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	<description>Desde 2015 provando que a distância entre Bergman, Lady Gaga e a novela das 9 nem existe.</description>
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		<title>Coração de Lutador traz Dwayne Johnson enfrentando o silêncio depois do ringue</title>
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		<pubDate>Thu, 02 Oct 2025 19:14:29 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p>Arthur Caires Da glória nos ringues da World Wrestling Entertainment (WWE) ao domínio em franquias blockbusters milionárias de ação, Dwayne Johnson consolidou-se como um ícone do entretenimento. Mas todo herói carrega, em silêncio, uma fissura. O que falta a alguém que já parece ter conquistado tudo? Coração de Lutador faz dessa pergunta seu eixo narrativo, &#8230; <a href="http://personaunesp.com.br/coracao-de-lutador-traz-dwayne-johnson-enfrentando-o-silencio-depois-do-ringue/" class="more-link">Continue lendo<span class="screen-reader-text"> "Coração de Lutador traz Dwayne Johnson enfrentando o silêncio depois do ringue"</span></a></p>
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										<content:encoded><![CDATA[<figure id="attachment_35849" aria-describedby="caption-attachment-35849" style="width: 800px" class="wp-caption alignnone"><img fetchpriority="high" decoding="async" class="size-medium wp-image-35849" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2025/10/image3-800x450.png" alt="Uma cena do filme Coração de Lutador, vista de dentro de um ringue de luta, focada em quatro personagens em um momento de alta tensão. Da esquerda para a direita: Bas Rutten, como um treinador, é um homem mais velho, careca, vestindo uma camiseta verde-escura. Ele se inclina para a frente com uma expressão de intensa preocupação e seriedade, olhando para o lutador. Atrás do lutador, Ryan Bader o segura firmemente pelos ombros. Ele está vestido de preto e seu rosto também mostra foco e preocupação, como se estivesse tentando conter ou dar apoio. No centro da imagem, sentado em um banco vermelho no corner do ringue, está o lutador Mark Kerr, interpretado por Dwayne Johnson. Ele está sem camisa, exibindo um físico musculoso, e veste shorts de luta brancos com detalhes em vermelho e uma joelheira preta. Sua expressão é de angústia e exaustão; seus olhos estão arregalados e fixos, e sua boca está entreaberta. À direita, do lado de fora das cordas, está Dawn, interpretada por Emily Blunt. Com cabelos longos e escuros e vestindo uma regata branca, ela olha para a cena com uma expressão de profunda tristeza, angústia e preocupação." width="800" height="450" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2025/10/image3-800x450.png 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2025/10/image3-1024x576.png 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2025/10/image3-768x432.png 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2025/10/image3-1536x864.png 1536w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2025/10/image3-1200x675.png 1200w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2025/10/image3.png 1920w" sizes="(max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 984px) 61vw, (max-width: 1362px) 45vw, 600px" /><figcaption id="caption-attachment-35849" class="wp-caption-text">Dwayne Johnson no centro da narrativa de Coração de Lutador, entre força física e fragilidade emocional (Foto: A24)</figcaption></figure>
<p><b>Arthur Caires</b></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Da glória nos ringues da </span><a href="https://comandogeek.com.br/blog/glossario/o-que-e-wwe-world-wrestling-entertainment/?srsltid=AfmBOoo-1H2uz_K7hpmz4UCbCznitvyan_jRyBLskMxcXI6qw9-wqZoY"><i><span style="font-weight: 400;">World Wrestling Entertainment</span></i></a><span style="font-weight: 400;"> (WWE) ao domínio em franquias </span><i><span style="font-weight: 400;">blockbusters </span></i><span style="font-weight: 400;">milionárias de ação, Dwayne Johnson consolidou-se como um ícone do entretenimento. Mas todo herói carrega, em silêncio, uma fissura. O que falta a alguém que já parece ter conquistado tudo? </span><i><span style="font-weight: 400;">Coração de Lutador</span></i><span style="font-weight: 400;"> faz dessa pergunta seu eixo narrativo, atravessando a persona inquebrantável de The Rock para revelar </span><a href="https://aventurasnahistoria.com.br/noticias/reportagem/mark-kerr-veja-a-historia-do-lutador-que-sera-interpretado-por-the-rock.phtml"><span style="font-weight: 400;">Mark Kerr</span></a><span style="font-weight: 400;">, lutador real que habita a zona de instabilidade entre a vitória pública e a masculinidade frágil.</span></p>
<p><span id="more-35846"></span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Ao levar essa história ao </span><a href="https://www.instagram.com/p/DOuFzy6kt9n/?utm_source=ig_web_copy_link&amp;igsh=MzRlODBiNWFlZA=="><i><span style="font-weight: 400;">Festival de Toronto</span></i></a><span style="font-weight: 400;">, a própria presença de Kerr no evento, diante das câmeras, ecoa o gesto de reconhecimento que o filme encena: agora, sua vida ganha o rosto e a voz de uma das figuras mais conhecidas de Hollywood. Nas mãos do diretor Benny Safdie, esse encontro entre biografia e performance não se reduz a mero espetáculo esportivo; ao contrário, se abre para tensões sobre identidade e companheirismo. O resultado é uma obra que olha para além do ícone musculoso, em busca do homem que aprende a lidar com suas dores, dependências e amores – e que, nesse processo, talvez encontre o que realmente significa ser visto.</span></p>
<figure id="attachment_35848" aria-describedby="caption-attachment-35848" style="width: 800px" class="wp-caption alignnone"><img decoding="async" class="size-medium wp-image-35848" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2025/10/image2-800x450.png" alt="Em uma cena do filme Coração de Lutador, o ator Dwayne Johnson, interpretando o lutador Mark Kerr, celebra uma vitória. Ele está em pé, sem camisa, com o corpo musculoso e brilhando de suor. Uma toalha branca está casualmente jogada sobre seu ombro esquerdo. Com a mão direita, ele ergue um grande cinturão de campeão, que tem uma faixa preta e uma placa central dourada com detalhes em relevo. Dwayne Johnson olha para cima e para o lado com um sorriso largo e radiante, expressando pura alegria e triunfo. O fundo é caloroso e festivo, preenchido com luzes douradas e desfocadas que criam um efeito brilhante (bokeh). À esquerda, mãos de pessoas aplaudem, e à direita, o rosto de uma mulher sorrindo é parcialmente visível, completando a atmosfera de comemoração." width="800" height="450" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2025/10/image2-800x450.png 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2025/10/image2-1024x576.png 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2025/10/image2-768x432.png 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2025/10/image2-1536x864.png 1536w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2025/10/image2-1200x675.png 1200w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2025/10/image2.png 1920w" sizes="(max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 984px) 61vw, (max-width: 1362px) 45vw, 600px" /><figcaption id="caption-attachment-35848" class="wp-caption-text">Johnson encontra nos gestos sutis a dimensão humana de seu personagem, revelando vulnerabilidade e autenticidade (Foto: A24)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">Em sua primeira incursão solo, </span><a href="https://www.ingresso.com/noticias/benny-safdie-conquista-leao-de-prata-coracao-de-lutador-the-smashing-machine-festival-veneza-lista-premiados?city=sao-paulo&amp;partnership=needext&amp;ing_source=api&amp;ing_medium=link-filme&amp;ing_campaign=needext&amp;ing_content=deuses-da-peste"><span style="font-weight: 400;">Safdie</span></a><span style="font-weight: 400;"> parece mais interessado em auscultar a respiração de seus personagens do que em celebrar a glória das batalhas. A câmera recusa a perspectiva frontal e prefere se infiltrar pelos cantos, como quem espiona uma intimidade que não deveria ser vista. Há algo de documental, uma aproximação que dissolve a fronteira entre encenação e realidade, transformando a rotina de Mark Kerr em matéria de observação. Não se trata apenas de uma coreografia de socos, mas o registro do corpo cansado, do silêncio entre as falas, da tensão que persiste quando as luzes já se apagaram.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">O diretor constrói quase um </span><i><span style="font-weight: 400;">reality</span></i><span style="font-weight: 400;">, onde a vida se expõe sem filtros: cortes bruscos, planos longos e hesitações que permanecem em quadro. A cena do longa que acompanha Kerr do ringue ao vestiário é exemplar nesse sentido – um fluxo contínuo que revela não apenas o atleta, porém o homem em suspensão, ainda sem saber como reagir à própria derrota. Longe da grandiosidade de lutas ultra coreografadas, </span><a href="https://www.bbc.com/portuguese/articles/cx2x8y9e2p8o"><i><span style="font-weight: 400;">Coração de Lutador</span></i></a><span style="font-weight: 400;"> faz o detalhe ser sua maior força, o instante em que a vulnerabilidade rasga o mito e deixa ver aquilo que o espetáculo tantas vezes encobre: a solidão de existir sob os olhos de todos.</span></p>
<figure id="attachment_35847" aria-describedby="caption-attachment-35847" style="width: 800px" class="wp-caption alignnone"><img decoding="async" class="size-medium wp-image-35847" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2025/10/image1-800x450.png" alt="Um close-up do ator Dwayne Johnson no filme Coração de Lutador, interpretando Mark Kerr em uma cena de conversa. Ele está vestindo uma camisa polo azul-escura, que evidencia seus braços e ombros extremamente musculosos, e usa um boné de beisebol branco. Um par de óculos de sol está pendurado na gola da camisa. Com uma expressão séria e pensativa, ele olha para o lado, como se estivesse ouvindo atentamente ou falando com alguém fora da câmera. A cena se passa em um ambiente interno com iluminação suave, possivelmente um restaurante ou um clube, com um abajur e outras pessoas desfocadas ao fundo, criando uma atmosfera mais casual e íntima." width="800" height="450" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2025/10/image1-800x450.png 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2025/10/image1-1024x576.png 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2025/10/image1-768x432.png 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2025/10/image1-1536x864.png 1536w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2025/10/image1-1200x675.png 1200w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2025/10/image1.png 1920w" sizes="(max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 984px) 61vw, (max-width: 1362px) 45vw, 600px" /><figcaption id="caption-attachment-35847" class="wp-caption-text">A câmera de Benny Safdie observa o cotidiano de Kerr com intimidade e naturalidade, longe do espetáculo (Foto: A24)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">Dwayne Johnson encontra a chance de despir-se de sua persona e se arriscar em territórios de fragilidade. Seu corpo ainda impõe a presença de um ídolo de ação, mas é no vacilo do olhar, no quietude após a queda, que ele se reinventa como ator. Há momentos que parecem terem sido feitos para uma certa </span><a href="https://www.bbc.com/portuguese/articles/c4gw7vqrwp8o"><span style="font-weight: 400;">premiação</span></a><span style="font-weight: 400;"> que acontece no começo de todo ano, no entanto o que realmente se destaca são as atitudes miúdas: a cumplicidade com o personagem de </span><a href="https://www.espn.com.br/mma/artigo/_/id/13658349/ryan-bader-anuncia-pausa-carreira-lutador-para-atuar-filme-the-rock"><span style="font-weight: 400;">Ryan Bader</span></a><span style="font-weight: 400;">, lutador profissional que se arrisca na atuação, as fraturas miúdas de uma rotina atravessada pelo vício e aqueles gestos mínimos – fugas e hesitações – que, dentro de uma relação, carregam um peso desproporcional. Nesses momentos, Johnson prova que pode ser mais do que um rosto para cartazes, que ele pode ser, de fato, um ator atravessado por uma história.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Se Johnson oferece a brecha para enxergar Kerr em sua dimensão íntima, </span><a href="https://personaunesp.com.br/oppenheimer-critica/"><span style="font-weight: 400;">Emily Blunt</span></a><span style="font-weight: 400;"> sustenta o eixo emocional que mantém o filme pulsando. Como Dawn, ela encarna a exaustão de uma relação marcada pelo vício e pela dependência. Sua presença é firme até quando o texto a empurra para diálogos banais, transformando pequenas expressões em densidade. Se há ecos de História de um Casamento na dinâmica conjugal em ruína, aqui os personagens soam mais crus, menos complexos, até irritantes – e talvez seja justamente essa dureza que os torna verossímeis. Blunt, que já fez muitas produções farofas, parece finalmente se encaminhar para o reconhecimento merecido: o de uma atriz eclética e carismática.</span></p>
<figure id="attachment_35850" aria-describedby="caption-attachment-35850" style="width: 800px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-medium wp-image-35850" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2025/10/image4-800x450.png" alt="Uma cena noturna do filme Coração de Lutador que mostra Dwayne Johnson e Emily Blunt caminhando juntos por uma rua movimentada no Japão. O casal está de mãos dadas no centro da imagem, ambos com expressões sérias e focadas. Dwayne Johnson, à direita, veste uma camiseta cinza-escura justa que acentua seu físico extremamente musculoso, combinada com calça jeans. Emily Blunt, à esquerda, usa um vestido branco longo e justo e segura uma jaqueta escura em seu braço. O cenário é o destaque da imagem: a rua está iluminada por dezenas de lanternas de papel redondas, com listras brancas e alaranjadas, penduradas em fios sobre suas cabeças, criando uma iluminação quente e atmosférica. Ao fundo, letreiros verticais com caracteres japoneses e outras luzes urbanas complementam a cena vibrante. A imagem é capturada de uma perspectiva que inclui elementos desfocados em primeiro plano, dando a sensação de que estamos observando o casal de perto." width="800" height="450" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2025/10/image4-800x450.png 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2025/10/image4-1024x576.png 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2025/10/image4-768x432.png 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2025/10/image4-1536x864.png 1536w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2025/10/image4-1200x675.png 1200w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2025/10/image4.png 1920w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 984px) 61vw, (max-width: 1362px) 45vw, 600px" /><figcaption id="caption-attachment-35850" class="wp-caption-text">Emily Blunt sustenta o eixo emocional do filme, transformando pequenos gestos em densidade dramática (Foto: A24)</figcaption></figure>
<p><i><span style="font-weight: 400;">Coração de Lutador</span></i><span style="font-weight: 400;"> é menos sobre vitórias no ringue do que sobre a impossibilidade de existir sem dor – física, emocional e cotidiana. Nesse percurso, a identidade do herói se constrói na repetição de seu próprio nome, como se a validação dependesse de ser lembrado, nomeado, visto. Entre a dependência dos </span><a href="https://ge.globo.com/combate/noticia/2025/09/10/mike-tyson-revela-uso-de-fentanil-no-auge-era-como-heroina.ghtml"><span style="font-weight: 400;">opioides</span></a><span style="font-weight: 400;"> e a busca por estabilidade, a história insiste no companheirismo como chave de resistência: não são os cinturões que sustentam Mark Kerr, e sim os vínculos frágeis e insistentes com Dawn, o treinador e com aqueles que permanecem ao seu lado quando o </span><i><span style="font-weight: 400;">show </span></i><span style="font-weight: 400;">termina.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">É tentador enquadrar a produção na categoria ‘cara de </span><i><span style="font-weight: 400;">Oscar</span></i><span style="font-weight: 400;">’: cinebiografias que apostam em histórias de superação e quedas redentoras. Porém, Benny Safdie parece menos interessado em forjar um épico premiável do que em cultivar uma intimidade desconfortável. A obra escapa do artifício do </span><a href="https://www.omelete.com.br/oscar/o-que-e-oscar-bait"><i><span style="font-weight: 400;">Oscar-bait</span></i></a><span style="font-weight: 400;">, como se vê em produções como </span><a href="https://personaunesp.com.br/a-baleia-critica/"><i><span style="font-weight: 400;">A Baleia</span></i></a><span style="font-weight: 400;"> (2022), porque não se ancora na glória esportiva nem na catarse fácil; prefere o gesto paciente de uma câmera que observa e que acolhe silêncios.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">O longa encontra sua força justamente onde o espetáculo costuma se desfazer. Não se trata das vitórias que consagram, mas das quedas que revelam nossa humanidade. Dwayne Johnson, que </span><a href="https://veja.abril.com.br/coluna/em-cartaz/o-choro-do-durao-the-rock-ao-ser-aplaudido-no-festival-de-veneza/"><span style="font-weight: 400;">chorou</span></a><span style="font-weight: 400;"> após ser aplaudido no </span><a href="https://www.instagram.com/p/DOcAGfuErmj/?utm_source=ig_web_copy_link&amp;igsh=MzRlODBiNWFlZA=="><i><span style="font-weight: 400;">Festival de Veneza</span></i></a><span style="font-weight: 400;">, entrega aqui a prova de uma maturidade artística que recusa a caricatura. </span><i><span style="font-weight: 400;">Coração de Lutador</span></i><span style="font-weight: 400;"> deixa de ser apenas a crônica de um herói para se tornar a observação de uma experiência humana crua, feita de fragilidade e da busca incessante por ser reconhecido.</span></p>
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		<title>Persona Entrevista: Rian Córdova e Leonardo Menezes</title>
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		<pubDate>Tue, 14 Dec 2021 22:11:18 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p>Diretores de Luana Muniz &#8211; Filha da Lua detalham a importância da representatividade trans na Arte e as dificuldades do Cinema independente Caroline Campos e Vitor Evangelista Quatro meses atrás, o Persona entrou em contato com o emocionante longa Luana Muniz &#8211; Filha da Lua. Naquele agosto, mês que celebra os documentários brasileiros, tivemos a &#8230; <a href="http://personaunesp.com.br/entrevista-rian-cordova-e-leonardo-menezes/" class="more-link">Continue lendo<span class="screen-reader-text"> "Persona Entrevista: Rian Córdova e Leonardo Menezes"</span></a></p>
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										<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: right;"><i><span style="font-weight: 400;">Diretores de Luana Muniz &#8211; Filha da Lua detalham a importância da representatividade trans na Arte e as dificuldades do Cinema independente</span></i></p>
<figure id="attachment_25380" aria-describedby="caption-attachment-25380" style="width: 1024px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="wp-image-25380 size-full" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/12/filha-da-lua-wordpress.jpg" alt="Arte retangular horizontal de fundo vermelho. No lado esquerdo, foi adicionado o texto &quot;PERSONA ENTREVISTA&quot; na vertical, repetidas vezes. No centro, foi adicionada uma foto em preto e branco dos diretores Rian Córdova e Leonardo Menezes. No lado direito, foi adicionada uma imagem do poster de seu filme, Luana Muniz - Filha da Lua, e acima, foram adicionados seus nomes, &quot;rian córdova e leonardo menezes&quot;." width="1024" height="538" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/12/filha-da-lua-wordpress.jpg 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/12/filha-da-lua-wordpress-800x420.jpg 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/12/filha-da-lua-wordpress-768x404.jpg 768w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 1362px) 62vw, 840px" /><figcaption id="caption-attachment-25380" class="wp-caption-text">Em dose dupla, o Persona Entrevista de hoje conta com os cineastas Rian Córdova e Leonardo Menezes, em uma conversa à respeito de seu mais novo longa, o documentário Luana Muniz &#8211; Filha da Lua (Foto: Reprodução/Arte: Jho Brunhara)</figcaption></figure>
<p><b>Caroline Campos e Vitor Evangelista</b></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Quatro meses atrás, o Persona entrou em contato com o emocionante longa </span><a href="https://personaunesp.com.br/luana-muniz-filha-da-lua-critica/"><i><span style="font-weight: 400;">Luana Muniz &#8211; Filha da Lua</span></i></a><span style="font-weight: 400;">. Naquele agosto, mês que celebra os documentários brasileiros, tivemos a oportunidade de, além de conferir as sutilezas e conhecer a jornada da personagem-título, entrevistar seus dois realizadores. Em uma breve conversa terça-feira antes do almoço, Rian Córdova e Leonardo Menezes relataram desde os processos de criação do filme até o que o futuro os reserva daqui para a frente.</span></p>
<p><span id="more-25366"></span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">A dupla, que já tem experiência na Arte de documentar a vida de ícones da comunidade </span><i><span style="font-weight: 400;">queer </span></i><span style="font-weight: 400;">do país, demorou um pouco para ver</span><i><span style="font-weight: 400;"> Luana Muniz</span></i><span style="font-weight: 400;"> nas telonas, visto que o filme estreou de fato em 2017, no atual Festival LGBTQIA+ do Rio de Janeiro, mas só pôde ser apreciado pelo público em 2021. </span><i><span style="font-weight: 400;">“A gente sabe um pouco das questões que envolvem o descaso da Secretaria de Cultura Federal em relação a processos da Cultura – o </span></i><a href="https://oglobo.globo.com/cultura/incendio-atinge-galpao-da-cinemateca-brasileira-em-sao-paulo-25132681#:~:text=RIO%20%E2%80%94%20Um%20inc%C3%AAndio%20atingiu%20um,da%20noite%20desta%20quinta%2Dfeira.&amp;text=A%20institui%C3%A7%C3%A3o%20enfrentou%20quatro%20inc%C3%AAndios,um%20novo%20inc%C3%AAndio%20%C3%A9%20real."><i><span style="font-weight: 400;">incêndio da Cinemateca</span></i></a><i><span style="font-weight: 400;"> é um dos exemplos mais recentes – e a gente fica muito feliz que finalmente o filme vai poder chegar nos cinemas”</span></i><span style="font-weight: 400;">, conta Leonardo. </span></p>
<figure id="attachment_25375" aria-describedby="caption-attachment-25375" style="width: 1200px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="wp-image-25375 size-full" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/12/1813371.jpg" alt="Foto retangular. Luana Muniz, uma mulher branca, com batom vermelho, maquiagem dourada e unhas vermelhas olha no espelho, com as mãos no rosto." width="1200" height="480" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/12/1813371.jpg 1200w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/12/1813371-800x320.jpg 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/12/1813371-1024x410.jpg 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/12/1813371-768x307.jpg 768w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 1362px) 62vw, 840px" /><figcaption id="caption-attachment-25375" class="wp-caption-text">Sobre o futuro da representatividade trans na Arte, Leonardo foi enfático: “que elas sejam protagonistas de novela, que elas sejam o que elas quiserem ser, porque talento está aí em todo mundo” (Foto: Guaraná Conteúdo)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">Apesar dessa demora para a concretização do sonho de colocar Muniz no posto de estrela de Cinema, os diretores revelam felicidade diante do crescente número de pessoas trans e travestis em </span><a href="https://oglobo.globo.com/politica/eleicoes-2020/erika-hilton-como-afro-transexual-da-periferia-tornou-se-mulher-mais-votada-do-brasil-1-24762943"><span style="font-weight: 400;">posição de poder</span></a><span style="font-weight: 400;"> no Brasil de 2017 para cá. </span><i><span style="font-weight: 400;">“Faz a gente relembrar a importância de ter histórias sobre travestis e transgêneros como protagonistas no Cinema nacional”,</span></i><span style="font-weight: 400;"> complementa o cineasta. E se tem algo que Luana Muniz se qualifica como, com certeza é no papel de protagonista. A mulher, que </span><a href="https://emais.estadao.com.br/noticias/gente,morre-luana-muniz-a-travesti-ativista-que-ficou-famosa-ao-posar-ao-lado-do-padre-fabio-de-melo,70001767808"><span style="font-weight: 400;">faleceu em 2017</span></a><span style="font-weight: 400;"> devido a complicações de uma pneumonia, infelizmente não chegou a ver sua trajetória nas telonas, mas, como os relatos que compõem o filme mostram, sua presença será sentida enquanto sua mensagem for compartilhada.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Luana Muniz era comprometida com a verdade, define Rian. A dupla conheceu a artista por conta de sua </span><a href="https://www.correio24horas.com.br/noticia/nid/apos-materia-no-profissao-reporter-travesti-vira-famosa-e-da-autografos/"><span style="font-weight: 400;">aparição no Profissão Repórter</span></a><span style="font-weight: 400;"> – onde ela esbravejou pelas ruas cariocas que </span><i><span style="font-weight: 400;">“travesti não é bagunça!”</span></i><span style="font-weight: 400;"> –, mas eles se aproximaram mesmo no processo de criação do filme</span> <a href="https://www.youtube.com/watch?v=Y1AzIZIijVA"><i><span style="font-weight: 400;">Lorna Washington: Sobrevivendo a Supostas Perdas</span></i></a><span style="font-weight: 400;">, que colocava foco na jornada da transformista e amiga próxima de Muniz. </span><i><span style="font-weight: 400;">“A luta dela era por esse reconhecimento de tratamento digno, que por conta do Brasil ser uma sociedade machista e homofóbica, elas passaram, especialmente Luana, por todo esse processo de opressão que as travestis passam no Brasil”</span></i><span style="font-weight: 400;">. De fato, Luana construiu sua história da maneira que quis.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Sua potente rede de proteção ganha foco ao longo dos quase oitenta minutos do documentário, e como ilustra a direção, foi fundamental para a construção da imagem da mulher. Essa característica se torna até estética, ao passo que Muniz primeiro nos é apresentada por terceiros para só então dar as caras na telona. O cuidado em ouvir esses personagens, em sua maioria mulheres trans e travestis, foi primordial para a produção. Sendo dirigido por dois homens cis, </span><i><span style="font-weight: 400;">Luana Muniz &#8211; Filha da Lua</span></i><span style="font-weight: 400;"> teve o tato de iluminar as mulheres que, assim como a protagonista, batalham por uma vida digna.</span><i><span style="font-weight: 400;"> “Criar uma história coletiva, claro que é sobre a Luana e a vida dela, mas de certa forma é uma história compartilhada pelo fato da Luana ter sido essa referência na vida de tantas e tantos”</span></i><span style="font-weight: 400;">.</span></p>
<figure id="attachment_25368" aria-describedby="caption-attachment-25368" style="width: 1600px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="wp-image-25368 size-full" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/12/1-frame1_Luana-Muniz-Filha-da-Lua.jpg" alt="Foto de Luana Muniz, um mulher loira e idosa, usando roupas intimas estilo cabaret, vermelhas e pretas, e com uma perna levantada, em frente a uma cortina brilhante. Ela está de lado, piscando com o olho direito e segurando plumas vermelhas ao lado corpo. A sua frente, vemos a cabeça de várias pessoas que assistem ao espetáculo." width="1600" height="1067" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/12/1-frame1_Luana-Muniz-Filha-da-Lua.jpg 1600w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/12/1-frame1_Luana-Muniz-Filha-da-Lua-800x534.jpg 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/12/1-frame1_Luana-Muniz-Filha-da-Lua-1024x683.jpg 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/12/1-frame1_Luana-Muniz-Filha-da-Lua-768x512.jpg 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/12/1-frame1_Luana-Muniz-Filha-da-Lua-1536x1024.jpg 1536w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/12/1-frame1_Luana-Muniz-Filha-da-Lua-1200x800.jpg 1200w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 1362px) 62vw, 840px" /><figcaption id="caption-attachment-25368" class="wp-caption-text">“A travesti precisa se impor, senão a sociedade a engole” (Foto: Guaraná Conteúdo)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">Assim, o que era para ser um filme para homenagear uma vida em plena atividade, se tornou um documentário póstumo que não se acanha em celebrar a trajetória controversa de sua estrela. Como Luana faleceu na reta final das filmagens, Leonardo Menezes e Rian Córdova mudaram os rumos da produção e abriram uma nova leva de gravações para trazer especialmente esse “olhar para trás” das vidas que foram fortalecidas pela artista e, de quebra, não deixar o nome Luana Muniz se perder no limbo da frágil memória brasileira – até porque, para Rian, o interessante é </span><a href="https://www.youtube.com/watch?v=y_96MA6_mjs"><span style="font-weight: 400;">contar histórias novas</span></a><span style="font-weight: 400;"> pouco visibilizadas, e não reproduzir biografias batidas.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">E quando se trata de Luana, ambos os realizadores se recordam de sua figura com </span><a href="https://www.youtube.com/watch?v=R8KVci0qiV0"><span style="font-weight: 400;">muito carinho</span></a><span style="font-weight: 400;">. </span><i><span style="font-weight: 400;">“Ela não mudava pelo fato da câmera estar ligada ou desligada. Ela era quem ela era, quer você goste ou não”</span></i><span style="font-weight: 400;">, relembra Leonardo, enquanto Rian complementa: </span><i><span style="font-weight: 400;">“Eu acho que ela ficaria orgulhosa e feliz de ver que a força dela inspira tantas pessoas ainda. A Luana vive de fato uma saga de heroína onde a gente fica torcendo para que ela vença no final”</span></i><span style="font-weight: 400;">. Seja pela alcunha de Filha da Lua, Rainha da Lapa ou Guardiã das Travestis, o fato é que resgatar a memória de Luana Muniz em </span><a href="https://www.correiobraziliense.com.br/brasil/2021/11/4963887-no-mundo-a-cada-10-assassinatos-de-pessoas-trans-quatro-foram-no-brasil.html"><span style="font-weight: 400;">pleno 2021</span></a><span style="font-weight: 400;">, no país que mais mata pessoas trans do mundo, é um ato de coragem e uma reafirmação da importância histórica da dona daquele Casarão rosa na avenida Mem de Sá.</span></p>
<figure id="attachment_25374" aria-describedby="caption-attachment-25374" style="width: 725px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="wp-image-25374 size-full" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/12/20171119-ta-achando-que-travesti-e-bagunca-o-documentario.jpg" alt="Foto vertical de um grafite. Nele, vemos a representação de Luana Muniz com uma coroa, vestido preto, sentada no trono e com um balão de fala &quot;TRAVESTI NÃO É BAGUNÇA&quot;. Ao redor, várias palavras completam o desenho como &quot;LAPA&quot; &quot;DIGNIDADE&quot; e &quot;RESPEITO&quot;" width="725" height="906" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/12/20171119-ta-achando-que-travesti-e-bagunca-o-documentario.jpg 725w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/12/20171119-ta-achando-que-travesti-e-bagunca-o-documentario-640x800.jpg 640w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 984px) 61vw, (max-width: 1362px) 45vw, 600px" /><figcaption id="caption-attachment-25374" class="wp-caption-text">“Evidenciar quem você quer ser é uma mensagem muito poderosa” (Foto: Guaraná Conteúdo)</figcaption></figure>
<p>&nbsp;</p>
<p><b>Pesquisando, a gente se deparou com o documentário </b><b><i>Lorna Washington: Sobrevivendo a Supostas Perdas</i></b><b>, também dirigido por vocês dois. Como funciona esse trabalho em equipe? Como vocês separam as tarefas?</b></p>
<p><b>Leonardo:</b> <i><span style="font-weight: 400;">“É um trabalho complementar, eu assumo as partes técnicas, gravação, montagem final, e o Rian faz a parte de idealização do roteiro, contatos, pré-entrevistas. Nos dois filmes, Rian ficou mais com o roteiro, e depois nós comentávamos como seria a narrativa presente no filme, com se encaixam os momentos. Fazer a Luana aparecer no filme um pouco tarde depois das pessoas falarem sobre ela; fazer esse recorte cronológico no filme, primeiro conhecer ela e depois sua história e ver os impactos na vida dos outros. Nos dividimos, sempre alguém está fazendo algo mas enquanto cinema independente nós dividimos tarefas”.</span></i></p>
<p>&nbsp;</p>
<p><b>Se vocês pudessem escolher alguma outra figura marcante para documentar, qual seria e por quê?</b></p>
<p><b>Leonardo:</b> <i><span style="font-weight: 400;">“Vou misturar um pouco das duas na resposta. Agora, a gente está olhando para projetos que retratam mais coletivos e grupos do que especificamente uma pessoa. A gente está olhando, por exemplo, para um projeto sobre relação entre gerações LGBT, então a gente está retratando isso com filmes, e a gente já captou grande parte do material. Até porque a pandemia deixou isso um pouco mais difícil. Então a gente gravou tanto no </span></i><a href="http://www.boatelacueva.com.br/"><i><span style="font-weight: 400;">La Cueva</span></i></a><i><span style="font-weight: 400;">, era a balada mais antiga do Brasil, que a gente espera que reabra, está fechada há quase um ano e meio, é uma balada que existe desde 1964 aqui no Rio e era majoritariamente frequentada por pessoas mais idosas, LGBT, então claro é um espaço que requer todo um cuidado nessa reabertura que a gente espera que reabram. Lá, aconteceu as primeiras edições da festa V de Viadão, uma festa majoritariamente mais jovem, com pessoas em torno de vinte e poucos anos, mas as primeira edições foram no La Cueva, então tinha essa mistura entre pessoas de vinte e poucos anos com pessoas de sessenta, setenta anos, na mesma festa, e a gente achava isso muito interessante, de poder retratar essa intergeracionalidade LGBT, até porque pouco se fala sobre a terceira idade LGBT. Então mostrar isso numa conexão com frequentadores mais jovens.”</span></i></p>
<figure id="attachment_25369" aria-describedby="caption-attachment-25369" style="width: 2560px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="wp-image-25369 size-full" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/12/Luana1_GuilhermeCorrea-scaled-1.jpg" alt="Cena do documentário Luana Muniz - Filha da Lua. A foto é dentro do camarim e mostra Luana Muniz sentada, gesticulando e com uma expressão de sorriso no rosto. Ela veste um vestido prata brilhoso, tem cabelos castanhos modelados alto na cabeça e as unhas estão pintadas de vermelho. Ao fundo, vemos espelhos e produtos de beleza desfocados." width="2560" height="1707" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/12/Luana1_GuilhermeCorrea-scaled-1.jpg 2560w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/12/Luana1_GuilhermeCorrea-scaled-1-800x533.jpg 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/12/Luana1_GuilhermeCorrea-scaled-1-1024x683.jpg 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/12/Luana1_GuilhermeCorrea-scaled-1-768x512.jpg 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/12/Luana1_GuilhermeCorrea-scaled-1-1536x1024.jpg 1536w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/12/Luana1_GuilhermeCorrea-scaled-1-2048x1366.jpg 2048w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/12/Luana1_GuilhermeCorrea-scaled-1-1200x800.jpg 1200w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 1362px) 62vw, 840px" /><figcaption id="caption-attachment-25369" class="wp-caption-text">“Do Rio a Belém, de São Luís a Porto Alegre, você via que as pessoas realmente choravam junto, davam gargalhadas até em momentos tensos (&#8230;) Tanto dentro quanto fora do Brasil, é curioso como as pessoas se conectam a figura dela” (Foto: Guaraná Conteúdo)</figcaption></figure>
<p>&nbsp;</p>
<p><b>Quais são seus próximos passos, em dupla ou individuais?</b></p>
<p><b>Leonardo: </b><i><span style="font-weight: 400;">“Outro que a gente também está olhando é para a cena transformista do Rio de Janeiro na época pré-pandemia, faz uma relação também intergeracional entre a </span></i><a href="https://turmaok.com.br/"><i><span style="font-weight: 400;">Turma OK</span></i></a><i><span style="font-weight: 400;">, que é um clube LGBT muito antigo, desde a década de 50 existe aqui no Rio, ainda em funcionamento, depois da estreia vamos para lá foi vai ter uma apresentação da Lorna em homenagem a Luana Muniz, e ao mesmo tempo a gente vai mostrar o </span></i><a href="https://www.youtube.com/watch?v=pPOR_dZ7QLQ"><i><span style="font-weight: 400;">Drag-se</span></i></a><i><span style="font-weight: 400;"> que é um movimento de drags que começou no início da década passada aqui no Rio e elas também se apresentavam muito no a Turma OK, então a gente vai cruzar essas histórias, e o movimento entre as drags mais antigas e as drags mais recentes. </span></i></p>
<p><i><span style="font-weight: 400;">E a gente está também tocando um projeto sobre a </span></i><a href="https://www.grupodignidade.org.br/em-1999-paulo-gustavo-estampou-capa-censurada-da-revista-sui-generis/"><i><span style="font-weight: 400;">revista Sui Generis</span></i></a><i><span style="font-weight: 400;">, que foi uma revista LGBT que estreou na década de 90, ficou dez anos publicando e teve diferentes personalidades na capa, como Renato Russo, Marina Lima, Cássia Eller, Pedro Almodóvar, por aí vai, então a gente quer retratar um pouco desses bastidores da cena LGBT dos anos 90, que se fala muito, já tem filmes que retratam cena LGBT dos anos 60, </span></i><a href="https://www.youtube.com/watch?v=Ny98d_zkMVk"><i><span style="font-weight: 400;">São Paulo em Hi-Fi</span></i></a><i><span style="font-weight: 400;">, a década de 70, </span></i><a href="https://www.youtube.com/watch?v=Otch5bIi8L8"><i><span style="font-weight: 400;">Dzi Croquette</span></i></a><i><span style="font-weight: 400;">, anos 80, mas sobre os anos 90 ainda tem poucos então a gente está tentando mais esses projetos”. </span></i></p>
<p>&nbsp;</p>
<p><i><span style="font-weight: 400;">Luana Muniz &#8211; Filha da Lua</span></i><span style="font-weight: 400;"> passou pelos cinemas brasileiros no segundo semestre de 2021.</span></p>
<div class="jetpack-video-wrapper"><iframe loading="lazy" title="Luana Muniz, Filha da Lua – Trailer Oficial" width="840" height="473" src="https://www.youtube.com/embed/QbdlqtRI2IA?feature=oembed" frameborder="0" allow="accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share" referrerpolicy="strict-origin-when-cross-origin" allowfullscreen></iframe></div>
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		<title>A quem pertence O Babadook?</title>
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		<pubDate>Fri, 15 Oct 2021 16:30:53 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p>Enrico Souto Filme australiano independente lançado em 2014, O Babadook é um dos longas mais marcantes da história recente do Terror e, a despeito de sua pouca visibilidade, foi um sucesso de crítica, sendo considerado hoje um clássico moderno. Seus méritos narrativos e cinematográficos são incontestáveis, porém, o que realmente o marcou como um ícone &#8230; <a href="http://personaunesp.com.br/o-babadook-critica/" class="more-link">Continue lendo<span class="screen-reader-text"> "A quem pertence O Babadook?"</span></a></p>
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										<content:encoded><![CDATA[<figure id="attachment_23754" aria-describedby="caption-attachment-23754" style="width: 2352px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-full wp-image-23754" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/10/IMAGEM-1-3-1.jpg" alt="Imagem de divulgação do filme “O Babadook”, de 2014. Foto preto-e-branco de uma página acinzentada. No centro, vemos o desenho de Babadook, feito com lápis preto. Trata-se de uma silhueta alongada, com os braços colados sobre o tronco e os longos dedos de suas mãos abertos. Ele tem olhos esbugalhados, um nariz triangular, e uma grande boca cheia de dentes que se abre em um sorriso perturbador. Além disso, ele veste na cabeça uma cartola. Sua sombra se projeta do lado esquerdo até o desenho de um armário com a porta aberta. E, do lado direito, em paralelo com o armário, vê-se o desenho de uma porta semi-aberta." width="2352" height="1347" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/10/IMAGEM-1-3-1.jpg 2352w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/10/IMAGEM-1-3-1-800x458.jpg 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/10/IMAGEM-1-3-1-1024x586.jpg 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/10/IMAGEM-1-3-1-768x440.jpg 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/10/IMAGEM-1-3-1-1536x880.jpg 1536w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/10/IMAGEM-1-3-1-2048x1173.jpg 2048w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/10/IMAGEM-1-3-1-1200x687.jpg 1200w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 1362px) 62vw, 840px" /><figcaption id="caption-attachment-23754" class="wp-caption-text">O nome “Babadook” trata-se de um neologismo que reproduz a pronúncia de “a bad book”, “um livro mau” em inglês (Foto: Causeway Films)</figcaption></figure>
<p><b>Enrico Souto</b></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Filme australiano independente lançado em 2014, </span><i><span style="font-weight: 400;">O Babadook</span></i><span style="font-weight: 400;"> é um dos longas mais </span><a href="https://www.youtube.com/watch?v=bWE1HfAUkpA&amp;t=82s"><span style="font-weight: 400;">marcantes</span></a><span style="font-weight: 400;"> da história recente do Terror e, a despeito de sua pouca visibilidade, foi um </span><a href="https://www.rottentomatoes.com/m/the_babadook"><span style="font-weight: 400;">sucesso de crítica</span></a><span style="font-weight: 400;">, sendo considerado hoje um clássico moderno. Seus méritos narrativos e cinematográficos são incontestáveis, porém, o que realmente o marcou como um ícone da cultura </span><i><span style="font-weight: 400;">pop</span></i><span style="font-weight: 400;"> foi sua </span><a href="https://www.rollingstone.com/culture/culture-news/why-babadook-is-the-perfect-symbol-for-gay-pride-198444/"><span style="font-weight: 400;">apropriação</span></a><span style="font-weight: 400;"> feita pela comunidade LGBTQIA+. Embora visto por muitos como uma grande piada, esse paralelo com a experiência </span><i><span style="font-weight: 400;">queer</span></i><span style="font-weight: 400;"> evoca camadas da narrativa que jamais seriam alcançadas em uma leitura mais superficial. E, visto que parte do público médio repudia essa relação, é necessário questionar: a quem pertence uma obra como </span><i><span style="font-weight: 400;">O Babadook</span></i><span style="font-weight: 400;">?</span></p>
<p><span id="more-23753"></span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Na trama, acompanhamos uma família desajustada que luta para superar um sofrimento profundo. Amelia (</span><a href="https://www.youtube.com/watch?v=12UEvRF4imc"><span style="font-weight: 400;">Essie Davis</span></a><span style="font-weight: 400;">) perdeu o marido, Oskar (</span><a href="https://www.smh.com.au/culture/theatre/marta-dusseldorp-and-ben-winspear-the-thespians-who-want-to-reboot-tasmania-20200820-p55np3.html"><span style="font-weight: 400;">Benjamin Winspear</span></a><span style="font-weight: 400;">), em um trágico acidente de carro, enquanto ele a levava para o hospital, onde ela faria trabalho de parto. Mãe solo, e tendo de criar o garoto Samuel (</span><a href="https://www.facebook.com/Noah-Wiseman-931147206909718/"><span style="font-weight: 400;">Noah Wiseman</span></a><span style="font-weight: 400;">) por conta própria durante seis anos, Amelia nunca superou o luto e fazia de tudo para tentar apagar a existência de seu amado: todas as suas coisas ficavam lacradas no sótão, que ela não abria em nenhuma circunstância, e, em qualquer conversa em que Oskar fosse citado, ela imediatamente desviava o assunto.</span></p>
<p><i><span style="font-weight: 400;">“Eu superei. Você nem me vê mais falando dele”</span></i><span style="font-weight: 400;">, Amelia retrucava. Porém, quando menos ela espera, esse fantasma volta a assombrá-la. Samuel cresce e torna-se uma criança desajustada e sem amigos. Começa a ter problemas com colegas da escola e, em casa, desperta um medo por monstros que supostamente o aterrorizam durante a noite, o que aborrece sua mãe. Contudo, esse medo se materializa quando, em uma fatídica noite, o menino pede para Amelia ler um conto de ninar antes que dormisse. Samuel apanha o </span><a href="https://medologia.com/post/uma-replica-feita-a-mao-do-livro-de-terror-de-o-babadook-"><span style="font-weight: 400;">primeiro livro</span></a><span style="font-weight: 400;"> que vê na estante e, pela primeira vez, nos deparamos com a história de Sr. Babadook.</span></p>
<figure id="attachment_23756" aria-describedby="caption-attachment-23756" style="width: 2560px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-full wp-image-23756" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/10/IMAGEM-2-3-1.jpg" alt="Imagem de divulgação do filme “O Babadook”, de 2014. Fotografia retangular e colorida. A visão é da parte debaixo de uma cama. No chão, estão espalhados vários objetos diferentes, entre bichinhos de pelúcia e brinquedos. Do lado de fora da cama, deitados ao chão, estão os dois protagonistas do filme. À esquerda, Samuel, um garoto branco, de cabelos loiros, que veste um pijama azul. Ele se debruça sobre o chão com os cotovelos, e olha assustado para debaixo da cama. À direita está Amelia, uma mulher branca, com cabelos longos e loiros, vestindo um pijama rosa. se debruça no chão com o cotovelo direito, e com o esquerdo ela levanta a ponta do cobertor da cama para ter visão da parte debaixo da cama. Ela olha, receosa para o lugar. Além disso, no meio dos dois, vemos um cachorro de porte pequeno, com pelos longos de cor branca com detalhes em bege. Seu olhar é distante e confuso." width="2560" height="1536" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/10/IMAGEM-2-3-1.jpg 2560w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/10/IMAGEM-2-3-1-800x480.jpg 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/10/IMAGEM-2-3-1-1024x614.jpg 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/10/IMAGEM-2-3-1-768x461.jpg 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/10/IMAGEM-2-3-1-1536x922.jpg 1536w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/10/IMAGEM-2-3-1-2048x1229.jpg 2048w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/10/IMAGEM-2-3-1-1200x720.jpg 1200w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 1362px) 62vw, 840px" /><figcaption id="caption-attachment-23756" class="wp-caption-text">Mesmo com o orçamento reduzido, o filme adquiriu proporcionalmente bons lucros: um total de 10 milhões de dólares (Foto: Causeway Films)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">E então, a frase que abre o livro, </span><i><span style="font-weight: 400;">“Se está em uma palavra ou em um olhar, você não pode se livrar do Babadook”</span></i><span style="font-weight: 400;">, se faz verdadeira. O monstro começa a importunar a família e, quanto mais Amelia tenta resistir, mais intensas ficam as manifestações de Babadook. A situação gradativamente se descontrola, consumindo a protagonista física e psicologicamente, até chegar ao ponto em que ela precisa questionar se o melhor para ela e o seu filho é esquecer que o problema existe, ou expô-lo e enfrentá-lo de frente.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">A diretora e roteirista do filme, </span><a href="https://www.indiewire.com/2019/09/jennifer-kent-alice-freda-forever-lesbian-true-crime-thriller-amazon-1202171343/"><span style="font-weight: 400;">Jennifer Kent</span></a><span style="font-weight: 400;">, estreou em longas-metragens com </span><i><span style="font-weight: 400;">O Babadook</span></i><span style="font-weight: 400;">, e dispunha de uma estrutura deveras modesta. Com um orçamento de somente 2 milhões de dólares, recebendo ainda um apoio de 30 mil dólares através de uma </span><a href="https://www.kickstarter.com/projects/thebabadook/realise-the-vision-of-the-babadook"><span style="font-weight: 400;">campanha</span></a><span style="font-weight: 400;"> de </span><a href="https://www.youtube.com/watch?v=971P0E2FaI8"><span style="font-weight: 400;">financiamento coletivo</span></a><span style="font-weight: 400;">, não havia muito espaço para ocupar com criaturas aterrorizantes feitas em </span><i><span style="font-weight: 400;">CGI</span></i><span style="font-weight: 400;"> e grandes sequências de efeitos especiais. Kent entende isso e decide investir no que realmente importa em um filme como esse: atmosfera e densidade emocional.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">O pilar do longa é o </span><a href="https://revistagalileu.globo.com/Cultura/noticia/2017/06/horror-psicologico-psicanalise-explica-nosso-fascinio-pelo-medo.html"><span style="font-weight: 400;">terror psicológico</span></a><span style="font-weight: 400;">, e é aí onde está seu maior brilho. Jennifer Kent parece se recusar a utilizar as convenções mais batidas do gênero, e decide explorar diferentes ferramentas para construir as sensações que ela deseja transmitir. A trilha sonora é mínima, sendo acionada somente em momentos-chave. Enquanto o uso dos conhecidos </span><a href="https://cinemacomrapadura.com.br/colunas/458365/o-alem-do-susto-terror-pos-horror-e-o-poder-do-jump-scare/"><i><span style="font-weight: 400;">jumpscares</span></i></a><span style="font-weight: 400;"> é quase nulo. O filme até mesmo brinca com essa expectativa, entregando o susto com ‘atraso’, ou não o entregando de forma alguma. Situações de constante tensão, mas que nunca chegam em uma definitiva catarse. O que, na realidade, acaba por impulsionar o medo em sua décima potência.</span></p>
<figure id="attachment_23757" aria-describedby="caption-attachment-23757" style="width: 1272px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-full wp-image-23757" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/10/IMAGEM-3-2-1.jpg" alt="Imagem retirada do filme “O Babadook”, de 2014. Fotografia retangular e colorida. A câmera está próxima do rosto de Samuel, que é o foco da imagem. Ele é um garoto branco, com cabelos loiros e olhos escuros. Ele escora sua bochecha no batente da porta, como se tentasse espiar o outro lado sem ser visto. Ele veste uma camisa xadrez preto-e-branco, e olha para sua frente, surpreso." width="1272" height="720" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/10/IMAGEM-3-2-1.jpg 1272w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/10/IMAGEM-3-2-1-800x453.jpg 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/10/IMAGEM-3-2-1-1024x580.jpg 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/10/IMAGEM-3-2-1-768x435.jpg 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/10/IMAGEM-3-2-1-1200x679.jpg 1200w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 1362px) 62vw, 840px" /><figcaption id="caption-attachment-23757" class="wp-caption-text">Com apenas 7 anos de idade, Noah Wiseman se dá muito bem no papel, sendo indicado para diversas premiações, incluindo o Critics’ Choice Awards na categoria de Melhor Ator/Atriz Jovem (Foto: Causeway Films)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">Devido a essa escolha, Babadook</span> <span style="font-weight: 400;">dificilmente aparece para os personagens. Normalmente, ele figura quase como uma sombra, um ser que, mesmo que não possa ser visto, está terminantemente conectado com a sua vítima. Entramos na pele de Amelia e, juntos a ela, absorvemos esse sentimento de impotência e de dúvida, de uma ameaça que não pode ser provada, muito menos impedida (antes de </span><a href="https://personaunesp.com.br/bird-box-netflix-critica/"><i><span style="font-weight: 400;">Bird Box</span></i></a><span style="font-weight: 400;"> usar esses tropos, </span><i><span style="font-weight: 400;">O Babadook</span></i><span style="font-weight: 400;"> já tinha inventado a roda!). De todo modo, os momentos que demandam o uso de efeitos especiais, como a sequência do acidente de carro no início do filme, ou as breves aparições físicas de Babadook, realmente evidenciam o orçamento limitado da produção, mas fazem bem o seu trabalho.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Durante a sua 1 hora e 29 minutos de duração, acompanhamos de perto a rotina da família. Conhecemos seu entorno, sua rede de apoio e as pessoas que a rodeiam. Mas quem realmente cumpre o papel de carregar o longa nas costas são os dois protagonistas, sobretudo Amelia. A interpretação de </span><a href="https://www.theguardian.com/tv-and-radio/2016/may/09/the-thousand-faces-of-essie-davis-people-dont-realise-im-the-same-person"><span style="font-weight: 400;">Essie Davis</span></a><span style="font-weight: 400;"> é primorosa, e uma das melhores do gênero de horror na última década. Ela encarna o papel da mulher cansada e da mãe desajustada com tamanha autenticidade que em certos momentos esquecemos que trata-se de uma personagem. Amelia se transforma da água pro vinho no decorrer da trama, e Essie faz com que compremos essa mudança de uma maneira que uma atriz menos capacitada não conseguiria.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">O que mais transborda da atuação de Essie é como Amelia é uma personagem complexa e multifacetada. Kent foge de romantizações e arquétipos clichês, criando em </span><i><span style="font-weight: 400;">O Babadook</span></i><span style="font-weight: 400;"> um retrato franco e realista de família e maternidade. </span><a href="https://www.denofgeek.com/movies/jennifer-kent-interview-directing-the-babadook/"><span style="font-weight: 400;">Em entrevista</span></a><span style="font-weight: 400;"> para o site </span><i><span style="font-weight: 400;">Den of Geek</span></i><span style="font-weight: 400;">, a diretora disserta a respeito: </span><i><span style="font-weight: 400;">“Eu estava realmente querendo explorar a parentalidade a partir de uma perspectiva muito real. Agora, não estou dizendo que todas nós queremos ir e matar nossos filhos, mas muitas mulheres lutam e sofrem com isso. E é um assunto muito tabu, dizer que a maternidade é tudo menos uma experiência perfeita para as mulheres”</span></i><span style="font-weight: 400;">.</span></p>
<figure id="attachment_23758" aria-describedby="caption-attachment-23758" style="width: 1261px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-full wp-image-23758" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/10/IMAGEM-4-1-1.jpg" alt="Imagem retirada do filme “O Babadook”, de 2014. Fotografia retangular e colorida. No centro da imagem, está Amelia. Uma mulher branca, de cabelos longos e loiros, que veste uma camisola rosa. A vemos da cintura para cima, e ela é iluminada por uma luz branca difusa. Ela está em pé, e olha para cima, assustada e confusa. Atrás dela, vemos um lance de escadas de madeira." width="1261" height="704" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/10/IMAGEM-4-1-1.jpg 1261w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/10/IMAGEM-4-1-1-800x447.jpg 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/10/IMAGEM-4-1-1-1024x572.jpg 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/10/IMAGEM-4-1-1-768x429.jpg 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/10/IMAGEM-4-1-1-1200x670.jpg 1200w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 1362px) 62vw, 840px" /><figcaption id="caption-attachment-23758" class="wp-caption-text">A transformação de Amelia também se dá na cinematografia: conforme ela perde a sanidade, predominam cores dessaturadas e tons de cinza (Foto: Causeway Films)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">Amelia não é perfeita. Ela não entende as sensibilidades de seu filho, é negligente com frequência, e deposita todo o peso de seu luto nele, mesmo que inconscientemente. O garoto sequer pode ter uma festa no dia de seu aniversário, já que sua mãe não aguentaria fazer uma comemoração em uma data tão desoladora quanto a da morte de seu marido. Amelia projeta a imagem de Oskar em Samuel, fazendo com que sua relação </span><a href="https://medium.com/mix%C3%B3rdia/the-babadook-uma-reflex%C3%A3o-sobre-a-depress%C3%A3o-p%C3%B3s-parto-2f1f288db479"><span style="font-weight: 400;">seja obstruída</span></a><span style="font-weight: 400;"> e os impossibilitando de construir um vínculo saudável.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Antes mesmo de surgir o monstro, não importava o quanto evitasse, a memória de seu marido sempre retornava a ela: seja através de um programa romântico na televisão, ou de um casal no estacionamento do serviço. Diante disso, Amelia deixa com que seu trauma consuma todos os aspectos da sua vida. Ela deixa a escrita, que era sua paixão, e passa a trabalhar em uma área onde ela não sente realização, e resume sua vida aos cuidados de uma criança que apenas escancara ainda mais seus ferimentos. O resultado é que essa angústia, sem ser devidamente abordada e tratada, começa a crescer e a devorá-la por dentro.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Ao se isolar na tentativa de </span><a href="https://www.youtube.com/watch?v=hLFd8hq6RmQ"><span style="font-weight: 400;">não se machucar</span></a><span style="font-weight: 400;">, Amelia começa a ferir aqueles que ela mais ama. Se afasta de sua </span><a href="https://www.washingtonian.com/2011/08/04/interview-with-hayley-mcelhinney-from-anton-chekhovs-uncle-vanya/"><span style="font-weight: 400;">melhor amiga</span></a><span style="font-weight: 400;">, nega os cuidados de sua vizinha, e passa a gradativamente maltratar Samuel. Nesse sentido, podemos ler </span><i><span style="font-weight: 400;">O Babadook</span></i><span style="font-weight: 400;"> como uma personificação da depressão e </span><a href="https://g1.globo.com/sp/presidente-prudente-regiao/especial-publicitario/interplan-assistencia-funeral/interplan-ao-seu-lado-em-todos-os-momentos/noticia/2019/09/03/psicologa-revela-fases-do-luto-e-como-ele-pode-ser-superado-aos-poucos.ghtml"><span style="font-weight: 400;">luto</span></a><span style="font-weight: 400;"> da protagonista que, de tanto ser reprimida, implora para ser vista. E, depois de tanto sofrer e causar sofrimento, ela entende que a única maneira de superar seus traumas é colocá-los à tona e domá-los. Assim que ela decide olhar de perto, o Babadook nem parece mais tão ameaçador.</span></p>
<figure id="attachment_23759" aria-describedby="caption-attachment-23759" style="width: 1280px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-full wp-image-23759" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/10/IMAGEM-5-1-1.jpg" alt="Imagem retirada do filme “O Babadook”, de 2014. Fotografia quadrada e colorida. Nela, vemos, enquadrados à direita, os dois protagonistas. Sentado, com o tronco se projetando ao chão, está Amelia, uma mulher branca, de cabelos longos e loiros. Ela usa um vestido de pano branco, e tem seus pés amarrados por cordas. Sua cabeça está baixa, de modo que não é possível ver seu rosto. Do lado dela, está Samuel, um garoto branco de cabelos loiros, que veste um pijama xadrez. Ele está de costas para a câmera, de joelhos no chão, e envolve Amelia em um abraço. Do lado deles, vemos uma poça de um líquido escuro, que se assemelha a sangue. O cenário é o de um sótão empoeirado." width="1280" height="720" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/10/IMAGEM-5-1-1.jpg 1280w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/10/IMAGEM-5-1-1-800x450.jpg 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/10/IMAGEM-5-1-1-1024x576.jpg 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/10/IMAGEM-5-1-1-768x432.jpg 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/10/IMAGEM-5-1-1-1200x675.jpg 1200w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 1362px) 62vw, 840px" /><figcaption id="caption-attachment-23759" class="wp-caption-text">A visão cinematográfica de Jennifer Kent sobre maternidade, tão poderosa, sensível e afetuosa, traz nuances que apenas uma diretora mulher poderia evocar (Foto: Causeway Films)</figcaption></figure>
<p><b>Mas aí entra a dúvida: o que diabos </b><b><i>O Babadook</i></b><b> tem a ver com a comunidade LGBTQIA+? </b></p>
<p><span style="font-weight: 400;">As primeiras analogias do filme com a cultura </span><i><span style="font-weight: 400;">queer</span></i><span style="font-weight: 400;"> que se tem indícios ocorreram no </span><a href="https://www.b9.com.br/105039/apos-banir-pornografia-de-sua-plataforma-tumblr-sofre-queda-de-30-nos-acessos/"><i><span style="font-weight: 400;">Tumblr</span></i></a><span style="font-weight: 400;">. Um </span><a href="https://twitter.com/broderick/status/831889174454272005?ref_src=twsrc%5Etfw%7Ctwcamp%5Etweetembed%7Ctwterm%5E831889174454272005%7Ctwgr%5E393039363b636f6e74726f6c&amp;ref_url=https%3A%2F%2Few.com%2Fmovies%2F2019%2F06%2F25%2Fgay-babadook-director-jennifer-kent%2F"><i><span style="font-weight: 400;">post</span></i></a><span style="font-weight: 400;"> que viralizou na rede social no final de 2016 inferia que o personagem </span><a href="https://www.vox.com/explainers/2017/6/9/15757964/gay-babadook-lgbtq"><span style="font-weight: 400;">seria homossexual</span></a><span style="font-weight: 400;">: </span><i><span style="font-weight: 400;">“Quando qualquer pessoa diz que o Babadook não é abertamente gay é tipo?? Você sequer assistiu ao filme???”</span></i><span style="font-weight: 400;">. </span><a href="https://taco-bell-rey.tumblr.com/post/154301475490/so-proud-that-netflix-recognizes-the-babadooks"><span style="font-weight: 400;">Outra publicação</span></a><span style="font-weight: 400;"> do mesmo ano fazia uma montagem do catálogo da </span><a href="https://streamingsbrasil.com/removidos-netflix-24-a-30-de-novembro/#:~:text=O%20destaque%20fica%20por%20conta,cat%C3%A1logo%20o%20filme%20%E2%80%9CAbracadabra%E2%80%9D."><i><span style="font-weight: 400;">Netflix</span></i></a><span style="font-weight: 400;">, colocando o longa na lista de “Filmes LGBT” do site. A brincadeira seguiu, porém apenas tomou a proporção que tem hoje em junho de 2017, </span><a href="https://www.correiobraziliense.com.br/brasil/2021/06/4934707-de-conquistas-a-tragedias-por-que-o-mes-do-orgulho-lgbt-e-necessario-no-brasil.html"><span style="font-weight: 400;">Mês da Visibilidade LGBTQIA+</span></a><span style="font-weight: 400;">, quando a assombração tomou conta de </span><a href="https://www.indiewire.com/2017/06/babadook-gay-icon-los-angeles-pride-parade-1201841048/"><span style="font-weight: 400;">Paradas do Orgulho</span></a><span style="font-weight: 400;"> no mundo todo.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Contudo, isso ainda não responde a uma questão fulcral. Porque o Babadook seria lido </span><a href="https://www.youtube.com/watch?v=QF5Q4VJr-O0"><span style="font-weight: 400;">como gay</span></a><span style="font-weight: 400;">? Seja pela suas vestimentas elegantes e pelo seu eventual </span><a href="https://www.vulture.com/2017/06/is-the-babadook-gay.html"><span style="font-weight: 400;">perfil</span></a><span style="font-weight: 400;"> de </span><i><span style="font-weight: 400;">&#8220;um homem gay que gosta de usar cartolas extravagantes e só quer viver sua vida no subúrbio da Austrália&#8221;</span></i><span style="font-weight: 400;">, ou pela anedota que surge do fato de que o personagem literalmente sai de um armário durante o filme, essa leitura é comumente vista somente como um meme de </span><i><span style="font-weight: 400;">internet</span></i><span style="font-weight: 400;">. Ou, no máximo, uma </span><a href="https://www.youtube.com/watch?v=HBic0DzSbqM"><span style="font-weight: 400;">ótima fonte</span></a><span style="font-weight: 400;"> de </span><a href="https://queer.ig.com.br/2021-08-03/por-que-lgbts-voltaram-usar-sigla-gls.html"><i><span style="font-weight: 400;">fantasias animadas</span></i></a><span style="font-weight: 400;"> para festas. Contudo, na verdade, essa correlação parte de um lugar muito mais profundo. Parte do cerne de sua narrativa.</span></p>
<figure id="attachment_23760" aria-describedby="caption-attachment-23760" style="width: 1200px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-full wp-image-23760" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/10/IMAGEM-6-1.jpg" alt="Fotografia retirada durante o dia, na Marcha do Orgulho de Grande Manila, nas Filipinas. Nela, vemos um grupo de jovens marchando por uma rua. Eles usam bottons coloridos em suas camisas e levantam placas para os céus. O foco da imagem, porém, é o grupo que ocupa a frente que se destaca. Pelo menos sete pessoas tomam a frente do movimento, todas vestindo no rosto máscaras do Babadook: o desenho preto-e-branco de um monstro de olhos esbugalhados, uma bocarra aberta, que veste uma cartola preta na cabeça. Eles posam pra foto, segurando seus cartazes. O homem da frente, que ainda usa longas unhas postiças na mão esquerda, segura sua placa em direção à câmera. Ela é estampada pela silhueta escura de Babadook, acompanhada por um texto, em inglês: “Se está em uma palavra ou em um olhar/Você não pode se livrar dos LGBTQ/Se você realmente é esperto/E parecer legal para mim/Então você pode fazer amizade/Com os LGBT”." width="1200" height="900" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/10/IMAGEM-6-1.jpg 1200w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/10/IMAGEM-6-1-800x600.jpg 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/10/IMAGEM-6-1-1024x768.jpg 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/10/IMAGEM-6-1-768x576.jpg 768w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 1362px) 62vw, 840px" /><figcaption id="caption-attachment-23760" class="wp-caption-text">Pessoas vestidas de Babadook durante a Marcha do Orgulho de Grande Manila nas Filipinas, no dia 24 de junho de 2017 (Foto: VentMag/Twitter)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">A esse respeito, o quanto a interpretação de uma história também deriva-se da experiência particular de quem a consome? E, nesse caso, a análise dessa pessoa é menos valiosa por partir de um ponto de vista íntimo e pessoal? É de conhecimento público que nunca foi a </span><a href="https://www.themarysue.com/babadook-director-gay-icon/"><span style="font-weight: 400;">intenção</span></a><span style="font-weight: 400;"> de Jennifer Kent criar uma alegoria gay. No entanto, a intenção da autora realmente é tão importante para se entender uma obra? Não seria ela somente uma catalisadora de informações, palavras e signos culturais que a precedem, inseridos em um contexto histórico que, com frequência, vão muito além de decisões artísticas conscientes? </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">É o que Roland Barthes argumenta em seu ensaio </span><a href="https://edisciplinas.usp.br/pluginfile.php/4217539/mod_resource/content/4/Barthes_%20a%20morte%20do%20autor.pdf"><i><span style="font-weight: 400;">A morte do autor</span></i></a><span style="font-weight: 400;">, de 1967. Partindo de uma ótica literária, o sociólogo chega à conclusão de que, a partir do momento em que uma obra </span><a href="https://www.youtube.com/watch?v=Rwzc2bPNXdQ"><span style="font-weight: 400;">sai das mãos</span></a><span style="font-weight: 400;"> de seu autor, ela já não é mais de </span><a href="https://medium.com/tend%C3%AAncias-digitais/a-morte-do-autor-73bd6d8b42f6"><span style="font-weight: 400;">sua responsabilidade</span></a><span style="font-weight: 400;">. Para Barthes, entregar ao criador toda a significação da sua arte é impor à Arte um fim, limitando suas inúmeras potencialidades. No fim das contas, a agência é inteira do leitor. E o autor, nesse cenário, torna-se somente mais uma visão em meio a um espectro rico de perspectivas.</span></p>
<blockquote><p><span style="font-weight: 400;">&#8220;[&#8230;] sabemos que, para devolver à escrita o seu devir, é preciso inverter o seu mito: o nascimento do leitor tem de pagar-se com a morte do Autor.&#8221; &#8211; BARTHES, Roland. 2004.</span></p></blockquote>
<figure id="attachment_23764" aria-describedby="caption-attachment-23764" style="width: 1280px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-full wp-image-23764" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/10/IMAGEM-7-1.png" alt="Imagem de um desenho retirada da internet. No centro, vemos um desenho de Babadook, uma criatura escura. Ele veste um cropped cinza, que estampa em seu centro os dizeres, em inglês: “prepare-se para ser babachocado”. Sobre ela, ele usa suspensórios com as cores do arco-íris, que se prende por uma calça preta. Ele usa um colar de plumas roxo que o envolve pelos ombros, e ele tem seus braços levantados na altura dos ombros. No rosto, ele usa um óculos festivo no formato de flamingos rosas, e na cabeça uma cartola preta com um bottom com as cores do arco-íris. Seus olhos esbugalhados estão totalmente abertos, e ele abre um largo sorriso contagiante. Desenhos de estrelas amarelas e azuis o orbitam ao seu lado direito e esquerdo. No fundo, vê-se uma grande bandeira colorida com as cores do arco-íris." width="1280" height="720" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/10/IMAGEM-7-1.png 1280w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/10/IMAGEM-7-1-800x450.png 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/10/IMAGEM-7-1-1024x576.png 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/10/IMAGEM-7-1-768x432.png 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/10/IMAGEM-7-1-1200x675.png 1200w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 1362px) 62vw, 840px" /><figcaption id="caption-attachment-23764" class="wp-caption-text">“BABADOOK: Eu sou um monstro aterrorizante que destrói as famílias que tentam me reprimir/PESSOAS GAYS: Ó meu Deus, NÓS TAMBÉM. Drinks mais tarde?” — Carlos Maza em seu Twitter (Foto: <a href="https://muffinpines.tumblr.com/">Muffinpines/Tumblr</a>)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">A leitura </span><a href="https://deliriumnerd.com/2017/09/14/o-babadook-demonios/"><span style="font-weight: 400;">mais difundida</span></a><span style="font-weight: 400;"> e aceita do filme foi a citada mais acima, de que Babadook seria uma representação corpórea da </span><a href="https://rotacult.com.br/2019/03/babadook-uma-alegoria-para-depressao/"><span style="font-weight: 400;">depressão</span></a><span style="font-weight: 400;"> de Amelia, que luta para reprimi-la. Todavia, qual </span><a href="https://www.latimes.com/entertainment/movies/la-et-mn-babadook-gay-icon-lgbt-history-20170609-story.html"><span style="font-weight: 400;">a distância</span></a><span style="font-weight: 400;"> dessa alegoria para a jornada afetiva de pessoas </span><a href="https://www1.folha.uol.com.br/cotidiano/2021/06/entenda-o-que-significa-cada-letra-da-sigla-lgbtqia.shtml"><span style="font-weight: 400;">LGBTQIA+</span></a><span style="font-weight: 400;">? Para muitos membros da comunidade, nenhuma. Muito do que é retratado no filme relaciona-se intensamente com a angústia de pessoas </span><i><span style="font-weight: 400;">queer</span></i><span style="font-weight: 400;"> que ainda estão no armário. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Os exemplos para essa leitura são muitos: primeiro, tem-se as semelhanças existentes entre o esforço da protagonista de esconder seu sofrimento e a experiência real de inúmeras pessoas que lutam contra seus prazeres, por terem internalizado durante toda a vida a afirmação deturpada de que esses são desejos execráveis. Podemos tirar essa interpretação também da memorável frase do livro d’</span><i><span style="font-weight: 400;">O Babadook</span></i><span style="font-weight: 400;">: </span><i><span style="font-weight: 400;">“Quanto mais você me nega, mais forte eu fico”</span></i><span style="font-weight: 400;">, que conversa com a iminente frustração dessa autorepressão e, como resultado, somente a intensificação desses desejos. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">De forma mais profunda, existe também a ligação entre a possessão de Babadook sobre Amelia, e sua sucessão de ações agressivas, e a reprodução violenta de uma </span><a href="https://www.youtube.com/watch?v=I7ifszJag18"><span style="font-weight: 400;">heterossexualidade compulsória</span></a><span style="font-weight: 400;"> que muitos se submetem por sua própria sobrevivência, machucando aqueles ao seu redor através de uma postura tóxica de autoafirmação. E também a resolução no terceiro ato do filme, como o alcance do entendimento de que a única maneira de conquistar plenitude é entrando em paz com esse desejo, e o aceitando como uma parte de você, como uma peça primordial do quebra-cabeça que o forma como indivíduo.</span></p>
<figure id="attachment_23765" aria-describedby="caption-attachment-23765" style="width: 1430px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-full wp-image-23765" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/10/IMAGEM-8-1.jpg" alt="Imagem retirada do filme “O Babadook”, de 2014. Fotografia retangular e colorida. Temos a visão aproximada do rosto de Amelia, uma mulher branca, de cabelos loiros e olhos claros. Seu rosto é inteiro tomado por marcas de sangue seco. Ela olha implacavelmente para frente, com raiva, enquanto grita com a boca aberta. Seus olhos estão marejados, tomados por lágrimas, e ela segura em suas mãos Samuel, um garoto branco de cabelos loiros. Seus braços envolvem Amelia, e ele encosta a cabeça" width="1430" height="857" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/10/IMAGEM-8-1.jpg 1430w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/10/IMAGEM-8-1-800x479.jpg 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/10/IMAGEM-8-1-1024x614.jpg 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/10/IMAGEM-8-1-768x460.jpg 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/10/IMAGEM-8-1-1200x719.jpg 1200w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 1362px) 62vw, 840px" /><figcaption id="caption-attachment-23765" class="wp-caption-text">Outras interpretações queer recorrentes do filme enxergam o próprio Babadook como um avatar de pessoas LGBTQIA+, rejeitado pela família, que o impede de viver como ele bem deseja (Foto: Causeway Films)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">Nessa interpretação, </span><i><span style="font-weight: 400;">O Babadook</span></i><span style="font-weight: 400;"> torna-se não uma representação do luto de uma mulher viúva e depressiva, mas uma representação do desejo reprimido de pessoas LGBTQIA+, que não se expressam sexual e afetivamente como o </span><i><span style="font-weight: 400;">status quo</span></i><span style="font-weight: 400;"> ordena. E, inclusive, Jennifer Kent incentiva </span><a href="https://ew.com/movies/2019/06/25/gay-babadook-director-jennifer-kent/"><span style="font-weight: 400;">categoricamente</span></a><span style="font-weight: 400;"> essa leitura, ainda que não tenha sido parte de sua proposta original. </span><a href="https://www.indiewire.com/2019/06/gay-babadook-jennifer-kent-pride-lgbt-1202153072/"><span style="font-weight: 400;">Em suas palavras</span></a><span style="font-weight: 400;">: </span><i><span style="font-weight: 400;">“É engraçado, é charmoso, para mim, que a comunidade gay tenha se apegado tanto a ele”</span></i><span style="font-weight: 400;">. E, em </span><a href="https://bloody-disgusting.com/interviews/3543658/sundance-2019-jennifer-kent-says-lgbtq-babadook-memes-kept-bastard-alive-exlcusive/"><span style="font-weight: 400;">outra oportunidade</span></a><span style="font-weight: 400;">, ela diz: </span><i><span style="font-weight: 400;">“eu acho uma loucura e [essa história] apenas o manteve vivo. Pensei ‘ah, seu bastardo’. Ele não quer morrer, então está encontrando maneiras de se tornar relevante”</span></i><span style="font-weight: 400;">.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">A conclusão, portanto, é essa. </span><i><span style="font-weight: 400;">O Babadook</span></i><span style="font-weight: 400;"> pertence a todo e qualquer um que o leia. E cada um irá o ler a partir de suas individualidades e de seus próprios recortes. Afinal, não poderia ser diferente. Assim como afirma Barthes, é no leitor que toda a multiplicidade cultural e artística de uma obra se reúne. É apenas através do público que uma produção pode adquirir alma. Então, o que seria a transformação de Babadook em ícone gay se não o longa ganhando vida? No fim, a pluralidade de visões e </span><a href="https://www.youtube.com/watch?v=kzKgG54c464"><span style="font-weight: 400;">leituras</span></a><span style="font-weight: 400;"> que circundam </span><i><span style="font-weight: 400;">O Babadook</span></i><span style="font-weight: 400;"> é simplesmente o atestado de sua riqueza como projeto artístico e audiovisual. E, para quem ainda insiste em deslegitimar uma leitura LGBTQIA+ do filme, </span><i><span style="font-weight: 400;">“</span></i><a href="https://me.me/i/james-hassinger-if-this-is-the-official-page-why-is-761fe06367a248739888f314c3a4bf5d"><i><span style="font-weight: 400;">O Babadook</span></i></a><i><span style="font-weight: 400;"> é gay quando quer, e ele mandou um chupa para você”</span></i><span style="font-weight: 400;">.</span></p>
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		<title>Persona Entrevista: Felipe M. Guerra</title>
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		<pubDate>Fri, 07 May 2021 18:49:25 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p>Diretor comenta sobre a reedição de seu clássico do cinema amador para o Fantaspoa XVII e da realidade dos cineastas independentes no Brasil Caroline Campos A 17ª edição do Festival de Cinema Fantástico de Porto Alegre, que ocorreu no último mês de abril, rendeu o acesso a muitas obras internacionais até então inéditas no Brasil. &#8230; <a href="http://personaunesp.com.br/entrevista-felipe-m-guerra/" class="more-link">Continue lendo<span class="screen-reader-text"> "Persona Entrevista: Felipe M. Guerra"</span></a></p>
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										<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: right;"><i><span style="font-weight: 400;">Diretor comenta sobre a reedição de seu clássico do cinema amador para o Fantaspoa XVII e da realidade dos cineastas independentes no Brasil</span></i></p>
<figure id="attachment_20543" aria-describedby="caption-attachment-20543" style="width: 1024px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="wp-image-20543 size-full" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/05/entrevista-felipe-wordpress.jpg" alt="Arte do Persona Entrevista. À esquerda, as palavras PERSONA ENTREVISTA estão contínuas em quatro linhas brancas e brancas. O cineasta Felipe M. Guerra está no centro da arte, em preto e branco no fundo vermelho. Ao seu lado, o poster do filme Entrei em Pânico ao Saber o que Vocês Fizeram na Sexta-Feira 13 do Verão Passado, com FELIPE M GUERRA em preto acima." width="1024" height="538" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/05/entrevista-felipe-wordpress.jpg 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/05/entrevista-felipe-wordpress-300x158.jpg 300w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/05/entrevista-felipe-wordpress-768x404.jpg 768w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 1362px) 62vw, 840px" /><figcaption id="caption-attachment-20543" class="wp-caption-text">Depois de nomes como Lemohang Jeremiah Mosese e Moara Passoni, o Persona Entrevista volta para um bate-papo com o cineasta independente Felipe M. Guerra (Foto: Necrófilos Produções Artísticas/Arte: Jho Brunhara)</figcaption></figure>
<p><b>Caroline Campos</b></p>
<p><span style="font-weight: 400;">A 17ª edição do Festival de Cinema Fantástico de Porto Alegre, que ocorreu no último mês de abril, rendeu o acesso a muitas obras internacionais até então inéditas no Brasil. Depois da </span><a href="https://personaunesp.com.br/cobertura-fantaspoa-xvii/"><span style="font-weight: 400;">cobertura do </span><i><span style="font-weight: 400;">Fantaspoa XVII</span></i></a><span style="font-weight: 400;"> pelo </span><b>Persona</b><span style="font-weight: 400;">, o quadro de entrevistas do </span><i><span style="font-weight: 400;">site </span></i><span style="font-weight: 400;">retorna para conversar com </span><a href="https://felipemguerra.medium.com/"><span style="font-weight: 400;">Felipe M. Guerra</span></a><span style="font-weight: 400;">, o diretor de um dos filmes mais comentados do evento: </span><a href="https://www.youtube.com/watch?v=cjTT6faL5L4"><i><span style="font-weight: 400;">Entrei em Pânico ao Saber o que Vocês Fizeram na Sexta-Feira 13 do Verão Passado</span></i></a><span style="font-weight: 400;">. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">No aniversário de 20 anos do longa, Guerra, também jornalista, conta um pouco sobre seu processo de criação e a recepção do público durante o </span><i><span style="font-weight: 400;">Fantaspoa</span></i><span style="font-weight: 400;">, que marca a primeira vez que o filme foi disponibilizado </span><i><span style="font-weight: 400;">online</span></i><span style="font-weight: 400;"> e sem restrições. Simpático, o gaúcho ainda comenta sobre a relação do Cinema com as novas tecnologias e o papel da arte independente. Sentiu saudade do </span><a href="http://personaunesp.com.br/tag/persona-entrevista/"><b>Persona Entrevista</b></a><span style="font-weight: 400;">? Então, acompanhe abaixo o papo que tivemos com o responsável por um dos maiores mitos do cinema amador.</span></p>
<p><span id="more-20522"></span></p>
<figure id="attachment_20527" aria-describedby="caption-attachment-20527" style="width: 748px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="wp-image-20527 size-full" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/05/1_57kuOjt0Ls3Nc4L1YiEbzA.jpeg" alt="Felipe Guerra é um homem branco de 41 anos. Ele está no centro da imagem, segurando uma placa como se tivesse sendo preso, em que podemos ler CURTA CIRCUITO 17 EDIÇÃO. Ele usa uma camisa preta e a imagem é preta e branca." width="748" height="728" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/05/1_57kuOjt0Ls3Nc4L1YiEbzA.jpeg 748w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/05/1_57kuOjt0Ls3Nc4L1YiEbzA-300x292.jpeg 300w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 984px) 61vw, (max-width: 1362px) 45vw, 600px" /><figcaption id="caption-attachment-20527" class="wp-caption-text">Felipe brinca que o único dinheiro com Cinema que conseguiu na vida foi com a venda de seu filme Deodato Holocaust em Blu-ray na Europa (Foto: Acervo Curta Circuito)</figcaption></figure>
<p><i><span style="font-weight: 400;">Entrei em Pânico…</span></i><span style="font-weight: 400;"> é fruto de outra era tecnológica. Felipe, com seus 30 anos de carreira e 41 de vida, lembra das dificuldades de se produzir cinema independente no mundo analógico, decorrentes da baixa qualidade de imagem, som e dos processos mirabolantes de edição e montagem de um filme. </span><i><span style="font-weight: 400;">“Tudo era um pouquinho mais difícil, mas, ao mesmo tempo, mais desafiador. (&#8230;) Naquela época, para se gostar de Cinema, tinha que gostar muito”</span></i><span style="font-weight: 400;">, brinca o cineasta, relembrando das videolocadoras e comparando com a facilidade dos dias de hoje, onde um filme pode ser disponibilizado em diversas plataformas e difundido pelo Brasil. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Ainda por cima, quando o então presidente </span><a href="https://acervo.oglobo.globo.com/fatos-historicos/collor-extingue-embrafilme-10159189"><span style="font-weight: 400;">Fernando Collor extinguiu a Embrafilme</span></a><span style="font-weight: 400;">, fazer Cinema virou coisa de rico. Felipe e outros interessados em realizar seus próprios filmes precisavam se virar com o que estava disponível, como a câmera </span><i><span style="font-weight: 400;">VHS</span></i><span style="font-weight: 400;">. </span><i><span style="font-weight: 400;">“Para você querer fazer filme com VHS, você precisava gostar muito de Cinema e não ter dinheiro algum”</span></i><span style="font-weight: 400;">, conta o gaúcho, que então resolveu juntar os amigos e dar vida às suas obras. Além do </span><i><span style="font-weight: 400;">VHS</span></i><span style="font-weight: 400;">, o diretor já filmou em câmeras digitais, semiamadoras e, por enquanto, só falta o 4K. </span><i><span style="font-weight: 400;">“Nunca consegui ficar rico nem ir para a Globo fazer novela, mas me diverti muito nesses quase 30 anos de produção independente”</span></i><span style="font-weight: 400;">. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">A relação entre Felipe Guerra e o </span><i><span style="font-weight: 400;">Fantaspoa </span></i><span style="font-weight: 400;">não é de agora. O gaúcho já estreou muitos de seus filmes no Festival e possui obras produzidas pelo </span><i><span style="font-weight: 400;">Fantaspoa Produções</span></i><span style="font-weight: 400;">. A amizade rendeu a ideia de reeditar seu longa </span><a href="https://bocadoinferno.com.br/criticas/2013/11/canibais-solidao-2006-2/"><i><span style="font-weight: 400;">Canibais &amp; Solidão</span></i></a><span style="font-weight: 400;">, que comemora 15 anos em 2021. No entanto, o vigésimo aniversário de </span><i><span style="font-weight: 400;">Entrei em Pânico ao Saber o que Vocês Fizeram na Sexta-Feira 13 do Verão Passado</span></i><span style="font-weight: 400;"> falou mais alto. </span><i><span style="font-weight: 400;">“Eu ofereci para eles e eles ficaram fascinados, já que o Fantaspoa nem existia quando o filme foi lançado em 2001”</span></i><span style="font-weight: 400;">, comenta Guerra.</span></p>
<figure id="attachment_20526" aria-describedby="caption-attachment-20526" style="width: 1038px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="wp-image-20526 size-full" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/05/Ez1ewHaXIAQzrOR.jpeg" alt="Cena do filme Entrei em Pânico ao Saber o que Vocês Fizeram na Sexta-Feira 13 do Verão Passado. Um assassino segurando um machado olha por dentro de uma porta, na ddireção de um jovem que está mexendo no computador." width="1038" height="768" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/05/Ez1ewHaXIAQzrOR.jpeg 1038w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/05/Ez1ewHaXIAQzrOR-300x222.jpeg 300w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/05/Ez1ewHaXIAQzrOR-1024x758.jpeg 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/05/Ez1ewHaXIAQzrOR-768x568.jpeg 768w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 1362px) 62vw, 840px" /><figcaption id="caption-attachment-20526" class="wp-caption-text">Entrei em Pânico&#8230; teve que se transformar da sua criação para cá: por conta de direitos autorais, muitas músicas precisaram ser substituídas (Foto: Necrófilos Produções Artísticas)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">No mundo pré-</span><i><span style="font-weight: 400;">internet</span></i><span style="font-weight: 400;">, Felipe lembra que, para vender suas fitas, era necessário enviá-las por correio. </span><i><span style="font-weight: 400;">“Eu tive muita sorte. Apesar do filme ter sido feito nessas condições difíceis, a mídia em geral se interessou por ele, tanto pelo título quanto por ter sido feito em uma cidadezinha do interior”</span></i><span style="font-weight: 400;">. Na época, Carlos Barbosa, localizada no Rio Grande do Sul, contava com cerca de apenas 15 mil habitantes. O filme se tornou uma pauta ambulante, fruto do imaginário popular e, logo, era uma das obras independentes mais conhecidas do Brasil &#8211; e menos vistas, já que o público não possuía acesso sem a compra da fita.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Mesmo com a repercussão gigantesca de </span><a href="https://www.tudosobreseufilme.com.br/2020/05/felipe-m-guerra-entrevista.html"><i><span style="font-weight: 400;">Entrei em Pânico…</span></i></a><span style="font-weight: 400;">, que o custou R$ 250,00, Felipe confidencia que não gostava muito de sua produção. Agora, por conta do carinho da nova geração pela obra após o </span><i><span style="font-weight: 400;">Fantaspoa XVII</span></i><span style="font-weight: 400;">, ele aprecia um pouco mais seu terror-comédia gaúcho. </span><i><span style="font-weight: 400;">“Foi realmente inesperado. Eu jurava que o filme ia ser uma piada de mau-gosto”</span></i><span style="font-weight: 400;">, zomba o diretor, que se diz emocionado com o burburinho e conta que respondeu resenha por resenha na página do </span><i><span style="font-weight: 400;">Letterboxd</span></i><span style="font-weight: 400;"> da obra.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Após a reedição do longa de 2001, que ganhou o nome de </span><i><span style="font-weight: 400;">Redux</span></i><span style="font-weight: 400;">, muitos minutos do original foram cortados. </span><i><span style="font-weight: 400;">“O filme original era horrível. (&#8230;) Quando eu percebo, o filme tá com 70 minutos já e nem começou a morrer gente. Aí eu acelerei o restante, então nossa, era muito ruim aquilo”</span></i><span style="font-weight: 400;">, comenta </span><a href="https://escotilha.com.br/cinema-tv/espanto/entrevista-felipe-m-guerra/"><span style="font-weight: 400;">Guerra</span></a><span style="font-weight: 400;"> no meio de risadas, mas afirma que redescobriu sua obra depois desses vinte anos, relembrando cenas que foram retiradas e esquecidas na memória. Para Felipe, sua versão </span><i><span style="font-weight: 400;">Redux</span></i><span style="font-weight: 400;"> tem um quê de redenção, com um ritmo melhor depois da edição no computador e muita nostalgia em assistir seus amigos e família tão novinhos.</span></p>
<figure id="attachment_20525" aria-describedby="caption-attachment-20525" style="width: 1920px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="wp-image-20525 size-full" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/05/entrei-em-panico-ao-saber-o-que-voces-fizeram-na-sexta-feira-13-do-verao-passado_-_XVII_Festival_Internacional_de_Cinema_Fantastico_de_Porto_Alegre_-_FANTASPOA_2021_5.jpg" alt="Imagem promocional do filme Entrei em Pânico ao Saber o que Vocês Fizeram na Sexta-Feira 13 do Verão Passado. O assassino, com uma máscara branca esticada e roupa com capuz preto, está apoiado e segura uma faca com a mão esquerda e a cabeça de um boneco com a mão direita. Ao fundo, as paredes laranjas estampam CARLOS BARBOSA." width="1920" height="1280" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/05/entrei-em-panico-ao-saber-o-que-voces-fizeram-na-sexta-feira-13-do-verao-passado_-_XVII_Festival_Internacional_de_Cinema_Fantastico_de_Porto_Alegre_-_FANTASPOA_2021_5.jpg 1920w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/05/entrei-em-panico-ao-saber-o-que-voces-fizeram-na-sexta-feira-13-do-verao-passado_-_XVII_Festival_Internacional_de_Cinema_Fantastico_de_Porto_Alegre_-_FANTASPOA_2021_5-300x200.jpg 300w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/05/entrei-em-panico-ao-saber-o-que-voces-fizeram-na-sexta-feira-13-do-verao-passado_-_XVII_Festival_Internacional_de_Cinema_Fantastico_de_Porto_Alegre_-_FANTASPOA_2021_5-1024x683.jpg 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/05/entrei-em-panico-ao-saber-o-que-voces-fizeram-na-sexta-feira-13-do-verao-passado_-_XVII_Festival_Internacional_de_Cinema_Fantastico_de_Porto_Alegre_-_FANTASPOA_2021_5-768x512.jpg 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/05/entrei-em-panico-ao-saber-o-que-voces-fizeram-na-sexta-feira-13-do-verao-passado_-_XVII_Festival_Internacional_de_Cinema_Fantastico_de_Porto_Alegre_-_FANTASPOA_2021_5-1536x1024.jpg 1536w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/05/entrei-em-panico-ao-saber-o-que-voces-fizeram-na-sexta-feira-13-do-verao-passado_-_XVII_Festival_Internacional_de_Cinema_Fantastico_de_Porto_Alegre_-_FANTASPOA_2021_5-1200x800.jpg 1200w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 1362px) 62vw, 840px" /><figcaption id="caption-attachment-20525" class="wp-caption-text">O sangue da produção variava entre suco de groselha com Coca-Cola e tinta de carimbo, utilizada sem contar aos atores (Foto: Necrófilo Produções Artísticas)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">Depois que surgiu a franquia </span><i><span style="font-weight: 400;">Pânico</span></i><span style="font-weight: 400;"> nos anos 90, Felipe e seus amigos, acostumados com a violência dos </span><a href="https://www.tudosobreseufilme.com.br/2019/10/o-que-e-slasher.html"><i><span style="font-weight: 400;">slashers</span></i></a><span style="font-weight: 400;"> da década anterior, ficaram frustrados com o fato de haver pouco sangue na obra. </span><i><span style="font-weight: 400;">“Entrei em Pânico… surgiu dessa ideia: vamos brincar com Pânico, mas pegando esse espírito dos slashers dos anos 80”</span></i><span style="font-weight: 400;">. As referências são muitas, como o próprio vilão abrasileirado Geison, que homenageia </span><a href="https://darkside.blog.br/10-curiosidades-matadoras-sobre-jason-voorhees-e-sexta-feira-13/"><span style="font-weight: 400;">Jason Voorhees</span></a><span style="font-weight: 400;">, e o hilário </span><i><span style="font-weight: 400;">&#8220;Olá, Cinthia”</span></i><span style="font-weight: 400;"> no começo da trama.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Apesar do reconhecimento pela paródia de 2001, Guerra, que tem </span><a href="https://rollingstone.uol.com.br/noticia/6-filmes-para-conhecer-robert-rodriguez-amigo-de-tarantino-e-diretor-de-sharkboy-e-lavagirl-lista/"><span style="font-weight: 400;">Robert Rodriguez </span></a><span style="font-weight: 400;">como guru, é responsável por uma filmografia variada e criativa. Uma de suas estrelas é a avó de 90 anos, Dona Oldina do Monte, que protagoniza o documentário curta-metragem </span><a href="https://www.youtube.com/watch?v=8Cnycp9mBSU"><i><span style="font-weight: 400;">Dona Oldina &#8211; A Fernanda Montenegro Trash</span></i></a><span style="font-weight: 400;"> e </span><a href="https://vimeo.com/253031128"><i><span style="font-weight: 400;">Dona Oldina Vai às Compras</span></i></a><span style="font-weight: 400;">, curta mais recente do cineasta. Como uma vovó </span><i><span style="font-weight: 400;">fazedora </span></i><span style="font-weight: 400;">de tricô foi parar atuando nos filmes </span><a href="https://canaltech.com.br/entretenimento/melhores-filmes-trash-167903/"><i><span style="font-weight: 400;">trash</span></i></a><span style="font-weight: 400;"> do neto? Felipe conta que, em 1995, </span><i><span style="font-weight: 400;">O Quatrilho</span></i><span style="font-weight: 400;">, de Fábio Barreto, filmou algumas cenas na região onde a família morava, e Dona Oldina acabou conseguindo uma palinha como figurante. </span></p>
<p><i><span style="font-weight: 400;">“Ela já era uma estrela da Globo quando eu comecei a trabalhar com ela, mas foi contaminada por esse vício quando eu comecei a fazer meus próprios filmes”</span></i><span style="font-weight: 400;">, revela o diretor, com muito afeto pela avó. Dona Oldina sempre comenta que participar das aventuras nas telas a salvou da depressão, depois que o marido, avô de Felipe, morreu. Extremamente carismática na frente de uma câmera, Oldina ganhou uma sobrevida com os filmes e topa tudo pelo Cinema, inclusive possui um papel exclusivo em </span><a href="https://www.youtube.com/watch?fbclid=IwAR3qcFfEuixYqze5AUxwVUEPyu7mf4bxKW-6Nz5_Cgw7SdGix06q00MfHKQ&amp;v=Mt33hQWaUec&amp;feature=youtu.be"><i><span style="font-weight: 400;">Entrei em Pânico… parte 2</span></i></a><span style="font-weight: 400;">, disponível no </span><i><span style="font-weight: 400;">YouTube</span></i><span style="font-weight: 400;">.</span></p>
<figure id="attachment_20523" aria-describedby="caption-attachment-20523" style="width: 1366px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="wp-image-20523 size-full" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/05/Captura-de-Tela-40.png" alt="Cena do curta Dona Oldina Vai Às Compras. Dona Oldina está no centro da imagem, da região do peito para cima. Ela é uma senhora branca de 90 anos com cabelos na região do ombro, tam´bem brancos. Ela usa um suéter bege e uma blusa gola alta roxa. Ela olha para cima." width="1366" height="768" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/05/Captura-de-Tela-40.png 1366w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/05/Captura-de-Tela-40-300x169.png 300w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/05/Captura-de-Tela-40-1024x576.png 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/05/Captura-de-Tela-40-768x432.png 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/05/Captura-de-Tela-40-1200x675.png 1200w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 1362px) 62vw, 840px" /><figcaption id="caption-attachment-20523" class="wp-caption-text">Dona Oldina foi apelidada como “A Fernanda Montenegro dos pobres” (Foto: Necrófilos Produções Artísticas)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">Analisando a própria filmografia, </span><a href="https://filmow.com/felipe-m-guerra-a150009/"><span style="font-weight: 400;">Felipe M. Guerra</span></a><span style="font-weight: 400;"> conta o processo criativo por trás de </span><a href="https://www.youtube.com/watch?v=5Fn5p2JPVuo"><i><span style="font-weight: 400;">Blanket</span></i></a><span style="font-weight: 400;">, curta de 2014 com apenas 3 minutos. Ao lado da então namorada, atual esposa, Daniela, o gaúcho filmou sua obra em apenas meia hora no corredor sombrio do hotel em que estava hospedado. </span><i><span style="font-weight: 400;">“Eu gosto de citar o Blanket como um exemplo de que não há mais desculpas para você não fazer filme. (&#8230;) Se não ficar bom, você não gastou dinheiro”</span></i><span style="font-weight: 400;">, reforça o diretor, incentivando, sempre, o Cinema feito em casa &#8211; ao final de </span><i><span style="font-weight: 400;">Entrei em Pânico…</span></i><span style="font-weight: 400;">, a mensagem de que</span><i><span style="font-weight: 400;"> “fazer os próprios filmes é divertido”</span></i><span style="font-weight: 400;"> aparece na tela logo antes dos créditos.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Infelizmente, a produção de filmes de terror no Brasil é escassa e, muitas vezes, mal recebida. Com um público difícil, Felipe afirma que prefere fazer a mescla com a comédia, em um terror mais satírico a fim de atingir uma parcela maior. </span><i><span style="font-weight: 400;">“Eu sempre quis chegar num público maior, não só fãs de terror, mas filmes que minha mãe pudesse assistir, por exemplo”</span></i><span style="font-weight: 400;">. O objetivo, na visão do diretor, é conseguir se divertir, mesmo com um susto ou outro, já que o espectador brasileiro ainda possui muito preconceito com o próprio Cinema no geral. </span><i><span style="font-weight: 400;">“Tem público que acha muito esquisito ver gente falar português em filme de terror, e esse argumento é tolice, porque depois essa pessoa vai assistir o estrangeiro dublado”</span></i><span style="font-weight: 400;">, rebate Guerra.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">A situação ainda se agrava pela dificuldade de produzir e conseguir retorno pelas obras. Para o diretor, o principal problema hoje é como monetizar as produções, já que, com o fim iminente da mídia física, é mais complicado gerar algum dinheiro de filmes autofinanciados, até porque não se consegue colocá-los em plataformas de </span><i><span style="font-weight: 400;">streaming</span></i><span style="font-weight: 400;">. </span><i><span style="font-weight: 400;">“O amor ao Cinema vai até certo ponto, mas, depois que você gastou um monte do seu dinheiro nisso, já não dá mais”</span></i><span style="font-weight: 400;">, lamenta. Felipe vê muitos amigos e realizadores independentes desistindo da carreira, pois, além de não conseguirem incentivo dos raros editais que são disponibilizados, também não conseguem vender as obras. </span><i><span style="font-weight: 400;">“Uma hora você tem que pagar suas contas”</span></i><span style="font-weight: 400;">.</span></p>
<figure id="attachment_20524" aria-describedby="caption-attachment-20524" style="width: 1366px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="wp-image-20524 size-full" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/05/Captura-de-Tela-45.png" alt="Cena do curta Blanket. No fim de um corredor de paredes brancas, vemos uma figura em pé com um lençol branco cobrindo o corpo todo, parado de frente ao corredor. Nas paredes, vemos extintores de incêndio e kits de segurança." width="1366" height="768" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/05/Captura-de-Tela-45.png 1366w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/05/Captura-de-Tela-45-300x169.png 300w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/05/Captura-de-Tela-45-1024x576.png 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/05/Captura-de-Tela-45-768x432.png 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/05/Captura-de-Tela-45-1200x675.png 1200w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 1362px) 62vw, 840px" /><figcaption id="caption-attachment-20524" class="wp-caption-text">Felipe Guerra pagava seus filmes com o salário no Jornalismo, e hoje faz freelas para site internacionais (Foto: Necrófilos Produções Artísticas)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">Com tristeza, Felipe lamenta pelo tratamento indiferente que </span><a href="https://enciclopedia.itaucultural.org.br/pessoa204021/jose-mojica-marins"><span style="font-weight: 400;">José Mojica Marins</span></a><span style="font-weight: 400;">, o </span><a href="https://www1.folha.uol.com.br/ilustrada/2020/02/morre-o-cineasta-jose-mojica-marins-o-ze-do-caixao.shtml"><span style="font-weight: 400;">Zé do Caixão</span></a><span style="font-weight: 400;">, recebeu durante a vida. O Rei do Terror no Brasil, que ganhava dinheiro em bingos, só passou a ser reconhecido quando foi notado pelo </span><i><span style="font-weight: 400;">estrangeiro</span></i><span style="font-weight: 400;">. </span><i><span style="font-weight: 400;">“As pessoas lembravam dele como uma piada. Ele se tornou uma figura folclórica, mesmo sendo o cara que </span></i><a href="https://falauniversidades.com.br/legado-macabro-o-que-ze-do-caixao-deixou/"><i><span style="font-weight: 400;">introduziu o terror no Brasil</span></i></a><i><span style="font-weight: 400;">. Um pioneiro”</span></i><span style="font-weight: 400;">, afirma o cineasta, retomando as obras que passaram pelo </span><i><span style="font-weight: 400;">Fantaspoa XVII</span></i><span style="font-weight: 400;">, como </span><a href="https://www.youtube.com/watch?v=SJv66w4hPDU"><i><span style="font-weight: 400;">O Cemitério das Almas Perdidas</span></i></a><span style="font-weight: 400;">, de Rodrigo Aragão, e </span><a href="https://www.youtube.com/watch?v=XnSyO4VKBt0"><i><span style="font-weight: 400;">Dois Minutos Além do Infinito</span></i></a><span style="font-weight: 400;">, do japonês Junta Yamaguchi. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Finalizando a conversa, </span><a href="https://filmesparadoidos.blogspot.com/"><span style="font-weight: 400;">Felipe M. Guerra</span></a><span style="font-weight: 400;"> enfatiza que o papel do cinema independente é contar as histórias ignoradas pelo </span><i><span style="font-weight: 400;">mainstream</span></i><span style="font-weight: 400;">, pelo </span><i><span style="font-weight: 400;">Oscar</span></i><span style="font-weight: 400;"> e pelos cinemas de </span><i><span style="font-weight: 400;">shopping</span></i><span style="font-weight: 400;">. </span><i><span style="font-weight: 400;">“Eu fico me perguntando ‘como é que esse filme não estourou?’, mas ele não chega a um público maior”</span></i><span style="font-weight: 400;">, comenta o diretor, afirmando que gosta e acompanha produções </span><i><span style="font-weight: 400;">hollywoodianas</span></i><span style="font-weight: 400;"> também, mas só encontra a originalidade no cinema independente. </span><i><span style="font-weight: 400;">“Hoje, com a internet, o céu é o limite. Você tem um mundo de coisas para ver”</span></i><span style="font-weight: 400;">. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Em decorrência do sucesso de público, </span><i><span style="font-weight: 400;">Entrei em Pânico ao Saber o que Vocês Fizeram na Sexta-Feira 13 do Verão Passado</span></i><span style="font-weight: 400;"> ficou disponível por mais uma semana após o encerramento do </span><i><span style="font-weight: 400;">Fantaspoa XVII</span></i><span style="font-weight: 400;">.</span></p>
<p>&nbsp;</p>
<p><b>Quais são seus três filmes de terror favoritos?</b></p>
<p><b>Felipe:</b><i><span style="font-weight: 400;"> “Nossa, que pergunta difícil! (risos) Então vamos fazer assim, três filmes que eu gosto muito, tô sempre revendo e acho que todo ser humano deveria ver. O filme que me fez gostar de cinema de horror: Um Lobisomem Americano em Londres [1981]. É o modelo que eu sigo para meus filmes, ele é super terror quando tem que ser e é engraçado quando não precisa ser assustador. (&#8230;) Foi o primeiro filme de horror que eu vi quando era criança e me marcou muito. Depois, O Massacre da Serra Elétrica [1974], porque provavelmente foi uma das vezes que o cinema foi mais sujo, mais bárbaro, violento. No filme original, parece tudo verdade, que as pessoas tão morrendo mesmo. Parece um documentário. (&#8230;) E, para mim, o filme de terror perfeito O Enigma de Outro Mundo [1982], do John Carpenter. É um filme sobre isolamento, paranóia e tá super atual. Os efeitos, todos práticos, são muito bons, você assiste hoje e não diz que é um filme de 82. Esses três [filmes] são obrigatórios”. </span></i></p>
<p>&nbsp;</p>
<p><b>E três cineastas?</b></p>
<p><b>Felipe: </b><i><span style="font-weight: 400;">“Os meus três preferidos de todos os tempos são: [Quentin] Tarantino, gosto muito da maneira como ele resgata esses filmes antigos e faz muita gente mais novinha procurar sobre eles. Acho um serviço ao Cinema isso que ele faz (&#8230;); John Landis, porque é um cara que, pra mim, melhor soube dosar essa coisa do horror e da comédia. Pode procurar tudo dele porque ele é um diretor que só tem filme bom; e o terceiro, eu até diria que é meu preferido, é o Jesús Franco, um diretor alternativo, e ele fez mais de 200 filmes na vida dele. Um cara que fazia cinco, seis filmes por ano. Tem muita coisa péssima e muita coisa genial. Gosto tanto que é o nome do nosso gato. (risos) Ele me inspirou muito. Gosto dessa coisa de ser criativo e reciclar seu próprio material”. </span></i></p>
<p>&nbsp;</p>
<p><b>Quais são seus projetos futuros?</b></p>
<p><b>Felipe: </b><i><span style="font-weight: 400;">“Gostei muito da experiência, então quero reeditar o Canibais &amp; Solidão. Eu tenho documentários para editar, coisa que eu filmei no Fantaspoa. Um documentário sobre o Roger Corman, que eu mencionei. Também um documentário sobre mulheres realizadoras do cinema de horror, que a gente filmou em quatro anos a fio, com todas as mulheres que vinham ao Fantaspoa, a gente entrevistava. Então tem muito material, e estamos até pensando em transformar em uma série. Mas, filmar filmes novos eu não tenho planos pra tão cedo, por conta das dificuldades, envolve dinheiro, meus atores familiares e amigos estão desistindo dessa vida, porque perceberam que não vão ficar famosos. Mas uma coisa que eu queria fazer e, quem sabe, faça, é Entrei em Pânico parte 3. Seria um fechamento em ciclo, o primeiro foi filmado em vídeo, o segundo em vídeo digital e o terceiro eu queria fazer em full HD, porque ia mostrar todas as etapas do cinema independente brasileiro. Eu realmente queria fazer pela piada (&#8230;) Não sei se vou conseguir fazer, mas seria divertido”.</span></i></p>
<p>&nbsp;</p>
<p><span style="font-weight: 400;">Para acessar as obras de Felipe M. Guerra, clique </span><a href="https://www.facebook.com/permalink.php?story_fbid=3063353190370296&amp;id=179211905451120"><span style="font-weight: 400;">aqui</span></a><span style="font-weight: 400;">.</span></p>
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		<title>Persona Entrevista: Moara Passoni</title>
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		<pubDate>Wed, 25 Nov 2020 21:33:17 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Cinema]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>A cineasta, co-roteirista do comentado Democracia em Vertigem, fala sobre sua experiência com a anorexia que motivou Êxtase, seu primeiro longa-metragem e sobre a indicação ao Oscar 2020 Raquel Dutra Semana passada, estreamos uma novidade aqui no site: o Persona Entrevista. O quadro ainda tem o gostinho da nossa cobertura da 44ª Mostra Internacional de &#8230; <a href="http://personaunesp.com.br/entrevista-moara-passoni/" class="more-link">Continue lendo<span class="screen-reader-text"> "Persona Entrevista: Moara Passoni"</span></a></p>
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										<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: right;"><em><span style="font-weight: 400;">A cineasta, co-roteirista do comentado Democracia em Vertigem, fala sobre sua experiência com a anorexia que motivou Êxtase, seu primeiro longa-metragem e sobre a indicação ao Oscar 2020</span></em></p>
<figure id="attachment_16836" aria-describedby="caption-attachment-16836" style="width: 1024px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-full wp-image-16836" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2020/11/moara-texto.jpg" alt="" width="1024" height="538" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2020/11/moara-texto.jpg 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2020/11/moara-texto-300x158.jpg 300w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2020/11/moara-texto-768x404.jpg 768w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 1362px) 62vw, 840px" /><figcaption id="caption-attachment-16836" class="wp-caption-text">O Persona entrevista Moara Passoni, diretora de Êxtase e roteirista de Democracia em Vertigem (Foto: Reprodução)</figcaption></figure>
<p><strong>Raquel Dutra</strong></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Semana passada, </span><a href="https://personaunesp.com.br/entrevista-joao-paulo-miranda-maria/"><span style="font-weight: 400;">estreamos</span></a><span style="font-weight: 400;"> uma novidade aqui no </span><i><span style="font-weight: 400;">site</span></i><span style="font-weight: 400;">: o </span><a href="https://personaunesp.com.br/tag/persona-entrevista/"><span style="font-weight: 400;">Persona Entrevista</span></a><span style="font-weight: 400;">. O quadro ainda tem o gostinho da nossa cobertura da 44ª </span><a href="https://personaunesp.com.br/tag/mostra-internacional-de-cinema-em-sao-paulo/"><span style="font-weight: 400;">Mostra Internacional</span></a><span style="font-weight: 400;"> de Cinema em São Paulo porque traz para seu início conversas que tivemos com alguns diretores de filmes exibidos no festival. A abertura se deu com João Paulo Miranda Maria, diretor de </span><a href="https://personaunesp.com.br/casa-de-antiguidades-critica/"><i><span style="font-weight: 400;">Casa de Antiguidades</span></i></a><span style="font-weight: 400;">, filme que representou o Brasil no Festival de Cannes este ano. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Dessa vez, o Persona recebe Moara Passoni, roteirista de </span><a href="https://personaunesp.com.br/critica-democracia-em-vertigem/"><i><span style="font-weight: 400;">Democracia em Vertigem</span></i></a><span style="font-weight: 400;"> que, depois de nos representar entre os Melhores Documentários do </span><i><span style="font-weight: 400;">Oscar</span></i><span style="font-weight: 400;"> 2020, estreia na direção com </span><a href="https://personaunesp.com.br/extase-critica/"><i><span style="font-weight: 400;">Êxtase</span></i></a><span style="font-weight: 400;">, seu primeiro longa-metragem </span><a href="https://abraccine.org/2020/11/06/44a-mostra-internacional-de-cinema-de-sao-paulo/"><span style="font-weight: 400;">premiado</span></a><span style="font-weight: 400;"> pela Associação Brasileira de Críticos de Cinema (Abraccine) na Mostra SP deste ano. Ela conversou conosco sobre o longo processo de criação do filme que, brincando com a linha tênue existente entre a ficção e a realidade, atravessa a experiência da própria com a anorexia e dá voz a relatos de muitas outras mulheres que participaram de sua concepção compartilhando suas vivências.</span></p>
<p><span id="more-16835"></span></p>
<figure id="attachment_16837" aria-describedby="caption-attachment-16837" style="width: 1600px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="wp-image-16837 size-full" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2020/11/1e0ea6fb-a1f7-4293-b8cd-1a0b588bc79a.jpg" alt="" width="1600" height="1200" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2020/11/1e0ea6fb-a1f7-4293-b8cd-1a0b588bc79a.jpg 1600w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2020/11/1e0ea6fb-a1f7-4293-b8cd-1a0b588bc79a-300x225.jpg 300w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2020/11/1e0ea6fb-a1f7-4293-b8cd-1a0b588bc79a-1024x768.jpg 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2020/11/1e0ea6fb-a1f7-4293-b8cd-1a0b588bc79a-768x576.jpg 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2020/11/1e0ea6fb-a1f7-4293-b8cd-1a0b588bc79a-1536x1152.jpg 1536w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2020/11/1e0ea6fb-a1f7-4293-b8cd-1a0b588bc79a-1200x900.jpg 1200w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 1362px) 62vw, 840px" /><figcaption id="caption-attachment-16837" class="wp-caption-text"><span style="font-weight: 400;">“</span><span style="font-weight: 400;">Realizar o filme foi um movimento de abertura ao outro que me permitiu ressignificar o que parecia totalmente individual e específico do meu padecimento. Foi ao mesmo tempo mergulhar no que é singular de minha história, mas também me perguntar: onde, como, um sofrimento aparentemente tão individual e isolado, se conecta com o outro, com o mundo?” </span>(Foto: Moara Passoni)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">“</span><i><span style="font-weight: 400;">O cinema é uma arte coletiva</span></i><span style="font-weight: 400;">”, sublinha Moara Passoni, que por aproximadamente dez anos pensou e executou </span><i><span style="font-weight: 400;">Êxtase</span></i><span style="font-weight: 400;">, seu primeiro longa, junto de muitos colaboradores, os quais ela fez questão de nomear durante a entrevista. Curiosamente, o processo de desenvolvimento do filme é completamente oposto à forma como a anorexia, seu tema, se desenvolve em quem a sofre, que para a diretora, é num local de extrema solidão, narcisismo e apartamento entre a pessoa que padece do distúrbio e o mundo.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Por isso é que tudo de </span><i><span style="font-weight: 400;">Êxtase</span></i><span style="font-weight: 400;"> foi muito bem pensado e “<i>ruminado</i>”: “<i>eu não conseguia reconhecer o que eu havia vivido nos documentários e filmes sobre anorexia que tive acesso. Eles me pareciam apresentar uma visão externa do processo e, na maior parte das vezes, estigmatizada, espetacularizada, ou vitimizadora, que pouco ecoava minha experiência”.</i></span><span style="font-weight: 400;"> A diretora compartilha que</span><span style="font-weight: 400;"> uma de suas grandes inquietações era comunicar para quem estivesse ao seu redor o que estava acontecendo com ela e encontrar </span>pessoas abertas à de fato escutar o que estava acontecendo<span style="font-weight: 400;">, situação que se tornava</span> <i><span style="font-weight: 400;">“</span></i><em>torturante</em><span style="font-weight: 400;"><i>”</i></span> e parecia fazer com que ela mergulhasse cada vez mais no<i> <span style="font-weight: 400;">“</span>labirinto da anorexia</i><span style="font-weight: 400;"><i>”.</i></span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Seus objetivos eram tão claros quanto desafiadores: “</span><i><span style="font-weight: 400;">encontrar no cinema uma linguagem que desse conta de narrar essa experiência no cinema</span></i><span style="font-weight: 400;">” sem se transformar num “</span><i><span style="font-weight: 400;">filme de informação</span></i><span style="font-weight: 400;">” propriamente dito, mas incluindo conhecimento sobre esse tema tão importante de outras formas. Assim, Moara teve de empregar toda a sua experiência, que vai desde uma graduação em Ciências Sociais pela USP e em Comunicação das Artes do Corpo na PUC, passando por mestrados em documentário na Unicamp e FGV e doutorados incompletos em filosofia até chegar aos dias de hoje, em que a diretora </span><span style="font-weight: 400;">estuda roteiro e direção num mestrado prático da Universidade de Columbia em Nova York.</span></p>
<figure id="attachment_16838" aria-describedby="caption-attachment-16838" style="width: 1600px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="wp-image-16838 size-full" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2020/11/863d72a1-b2e0-4009-82de-9445ab7e5b6a.jpg" alt="" width="1600" height="898" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2020/11/863d72a1-b2e0-4009-82de-9445ab7e5b6a.jpg 1600w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2020/11/863d72a1-b2e0-4009-82de-9445ab7e5b6a-300x168.jpg 300w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2020/11/863d72a1-b2e0-4009-82de-9445ab7e5b6a-1024x575.jpg 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2020/11/863d72a1-b2e0-4009-82de-9445ab7e5b6a-768x431.jpg 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2020/11/863d72a1-b2e0-4009-82de-9445ab7e5b6a-1536x862.jpg 1536w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2020/11/863d72a1-b2e0-4009-82de-9445ab7e5b6a-1200x674.jpg 1200w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 1362px) 62vw, 840px" /><figcaption id="caption-attachment-16838" class="wp-caption-text">“Eu tentei muitas linguagens diferentes (&#8230;). Teve momento que eu achei que eu fosse fazer um documentário direto, pegar uma câmera e filmar garotas com anorexia, mas não chegava onde eu queria chegar, não era ali que ‘tava’ o nó da questão pra mim” (Foto: Moara Passoni)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">Desde suas concepções mais iniciais, o filme é realmente fruto de uma experiência coletiva, como conta a diretora: </span><span style="font-weight: 400;">“</span><i><span style="font-weight: 400;">Eu montei um grupo (&#8230;) e trazia ideias das cenas, das situações e dos espaços que eu tinha vivido, e a gente começava a mergulhar nesse universo da anorexia coletivamente. </span></i><span style="font-weight: 400;">Deste momento, Moara afirma que surgiu um primeiro filme, que não foi lançado porque não era exatamente o que ela desejava para comunicar as vivências da anorexia: </span><i><span style="font-weight: 400;">“Aquele era um filme em que o corpo era o grande centro ausente da narrativa. (…) Ele trazia espaços vazios e uma voz que narrava a experiência dessa personagem. No entanto, o que comecei a perceber é que era um filme muito mais sobre a “utopia” da anorexia, de eliminar o tempo e o corpo. Eu queria trazer uma outra dimensão que é tão fundamental quanto essa: o quão violento é você lutar para eliminar o corpo e transforma-lo em uma ideia, o quão violenta pode ser a divisão “corpo-mente” se você começa a levá-la ao pé da letra”.</span></i><span style="font-weight: 400;"> </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Principalmente, essa obra inicial manifestava um caráter “</span><span style="font-weight: 400;"><i>pacífico</i>” sobre a anorexia que Moara não desejava retratar. Ressaltando que </span><i><span style="font-weight: 400;">“a anorexia não é pacífica, porque tem uma luta brutal contra o próprio</span></i><span style="font-weight: 400;"> desejo”, </span><span style="font-weight: 400;">ela complementa a importância desse aspecto na construção do filme: “</span><i><span style="font-weight: 400;">Eu acho justamente que foi o desejo e a abertura pro outro que me salvou (&#8230;). Se eu não tivesse outro impulso do desejo eu acho que eu não haveria nem superado a anorexia.” </span></i><span style="font-weight: 400;">Assim, a decisão foi concebê-lo numa pulsão entre</span><i><span style="font-weight: 400;"> “o desejo e o controle, o delírio e a realidade</span></i><span style="font-weight: 400;">”.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Depois dessa experiência, ainda surgiu uma outra possibilidade junto de Petra Costa e a diretora de teatro Martha Kiss Perrone: </span><i><span style="font-weight: 400;">“Passamos cinco dias me filmando no presente, enquanto eu reconectava com as memórias e espaços daqueles dias. Por um lado foi extremamente potente poder colocar meu corpo na narrativa. Mas ao mesmo tempo, aquele me parecia um ‘um outro filme’, que talvez um dia eu realize (&#8230;) sobre a superação deste padecimento”, </span></i><span style="font-weight: 400;">compartilha a diretora</span><span style="font-weight: 400;">, ressaltando que neste primeiro momento era necessário</span><span style="font-weight: 400;"> abordar <i>“</i></span><i>a entrada e a turbulência da anorexia”</i><i>.</i></p>
<figure id="attachment_16841" aria-describedby="caption-attachment-16841" style="width: 2560px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-full wp-image-16841" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2020/11/ECSTASY_newframes_tratados-5-1-scaled.jpg" alt="" width="2560" height="1383" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2020/11/ECSTASY_newframes_tratados-5-1-scaled.jpg 2560w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2020/11/ECSTASY_newframes_tratados-5-1-300x162.jpg 300w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2020/11/ECSTASY_newframes_tratados-5-1-1024x553.jpg 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2020/11/ECSTASY_newframes_tratados-5-1-768x415.jpg 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2020/11/ECSTASY_newframes_tratados-5-1-1536x830.jpg 1536w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2020/11/ECSTASY_newframes_tratados-5-1-2048x1106.jpg 2048w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2020/11/ECSTASY_newframes_tratados-5-1-1200x648.jpg 1200w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 1362px) 62vw, 840px" /><figcaption id="caption-attachment-16841" class="wp-caption-text">Moara Passoni e a cineasta Petra Costa são colaboradoras de longa data, trabalhando juntas em <a href="https://personaunesp.com.br/elena-critica/">Elena</a> (2012), O Olmo e a Gaivota (2015), Democracia em Vertigem (2019) e agora em Êxtase, onde Costa é uma das produtoras (Foto: Reprodução)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">Todas as experimentações culminaram numa certeza sobre o que viria a ser o <i>Êxtase</i>: ela traria <i>“o corpo pro filme”</i>, ideia à qual a diretora resistiu muito, porque para ela, este seria um filme que iria, de certo modo, “contra” o distúrbio. Não era mais um filme <i>“pele-ossos-visão” &#8211;</i> o que ela denomina como a “utopia” da anorexia &#8211;<i>, “mas começava a ser um filme pele-ossos-visão-estômago-<wbr />vísceras, etc”</i>.  E de fato, adotando uma construção que contraria mais uma vez aspectos do próprio distúrbio é que Moara estabelece a narrativa de </span><i><span style="font-weight: 400;">Êxtase</span></i><span style="font-weight: 400;">, fazendo uso de todas as particularidades únicas do cinema. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Passoni enxerga que essas características singulares da sétima arte vêm de </span><i><span style="font-weight: 400;">“um lugar muito estranho de você poder olhar o outro como se fosse você, e realmente se transpor para a experiência dele (&#8230;) E poder se colocar no lugar do outro é poder de algum modo compreendê-lo, humanizá-lo”.</span></i><span style="font-weight: 400;"> A partir disso, a diretora trabalhou para colocar o espectador no ponto de vista de quem padece de anorexia,</span><i><span style="font-weight: 400;"> “inclusive em um mundo que vai se tornando cada vez mais claustrofóbico nesse processo</span></i><span style="font-weight: 400;">”.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Na hora de tratar da anorexia em si, a cineasta compartilha que seu o cuidado maior foi em “</span><i><span style="font-weight: 400;">não construir um espetáculo” </span></i><span style="font-weight: 400;">que, segundo ela, é muito fácil de surgir</span> <span style="font-weight: 400;">porque </span><i><span style="font-weight: 400;">“</span></i><i>a anorexia tem uma morbidez e uma violência que é muito atraente. E essa provocação do olhar, como diz Eric Bidau, parece ser constitutiva da própria anorexia. </i><i>Talvez por isso ela seja tão desafiadora. E talvez, por isso, ela seja também uma rebeldia contra os lugares de poder de nosso mundo</i>”. Assim, humanizar as experiências era algo muito importante, porque, como ela diz,<i> </i>só humanizando a gente é capaz de enxergar<i>.</i></p>
<figure id="attachment_16840" aria-describedby="caption-attachment-16840" style="width: 1600px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="wp-image-16840 size-full" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2020/11/85e32c0a-be1f-44ec-b74b-e232345d09c7.jpg" alt="" width="1600" height="1600" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2020/11/85e32c0a-be1f-44ec-b74b-e232345d09c7.jpg 1600w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2020/11/85e32c0a-be1f-44ec-b74b-e232345d09c7-300x300.jpg 300w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2020/11/85e32c0a-be1f-44ec-b74b-e232345d09c7-1024x1024.jpg 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2020/11/85e32c0a-be1f-44ec-b74b-e232345d09c7-150x150.jpg 150w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2020/11/85e32c0a-be1f-44ec-b74b-e232345d09c7-768x768.jpg 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2020/11/85e32c0a-be1f-44ec-b74b-e232345d09c7-1536x1536.jpg 1536w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2020/11/85e32c0a-be1f-44ec-b74b-e232345d09c7-1200x1200.jpg 1200w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 1362px) 62vw, 840px" /><figcaption id="caption-attachment-16840" class="wp-caption-text"><span style="font-weight: 400;">Com três documentários no currículo, a diretora divide suas impressões sobre o gênero: </span><i><span style="font-weight: 400;">“Documentário sempre é mais perturbado porque ele não tem uma linha de produção tão clara quando uma ficção, seguindo os padrões tradicionais de como se faz um filme (&#8230;). Nele, você vai pro mundo filmar” </span></i>(Foto: Moara Passoni)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">A questão definir </span><i><span style="font-weight: 400;">Êxtase </span></i><span style="font-weight: 400;">entre um documentário ou uma ficção não era uma preocupação. Toda a atenção de Passoni era direcionada à construção da linguagem e aos seus objetivos, e nisso, ela conta que “</span><i><span style="font-weight: 400;">A ficção fez parte quase de uma maneira orgânica porque justamente você vai entrando nesse delírio</span></i> <i><span style="font-weight: 400;">[da anorexia]</span></i><span style="font-weight: 400;">”. Tendo em vista que o filme </span><i><span style="font-weight: 400;">“não é um documentário ‘stricto sensu’, </span></i><span style="font-weight: 400;">a diretora tensiona os postulados do gênero ao entendê-lo como “</span><i><span style="font-weight: 400;">um processo de descoberta, de investigação desse imaginário”</span></i><span style="font-weight: 400;">.</span><i><span style="font-weight: 400;"> </span></i></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Mesmo nas fases finais, o processo não foi linear, e por conta do baixo orçamento, ela conta que a equipe não conseguiu filmar e editar o quanto gostaria. </span>“<i>A gente começou a chegar na forma final do filme usando imagens da internet para compor as cenas (&#8230;). Também começamos a encontrar a narrativa de uma maneira mais orgânica construindo o roteiro a partir da própria montagem, e</i><i> foi a partir destas experimentações na ilha de edição que saiu a versão final do nosso roteiro”. </i></p>
<p>Assim,<i> Êxtase</i> foi sendo construído concomitantemente, num processo de<i> “montar, escrever o roteiro, filmar, montar mais, reescrever o roteiro, fazer o desenho de som, filmar mais…”, </i>informa a diretora. Moara ainda ressalta a limitação de recursos, que muitas vezes forçava a equipe a encontrar soluções inusitadas e criativas para os impasses do filme.</p>
<figure id="attachment_16839" aria-describedby="caption-attachment-16839" style="width: 1437px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="wp-image-16839 size-full" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2020/11/image0.jpeg" alt="" width="1437" height="785" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2020/11/image0.jpeg 1437w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2020/11/image0-300x164.jpeg 300w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2020/11/image0-1024x559.jpeg 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2020/11/image0-768x420.jpeg 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2020/11/image0-1200x656.jpeg 1200w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 1362px) 62vw, 840px" /><figcaption id="caption-attachment-16839" class="wp-caption-text">“Me perguntava o quanto de universal essa experiência tinha, e comecei a descobrir que por mais misteriosa que ela pareça à primeira vista, em algo nela de de estranhamente familiar. E isso inquieta &#8211; quando não repele” (Foto: Moara Passoni)</figcaption></figure>
<p>Gentilmente abrindo suas suas memórias sobre o período em que viveu a anorexia, Moara compartilha o que sentia na época: “<i>É uma sensação de achar que você não pode contar com ninguém, então você se fecha. Nem do alimento você precisa mais. E esta sensação de não depender de nada, de ninguém, começa a te dar poder. É uma sensação bizarra de plenitude (…)”. </i></p>
<p>Para ela, a o distúrbio é perigoso porque desenvolve na pessoa a sensação de <i>“</i><i>não precisar mais nem do alimento para sobreviver, você começa a virar uma espécie de super heroína e começa a entrar no delírio de que não precisa trocar com o mundo, com o outro. Além disso, </i><i>inanição deixa os sentidos muito vivos. Por fim, você parece perder conexão com o corpo, com o mundo concreto</i>” e conclui que neste sentido, a anorexia se revela como uma experiência extremamente autoritária.</p>
<p>A diretora ainda divide outra lembrança profundamente pessoal sobre suas dificuldades convivendo com o distúrbio: “<i>A maior dor não era a anorexia, era sair da anorexia. Quando percebi o quanto os outros me assustavam, quando eu percebi que sentia fome mas não queria comer. Comer era admitir minha fraqueza, minha incompletude. E eu temia começar a comer e nunca mais parar. É como se, de repente, percebesse que tinha um buraco negro dentro de mim”. </i></p>
<p>Diante do apartamento do mundo que tirou dela a experiência da vida em sociedade e aspectos mais simples da nossa existência enquanto ser humano, ela relata que brotava o questionamento: “<i>o que eu faço com esse bando de gente? (…) Eu não sei quantas horas as pessoas dormem, eu não sei quando elas escovam os dentes, eu não sei quando elas conversam, eu não sei como elas fazem para lidar com a turbulência que o outro gera nelas, com o encanto que o outro gera nelas, eu não sei como elas fazem para lidar com o fato de que o outro não “obedece” nossas vontades e muitas vezes nos frustra, eu não sei como viver admitindo pra eu mesma que preciso do outro&#8230; como eu faço para voltar para esse mundo?</i>”.</p>
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<div style="display:block; height:50px; margin:0 auto 12px; width:50px;"><svg width="50px" height="50px" viewBox="0 0 60 60" version="1.1" xmlns="https://www.w3.org/2000/svg" xmlns:xlink="https://www.w3.org/1999/xlink"><g stroke="none" stroke-width="1" fill="none" fill-rule="evenodd"><g transform="translate(-511.000000, -20.000000)" fill="#000000"><g><path d="M556.869,30.41 C554.814,30.41 553.148,32.076 553.148,34.131 C553.148,36.186 554.814,37.852 556.869,37.852 C558.924,37.852 560.59,36.186 560.59,34.131 C560.59,32.076 558.924,30.41 556.869,30.41 M541,60.657 C535.114,60.657 530.342,55.887 530.342,50 C530.342,44.114 535.114,39.342 541,39.342 C546.887,39.342 551.658,44.114 551.658,50 C551.658,55.887 546.887,60.657 541,60.657 M541,33.886 C532.1,33.886 524.886,41.1 524.886,50 C524.886,58.899 532.1,66.113 541,66.113 C549.9,66.113 557.115,58.899 557.115,50 C557.115,41.1 549.9,33.886 541,33.886 M565.378,62.101 C565.244,65.022 564.756,66.606 564.346,67.663 C563.803,69.06 563.154,70.057 562.106,71.106 C561.058,72.155 560.06,72.803 558.662,73.347 C557.607,73.757 556.021,74.244 553.102,74.378 C549.944,74.521 548.997,74.552 541,74.552 C533.003,74.552 532.056,74.521 528.898,74.378 C525.979,74.244 524.393,73.757 523.338,73.347 C521.94,72.803 520.942,72.155 519.894,71.106 C518.846,70.057 518.197,69.06 517.654,67.663 C517.244,66.606 516.755,65.022 516.623,62.101 C516.479,58.943 516.448,57.996 516.448,50 C516.448,42.003 516.479,41.056 516.623,37.899 C516.755,34.978 517.244,33.391 517.654,32.338 C518.197,30.938 518.846,29.942 519.894,28.894 C520.942,27.846 521.94,27.196 523.338,26.654 C524.393,26.244 525.979,25.756 528.898,25.623 C532.057,25.479 533.004,25.448 541,25.448 C548.997,25.448 549.943,25.479 553.102,25.623 C556.021,25.756 557.607,26.244 558.662,26.654 C560.06,27.196 561.058,27.846 562.106,28.894 C563.154,29.942 563.803,30.938 564.346,32.338 C564.756,33.391 565.244,34.978 565.378,37.899 C565.522,41.056 565.552,42.003 565.552,50 C565.552,57.996 565.522,58.943 565.378,62.101 M570.82,37.631 C570.674,34.438 570.167,32.258 569.425,30.349 C568.659,28.377 567.633,26.702 565.965,25.035 C564.297,23.368 562.623,22.342 560.652,21.575 C558.743,20.834 556.562,20.326 553.369,20.18 C550.169,20.033 549.148,20 541,20 C532.853,20 531.831,20.033 528.631,20.18 C525.438,20.326 523.257,20.834 521.349,21.575 C519.376,22.342 517.703,23.368 516.035,25.035 C514.368,26.702 513.342,28.377 512.574,30.349 C511.834,32.258 511.326,34.438 511.181,37.631 C511.035,40.831 511,41.851 511,50 C511,58.147 511.035,59.17 511.181,62.369 C511.326,65.562 511.834,67.743 512.574,69.651 C513.342,71.625 514.368,73.296 516.035,74.965 C517.703,76.634 519.376,77.658 521.349,78.425 C523.257,79.167 525.438,79.673 528.631,79.82 C531.831,79.965 532.853,80.001 541,80.001 C549.148,80.001 550.169,79.965 553.369,79.82 C556.562,79.673 558.743,79.167 560.652,78.425 C562.623,77.658 564.297,76.634 565.965,74.965 C567.633,73.296 568.659,71.625 569.425,69.651 C570.167,67.743 570.674,65.562 570.82,62.369 C570.966,59.17 571,58.147 571,50 C571,41.851 570.966,40.831 570.82,37.631"></path></g></g></g></svg></div>
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<p style=" color:#c9c8cd; font-family:Arial,sans-serif; font-size:14px; line-height:17px; margin-bottom:0; margin-top:8px; overflow:hidden; padding:8px 0 7px; text-align:center; text-overflow:ellipsis; white-space:nowrap;"><a href="https://www.instagram.com/p/CGk5mjIH8kc/?utm_source=ig_embed&amp;utm_campaign=loading" style=" color:#c9c8cd; font-family:Arial,sans-serif; font-size:14px; font-style:normal; font-weight:normal; line-height:17px; text-decoration:none;" target="_blank">A post shared by Petra Costa (@petracostal)</a></p>
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</blockquote>
<p><script async src="//platform.instagram.com/en_US/embeds.js"></script></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Nessa profundidade, é possível notar um caráter universal das angústias e vivências de mulheres inseridas em sistemas patriarcais, que se manifestam de formas diferentes em cada uma de nós. Esse aspecto é visível especialmente quando Moara fala que era importante compreender o que as garotas “</span><i><span style="font-weight: 400;">ganham</span></i><span style="font-weight: 400;">” com a anorexia, porque, no caso dela, a questão não era findar sua vida, mas sim “</span><i><span style="font-weight: 400;">encontrar uma maneira de viver</span></i><span style="font-weight: 400;">”. Para ela, o distúrbio pode ser visto<i> “como um apaixonar-se pela ideia da beleza clássica, pela ideia cultural de perfeição, harmonia, e levar isso às suas últimas consequências”.</i></span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Encarando as reverberações do distúrbio profundamente, a diretora afirma que sua dimensão psicológica vai muito além da estética, indo em direção à uma “</span><i><span style="font-weight: 400;">paixão por um ideal”:</span></i><span style="font-weight: 400;"> “</span><i><span style="font-weight: 400;">não que eu queria ser ‘bonita’ (&#8230;) eu queria ser o belo (&#8230;). Só que o ideal do belo é inatingível. (&#8230;) E na anorexia era essa luta contra eu mesma, contra meu próprio corpo. Era eu tentando transformar tudo isso em uma grande ideia&#8230; Transcender a finitude do corpo”.</span></i></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Moara ainda relaciona essa experiência psicológica com o processo de criação de sua arte: “</span><i><span style="font-weight: 400;">O que eu realmente tive que lutar contra pra fazer o filme foi com o meu próprio narcisismo. Reconhecer “caramba, esse é meu filho e ele tem seus limites. Eu preciso parar de achar que ele tem que ser perfeito. Tenho de aprender a amá-lo em suas imperfeições, inclusive por conta delas&#8230;”.</span></i></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Ela ainda pontua que se</span><span style="font-weight: 400;"> tivesse </span><span style="font-weight: 400;">permanecido nesse jogo, nunca terminaria o filme e que por isso </span><span style="font-weight: 400;">uma de suas aprendizagens foi realmente ir contra a <i>“</i><em>violência, a tortura e a auto-destruição que</em></span><i><span style="font-weight: 400;"> narcisismo produz</span></i><span style="font-weight: 400;">”. Identificando mais uma vez relações entre a pessoalidade de suas experiências com cenários mais universais, ela reflete: “<em>acho que muitos artistas inclusive sentem essa tortura, porque vivemos atormentados, de um modo ou de outro, pela imperfeição do que criamos”. </em></span></p>
<figure id="attachment_16843" aria-describedby="caption-attachment-16843" style="width: 1600px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-full wp-image-16843" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2020/11/6680a355-7068-4cc3-a628-299873d21189-1.jpg" alt="" width="1600" height="1200" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2020/11/6680a355-7068-4cc3-a628-299873d21189-1.jpg 1600w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2020/11/6680a355-7068-4cc3-a628-299873d21189-1-300x225.jpg 300w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2020/11/6680a355-7068-4cc3-a628-299873d21189-1-1024x768.jpg 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2020/11/6680a355-7068-4cc3-a628-299873d21189-1-768x576.jpg 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2020/11/6680a355-7068-4cc3-a628-299873d21189-1-1536x1152.jpg 1536w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2020/11/6680a355-7068-4cc3-a628-299873d21189-1-1200x900.jpg 1200w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 1362px) 62vw, 840px" /><figcaption id="caption-attachment-16843" class="wp-caption-text">Dentre seus projetos futuros, Passoni escreve o roteiro de seu primeiro longa de ficção, que busca retratar mulheres da periferia de São Paulo que se tornaram líderes políticas nos anos 70 (Foto: Moara Passoni)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">E não teria como encerrar essa entrevista sem </span><span style="font-weight: 400;">perguntar c</span><span style="font-weight: 400;">omo a equipe de <em>Democracia em Vertigem</em> se sentiu representando o cinema brasileiro, que passa por <a href="https://www.brasildefato.com.br/2020/06/19/no-dia-do-cinema-brasileiro-a-comemoracao-da-lugar-a-resistencia">um momento tão complicado</a>, no Oscar ano passado. Moara responde: </span>“<i>Quando fomos nomeados ao Oscar, senti quase como se fosse uma vitória da democracia. Claro, era um filme brasileiro num lugar simbólico de legitimação e poder bastante importante, e a aceitação do filme nos EUA foi impressionante, inclusive, porque muita gente viu no processo democrático brasileiro semelhanças com o que está acontecendo em diversos lugares do mundo”.</i></p>
<p><span style="font-weight: 400;">A partir das suas experiências com cinema fora do país, Passoni relata: “</span><em>no geral, </em><i>eles sabem pouco sobre cinema brasileiro. Eles conhecem muito Cidade de Deus, Diários de uma Motocicleta, eventualmente Glauber, recentemente Bacurau (…). Mas é muito difícil eles saberem mais do que isso. Tragicamente, parece que não fazemos parte da geografia política e simbólica deles”. </i>Por conta desse distanciamento cultural é que levar a história do Brasil <i>“que poderia falar algo também para eles e sobre a democracia deles” </i>se tornou algo ainda mais desafiador e importante para a equipe do filme, como conta a cineasta.</p>
<p>Para o futuro, Moara também planeja o lançamento comercial de <em>Êxtase</em>, que no momento percorre festivais de cinema ao redor do mundo em exibições <em>on-line</em>. Os moldes pandêmicos inclusive tornam-se curiosamente irônicos quando pareados à própria experiência do filme e com as expectativas da diretora: <i>“O</i><em> filme veio ao mundo de uma forma virtual, e essa virtualidade fez parte da minha experiência com a anorexia. E quando eu achei que finalmente ia dar concretude e fisicalidade pra essa experiência na tela, tirando ela de dentro de mim, isso não aconteceu<i>” </i></em>brinca Passoni, levando com bom-humor os planos frustrados que todos encaramos em algum momento no ano da pandemia e almejando o lançamento que deve acontecer no segundo semestre de 2021.</p>
<p>O post <a href="http://personaunesp.com.br/entrevista-moara-passoni/">Persona Entrevista: Moara Passoni</a> apareceu primeiro em <a href="http://personaunesp.com.br">Persona | Jornalismo Cultural</a>.</p>
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		<title>Never Rarely Sometimes Always: com que frequência você encontra a violência?</title>
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		<pubDate>Tue, 13 Oct 2020 16:57:31 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p>Raquel Dutra “Violência é qualquer ação por meio da qual você trata o outro como objeto dos seus desejos, negando a ele elementos que chancelam sua própria condição de ser humano: sua liberdade, sua consciência, sua integridade, sua autoridade e emancipação sobre si mesmo&#8230;” disse mais ou menos assim minha professora de filosofia do ensino médio &#8230; <a href="http://personaunesp.com.br/never-rarely-sometimes-always-critica/" class="more-link">Continue lendo<span class="screen-reader-text"> "Never Rarely Sometimes Always: com que frequência você encontra a violência?"</span></a></p>
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										<content:encoded><![CDATA[<figure id="attachment_15942" aria-describedby="caption-attachment-15942" style="width: 1920px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-full wp-image-15942" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2020/10/imagem-do-poster.jpg" alt="" width="1920" height="1080" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2020/10/imagem-do-poster.jpg 1920w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2020/10/imagem-do-poster-300x169.jpg 300w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2020/10/imagem-do-poster-1024x576.jpg 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2020/10/imagem-do-poster-768x432.jpg 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2020/10/imagem-do-poster-1536x864.jpg 1536w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2020/10/imagem-do-poster-1200x675.jpg 1200w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 1362px) 62vw, 840px" /><figcaption id="caption-attachment-15942" class="wp-caption-text">“Queria falar sobre todas as barreiras estruturais que existem para impedir que as mulheres tenham autonomia sobre seus corpos” <a href="https://inews.co.uk/culture/eliza-hittman-film-never-rarely-sometimes-always-abortion-429949">disse Eliza Hittman</a>, diretora e roteirista do filme (Foto: Focus Features)</figcaption></figure>
<p><strong>Raquel Dutra</strong></p>
<p><span style="font-weight: 400;"><i>“</i></span><i><span style="font-weight: 400;">Violência é qualquer ação por meio da qual você trata o outro como objeto dos seus desejos, negando a ele elementos que chancelam sua própria condição de ser humano: sua liberdade, sua consciência, sua integridade, sua autoridade e emancipação sobre si mesmo&#8230;”</span></i><span style="font-weight: 400;"> disse mais ou menos assim minha professora de filosofia do ensino médio uma vez, apresentando uma definição pra esse termo que, às vezes de forma invisível, se faz quase onipresente na nossa realidade. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">E compartilho ela aqui &#8211; junto de uma memória profundamente pessoal &#8211; porque </span><a href="https://www.youtube.com/watch?v=I1H7QYmVH1I"><i><span style="font-weight: 400;">Never Rarely Sometimes Always</span></i></a><span style="font-weight: 400;"> (</span><i><span style="font-weight: 400;">Nunca Raramente Às Vezes Sempre</span></i><span style="font-weight: 400;">, numa tradução livre, assim mesmo sem pontuação) exemplifica perfeitamente essa definição. Além de apresentar uma narrativa sensível e (ainda) necessária sobre aborto e <a href="https://catarinas.info/direitos-reprodutivos-por-que-tanta-controversia/">direitos reprodutivos</a>, o filme é também um conto sobre violência, em suas mais diversas formas e em seus mais profundos impactos. </span></p>
<p><span id="more-15941"></span></p>
<figure id="attachment_15943" aria-describedby="caption-attachment-15943" style="width: 1600px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-full wp-image-15943" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2020/10/no-onibus.jpg" alt="" width="1600" height="741" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2020/10/no-onibus.jpg 1600w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2020/10/no-onibus-300x139.jpg 300w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2020/10/no-onibus-1024x474.jpg 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2020/10/no-onibus-768x356.jpg 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2020/10/no-onibus-1536x711.jpg 1536w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2020/10/no-onibus-1200x556.jpg 1200w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 1362px) 62vw, 840px" /><figcaption id="caption-attachment-15943" class="wp-caption-text">O longa estreou acumulando prêmios e indicações no Festival de Cinema de Sundance e no Festival Internacional de Cinema de Berlim (Foto: Focus Features)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">Aqui, a introvertida Autumn é o principal &#8211; e não o único &#8211; foco da violência, que já se manifesta de formas não-físicas nas primeiras cenas do filme. De início, tudo o que sabemos sobre a jovem interpretada pela estreante Sidney Flanigan é que ela tem dezessete anos, vive em um lar desajustado e está indesejadamente grávida. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Depois de descobrir a gestação, ela procura unidades de saúde do local onde mora, uma cidade pequena no interior da Pensilvânia, e manifesta seu desejo em abortar. A médica do local, que de início demonstrava compreensão e preocupação pela situação da adolescente, desaprova a decisão e Autumn percebe que não vai conseguir decidir sobre si mesma naquele contexto.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Conforme a gravidez avança, a jovem fica cada vez mais desconfortável e perdida. Aí é que sua prima, Skylar (</span><span style="font-weight: 400;">Talia Ryder), que trabalha junto com ela num supermercado da cidade,</span><span style="font-weight: 400;"> percebe que algo está acontecendo (e é a única a notar). Entendendo a situação, faz o que pode para ajudar e juntas elas embarcam em segredo com destino à cidade de Nova Iorque, onde a legislação é um pouco mais flexível, para realizar o procedimento e findar a gravidez de Autumn.</span></p>
<figure id="attachment_15944" aria-describedby="caption-attachment-15944" style="width: 2400px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-full wp-image-15944" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2020/10/sem-dormir.jpg" alt="" width="2400" height="1350" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2020/10/sem-dormir.jpg 2400w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2020/10/sem-dormir-300x169.jpg 300w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2020/10/sem-dormir-1024x576.jpg 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2020/10/sem-dormir-768x432.jpg 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2020/10/sem-dormir-1536x864.jpg 1536w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2020/10/sem-dormir-2048x1152.jpg 2048w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2020/10/sem-dormir-1200x675.jpg 1200w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 1362px) 62vw, 840px" /><figcaption id="caption-attachment-15944" class="wp-caption-text">Uma das responsáveis pela realização do filme é a produtora <a href="https://www.ft.com/content/f279e5f0-8f7d-11ea-bc44-dbf6756c871a">Pastel</a>, de Barry Jenkins e Adele Romanski (o diretor e uma das produtoras de <a href="http://personaunesp.com.br/moonlight-kendrick-lamar/">Moonlight: Sob a Luz do Luar</a>), cuja missão é “trazer para a tela narrativas raramente abordadas no cinema” (Foto: Focus Features)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">A trama “simples” é atravessada pelas implicações das diversas violências que as personagens sofrem. Explicitadas nos silêncios, elas acarretam em vários imprevistos que se tornam problemas cada vez maiores. Aos poucos, nós, do outro lado da tela, nos acostumamos com a dinâmica e se torna natural esperar pelo pior. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Tudo já começa em casa: sem qualquer tipo de suporte, atenção ou cuidado por parte de sua família, que sequer notam a gravidez, Skylar e Autumn têm de lidar com tudo sozinhas. Escola e amizades não são capazes de construir ambientes seguros e elas são constantemente assediadas no local de trabalho. Com as unidades de saúde, que depois Autumn descobre que ofereçam diagnósticos equivocados sobre o tempo da sua gravidez, ela também não pode contar.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Com essas circunstâncias de fundo, o filme silenciosamente escancara as violações que as jovens encontram: privação de direitos, de segurança material, de suporte emocional, de cuidados e de meios que confiram à elas integridade para exercerem sua autonomia enquanto seres humanos. Todas essas esferas são profundamente violadas por diversas instâncias da nossa sociedade: a família, a escola, religiosos, as legislações, aspectos financeiros, morais conservadoras, figuras carregadas de misoginia, patriarcalismo, sexismo&#8230; cada um à sua torturante maneira.</span></p>
<figure id="attachment_15945" aria-describedby="caption-attachment-15945" style="width: 1777px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-full wp-image-15945" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2020/10/skylar.jpeg" alt="" width="1777" height="953" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2020/10/skylar.jpeg 1777w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2020/10/skylar-300x161.jpeg 300w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2020/10/skylar-1024x549.jpeg 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2020/10/skylar-768x412.jpeg 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2020/10/skylar-1536x824.jpeg 1536w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2020/10/skylar-1200x644.jpeg 1200w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 1362px) 62vw, 840px" /><figcaption id="caption-attachment-15945" class="wp-caption-text">Uma das produtoras do longa revela que o “drama sobre aborto sem estrelas de cinema” <a href="https://www.screendaily.com/features/eliza-hittmans-eight-year-journey-to-make-never-rarely-sometimes-always/5149745.article">não foi um projeto fácil de financiar</a> (Foto: Focus Features)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">E para determinados grupos de pessoas, esse cenário de violações soa muito familiar. Tão ordinário que é completamente natural e compreensível que alguns assistam todo esse drama sem derrubar uma lágrima. Não por ausência de compaixão e identificação, mas porque é o nosso cotidiano pura e atentamente retratado. Coisas com as quais convivemos e assistimos pessoas próximas de nós enfrentarem todos os dias.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Esse efeito só é possível graças aos caminhos que Eliza Hittman (</span><i><span style="font-weight: 400;">Parece Amor e </span></i><a href="http://www.chovendosapos.com.br/2018/06/beach-rats.html"><i><span style="font-weight: 400;">Ratos de Praia</span></i></a><span style="font-weight: 400;">), diretora e roteirista do filme, escolhe para construir a narrativa. Entre cineastas que </span><a href="https://www.tabletmag.com/sections/news/articles/sometimes-a-misogynist-is-just-a-misogynist"><span style="font-weight: 400;">estabelecem seu prestígio sobre personagens femininas humilhadas</span></a><span style="font-weight: 400;"> e graficamente expostas à violência e outros que </span><a href="http://personaunesp.com.br/o-escandalo-critica/"><span style="font-weight: 400;">ousam suavizar nossas histórias</span></a><span style="font-weight: 400;">, Hittman não espetaculariza nem ameniza as violações às quais suas personagens são submetidas. Com um olhar profundo, ela expõe como elas se concretizam na realidade, quase sempre subjetivamente. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">A diretora aproveita também para criticar a própria </span><a href="https://www.theguardian.com/film/2020/may/16/womens-stories-are-seen-as-niche-eliza-hittman-on-her-timely-new-film-never-rarely-sometimes-always"><span style="font-weight: 400;">indústria que trata narrativas femininas como um nicho</span></a><span style="font-weight: 400;"> ao não colocar a jornada de Autumn e Skylar diante de nós para o nosso entretenimento. </span><i><span style="font-weight: 400;">Never Rarely Sometimes Always </span></i><span style="font-weight: 400;">não se explica, não se contextualiza, e não faz questão alguma de nos inteirar de acontecimentos anteriores ao seu início ou orientar nossa empatia pelas personagens. A gente pega o bonde andando, vai entendendo aos poucos algumas informações e outras simplesmente não entendemos. Apenas adentramos em sua atmosfera hostil e verossímil como cúmplices impotentes das duas adolescentes.</span></p>
<figure id="attachment_15947" aria-describedby="caption-attachment-15947" style="width: 1280px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-full wp-image-15947" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2020/10/religiosos.png" alt="" width="1280" height="720" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2020/10/religiosos.png 1280w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2020/10/religiosos-300x169.png 300w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2020/10/religiosos-1024x576.png 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2020/10/religiosos-768x432.png 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2020/10/religiosos-1200x675.png 1200w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 1362px) 62vw, 840px" /><figcaption id="caption-attachment-15947" class="wp-caption-text">Em um dado momento do filme assistimos um grupo de religiosos protestando em frente a uma clínica de aborto. De novo, <a href="https://brasil.elpais.com/brasil/2020-08-16/menina-de-10-anos-violentada-fara-aborto-legal-sob-alarde-de-conservadores-a-porta-do-hospital.html">um cenário muito familiar</a> (Foto: Focus Features)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">A nossa realidade cotidiana crua não fica só no plano da concepção e é criada também tecnicamente. Trilha e sonorização são quase inexistentes, os silêncios incômodos não são preenchidos e as câmeras raramente saem do campo de visão das adolescentes ou perdem elas de vista. Poucos personagens concretizam a desoladora sensação de solidão e desamparo que as garotas enfrentam. Cores frias e apáticas constroem imagens que poderosamente parecem lembranças esmaecidas, gerando aquela sensação de “</span><i><span style="font-weight: 400;">eu já vi isso acontecendo antes</span></i><span style="font-weight: 400;">”. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Usando estes suportes para mergulhar em sinceridade, Hittman não quer tornar atrativo nenhum aspecto do filme. É aqui também que a proposital ausência de qualquer contextualização e aprofundamento na pessoalidade das personagens faz todo o sentido. Ela simplesmente não é necessária. Ou você pesca as nuances se identificando com a realidade das garotas, que assim como nós estão sempre expostas às tais violências e por isso sempre alertas e tentando lidar com as consequências delas, ou não. Tudo é uma janela direta do nosso cotidiano, que vai ser compreendida de uma forma muito íntima e poderosa por algumas pessoas. Outras sequer repararão.</span></p>
<figure id="attachment_15948" aria-describedby="caption-attachment-15948" style="width: 2560px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-full wp-image-15948" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2020/10/sozinha-scaled.jpg" alt="" width="2560" height="1440" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2020/10/sozinha-scaled.jpg 2560w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2020/10/sozinha-300x169.jpg 300w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2020/10/sozinha-1024x576.jpg 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2020/10/sozinha-768x432.jpg 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2020/10/sozinha-1536x864.jpg 1536w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2020/10/sozinha-2048x1152.jpg 2048w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2020/10/sozinha-1200x675.jpg 1200w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 1362px) 62vw, 840px" /><figcaption id="caption-attachment-15948" class="wp-caption-text">O filme foi lançado comercialmente nos Estados Unidos em março deste ano, e no Brasil sua estreia foi prejudicada por conta do fechamento dos cinemas (Foto: Focus Features)</figcaption></figure>
<p><i><span style="font-weight: 400;">Never Rarely Sometimes Always</span></i><span style="font-weight: 400;"> também não faz questão alguma de saciar ou conservar curiosidades sobre a vida pessoal de Autumn. Capturando nossa própria indiscrição destrutiva, o filme grita nas entrelinhas que questões como a circunstância em que ela engravidou, de quem ela engravidou ou como ela engravidou simplesmente não importam. A decisão do aborto é algo que compete simplesmente à ela. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Por isso é que o longa também não se propõe a discutir o aborto, porque simplesmente não é algo a ser discutido. Não ali, em meio aquelas jovens mulheres. E não vai ser aqui, em meio à nós e dentro desse texto. Tomamos essa questão como algo já discutido, superado. A única opinião a respeito dele que importa é a de Autumn ou a da mulher que estiver diante da situação em que ele, por qualquer motivo, se faça uma opção. Ponto.</span></p>
<figure id="attachment_15949" aria-describedby="caption-attachment-15949" style="width: 1228px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-full wp-image-15949" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2020/10/perdidas.jpg" alt="" width="1228" height="674" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2020/10/perdidas.jpg 1228w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2020/10/perdidas-300x165.jpg 300w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2020/10/perdidas-1024x562.jpg 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2020/10/perdidas-768x422.jpg 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2020/10/perdidas-1200x659.jpg 1200w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 1362px) 62vw, 840px" /><figcaption id="caption-attachment-15949" class="wp-caption-text">Com <a href="https://www.huffpostbrasil.com/entry/oscar-2021_br_5f776ce6c5b64b480aad77a0">a temporada de lançamentos bagunçada</a> por conta da pandemia, a produção independente pode encontrar seu lugar no Oscar 2021 (Foto: Focus Features)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">Como se todos esses silenciosos socos no estômago não fossem o bastante, </span><i><span style="font-weight: 400;">Never Rarely Sometimes Always</span></i><span style="font-weight: 400;"> faz tudo o que faz sem ser o que esperamos de uma obra que trata sobre violência, muito menos sendo violento. É sim incisivo e forte aos olhos sensíveis à narrativa franca daquelas jovens, mas por todas as suas construções, também é gentil. Num equilíbrio perfeito de realidade crua e consolo, o longa trata de temas difíceis com uma sutileza ímpar e, talvez o mais importante, com respeito à quem o sofre &#8211; que só poderia surgir de uma pessoa que também o sofre.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Desse jeitinho é que </span><i><span style="font-weight: 400;">Never Rarely Sometimes Always</span></i><span style="font-weight: 400;"> triunfa com perfeição em seu cenário ordinário, que cria o ambiente exato para que nossa realidade violenta seja naturalmente escancarada. E o título curioso que parece desconexo se justifica na cena mais angustiante do filme, enquanto as lembranças mais doloridas da protagonista são remexidas sem qualquer pausa no cenário mais seguro em que ela esteve o filme todo. Neste momento, o gosto amargo de memórias difíceis também pode causar um nó na nossa garganta (portanto, se você já sofreu violência sexual e/ou foi marcada por algum aspecto da <a href="https://www.politize.com.br/violencia-de-genero-2/">violência de gênero</a>, vale o alerta: </span><em><a href="https://www.huffpostbrasil.com/entry/gatilho-violencia-sexual_br_5e8e5d69c5b6b371812b7a2f"><span style="font-weight: 400;">cuidado com os gatilhos</span></a></em><span style="font-weight: 400;">). </span></p>
<figure id="attachment_15950" aria-describedby="caption-attachment-15950" style="width: 1366px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-full wp-image-15950" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2020/10/dedinho.png" alt="" width="1366" height="710" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2020/10/dedinho.png 1366w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2020/10/dedinho-300x156.png 300w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2020/10/dedinho-1024x532.png 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2020/10/dedinho-768x399.png 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2020/10/dedinho-1200x624.png 1200w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 1362px) 62vw, 840px" /><figcaption id="caption-attachment-15950" class="wp-caption-text">Como disse o próprio Barry Jenkins, “as pessoas vão achar que sabem como vai ser a aparência e a sensação de um filme sobre esse assunto, mas Eliza é tão diferente que não eles não saberão” (Foto: Focus Features)</figcaption></figure>
<p>O impacto de <em>Never Rarely Sometimes Always</em> vai muito além de sua abordagem já acertada sobre gravidez na adolescência e aborto. Lembrando daquela definição, o filme demonstra perfeitamente que a violência não acontece somente pontual e visivelmente, mas também em suas <a href="https://www.institutomariadapenha.org.br/lei-11340/tipos-de-violencia.html">mais diversas, sutis e imagináveis formas</a>. Elas minam nossa condição de liberdade &#8211; e é por onde também minamos as dos outros -, integridade e consciência quase sempre subjetivamente e é aplicada como uma forma de exercer <a href="https://7seminario.furg.br/images/arquivo/236.pdf">controle e poder</a>. Na maior parte das vezes, elas não são produzidas por um indivíduo em especial, mas <a href="https://www.ces.uc.pt/observatorios/crisalt/index.php?id=6522&amp;id_lingua=1&amp;pag=7865">existem na própria construção da sociedade</a>. A partir disso, também se transformam em ciclos que sustentam opressões e que se retro-alimentam: uma origina e sustenta outra, que sustenta e origina outra, e assim por diante.</p>
<p><span style="font-weight: 400;">No fim, todas as construções do filme estão ali para relembrar outra verdade dura que indivíduos violentados têm de encarar: nessa realidade universalmente violenta, suas consequências nos perseguem onde quer que estejamos, obviamente nos espaços “propícios” e similares àqueles onde sofremos inicialmente, mas também permanecem nos ambientes mais seguros possíveis. E ainda que às vezes consigamos nos livrar parcial e momentaneamente delas, como Autumn faz no final esboçando uma reação genuinamente feliz pela primeira vez durante os 100 minutos de filme, sabemos, assim como ela, que enquanto nossa realidade for essa, algumas consequências, marcas e outras violências ainda estarão ali. Sempre.</span></p>
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