, independente do desejo de Nelly, o casal não poderia ficar junto.</span></p>
<div class="jetpack-video-wrapper"><iframe loading="lazy" title="Emerald Fennell on directing &quot;Wuthering Heights&quot;, Promising Young Woman and *that* scene in Saltburn" width="840" height="473" src="https://www.youtube.com/embed/_tqqhcoQdeQ?feature=oembed" frameborder="0" allow="accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share" referrerpolicy="strict-origin-when-cross-origin" allowfullscreen></iframe></div>
<p><span style="font-weight: 400;">A diretora tem direito a liberdade criativa, evidentemente – e a ser julgada pelo trabalho que entregou. O problema é que foi entregue um material superficial. Ela insiste na construção de um grande romance sobre um terreno instável de uma história trágica. Não somente a do livro, mas também as partes dela presentes em seu roteiro. Fennell ignora as nuances da trama que escolheu contar e se perde na própria narrativa. Quanto a sua proposta revolucionária,</span> <span style="font-weight: 400;">as cenas de sexo, uma atrás da outra, na segunda parte do filme, não </span><a href="https://www.gq-magazine.co.uk/article/emerald-fennell-saltburn-interview-2023"><span style="font-weight: 400;">desafiam</span></a><span style="font-weight: 400;"> qualquer padrão e pouco acrescentam ao conflito central. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">O erotismo serve muito bem em outras produções como o próprio </span><i><span style="font-weight: 400;">Saltburn</span></i><span style="font-weight: 400;"> (2023), mas aqui é usado como uma forma de preencher lacunas. É possível fazer algo inovador com uma proposta coerente, como prova </span><a href="https://personaunesp.com.br/as-patricinhas-de-beverly-hills-25-anos-critica/"><i><span style="font-weight: 400;">As Patricinhas de Beverly Hills</span></i></a> <span style="font-weight: 400;">(1995)</span><i><span style="font-weight: 400;">, </span></i><span style="font-weight: 400;">inspirado em </span><i><span style="font-weight: 400;">Emma</span></i><span style="font-weight: 400;"> (1815), de Jane Austen. A cineasta explica que a obra de </span><span style="font-weight: 400;">Brontë</span><span style="font-weight: 400;"> não pode ser, de fato, adaptada. Não que seja fácil, mas para transmutar algo desse tipo para o cinema é preciso um mergulho profundo em seus labirintos morais. O que vemos aqui é a busca por atalhos fáceis, que pouco dizem respeito aos conflitos da existência humana.</span></p>
<div class="jetpack-video-wrapper"><iframe loading="lazy" title="&quot;O Morro Dos Ventos Uivantes&quot; l Trailer Oficial Dublado" width="840" height="473" src="https://www.youtube.com/embed/lW38pAKlzhU?feature=oembed" frameborder="0" allow="accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share" referrerpolicy="strict-origin-when-cross-origin" allowfullscreen></iframe></div>
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		<title>Persona Entrevista: Joscha Bongard</title>
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		<pubDate>Thu, 27 Nov 2025 13:00:30 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Cinema]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>O diretor alemão comentou sobre o processo de criação de seu novo filme Babystar em sua primeira vez no Brasil Mariana Bezerra  Quando se pensa em um longa sobre família, é possível que venha à mente uma imagem romântica e afetuosa de pessoas com laços parentescos vivendo em harmonia, ou, pelo menos, lidando com conflitos &#8230; <a href="http://personaunesp.com.br/persona-entrevista-joscha-bongard/" class="more-link">Continue lendo<span class="screen-reader-text"> "Persona Entrevista: Joscha Bongard"</span></a></p>
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]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p><span style="font-weight: 400;">O diretor alemão comentou sobre o processo de criação de seu novo filme </span><i><span style="font-weight: 400;">Babystar </span></i><span style="font-weight: 400;">em sua primeira vez no Brasil</span></p>
<figure id="attachment_36491" aria-describedby="caption-attachment-36491" style="width: 800px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-medium wp-image-36491" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2025/11/image4-5-800x450.jpg" alt="Card gráfico de entrevista em estilo editorial. No fundo, um padrão abstrato em tons de verde escuro e turquesa cria ondas fluidas que remetem a gravuras japonesas. À esquerda, aparece o logotipo em forma de olho e os textos “Persona Entrevista” e “49ª Mostra Internacional de Cinema – São Paulo Int’l Film Festival”. À direita, dentro de um enquadramento de bordas arredondadas, há o retrato de um homem branco de cabelos castanhos, que utiliza uma blusa branca e está segurando as mãos. Ele está sentado em uma poltrona vermelha e olha para frente." width="800" height="450" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2025/11/image4-5-800x450.jpg 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2025/11/image4-5-1024x576.jpg 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2025/11/image4-5-768x432.jpg 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2025/11/image4-5-1536x864.jpg 1536w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2025/11/image4-5-1200x675.jpg 1200w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2025/11/image4-5.jpg 1920w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 984px) 61vw, (max-width: 1362px) 45vw, 600px" /><figcaption id="caption-attachment-36491" class="wp-caption-text">Joscha veio para o Brasil para a divulgação do seu novo filme, que concorreu na categoria de Novos Diretores na 49ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo (Arte: Arthur Caires)</figcaption></figure>
<p><b>Mariana Bezerra </b></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Quando se pensa em um longa sobre família, é possível que venha à mente uma imagem romântica e afetuosa de pessoas com laços parentescos vivendo em harmonia, ou, pelo menos, lidando com conflitos que consideramos inerentes à vivência humana. No entanto, Joscha Bongard resolveu falar sobre essa temática em </span><a href="https://personaunesp.com.br/babystar-critica/"><i><span style="font-weight: 400;">Babystar</span></i></a><span style="font-weight: 400;"> (2025) sob uma outra perspectiva.</span></p>
<p><span id="more-36483"></span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">E se você tivesse nascido com pais influencers em uma realidade completamente exposta e voltada para o lucro? Quais outros dilemas podem surgir nesse cenário construído para atrair seguidores? Aqui, Joscha e Nicole Rüthers, co-roteirista, se aproveitaram da realidade na qual vivemos, em que as redes sociais, as câmeras e as </span><a href="https://www.bbc.com/portuguese/vert-fut-47625592"><span style="font-weight: 400;">‘vidas de aparências’</span></a><span style="font-weight: 400;"> tomaram um grande espaço para mergulhar em como isso poderia se manifestar em uma esfera mais íntima.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">O estreante no universo dos longas ficcionais parecia extasiado com a experiência de trazer a produção para a América Latina pela primeira vez, e por conhecer o nosso país. Ele compartilhou com o Persona o processo de criação da obra, que estreou na </span><a href="https://personaunesp.com.br/tag/49a-mostra-internacional-de-cinema-em-sao-paulo/"><span style="font-weight: 400;">49ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo</span></a><span style="font-weight: 400;"> e já percorreu outros festivais e cidades como </span><a href="https://tiff.net/films/babystar"><span style="font-weight: 400;">Toronto</span></a><span style="font-weight: 400;">, Berlim e Zurique. Apesar da universalidade do tema, o cineasta comentou que as reações fora da Europa e, especificamente, no Brasil, pareceram mais intensas. “</span><b><i>É muito interessante sempre ir ao cinema e ouvir as reações das pessoas, e isso é a melhor experiência que você pode ter com um filmador, porque nós fazemos filmes para as pessoas, e quando elas gostam de se relacionar com o filme, é uma coisa linda</i></b><span style="font-weight: 400;">”, afirma o diretor. </span></p>
<figure id="attachment_36485" aria-describedby="caption-attachment-36485" style="width: 800px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-medium wp-image-36485" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2025/11/image2-23-800x390.png" alt="Cena do filme Babystar: À esquerda, um homem de cabelo longo preso em um coque olha para uma tela. No centro, Luca, uma mulher branca e loira, de vestido vermelho amarrado ao pescoço, tira uma selfie com o celular, enquanto sua mãe, à direita, também branca e loira em um conjunto rosa, fotografa a cena com o celular. Todos estão sentados em uma mesa de jantar elegante, iluminada por luz amarela suave, com taças, guardanapos dobrados e cortinas de tons claros." width="800" height="390" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2025/11/image2-23-800x390.png 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2025/11/image2-23-1024x500.png 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2025/11/image2-23-768x375.png 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2025/11/image2-23-1536x750.png 1536w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2025/11/image2-23-1200x586.png 1200w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2025/11/image2-23.png 2000w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 984px) 61vw, (max-width: 1362px) 45vw, 600px" /><figcaption id="caption-attachment-36485" class="wp-caption-text">A narrativa de Babystar é centrada na relação familiar dos influenciadores (Foto: Lise Lotte Films)</figcaption></figure>
<p><b>Por que vocês decidiram que a família seria o centro e não apenas parte dessa narrativa?</b></p>
<p><b>Joscha Bongard: </b><span style="font-weight: 400;">“</span><i><span style="font-weight: 400;">Eu acho que é importante chegar ao cerne humano da história e encontrar coisas que muitas pessoas poderiam se conectar. Nós todos conhecemos famílias, porque todos crescemos em uma ou na ausência dela. Nós (eu e </span></i><a href="https://mubi.com/en/cast/nicole-ruthers"><i><span style="font-weight: 400;">Nicole</span></i></a><i><span style="font-weight: 400;">) queríamos mostrar essa dinâmica e queríamos que isso fosse o pano de fundo emocional dessa história</span></i><span style="font-weight: 400;">”</span><i><span style="font-weight: 400;">.</span></i></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Após a sessão do longa no Instituto Moreira Salles, Joscha cumprimentou a todos que se aproximavam para elogiar e comentar sobre o filme. Nem nesse momento, nem durante a entrevista, ele carregava a pompa de um diretor internacional em um festival de cinema, mas sim a gratidão de um </span><a href="https://personaunesp.com.br/persona-entrevista-lina-chamie/"><span style="font-weight: 400;">cineasta</span></a><span style="font-weight: 400;"> que parece estar se divertindo e aproveitando ao máximo essa jornada. </span></p>
<p><b>Há uma discussão muito forte no filme sobre a aparência dos personagens. No caso de Luca, a adolescente, ela chega a ser questionada sobre seu peso. Para as mulheres, a pressão estética se torna ainda maior. Como foi o processo de escrever sobre esses temas juntamente com uma mulher</b><span style="font-weight: 400;">?0</span></p>
<p><b>Joscha Bongard: </b><span style="font-weight: 400;">“</span><i><span style="font-weight: 400;">Nós chegamos a pensar em escrever o personagem principal como um menino, mas as mulheres são ainda mais julgadas e sexualizadas, e também vendem mais online. Então, desde o início foi importante escrever com uma mulher, porque eu tenho as minhas experiências e pensei que fosse importante escrever com alguém, já que como um homem, eu não sei todas as coisas que as mulheres sabem</span></i><span style="font-weight: 400;">”</span><i><span style="font-weight: 400;">.</span></i></p>
<p><span style="font-weight: 400;">De fato, essa foi uma decisão acertada; entre os problemas com os quais a protagonista lida, muitos deles estão associados a sua </span><a href="https://personaunesp.com.br/a-substancia-critica/"><span style="font-weight: 400;">imagem</span></a><span style="font-weight: 400;">, que é tão exposta e escancarada nas redes desde o início de sua vida. A partir dessa parceria entre a dupla, </span><i><span style="font-weight: 400;">Babystar</span></i><span style="font-weight: 400;"> constrói um retrato doloroso de assistir de uma jovem garota que está perdendo sua juventude e sacrificando a sua saúde mental pela atenção dos pais e sucesso nas redes sociais.</span></p>
<figure id="attachment_36484" aria-describedby="caption-attachment-36484" style="width: 800px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-medium wp-image-36484" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2025/11/image1-24-800x400.png" alt=" Lucas, uma menina branca de cabelos loiros aparece deitada de braços abertos em um chão vermelho. Ela veste uma camisa larga azul e amarela." width="800" height="400" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2025/11/image1-24-800x400.png 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2025/11/image1-24-1024x512.png 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2025/11/image1-24-768x384.png 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2025/11/image1-24.png 1200w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 984px) 61vw, (max-width: 1362px) 45vw, 600px" /><figcaption id="caption-attachment-36484" class="wp-caption-text">Luca (Maja Bons) encarna uma adolescente que cresceu em uma realidade de constante disputa da atenção dos pais com os seus seguidores (Foto: LIse Lotte Films)</figcaption></figure>
<p><b>Por que a personagem escolhida para confrontar esse sistema imposto por seus pais foi uma, especificamente, uma adolescente?</b></p>
<p><b>Joscha Bongard: </b><span style="font-weight: 400;">“</span><i><span style="font-weight: 400;">Se você está crescendo nessa família que é quase um culto, você não sabe realmente como seria ter uma vida normal. Se ela fosse mais nova, ela não pensaria tanto sobre esse sistema. Nós pensamos em duas possibilidades para o final; por um lado, é uma garota de 16 anos. Nós queríamos que ela saísse desse mundo e, para isso, ela precisaria ter uma determinada idade</span></i><span style="font-weight: 400;">”</span><i><span style="font-weight: 400;">.</span></i></p>
<p><b>A relação entre Luca e seus pais é muito delicada. O que vocês pensaram ao construir esses personagens: eles tinham noção sobre o quão destrutiva era a dinâmica entre eles?</b></p>
<p><b>Joscha Bongard</b><i><span style="font-weight: 400;">: </span></i><span style="font-weight: 400;">“</span><i><span style="font-weight: 400;">Nós sempre tentamos não mostrá-los como vilões, mas todo mundo que leu o roteiro os odiaram. Eu os amo. Você tem que amar os seus personagens. A vida deles os fez quem eles são. Claro que eles estão fazendo algo incorreto tirando vantagem da própria filha, mas acho que todo mundo tenta criar algo positivo e eu realmente penso que eles acreditam que criaram algo incrível. Eles conhecem uma vida anterior, porque antes não tinham muito dinheiro</span></i><span style="font-weight: 400;">”</span><i><span style="font-weight: 400;">. </span></i></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Durante a história, percebe-se que a questão </span><a href="https://istoedinheiro.com.br/a-responsabilidade-dos-influenciadores-por-tras-das-redes-sociais"><span style="font-weight: 400;">financeira</span></a><span style="font-weight: 400;"> era algo essencial para os pais de Luca, não apenas em se tratando de luxo ou ostentação. Os personagens fazem menções à vida antes do trabalho da internet e ressaltam como a filha nasceu em uma realidade privilegiada. </span></p>
<p><b>Anteriormente, você trabalhou com criadores de conteúdo do Youtube. Teve algo nessa experiência que o alarmou e o inspirou a fazer Babystar?</b></p>
<p><b>Joscha Bongard:</b><span style="font-weight: 400;"> “</span><i><span style="font-weight: 400;">O que me chamou atenção foi que todos eles eram muito novos e que todos eles tiveram um ótimo sustento disso (do trabalho com Youtube). É muito bom que as pessoas tenham essa chance de ascender socialmente e ganhar mais dinheiro do que poderiam normalmente. Mas, por outro lado, ser influenciador é um trabalho 24 horas por dia, 7 dias da semana. Tudo o que você vê e vive, tem que virar conteúdo. Eu penso que essa experiência foi essencial para Babystar e para Porninfluencer</span></i><span style="font-weight: 400;">”</span><i><span style="font-weight: 400;">. </span></i></p>
<p><i><span style="font-weight: 400;">Babystar</span></i><span style="font-weight: 400;"> veio a calhar muito bem no contexto sócio-político brasileiro, uma vez que o ano de 2025 foi marcado pela discussão da adultização de crianças e adolescentes nas redes sociais, o que abriu espaço para reflexão a respeito da exposição desses jovens, de maneira geral, nas mídias. Nesse sentido, o longa parece cada vez mais próximo da realidade. Até porque, como explica </span><a href="https://mubi.com/en/cast/joscha-bongard"><span style="font-weight: 400;">Bongard</span></a><span style="font-weight: 400;">, a obra surgiu a partir das cenas reais que observou.</span></p>
<figure id="attachment_36486" aria-describedby="caption-attachment-36486" style="width: 800px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-medium wp-image-36486" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2025/11/image3-11-800x678.jpg" alt="Joscha Bongard, um homem branco de cabelo escuro veste uma camisa preta. Ao seu lado, está uma mulher branca de cabelo escuro segurando um microfone. Eles estão em uma sala de cinema e ao fundo aparece a tela com a ilustração e logo da 49ª edição da Mostra." width="800" height="678" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2025/11/image3-11-800x678.jpg 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2025/11/image3-11-1024x868.jpg 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2025/11/image3-11-768x651.jpg 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2025/11/image3-11-1536x1302.jpg 1536w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2025/11/image3-11-1200x1018.jpg 1200w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2025/11/image3-11.jpg 1999w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 984px) 61vw, (max-width: 1362px) 45vw, 600px" /><figcaption id="caption-attachment-36486" class="wp-caption-text">Joscha Bongard no início da sessão de Babystar no Instituto Moreira Salles ( Foto: Mariana Bezerra)</figcaption></figure>
<p><b>Você percebeu diferentes reações ao filme nos lugares em que percorreu com esse filme?</b><span style="font-weight: 400;"> </span></p>
<p><b>Joscha Bongard: </b><span style="font-weight: 400;">“</span><i><span style="font-weight: 400;">Eu diria que a reação no Brasil foi incrível, e muitas pessoas gostaram. Claro, há sempre pessoas que podem não se relacionar com o filme. Diferentes pessoas têm diferentes visões, mas eu diria que, interessantemente, as reações europeias não são tão fortes do que fora da Europa, talvez porque nós usamos as redes sociais de maneiras diferentes do que nos EUA, ou no </span></i><a href="https://piaui.folha.uol.com.br/igualdades-redes-sociais-vicio-celular/"><i><span style="font-weight: 400;">Brasil</span></i></a><i><span style="font-weight: 400;">, ou no Canadá</span></i><span style="font-weight: 400;">”</span><i><span style="font-weight: 400;">.</span></i></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Após a última sessão de </span><i><span style="font-weight: 400;">Babystar</span></i><span style="font-weight: 400;"> no festival, o diretor estava do lado de fora da sala interagindo com o público e perguntou “</span><i><span style="font-weight: 400;">As pessoas riram? Cada sessão é muito diferente</span></i><span style="font-weight: 400;">”. É um questionamento interessante, uma vez que a produção é carregada de situações que apelam para o ridículo e se tornam extremamente constrangedoras, que a transformam em uma sátira. Ainda assim, esses elementos não são necessariamente óbvios e são percebidos de formas diferentes por cada espectador. </span></p>
<p><b>E como você vem lidando com o uso das redes sociais ultimamente?</b></p>
<p><b>Joscha Bongard: </b><span style="font-weight: 400;">“</span><i><span style="font-weight: 400;">Esse é um grande dilema, porque também dependo de promover o filme nas redes sociais. Mas, nos últimos anos tenho tentado ficar menos online, ler mais e focar mais em outras coisas. É claro que as redes sociais sempre foram algo muito importante na minha vida; conheci tantas pessoas nelas. No fim, apesar de achar que estamos em um momento muito ruim em relação a essas mídias, sempre há uma parte positiva. Sempre vai haver prós e contras</span></i><span style="font-weight: 400;">&#8220;.</span></p>
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		<title>Persona Entrevista: Ana Endara e Paulina García</title>
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		<pubDate>Tue, 25 Nov 2025 13:57:41 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Cinema]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Mariana Bezerra  Diante do lançamento de Querido Tropico no Brasil, a diretora panamenha Ana Endara e a atriz chilena Paulina García estavam reunidas para mais uma rodada de entrevistas a respeito do novo filme. Elas vêm percorrendo festivais de cinema e vários países para a divulgação do longa, que chegou a fazer parte da programação &#8230; <a href="http://personaunesp.com.br/persona-entrevista-ana-endara-e-paulina-garcia/" class="more-link">Continue lendo<span class="screen-reader-text"> "Persona Entrevista: Ana Endara e Paulina García"</span></a></p>
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										<content:encoded><![CDATA[<figure id="attachment_36458" aria-describedby="caption-attachment-36458" style="width: 800px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-medium wp-image-36458" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2025/11/image3-18-800x450.png" alt="À esquerda, sobre um fundo vermelho texturizado, está o texto &quot;Persona Entrevista&quot; em letras brancas, com um ícone de olho estilizado que contém um símbolo de play. Abaixo, em letras brancas maiores, lê-se &quot;Ana Endara e Paulina García&quot;. À direita, há uma fotografia de duas mulheres sorrindo em um evento de cinema. A mulher à esquerda tem cabelos curtos e grisalhos, usa óculos redondos e uma camisa bege. A mulher à direita, com cabelos curtos e grisalhos e um casaco preto, aponta para a outra mulher com a mão direita. Logotipos do TIFF (Toronto International Film Festival) são visíveis ao fundo da fotografia." width="800" height="450" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2025/11/image3-18-800x450.png 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2025/11/image3-18-1024x576.png 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2025/11/image3-18-768x432.png 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2025/11/image3-18-1536x864.png 1536w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2025/11/image3-18-1200x675.png 1200w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2025/11/image3-18.png 1920w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 984px) 61vw, (max-width: 1362px) 45vw, 600px" /><figcaption id="caption-attachment-36458" class="wp-caption-text">A atriz não conhecia a diretora antes do convite para o filme, mas logo embarcou no projeto quando assistiu a um dos documentários de Endara (Arte: Arthur Caires)</figcaption></figure>
<p><b>Mariana Bezerra </b></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Diante do lançamento de </span><i><span style="font-weight: 400;">Querido Tropico</span></i><span style="font-weight: 400;"> no Brasil, a diretora panamenha Ana Endara e a atriz chilena Paulina García estavam reunidas para mais uma rodada de entrevistas a respeito do novo filme. Elas vêm percorrendo festivais de cinema e vários países para a divulgação do longa, que chegou a fazer parte da programação do Festival do Rio em 2024 e do </span><a href="https://www.tiff.net/events/beloved-tropic"><span style="font-weight: 400;">Festival Internacional de Cinema de Toronto</span></a><span style="font-weight: 400;"> em 2025. Essa é a primeira vez que a diretora se arrisca na direção ficcional. </span></p>
<p><span id="more-36433"></span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Durante quase 20 anos, Endara construiu sua carreira explorando temáticas como identidade e pertencimento, especialmente, dentro da sociedade panamenha. Em </span><a href="https://letterboxd.com/film/curundu/"><i><span style="font-weight: 400;">Curundú</span></i> </a><span style="font-weight: 400;">(2007), ela adentrou em um bairro da Cidade do Panamá e capturou registros íntimos da população daquela região; anos depois, com </span><a href="https://anaendara.com/Reinas-Majesty"><i><span style="font-weight: 400;">Reinas</span></i></a><span style="font-weight: 400;"> (2014), continuou a explorar tradições da cultura panamenha, mas centrado o seu olhar na realidade feminina a partir do retrato de concursos de beleza tradicionais no país. Em 2025, a diretora decide mergulhar em um pouco de tudo o que já trabalhou, no entanto, ao invés de registrar o que já existe, decidiu criar uma história que expressa sentimentos e realidades tão palpáveis quanto em seus documentários.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Sua primeira obra de ficção, co-escrita por Pilar Moreno, e estrelada por Jenny Navarrete e Paulina García. A última é reconhecida internacionalmente por seus trabalhos no Teatro e no Cinema, à exemplo de </span><i><span style="font-weight: 400;">Narcos</span></i><span style="font-weight: 400;"> (2015) e </span><i><span style="font-weight: 400;">Glória </span></i><span style="font-weight: 400;">(2013), que lhe rendeu o </span><a href="https://brasil.elpais.com/brasil/2014/04/06/cultura/1396756408_303518.html"><span style="font-weight: 400;">Prêmio Platino de Melhor Atriz</span></a><span style="font-weight: 400;"> em 2014. Com Querido Trópico, ela assumiu um novo desafio: interpretar Mercedes, uma senhora chilena abastada que vive no Panamá e sofre de demência, enquanto Navarrete dá vida a Ana María, uma imigrante colombiana, supostamente grávida, que se torna cuidadora da personagem de García. Apesar das realidades distintas, a vulnerabilidade de ambas e a conexão entre as duas é o suficiente para criar uma relação de amizade e confiança.</span></p>
<figure id="attachment_36436" aria-describedby="caption-attachment-36436" style="width: 800px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-full wp-image-36436" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2025/11/image1-16.jpg" alt="Cena do filme Querido Trópico. Duas mulheres adultas estão lado a lado sob forte chuva. A mulher da direita é branca, de cabelos grisalhos, veste uma camiseta azul e está com os olhos fechados. Ao seu lado e com o rosto colado no seu, há uma mulher de tom de pele mais escuro e cabelos castanhos e veste uma camiseta bordô. Esta está sorrindo olhando para frente. As roupas de ambas estão encharcadas." width="800" height="500" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2025/11/image1-16.jpg 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2025/11/image1-16-768x480.jpg 768w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 984px) 61vw, (max-width: 1362px) 45vw, 600px" /><figcaption id="caption-attachment-36436" class="wp-caption-text">Jenny Navarrete e Paulina García revelam uma química impressionante e orgânica no filme (Foto: Filmes da Estação)</figcaption></figure>
<p><b>Como foi explorar esses temas tão delicados – imigração, condição feminina, maternidade, envelhecimento – mas agora dentro de uma ficção propriamente dita?</b></p>
<p><b>Ana Endara:</b> <span style="font-weight: 400;">“</span><i><span style="font-weight: 400;">A resposta simples seria: eu queria tentar algo diferente. Eu queria explorar esses temas sem sair pelo mundo procurando personagens que falassem sobre isso, mas escrevendo sobre eles; transformar a escrita em um exercício, transformar a filmagem e o trabalho com as atrizes em um exercício também. Então, sim, foi um exercício de sair da zona de conforto</span></i><span style="font-weight: 400;">”</span><i><span style="font-weight: 400;">. </span></i></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Ao assistir o filme, a sensação é que Ana decidiu se desafiar com esse projeto. No entanto, o fez sem deixar de lado as suas raízes como documentarista. A partir dos detalhes, é perceptível como a câmera se manifesta com um certo distanciamento, o que faz muito sentido nessa narrativa.</span></p>
<p><b>Este filme, Querido Trópico, tem passado por uma verdadeira jornada de distribuição. Qual foi o processo por trás desse percurso?</b></p>
<p><b>Ana Endara:</b> <span style="font-weight: 400;">“</span><i><span style="font-weight: 400;">O que posso dizer é que o filme foi visto em muitas culturas e países diferentes, e eu pude testemunhar como ele se comunica com todo mundo. Ele toca as pessoas, talvez de maneiras distintas, mas ressoa com públicos muito diversos e de lugares muito diferentes</span></i><span style="font-weight: 400;">”</span><i><span style="font-weight: 400;">. </span></i></p>
<p><b>O retrato que foi construído de Mercedes é muito sensível. Ela sofre diversos efeitos da doença, mas sua personalidade, ainda assim, transparece. Como foi esse processo de co-escrita com Pilar Moreno para criar todas essas camadas em torno da condição dela e garantir que sua personalidade pudesse emergir, apesar do que ela estava enfrentando?</b></p>
<p><b>Ana Endara: </b><span style="font-weight: 400;">“</span><i><span style="font-weight: 400;">Neste roteiro, em </span></i><b><i>Querido Trópico</i></b><i><span style="font-weight: 400;">, a colaboração de Pilar pode ser percebida mais fortemente nas personagens secundárias, como Cristina, Joana ou Jimena, que aparecem pouco em cena, mas com muita verdade. Eu diria que essa foi uma contribuição muito forte de Pilar. Já a personalidade de Mercedes e de Ana María, considero que foi mais um trabalho da Paulina e da Jenny, neste caso. </span></i></p>
<p><span style="font-weight: 400;">O texto traz, a todo tempo, a história e ligação entre as mulheres envolvidas na história, tanto as protagonistas como as coadjuvantes, como, por exemplo, a filha de Mercedes, Jimena. Nesse sentido, apesar do menor tempo de telas, essas personagens são partes importantes da narrativa, que lida, essencialmente, com dilemas fortemente ligados às mulheres como a maternidade e o trabalho de cuidado.</span></p>
<blockquote><p><i><span style="font-weight: 400;">“Havia algumas orientações no roteiro, mas lembro-me de conversarmos muito sobre o passado da personagem, sobre quem ela era antes: de onde vinha no Chile, como chegou ao Panamá. Falamos um pouco sobre isso, mas foi Paulina quem trouxe grande parte desse caldo para a história que estávamos construindo juntas. Tentávamos entender: por que uma mulher chilena estaria perdida no Panamá? E então tentávamos compreender o que restava nela do Chile e o que ela havia aprendido a amar do Panamá”</span></i></p></blockquote>
<p><span style="font-weight: 400;">Apesar de não se saber muito sobre o passado de Mercedes, ele é mencionado por ela de forma saudosista. Não é o suficiente para que compreendamos muito sobre aquela mulher, mas é uma forma de expandir, na tela, a sua personalidade, os seus desejos e uma breve lembrança de sua juventude.</span></p>
<blockquote><p><i><span style="font-weight: 400;">“Durante as filmagens, conversávamos todos os dias sobre as cenas que estávamos prestes a rodar, buscando movimentos internos diferentes para aperfeiçoar o trabalho diariamente. E foi isso que fizemos</span></i><span style="font-weight: 400;">”</span><i><span style="font-weight: 400;">, acrescenta a diretora.</span></i></p></blockquote>
<figure id="attachment_36437" aria-describedby="caption-attachment-36437" style="width: 800px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-medium wp-image-36437" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2025/11/image2-18-800x515.jpg" alt="Cena do filme Querido Trópico. Uma mulher mais velha, de cabelos presos e grisalho está usando brincos e um colar de pérola e um vestido de tons claros. Ela está diante de um bolo com velas acesas e está com as mãos erguidas como se estivesse cantando &quot;Parabéns&quot;. Ao fundo, há uma menina com cabelos escuros que observa a cena, levemente desfocada. " width="800" height="515" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2025/11/image2-18-800x515.jpg 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2025/11/image2-18-1024x660.jpg 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2025/11/image2-18-768x495.jpg 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2025/11/image2-18-1536x990.jpg 1536w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2025/11/image2-18-1200x773.jpg 1200w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2025/11/image2-18.jpg 1999w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 984px) 61vw, (max-width: 1362px) 45vw, 600px" /><figcaption id="caption-attachment-36437" class="wp-caption-text">Paulina recorreu à referências familiares para construir a sua personagem (Foto: Filmes da Estação)</figcaption></figure>
<p><b>A sua personagem comunica muito com os olhos. Nesse filme, a expressão e linguagem corporal parecem ainda mais significativas. Mercedes é uma mulher que está vivendo um momento tão delicado da vida, passando por todos esses desafios. Como você se preparou para essa interpretação?</b></p>
<p><b>Paulina García:</b> <span style="font-weight: 400;">“</span><i><span style="font-weight: 400;">Bem, eu também estou envelhecendo e tenho uma mãe que é muito idosa. Então, tive a oportunidade de observar o envelhecimento dela ao longo de todos esses anos e ela foi uma referência muito importante para que eu pudesse captar muitos pequenos detalhes, como na cena de aniversário, quando ela pula na cadeira, tão feliz por ser o dia do aniversário dela; ela quer comemorar com todos eles ali. Eu também tenho alguns amigos que estão passando por problemas mentais: grandes profissionais, atores, atrizes que acabaram entrando nesse processo, nessa doença. Então, eu tinha muitas referências diferentes”. </span></i></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Nesse sentido, é interessante pontuar que Querido Trópico se propõe a tratar, no que se refere a demência e ao envelhecimento, temas que, apesar de estarem ganhando notoriedade na sociedade e no Cinema, ainda são grandes tabus. Assim, Paulina assume uma posição de protagonista a partir de referências próximas, mas também reafirma o seu lugar como atriz idosa que confronta estereótipos, relacionados à idade, que muitas mulheres ainda enfrentam neste mercado.</span></p>
<blockquote><p><span style="font-weight: 400;">“</span><i><span style="font-weight: 400;">Conversando com Anna durante os ensaios, antes das filmagens, e depois, já no set. Ela deu esse tempo para mim e para a Jenny conversarmos sobre o que estávamos buscando e até onde poderíamos levar as emoções ou a expressão dessas emoções sem perder a verdade. É isso que todos os atores procuram o tempo todo: como sermos o mais verdadeiros possível e entender o que o enquadramento permite que a gente faça”.</span></i></p></blockquote>
<p><b>O que você pensou quando recebeu o roteiro e fez a primeira leitura? Como aconteceu sua conexão inicial com o projeto?</b></p>
<p><b>Paulina García: </b><span style="font-weight: 400;">“</span><i><span style="font-weight: 400;">Primeiro, Ana me enviou o roteiro, ou talvez tenha sido a Isabela, não me lembro exatamente. Eu li e pensei: &#8216;Ok, não conheço a Ana. O que ela faz?&#8217;. Então, pedi para ver um filme dela e assisti a Pela Sua Tranquilidade, Construa Seu Próprio Museu (Para Su Tranquilidad, Haga Su Propio Museo – 2021). Quando vi aquele filme incrível, eu disse para mim mesma: ‘Eu quero estar ali. Quero fazer algo com essa mulher’. Depois disso, nós nos conhecemos por Zoom e iniciamos uma espécie de amizade, uma amizade virtual. Em seguida, fomos juntas para a Colômbia em busca de Ana María. Elas me convidaram para Bogotá e ficamos lá por cerca de cinco dias. Descobrimos que nos entendíamos muito bem, e foi aí que tudo começou. Durante aqueles dias, trabalhamos bastante juntas, fizemos muitos exercícios com as outras atrizes e conversávamos o dia inteiro. Começamos a aproveitar muito a companhia uma da outra – e aqui estamos, até hoje”.</span></i></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Diante do filme e do que foi compartilhado pela diretora e atriz fica a sensação de que o Querido Trópico é o resultado de um trabalho íntimo, permeado por diálogos e interações produtivas que ajudaram diretamente na construção da narrativa e dos personagens. Assim, esse parece ter sido algo pensado delicadamente para que pudesse chegar a diferentes públicos, e tocá-los com a mesma intensidade.</span></p>
<div class="jetpack-video-wrapper"><iframe loading="lazy" title="QUERIDO TRÓPICO, dir. Ana Endara - Tráiler Oficial" width="840" height="473" src="https://www.youtube.com/embed/Itr3j-FvAjE?feature=oembed" frameborder="0" allow="accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share" referrerpolicy="strict-origin-when-cross-origin" allowfullscreen></iframe></div>
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		<title>Querido trópico constrói memórias sobre amizade, cuidado e envelhecimento</title>
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		<pubDate>Mon, 24 Nov 2025 13:00:48 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Cinema]]></category>
		<category><![CDATA[2025]]></category>
		<category><![CDATA[Ana Endara]]></category>
		<category><![CDATA[Análise]]></category>
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		<category><![CDATA[Mariana Bezerra]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Mariana Bezerra  Imigracao e envelhecimento são temas extremamente delicados, que constroem o enredo de Querido Trópico, o filme que marca a estreia da diretora panamenha Ana Endara na ficção. O longa passou por eventos importantes como o Festival do Rio em 2024 e o Festival Internacional de Cinema de Toronto em 2025 antes de chegar &#8230; <a href="http://personaunesp.com.br/critica-querido-tropico/" class="more-link">Continue lendo<span class="screen-reader-text"> "Querido trópico constrói memórias sobre amizade, cuidado e envelhecimento"</span></a></p>
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										<content:encoded><![CDATA[<figure id="attachment_36431" aria-describedby="caption-attachment-36431" style="width: 800px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-full wp-image-36431" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2025/11/image3-10.jpg" alt="Cena do filme Querido Trópico. Duas mulheres adultas estão lado a lado sob a chuva forte. A mulher da direita é branca, de cabelos grisalhos, veste uma camiseta azul e está com os olhos fechados. Ao seu lado e com o rosto colado no seu, há uma mulher de tom de pele mais escuro e cabelos castanhos e veste uma camiseta bordô. Essa está sorrindo olhando para frente. As roupas de ambas estão encharcadas e o cenário é de chuva forte." width="800" height="500" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2025/11/image3-10.jpg 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2025/11/image3-10-768x480.jpg 768w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 984px) 61vw, (max-width: 1362px) 45vw, 600px" /><figcaption id="caption-attachment-36431" class="wp-caption-text">“É isso que todos os atores procuram o tempo todo: como ser o mais verdadeiro possível dentro do que o enquadramento permite” – Paulina Garcia em entrevista ao Persona (Foto: Filmes da Estação)</figcaption></figure>
<p><b>Mariana Bezerra </b></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Imigracao e envelhecimento são temas extremamente delicados, que constroem o enredo de </span><i><span style="font-weight: 400;">Querido Trópico</span></i><span style="font-weight: 400;">, o filme que marca a estreia da diretora panamenha </span><a href="https://mubi.com/en/cast/ana-endara-mislov"><span style="font-weight: 400;">Ana Endara</span></a><span style="font-weight: 400;"> na ficção. O longa passou por eventos importantes como o Festival do Rio em 2024 e o Festival Internacional de Cinema de Toronto em 2025 antes de chegar aos cinemas brasileiros. Além disso, essa foi a obra escolhida para representar o Panamá no </span><i><span style="font-weight: 400;">Oscar</span></i><span style="font-weight: 400;"> de 2026. </span></p>
<p><span id="more-36428"></span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">A sensibilidade é o ponto chave dessa narrativa protagonizada por Mercedes (Paulina Garcia), uma senhora chilena muito privilegiada, e por Ana María (Jenny Navarrete), uma </span><a href="https://personaunesp.com.br/napoli-new-york-tenta-ser-uma-homenagem-italiana-ao-pos-guerra-mas-e-vista-pelo-olhar-de-um-cartao-postal-americano/"><span style="font-weight: 400;">imigrante</span></a><span style="font-weight: 400;"> colombiana grávida, que logo no início assume a função de cuidadora da mais velha. O abismo entre as realidades das duas mulheres se apresenta como uma forma de contar histórias de duas pessoas que saíram de seus países para o Panamá em condições muito diferentes. No entanto, o que o roteiro explora, de fato, é a amizade e cumplicidade que podem surgir de formas inesperadas. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Enquanto a personagem de Paulina atravessa a velhice e lida com a demência e suas consequências, Ana María é quase como uma âncora da realidade, alguém que a enxerga como um ser humano como qualquer outro, apesar dos cuidados extras que demanda. Esse cenário revela que Mercedes se sente acolhida e vista, talvez como nunca em muito tempo e isso permite que a sua personalidade e a sua história de vida sejam ressaltadas ainda que dentro dos limites da sua condição. Esse aspecto é o resultado de performances brilhantes e extremamente sensíveis de Paulina Garcia (</span><a href="https://personaunesp.com.br/critica-narcos-terceira-temporada/"><i><span style="font-weight: 400;">Narcos</span></i></a><span style="font-weight: 400;">) e, também, de Jenny Navarrete. Por outro lado, há uma relação de hierarquia entre as duas protagonistas, que não é ignorada, mas que, na verdade, é muito mais clara entre Ana María e a filha de Mercedes, que foi quem a contratou.</span></p>
<figure id="attachment_36430" aria-describedby="caption-attachment-36430" style="width: 770px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-full wp-image-36430" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2025/11/image2-17.jpg" alt="Cena do filme Querido Trópico. Duas mulheres vistas de costas estão sentadas juntas em um banco de madeira enquanto dividem um guarda-chuva grande sob uma chuva intensa. No fundo, ha uma área verde de um parque coberta por um gramado e grandes árvores." width="770" height="503" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2025/11/image2-17.jpg 770w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2025/11/image2-17-768x502.jpg 768w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 984px) 61vw, (max-width: 1362px) 45vw, 600px" /><figcaption id="caption-attachment-36430" class="wp-caption-text">Apesar da amizade constrúida, é nítido que há uma relação de trabalho e necessidade por parte de Ana María (Foto: Filmes da Estação)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">Endara se aproveita dessas relações para explorar o tema do </span><a href="https://www.brasildefato.com.br/2021/03/12/dossie-fala-sobre-o-trabalho-invisivel-de-mulheres-e-meninas-de-todo-o-mundo/"><span style="font-weight: 400;">‘cuidado’</span></a><span style="font-weight: 400;"> como um assunto geracional e fortemente associado às mulheres. Apesar da função de Ana Maria ser, de fato, laboral, o roteiro (Ana Endara Mislov e Pilar Moreno) abre espaço para que se reflita sobre esse assunto de forma geral. Em determinado momento, Ana María comenta também ter cuidado de sua própria mãe durante a velhice; diante disso, Mercedes diz: “</span><i><span style="font-weight: 400;">Sua filha será uma mulher para que ela possa cuidar de você, assim como voce cuidou dessa senhora</span></i><span style="font-weight: 400;">”. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Nesse sentido, as relações de cuidado se apresentam quase como um círculo vicioso, uma vez que a responsabilidade desse trabalho parece sempre recair sobre as mulheres, o que é representado em outro momento do filme, só que, dessa vez, de forma mais sútil: na cena de aniversário de Mercedes, seus filhos se reúnem em sua casa para a comemoração e a única filha mulher é justamente a responsável por atender às suas demandas, ainda que indiretamente. Na mesma cena, Paulina transmite a alegria e a confusão de sua personagem, que parece, simultaneamente, anestesiada e em êxtase; a composição dos cenários e a coreografia criam uma atmosfera estranha. Essa, por um lado, pode expressar a dinâmica mental de Mercedes, mas também um contexto familiar que parece tornar-se cada vez mais indiferente aos indivíduos à medida que eles </span><a href="https://personaunesp.com.br/a-incrivel-eleanor-critica/"><span style="font-weight: 400;">envelhecem</span></a><span style="font-weight: 400;">.</span></p>
<figure id="attachment_36429" aria-describedby="caption-attachment-36429" style="width: 800px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-medium wp-image-36429" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2025/11/image1-15-800x515.jpg" alt="Cena do filme Querido Trópico. Uma mulher mais velha, de cabelos presos e grisalho está usando brincos e um colar de pérola e um vestido de tons claros. Ela está diante de um bolo com velas acesas e está com as mãos erguidas como se estivesse cantando &quot;Parabéns&quot;. Ao fundo, há uma menina com cabelos escuros que observa a cena, levemente desfocada." width="800" height="515" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2025/11/image1-15-800x515.jpg 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2025/11/image1-15-1024x660.jpg 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2025/11/image1-15-768x495.jpg 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2025/11/image1-15-1536x990.jpg 1536w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2025/11/image1-15-1200x773.jpg 1200w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2025/11/image1-15.jpg 1999w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 984px) 61vw, (max-width: 1362px) 45vw, 600px" /><figcaption id="caption-attachment-36429" class="wp-caption-text">Querido trópico faz refletir sobre como valorizamos e interagimos com as pessoas mais velhas ao nosso redor (Foto: Filmes da Estação)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">A lente de Endara diz muito sobre o seu histórico profissional como documentarista. As imagens são construídas a partir do que parece uma distância segura, que faz as interações parecerem orgânicas e fluídas, sem a necessidade de uma dramatização extrema, com exceção dos momentos que Mercedes apresenta </span><a href="https://vidasaudavel.einstein.br/o-que-e-demencia/"><span style="font-weight: 400;">sintomas</span></a><span style="font-weight: 400;"> de sua condição, o que por vezes, parece apenas uma repetição de uma situação constrangedora para ela e que toma espaço do que poderia ser uma cena mais importante para sua personagem. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Além disso, a natureza ganha um destaque muito grande em sua câmera; as gotas de água, os detalhes das folhas e os pequenos insetos ocupam o quadro de cena e ressaltam a atenção da diretora aos detalhes que compõem os cenários do longa.</span> <span style="font-weight: 400;">A cada momento, há a sensação de que íntimas memórias estão sendo construídas nesse universo paralelo criado pelas personagens principais. Esse aspecto rende cenas repletas de ternura como quando Mercedes descobre que, na verdade, Ana María (</span><a href="https://mubi.com/pt/cast/jenny-navarrete"><span style="font-weight: 400;">Jenny Navarrete</span></a><span style="font-weight: 400;">) não está grávida, mas usa uma barriga de enchimento ou mesmo quando elas estão passeando em um parque e uma chuva intensa banha as emoções que talvez nenhuma das duas tenha sido capaz de chorar.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Essa maneira de criar essa narrativa faz com que o filme pareça, de fato, passar devagar. No entanto, existe um ar de tranquilidade que, para muitos espectadores, pode se sobressair a sensação de lentidão. Assim, </span><a href="https://www.tiff.net/events/beloved-tropic"><i><span style="font-weight: 400;">Querido Trópico</span></i></a><span style="font-weight: 400;"> consegue fazer um retrato de uma intimidade que simplesmente acontece, sem muita explicação, apesar de não ser imediata. Endara explora temas sensíveis que, muitas vezes, parecem intocáveis, no entanto, aqui, é a própria narrativa e as relações que orquestram as discussões sem deixar deixar de dar a devida atenção a história de amizade genuína que se desenvolve no enredo. É com coisas ditas pelo olhar e captadas sem intromissão que esse longa cativa e emociona com mensagens múltiplas sobre diversos assuntos, e sim com uma principal que trata de amor e afeto.</span></p>
<div class="jetpack-video-wrapper"><iframe loading="lazy" title="QUERIDO TRÓPICO, dir. Ana Endara - Tráiler Oficial" width="840" height="473" src="https://www.youtube.com/embed/Itr3j-FvAjE?feature=oembed" frameborder="0" allow="accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share" referrerpolicy="strict-origin-when-cross-origin" allowfullscreen></iframe></div>
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		<title>Criadas: o racismo sob uma lente intimista e familiar</title>
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		<pubDate>Fri, 14 Nov 2025 14:05:08 +0000</pubDate>
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		<category><![CDATA[49ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo]]></category>
		<category><![CDATA[Alice Feitosa]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Mariana Bezerra  E quando a empregada ‘da família’ é, de fato, uma parente? Criadas faz parte da programação da 49ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo na seção Mostra Brasil. O filme mergulha em uma história familiar para explorar as feridas – ainda abertas – do Brasil em relação ao racismo e à escravidão. &#8230; <a href="http://personaunesp.com.br/criadas-critica/" class="more-link">Continue lendo<span class="screen-reader-text"> "Criadas: o racismo sob uma lente intimista e familiar"</span></a></p>
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										<content:encoded><![CDATA[<figure id="attachment_36319" aria-describedby="caption-attachment-36319" style="width: 770px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-full wp-image-36319" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2025/11/image3-10.png" alt="Cena do filme Criadas. Duas crianças estão deitadas lado a lado, uma usando camiseta azul e a outra rosa- escuro (Sandra e Mariana, da esquerda para direita). A primeira é negra de pele retinta e a outra, também tem a pele negra, mas de um tom mais claro. A primeira tem o cabelo castanho trançado e a outra cabelo crespo ornamentado com fivelas coloridas. Uma mão adulta repousa sobre a cabeça de uma delas." width="770" height="323" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2025/11/image3-10.png 770w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2025/11/image3-10-768x322.png 768w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 984px) 61vw, (max-width: 1362px) 45vw, 600px" /><figcaption id="caption-attachment-36319" class="wp-caption-text">Criadas explora uma relação que carrega feridas e conflitos surgidos na infância e originários de uma herança histórica (Foto: Vitrine Filmes)</figcaption></figure>
<p><b>Mariana Bezerra </b></p>
<p><span style="font-weight: 400;">E quando a empregada ‘da família’ é, de fato, uma parente?</span> <a href="https://mostra.org/filmes/criadas"><i><span style="font-weight: 400;">Criadas</span></i></a> <span style="font-weight: 400;">faz parte da programação da </span><a href="https://personaunesp.com.br/tag/49a-mostra-internacional-de-cinema-em-sao-paulo/"><span style="font-weight: 400;">49ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo</span></a><span style="font-weight: 400;"> na seção Mostra Brasil. O filme mergulha em uma história familiar para explorar as feridas – ainda abertas – do Brasil em relação ao racismo e à escravidão. O longa foi eleito pelo público como Melhor Filme Brasileiro de Ficção na </span><a href="https://mostra.org/jornal-da-mostra/filmes-premiados-da-49a-mostra"><span style="font-weight: 400;">premiação</span></a><span style="font-weight: 400;"> do festival. Não é à toa, uma vez que a história das primas Sandra (Vitória Rodrigues, na versão infantil) e Mariana (Alice Feitosa, na versão infantil) e suas famílias atravessa temas tão caros ao país. Elas cresceram juntas, mas não em uma típica relação: a mãe de Sandra era empregada da casa da irmã e, após anos, essa menina, agora uma adulta, retorna para São Paulo para assumir um emprego e buscar informações sobre a mãe desaparecida.</span><span id="more-36318"></span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Antes mesmo de roteiro e atuações entrarem em cena, a obra de Carol Rodrigues já se destaca pelo uso de símbolos, sendo o mais marcante deles o quadro </span><a href="https://oglobo.globo.com/cultura/artes-visuais/conheca-tela-redencao-de-cam-de-1895-destaque-em-mostra-no-mnba-22740416"><i><span style="font-weight: 400;">A redenção de Cam</span></i></a> <span style="font-weight: 400;">(1895)</span><i><span style="font-weight: 400;">, </span></i><span style="font-weight: 400;">de Modesto Brocos, em que há um bebê e um homem branco, uma senhora de pele retinta e uma mulher mais nova e também negra, mas de tom mais claro. A tela apresenta uma família ‘embranquecida’ por uma política eugenista de embranquecimento da população, além de uma avó que ergue as mãos ao céu em agradecimento. A figura serve como ilustração para a relação de Mariana (</span><a href="https://personaunesp.com.br/casa-de-antiguidades-critica/"><span style="font-weight: 400;">Ana Flavia Cavalcanti</span></a><span style="font-weight: 400;">) e Sandra (Mawusi Tulani), sendo a primeira uma mulher negra de pele mais clara, que cresceu em uma realidade privilegiada, enquanto a segunda, de pele retinta, viveu em uma condição de servidão à prima. Nessa exposição detalhista e orquestrada, a fotografia, assinada por Julia Zakia, cumpre o seu papel com primor.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Desde o início, a relação das duas mulheres – muito bem exposta pelas performances incríveis das protagonistas – parece conturbada, permeada pelos fantasmas da infância. Nesse caso, ‘fantasmas de carne e osso’, como a mãe de Sandra os chamava. Essas lendas infantis ganham vida na trama, como se os traumas nunca tivessem sido superados. As vozes e as figuras das meninas enquanto crianças ecoam pela casa, resgatando </span><a href="https://personaunesp.com.br/novembro-tenta-honrar-as-memorias-do-passado-mas-sucumbe-na-superficialidade/"><span style="font-weight: 400;">memórias</span></a><span style="font-weight: 400;">, como a do chamado de Mariana pela prima, enquanto a personagem de Tulani tentava estudar ou desempenhar outra atividade que não fosse servir àquela família. Esse cenário chama a atenção para a repetição dessa realidade, quase como num círculo vicioso: sempre que Sandra está feliz, tem uma boa notícia sobre o emprego ou mesmo está ocupada em seu projeto, Mariana tem alguma demanda a ser sanada. Esse contexto parte de um roteiro carregado de sentimento e, também, ironias e complexidade, o qual parece se arriscar sem medo em explorar contradições múltiplas.</span></p>
<figure id="attachment_36320" aria-describedby="caption-attachment-36320" style="width: 574px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-full wp-image-36320" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2025/11/image1-9.jpg" alt="Cena do filme Criadas. Mariana, uma mulher negra, de cabelos castanhos e crespos e presos, está sentada, olhando atentamente para alguém que não aparece na imagem. Ela usa uma blusa marrom com babados nas mangas e tem expressão séria. Ao fundo, aparecem plantas verdes desfocadas." width="574" height="241" /><figcaption id="caption-attachment-36320" class="wp-caption-text">Ana Flávia Cavalcanti entrega uma performance brilhante como Mariana em Criadas (Foto: Vitrine Filmes)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">No que diz respeito às temáticas abordadas no filme, é interessante que o realismo fantástico tenha sido inserido no texto. Primeiramente, a cineasta abre espaço para que racismo e colorismo sejam vistos a partir dos olhares e através do sentimento das personagens. Por outro lado, esse resgate de memórias e a convivência com os tais fantasmas criam uma metáfora que aponta para algo amplo: mais do que aludir a vivências pessoais, </span><i><span style="font-weight: 400;">Criadas </span></i><span style="font-weight: 400;">coloca em cena os fantasmas da escravidão e a ancestralidade marcada por questões políticas e sociais, cujas consequências reverberam até hoje na sociedade brasileira, como a grande problemática da empregada </span><a href="https://rollingstone.com.br/noticia/idomesticai-que-estreia-nesta-sexta-3-leva-adiante-discussao-dos-empregados-domesticos-no-brasil/"><span style="font-weight: 400;">doméstica</span></a><span style="font-weight: 400;"> – na grande maioria das vezes negra – que é considerada ‘da família’. Aqui, o texto de Carol Rodrigues se vale dessas questões para expor o enraizamento do racismo e as dificuldades de falar sobre ele também em famílias negras. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Em seu primeiro longa, </span><a href="https://rsscarol.com/bio"><span style="font-weight: 400;">Rodrigues</span></a><span style="font-weight: 400;"> trabalha muito bem com a ambientação, uma vez que a casa serve de espaço para o retorno e afloramento dessas lembranças. Além disso, a imagem é bem construída através da iluminação e do som, que acompanha os tons melancólicos e de suspense do roteiro. Nos momentos em que o enredo se afasta desses aspectos e aborda a sensualidade das personagens ou introduz  cenas carregadas de outros tipos de tensão, os efeitos sonoros e a trilha sonora conseguem acompanhar essas flutuações de maneira harmônica.</span></p>
<figure id="attachment_36321" aria-describedby="caption-attachment-36321" style="width: 574px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-full wp-image-36321" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2025/11/image2-11.jpg" alt="Cena do filme Criadas. Sandra, uma mulher de pele negra e cabelos crespos presos, sorri com alegria olhando para velas acesas em cima de um bolo, que não aparece na imagem. Ela veste uma blusa azul-clara. No fundo, há uma decoração composta por pratos de porcelana na parede." width="574" height="243" /><figcaption id="caption-attachment-36321" class="wp-caption-text">Em uma de suas visões, Sandra se imagina recebendo atenção e protagonismo em seu lar pela primeira vez (Foto: Vitrine Filmes)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">Os elementos do longa trabalham juntos para construir esse ar fantasmagórico e o suspense que ele exige. Apesar de instigante no início, em alguns momentos, os períodos de tensão se estendem demais e perdem o ponto de clímax. Ainda sobre a materialização dessas imagens de Sandra e Mariana enquanto crianças, não fica claro o que elas são, de fato, e isso não é, de forma alguma, um problema para o roteiro. Mas quando os fantasmas começam a agir de forma muito concreta, interferindo diretamente na realidade, a fantasia se torna uma questão. Isso acontece quando a pequena Sandra esconde o conjunto de facas de Mariana, que é chef de cozinha, e prejudica a sua vida profissional. Aqui, cria-se uma situação confusa, uma vez que essa ação não faz sentido algum diante do que se conhece da personagem de </span><a href="https://youtu.be/i0Y0VZTBVCs?si=P-yBAwstd2eHIjnZ"><span style="font-weight: 400;">Tulani</span></a><span style="font-weight: 400;">, que é tão delicadamente construída ao longo da narrativa.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Apesar desse quebra-cabeça, a aposta em ir além do literal caiu muito bem na trama e complementou o drama das personagens tão intimamente construídas – individual e coletivamente. Assim, </span><i><span style="font-weight: 400;">Criadas </span></i><span style="font-weight: 400;">consegue mergulhar no âmago de duas histórias marcadas por dilemas familiares e raciais e que se unem conflituosamente, mas que são permeadas de otimismo, pela ideia de que o futuro pode ser diferente. Dessa forma, também há esperança de que a casa que outrora carregou ares de ‘casa grande e senzala’ possa ser destruída e, quem sabe, refeita em um lar que possa romper com as imposições feitas pela </span><a href="https://personaunesp.com.br/critica-pecadores/"><span style="font-weight: 400;">discriminação</span></a><span style="font-weight: 400;"> que se instalou – em um movimento de dentro para fora – nessa família.</span></p>
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		<title>Babystar convida a rir do absurdo e implora para que ele não seja o novo normal</title>
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		<pubDate>Tue, 11 Nov 2025 13:00:21 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Cinema]]></category>
		<category><![CDATA[49ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Mariana Bezerra  Babystar é um filme alemão independente, que estreou no Festival Internacional de Cinema de Toronto, em 2025. No Brasil, ele foi exibido, pela primeira vez, na 49ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo como integrante competitiva na categoria Novos Diretores. O longa de Joscha Bongard mergulha no universo das redes sociais e &#8230; <a href="http://personaunesp.com.br/babystar-critica/" class="more-link">Continue lendo<span class="screen-reader-text"> "Babystar convida a rir do absurdo e implora para que ele não seja o novo normal"</span></a></p>
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										<content:encoded><![CDATA[<p><figure id="attachment_36254" aria-describedby="caption-attachment-36254" style="width: 800px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-medium wp-image-36254" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2025/11/Image-10-800x390.jpeg" alt="Cena do filme Babystar: À esquerda, um homem de cabelo longo preso em um coque olha para uma tela. No centro, Luca, uma mulher branca e loira, de vestido vermelho amarrado ao pescoço, tira uma selfie com o celular, enquanto sua mãe, à direita, também branca e loira em um conjunto rosa, fotografa a cena com o celular. Todos estão sentados em uma mesa de jantar elegante, iluminada por luz amarela suave, com taças, guardanapos dobrados e cortinas de tons claros." width="800" height="390" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2025/11/Image-10-800x390.jpeg 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2025/11/Image-10-1024x500.jpeg 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2025/11/Image-10-768x375.jpeg 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2025/11/Image-10-1536x750.jpeg 1536w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2025/11/Image-10-1200x586.jpeg 1200w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2025/11/Image-10.jpeg 2000w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 984px) 61vw, (max-width: 1362px) 45vw, 600px" /><figcaption id="caption-attachment-36254" class="wp-caption-text">”Eu penso que o problema [nas redes sociais] é que todos pensam ser a pessoa mais importante do mundo”- Joscha Bongard para o Persona (Foto: Lise Lotte Films)</figcaption></figure><b>Mariana Bezerra </b></p>
<p><i><span style="font-weight: 400;">Babystar </span></i><span style="font-weight: 400;">é um filme alemão independente, que estreou no Festival Internacional de Cinema de Toronto, em 2025. No Brasil, ele foi exibido, pela primeira vez, na </span><a href="https://personaunesp.com.br/tag/49a-mostra-internacional-de-cinema-em-sao-paulo/"><span style="font-weight: 400;">49ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo</span></a><span style="font-weight: 400;"> como integrante competitiva na categoria Novos Diretores. O longa de Joscha Bongard mergulha no universo das redes sociais e dos </span><i><span style="font-weight: 400;">influencers </span></i><span style="font-weight: 400;">para construir a narrativa sobre uma família cuja vida íntima é completamente exposta, sem qualquer indício de privacidade. Com um orçamento extremamente limitado, Bongard mantém a câmera centralizada na casa desse núcleo familiar, que parece mais um estúdio do que um lar. Nela, os laços genuínos estão em guerra constante com o desejo e a necessidade de performar.</span></p>
<p><span id="more-36253"></span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Todo o enredo que constrói essa relação da família e simultaneamente a sua relação com seus seguidores, parece absurdo. No entanto, ele escancara bastidores dos conteúdos que os usuários consomem todos os dias. Há também uma combinação precisa entre roteiro (Joscha Bongard e Nicole </span><span style="font-weight: 400;">Rüthers</span><span style="font-weight: 400;">) e edição (Emma Holzapfel e Wolfgang Purkhauser),</span> <span style="font-weight: 400;">que satirizam a rotina exposta nas redes sociais. Nelas, vemos </span><a href="https://forbes.com.br/forbessaude/2025/07/como-o-vicio-em-videos-curtos-esta-reprogramando-seu-cerebro/"><span style="font-weight: 400;">vídeos curtos</span></a><span style="font-weight: 400;">, dinâmicos e perfeitamente editados que transformam atos corriqueiros, como uma simples troca de roupa em uma coreografia. </span><span style="font-weight: 400;">No filme, o público tem contato com o momento em que câmera é posicionada no ambiente e fica perceptível que ela se comporta como uma intrusa, que ganhou espaço demais e que interrompe atividades cotidianas e o que poderiam ser momentos genuínos de conexão entre familiares. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">A relação entre os pais e a adolescente se confunde com a de dois chefes e com uma funcionária, uma vez que a menina já nasceu nessa condição de influenciadora. Nesse sentido, a parceria de roteiro entre o diretor e </span><a href="https://mubi.com/pt/cast/nicole-ruthers"><span style="font-weight: 400;">Nicole Rüthers</span></a><span style="font-weight: 400;"> explora muito bem a noção financeira por trás dessa dinâmica. Enquanto seus pais viveram a realidade sem privilégios de patrocínios e de publicidade, Luca nasceu em uma realidade materialista, repleta de mordomias, contudo, que tem um custo. Ainda sobre a co-autoria, Bongard comentou, em entrevista ao Persona, que era essencial que Luca fosse uma mulher criada também por uma mulher, para que o longa pudesse mergulhar com segurança em temas como </span><a href="https://personaunesp.com.br/a-substancia-critica/"><span style="font-weight: 400;">padrões de beleza</span></a><span style="font-weight: 400;"> e os atravessamentos de gênero na era digital.</span></p>
<figure id="attachment_36255" aria-describedby="caption-attachment-36255" style="width: 800px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-medium wp-image-36255" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2025/11/Image-07-11-25-at-17.57-800x431.jpeg" alt="Cena do filme mostra, uma adolescente branca de cabelo loiro segurado por uma faixa preta enquanto usa uma máscara transparente na pele, que está avermelhada. Seu olhar é melancólico e desanimado. Ao fundo, tons azulados são evidentes em meio as cortinas. " width="800" height="431" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2025/11/Image-07-11-25-at-17.57-800x431.jpeg 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2025/11/Image-07-11-25-at-17.57-1024x552.jpeg 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2025/11/Image-07-11-25-at-17.57-768x414.jpeg 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2025/11/Image-07-11-25-at-17.57-1200x646.jpeg 1200w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2025/11/Image-07-11-25-at-17.57.jpeg 1476w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 984px) 61vw, (max-width: 1362px) 45vw, 600px" /><figcaption id="caption-attachment-36255" class="wp-caption-text">Em Babystar, todo sacrifício vale a pena quando se trata de likes (Foto: Lise Lotte Films)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">Pela perspectiva do roteiro e direção, o curso dessa história é naturalmente conturbado. No entanto, a desarmonia só é identificada na família quando os pais de Luca decidem ter outro filho e a menina se sente preterida, tanto pelo futuro irmão quanto pelo engajamento que ele vai gerar. A partir disso, a adolescente se revolta e a trilha sonora (Jonas Vogler) contribui para transmitir a carga sombria desse ambiente, por vezes com um efeito grave, que surge diversas vezes quando a câmera mostra a entrada da casa, e outras com os sons das relações sexuais dos pais que ecoam pela casa, personificando uma declaração de guerra à </span><a href="https://personaunesp.com.br/critica-adolescencia/"><span style="font-weight: 400;">adolescente</span></a><span style="font-weight: 400;">. Esse e outros aspectos constroem o início da indignação e revolta da jovem, o que se tornam nítidas por meio do olhar expressivo e da performance extremamente sensível de Maja, que interpreta a jovem Luca.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Quando a jovem recebe a notícia de que é uma</span><i><span style="font-weight: 400;"> “ex- filha única”</span></i><span style="font-weight: 400;"> – momento mediado por câmeras – o conflito se escala rapidamente. A reação instantânea da garota rende uma das melhores cenas, com ela se levantando da mesa do restaurante de alta classe, caminhando até o centro do salão e desamarrando seu vestido, se despindo completamente. Diante desse nítido caos psicológico enfrentado pela garota, a solução que o pai encontra é admitir que aquele ato de desespero é, também, uma performance. O homem aplaude o absurdo e apenas quando percebe que estava só em sua neurose, derruba o </span><a href="https://personaunesp.com.br/rede-de-odio-critica/"><span style="font-weight: 400;">celular</span></a><span style="font-weight: 400;"> de uma mulher que gravava sua filha. Aqui, a risada é garantida com uma sátira alcançada em seu primor.</span></p>
<figure id="attachment_36256" aria-describedby="caption-attachment-36256" style="width: 800px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-medium wp-image-36256" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2025/11/Image-11-800x400.jpeg" alt="Cena do filme Babystar. Três pessoas estão à beira de uma piscina azul, que está rodeada por uma área verde. Luca, uma adolescente branca e loira, está em pé, olhando para a mãe, uma mulher branca e loira, que está sentada na cadeira de praia olhando para o celular, ambas estão de biquíni, rosa e laranja, respectivamente. O pai, homem branco e loiro, está usando um calção laranja e segura um laptop." width="800" height="400" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2025/11/Image-11-800x400.jpeg 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2025/11/Image-11-1024x512.jpeg 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2025/11/Image-11-768x384.jpeg 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2025/11/Image-11.jpeg 1200w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 984px) 61vw, (max-width: 1362px) 45vw, 600px" /><figcaption id="caption-attachment-36256" class="wp-caption-text">Ao longo do filme, Luca passa a entender que, muito antes da ideia de ter um irmão, ela já competia intensamente pela atenção de seus pais (Foto: Lise Lotte Films)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">A partir desse momento, a garota sai de casa, sem que haja um arco de redenção ou algo nesse sentido. Mesmo que distante, ela continua a viver dos privilégios da vida que seus pais criaram antes mesmo de seu nascimento – um aspecto que eles insistem em reforçar. Além disso, o distanciamento da família permite a ampliação de seus relacionamentos, como com a sua namorada ou com o recepcionista do hotel em que se hospeda, com o qual tenta criar, artificialmente, uma relação sexual e amorosa. Apesar de adquirir mais liberdade, essas conexões não se aprofundam em si, apenas esclarecem a dependência emocional de Luca e o pouco crescimento pessoal que ela teve diante da grande preocupação de seus pais, que eram outros tantos milhões de </span><a href="https://blog.amarelosaudemental.com.br/a-ilus%C3%A3o-das-redes-sociais"><span style="font-weight: 400;">seguidores</span></a><span style="font-weight: 400;">. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">A fragilidade da protagonista é pontualmente exposta, principalmente, quando o tema ’Inteligência Artificial’ é introduzido no longa. A figura de Luca passa a ser uma assistente virtual criada para ser amiga de seus seguidores. Cada um deles tem uma experiência personalizada, que varia de acordo com as interações com a IA. O ponto chave é que Luca parece ser a pessoa mais necessitada dessa amizade, e passa a se </span><a href="https://super.abril.com.br/sociedade/terapia-nos-tempos-de-ia/"><span style="font-weight: 400;">aconselhar</span></a><span style="font-weight: 400;"> consigo mesma através dessa tecnologia. É como se ela mesma fosse um corpo estranho, dissociado. </span></p>
<figure id="attachment_36257" aria-describedby="caption-attachment-36257" style="width: 640px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-full wp-image-36257" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2025/11/Image-12.jpeg" alt="Trecho do filme em que Luca, uma adolescente branca, de cabelos loiros e olhos castanhos, está deitada no colo de uma mulher também branca e loira cujo rosto não aparece na imagem. Ambas estão vestindo um conjunto verde marinho de academia." width="640" height="360" /><figcaption id="caption-attachment-36257" class="wp-caption-text">“O problema das redes sociais é que o trabalho é 24 horas por dia, 7 dias por semana” &#8211; Joscha Bongard para o Persona (Foto: Lise Lotte Films)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">Em meio a tantos sentimentos perturbadores, Luca volta para casa e a recepção calorosa de seu pai parece ser um dos primeiros momentos felizes do filme a não ser capturado por uma lente armada. A câmera e os filtros desabam por poucos segundos, revelando o amor que vive entre eles. </span><span style="font-weight: 400;">Para o diretor, era importante que a história partisse do núcleo familiar, uma vez que ele costuma ser o pilar das conexões humanas.</span><span style="font-weight: 400;"> No entanto, logo tudo volta a ser como antes. O parto do irmão de Luca é transmitido ao vivo, assim como o seu foi, e acontece rodeado de propagandas, um reflexo do mundo do qual sua irmã começava a entender como uma </span><a href="https://www.camara.leg.br/noticias/1191275-SAIBA-MAIS-SOBRE-O-PROJETO-DE-COMBATE-A-EXPLORACAO-DE-CRIANCAS-EM-REDES-SOCIAIS"><span style="font-weight: 400;">problemática</span></a><span style="font-weight: 400;">. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Segundo Joscha Bongard, a ideia de </span><i><span style="font-weight: 400;">Babystar</span></i><span style="font-weight: 400;"> surgiu a partir de sua experiência anterior com o documentário </span><i><span style="font-weight: 400;">Pornfluencer</span></i><span style="font-weight: 400;"> (2024), no qual acompanhou a vida de um casal de influenciadores. Assim, o que os criadores realizaram não foi puramente sensacionalista, e sim realista, como toda sátira deve ser. Parece absurdo, contudo, é importante que o absurdo também seja dito e escancarado. </span><i><span style="font-weight: 400;">Babystar</span></i><span style="font-weight: 400;"> não fala apenas sobre uma família em particular, mas sobre uma </span><a href="https://www.cnnbrasil.com.br/saude/brasileiros-que-passam-mais-tempo-nas-redes-sociais-sao-os-que-tem-ansiedade/"><span style="font-weight: 400;">sociedade</span></a><span style="font-weight: 400;"> inteira. Nesse sentido, quando Luca escapa com seu irmão – mesmo que incerta do futuro –, subentende-se que todos têm uma chance de fazê-lo também.</span></p>
<div class="jetpack-video-wrapper"><iframe loading="lazy" title="BABYSTAR Trailer | TIFF 2025" width="840" height="473" src="https://www.youtube.com/embed/91VQzLK2wAU?feature=oembed" frameborder="0" allow="accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share" referrerpolicy="strict-origin-when-cross-origin" allowfullscreen></iframe></div>
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