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	<title>Arquivos Literatura Contemporânea &#8211; Persona | Jornalismo Cultural</title>
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	<description>Desde 2015 provando que a distância entre Bergman, Lady Gaga e a novela das 9 nem existe.</description>
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		<title>Conectadas não é apenas sobre romance entre jovens da Geração Z</title>
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		<pubDate>Mon, 13 Jun 2022 16:18:25 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p>Ana Nóbrega Clichê de reparação. Clara Alves dispõe em seu livro Conectadas, publicado em 2019 pela Editora Seguinte, tudo que qualquer menina queer sonhou enquanto assistia à comédias românticas adolescentes em sua infância. Jogos, romance, juventude, cultura pop e a realidade de muitas garotas são alguns dos pontos abordados por Clara em sua obra, feita  &#8230; <a href="http://personaunesp.com.br/clara-alves-conectadas-critica/" class="more-link">Continue lendo<span class="screen-reader-text"> "Conectadas não é apenas sobre romance entre jovens da Geração Z"</span></a></p>
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										<content:encoded><![CDATA[<figure id="attachment_27813" aria-describedby="caption-attachment-27813" style="width: 710px" class="wp-caption alignnone"><img fetchpriority="high" decoding="async" class="wp-image-27813 size-large" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/06/1-710x1024.jpg" alt="A imagem é a capa do livro Conectadas, o fundo é azul marinho e azul turquesa. Na frente da capa está ilustrada Ayla, uma menina com traços asiáticos, usando um vestido rosa, meia branca e tênis marrom, com cabelo preto e longo. Um pouco mais acima tem uma ilustração de cabeça para baixo de Raíssa, uma menina de pele escura, cabelo cacheado, usando uma camisa verde turquesa, uma calça jeans e um tênis vermelho. Raíssa segura um notebook com a imagem de um menino branco, de cabelo preto e blusa turquesa. Um pouco acima está escrito o nome da obra, Conectadas, e da autora, Clara Alves" width="710" height="1024" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/06/1-710x1024.jpg 710w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/06/1-555x800.jpg 555w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/06/1-768x1107.jpg 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/06/1-1066x1536.jpg 1066w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/06/1-1421x2048.jpg 1421w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/06/1-1200x1730.jpg 1200w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/06/1.jpg 1681w" sizes="(max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 984px) 61vw, (max-width: 1362px) 45vw, 600px" /><figcaption id="caption-attachment-27813" class="wp-caption-text">Clara Alves contou em <a href="https://www.youtube.com/watch?v=4FFpiQue5MQ">entrevista</a> que Conectadas foi o livro que ela escreveu mais rápido, em cerca de dois meses (Foto: Editora Seguinte)</figcaption></figure>
<p><b>Ana Nóbrega</b></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Clichê de reparação. Clara Alves dispõe em seu livro </span><a href="https://www.amazon.com.br/Conectadas-Clara-Alves/dp/8555340896"><i><span style="font-weight: 400;">Conectadas</span></i></a><span style="font-weight: 400;">, publicado em 2019 pela Editora </span><i><span style="font-weight: 400;">Seguinte</span></i><span style="font-weight: 400;">, tudo que qualquer menina </span><a href="https://www.uol.com.br/universa/noticias/redacao/2022/01/20/queer-esta-na-sigla-lgbtqia-o-que-significa-e-quem-usa.htm"><i><span style="font-weight: 400;">queer</span></i></a><span style="font-weight: 400;"> sonhou enquanto assistia à comédias românticas adolescentes em sua infância. Jogos, romance, juventude, cultura </span><i><span style="font-weight: 400;">pop </span></i><span style="font-weight: 400;">e a realidade de muitas garotas são alguns dos pontos abordados por Clara em sua obra, feita  para garotas jovens que ainda estão se descobrindo em um mundo tão violento, e também para mulheres adultas que foram roubadas de seus clichês juvenis. </span></p>
<p><span id="more-27812"></span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">A trama escrita por Clara conta a história de Raíssa e Ayla, com capítulos intercalados que aprofundam um pouco da vida de cada uma, duas adolescentes que são apaixonadas por jogos e enfrentam conflitos com sua </span><a href="https://www.infoescola.com/sexualidade/o-que-e-sexualidade/"><span style="font-weight: 400;">sexualidade</span></a><span style="font-weight: 400;">. Raíssa tem uma família amorosa e tranquila, e vive cercada por seus amigos de escola, no entanto, ela ainda esconde um segredo das pessoas, por medo de ser rejeitada.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Enquanto isso, Ayla enfrenta diversos problemas dentro da sua própria casa, já que a relação com os pais não é das melhores. Além disso, o comportamento da menina na escola reflete tudo que ela vive em seu lar, o que resulta em um ciclo de amigas reduzido a Vick e Dricka, suas colegas de classe, Raíssa — </span><a href="https://portalpopline.com.br/clara-alves-conectadas-comemora-no1-amazon-livro-novo/"><span style="font-weight: 400;">que se passa por outra pessoa</span></a><span style="font-weight: 400;"> — e sua tia Sayuri. A última é personagem importante na vida de Ayla, sendo uma peça chave para que ela tenha contato com o mundo de fora do caos de sua residência, atuando quase que como uma fada madrinha.</span></p>
<blockquote><p><span style="font-weight: 400;">“Atravessei a sala em direção ao pequeno corredor que ligava aos outro cômodos da casa e, assim que parei na frente do quarto da minha mãe, a encontrei apagada com a pequena televisão de tubo ligada, o frasco de Rivotril em cima da mesinha de cabeceira. Eu suspirei e fiz menção de continuar pelo corredor, mas entrei no cômodo e parei para dar um beijo na cabeça dela. Não havia sinal do meu pai.”</span></p></blockquote>
<p><figure id="attachment_27814" aria-describedby="caption-attachment-27814" style="width: 800px" class="wp-caption alignnone"><img decoding="async" class="wp-image-27814" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/06/2.png" alt="Na imagem, Clara Alves, uma mulher de pele clara, com piercing no nariz e cabelo preto até o ombro, que usa uma regata preta com alça rosa, segura um de seus livros, intitulado de Romance Real, com a mão esquerda. Na mão direita ela segura um prêmio por Conectadas." width="800" height="921" /><figcaption id="caption-attachment-27814" class="wp-caption-text">Além de Conectadas, Clara Alves também escreveu Sobre amor e estrelas (e a cabeça nas nuvens), De repente adolescente: Antologia de contos e Romance Real, que foi lançado em maio de 2022 [Foto: Instagram/@claraalvesg]</figcaption></figure><span style="font-weight: 400;">Os caminhos de Ayla e Raíssa se cruzam enquanto ambas jogam </span><i><span style="font-weight: 400;">Feéricos</span></i><span style="font-weight: 400;">, um jogo </span><i><span style="font-weight: 400;">on-line</span></i><span style="font-weight: 400;"> pelo qual as duas são apaixonadas. Raíssa, que é uma jogadora antiga, finge ser um menino no jogo, para poder ser levada a sério por outros jogadores. Em contraste, Ayla passa por uma situação semelhante, mas um tanto diferente. Ela não consegue ajuda de outros </span><a href="https://www.uol.com.br/universa/noticias/redacao/2021/08/13/sou-gamer-e-criei-uma-campanha-contra-o-machismo-nos-jogos.htm#:~:text=Imagem%3A%20arquivo%20pessoal-,O%20machismo%20no%20mundo%20gamer%20%C3%A9%20algo%20muito%20comum%2C%20infelizmente,humilhantes%20s%C3%B3%20por%20sermos%20mulher."><i><span style="font-weight: 400;">players</span></i><span style="font-weight: 400;"> por usar um personagem feminino</span></a><span style="font-weight: 400;">, e por isso, sai em busca de alguém que possa lhe apoiar em sua jornada digital. Tudo isso sem saber que o que a espera é uma série de novas experiências e sentimentos.  </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Raíssa oferece ajuda para Ayla, e as duas se tornam grandes amigas. Porém, Ayla não sabe que Raíssa é uma menina. Não apenas isso, ela acredita que seu parceiro de jogo é Leo, um dos melhores amigos de Raíssa. Conforme a amizade das duas se desenvolve, o melhor amigo de Raíssa e ela se encontram em uma rua de mão única quando um grande evento de </span><i><span style="font-weight: 400;">games </span></i><span style="font-weight: 400;">chama a atenção deles, e também de Ayla. </span><i><span style="font-weight: 400;">Conectadas</span></i><span style="font-weight: 400;"> se desenvolve quase como o filme </span><a href="https://blogs.correiobraziliense.com.br/proximocapitulo/sierra-burgess-e-uma-loser/#:~:text=No%20come%C3%A7o%20do%20filme%2C%20Sierra,est%C3%A1%20focada%20em%20seu%20futuro."><i><span style="font-weight: 400;">Sierra Burgess é uma Loser</span></i></a><span style="font-weight: 400;">,</span> <span style="font-weight: 400;">só que dessa vez as personagens principais são mais carismáticas e a trama segue o caminho correto para prender o público. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">A leitura é leve e fluída, o que faz com que o leitor consiga terminar a história mais rápido do que se imagina, e ainda deixar um quê de quero mais. As vidas das personagens principais são bem desenvolvidas, e quem está do outro lado da obra consegue empatizar pelas dores familiares de Ayla e pelo medo que Raíssa sente em relação ao seu envolvimento com a</span> <a href="https://www.psicanaliseclinica.com/amigos-virtuais/#:~:text=Amizades%20virtuais%20s%C3%A3o%20aqueles%20que,amizades%20que%20acontecem%20no%20offline."><i><span style="font-weight: 400;">web </span></i><span style="font-weight: 400;">amiga</span></a><span style="font-weight: 400;">. O ponto de vista das duas estar incluído na obra faz aflorar o sentimento de saber o segredo de uma e não poder contar para a outra. </span></p>
<figure id="attachment_27815" aria-describedby="caption-attachment-27815" style="width: 800px" class="wp-caption alignnone"><img decoding="async" class="wp-image-27815" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/06/3.png" alt="Uma mão segura o livro Conectadas em frente a uma parede com tijolos repleta de plantas, que se assemelham a cactos e suculentas verdes" width="800" height="708" /><figcaption id="caption-attachment-27815" class="wp-caption-text">O jogo feéricos mencionado na história é uma invenção da autora, e segundo afirmou para o <a href="https://www.youtube.com/watch?v=4FFpiQue5MQ">canal</a> da Editora Seguinte, ele se baseia em uma história escrita por ela há algum tempo (Foto: Instagram/@claraalvesg)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">Outro fator que chama atenção do público no romance de Ayla e Raíssa é que nenhuma delas é branca Ou seja, o clichê de Clara Alves passa longe </span><a href="https://www.intrinseca.com.br/livro/396/"><span style="font-weight: 400;">das histórias heteronormativas e caucasianas</span></a><span style="font-weight: 400;"> que sempre tiveram espaço na mídia. Essa característica da obra faz com que os leitores </span><a href="https://www.printi.com.br/blog/a-representatividade-por-tras-do-dia-internacional-do-orgulho-lgbtqia?gclid=CjwKCAjw7vuUBhBUEiwAEdu2pErs406xOLqDNrUzyTie5ZkKDQa-1-GxVaBNb250ZB0KJZTWHdF-NBoCpnoQAvD_BwE"><span style="font-weight: 400;">LGBTQIA+</span></a><span style="font-weight: 400;"> e </span><a href="https://mundonegro.inf.br/no-mes-do-orgulho-7-filmes-lgbqia-com-protagonismo-negro/"><span style="font-weight: 400;">não-brancos</span></a><span style="font-weight: 400;"> sintam seus corações quentinhos, por conseguirem presenciar uma história de amor que representa sua vivência para um grande público-alvo. </span></p>
<blockquote><p><span style="font-weight: 400;">“Aquelas duas últimas horas tinham sido incríveis ao lado dela — quase como costumavam ser com o Leo na internet, só que melhor.”</span></p></blockquote>
<p><span style="font-weight: 400;">Além disso, a autora abre o caminho para uma discussão que está em alta desde que o mundo dos </span><a href="https://gamarevista.uol.com.br/semana/os-nerds-venceram/o-machismo-na-cultura-geek/"><i><span style="font-weight: 400;">gamers</span></i><span style="font-weight: 400;"> explodiu</span></a><span style="font-weight: 400;">: a presença de mulheres no mundo dos jogos. Tanto Ayla, quanto Raíssa, enfrentam discriminação no meio. Afinal, ainda existe uma crença errônea de que o público é majoritariamente masculino e que qualquer pessoa que fuja disso não se encaixa no ideal. Aos poucos, as duas ganham espaço dentro desse ambiente e realizam seus sonhos.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">A história de </span><i><span style="font-weight: 400;">Conectadas</span></i><span style="font-weight: 400;"> é completa por si só, praticamente um romance adolescente de apenas um filme, como </span><a href="https://www.adorocinema.com/filmes/filme-25449/criticas/espectadores/#:~:text=O%20tom%20de%20humor%20%C3%A9,um%20filme%20que%20funciona%20perfeitamente."><i><span style="font-weight: 400;">10 Coisas que Eu Odeio em Você</span></i></a><span style="font-weight: 400;">,</span> <a href="https://www.adorocinema.com/filmes/filme-108735/criticas/espectadores/#:~:text=%C3%89%20rom%C3%A2ntico%2C%20delicado%2C%20lindo%2C,cl%C3%A1ssico%20filme%20na%20TV%20aberta."><i><span style="font-weight: 400;">Sorte no Amor</span></i></a> <span style="font-weight: 400;">e</span> <a href="https://www.adorocinema.com/filmes/filme-119461/criticas/espectadores/#:~:text=Filme%20muito%20bom%2C%20engra%C3%A7ado%20e,e%20Channing%20Tatum%20muito%20bons%20."><i><span style="font-weight: 400;">Ela é o Cara</span></i></a><span style="font-weight: 400;">. O livro é um daqueles que não precisam de continuação para agradar o leitor, apesar da história incompleta de alguns personagens secundários deixarem-nos com a pulga atrás da orelha para saber um pouco mais. Principalmente quando se trata de outras tramas LGBTQIA+ na história.</span></p>
<figure id="attachment_27816" aria-describedby="caption-attachment-27816" style="width: 800px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="wp-image-27816" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/06/4.png" alt="Em primeiro plano é possível ver uma página de livro, com diversas informações sobre Conectadas. Atrás se encontram diversas cópias do livro de Clara Alves" width="800" height="440" /><figcaption id="caption-attachment-27816" class="wp-caption-text">Em 2016 e 2019, Clara Alves recebeu o prémio Wattys, da plataforma de leitura Wattpad (Foto: Instagram/@claraalvesg)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">Para quem curte uma história mais madura, </span><i><span style="font-weight: 400;">Conectadas </span></i><span style="font-weight: 400;">pode não ser a melhor opção. Porém, quem está em busca de curar seu adolescente interior com representatividades que não eram vistas há até dez anos atrás, com certeza vai adorar a obra. Principalmente os fãs de livros LGBTQIA+ , como </span><a href="https://www.amazon.com.br/Heartstopper-Dois-garotos-encontro-vol/dp/8555341612"><i><span style="font-weight: 400;">Heartstopper</span></i></a><span style="font-weight: 400;">, </span><a href="https://www.amazon.com.br/Vermelho-branco-sangue-Casey-McQuiston/dp/8555340942"><i><span style="font-weight: 400;">Vermelho, Branco e Sangue Azul </span></i></a><i><span style="font-weight: 400;">e </span></i><a href="https://www.amazon.com.br/Rainhas-geek-amigos-hist%C3%B3rias-conven%C3%A7%C3%A3o/dp/8542213378"><i><span style="font-weight: 400;">Rainhas Geek</span></i></a><i><span style="font-weight: 400;">, </span></i><span style="font-weight: 400;">que tem se popularizado nos últimos tempos. Para as jovens </span><a href="https://medium.com/@asvioletas/quem-s%C3%A3o-as-s%C3%A1ficas-1d85d30979ab"><span style="font-weight: 400;">sáficas</span></a><span style="font-weight: 400;"> que cresceram sem nenhum tipo de representação,</span><i><span style="font-weight: 400;"> Conectadas</span></i><span style="font-weight: 400;"> é quase uma reparação que reforça que pessoas fora do padrão de heteronormatividade também têm o direito de viverem grandes romances felizes. </span></p>
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		<title>Em O peso do pássaro morto, a perda é a grande protagonista</title>
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					<description><![CDATA[<p>Jamily Rigonatto &#8220;–claro, – respondi entendendo que o tempo sempre leva as nossas coisas preferidas no mundo e nos esquece aqui olhando pra vida sem elas&#8221; Quantas vezes na vida é preciso deixar parte de nós ir? E quantas vezes isso acontece até que não reste nada? Em O peso do pássaro morto, Aline Bei &#8230; <a href="http://personaunesp.com.br/o-peso-do-passaro-morto-critica/" class="more-link">Continue lendo<span class="screen-reader-text"> "Em O peso do pássaro morto, a perda é a grande protagonista"</span></a></p>
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										<content:encoded><![CDATA[<figure id="attachment_26736" aria-describedby="caption-attachment-26736" style="width: 709px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="wp-image-26736 size-large" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/03/Imagem.1-709x1024.jpg" alt="Capa do livro O peso do pássaro morto. Na imagem, um fundo roxo carrega o título da obra como se as palavras estivessem apoiadas em fios elétricos pretos. No canto superior direito está grafado o nome da autora em branco, já no canto inferior esquerdo é marcada a logo da editora. Ainda há nos extremos da capa os números: 8, 17, 18, 28, 37, 48, 49, 50, 52." width="709" height="1024" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/03/Imagem.1-709x1024.jpg 709w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/03/Imagem.1-554x800.jpg 554w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/03/Imagem.1-768x1109.jpg 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/03/Imagem.1-1063x1536.jpg 1063w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/03/Imagem.1-1418x2048.jpg 1418w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/03/Imagem.1-1200x1733.jpg 1200w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/03/Imagem.1.jpg 1595w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 984px) 61vw, (max-width: 1362px) 45vw, 600px" /><figcaption id="caption-attachment-26736" class="wp-caption-text">O peso do pássaro morto, publicado pela Editora Nós em 2018, é a obra de estreia de Aline Bei (Foto: Editora Nós)</figcaption></figure>
<p><b>Jamily Rigonatto</b></p>
<blockquote><p><span style="font-weight: 400;">&#8220;–claro, – respondi<br />
</span><span style="font-weight: 400;">entendendo que o tempo<br />
</span><span style="font-weight: 400;">sempre leva<br />
</span><span style="font-weight: 400;">as nossas coisas preferidas no mundo<br />
</span><span style="font-weight: 400;">e nos esquece aqui<br />
</span><span style="font-weight: 400;">olhando pra vida<br />
</span><span style="font-weight: 400;">sem elas&#8221;</span></p></blockquote>
<p><span style="font-weight: 400;">Quantas vezes na vida é preciso deixar parte de nós ir? E quantas vezes isso acontece até que não reste nada? Em </span><i><span style="font-weight: 400;">O peso do pássaro morto, </span></i><span style="font-weight: 400;">Aline Bei nos convida para integrar essas perguntas em sua poética questionadora, que desde o lançamento do livro em 2018, compõe o ar encantador habitante da crueldade. Em um retrato versado pelo gosto amargo de perder, a autora de </span><a href="https://personaunesp.com.br/pequena-coreografia-do-adeus-critica/"><i><span style="font-weight: 400;">Pequena coreografia do adeus</span></i></a><span style="font-weight: 400;"> e </span><i><span style="font-weight: 400;">Rua sem saída</span></i><span style="font-weight: 400;"> apoia-se em palavras duras e sinceras para explorar o ato de se despedir, com toda sua naturalidade devastadora. </span></p>
<p><span id="more-26735"></span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Publicado pela Editora </span><a href="https://www.em.com.br/app/noticia/pensar/2021/08/13/interna_pensar,1295420/virginia-woolf-leia-entrevista-com-editora-brasileira-de-ensaios-e-diarios.shtml"><i><span style="font-weight: 400;">Nós</span></i></a><span style="font-weight: 400;">, o texto traz uma história comovente na qual a piedade fica por conta do leitor. Com uma escrita proseada e absolutamente fluida, somos  guiados pelos caminhos de uma vida marcada pela morte de flores secas, depois de abandonadas. Através de sua protagonista, </span><i><span style="font-weight: 400;">O peso do pássaro morto</span></i><span style="font-weight: 400;"> nos coloca para viajarem sonhos sem asas, dos quais a chance de voar para longe de uma grande gaiola atulhada de frustrações foi roubada pelo tempo. </span></p>
<figure id="attachment_26737" aria-describedby="caption-attachment-26737" style="width: 740px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-full wp-image-26737" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/03/Imagem.2.jpg" alt="Na imagem a autora Aline Bei. Aline é uma mulher branca de cabelos claros, veste uma roupa de tom quase branco com os ombros à mostra. Ela segura o livro O peso do pássaro morto próximo ao seu rosto. Ao fundo um painel vermelho e o logo da editora constituem o cenário. " width="740" height="640" /><figcaption id="caption-attachment-26737" class="wp-caption-text">O peso do pássaro morto foi o vencedor do prêmio São Paulo de Literatura de 2018, na categoria Melhor Romance de Autor Estreante com Menos de 40 anos (Foto: Aline Bei)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">Apresentada em primeira pessoa, a personagem de </span><a href="https://www.bpp.pr.gov.br/Candido/Noticia/Entrevista-Aline-Bei#:~:text=Na%20entrevista%20a%20seguir%2C%20Aline,O%20Peso%20do%20P%C3%A1ssaro%20Morto."><span style="font-weight: 400;">Bei</span></a><span style="font-weight: 400;"> não precisa revelar seu nome para nos ser tão íntima a ponto de conhecermos o mais silencioso de dentro dela. Sua urgência vive na narrativa que tem para contar. Em capítulos intitulados pelas idades em que conheceu o incontrolável ato de morrer – seja de forma literal ou na abstração –, ela desabrocha em vocábulos o tom angustiante existente em suas decepções, fracassos e traumas. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Ao longo das fases do livro, a </span><a href="https://blogs.plural.jor.br/entre-mulheres/uma-entrevista-com-aline-bei/"><span style="font-weight: 400;">escrita</span></a><span style="font-weight: 400;"> amadurece, e o que eram palavras de uma criança curiosa e cheia de perguntas carregadas de inocência, dá lugar para uma voz embargada e desesperançosa. A mudança na escolha lexical, no entusiasmo e na estrutura das frases a cada acontecimento significativo, cria uma atmosfera na qual o livro envelhece e se machuca junto de sua protagonista. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">A </span><a href="https://personaunesp.com.br/entrevista-aline-bei/"><span style="font-weight: 400;">autora</span></a><span style="font-weight: 400;"> sabe conduzir a oralidade de maneira única, e é fácil esquecer que </span><i><span style="font-weight: 400;">O peso do pássaro morto</span></i><span style="font-weight: 400;"> se trata de uma leitura, pois assim, o som emitido pela protagonista se solidifica. Desta forma, os vários anos parecem se condensar em um espaço pequeno, mas totalmente completo por complexidade e sentimento. As 165 páginas construtoras da dor da anônima voam tão rápido quanto os pássaros deveriam ter feito.  </span></p>
<blockquote><p><span style="font-weight: 400;">&#8220;voltei pra casa chamando mãe,<br />
</span><span style="font-weight: 400;">– cadê o seu luís?<br />
</span><span style="font-weight: 400;">ela não tinha me contado nada porque achou que era muita morte pra eu saber de uma vez só.&#8221;</span></p></blockquote>
<p><span style="font-weight: 400;">A</span><span style="font-weight: 400;"> menina que aos 8 encontra o significado da </span><a href="https://jornal.usp.br/atualidades/a-dificuldade-de-falar-sobre-a-morte/"><span style="font-weight: 400;">morte</span></a><span style="font-weight: 400;"> como fim da vida, a de 17 que encontra a morte no fim do controle de si mesma, e a de 18 que encontra a morte no começo da vida segue perdendo seus pedaços até os 52 anos. Todas as versões se cruzam para formar uma sobrevivente, e no piloto automático resiste uma mulher que, de tanto perder, abdicou do seu direito de sentir. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Em algum ponto de </span><i><span style="font-weight: 400;">O peso do pássaro morto</span></i><span style="font-weight: 400;">, o ser dá lugar ao existir, e os gostos, as vontades e os desejos da personagem são ofuscados por acontecimentos. A pergunta deixa de ser “</span><i><span style="font-weight: 400;">quem?</span></i><span style="font-weight: 400;">”, e se torna “</span><i><span style="font-weight: 400;">quando?”</span></i><span style="font-weight: 400;"> e “</span><i><span style="font-weight: 400;">onde?”</span></i><span style="font-weight: 400;">. Calada por um medo e vergonha que não eram seus, mas passaram a morar em seu âmago </span><a href="https://www.uol.com.br/vivabem/noticias/redacao/2020/11/16/luto-e-dor-invisiveis-como-o-estupro-afeta-a-saude-mental-das-vitimas.htm"><span style="font-weight: 400;">à força</span></a><span style="font-weight: 400;">, ela se esconde e passa a desconhecer o amor. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">A relação com o filho é uma dos maiores conflitos abrigados pela mente da personagem, já que alguém vindo de seu sangue, na teoria da </span><a href="https://sul21.com.br/noticias/geral/2017/05/outro-lado-da-maternidade-estereotipos-expectativas-e-mitos-sao-barreiras-para-maes/"><span style="font-weight: 400;">maternidade</span></a><span style="font-weight: 400;"> idealizada pela sociedade, é o amor mais verdadeiro e incodicional da vida de uma mulher. Entretanto, aqui ele representa um estranho com o qual se compartilha o mesmo teto. Por trás das barreiras, há feridas tão profundas que são incapazes de esconder a extensão do desespero. </span></p>
<blockquote><p><span style="font-weight: 400;">&#8220;meu filho<br />
</span><span style="font-weight: 400;">arrumou 1 Estilingue não sei onde.<br />
</span><span style="font-weight: 400;">da janela do quarto<br />
</span><span style="font-weight: 400;">o lucas e os amigos<br />
</span><span style="font-weight: 400;">bolaram um plano de matar<br />
</span><span style="font-weight: 400;">passarinhos,<br />
</span><span style="font-weight: 400;">eles gostam de ver<br />
</span><span style="font-weight: 400;">brutalmente interrompido<br />
</span><span style="font-weight: 400;">algo delicado que estava em<br />
</span><span style="font-weight: 400;">Movimento&#8221;</span></p></blockquote>
<p><span style="font-weight: 400;">Ao fim, </span><i><span style="font-weight: 400;">O peso do pássaro morto</span></i><span style="font-weight: 400;"> está intrinsecamente ligado às </span><a href="https://www1.folha.uol.com.br/ilustrada/2021/05/aline-bei-faz-da-literatura-um-instrumento-a-servico-das-mulheres.shtml"><span style="font-weight: 400;">mulheres</span></a><span style="font-weight: 400;"> e ao movimento dos corpos femininos transformados em objetos públicos para o mundo se sentir no direito de  moldar. Em suas entrelinhas, o livro guarda a alusão a tudo que as mãos de uma mulher tem de soltar enquanto a alma carrega um peso latente e agressivo determinado pela trivialidade de ser. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Com simplicidade e brutalidade, o texto expõe os resultados dolorosos de cortes que continuam ardendo depois de estancar o sangue. Cada parte do </span><a href="https://www.youtube.com/watch?v=EJ2TSnZjpYg"><span style="font-weight: 400;">livro</span></a><span style="font-weight: 400;"> revela como uma pessoa pode deixar se ser inteira cedo demais de uma forma cativante e aflitiva. Assim, perder não é sobre um objeto desaparecido. É sobre vida, ingenuidade, pureza, confiança e tudo que representa a fé, sumindo como o pássaro que é acertado pela pedra de um estilingue.</span></p>
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		<title>A filha perdida de Elena Ferrante pode ser você</title>
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		<pubDate>Thu, 10 Feb 2022 20:43:02 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Literatura]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Raquel Dutra &#8220;As coisas mais difíceis de falar são as que nós mesmos não conseguimos entender&#8220;, define muito bem Elena Ferrante no que vem a ser o prólogo de seu terceiro romance. Lançado no Brasil em 2016 pela editora Intrínseca, A filha perdida traz o pseudônimo italiano, aclamado por suas  personagens femininas e reverenciado por &#8230; <a href="http://personaunesp.com.br/elena-ferrante-a-filha-perdida-critica/" class="more-link">Continue lendo<span class="screen-reader-text"> "A filha perdida de Elena Ferrante pode ser você"</span></a></p>
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										<content:encoded><![CDATA[<figure id="attachment_26020" aria-describedby="caption-attachment-26020" style="width: 1024px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="wp-image-26020 size-full" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/02/AFILHAPERDIDA_WORDPRESS_0222.jpg" alt="Imagem retangular de fundo laranja. Ao centro, foi adicionada a capa do livro A Filha Perdida, um selo escrito Clube do Livro Persona no canto direito inferior e o logo do Persona no canto esquerdo superior. A capa é repleta de casas de telhado marrom avermelhado, no estilo mediterrâneo. É possível ver o céu e o mar azuis e uma torre verde. Está escrito, em letras brancas, &quot;A FILHA PERDIDA&quot; e &quot;ELENA FERRANTE&quot;. Na parte inferior central, há o selo da Intrínseca." width="1024" height="538" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/02/AFILHAPERDIDA_WORDPRESS_0222.jpg 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/02/AFILHAPERDIDA_WORDPRESS_0222-800x420.jpg 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/02/AFILHAPERDIDA_WORDPRESS_0222-768x404.jpg 768w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 1362px) 62vw, 840px" /><figcaption id="caption-attachment-26020" class="wp-caption-text">Recentemente adaptado para o cinema, A filha perdida foi a escolha para o mês de dezembro de 2021 no Clube do Livro do Persona (Foto: Intrínseca/Arte: Jho Brunhara)</figcaption></figure>
<p><b>Raquel Dutra</b></p>
<p><span style="font-weight: 400;">&#8220;</span><i><span style="font-weight: 400;">As coisas mais difíceis de falar são as que nós mesmos não conseguimos entender</span></i><span style="font-weight: 400;">&#8220;, define muito bem </span><a href="https://personaunesp.com.br/tag/elena-ferrante/"><span style="font-weight: 400;">Elena Ferrante</span></a><span style="font-weight: 400;"> no que vem a ser o prólogo de seu terceiro romance. Lançado no Brasil em 2016 pela editora </span><i><span style="font-weight: 400;">Intrínseca</span></i><span style="font-weight: 400;">, </span><i><span style="font-weight: 400;">A filha perdida</span></i><span style="font-weight: 400;"> traz o pseudônimo italiano, aclamado por suas  personagens femininas e reverenciado por sua honestidade cortante, numa proposta de encarar com honestidade o que talvez seja um dos principais aspectos da experiência da mulher na sociedade &#8211; e também </span><a href="https://blogueirasfeministas.com/2011/05/08/feminismo-maternidade-e-a-briga-nossa-de-cada-dia/"><span style="font-weight: 400;">um dos assuntos mais intocáveis</span></a><span style="font-weight: 400;"> desde o início dos tempos -: a maternidade.</span><span style="font-weight: 400;"> </span></p>
<p><span id="more-25952"></span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">O pretexto para uma análise do lugar mais comum da formação da sociedade também deveria ser simples e acessível, numa direção completamente inversa à que sua complexidade pode sugerir. Então, assim </span><i><span style="font-weight: 400;">A filha perdida</span></i><span style="font-weight: 400;"> (</span><i><span style="font-weight: 400;">La figlia oscura</span></i><span style="font-weight: 400;">, no original) o faz: o livro nos coloca para acompanhar a história de </span><a href="https://claudia.abril.com.br/coluna/cronicas-de-mae/escolhas-maternidade/"><span style="font-weight: 400;">uma mãe e suas filhas</span></a><span style="font-weight: 400;">, que recai também sobre a sua história com sua própria mãe e sua experiência enquanto filha. O recorte e o objeto escolhidos surgem de um período de férias de Leda, uma professora universitária de meia idade, divorciada e mãe de Bianca e Marta, de 22 e 24 anos, que procura descanso no litoral sul da Itália, próxima da cidade onde nasceu e cresceu, depois que as filhas vão morar com o pai em outro país.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Mas Elena Ferrante não permite que o mergulho da personagem fique apenas nas águas pacificamente salgadas e agradavelmente ondulosas. O que deveria ser um momento de repouso para Leda se transforma num processo intenso de autorreflexão, desencadeado a partir do momento em que a personagem repara uma família também de férias pela região. Ela estabelece uma </span><a href="https://artrianon.com/2022/01/14/a-filha-perdida-livro-e-filme-um-honesto-relato-entre-os-tabus-da-maternidade/"><span style="font-weight: 400;">identificação singular</span></a><span style="font-weight: 400;"> com Nina, a jovem mãe de Elena, que sempre se mostra um tanto deslocada do resto daquele grupo de pessoas &#8211; exceto quando exercendo passionalmente a sua maternidade. </span></p>
<figure id="attachment_25955" aria-describedby="caption-attachment-25955" style="width: 1280px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-full wp-image-25955" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/02/maggie-perdida-1.jpg" alt="" width="1280" height="853" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/02/maggie-perdida-1.jpg 1280w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/02/maggie-perdida-1-800x533.jpg 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/02/maggie-perdida-1-1024x682.jpg 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/02/maggie-perdida-1-768x512.jpg 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/02/maggie-perdida-1-1200x800.jpg 1200w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 1362px) 62vw, 840px" /><figcaption id="caption-attachment-25955" class="wp-caption-text">Nos cinemas, a história foi contada por Maggie Gyllenhaal, numa estreia impressionante da diretora e roteirista, que saiu premiada do <a href="https://www.instagram.com/p/CT5ssphNzJv/">Festival de Veneza 2021</a> (Foto: Yannis Drakoulidis/Netflix)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">Ao observar as cenas protagonizadas pela família napolitana e deixar-se afetar pela maresia enquanto sozinha e longe de casa, a protagonista de </span><i><span style="font-weight: 400;">A filha</span></i> <i><span style="font-weight: 400;">perdida</span></i><span style="font-weight: 400;"> acaba em memórias que remexem sentimentos profundos sobre sua família, infância, casamento e, principalmente, o início de sua vida como mãe. Impulsionada pela imersiva escrita em primeira pessoa, Elena Ferrante é dolorosamente sincera sob o pretexto de verbalizar as emoções de Leda, dedicando-se quase compulsivamente a um livro repleto de ‘canetadas’ sobre seu complexo tema central, que é marcado por </span><a href="https://leiturinha.com.br/blog/maternidade-real/"><span style="font-weight: 400;">vivências profundas</span></a><span style="font-weight: 400;"> de quem o experiencia, mas também alvo de uma </span><a href="https://cultura.estadao.com.br/noticias/televisao,a-filha-perdida-perturba-ao-tocar-na-sacralizacao-da-maternidade,70003941704"><span style="font-weight: 400;">sacralização</span></a><span style="font-weight: 400;"> histórica vinda de quem o observa de fora. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Por consequência &#8211; muito bem calculada, vale ressaltar -, a única coisa que não pode ser encontrada na protagonista é o estereótipo do </span><a href="https://personaunesp.com.br/amor-de-mae-critica/"><i><span style="font-weight: 400;">amor de mãe</span></i></a><span style="font-weight: 400;">. Leda está completamente à vontade conversando consigo mesma, e nada esconde de quem toma parte de suas emoções, mostrando-se uma personagem que, muito longe de ser agridoce, é acidamente amarga. Mas ao contrário do que todas as suas camadas podem sugerir, a protagonista de </span><i><span style="font-weight: 400;">A filha perdida</span></i><span style="font-weight: 400;"> é profundamente relacionável, como o resultado de um estudo preciso da mulher que é marcada pela inevitabilidade de pelo menos uma das duas vias trabalhadas pelo romance: a experiência de uma mulher </span><a href="https://www.imagempalavramovimento.com/single-post/2016/05/06/ser-m%C3%A3e-e-ser-filha"><span style="font-weight: 400;">como filha e como mãe</span></a><span style="font-weight: 400;">.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Seguindo o caminho de forte oposição aos polidos padrões patriarcais, a linguagem de Elena Ferrante não procura atender nada que não seja a verdade de quem vive além de todas as </span><a href="https://agorasoumae.com.br/estereotipo-de-mae-como-a-sociedade-limita-a-mulher-ao-de-mae/"><span style="font-weight: 400;">expectativas impossíveis</span></a><span style="font-weight: 400;"> de benevolência, controle e sabedoria. </span><i><span style="font-weight: 400;">A filha perdida</span></i><span style="font-weight: 400;"> não nos deixa enganar: a sinceridade de sua protagonista pode parecer autodepreciativa, mas Leda é austera demais até para o nível mais complexo de autopiedade e distanciamento da realidade. Vide os momentos mais críticos de sua história, onde é comum encontrar uma reação viciada da personagem, que como forma de se defender dos julgamentos, tentar compreender seu próprio comportamento e/ou até mesmo como forma de expressar a confusão mental que surge após relembrar memórias tão emocionalmente atribuladas, desabafa fria e sinceramente um &#8220;</span><i><span style="font-weight: 400;">Não sei o que aconteceu&#8221;</span></i><span style="font-weight: 400;">.</span></p>
<blockquote><p><span style="font-weight: 400;">“</span><span style="font-weight: 400;">Bianca uma vez gritou para mim, aos prantos: você sempre se acha superior. E Marta: por que você quis nos ter se não faz outra coisa além de se queixar de nós? Pedaços de palavras, sílabas apenas. <strong>Sempre chega o momento em que os filhos dizem com raiva e tristeza: por que você me deu a vida?</strong></span><span style="font-weight: 400;">”</span></p></blockquote>
<p><span style="font-weight: 400;">Mas se a narrativa recusa completamente o principal aspecto dos padrões maternais, outro elemento fundamental da experiência é o que mais transborda das vivências de Leda &#8211; e incomoda o leitor de </span><i><span style="font-weight: 400;">A filha perdida</span></i><span style="font-weight: 400;">. Ela nutre uma consciência concreta de tudo, desde o que recebeu da mãe, seus traumas, até o que deixou para as filhas e os padecimentos das garotas. Para encerrar o panorama emocional do livro, Ferrante orienta tudo isso para desencadear o sentimento mais silencioso de suas páginas reflexivamente barulhentas. E quanto à </span><a href="https://vogue.globo.com/moda/moda-news/noticia/2019/08/importancia-de-outras-maes-para-uma-maternidade-com-menos-culpa.html"><span style="font-weight: 400;">emoção mais ingrata</span></a><span style="font-weight: 400;"> para uma mulher que exerce o papel de mãe, não há o que ser discutido além da própria expressão da personagem: “</span><i><span style="font-weight: 400;">Era o sentimento de culpa: eu achava que todo sofrimento que atingisse as minhas filhas era fruto do já comprovado fracasso do meu amor</span></i><span style="font-weight: 400;">”.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">É assim que </span><i><span style="font-weight: 400;">A filha perdida</span></i><span style="font-weight: 400;"> compõe o retrato complexo do relacionamento mãe-e-filha, aprofundando uma análise sobre relações </span><a href="https://www.32rba.abant.org.br/arquivo/downloadpublic?q=YToyOntzOjY6InBhcmFtcyI7czozNToiYToxOntzOjEwOiJJRF9BUlFVSVZPIjtzOjQ6IjMyNDciO30iO3M6MToiaCI7czozMjoiZWQyMDQ3NDQ2MDQxZWIxZWE3OTJhODg0MmEwY2ZlYTciO30%3D"><span style="font-weight: 400;">intergeracionais</span></a><span style="font-weight: 400;">. Uma menina rigidamente criada em padrões de gênero se transforma em uma mulher que cria duas garotas em uma nova época, ciente dos comportamentos maternos que lhe foram traumáticos, mas que, ao mesmo tempo, ainda carrega marcas teimosas de estereótipos sexistas e misóginos. Não por acaso, a personagem carrega como certeza a ideia de que o que mais ama em suas filhas é o que é estranho à sua própria personalidade. Assim, Leda é indiscutivelmente uma filha machucada e uma mãe que machuca. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Entre comparações, intromissões e julgamentos que orientam sua interação com Marta e Bianca, Leda constrói sua autopercepção através da visão que as filhas têm dela &#8211; ou mais precisamente, a que acredita que elas têm. Entre ser aterrorizada pela possibilidade de infelicidade das garotas e manifestar comportamentos destrutivos para aspectos importantes da vida das duas, </span><a href="https://www.uol.com.br/universa/noticias/redacao/2019/04/11/por-que-tantas-mulheres-repetem-na-relacao-atitudes-que-criticavam-nas-maes.htm"><span style="font-weight: 400;">a relação paradoxal entre as mães e as filhas</span></a><span style="font-weight: 400;"> se mostra cada vez mais longe de ser um ideal. E enquanto isso, a trama de </span><i><span style="font-weight: 400;">A filha perdida</span></i><span style="font-weight: 400;"> se mostra cada vez mais próxima da realidade.</span></p>
<blockquote><p>“Nas conversas com as minhas filhas, ouço palavras ou expressões omitidas. Às vezes, elas ficam com raiva e dizem “mamãe, eu nunca falei isso, é você que está dizendo, você inventou isso”. Mas eu não invento nada, só escuto, <strong>o não dito fala mais que o não dito</strong>.”</p></blockquote>
<p><span style="font-weight: 400;">Em momento algum, porém, a escrita de Elena Ferrante coloca a sua protagonista em vestes vilanescas. É para aprofundar ainda mais </span><a href="https://glamour.globo.com/lifestyle/noticia/2022/01/a-filha-perdida-lembra-que-maes-sao-antes-de-tudo-mulheres.ghtml"><span style="font-weight: 400;">a humanidade da personagem</span></a><span style="font-weight: 400;">, aliás, que existe o gatilho da história, quando a imagem de Nina atrai o olhar de Leda. Ela já tem um histórico de encantamento por mulheres jovens manifestando felicidade e liberdade, como os devaneios do livro e algumas figurantes introduzem muito bem, mas encontrar alguém em seus </span><a href="https://www.revide.com.br/noticias/cidades/dia-das-maes-sobre-ser-mae-e-ser-jovem/"><span style="font-weight: 400;">vinte e poucos anos</span></a><span style="font-weight: 400;"> (aparentemente) contente com a própria maternidade é demais para aquele psicológico, que foi pego de surpresa por um ser crescendo dentro de si quando tinha 23 anos. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">É que a autora de </span><i><span style="font-weight: 400;">A filha perdida</span></i> <a href="https://valkirias.com.br/personagens-limitrofes-elena-ferrante/"><span style="font-weight: 400;">respeita demais suas personagens</span></a><span style="font-weight: 400;"> e nem mesmo a jovem-segunda-protagonista está ali apenas como um alvo de projeção. Não há como fugir da perspectiva das mães da história, afinal. Então, Nina também tem espaço para revelar suas questões à medida em que se aproxima de Leda. Oscilando radicalmente entre ilustrar uma mãe ideal e exemplificar a </span><a href="https://www.analuizadefigueiredosouza.com.br/post/maternidade-compuls%C3%B3ria-defini%C3%A7%C3%A3o-e-problematiza%C3%A7%C3%B5es#:~:text=De%20modo%20mais%20simples%2C%20conforme,represente%20de%20fato%20uma%20escolha.&amp;text=A%20socializa%C3%A7%C3%A3o%20feminina%20%C3%A9%20fortemente%20marcada%20pelo%20maternalismo."><span style="font-weight: 400;">maternidade compulsória</span></a><span style="font-weight: 400;"> &#8211; que apreende as meninas desde o momento em que elas passam a existir neste mundo -, a relação das duas segue complexa. Assim, Ferrante traz fôlego narrativo ao livro, mais como história e menos como análise social, ao mesmo tempo em que funde as duas perspectivas. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">“</span><a href="https://diariodonordeste.verdesmares.com.br/opiniao/colunistas/lorena-portela/a-filha-perdida-nao-funcionaria-com-um-pai-no-papel-principal-e-isso-e-um-problema-1.3180803"><i><span style="font-weight: 400;">E cadê o pai dessas crianças?</span></i></a><span style="font-weight: 400;">”, alguém que lê um texto sobre </span><i><span style="font-weight: 400;">A filha perdida</span></i><span style="font-weight: 400;"> pode se perguntar. Aqui está mais um estalo genial de Elena Ferrante: a completa desnecessidade de mencionarmos o homem que concebeu as garotas junto de Leda diz muito sobre o tipo de história encontrada em </span><i><span style="font-weight: 400;">A filha perdida</span></i><span style="font-weight: 400;">. Sem precisar da representação de uma figura de paternidade totalmente ausente, o livro mostra que pouco importa sua ação dentro da narrativa. E num retrato fiel de quem absorve a ideia social de que é a principal responsável pelos filhos numa série de cuidados tidos como impossíveis de serem divididos, a amargura de Leda não o tem entre seus principais alvos.</span></p>
<blockquote><p>“Assim, aos vinte e poucos anos, qualquer outra brincadeira havia acabado para mim. O pai corria mundo afora, uma oportunidade atrás da outra. Não tinha nem tempo de reparar o que fora copiado do seu corpo, como havia resultado a reprodução. Mal olhava as duas meninas, mas dizia com ternura verdadeira: são iguaizinhas a você. Gianni é um homem gentil, nossas filhas gostam dele. <strong>Ele cuidou pouco ou nada delas, mas, quando foi necessário, fez tudo o que podia, agora também faz tudo o que pode.</strong>”</p></blockquote>
<p><span style="font-weight: 400;">Para uma história totalmente fundamentada na densidade emocional de idas e vindas de sua protagonista, </span><i><span style="font-weight: 400;">A filha perdida</span></i><span style="font-weight: 400;"> se organiza num ritmo regular. Trazendo ordem ao caos, os capítulos de Elena Ferrante parecem seguir um padrão muito bem disfarçado, sempre desenrolando um momento presente que logo desencadeará uma reflexão íntima na personagem que narra a história. Entretanto, </span><a href="https://cultura.estadao.com.br/noticias/literatura,escrever-e-como-girar-a-faca-na-ferida-revela-elena-ferrante,70003417132"><span style="font-weight: 400;">a maestria da autora</span></a><span style="font-weight: 400;"> não permite conclusões precipitadas: em momento algum, essa construção se transforma num defeito do romance, já que a progressão de sua trama é tão imprevisível quanto o caminho da mente desenfreada de Leda.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Quanto às polêmicas sobre a identidade por trás de um dos nomes de maior sucesso da Literatura contemporânea, </span><i><span style="font-weight: 400;">A filha perdida</span></i><span style="font-weight: 400;"> estreita as possibilidades. A facilidade com que a autora arquiteta as digressões de Leda só pode surgir de um </span><a href="https://valkirias.com.br/as-mulheres-de-elena-ferrante/"><span style="font-weight: 400;">lugar radical de identificação e análise</span></a><span style="font-weight: 400;">. E é fato que a universalidade do tema faz com que a tradução do livro não seja um ponto de complicação para </span><a href="https://revistacult.uol.com.br/home/elena-ferrante-marcello-lino/"><span style="font-weight: 400;">Marcello Lino</span></a><span style="font-weight: 400;">, mas é de se questionar porque a edição brasileira não apostou numa transcrição que tivesse mais proximidade com as experiências que Elena Ferrante decidiu retratar. A impressão é de que a pessoa por trás do pseudônimo tem completa ciência de que isso poderia acontecer com as suas traduções pelo mundo, porque a objetividade de </span><i><span style="font-weight: 400;">A filha perdida</span></i><span style="font-weight: 400;"> ancora suas leituras mais profundas em representações concretas &#8211; a boneca, a pinha, o ventre, a agulha e quem sabe até a personagem que compartilha o mesmo nome da autora.</span></p>
<blockquote><p>“As línguas, para mim, têm um veneno secreto que de vez em quando aflora e para o qual não há antídoto.”</p></blockquote>
<p><span style="font-weight: 400;">É preciso ressaltar, no entanto, que a obra não se sufoca numa narrativa monotemática, mas ainda provoca reflexões sobre o próprio processo de formação de uma família, a cultura italiana e até observações linguísticas. </span><i><span style="font-weight: 400;">A filha perdida</span></i><span style="font-weight: 400;"> em nada é o que parece. Muito mais do que ancorar um suspense ou melodrama, o romance, de forma quase metalinguística ao trabalho de sua autora, está em algo além: </span><a href="https://brasil.elpais.com/brasil/2019/02/28/estilo/1551353871_772692.html"><span style="font-weight: 400;">o maior trabalho que se pode ter na vida</span></a><span style="font-weight: 400;"> enquanto em uma das posições mais difíceis que se pode estar dentro da sociedade. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Para suceder o aclamado </span><a href="https://www.instagram.com/p/COv4EEtHyKu/?utm_medium=copy_link"><i><span style="font-weight: 400;">Dias de Abandono</span></i></a><span style="font-weight: 400;"> (2002), visto por boa parte da crítica literária como o seu melhor romance, Elena Ferrante voltou o seu olhar para a complexidade deste processo, envolto em estereótipos de gênero, padrões históricos de comportamento, expectativas enormes de coisas que são muito maiores do que nós. Em seus caminhos para tal, </span><i><span style="font-weight: 400;">A filha perdida</span></i><span style="font-weight: 400;"> conclui uma observação: </span><a href="https://lunetas.com.br/a-filha-perdida/"><span style="font-weight: 400;">todas nós</span></a><span style="font-weight: 400;"> somos a filha perdida em algum aspecto. Menos a criação de Elena Ferrante, que é plenamente consciente de tudo isso, sabe onde está, e certamente saberá onde te encontrar.</span></p>
<p><a href="https://open.spotify.com/playlist/7qvhxwKpQrhRCZcqYqrl8f?si=b7bfd9811f1441f6">https://open.spotify.com/playlist/7qvhxwKpQrhRCZcqYqrl8f?si=b7bfd9811f1441f6</a></p>
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		<title>Belo Mundo, Onde Você Está: as frustrações do mundo jovem adulto</title>
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		<pubDate>Fri, 19 Nov 2021 17:54:06 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Literatura]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Isabella Siqueira Lançado em setembro de 2021, Belo Mundo, Onde Você Está (Beautiful World, Where Are You) é o terceiro romance de Sally Rooney, célebre escritora conhecida pelo sucesso Pessoas Normais. Lançado simultaneamente no Brasil, o livro discorre sobre as incertezas e inseguranças do mundo jovem adulto, assunto já consolidado na literatura da autora inglesa.  &#8230; <a href="http://personaunesp.com.br/belo-mundo-onde-voce-esta-critica/" class="more-link">Continue lendo<span class="screen-reader-text"> "Belo Mundo, Onde Você Está: as frustrações do mundo jovem adulto"</span></a></p>
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										<content:encoded><![CDATA[<figure id="attachment_24339" aria-describedby="caption-attachment-24339" style="width: 550px" class="wp-caption aligncenter"><img loading="lazy" decoding="async" class="wp-image-24339" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/11/f0b891d1-ca43-4d87-a300-a7780f649fd2.jpg" alt=" Capa do livro Belo Mundo, Onde Você Está. Na imagem, há uma capa azul, com o logo da editora Companhia das Letras na parte inferior esquerda da foto. O nome da autora, Sally Rooney, está escrito em letras maiúsculas pretas na parte central superior da página. Embaixo do nome da autora, está localizado o título da obra também em letras pretas e maiúsculas. Na foto, estão localizados quatro personagens cortados ao meio por faixas amarelas. " width="550" height="824" /><figcaption id="caption-attachment-24339" class="wp-caption-text">Belo Mundo, Onde Você Está é o terceiro romance da escritora inglesa, que lançou também os livros Pessoas Normais e Conversas Entre Amigos (Foto: Editora Companhia das Letras)</figcaption></figure>
<p><b>Isabella Siqueira</b></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Lançado em setembro de 2021, </span><i><span style="font-weight: 400;">Belo Mundo, Onde Você Está</span></i><span style="font-weight: 400;"> (</span><i><span style="font-weight: 400;">Beautiful World, Where Are You</span></i><span style="font-weight: 400;">) é o terceiro romance de </span><a href="https://www.companhiadasletras.com.br/autor.php?codigo=05555"><span style="font-weight: 400;">Sally Rooney</span></a><span style="font-weight: 400;">, célebre escritora conhecida pelo sucesso </span><a href="http://personaunesp.com.br/normal-people-critica/"><i><span style="font-weight: 400;">Pessoas Normais</span></i></a><span style="font-weight: 400;">. Lançado simultaneamente no Brasil, o livro discorre sobre as incertezas e inseguranças do mundo jovem adulto, assunto já consolidado na literatura da autora inglesa. </span></p>
<p><span id="more-24338"></span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Sally Rooney é um fenômeno inegável. Seus livros são tão familiares para a </span><a href="https://www.bbc.com/portuguese/internacional-57938082"><span style="font-weight: 400;">geração </span><i><span style="font-weight: 400;">millennial</span></i></a><span style="font-weight: 400;">, representada no romance </span><i><span style="font-weight: 400;">Belo Mundo, Onde Você Está</span></i><span style="font-weight: 400;"> pela melancolia que sentem. Se engana quem pensa que a obra fala sobre dois casais e suas histórias românticas ideais, Rooney se aprofunda em quatro personagens diversos, explorando suas frustrações e o caminho confuso de suas vidas sentimentais.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Tal como em </span><i><span style="font-weight: 400;">Pessoas Normais</span></i><span style="font-weight: 400;">, Sally Rooney opta por detalhar cada aspecto da rotina cotidiana, evidenciando a neurose dos jovens com a vida que levam, ao mesmo tempo dando certa densidade psicológica para o romance. A escrita clássica da autora também vai tomando outras formas, grande parte da narrativa do livro se dá em longos </span><i><span style="font-weight: 400;">e-mails</span></i><span style="font-weight: 400;">, que parecem terem sido escritos sem um único respiro, em uma espécie de fluxo de pensamentos interminável. </span></p>
<blockquote><p><span style="font-weight: 400;">“E quem sou eu para pedir humildade e franqueza dos outros? O que eu já dei ao planeta para pedir tanto em troca? Eu poderia me desintegrar em um monte de poeira que o mundo não daria a mínima, e é assim que tem que ser.”</span></p></blockquote>
<p><span style="font-weight: 400;">Com tradução de Débora Landsberg, o </span><a href="https://www1.folha.uol.com.br/ilustrada/2021/09/novo-livro-de-sally-rooney-de-pessoas-normais-parece-escrito-para-adolescentes.shtml"><span style="font-weight: 400;">romance</span></a><span style="font-weight: 400;"> não possui uma trama definida, o leitor não recebe uma história com um caminho certo ou previsível. A história, tal qual o mundo jovem adulto na maioria dos casos, é feita de incertezas e indecisões. A trama apresenta quatro personagens principais: Alice, Felix, Eileen e Simon, jovens em seus quase 30 anos que possuem características e debates interiores sensacionais. O ponto de encontro desse grupo de pessoas é a amizade de Alice e Eileen, duas colegas de faculdade que estão distantes fisicamente, mas que permanecem em contato por meio da correspondência eletrônica.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Presente no contexto editorial, Alice é uma jovem escritora assustada com o sucesso inusitado que enfrentou com o lançamento de seus dois primeiros romances. Sally Rooney opta por discutir a Literatura contemporânea pela ótica e perspectiva da personagem, que além de ser cética quanto ao rumo da coisa toda, que parece não enfrentar o mundo, também se sente intimidada com os compromissos profissionais da carreira literária. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Após um surto, a personagem opta por deixar para trás o universo editorial de Dublin, Nova York e Londres, se refugiando numa pequena cidade da Irlanda. É nesse cenário que Alice conhece Felix, o homem mais distante do mundo literário possível. De certa forma, ele se distancia também de todos outros protagonistas, fazendo parte da vida real. O casal se conhece pelo </span><i><span style="font-weight: 400;">Tinder </span></i><span style="font-weight: 400;">e, após um primeiro encontro horrendo, acabam construindo uma relação difícil de definir. </span></p>
<figure id="attachment_24340" aria-describedby="caption-attachment-24340" style="width: 1086px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-full wp-image-24340" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/11/95042144_SC-EXCLUSIVA-A-escritora-Sally-Rooney-autora-de-Normal-People-lanca-novo-livro-Belo-mund.jpg" alt="Na imagem, a autora Sally Rooney está posando para uma foto de perfil. Posando em um fundo que está desfocado, a escritora é uma mulher branca com cabelos castanhos e médios. Ela está posicionada com seus braços ao lado dentro de um bolso. Além disso, a autora também veste uma camisa branca, com uma saia xadrez em azul e verde, que está presa por um cinto marrom. Ao fundo está um campo com grama e árvores. " width="1086" height="652" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/11/95042144_SC-EXCLUSIVA-A-escritora-Sally-Rooney-autora-de-Normal-People-lanca-novo-livro-Belo-mund.jpg 1086w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/11/95042144_SC-EXCLUSIVA-A-escritora-Sally-Rooney-autora-de-Normal-People-lanca-novo-livro-Belo-mund-800x480.jpg 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/11/95042144_SC-EXCLUSIVA-A-escritora-Sally-Rooney-autora-de-Normal-People-lanca-novo-livro-Belo-mund-1024x615.jpg 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/11/95042144_SC-EXCLUSIVA-A-escritora-Sally-Rooney-autora-de-Normal-People-lanca-novo-livro-Belo-mund-768x461.jpg 768w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 1362px) 62vw, 840px" /><figcaption id="caption-attachment-24340" class="wp-caption-text">Após a adaptação de Normal People como minissérie em 2020, o romance Conversas Entre Amigos será adaptado como uma série também pelo selo Hulu e BBC (Foto: Ellius Grace)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">A questão da classe social cria tensões que não separam o casal, mas demarcam a diferença gritante entre a realidade de ambos. Felix trabalha como empacotador em depósito, um </span><a href="http://personaunesp.com.br/nomadland-critica/"><span style="font-weight: 400;">subemprego braçal</span></a><span style="font-weight: 400;"> e distante da complexidade intelectual do trabalho de Alice em seu mundo literário. Impulsivo e inquieto, o personagem possui uma tendência absurda para a autossabotagem, sempre fazendo comentários insensíveis e tomando atitudes questionáveis. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Vivendo separada da amiga em Dublin, Eileen é lembrada pela insegurança e solidão que sente. A personagem herdou essas características de suas relações familiares, com quem mantém um rancor particular, principalmente, com sua irmã Lola, cujo casamento iminente parece estressar Eileen ainda mais. Além do término recente com o namorado de longa data, a vida profissional pouco ajuda a mulher, que está muito distante do </span><i><span style="font-weight: 400;">glamour </span></i><span style="font-weight: 400;">e reconhecimento da amiga, possuindo um emprego que odeia em uma revista literária e a famosa instabilidade financeira.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Com a fuga de sua melhor amiga, o único refúgio de Eileen se torna Simon, um amigo de infância que foi sua defesa contra o tratamento da irmã e o acolhimento precário dos pais. Por sua vez, Simon age como um salvador para as mulheres (incluindo Eileen) jovens com quem se relaciona. Apesar de parecer mais estável que os demais protagonistas, ele possui aspectos muito destoantes entre si, agindo como um </span><a href="http://personaunesp.com.br/fleabag-2a-temp-critica/"><span style="font-weight: 400;">católico meio cretino</span></a><span style="font-weight: 400;">. Sua relação devota com a religião molda em parte sua personalidade, apesar de não dispensar o sexo casual, ele opta por agir com um mártir culpado que resgata jovens moças sempre que pode, um comportamento refletido em sua profissão. Simon é um parlamentar que discute problemas sociais mas que, efetivamente, não faz nada significativo. </span></p>
<blockquote><p><span style="font-weight: 400;">“O que nós temos agora no lugar? Nada. E detestamos as pessoas por cometerem erros muito mais do que as amamos por fazerem o bem, portanto o jeito mais fácil de viver é não fazer nada, não dizer nada e não amar ninguém.&#8221;</span></p></blockquote>
<p><span style="font-weight: 400;">Narrado em terceira pessoa,</span><i><span style="font-weight: 400;"> Belo Mundo, Onde Você Está</span></i><span style="font-weight: 400;"> intercala o ponto de vista entre os protagonistas, mas acaba mantendo o foco na relação entre as amigas, Eileen e Alice. Além de se passar na vida cotidiana dos personagens, a obra também carrega as mensagens e </span><i><span style="font-weight: 400;">e-mails</span></i><span style="font-weight: 400;"> enviados. Outro diferencial da obra de Sally Rooney é o </span><a href="https://entenderficcao.com.br/2018/06/25/vozes-narrativas-e-o-discurso-indireto-livre/"><span style="font-weight: 400;">discurso livre</span></a><span style="font-weight: 400;"> utilizado: a autora não usa pontuações e mistura os diálogos junto às descrições e parágrafos. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Dispensando um enredo quadrado, a inglesa não cria uma história convencional, optando por desenvolver um espaço para reflexões sobre amor, sexo, solidão e as desilusões que a entrada na vida adulta oferecem. Sem um contexto geral sobre a relação entre os personagens, a única pista sobre a história é a comunicação remota pelas duas amigas antigas, uma relação marcada pela distância física e emoções à flor da pele. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">O relacionamento à distância entre Alice e Eileen é o ponto central da obra, as duas amigas se sentem frustradas com o rumo que a vida tomou desde a faculdade. Alice lida com o esgotamento mental decorrente do sucesso repentino, Eileen vive um término doloroso, problemas financeiros, uma personalidade insegura e uma confusão amorosa com Simon. As pressões da vida adulta atingiram duramente as personagens, que vivem em busca de seu Belo Mundo.</span></p>
<figure id="attachment_24341" aria-describedby="caption-attachment-24341" style="width: 804px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="wp-image-24341 size-large" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/11/Q776KYRZIVCJXGMEN6ILTM6OZI-804x1024.jpg" alt="Foto da escritora Sally Rooney. A autora está posando de perfil, ela é uma mulher branca, os seus cabelos são castanhos médios lisos, e seus olhos são verdes. Além disso, ela veste uma blusa no estilo cacharrel na cor cinza. O fundo é uma parede clara e desfocada." width="804" height="1024" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/11/Q776KYRZIVCJXGMEN6ILTM6OZI-804x1024.jpg 804w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/11/Q776KYRZIVCJXGMEN6ILTM6OZI-628x800.jpg 628w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/11/Q776KYRZIVCJXGMEN6ILTM6OZI-768x978.jpg 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/11/Q776KYRZIVCJXGMEN6ILTM6OZI-1207x1536.jpg 1207w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/11/Q776KYRZIVCJXGMEN6ILTM6OZI-1609x2048.jpg 1609w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/11/Q776KYRZIVCJXGMEN6ILTM6OZI-1200x1528.jpg 1200w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/11/Q776KYRZIVCJXGMEN6ILTM6OZI.jpg 2000w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 984px) 61vw, (max-width: 1362px) 45vw, 600px" /><figcaption id="caption-attachment-24341" class="wp-caption-text">A escritora irlandesa é considerada uma das <a href="https://time.com/6094903/sally-rooney-millennial-novel/">vozes da geração Millennial</a>, e suas obras já abordaram a subjugação feminina, questões de classe e violência doméstica (Foto: Linda Brownlee)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">Por viverem longe uma da outra, Alice e Eileen apenas se falam por longos </span><i><span style="font-weight: 400;">e-mails</span></i><span style="font-weight: 400;">. As personagens nos presenteiam com seu modo de enxergar o mundo em que vivem, expondo suas inseguranças, que permeiam o medo do fracasso, da solidão e as expectativas frustradas. Mas, apesar dos sentimentos sinceros que essas conversas trazem, o que chama a atenção são os ganchos para discussões profundas. As jovens falam sobre a feiura visual da vida moderna, a experiência estética </span><i><span style="font-weight: 400;">versus</span></i><span style="font-weight: 400;"> a vaidade, religião e política mundial. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Em momento interessantíssimo, Sally Rooney também engata uma discussão sobre </span><a href="https://www.culturagenial.com/livros-para-conhecer-literatura-contemporanea-brasileira/"><span style="font-weight: 400;">Literatura contemporânea</span></a><span style="font-weight: 400;">, explorando como são superficiais os romances sobre a vida cotidiana. Os escritores atuais se valem da aprovação da crítica euro-americana, agindo como se suas opiniões fossem relevantes, únicas e especiais. Tais autores também fazem parte de uma classe burguesa, que de livre e espontânea vontade opta por </span><a href="https://g1.globo.com/pop-arte/noticia/2021/10/07/abdulrazak-gurnah-ganha-premio-nobel-de-literatura-2021.ghtml"><span style="font-weight: 400;">ignorar os problemas sociais que o mundo enfrenta</span></a><span style="font-weight: 400;">, realidades muito diferentes da que vivem.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Curiosamente, essa discussão pode ser vista como uma autocrítica da própria autora, que não fala de um lugar tão distante desses escritores. </span><a href="https://oglobo.globo.com/cultura/sally-rooney-lanca-belo-mundo-onde-voce-esta-avalia-impacto-de-normal-people-minha-vida-foi-dominada-pelo-sucesso-dos-meus-livros-anteriores-25182547"><span style="font-weight: 400;">Sally Rooney</span></a><span style="font-weight: 400;"> está posicionada em um espaço de conforto em que relata os traumas da burguesia, irrelevantes se comparados à miséria que outras milhões de pessoas vivem, mas ainda assim traumas. </span></p>
<blockquote><p><span style="font-weight: 400;">“Minha própria obra é, nem preciso dizer, a mais criminosa nesse sentido. Por essa razão, acho que nunca mais vou escrever um romance.”</span></p></blockquote>
<p><span style="font-weight: 400;">Alice e Félix se conheceram pelo </span><i><span style="font-weight: 400;">Tinder</span></i><span style="font-weight: 400;">. Mesmo com características distintas, ambos conseguem se encontrar numa relação sem um rótulo definido. Contudo, é doloroso ver Alice se contentando com o tratamento humilhante e as críticas que Félix faz a ela. Por sua vez, Felix também possui suas próprias inseguranças quanto ao seu passado complicado. Os dois acabam construindo uma relação nociva de gato e sapato: Felix demonstra uma superioridade sobre Alice, que finge ser submissa a suas palavras insensíveis. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Eileen vive a procura da felicidade, que uma vez sentiu ao estar junto de Alice e Simon. Contudo, principalmente para Eileen, as mudanças foram ainda mais incisivas. Suas inseguranças e o medo do fracasso a impedem de ser feliz e conseguir novas oportunidades. É nesse turbilhão de emoções negativas que ela encontra e se desencontra com Simon. A relação de ambos é confusa, Eileen sente ser dependente de Simon, que demonstra justamente o contrário. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Para os que se relacionam intimamente com as angústias dos personagens, o livro é um verdadeiro soco no estômago. O período da juventude constrói expectativas e ilusões, a casa dos trinta anos entrega frustrações tardias. </span><i><span style="font-weight: 400;">Belo Mundo, Onde Você</span></i> <i><span style="font-weight: 400;">Está</span></i><span style="font-weight: 400;"> é um livro que aponta decepções, principalmente, por que nos relacionamos com personagens tão sozinhos, instáveis e até abusivos consigo mesmos. Sally Rooney prova que consegue transpor uma geração com tanta honestidade que chega a incomodar.</span></p>
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		<title>Pequena coreografia do adeus e o que fazemos com nossos corações destroçados</title>
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		<pubDate>Fri, 02 Jul 2021 10:46:38 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Literatura]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Caroline Campos para todos aquele que procuram uma  Casa dentro de casa em especial aos que procuram desesperadamente. Absorver Pequena coreografia do adeus não é um trabalho fácil. Publicado pela Companhia das Letras em 2021, o novo livro de Aline Bei é como voar bem alto, bater no teto da existência e espiar o que &#8230; <a href="http://personaunesp.com.br/pequena-coreografia-do-adeus-critica/" class="more-link">Continue lendo<span class="screen-reader-text"> "Pequena coreografia do adeus e o que fazemos com nossos corações destroçados"</span></a></p>
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										<content:encoded><![CDATA[<figure id="attachment_21399" aria-describedby="caption-attachment-21399" style="width: 1920px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="wp-image-21399 size-full" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/07/Design-sem-nome-11.png" alt="Arte com a capa do livro &quot;Pequena coreografia do adeus&quot;. No centro, está a capa do livro, O fundo é rosa e roxo com pétalas rosas. No canto superior esquerdo, está o olho do Persona. No canto inferior direito, está o símbolo azul da Cia das Letras." width="1920" height="1080" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/07/Design-sem-nome-11.png 1920w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/07/Design-sem-nome-11-800x450.png 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/07/Design-sem-nome-11-1024x576.png 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/07/Design-sem-nome-11-768x432.png 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/07/Design-sem-nome-11-1536x864.png 1536w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/07/Design-sem-nome-11-1200x675.png 1200w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 1362px) 62vw, 840px" /><figcaption id="caption-attachment-21399" class="wp-caption-text">A figura que ilustra capa é &#8220;Etats modifiés&#8221;, de autoria de Louise Bourgeois (Foto: Companhia das Letras/Arte: Caroline Campos)</figcaption></figure>
<p><b>Caroline Campos</b></p>
<blockquote><p><span style="font-weight: 400;">para todos aquele que procuram uma </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Casa dentro de casa</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">em especial aos que procuram</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">desesperadamente.</span></p></blockquote>
<p><span style="font-weight: 400;">Absorver </span><a href="https://brasil.elpais.com/cultura/2021-06-11/aline-bei-faz-do-abandono-uma-danca-poetica-em-pequena-coreografia-do-adeus.html"><i><span style="font-weight: 400;">Pequena coreografia do adeus</span></i></a><span style="font-weight: 400;"> não é um trabalho fácil. Publicado pela </span><a href="https://personaunesp.com.br/apague-a-luz-se-for-chorar-critica/"><i><span style="font-weight: 400;">Companhia das Letras</span></i></a><span style="font-weight: 400;"> em 2021, o novo livro de </span><a href="https://www1.folha.uol.com.br/ilustrada/2021/05/como-aline-bei-virou-autora-best-seller-vendendo-seus-livros-no-instagram.shtml"><span style="font-weight: 400;">Aline Bei</span></a><span style="font-weight: 400;"> é como voar bem alto, bater no teto da existência e espiar o que há além. Mais um </span><a href="https://personaunesp.com.br/depois-stephen-king-critica/"><span style="font-weight: 400;">fruto</span></a><span style="font-weight: 400;"> da </span><a href="https://personaunesp.com.br/tag/parceria-cia-das-letras/"><span style="font-weight: 400;">parceria</span></a><span style="font-weight: 400;"> do </span><b>Persona </b><span style="font-weight: 400;">com o grupo editorial, a autora vencedora do Prêmio São Paulo de Literatura derrama sua ternura e seu carinho pelas próprias criaturas, se transmutando a cada página a fim de se tornar algo tão único que só o leitor perfeitamente quebrado é capaz de dançar em sua companhia.</span></p>
<p><span id="more-21397"></span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">As </span><a href="https://www1.folha.uol.com.br/ilustrada/2021/05/aline-bei-faz-da-literatura-um-instrumento-a-servico-das-mulheres.shtml"><span style="font-weight: 400;">palavras de Bei</span></a><span style="font-weight: 400;"> dão voz a Júlia Terra, uma jovem escritora nascida do solo rachado que um dia foi amor entre Vera e Sérgio. Em três ciclos de vida, Júlia despeja suas cicatrizes e devaneios de forma tão íntima que nos sentimos invasores, roubando confidências que não possuem esperanças de florescer na infertilidade de sua casa. No entanto, a história da personagem não carrega o desprazer da espetacularização da dor, já que Bei respeita, acima de tudo, a Júlia que se construiu em meio a tanta demolição – não apenas apesar da dor, como também em razão dela.</span></p>
<blockquote><p><span style="font-weight: 400;">Querido diário,</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Eu me chamo Júlia Manjuba Terra e não acredito no amor. Se eu pudesse escolher, gostaria de me transformar em uma música, porque além de bonita ela desaparece quando alguém desliga o rádio. (&#8230;)</span></p></blockquote>
<p><span style="font-weight: 400;">Em 282 páginas que correm tão rápido como se estivessem em fuga de sua plateia, a prosa em ondas da autora de </span><a href="https://www.uol.com.br/universa/noticias/redacao/2021/02/16/aline-bei-autora-de-o-peso-do-passaro-morto-dor-da-mulher-e-maior.htm"><i><span style="font-weight: 400;">O peso do pássaro morto</span></i></a><span style="font-weight: 400;"> é o que garante que os manifestos da jovem sejam tão intensos. Assim como sua criadora, Júlia também se descobre uma domadora das palavras, na tentativa de exorcizar a violência a que foi exposta desde cedo. Sua mãe, Vera, uma mulher amargurada pelo abandono, a surrava constantemente, como </span><i><span style="font-weight: 400;">uma verdadeira Rainha de um pequeno país em guerra (&#8230;)</span></i><span style="font-weight: 400;">.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">O resultado desse relacionamento é um jardim de culpas e ódios que se enrola por dentro da protagonista durante grande parte da sua vida. Sérgio, sua distante figura paterna, não demora para abandonar o campo de batalha e se torna um conhecido de visitas semanais e olhares perdidos, arrancando um dos poucos alicerces que mantinham aquela criança violentada de pé. Mesmo com o passar do tempo, Júlia não consegue se desprender dos buracos no peito e continua tropeçando nos próprios cacos, que ganham novos contornos conforme a idade e a independência vão batendo na porta.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">A performance narrativa de Aline Bei em </span><a href="https://idris.com.br/blog/2021/05/18/resenha-pequena-coreografia-do-adeus-aline-bei/"><i><span style="font-weight: 400;">Pequena coreografia do adeus</span></i></a> <span style="font-weight: 400;">é dolorosamente bela, capaz de nos fazer reinterpretar a forma com que percebemos a realidade ao nosso redor. A Júlia-criança e a Júlia-quase-adulta se deparam com os mesmos becos sem saída nas ruas dos amores da vida, sejam elas possíveis sementes românticas ou futuros laços fraternos – quantas versões de Júlia deterioraram para que essa pudesse se apresentar a nós?</span></p>
<figure id="attachment_21398" aria-describedby="caption-attachment-21398" style="width: 1086px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="wp-image-21398 size-full" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/07/Aline-Bei.jpg" alt="Foto de Alinei Bei, uma mulher branca de 30 anos com cabelos pretos na altura dos ombros. Ela usa um blazer preto e um cropped com listras brancas e vermelhas. Podemos vê-la da cintura para cima, com a mão direita em um corrimão. As sombras do corrimão estão projetadas em toda a imagem. " width="1086" height="652" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/07/Aline-Bei.jpg 1086w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/07/Aline-Bei-800x480.jpg 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/07/Aline-Bei-1024x615.jpg 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/07/Aline-Bei-768x461.jpg 768w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 1362px) 62vw, 840px" /><figcaption id="caption-attachment-21398" class="wp-caption-text">O primeiro livro de Aline Bei, &#8220;O peso do pássaro morto&#8221;, foi publicado pela editora independente &#8220;Nós&#8221; (Foto: Edilson Dantas/O Globo)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">Nunca vamos, nem devemos, saber. A </span><a href="https://valor.globo.com/eu-e/noticia/2021/05/14/com-pequena-coreografia-do-adeus-aline-bei-fortalece-discurso-feminista.ghtml"><span style="font-weight: 400;">protagonista de Bei</span></a><span style="font-weight: 400;"> é uma força da natureza embalada na própria tempestade e, apesar de não conseguir compreender o próprio papel nessa jornada em que foi colocada, possui uma profundidade tão latente que nos é impossível visualizar seu fundo. Júlia, privada de se comunicar com os seus, passa a desejar de tudo – ser música, viver o balé, nadar com as palavras. E é no diário que seus gritos um dia silenciados pelas chineladas da mãe passam a transbordar. </span><i><span style="font-weight: 400;">Júlia Terra Escritora</span></i><span style="font-weight: 400;">, dizem os capítulos.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Não há como Júlia ser Júlia sem a destreza da estrutura textual de </span><a href="https://www.uol.com.br/universa/noticias/redacao/2021/02/16/aline-bei-autora-de-o-peso-do-passaro-morto-dor-da-mulher-e-maior.htm"><span style="font-weight: 400;">Aline Bei</span></a><span style="font-weight: 400;">. A paulistana brinca com a elaboração de frases e transita entre fontes e parágrafos de forma com que o leitor de </span><i><span style="font-weight: 400;">Pequena coreografia do adeus</span></i><span style="font-weight: 400;"> acompanhe seus passos vagarosamente, temendo perder alguma nuance mínima de sua narrativa. Depois de concluída, a leitura ainda flutua viva pelo ambiente, desafiando a pobre plateia a esquecê-la, superá-la. </span></p>
<blockquote><p><span style="font-weight: 400;">(&#8230;) já naquela época eu sabia que mentir era um direito</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">básico</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">à fabulação</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">que eu usufruía</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">quase sem</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">culpa</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">pra conseguir ser um pouco mais livre.</span></p></blockquote>
<p><span style="font-weight: 400;">Acumulando companheiros de páginas, Júlia colore sua experiência com o abandono e reflete o passado de desamor nos relacionamentos a que é apresentada. Para Vegas, amigo de café, o mistério confortável dos estranhos. Para Maurício, garçom e amante, a paixão falsa dos casamentos. Para Ricardo, parisiense-paulistano, o medo do envolvimento e da ausência. Para Argentina, viúva da pensão, o afeto até então desconhecido. O que sobra para Júlia? Talvez a beleza sofrida da caminhada.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Com reticências implícitas, </span><a href="https://vogue.globo.com/lifestyle/cultura/noticia/2021/05/saiba-tudo-sobre-o-novo-romance-de-aline-bei-autora-do-premiado-livro-o-peso-do-passaro-morto.html"><i><span style="font-weight: 400;">Pequena coreografia do adeus</span></i></a><span style="font-weight: 400;"> desenha uma atmosfera agridoce no ar. Nem pessimista nem otimista, Aline Bei reconhece os equilíbrios e os paradoxos da vida, fundamentais para que a redenção, em algum momento, venha em nossa direção. Muito do que nós somos é forjado pela imperfeição da música que nossos corações destroçados produzem e, se for para aceitar por inteira a batida, que seja em uma pequena coreografia.</span></p>
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