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	<title>Arquivos Ingmar Bergman &#8211; Persona | Jornalismo Cultural</title>
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	<description>Desde 2015 provando que a distância entre Bergman, Lady Gaga e a novela das 9 nem existe.</description>
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		<title>A existência humana e a consciência da morte prevalecem nos 65 anos de O Sétimo Selo</title>
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		<pubDate>Thu, 24 Feb 2022 19:59:20 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p>Sabrina G. Ferreira Um filme do qual podemos analisar os anseios, as dúvidas e os medos de uma sociedade passada para tentarmos aprender por meio deles: essa é a definição de O Sétimo Selo (no original, em suéco, Det sjunde inseglet; e no inglês, The Seventh Seal). Do diretor sueco Ingmar Bergman (Morangos Silvestres e &#8230; <a href="http://personaunesp.com.br/o-setimo-selo-65-anos/" class="more-link">Continue lendo<span class="screen-reader-text"> "A existência humana e a consciência da morte prevalecem nos 65 anos de O Sétimo Selo"</span></a></p>
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										<content:encoded><![CDATA[<figure id="attachment_26179" aria-describedby="caption-attachment-26179" style="width: 800px" class="wp-caption alignnone"><img fetchpriority="high" decoding="async" class="size-medium wp-image-26179" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/02/Imagem-1-4-800x600.jpg" alt="Cena do filme O Sétimo Selo. Na imagem em preto e branco, vemos um homem jovem, loiro, de cabelos curtos, e magro. Ele está vestindo um tipo de armadura de cavaleiro, feita com anéis de metal e uma capa preta jogada nos ombros. Ele sorri enquanto olha para o indivíduo na frente dele, e segura uma peça de jogo de xadrez na mão direita. À sua frente está a figura personificada da morte, com pele pálida, luvas pretas de couro, e uma capa que cobre todo o seu corpo, inclusive a cabeça, deixando somente o rosto à mostra. Ela está pensativa, olhando para o tabuleiro de xadrez a sua frente, e tem o braço direito dobrado, com a mão próxima do rosto. No tabuleiro de xadrez, as peças do homem são brancas, e da morte, pretas. Tem uma manta na estrutura que mantém o tabuleiro em cima, e ambos estão sentados, um de frente para o outro. Eles estão no campo, ao ar livre, com uma carroça e um cavalo alguns metros atrás, e duas pessoas sentadas próximas a carroça. Está de dia." width="800" height="600" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/02/Imagem-1-4-800x600.jpg 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/02/Imagem-1-4-768x576.jpg 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/02/Imagem-1-4.jpg 1000w" sizes="(max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 984px) 61vw, (max-width: 1362px) 45vw, 600px" /><figcaption id="caption-attachment-26179" class="wp-caption-text">A Morte onipresente espreita soberana em um país arruinado pela peste negra (Foto: MUBI)</figcaption></figure>
<p><b>Sabrina G. Ferreira</b></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Um filme do qual podemos analisar os anseios, as dúvidas e os medos de uma sociedade passada para tentarmos aprender por meio deles: essa é a definição de </span><a href="https://www.youtube.com/watch?v=17-abDcJUlY"><i><span style="font-weight: 400;">O Sétimo Selo</span></i></a><span style="font-weight: 400;"> (no original, em suéco, </span><i><span style="font-weight: 400;">Det sjunde inseglet; </span></i><span style="font-weight: 400;">e no inglês, </span><i><span style="font-weight: 400;">The Seventh Seal)</span></i><span style="font-weight: 400;">. Do diretor sueco </span><a href="https://www.youtube.com/watch?v=CLVLKQ8Nh_A"><span style="font-weight: 400;">Ingmar Bergman</span></a><span style="font-weight: 400;"> (</span><a href="https://www.slantmagazine.com/dvd/wild-strawberries/#:~:text=Wild%20Strawberries%20greatly%20benefits%20from,whites%20in%20the%20dream%20sequences."><i><span style="font-weight: 400;">Morangos Silvestres</span></i></a><span style="font-weight: 400;"> e </span><a href="https://personaunesp.com.br/persona-55-anos/"><i><span style="font-weight: 400;">Persona</span></i></a><span style="font-weight: 400;">), o nome faz referência à passagem do livro bíblico Apocalipse em que Deus tem </span><a href="https://www.articulandoideias.com.br/2021/01/Qual-o-significado-dos-sete-selos-do-apocalipse.html"><span style="font-weight: 400;">sete selos</span></a><span style="font-weight: 400;"> nas mãos, e a abertura de cada um deles representa um desastre para a humanidade, sendo o último o irreversível fim dos tempos. Trata-se de uma obra que incomoda o espectador desde seu lançamento em 1957, principalmente quando nos colocamos no lugar dos personagens e no meio caótico em que eles vivem. </span></p>
<p><span id="more-26178"></span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">A história se passa na Europa durante a Idade Média, num período em que a </span><a href="https://super.abril.com.br/mundo-estranho/o-que-foi-a-peste-negra-e-quanta-gente-ela-matou/"><span style="font-weight: 400;">peste negra</span></a><span style="font-weight: 400;"> assolou o mundo, e matou dezenas de milhares de pessoas, provocando uma das maiores baixas populacionais já existentes. Assim, somos apresentados ao protagonista Antonius Block (</span><a href="https://www2.bfi.org.uk/news-opinion/sight-sound-magazine/features/max-von-sydow-actors-profile-bergman-beyond"><span style="font-weight: 400;">Max von Sydow</span></a><span style="font-weight: 400;">), um cavaleiro que lutou nas Cruzadas e está voltando para a casa com seu amigo e companheiro de batalha, o escudeiro Squire Jöns (</span><a href="https://www.ingmarbergman.se/en/person/gunnar-bjornstrand"><span style="font-weight: 400;">Gunnar Björnstrand</span></a><span style="font-weight: 400;">).</span></p>
<figure id="attachment_26180" aria-describedby="caption-attachment-26180" style="width: 800px" class="wp-caption alignnone"><img decoding="async" class="size-medium wp-image-26180" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/02/Imagem-2-4-800x451.jpg" alt="Cena do filme O Sétimo Selo. Na imagem em preto e branco, vemos um homem jovem, de cabelos loiros, pele branca, olhando para a frente enquanto o braço direito está levantado, com a mão apoiada na parede. Ele está vestindo uma armadura feita de anéis de metal, e uma roupa preta em cima, cobrindo o tronco do corpo. Atrás dele tem uma grade de metal, com uma pessoa de aparência pálida atrás, olhando para o homem. Eles estão em ambiente fechado e escuro." width="800" height="451" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/02/Imagem-2-4-800x451.jpg 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/02/Imagem-2-4-1024x577.jpg 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/02/Imagem-2-4-768x433.jpg 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/02/Imagem-2-4-1536x865.jpg 1536w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/02/Imagem-2-4-2048x1154.jpg 2048w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/02/Imagem-2-4-1200x676.jpg 1200w" sizes="(max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 984px) 61vw, (max-width: 1362px) 45vw, 600px" /><figcaption id="caption-attachment-26180" class="wp-caption-text">O Sétimo Selo impressiona pelos elementos simbólicos e analogias óbvias (Foto: MUBI)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">Em um momento de descanso para ambos, a Morte (</span><a href="https://en.notrecinema.com/communaute/stars/stars.php3?staridx=242624"><span style="font-weight: 400;">Bengt Ekerot</span></a><span style="font-weight: 400;">), elemento central da história, incorporada em uma figura pálida de roupas escuras, aparece para Block para o informar que seus momentos finais haviam chegado. A fim de ganhar tempo, o cavaleiro lhe faz uma proposta: pede que joguem uma </span><a href="https://www.empireonline.com/movies/features/seventh-seal-chess-match-analysis/"><span style="font-weight: 400;">partida de xadrez</span></a><span style="font-weight: 400;">; se ela vencesse, ele iria sem protelar, mas do contrário, ele ganharia a liberdade. Intrigada com o desafio, a Morte aceita, e os duelos de xadrez tornam-se frequentes ao longo da trama. Bergman faz aqui um paralelo entre o jogo e o conflito morte </span><i><span style="font-weight: 400;">versus</span></i><span style="font-weight: 400;"> existência, como se Deus estivesse movendo suas peças, e por consequência, movimentando nossas vidas. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">O medo de monstros e outras criaturas sobrenaturais é frequentemente abordado na obra. Se hoje a tecnologia proporciona um mundo todo mapeado, no passado as pessoas não se &#8220;conheciam&#8221;, e para que </span><a href="https://www.historiamedieval.com.br/post/assinado-selado-entregue-como-as-mensagens-eram-enviadas-na-idade-m%C3%A9dia"><span style="font-weight: 400;">houvesse contato entre elas</span></a><span style="font-weight: 400;">, era necessário viagens a cavalo ou caminhar por meses para chegar em poucas centenas de quilômetros, enfrentando o frio, a neve e a chuva. Por isso, os aldeões em geral não tinham outra escolha senão acreditar no que lhes era contado,</span><a href="https://www.sohistoria.com.br/ef2/medieval/p5.php"><span style="font-weight: 400;"> e, dessa forma,</span></a><span style="font-weight: 400;"> a ameaça do desconhecido pairava, preconizando seus maiores temores. Foi assim que surgiram grande parte das criaturas assustadoras do </span><span style="font-weight: 400;">imaginário </span><span style="font-weight: 400;">medieval, nesse misto de mitologia, moralidade religiosa e ignorância, criando uma “coleção” de monstros que contribuíram na maneira da sociedade de pensar e ver o outro – e também os preconceitos.</span></p>
<blockquote>
<p style="text-align: right;"><span style="font-weight: 400;">“Falam de profecias e outros horrores.</span></p>
<p style="text-align: right;"><span style="font-weight: 400;">[&#8230;] Ontem foram vistos mais de um sol no céu”.</span></p>
<p style="text-align: right;"><span style="font-weight: 400;">&#8211; Jöns</span></p>
</blockquote>
<figure id="attachment_26181" aria-describedby="caption-attachment-26181" style="width: 720px" class="wp-caption alignnone"><img decoding="async" class="size-full wp-image-26181" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/02/Imagem-3.png" alt="Cena do filme O Sétimo Selo. Na imagem em preto e branco, vemos à direita um homem jovem sentado, de cabelos loiros, pele branca, olhando para a frente. Ele está vestindo uma armadura feita com anéis de metal, e uma roupa preta cobrindo o tronco do corpo. Está com as mãos cruzadas. Ao lado dele está uma moça loira, jovem, também sentada, de cabelos presos em forma de coque, vestindo um vestido leve de verão. Ela está olhando para ele e está sorrindo, enquanto segura uma tigela na mão direita. Atrás da moça há um homem jovem, de cabelos castanhos curtos, segurando um tipo de violão antigo, enquanto sorri, olhando para o lado esquerdo. Atrás dele tem uma carroça coberta com lona. Eles estão em ambiente externo, no campo, e está de dia." width="720" height="540" /><figcaption id="caption-attachment-26181" class="wp-caption-text">O Sétimo Selo foi exibido na mostra <a href="https://www.festival-cannes.com/en/films/det-sjunde-inseglet-1">Cannes Classics</a> em 2018 em uma homenagem ao centenário de Ingmar Bergman (Foto: MUBI)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">Enquanto Block e Jöns seguem por trilhas isoladas, eles param em um vilarejo local, e encontram uma família de artistas circenses, composta por Mia (</span><a href="https://www.criterion.com/current/posts/6297-bibi-andersson-simple-uncomplicated-and-deep"><span style="font-weight: 400;">Bibi Andersson</span></a><span style="font-weight: 400;">) e Jof (</span><a href="https://www.youtube.com/watch?v=AHNJO0ohOfI"><span style="font-weight: 400;">Nils Poppe</span></a><span style="font-weight: 400;">). O casal é religioso, e se configura no estigma de uma santa família feliz que acabou de gerar um primogênito. Jof tem constantes visões espirituais, mas não consegue convencer Mia da veracidade delas. Há também o núcleo de personagens secundários, composto pelo colega de espetáculo do casal, Jonas Skat (</span><a href="https://www.senscritique.com/contact/Erik_Strandmark/4206"><span style="font-weight: 400;">Erik Strandmark</span></a><span style="font-weight: 400;">), que representa uma figura mais profana e cômica, um homem cuja esposa o traiu (posteriormente essa mulher adúltera também junta-se a eles), e uma camponesa que estava prestes a ser violentada, é salva por Jöns, e coagida a seguir com ele. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Além destes, há também pessoas hostis e gananciosas, como é o caso de Raval (</span><a href="https://limaomecanico.com.br/celebridade/bertil-anderberg/"><span style="font-weight: 400;">Bertil Anderberg</span></a><span style="font-weight: 400;">), que comete roubos (principalmente dos bens de pessoas mortas em decorrência da peste negra), e intimida Jof em uma taverna, fazendo-o imitar um urso, caso contrário, seria queimado vivo. O detalhe é que essa cena ocorre em meio a várias pessoas, também presentes no estabelecimento, que assistem o “espetáculo”, rindo e incitando a violência. O diretor/roteirista vê neles a justificativa para uma sociedade ser castigada pela peste, e mais tarde, todos os indivíduos, pecadores e não pecadores, inocentes e culpados, se encontrarão. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Entretanto, apesar da dificuldade em nos colocarmos no lugar dessas pessoas em vista das diferenças existentes em uma sociedade regida pelo medo e por dogmas impostos pela Igreja Católica, é possível adquirir simpatia por elas. É justamente isso que Bergman demonstra querer, expondo o quão imperfeitas essas pessoas são, mas ainda assim, não deixam de ser só indivíduos comuns, que reagem de </span><a href="https://psicologiaacessivel.net/2016/05/18/por-que-as-pessoas-regem-de-forma-diferente-as-mesmas-situacoes/"><span style="font-weight: 400;">formas diferentes</span></a><span style="font-weight: 400;"> em situações de pânico. Existe um </span><a href="http://www.philosophy.pro.br/razao_e_fe.htm"><span style="font-weight: 400;">conflito entre Luz e Razão</span></a><span style="font-weight: 400;"> na Idade Média que dissocia os Homens como bons ou maus, sem cogitar na dualidade que há em cada um deles. Esse conflito permanece até hoje, já que a vida está ligada à morte, e sempre haverá questionamentos, como: “</span><i><span style="font-weight: 400;">Deus existe?</span></i><span style="font-weight: 400;">”, ou “</span><i><span style="font-weight: 400;">O que é esse vazio interior que sentimos?</span></i><span style="font-weight: 400;">”.</span></p>
<figure id="attachment_26182" aria-describedby="caption-attachment-26182" style="width: 800px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-medium wp-image-26182" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/02/Imagem-4-3-800x590.jpg" alt="Cena do filme O Sétimo Selo. Na imagem em preto e branco, vemos uma mulher jovem à esquerda jovem. Ela veste uma roupa de duas cores, com o corpo totalmente coberto, inclusive a cabeça, mantendo somente o rosto para fora, e usando uma corrente de metal no pescoço, com um pingente redondo. Ela tem pele clara, é loira, e está maquiada de modo exagerado, com dois círculos de blush nas bochechas. Ela está olhando para frente. Um pouco atrás dela há um homem jovem, de pele clara, maquiado de forma exagerada, com o rosto pintado de branco. Ele está olhando para a frente, com aparência de espanto. Ele está vestindo uma roupa de duas cores também, cobrindo o corpo todo, inclusive a cabeça, mantendo só o rosto à mostra. Sobre sua cabeça, colado ao capuz, há dois chifres pontiagudos de madeira. Atrás deles há uma cortina com alguns desenhos estampados. Está de dia." width="800" height="590" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/02/Imagem-4-3-800x590.jpg 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/02/Imagem-4-3-1024x755.jpg 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/02/Imagem-4-3-768x566.jpg 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/02/Imagem-4-3-1200x885.jpg 1200w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/02/Imagem-4-3.jpg 1333w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 984px) 61vw, (max-width: 1362px) 45vw, 600px" /><figcaption id="caption-attachment-26182" class="wp-caption-text">O casal de atores Mia e Jof representam a pureza e a inocência (Foto: MUBI)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">Em outra passagem, há fortes </span><a href="https://www.asharperfocus.com/7thseal.htm"><span style="font-weight: 400;">críticas ao catolicismo</span><span style="font-weight: 400;">.</span></a><span style="font-weight: 400;"> O que de início se tratava de uma alegre apresentação dos artistas Jof, Mia e Skat para divertir o público de um vilarejo, logo se contrasta com uma procissão de padres seguidos por fiéis carregando cruzes, se autoflagelando, e cantando um hino em meio a choros e lamentações. É a alegria e a diversão que nos faz esquecer os problemas da vida, e em seguida, o sofrimento na busca pelo </span><a href="https://www.correiobraziliense.com.br/app/noticia/ciencia-e-saude/2012/12/30/interna_ciencia_saude,341637/bodes-expiatorios-peste-negra-era-atribuida-a-castigo-divino.shtml"><span style="font-weight: 400;">perdão divino para o castigo</span></a><span style="font-weight: 400;"> da peste bubônica. Essa é, sem dúvida, a cena mais impactante do filme. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Sob o mesmo ponto de vista, é importante citar a conduta de Block, que questionava a fé e, consequentemente, a Igreja Católica. Tal atitude se mostra contrária à sociedade medieval, e à Igreja que </span><a href="http://historiaviva.com.br/idade-media/a-igreja-catolica-na-idade-media/"><span style="font-weight: 400;">intervinha</span></a><span style="font-weight: 400;">, difundia ideias de forma dogmática e temerosa, fazendo as pessoas crerem na vida eterna e em Deus como única salvação. No entanto, próximo ao desfecho, ao deparar-se com a Morte silenciosa à sua frente, Block conclui que, de fato, não há como fugir, e se ajoelha, pedindo aos céus por uma salvação. Isso reforça como o ser humano, em momentos de desespero, sempre </span><a href="https://www.bbc.com/portuguese/noticias/2015/04/150404_existencia_programacao_deus_mdb_lgb"><span style="font-weight: 400;">recorre à fé</span></a><span style="font-weight: 400;">.</span></p>
<figure id="attachment_26183" aria-describedby="caption-attachment-26183" style="width: 800px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-medium wp-image-26183" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/02/Imagem-5-3-800x602.jpg" alt="Cena do filme O Sétimo Selo. Na imagem em preto e branco, vemos uma mulher branca à esquerda. Ela tem cabelos escuros, amarrados em forma de coque, e só é possível ver a cabeça e o pescoço dela. Ela olha para a frente. Ao lado dela, um pouco atrás, há outra mulher jovem, de pele e olhos claros e cabelos loiros escuros, lisos, soltos sobre os ombros. Ela veste uma roupa escura e também está olhando para a frente, enquanto lágrimas escorrem pelo seu rosto. Um pouco atrás dela, no lado direito, está um homem. Ele tem pele clara, cabelos bem curtos raspados e barba por fazer. Ele veste uma roupa escura, tem uma cicatriz no rosto, próximo ao olho esquerdo, que vai até os cabelos. Ele também está olhando para a frente. Atrás dessas três pessoas há um homem jovem, de cabelos loiros e curtos, vestindo uma roupa preta e uma armadura de cavaleiro, feita com anéis de metal. Ele está olhando para cima, com os braços levantados e as mãos à frente do rosto, em forma de prece. Ao lado dele há uma janela com uma luz solar forte entrando no cômodo. Eles estão em ambiente interno, e está de dia. " width="800" height="602" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/02/Imagem-5-3-800x602.jpg 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/02/Imagem-5-3-1024x770.jpg 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/02/Imagem-5-3-768x578.jpg 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/02/Imagem-5-3-1536x1156.jpg 1536w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/02/Imagem-5-3-1200x903.jpg 1200w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/02/Imagem-5-3.jpg 1595w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 984px) 61vw, (max-width: 1362px) 45vw, 600px" /><figcaption id="caption-attachment-26183" class="wp-caption-text">A obra de Bergman expõe o desejo humano de driblar a morte por meio da imortalidade, mesmo quando essa é o mais terrível dos destinos (Foto: MUBI)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">Próximo ao fim de </span><i><span style="font-weight: 400;">O Sétimo Selo</span></i><span style="font-weight: 400;">, Block reencontra sua esposa, e enquanto o casal está reunido na sala com outros personagens, a Morte adentra a casa. Sem possibilidade de escapar, todos aceitam o fim passivamente, menos o protagonista, que se entrega à uma última oração desesperada, em busca de respostas da </span><a href="https://confluence.gallatin.nyu.edu/context/interdisciplinary-seminar/whats-going-on"><span style="font-weight: 400;">existência de um Deus</span></a><span style="font-weight: 400;">, ou de tranquilidade, em vista do destino inevitável; mas não obtém nada além do silêncio.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">O mais surpreendente nesse desfecho é sabermos que a família de artistas, Mia, Jof e seu filho pequeno, foram os únicos que conseguiram driblar a Morte. Jof, quase sempre apalermado e de mente fantasiosa, na verdade era o único ali, com exceção de Block, que </span><a href="https://www.independent.co.uk/arts-entertainment/films/features/story-of-the-scene-the-seventh-seal-ingmar-bergman-1956-22927.html"><span style="font-weight: 400;">conseguiu ver a figura da Morte</span></a><span style="font-weight: 400;"> e fugir a tempo à noite, em meio à tempestade, salvando sua família de um final trágico. Para o diretor, eles representam a importância da Arte, incorporada na pura e ingênua família que vive por ela e para levá-la às pessoas. Fica aqui a reflexão de que talvez nossa única esperança seja mesmo a Arte como cura e salvação dos homens.</span></p>
<figure id="attachment_26184" aria-describedby="caption-attachment-26184" style="width: 1600px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-full wp-image-26184" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/02/Imagem-6.webp" alt="Cena do filme O Sétimo Selo. Na imagem em preto e branco, vemos sete pessoas andando em fila, unidas com as mãos. Eles estão um pouco distantes, sendo difícil de identificar detalhes. Em frente, há um indivíduo com capa e capuz preto, segurando uma foice em uma das mão. De mão dada com ele há outra pessoa, aparentemente um homem, com roupas escuras. Ao lado há uma mulher de vestido claro, também de mãos dadas com outro homem, loiro, de roupas aparentemente escuras. Ao lado dele, de mãos dadas com ele, há outro homem de costas, usando uma roupa de frio, e de mãos dadas com uma mulher, de roupa escura e capuz sobre a cabeça. Ao lado dela (também de mão dada com ela) há um homem de costas para ela, segurando algo que parece ser um instrumento musical em uma das mãos. Ele está de costas para o grupo. Eles estão em ambiente externo, no campo, com somente uma grama baixa aparecendo sobre seus pés, e um céu claro. Está de dia." width="1600" height="1133" /><figcaption id="caption-attachment-26184" class="wp-caption-text">Não há preferidos, pois, no fim, a dança da morte chega para todos (Foto: MUBI)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">No final, eis que a Morte anda de mãos dadas, conduzindo Block e todos que estavam ali presentes em sua casa, em fila única, realizando uma </span><a href="https://thingsireadbyjordan.wordpress.com/2016/05/27/the-danceingmar-bergmans-fear-of-death-in-the-seventh-seal/"><span style="font-weight: 400;">dança da morte</span></a><span style="font-weight: 400;">. Esse conceito foi </span><a href="http://charisdcruz.blogspot.com/2021/03/o-homem-e-morte-danca-macabra-parte-20.html"><span style="font-weight: 400;">aplicado pela Igreja</span></a><span style="font-weight: 400;"> na Idade Média em pinturas de capelas para recordar a população: </span><i><span style="font-weight: 400;">“Lembre-se de que vai morrer”.</span></i><span style="font-weight: 400;"> Assim, todos saberiam que deveriam obedecer aos dogmas impostos pela Igreja para alcançar a redenção eterna. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Por fim, é importante reforçar que </span><i><span style="font-weight: 400;">O Sétimo Selo, </span></i><span style="font-weight: 400;">vencedor do Prêmio Especial do Júri no </span><a href="https://www.festival-cannes.com/en/"><i><span style="font-weight: 400;">Festival de Cannes</span></i></a> <span style="font-weight: 400;">em 1957</span><i><span style="font-weight: 400;">, </span></i><span style="font-weight: 400;">mesmo após 65 anos de seu lançamento no seu país de origem, a Suécia, continua sendo atual na sua defesa da Arte como antídoto à intolerância religiosa em tempos apocalípticos – sejam os da peste negra, de guerra, ou de pandemia, como vivemos no presente. A</span><span style="font-weight: 400;"> mensagem deixada por Bergman, com toda sua arte, é que devemos sempre ter esperança, ou um </span><a href="https://auralcrave.com/en/2018/04/29/ingmar-bergmans-the-seventh-seal-faith-salvation-and-the-true-meaning-of-life/"><span style="font-weight: 400;">vislumbre de salvação</span></a><span style="font-weight: 400;">, e isso é o estar aqui, vivendo. Disso, temos conhecimento, já do “Além”, nada sabemos.</span></p>
<p>O post <a href="http://personaunesp.com.br/o-setimo-selo-65-anos/">A existência humana e a consciência da morte prevalecem nos 65 anos de O Sétimo Selo</a> apareceu primeiro em <a href="http://personaunesp.com.br">Persona | Jornalismo Cultural</a>.</p>
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		<title>Persona: 55 anos da obra-prima de Ingmar Bergman</title>
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		<pubDate>Thu, 25 Nov 2021 14:59:01 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p>Gabriel Gatti A palavra persona, de origem grega, é usada para designar um papel social, como uma profissão, ou um personagem, no qual o indivíduo passa a interpretar uma realidade que não é a sua. No campo da representação, é possível empregá-la para designar uma máscara. Nesse contexto de transposição de personalidade, somos apresentados a &#8230; <a href="http://personaunesp.com.br/persona-55-anos/" class="more-link">Continue lendo<span class="screen-reader-text"> "Persona: 55 anos da obra-prima de Ingmar Bergman"</span></a></p>
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										<content:encoded><![CDATA[<figure id="attachment_24137" aria-describedby="caption-attachment-24137" style="width: 563px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-full wp-image-24137" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/10/Imagem-1-11.jpg" alt="Cena do filme Persona apresenta uma imagem em branco e preto de um menino de costas com a mão direita erguida sobre a foto de uma mulher branca, que toma conta de todo o plano." width="563" height="402" /><figcaption id="caption-attachment-24137" class="wp-caption-text">Vanguardista, Ingmar Bergman inicia sua obra com sobreposições de imagens (Foto: AB Svensk Filmindustri)</figcaption></figure>
<p><b>Gabriel Gatti</b></p>
<p><span style="font-weight: 400;">A palavra </span><a href="https://origemdapalavra.com.br/palavras/persona/"><span style="font-weight: 400;">persona</span></a><span style="font-weight: 400;">, de origem grega, é usada para designar um papel social, como uma profissão, ou um personagem, no qual o indivíduo passa a interpretar uma realidade que não é a sua. No campo da representação, é possível empregá-la para designar uma máscara. Nesse contexto de transposição de personalidade, somos apresentados a Elisabet e Alma, duas mulheres que se fundem ao longo da trama dirigida por Ingmar Bergman em 1966.</span></p>
<p><span id="more-24136"></span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Durante a produção de </span><i><span style="font-weight: 400;">Persona</span></i><span style="font-weight: 400;">, Ingmar Bergman já era um diretor aclamado pelos longas </span><a href="https://www.planocritico.com/critica-o-setimo-selo/"><i><span style="font-weight: 400;">O Sétimo Selo</span></i></a><span style="font-weight: 400;"> e </span><a href="https://www.planocritico.com/critica-morangos-silvestres/"><i><span style="font-weight: 400;">Morangos Silvestres</span></i></a><span style="font-weight: 400;">, porém </span><i><span style="font-weight: 400;">Persona</span></i><span style="font-weight: 400;"> surgiu em um momento diferenciado da vida do cineasta. Bergman estava se recuperando de uma grave pneumonia e colocou todo seu esforço na produção do roteiro, sem pensar se o resultado refletiria em um filme comercial. Após nove semanas, com o produto pronto, o diretor tinha em mãos o que viria a ser considerado a mais primorosa de suas realizações</span></p>
<figure id="attachment_24138" aria-describedby="caption-attachment-24138" style="width: 763px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-full wp-image-24138" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/10/Imagem-2-10.jpg" alt="Cena do filme Persona apresenta uma imagem em branco e preto de uma enfermeira branca de cabelos curtos loiros debruçada sobre uma paciente. Esta é uma mulher branca de cabelos longos, que está deitada em uma cama de hospital." width="763" height="545" /><figcaption id="caption-attachment-24138" class="wp-caption-text">A narrativa se inicia de forma trivial e guia os telespectadores para as transformações lentas pelas quais as personagens sofrem ao longo da trama (Foto: AB Svensk Filmindustri)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">Essa obra singular se inicia com um prelúdio experimental, em que somos apresentados a diversas cenas avulsas sobrepostas, como nos movimentos de </span><a href="https://www.aicinema.com.br/as-diferencas-entre-cinema-classico-e-moderno/"><span style="font-weight: 400;">vanguarda modernistas</span></a><span style="font-weight: 400;">. Essa aclimatação ocorre para introduzir os telespectadores na vida de </span><span style="font-weight: 400;">Elisabet (</span><a href="https://www1.folha.uol.com.br/ilustrissima/2018/07/eu-fiz-o-papel-de-ingmar-bergman-em-seus-filmes-afirma-liv-ullmann.shtml"><span style="font-weight: 400;">Liv Ullmann</span></a><span style="font-weight: 400;">), uma atriz que deixa de falar após uma apresentação catastrófica, sem que houvesse nenhum motivo físico ou neurológico para isso. Desse modo, ela passa a viver internada em um hospital, onde recebe cuidados diários da enfermeira Alma (</span><a href="https://g1.globo.com/pop-arte/noticia/2019/04/14/morre-aos-83-anos-a-atriz-bibi-andersson-musa-de-ingmar-bergman.ghtml"><span style="font-weight: 400;">Bibi Andersson</span></a><span style="font-weight: 400;">). </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Após um longo período de internação, a médica da atriz sugere que a paciente passe um tempo em descanso em sua casa de praia, sob os cuidados da enfermeira. A partir dessa situação, Elisabet e Alma viajam até o local, onde passam a conviver desprovidas de interação com o mundo exterior. Nesse contexto, a cuidadora vê sua paciente emudecida como uma confidente fiel. Aos poucos, os monólogos vão tornando as mulheres ainda mais próximas. Esse contraste perturbador entre o silêncio de uma, sobreposto com as confissões da outra vai formando um elo entre ambas, até suas personas fundirem em uma só</span></p>
<figure id="attachment_24139" aria-describedby="caption-attachment-24139" style="width: 727px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-full wp-image-24139" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/10/Imagem-3-11.jpg" alt="Cena do filme Persona apresenta uma imagem em branco e preto de duas mulheres brancas vestindo uma roupa. Uma delas tem cabelos curtos e loiros e está segurando uma caneca, a outra tem uma faixa que prende todo o cabelo para trás enquanto fuma um cigarro." width="727" height="520" /><figcaption id="caption-attachment-24139" class="wp-caption-text">Com o tempo, o silêncio doentio de Elisabet passa a atormentar Alma (Foto: AB Svensk Filmindustri)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">Essa história abstrata apresentada por Bergan torna o filme tão complexo e aberto a interpretações. Segundo o escritor </span><a href="https://www.faber.co.uk/author/peter-cowie/"><span style="font-weight: 400;">Peter Cowie</span></a><span style="font-weight: 400;">, </span><i><span style="font-weight: 400;">“tudo o que se disser sobre Persona pode ser contradito, o oposto também será verdade”</span></i><span style="font-weight: 400;">. Mas para que o trabalho resultasse nessa obra prima do Cinema, houve grande contribuição por parte da atuação das protagonistas. Liv Ullmann e Bibi Andersson envolvem os telespectadores no clima dualista e visceral explorado ao longo da película. Além disso, a direção de fotografia de </span><a href="https://www.melhoresfilmes.com.br/directors/sven-nykvist"><span style="font-weight: 400;">Sven Nykvist</span></a><span style="font-weight: 400;"> foi genial para complementar o que estava proposto no roteiro. A todo momento, Elisabet e Alma são registradas sob a l</span><span style="font-weight: 400;">uz sem </span><span style="font-weight: 400;">que ambas estejam iluminadas simultaneamente, dando destaque apenas para uma parte da persona que viria a se fundir, como se estivessem incompletas.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Essa obra tão complexa, que acabou sendo traduzida no Brasil para o lamentável título </span><i><span style="font-weight: 400;">Quando Duas Mulheres Pecam</span></i><span style="font-weight: 400;">, aborda uma questão psicológica muito singular, mas outros pontos da capacidade cognitiva humana foram amplamente trabalhados na cinematografia de Bergan. Liv Ullmann, que atuou pela primeira vez com o diretor em </span><i><span style="font-weight: 400;">Persona</span></i><span style="font-weight: 400;">, também protagonizou outros longas com temática emocional, como </span><a href="https://vermelho.org.br/prosa-poesia-arte/celso-marconi-face-a-face-de-bergman/"><i><span style="font-weight: 400;">Face a Face</span></i></a><span style="font-weight: 400;">, </span><a href="https://cinemaemcena.com.br/coluna/ler/505/sonata-de-outono"><i><span style="font-weight: 400;">Sonata de Outono</span></i></a><span style="font-weight: 400;"> e o brilhante </span><a href="https://www.planocritico.com/critica-cenas-de-um-casamento-1973/"><i><span style="font-weight: 400;">Cenas de um Casamento</span></i></a><span style="font-weight: 400;">. Todos os filmes exploram as questões problemáticas das relações sociais, sejam elas entre familiares ou entre conhecidos.</span></p>
<figure id="attachment_24140" aria-describedby="caption-attachment-24140" style="width: 640px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-full wp-image-24140" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/10/Imagem-4-7.jpg" alt="Cena do filme Persona apresenta uma imagem em branco e preto de duas mulheres brancas." width="640" height="457" /><figcaption id="caption-attachment-24140" class="wp-caption-text">De forma sútil e conceitual, ambas as personagens se fundem em uma só (Foto: AB Svensk Filmindustri)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">Recheado de longas com viés psicológico, </span><a href="https://veja.abril.com.br/especiais/bergman-o-complicado-homem-para-alem-do-grande-cineasta/"><span style="font-weight: 400;">Ingmar Bergman</span></a><span style="font-weight: 400;"> construiu uma carreira brilhante no Cinema, com mais de 60 filmes lançados, repletos de análises comportamentais e psicológicas, tendo ele mesmo escrito a maioria dos roteiros. Além disso, o diretor também se destacou pelo seu trabalho no Teatro, resultando em quase 170 peças. Todas suas produções sempre refletiram sua personalidade, o que torna as obras ainda mais singulares e intimistas.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Com um filme extremamente sensorial que transformou a cinematografia de Bergman, </span><i><span style="font-weight: 400;">Persona</span></i><span style="font-weight: 400;"> conta uma história com o uso do silêncio. Mesmo 55 anos depois de seu lançamento, nenhum outro diretor conseguiu trabalhar uma obra com tamanha profundidade. Mais importante do que a narrativa apresentada ao longo da película, é a experiência pela qual o cineasta nos insere. Com um uso genial da iluminação e a atuação hipnotizante de Ullmann e Andersson, </span><i><span style="font-weight: 400;">Persona </span></i><span style="font-weight: 400;">é uma das produç</span><span style="font-weight: 400;">ões mais interessantes e essenciais da história do Cinema.</span></p>
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		<title>O vencedor leva tudo em Bergman Island</title>
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		<pubDate>Sun, 31 Oct 2021 04:43:35 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p>Ayra Mori Foi na Sétima Arte que Ingmar Bergman convidou seus fantasmas mais obscuros para uma batalha taciturna de xadrez. Numa série de movimentos milimetricamente calculados, xeque, o cineasta sueco ultrapassou os limites entre o homem ordinário e o gênio do Cinema Moderno. Integrando a Perspectiva Internacional da 45ª Mostra Internacional de Cinema em São &#8230; <a href="http://personaunesp.com.br/bergman-island-critica/" class="more-link">Continue lendo<span class="screen-reader-text"> "O vencedor leva tudo em Bergman Island"</span></a></p>
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]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<figure id="attachment_24293" aria-describedby="caption-attachment-24293" style="width: 800px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-medium wp-image-24293" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/10/Imagem1-800x333.png" alt="Cena do filme Bergman Island. Na imagem estão Chris e Tony, em ordem. Chris, interpretada por Vicky Krieps, é uma mulher branca com cerca de 38 anos e cabelo cacheado castanho. Ela veste um suéter laranja queimado. Tony, interpretado por Tim Roth, é um homem branco com cerca de 60 anos e cabelo curto castanho claro. Ele veste uma blusa azul marinho. Ambos estão de perfil, olhando para uma janela. O fundo é uma parede branca de reboco simples." width="800" height="333" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/10/Imagem1-800x333.png 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/10/Imagem1-1024x426.png 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/10/Imagem1-768x319.png 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/10/Imagem1-1536x639.png 1536w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/10/Imagem1-1200x499.png 1200w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/10/Imagem1.png 1650w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 984px) 61vw, (max-width: 1362px) 45vw, 600px" /><figcaption id="caption-attachment-24293" class="wp-caption-text">Integrando a seleção da 45ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo, Bergman Island teve sua estreia oficial no Festival de Cannes 2021 (Foto: IFC Films)</figcaption></figure>
<p><b>Ayra Mori</b></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Foi na Sétima Arte que </span><a href="https://veja.abril.com.br/especiais/bergman-o-complicado-homem-para-alem-do-grande-cineasta/"><span style="font-weight: 400;">Ingmar Bergman</span></a><span style="font-weight: 400;"> convidou seus fantasmas mais obscuros para uma batalha taciturna de xadrez. Numa série de movimentos milimetricamente calculados, </span><i><span style="font-weight: 400;">xeque</span></i><span style="font-weight: 400;">, o cineasta sueco ultrapassou os limites entre o homem ordinário e o gênio do Cinema Moderno. Integrando a Perspectiva Internacional da 45ª </span><a href="http://personaunesp.com.br/tag/mostra-internacional-de-cinema-em-sao-paulo/"><span style="font-weight: 400;">Mostra Internacional</span></a><span style="font-weight: 400;"> de Cinema em São Paulo, </span><a href="https://c7nema.net/artigos/item/105758-a-ilha-de-bergman-mia-hansen-love-livre-do-realismo.html"><span style="font-weight: 400;">Mia Hansen-Løve</span></a><span style="font-weight: 400;"> se aventura em </span><i><span style="font-weight: 400;">Bergman Island</span></i><span style="font-weight: 400;">. E incubando-se da ingrata responsabilidade de homenagear tamanho legado, a diretora francesa vai para além de Bergman, refletindo acerca do amor, da desilusão e, principalmente, da recuperação artística.</span></p>
<p><span id="more-24272"></span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">O longa toma espaço em </span><a href="https://oglobo.globo.com/boa-viagem/conheca-ilha-de-faro-refugio-inspiracao-de-igmar-bergman-22879880"><span style="font-weight: 400;">Fårö</span></a><span style="font-weight: 400;">, uma ilha Báltica revelada a Bergman no decurso das filmagens de </span><i><span style="font-weight: 400;">Através de um Espelho</span></i><span style="font-weight: 400;">, onde encontrou na paisagem idílica a materialização física de uma visão que sempre manteve consigo. Foi amor à primeira vista. Fårö tornou-se cenário de clássicos do cineasta, que vão desde</span> <i><span style="font-weight: 400;">A</span></i> <i><span style="font-weight: 400;">Paixão de Ana</span></i> <span style="font-weight: 400;">à </span><i><span style="font-weight: 400;">Cenas de um Casamento</span></i><span style="font-weight: 400;">, e nela, Bergman passou recluso os seus amargos últimos anos de vida.</span></p>
<figure id="attachment_24295" aria-describedby="caption-attachment-24295" style="width: 800px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-medium wp-image-24295" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/10/Imagem2-800x332.png" alt="Cena do filme Bergman Island. Na imagem está Chris. Chris, interpretada por Vicky Krieps, é uma mulher branca com cerca de 38 anos e cabelo cacheado castanho. Ela está agachada tocando o mar enquanto olha para a câmera vestida de um maiô marrom. Ao fundo está o horizonte do oceano azul, o céu azul com nuvens brancas e a areia da ilha." width="800" height="332" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/10/Imagem2-800x332.png 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/10/Imagem2-1024x426.png 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/10/Imagem2-768x319.png 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/10/Imagem2-1536x638.png 1536w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/10/Imagem2-1200x499.png 1200w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/10/Imagem2.png 1718w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 984px) 61vw, (max-width: 1362px) 45vw, 600px" /><figcaption id="caption-attachment-24295" class="wp-caption-text">Greta Gerwig, John Turturro e Owen Wilson foram alguns dos atores previamente escalados para os papéis principais do longa (Foto: IFC Films)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">Sem surpresa, a ilha sueca se tornou retiro temático para cinéfilos. Lá, </span><span style="font-weight: 400;">Hansen-Løve introduz a narrativa com a chegada de um casal. Ambos cineastas, Tony (</span><span style="font-weight: 400;">Tim Roth) e </span><span style="font-weight: 400;">Chris (</span><span style="font-weight: 400;">Vicky Krieps)</span><span style="font-weight: 400;"> fixam-se em </span><span style="font-weight: 400;">Fårö, dando início à escrita de seus respectivos projetos futuros. Ele celebra os sucessos de sua estabelecida produção artística, reconhecida pelo público. Ela, através da experiência torturante que perpassa o processo criativo, luta contra a mediocridade do próprio roteiro. Assim, o casal lida com o impasse calado que navega por meio dos </span><a href="https://www.apaladewalsh.com/2021/10/mia-hansen-love-a-vocacao-tende-a-devorar-tudo/"><span style="font-weight: 400;">desalinhamentos profissionais</span></a><span style="font-weight: 400;"> de cada um. Tudo sob a vastidão do azul deslumbrante do mar, a herança de Bergman e as memórias do passado.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Conforme a escrita do casal avança, os rumos de ambos vão divergindo. Nos detalhes de uma conversa animada ou na indiferença de uma expedição turística cômica, para Chris, ao lado de Hansen-Løve, as reafirmações da figura do marido, assim como as de Bergman, não interessam. Ao contrário, envolvida pela beleza estonteante quase opressora da paisagem, ela mergulha de cabeça nas possibilidades que surgem a partir de sua insubordinação.</span></p>
<figure id="attachment_24296" aria-describedby="caption-attachment-24296" style="width: 800px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-medium wp-image-24296" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/10/Imagem3-800x332.png" alt="Cena do filme Bergman Island. Na imagem estão Amy e Joseph, em ordem. Amy, interpretada por Mia Wasikowska, é uma mulher branca com cerca de 32 anos e cabelo curto loiro. Ela veste uma camisa jeans, regata branca vazada com outra regata vermelha por baixo e calça jeans. Joseph, interpretado por Anders Danielsen Lie, é um homem branco com cerca de 42 anos e cabelo curto loiro. Ele veste uma camiseta azul marinho e calça jeans escura. Ambos estão deitados sobre um gramado sombreado por árvores. Amy está deitada para cima, olhando para a mesma direção, com a cabeça apoiada nos braços. Joseph está atrás dela, deitado de lado e olhando para cima, com a cabeça apoiada sobre os braços." width="800" height="332" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/10/Imagem3-800x332.png 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/10/Imagem3-1024x426.png 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/10/Imagem3-768x319.png 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/10/Imagem3-1536x638.png 1536w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/10/Imagem3-1200x499.png 1200w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/10/Imagem3.png 1718w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 984px) 61vw, (max-width: 1362px) 45vw, 600px" /><figcaption id="caption-attachment-24296" class="wp-caption-text">Amy e Joseph, interpretados pela fenomenal Mia Wasikowska e por Anders Danielsen Lie (Foto: IFC Films)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">O roteiro de Chris ganha corpo, guiando o filme a uma narrativa de abismo que entrelaça diretora à protagonista à nova protagonista. Vida e Arte tornam-se uma e duas ficções se enredam quando Chris se espelha em Amy – interpretada excepcionalmente por </span><a href="https://istoe.com.br/mia-wasikowska-encarna-a-batalha-das-diretoras-de-cinema-em-a-ilha-de-bergman/"><span style="font-weight: 400;">Mia Wasikowska</span></a><span style="font-weight: 400;"> – para personificar os desejos frustrados do primeiro amor, Joseph </span><span style="font-weight: 400;">(Anders Danielsen Lie)</span><span style="font-weight: 400;">. Esse é o último capítulo dessa história fadada à ruína que se deu ora muito cedo, ora tarde demais. A ânsia desse amor proibido é agonizante, inconclusiva. Hansen-Løve nos priva da catarse e a quietude gritante de </span><span style="font-weight: 400;">Fårö parece amplificar as dores dos amantes desafortunados, bem como a nossa.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Na tranquilidade da paisagem, na melancolia torturante do adeus jamais dito ou ainda no êxtase de se dançar, o longa traça paralelos que unificam brilhantemente </span><a href="https://youtu.be/nrlVHVid-20"><i><span style="font-weight: 400;">Bergman Island</span></i></a><span style="font-weight: 400;">, </span><a href="https://personaunesp.com.br/persona-silencio-fala/"><i><span style="font-weight: 400;">Persona</span></i></a> <span style="font-weight: 400;">e </span><a href="https://youtu.be/92cwKCU8Z5c"><i><span style="font-weight: 400;">The Winner Takes It All</span></i></a><span style="font-weight: 400;"> do ABBA; sugerindo que, talvez, essas três interpretações não sejam de todo opostas.</span><span style="font-weight: 400;"> Em outros termos, </span><i><span style="font-weight: 400;">Bergman Island</span></i><span style="font-weight: 400;"> não é uma simples carta de amor. Nela, </span><span style="font-weight: 400;">Hansen-Løve é a vencedora que leva tudo. Libertando-se das influências imateriais frígidas do cineasta sueco, a diretora francesa reafirma deliberadamente a própria voz, junto de Chris, junto de Amy.</span></p>
<div class="jetpack-video-wrapper"><iframe loading="lazy" title="Bergman Island - Official Trailer | HD | IFC Films" width="840" height="473" src="https://www.youtube.com/embed/nrlVHVid-20?feature=oembed" frameborder="0" allow="accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share" referrerpolicy="strict-origin-when-cross-origin" allowfullscreen></iframe></div>
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		<title>Persona: o silêncio fala</title>
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		<dc:creator><![CDATA[]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 19 Oct 2016 20:13:30 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Cinema]]></category>
		<category><![CDATA[Clássicos]]></category>
		<category><![CDATA[Ingmar Bergman]]></category>
		<category><![CDATA[Nilo Vieira]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Nenhum pôster é grande o suficiente pra esse filme Nilo Vieira De modo bastante rudimentar e generalizante, pode-se apresentar a obra do cineasta sueco Ingmar Bergman a um leigo como um “surrealismo cáustico do cotidiano”. Seus filmes propõem reflexões existencialistas através de metáforas incômodas e por vezes demoníacas, e a capacidade de extrair e expandir &#8230; <a href="http://personaunesp.com.br/persona-silencio-fala/" class="more-link">Continue lendo<span class="screen-reader-text"> "Persona: o silêncio fala"</span></a></p>
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										<content:encoded><![CDATA[<p><img loading="lazy" decoding="async" class="alignnone size-full wp-image-5557" src="https://criticapersona.files.wordpress.com/2016/10/cjanlvcrp9zy7atasusxrrhve7o.jpg" alt="cjanlvcrp9zy7atasusxrrhve7o" width="1000" height="1500" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2016/10/cjanlvcrp9zy7atasusxrrhve7o.jpg 1000w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2016/10/cjanlvcrp9zy7atasusxrrhve7o-200x300.jpg 200w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2016/10/cjanlvcrp9zy7atasusxrrhve7o-768x1152.jpg 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2016/10/cjanlvcrp9zy7atasusxrrhve7o-683x1024.jpg 683w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 1362px) 62vw, 840px" /></p>
<p>Nenhum pôster é grande o suficiente pra esse filme</p>
<p><strong>Nilo Vieira</strong></p>
<p>De modo bastante rudimentar e generalizante, pode-se apresentar a obra do cineasta sueco Ingmar Bergman a um leigo como um “surrealismo cáustico do cotidiano”. Seus filmes propõem reflexões existencialistas através de metáforas incômodas e por vezes demoníacas, e a capacidade de extrair e expandir as mais diversas hipóteses sobre determinado tema em diálogos ásperos ou mesmo aparentemente banais (sempre retradados com fluência assustadora) é a espinha dorsal de seu trabalho.</p>
<p><span id="more-5550"></span></p>
<p>No entanto, o espectador mais atento há de reparar que <i>Persona</i> é uma exceção a esse <i>modus operandi</i>. Claro, as falas estão ali e a trilha sonora, geralmente um adereço minimalista bergmanesco, é essencial ao tom experimental do longa-metragem. Mas o grande protagonista na história do conflito envolvendo a atriz Elisabet Vogler (Liv Ullmann) e a enfermeira Alma (Bibi Andersson) é justamente ele, o silêncio.</p>
<p>Após ter um colapso mental, Elisabet simplesmente para de falar e vai parar na clínica onde Alma trabalha. Lá, sua sanidade mental é confirmada como ilesa, mas a causa para sua mudez (bem como uma possível cura) permanece incerta. Ao perceber que manter Vogler no hospital é inútil, a médica-chefe então sugere que a atriz passe um tempo em sua casa de verão, acompanhada por Alma. Isoladas no local, a situação permanece a mesma; a enfermeira, que sempre foi considerada boa ouvinte, fala sobre sua vida e a atriz escuta, demonstrando compreensão e empatia.</p>
<figure id="attachment_5596" aria-describedby="caption-attachment-5596" style="width: 960px" class="wp-caption aligncenter"><img loading="lazy" decoding="async" class="alignnone size-full wp-image-5596" src="https://criticapersona.files.wordpress.com/2016/10/025-ingmar-bergman-theredlist.jpg" alt="025-ingmar-bergman-theredlist" width="960" height="540" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2016/10/025-ingmar-bergman-theredlist.jpg 960w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2016/10/025-ingmar-bergman-theredlist-300x169.jpg 300w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2016/10/025-ingmar-bergman-theredlist-768x432.jpg 768w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 1362px) 62vw, 840px" /><figcaption id="caption-attachment-5596" class="wp-caption-text">Da esquerda para a direita: Bibi Andersson, Ingmar Bergman e Liv Ullmann no set do filme</figcaption></figure>
<p>Apesar da descrição acima ser bastante reduzida e revelar uma aparente objetividade no rumo das coisas, já abre um leque considerável para reflexões. Para aliviar a dor e se sentir menos sozinho, basta ter alguém que apenas se disponha a lhe ouvir? Qual a dificuldade para uma inversão de papéis entre uma boa ouvinte e alguém com fala fluente? Esses papéis, aliás, já seriam definitivos em nós, como muitos modos de vida pregam? Através da constante quebra da quarta parede e da opção em focar apenas num único rosto enquanto uma conversa acontece, Bergman faz essas e muitas outras perguntas diretamente ao espectador que, graças ao ritmo imposto rápido pelos cortes secos, fica sem tempo e expressão para dar uma resposta objetiva &#8211; afinal de contas, o objetivo não é esse; como o próprio título e sua muito comentada introdução “recortada” denunciam, o filme explora conceitos freudianos a fim de elucidar o papel do cinema (da arte em geral, até) como ferramenta psicanalítica, auxiliadora no despertar de sensações inconscientes e também instrumento para a compreensão destas.</p>
<p>Impressiona o comportamento revelador e multifacetado do silêncio em <i>Persona</i>. A linha que separa o conforto ao não receber uma resposta indesejada da sensação de estarmos simplesmente despejando palavras no vácuo é tênue, e não surpreende que a reação mais imediata a tal situação seja barulhenta &#8211; isso é mais facilmente palpável na música, onde tal contraste é usado para dar dinâmica às composições desde sempre. Para ficar em poucos exemplos, cito os pioneiros do <i>post-rock</i> Godspeed You! Black Emperor e as peças ambientais do polêmico álbum <i>Filosofem</i>, do Burzum, que inclusive surgem depois de canções ruidosas, provando assim que a ordem dos fatores não altera o produto (ao constatar que o barulho que fazemos é inútil, não restam muitas saídas fora permanecer em silêncio e reavaliar nossas rotas).</p>
<div class="jetpack-video-wrapper"><iframe loading="lazy" title="Godspeed You Black Emperor - Static" width="840" height="473" src="https://www.youtube.com/embed/Ta2-VXNIhH0?feature=oembed" frameborder="0" allow="accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share" referrerpolicy="strict-origin-when-cross-origin" allowfullscreen></iframe></div>
<p>Além dessa divisão proporcionada pela quietude, outro grande ponto do filme é abordar também a união que ela pode causar. Por se tratar da resposta mais ambígua que existe, o silêncio permite a imersão de um indivíduo na instabilidade de outra pessoa &#8211; novamente utilizando de exemplos musicais, essa ambivalência criada pela quietude explica o porquê da peça &#8220;4:33&#8221; (onde nenhum instrumento é tocado e, exclusivamente, os ruídos ambientes incidentais ditam a unicidade de cada execução, pelo tempo exato que dá nome à canção) ser a mais obra mais conhecida do compositor John Cage e causar controvérsia até hoje. A citação mais famosa do músico é categórica: &#8220;tudo que fazemos é música&#8221;. E é verdade, visto que o silêncio tanto favorece a percepção do que nos rodeia como propicia um olhar para dentro de nós mesmos.</p>
<p>Todavia, essa entrada no subconsciente de um outro alguém, como uma das cenas mais clássicas do filme mostra, pode ser algo invasivo a ponto de deixar traumas na individualidade de uma pessoa &#8211; enquanto a outra, curiosamente, parece reafirmar sua identidade com essa guinada agressiva. De certo modo, então, constata-se que esse encontro atua igualmente para a promoção da dualidade humana, mostrando o que nos torna semelhantes e o que nos difere. O silêncio da indiferença, da autopreservação e/ou da censura social, tão discutido nos tempos contemporâneos está sempre ali, incomodando o espectador mesmo durante os períodos com fala.</p>
<figure id="attachment_5592" aria-describedby="caption-attachment-5592" style="width: 1200px" class="wp-caption aligncenter"><img loading="lazy" decoding="async" class="alignnone size-full wp-image-5592" src="https://criticapersona.files.wordpress.com/2016/10/111.jpg" alt="111" width="1200" height="896" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2016/10/111.jpg 1200w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2016/10/111-300x224.jpg 300w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2016/10/111-768x573.jpg 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2016/10/111-1024x765.jpg 1024w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 1362px) 62vw, 840px" /><figcaption id="caption-attachment-5592" class="wp-caption-text">mindfuck</figcaption></figure>
<p>Por sinal, contemporâneo é um adjetivo que cabe bem a <i>Persona</i>, mesmo que o filme tenha completado meio século de existência ontem. <a href="http://noticias.band.uol.com.br/cidades/noticia/100000768451/boechat-tive-um-surto-depressivo-agudo.html" target="_blank">O jornalista Ricardo Boechat sofreu, em agosto de 2015, um surto de depressão </a>que muito se assemelha à crise existencial vivenciada por Elisabet Vogler, o que só reafirma a potência do filme como retrato dos cada vez mais comuns distúrbios psicológicos. Outra questão bastante atual colocada no filme é o  problemático fardo da maternidade, imposto sobre as mulheres como se seu papel social fosse exclusivamente o de reproduzir e cuidar da família (uma curiosidade inoportuna: no Brasil, o filme foi lançado com o subtítulo <i>Quando Duas Mulheres Pecam</i>); o que não deixa de ser uma representação de como marcas aplicadas no inconsciente realmente podem perdurar por eras, afinal.</p>
<p>Muito além de um experimento metalinguístico sobre a sétima arte ou um clássico do cinema “cabeça” (termo horroroso), <i>Persona</i> é um grande trabalho sobre o que o silêncio esconde e revela em cada de nós. Se o longa-metragem é a obra-prima de Bergman, são outros quinhentos: vale uma outra longa, boa discussão. Por hora, o mais conveniente é simplesmente permanecer calado e procurar compreender.</p>
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