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	<title>Arquivos Jafar Panahi &#8211; Persona | Jornalismo Cultural</title>
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	<description>Desde 2015 provando que a distância entre Bergman, Lady Gaga e a novela das 9 nem existe.</description>
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		<title>Mirrors No. 3, Foi Apenas um Acidente e o inescapável lado humano</title>
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		<pubDate>Wed, 12 Nov 2025 13:00:08 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p>Guilherme Moraes A 49ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo dá palco a diversas histórias ao redor do globo, muitas vezes das quais nunca ouviríamos falar se não fossem esses filmes. Cada local tem sua própria cultura e singularidade, e, na maioria das vezes suas obras se diferenciam muito. Porém, há momentos em que &#8230; <a href="http://personaunesp.com.br/critica-mirrors-no-3-e-foi-apenas-um-acidente/" class="more-link">Continue lendo<span class="screen-reader-text"> "Mirrors No. 3, Foi Apenas um Acidente e o inescapável lado humano"</span></a></p>
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										<content:encoded><![CDATA[<figure id="attachment_36273" aria-describedby="caption-attachment-36273" style="width: 800px" class="wp-caption alignnone"><img fetchpriority="high" decoding="async" class="size-medium wp-image-36273" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2025/11/Mirroirs-no-3.-e-Its-Just-an-Accident-800x390.png" alt="À esquerda: Cena de Mirrors No. 3. Uma mulher de cabelo cacheado, veste um moletom roxo, olha para o lado esquerdo de um campo verde, segurando uma bicicleta. À direita: Cena de Foi Apenas um Acidente. Em uma paisagem desértica, um homem de camiseta azul está em pé, enquanto um homem de camisa branca e uma mulher vestida de noiva estão sentados na parte traseira aberta de uma caminhonete branca." width="800" height="390" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2025/11/Mirroirs-no-3.-e-Its-Just-an-Accident-800x390.png 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2025/11/Mirroirs-no-3.-e-Its-Just-an-Accident-1024x500.png 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2025/11/Mirroirs-no-3.-e-Its-Just-an-Accident-768x375.png 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2025/11/Mirroirs-no-3.-e-Its-Just-an-Accident-1536x750.png 1536w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2025/11/Mirroirs-no-3.-e-Its-Just-an-Accident-1200x586.png 1200w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2025/11/Mirroirs-no-3.-e-Its-Just-an-Accident.png 2000w" sizes="(max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 984px) 61vw, (max-width: 1362px) 45vw, 600px" /><figcaption id="caption-attachment-36273" class="wp-caption-text">Foi Apenas um Acidente fez parte das seções Homenagem e Apresentação Especial (Foto: Schramm Film Koerner Weber Kaiser e Jafar Panahi Productions)</figcaption></figure>
<p><b>Guilherme Moraes</b></p>
<p><span style="font-weight: 400;">A </span><a href="https://personaunesp.com.br/tag/49-mostra-internacional-de-cinema-em-sao-paulo/"><span style="font-weight: 400;">49ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo</span></a><span style="font-weight: 400;"> dá palco a diversas histórias ao redor do globo, muitas vezes das quais nunca ouviríamos falar se não fossem esses filmes. Cada local tem sua própria cultura e singularidade, e, na maioria das vezes suas obras se diferenciam muito. Porém, há momentos em que elas se interligam de maneiras inimagináveis. </span><i><span style="font-weight: 400;">Mirrors No. 3</span></i><span style="font-weight: 400;">, dirigido por Christian Petzold, é um longa alemão sobre pessoas superando o luto. Por outro lado, </span><i><span style="font-weight: 400;">Foi Apenas um Acidente</span></i><span style="font-weight: 400;">, de Jafar Panahi, tem como foco principal um grupo de ex-prisioneiros políticos iranianos que encontram, possivelmente, o seu antigo torturador. Apesar das temáticas diametralmente distintas, ambas se aproximam por sentimentos basilares do ser humano: a dor e o trauma.</span></p>
<p><span id="more-36272"></span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Em </span><i><span style="font-weight: 400;">Mirrors No. 3</span></i><span style="font-weight: 400;">, Laura (</span><a href="https://personaunesp.com.br/afire-critica/"><span style="font-weight: 400;">Paula Beer</span></a><span style="font-weight: 400;">) está perdida no mundo, infeliz, sem saber o porquê. Durante uma viagem com seu namorado, eles sofrem um acidente que culmina na morte dele. A ajuda vem de uma mulher chamada Betty (Barbara Auer), que mora nas redondezas de onde ocorreu o fato. Logo de cara, ocorre uma conexão entre as duas que é mediada pelo olhar, como se elas já se conhecessem. A partir do ocorrido, a protagonista começa a ficar sob os cuidados da família de Betty, entretanto, conforme a trama avança, às atitudes deles ficam cada vez mais estranhas e suspeitas. Ao final, nos é revelado que Laura estava sendo tratada como uma substituta da caçula da família que já tinha falecido.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Já em </span><i><span style="font-weight: 400;">Foi Apenas um Acidente</span></i><span style="font-weight: 400;">, Vahid (Vahid Mobasseri) sequestra Eghbal (</span><span style="font-weight: 400;">Ebrahim Azizi)</span><span style="font-weight: 400;">, um homem que ele acredita ser a pessoa que o torturava enquanto estava preso. Contudo, sem a certeza de que estava com a pessoa certa, ele decide ir atrás de outros antigos prisioneiros para confirmar. Assim, se forma um grupo com Shiva (Mariam Afshari), uma fotógrafa; Hamid (Mohamad Ali Elyasmehr), um homem com uma personalidade impulsiva; Golrokh (Hadis Pakbaten), uma noiva que coloca o seu casamento em espera para resolver essa pendência e Ali (Majid Panahi), o noivo que acompanha a sua mulher nessa empreitada. Depois de sofrer diversas humilhações, Eghbal confessa que realmente era o homem que torturava todos eles, e assim, Vahid e Shiva permitem que ele viva, pois já não queriam mais deixar o passado consumí-los. </span><a href="https://mostra.org/jornal-da-mostra/homenageado-na-49-mostra-jafar-panahi-apresenta-seu-novo-filme-e-participa-de-conversas-com-o-publico"><span style="font-weight: 400;">Jafar Panahi</span></a><span style="font-weight: 400;"> encerra a obra com um plano de Vahid de costas, ouvindo passadas metálicas, característica marcante de Eghbal, deixando a pergunta: ele voltou para perpetuar o ciclo de violência?</span></p>
<figure id="attachment_36275" aria-describedby="caption-attachment-36275" style="width: 800px" class="wp-caption alignnone"><img decoding="async" class="size-medium wp-image-36275" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2025/11/Mirrors-no-3-800x390.jpg" alt="Cena de Mirrors No.3. Uma mulher de cabelo cacheado e suéter claro está no banco de passageiro de um carro conversível vermelho, olhando para trás, na direção de uma pessoa cujas costas e cabelo preso estão em primeiro plano. Um homem com cabelo cacheado está sentado no banco do motorista ao lado dela." width="800" height="390" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2025/11/Mirrors-no-3-800x390.jpg 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2025/11/Mirrors-no-3-1024x500.jpg 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2025/11/Mirrors-no-3-768x375.jpg 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2025/11/Mirrors-no-3-1536x750.jpg 1536w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2025/11/Mirrors-no-3-1200x586.jpg 1200w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2025/11/Mirrors-no-3.jpg 2000w" sizes="(max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 984px) 61vw, (max-width: 1362px) 45vw, 600px" /><figcaption id="caption-attachment-36275" class="wp-caption-text">Mirrors No. 3 fez parte da seção Perspectiva Internacional (Foto: Schramm Film Koerner Weber Kaise)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">O que conecta essas duas tramas é o trauma. Seja pela guerra, para o iraniano, ou a perda de um ente querido, para o alemão. Todavia, a grande questão é como cada um vai lidar com essas angústias e o que isso vai significar para o encerramento de cada personagem. Em </span><a href="https://mostra.org/filmes/mirrors-no-3"><i><span style="font-weight: 400;">Mirroirs No. 3</span></i></a><span style="font-weight: 400;"> (no original), Betty, Richard (Matthias Brandt) e Max (Enno Trebs) – respectivamente, marido e filho de Betty – tentam superar a partir do amor e carinho com Laura. Ainda que Petzold mostre como essa relação era doentia e não poderia perdurar, a protagonista finaliza sua jornada mais completa e feliz, enquanto a família conseguiu se reconciliar.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Por outro lado, </span><i><span style="font-weight: 400;">It Was Just an Accident </span></i><span style="font-weight: 400;">(título original) coloca o seu quinteto em situações bizarras e condenáveis. O filme se assemelha a </span><a href="https://personaunesp.com.br/anora-critica/"><i><span style="font-weight: 400;">Anora</span></i></a> <span style="font-weight: 400;">(2024) com sua pegada cômica, de forma que esconde as aflições e os abusos dos personagens e potencializa o final, em que tudo é extravasado. As dores que eles sentem são respondidas na mesma moeda e isso gera um impacto contrário do que acontece com os de </span><i><span style="font-weight: 400;">Mirrors No. 3</span></i><span style="font-weight: 400;">. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">No iraniano, o desfecho é aberto e interpretativo. O próprio Panahi falou depois da exibição da fita na Mostra, que o som metálico poderia ser real ou imaginário, porém, qualquer uma das duas hipóteses não leva para um caminho feliz. Se o que Vahid ouviu for real, seu algoz retornou para perpetuar o ciclo de violência, caso esteja em sua cabeça, demonstra que o protagonista não conseguiu superar o trauma. É o embate entre amor e ódio que define o destino dos personagens nas duas obras.</span></p>
<div class="jetpack-video-wrapper"><iframe title="It Was Just An Accident - Official Trailer" width="840" height="473" src="https://www.youtube.com/embed/Y7X9sSZ0nYw?feature=oembed" frameborder="0" allow="accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share" referrerpolicy="strict-origin-when-cross-origin" allowfullscreen></iframe></div>
<p><span style="font-weight: 400;">Ainda que os dois longas tenham temáticas e objetivos distintos, ambos se encontram pelo lado humano. Durante a 49° Mostra Internacional de Cinema em São Paulo, </span><a href="https://cinema.uol.com.br/noticias/redacao/2014/04/10/preso-no-ira-diretor-ja-contrabandeou-filme-em-pen-drive-escondido-em-bolo.htm"><span style="font-weight: 400;">Panahi</span></a><span style="font-weight: 400;"> participou de discussões relacionadas à sua filmografia, o longa, à sua história e o que ele pensa do Cinema no geral, e o diretor comentou sobre como todos os tipos de filmes estão ligados à humanidade. “</span><i><span style="font-weight: 400;">Quando olhamos para qualquer tema no cinema social, ele tem tudo o que tem no cinema político, e tem temas como a humanidade também</span></i><span style="font-weight: 400;">”.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">O cineasta foi homenageado e recebeu o Prêmio Humanidade durante o evento, pela sua história e paixão pelo Cinema. Entretanto, essa sua fala pode dizer mais sobre o motivo dele ser merecedor, não de um prêmio, e sim de carinho, atenção e admiração que ele recebeu. Apesar da perseguição que sofreu do governo iraniano por sua Arte, ele ainda enxerga algo positivo no mundo. É irônico como isso se revela na trama, pela comicidade, e é ainda mais curioso, como essa obra triste é mais bem humorada do que o carinhoso filme de Petzold. Seja para o político-social </span><a href="https://www.instagram.com/reels/DQSeErKFYR0/"><i><span style="font-weight: 400;">Foi Apenas um Acidente</span></i></a><span style="font-weight: 400;">, ou para o traumático </span><i><span style="font-weight: 400;">Mirrors No. 3</span></i><span style="font-weight: 400;">, sempre haverá uma conexão no Cinema: o lado humano, inescapável.</span></p>
<div class="jetpack-video-wrapper"><iframe loading="lazy" title="MIROIRS NO. 3 Clip | TIFF 2025" width="840" height="473" src="https://www.youtube.com/embed/qngYk2K8HIw?feature=oembed" frameborder="0" allow="accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share" referrerpolicy="strict-origin-when-cross-origin" allowfullscreen></iframe></div>
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		<title>Pegando a (tortuosa) Estrada da despedida</title>
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		<pubDate>Thu, 21 Oct 2021 20:37:12 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p>João Batista Signorelli Sair da casa dos pais é um acontecimento natural em qualquer lugar. O evento pode vir acompanhado da sede por independência, da síndrome de ninho vazio, de saudade ou alívio. Alguns mudam de cidade, estado, país, saindo para trabalhar, estudar, ou se casar, com consentimento dos pais ou às escondidas. Em Pegando &#8230; <a href="http://personaunesp.com.br/pegando-a-estrada-critica/" class="more-link">Continue lendo<span class="screen-reader-text"> "Pegando a (tortuosa) Estrada da despedida"</span></a></p>
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										<content:encoded><![CDATA[<figure id="attachment_23989" aria-describedby="caption-attachment-23989" style="width: 1998px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-full wp-image-23989" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/10/pegando-a-estrada-1.jpg" alt="Cena do filme Pegando a Estrada. A foto mostra uma mulher persa de meia idade, segurando uma tesoura próxima a um carro à um carro à direita. De dentro da janela do carro, vemos um jovem persa de cabelo escuro, barba e óculos, apoiado na janela de costas, com a cabeça caída para trás." width="1998" height="1080" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/10/pegando-a-estrada-1.jpg 1998w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/10/pegando-a-estrada-1-800x432.jpg 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/10/pegando-a-estrada-1-1024x554.jpg 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/10/pegando-a-estrada-1-768x415.jpg 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/10/pegando-a-estrada-1-1536x830.jpg 1536w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/10/pegando-a-estrada-1-1200x649.jpg 1200w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 1362px) 62vw, 840px" /><figcaption id="caption-attachment-23989" class="wp-caption-text">A produção integra a Competição Novos Diretores da 45ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo (Foto: Celluloid Dreams)</figcaption></figure>
<p><b>João Batista Signorelli</b></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Sair da casa dos pais é um acontecimento natural em qualquer lugar. O evento pode vir acompanhado da sede por independência, da síndrome de ninho vazio, de saudade ou alívio. Alguns mudam de cidade, estado, país, saindo para trabalhar, estudar, ou se casar, com consentimento dos pais ou às escondidas. Em </span><i><span style="font-weight: 400;">Pegando a Estrada</span></i><span style="font-weight: 400;">, longa de estreia de Panah Panahi exibido na 45ª </span><a href="http://personaunesp.com.br/tag/mostra-internacional-de-cinema-em-sao-paulo/"><span style="font-weight: 400;">Mostra Internacional</span></a><span style="font-weight: 400;"> de Cinema em São Paulo, vemos uma família lidando com a partida do filho mais velho, mas em circunstâncias nada costumeiras ou desejáveis.</span></p>
<p><span id="more-23986"></span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">O sobrenome do diretor não é por acaso: Panah é filho do renomado Jafar Panahi, importantíssimo cineasta iraniano, que foi destaque na 44ª Mostra  com um belíssimo </span><a href="https://personaunesp.com.br/masters-in-short-critica/"><span style="font-weight: 400;">curta documental</span></a><span style="font-weight: 400;">. Seu filme abre no espírito de um </span><a href="https://personaunesp.com.br/tag/road-movie/"><i><span style="font-weight: 400;">road movie</span></i></a> <span style="font-weight: 400;">bem-humorado com pinceladas melancólicas, aos moldes de </span><a href="https://personaunesp.com.br/pequena-miss-sunshine-hora-de-trocar-pneu/"><i><span style="font-weight: 400;">Pequena Miss Sunshine</span></i></a><span style="font-weight: 400;">. No carro: mãe, pai, um filho já adulto, outro ainda criança, além de um cachorro. Não sabemos seus nomes, de onde estão vindo, ou para onde vão.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">A criança tagarela (Rayan Sarlak) fala com um vocabulário elaborado e a autoridade de um adulto. Acompanhando no banco de trás, o pai (Hassan Majuni) de perna engessada perde completamente a autonomia e a autoridade devido à sua limitação física. Já a mãe (Pantea Panahiha) sente paranoia ao pensar que estão sendo perseguidos, enquanto o filho (Amin Simiar), que dirige ao seu lado, pouco fala, e mesmo quando diz que vai fugir para se casar, carrega em seus olhos úmidos um mistério a ser descoberto. O cachorro, adoecido, sorri para o que podem ser suas últimas horas de vida. </span></p>
<figure id="attachment_23987" aria-describedby="caption-attachment-23987" style="width: 1998px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-full wp-image-23987" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/10/pegando-a-estrada-2.jpg" alt="Cena do filme Pegando a Estrada. A foto mostra dois homens persas sentados sobre pedras no meio de um riacho. O da esquerda é mais velho, tem barba grisalha, a perna esquerda engessada e duas muletas apoiadas em seu corpo. O outro é jovem, tem óculos, cabelos escuros e barba." width="1998" height="1080" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/10/pegando-a-estrada-2.jpg 1998w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/10/pegando-a-estrada-2-800x432.jpg 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/10/pegando-a-estrada-2-1024x554.jpg 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/10/pegando-a-estrada-2-768x415.jpg 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/10/pegando-a-estrada-2-1536x830.jpg 1536w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/10/pegando-a-estrada-2-1200x649.jpg 1200w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 1362px) 62vw, 840px" /><figcaption id="caption-attachment-23987" class="wp-caption-text">O filme estreou na Quinzena dos Realizadores do Festival de Cannes 2021 (Foto: Celluloid Dreams)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">Acompanhando a família nessa jornada estão as vastas paisagens semi-desérticas belamente capturadas pelas lentes pelo diretor de fotografia Amin Jafari. Além disso, o </span><a href="https://www.theguardian.com/film/2021/oct/17/iranian-family-movie-panah-panahi-hit-the-road-wins-top-prize-at-london-film-festival"><span style="font-weight: 400;">vencedor</span></a><span style="font-weight: 400;"> da Competição Oficial do Festival de Londres traz um fascinante trabalho de câmera realizado dentro do carro. Capturando longos planos de diálogos, </span><i><span style="font-weight: 400;">Hit The Road </span></i><span style="font-weight: 400;">coloca o espectador dentro do veículo com os personagens construindo um vínculo desde a primeira cena, onde a câmera conduz o olhar do público com movimentos suaves para apresentar o automóvel por dentro, e as pessoas que ali viajam.  </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Apesar de não ter um protagonista único, o modo como o público entra na viagem sem saber o destino o coloca em uma perspectiva muito semelhante a do menino, pequeno demais para entender o que está acontecendo. Ainda que ele se esforce para parecer mais velho com seu modo de falar rebuscado, ele ainda vive em um mundo inocente de imaginação de uma criança. Logo na cena de abertura, quando vemos e ouvimos o garoto tocar com precisão as notas de um piano imaginário desenhado no gesso de seu pai, também enxergamos e escutamos uma pequena amostra de sua capacidade <a href="https://personaunesp.com.br/sweet-tooth-critica/">imaginativa e sonhadora</a>, afinal ele é o único naquele automóvel que não precisa do aparelho de rádio ligado para ouvir e sentir uma música.</span></p>
<figure id="attachment_23988" aria-describedby="caption-attachment-23988" style="width: 1998px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-full wp-image-23988" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/10/pegando-a-estrada-3.jpg" alt="Cena do filme Pegando a Estrada. A foto mostra de perto um menino pequeno apoiado sobre uma perna engessada, na qual se vêem alguns desenhos. Ele apoia seus dedos sobre a imagem de teclas de um piano." width="1998" height="1080" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/10/pegando-a-estrada-3.jpg 1998w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/10/pegando-a-estrada-3-800x432.jpg 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/10/pegando-a-estrada-3-1024x554.jpg 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/10/pegando-a-estrada-3-768x415.jpg 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/10/pegando-a-estrada-3-1536x830.jpg 1536w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/10/pegando-a-estrada-3-1200x649.jpg 1200w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 1362px) 62vw, 840px" /><figcaption id="caption-attachment-23988" class="wp-caption-text">O filme abre e se encerra no universo musical subjetivo do menino, abrangendo da delicadeza à crueza (Foto: Celluloid Dreams)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">O roteiro, também assinado pelo diretor, apresenta algumas situações hilárias, que parecem surgir completamente ao acaso: um celular trazido às escondidas pelo menino mais novo escondido no “quentinho” de sua cueca, as tentativas do pai de recolher uma lata de refrigerante amassada na estrada, ou um ciclista que se acidenta ao interagir com a criança no carro. Para além de seu potencial cômico, o texto é inteligente ao apresentar interações diferentes entre os quatro membros daquela família conforme eles param na estrada, dando espaço para diferentes dinâmicas em dupla que não seriam possíveis caso todos estivessem sempre em cena. Os momentos de intimidade despertam um clima de despedida iminente, e conforme a atmosfera cômica e aleatória dos minutos iniciais se esvazia, percebemos que a viagem acontecia por razões muito mais sérias do que poderíamos pressupor.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Conforme o destino se aproxima, um clima de urgência toma conta de </span><i><span style="font-weight: 400;">Jaddeh Khaki</span></i><span style="font-weight: 400;">, e mesmo que os aspectos clandestinos das circunstâncias apresentadas sejam descobertos, nunca é revelado o exato porquê daquele afastamento forçado estar acontecendo. Mas a explicação se mostra desnecessária, pois as imagens já dizem tudo. O momento climático da despedida se desenrola a dezenas de metros da câmera, que testemunha com frieza os minúsculos indivíduos vivendo o seu calvário. A impossibilidade de um olhar fisicamente próximo na hora mais difícil daqueles dos quais nos aproximamos depois de uma hora apertados em carro, cria um dos momentos mais dolorosos que o Cinema recente poderia conceber. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Um prego ainda mais penoso talvez sejam os esforços daqueles que sabem o que está acontecendo &#8211; os pais &#8211; em proteger o pequeno daquelas tribulações, vestindo uma máscara de alegria para maquiar aquelas aflições. Afinal, estaria aquele menino que ainda enxerga animais nas formas irregulares das montanhas, e não entende o problema de desenhar com caneta permanente no vidro do carro, preparado para entender a dor que é ver alguém partir talvez para sempre? Para algumas pessoas pode ser mais fácil do que outras. Alguns saem de casa para trabalhar, estudar, ou se casar. Outros, para permanecerem vivos.</span></p>
<div class="jetpack-video-wrapper"><iframe loading="lazy" title="HIT THE ROAD by Panah Panahi - Teaser" width="840" height="473" src="https://www.youtube.com/embed/13S--yt8esA?feature=oembed" frameborder="0" allow="accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share" referrerpolicy="strict-origin-when-cross-origin" allowfullscreen></iframe></div>
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		<title>Masters in Short: os curtas da Mostra de São Paulo passeiam entre o onírico e o real</title>
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		<pubDate>Sun, 01 Nov 2020 19:01:10 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Cinema]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>João Batista Signorelli Um cineasta chinês lidando com a solidão durante a quarentena, uma sucessão surreal de imagens vindas do inconsciente, uma visita à ópera de Paris na década de 50, e por fim uma garota curda proibida de cantar em público podem não ter muito em comum, mas todos estão presentes em Masters in &#8230; <a href="http://personaunesp.com.br/masters-in-short-critica/" class="more-link">Continue lendo<span class="screen-reader-text"> "Masters in Short: os curtas da Mostra de São Paulo passeiam entre o onírico e o real"</span></a></p>
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										<content:encoded><![CDATA[<figure id="attachment_16370" aria-describedby="caption-attachment-16370" style="width: 1600px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-full wp-image-16370" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2020/11/Imagem-1.jpg" alt="" width="1600" height="900" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2020/11/Imagem-1.jpg 1600w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2020/11/Imagem-1-300x169.jpg 300w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2020/11/Imagem-1-1024x576.jpg 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2020/11/Imagem-1-768x432.jpg 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2020/11/Imagem-1-1536x864.jpg 1536w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2020/11/Imagem-1-1200x675.jpg 1200w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 1362px) 62vw, 840px" /><figcaption id="caption-attachment-16370" class="wp-caption-text">A projeção solitária de um filme em A Visita é um espelho da própria situação do público em isolamento (Foto: Divulgação Imprensa)</figcaption></figure>
<p><strong>João Batista Signorelli</strong></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Um cineasta chinês lidando com a solidão durante a quarentena, uma sucessão surreal de imagens vindas do inconsciente, uma visita à ópera de Paris na década de 50, e por fim uma garota curda proibida de cantar em público podem não ter muito em comum, mas todos estão presentes em <em>Masters in Short</em>, a seleção de curtas da 44ª </span><a href="http://personaunesp.com.br/tag/mostra-internacional-de-cinema-em-sao-paulo/"><span style="font-weight: 400;">Mostra Internacional </span></a><span style="font-weight: 400;">de Cinema em São Paulo, exibidos como Apresentação Especial. Os 5 curtas escolhidos podem de início aparentarem não ter nada de comum, mas ao comparar o modo como cada um retrata a sua realidade diegética, relações interessantes começam a despontar.</span></p>
<p><span id="more-16369"></span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Os curtas podem ser organizados de modo a formar uma escala gradativa que vai do completo surrealismo até a mais concreta realidade. Temos a partir de um dos extremos do espectro os dois curtas de Guy Maddin com os irmãos Evan e Galen Johnson em uma total fuga da realidade; uma singela situação encenada no curta de Jia Zhangke imaginada a partir da realidade de isolamento vivida hoje; uma viagem por imagens de arquivo reais montadas de maneira orquestrada no minidocumentário de Sergei Loznitsa; e por fim a mais honesta e crua realidade sem filtros de Jafar Panahi. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">É curioso observar algumas semelhanças estéticas e temáticas entre as obras. Três deles são predominantemente em preto e branco, mas em todos há alguma incursão de cores, dando vida de maneira inesperada a universos monocromáticos, além de um quarto filme colorido que não se esquece de incluir o P&amp;B em sua narrativa. Além disso, em todos a ideia de Arte ou de performance se manifesta de alguma maneira, seja em uma projeção solitária de um filme clássico, nas apresentações de um adivinhador em uma feira, na Arte que se mistura às vivências de um sonho, ou ainda em um canto proibido escondido atrás de cortinas. </span></p>
<figure id="attachment_16371" aria-describedby="caption-attachment-16371" style="width: 2048px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-full wp-image-16371" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2020/11/Imagem-2.jpg" alt="" width="2048" height="1156" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2020/11/Imagem-2.jpg 2048w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2020/11/Imagem-2-300x169.jpg 300w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2020/11/Imagem-2-1024x578.jpg 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2020/11/Imagem-2-768x434.jpg 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2020/11/Imagem-2-1536x867.jpg 1536w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2020/11/Imagem-2-1200x677.jpg 1200w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 1362px) 62vw, 840px" /><figcaption id="caption-attachment-16371" class="wp-caption-text">Jia Zhangke brinca com nossos novos hábitos e receios em seu “curta de quarentena” (Foto: Divulgação Imprensa)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">Em </span><a href="https://44.mostra.org/filmes/a-visita"><i><span style="font-weight: 400;">A Visita</span></i></a><span style="font-weight: 400;">, Jia Zhangke, que também marca presença na Mostra com seu longa documental </span><a href="https://44.mostra.org/filmes/nadando-ate-o-mar-se-tornar-azul"><i><span style="font-weight: 400;">Nadando até o Mar se Tornar Azul</span></i></a><span style="font-weight: 400;">, interpreta a ele mesmo neste singelo retrato do novo cotidiano do seu isolamento social na China. Tratando com leveza e humor os novos hábitos sociais, ele busca pelo cômico das situações únicas ao momento que estamos vivendo. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Seja associando o efeito sonoro do gatilho de uma arma ao medidor de temperatura apontado para a cabeça, ou brincando com o desconforto de encostar em uma tela potencialmente contaminada, Jia conduz esse senso de humor para um desfecho agridoce. Nele, uma multidão, algo tão impensável para o momento presente é vista,  mas apenas dentro da projeção de um filme assistido por dois personagens.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;"> Estes contemplam aquelas imagens talvez com melancolia, ou talvez simplesmente com a admiração, e o desejo de escapismo de quem assiste a uma obra ficcional que retrata coisas impossíveis para a </span><a href="https://g1.globo.com/bemestar/coronavirus/noticia/2020/02/27/coronavirus-veja-perguntas-e-respostas.ghtml"><span style="font-weight: 400;">realidade que vivemos</span></a><span style="font-weight: 400;">. Mesmo que essa realidade seja apenas temporária.</span></p>
<figure id="attachment_16372" aria-describedby="caption-attachment-16372" style="width: 2560px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-full wp-image-16372" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2020/11/Imagem-3-scaled.jpg" alt="" width="2560" height="1920" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2020/11/Imagem-3-scaled.jpg 2560w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2020/11/Imagem-3-300x225.jpg 300w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2020/11/Imagem-3-1024x768.jpg 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2020/11/Imagem-3-768x576.jpg 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2020/11/Imagem-3-1536x1152.jpg 1536w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2020/11/Imagem-3-2048x1536.jpg 2048w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2020/11/Imagem-3-1200x900.jpg 1200w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 1362px) 62vw, 840px" /><figcaption id="caption-attachment-16372" class="wp-caption-text">O Adivinhador imita perfeitamente o estilo visual do cinema mudo, ao mesmo tempo que experimenta com essa linguagem (Foto: Divulgação Imprensa)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">O filme reproduzido em seguida, </span><a href="https://44.mostra.org/filmes/o-adivinhador"><i><span style="font-weight: 400;">O Adivinhador</span></i></a><i><span style="font-weight: 400;">, </span></i><span style="font-weight: 400;">parece querer levar ao pé da letra esse desejo de fugir da realidade. Contando a história de um homem que vive de apresentações em uma feira onde surpreende sua audiência com seus atos impressionantes de adivinhação. Ele tem a vida e carreira arruinados após ter seu espetáculo sabotado e, ainda por cima, se apaixonar por uma mulher que descobre ser sua irmã. A partir daí, ao invés de tentar recuperar o seu prestígio, ele passa a buscar um modo de provar a não-consanguinidade de sua irmã.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Se a trama soa absurda, ela não poderia se adequar melhor ao estilo visual único de Guy Maddin, conhecido por evocar em seus filmes a linguagem do cinema mudo, mas sem abandonar sua originalidade para isso. Se em outros filmes como </span><a href="https://www.youtube.com/watch?v=YB9Oq0hn5KY"><i><span style="font-weight: 400;">O Artista (2011)</span></i></a><span style="font-weight: 400;">,</span> <span style="font-weight: 400;">a relação com essa linguagem clássica se limita a uma simples reprodução de estilo, Guy Maddin experimenta as inúmeras possibilidades que esse formato pode proporcionar, como se estivesse dando continuidade às vanguardas do </span><a href="https://www.aicinema.com.br/expressionismo-alemao-movimentos-cinematograficos/"><span style="font-weight: 400;">Expressionismo</span></a><span style="font-weight: 400;"> e do </span><a href="https://www.cantodosclassicos.com/surrealismo-no-cinema/"><span style="font-weight: 400;">Surrealismo</span></a><span style="font-weight: 400;"> que perderam espaço após a chegada do cinema falado. Cheio de estripulias visuais e ideias mirabolantes, o curta mergulha no universo surreal e caótico de um homem que antes era capaz de saber em quais dos disparos de uma arma haviam balas, e agora sequer tem o controle de sua própria vida. </span></p>
<figure id="attachment_16373" aria-describedby="caption-attachment-16373" style="width: 2560px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-full wp-image-16373" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2020/11/Imagem-4-scaled.jpg" alt="" width="2560" height="1350" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2020/11/Imagem-4-scaled.jpg 2560w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2020/11/Imagem-4-300x158.jpg 300w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2020/11/Imagem-4-1024x540.jpg 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2020/11/Imagem-4-768x405.jpg 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2020/11/Imagem-4-1536x810.jpg 1536w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2020/11/Imagem-4-2048x1080.jpg 2048w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2020/11/Imagem-4-1200x633.jpg 1200w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 1362px) 62vw, 840px" /><figcaption id="caption-attachment-16373" class="wp-caption-text">Os Caçadores de Coelhos homenageia o cineasta Federico Fellini, ao mesmo tempo que imagina as projeções de seu inconsciente (Foto: Divulgação Imprensa)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">Se cada curta da exibição carrega um grau de realidade específico, é curiosa a escolha de trazer dois filmes frutos da parceria de Guy Maddin com Evan e Galen Johnson, como se essa opção por duas obras mais oníricas causasse um desequilíbrio no conjunto dos curtas para essa tendência mais surrealista. Mas essa escolha torna-se facilmente justificável ao se imaginar diante da difícil escolha de selecionar apenas um destes dois projetos. E se </span><i><span style="font-weight: 400;">O Adivinhador </span></i><span style="font-weight: 400;">ainda trazia consigo um arco dramático e uma estrutura narrativa em meio às experimentações, </span><a href="https://44.mostra.org/filmes/os-cacadores-de-coelhos"><i><span style="font-weight: 400;">Os Caçadores de Coelhos</span></i></a> <span style="font-weight: 400;">é um sonho em sua natureza mais distante de qualquer fórmula ou forma. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Produzido em homenagem ao centenário do cineasta Federico Fellini, </span><i><span style="font-weight: 400;">The Rabbit Hunters </span></i><span style="font-weight: 400;">é uma viagem pelos sonhos estrelada por Isabella Rossellini. Filha de outro importante diretor italiano, Roberto Rossellini, ela interpreta o que parece ser uma versão do próprio Fellini em uma projeção do inconsciente. O filme não apenas evoca sequências clássicas do diretor, como a icônica</span><a href="https://www.youtube.com/watch?v=6TsElhgMeXE"><span style="font-weight: 400;"> sequência de abertura</span></a><span style="font-weight: 400;"> de sua obra-prima </span><i><span style="font-weight: 400;">8½</span></i><span style="font-weight: 400;">, como também ganha vida própria ao criar uma atmosfera de sonho cuja fidelidade ao modo como os sonhos operam (pelo menos os meus) é tanta, que deixaria David Lynch com inveja. Entrecruzando-se por camadas de sonho desconexas, </span><i><span style="font-weight: 400;">Os Caçadores de Coelhos </span></i><span style="font-weight: 400;">constrói um mundo onde uma projeção de um filme se torna a nova realidade, os cenários se diluem uns nos outros, e o questionamento em relação a “o que é real?” se torna irrelevante.</span></p>
<figure id="attachment_16374" aria-describedby="caption-attachment-16374" style="width: 2128px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-full wp-image-16374" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2020/11/Imagem-5.jpg" alt="" width="2128" height="1616" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2020/11/Imagem-5.jpg 2128w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2020/11/Imagem-5-300x228.jpg 300w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2020/11/Imagem-5-1024x778.jpg 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2020/11/Imagem-5-768x583.jpg 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2020/11/Imagem-5-1536x1166.jpg 1536w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2020/11/Imagem-5-2048x1555.jpg 2048w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2020/11/Imagem-5-1200x911.jpg 1200w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 1362px) 62vw, 840px" /><figcaption id="caption-attachment-16374" class="wp-caption-text">Uma Noite na Ópera trabalha com imagens de arquivo para homenagear as noites de gala francesas (Foto: Divulgação Imprensa)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">Saindo dos sonhos e saltando para a realidade, </span><a href="https://44.mostra.org/filmes/uma-noite-na-opera"><i><span style="font-weight: 400;">Uma Noite na Ópera</span></i></a> <span style="font-weight: 400;">é compilação de imagens de arquivos, organizadas pelo ucraniano Sergei Loznitsa da ópera de Paris nas décadas de 50 e 60. Ao som de uma trilha sonora majestosa, o curta apresenta a alta sociedade parisiense da época, com direito a aparições de celebridades como Brigitte Bardot e até mesmo a realeza britânica. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">O maior mérito do documentário é sua montagem que, ao unir cenas gravadas em anos diferentes e organizá-las de acordo com o espaço e o tempo, produz a sensação de estarmos realmente acompanhando uma única noite na ópera, desde a chegada dos carros, até a saída pelas escadarias após a apresentação. Porém, seus méritos artísticos não passam muito daí, e seus longos 20 minutos saturam rapidamente, flertando com a repetição e o tédio. Ainda assim a obra funciona como um registro histórico eficiente, ressignificando imagens pelo modo como as agrupa e organiza, imagens estas que separadamente não teriam apelo ou propósito algum para serem assistidas além da pura curiosidade de poucos.</span></p>
<figure id="attachment_16375" aria-describedby="caption-attachment-16375" style="width: 2048px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-full wp-image-16375" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2020/11/Imagem-6.jpg" alt="" width="2048" height="1010" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2020/11/Imagem-6.jpg 2048w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2020/11/Imagem-6-300x148.jpg 300w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2020/11/Imagem-6-1024x505.jpg 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2020/11/Imagem-6-768x379.jpg 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2020/11/Imagem-6-1536x758.jpg 1536w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2020/11/Imagem-6-1200x592.jpg 1200w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 1362px) 62vw, 840px" /><figcaption id="caption-attachment-16375" class="wp-caption-text">Escondida é tão sincero em seus registros que talvez transcenda o que entendemos por documentário (Foto: Divulgação Imprensa)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">Enquanto que em </span><i><span style="font-weight: 400;">Uma Noite na Ópera</span></i><span style="font-weight: 400;"> o tempo e realidade são manipulados e distorcidos, </span><a href="https://44.mostra.org/filmes/escondida"><i><span style="font-weight: 400;">Escondida</span></i></a> <span style="font-weight: 400;">não poderia ter seguido um caminho mais diferente. Talvez seja devido ao fato de este ter sido o meu primeiro contato com o cinema de Jafar Panahi, mas de qualquer maneira me senti tão surpreendido a ponto de repensar tudo o que eu antes entendia por documentário. Se no filme visto anteriormente a música, a seleção e a organização das imagens construía uma espécie de ilusão escapista e atraente, em </span><i><span style="font-weight: 400;">Escondida </span></i><span style="font-weight: 400;">os eventos documentados sofrem pouca ou nenhuma alteração. As ações desenrolam-se praticamente em tempo real, em longos planos, e não há trilha sonora ou qualquer espécie de artifício para induzir emoções ou sensações além dos próprios registros, eles falam por si. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">A proposta é revelada aos poucos: Panahi e sua filha filmam a eles mesmos acompanhados de uma amiga, enquanto vão a uma aldeia na tentativa de convencer uma mãe a permitir sua filha, proibida de cantar em público, a performar em um grupo de teatro formado apenas por mulheres. Gravado com apenas dois celulares, o filme nunca se esconde de sua própria condição de simplicidade, e justamente essa condição que colabora para tornar tudo tão crível e marcante. É quase como se tivéssemos acesso aos arquivos pessoais do diretor, e no meio disso fossem encontrados alguns registros improvisados de um momento singular de sua vida. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Com um desfecho que emociona por sua beleza e unicidade, </span><i><span style="font-weight: 400;">Escondida</span></i><span style="font-weight: 400;"> encerra a sessão de </span><i><span style="font-weight: 400;">Masters in Short</span></i><span style="font-weight: 400;"> com aquilo do qual alguns dos curtas exibidos tentaram escapar, e outros esculpir à sua própria maneira. Aquilo que o cinema costuma tentar maquiar, mas que após o rolar dos créditos predomina sobre a Arte; que as luzes, os efeitos e as artimanhas podem até tentar esconder, mas que sempre prevalecerá por detrás das cortinas e das telas. Aquilo que Arte busca sempre recriar, mas que Jafar Panahi insiste em manter, e que ao final se torna inescapável a qualquer tentativa de ilusão: o mundo real. </span></p>
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