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	<title>Arquivos Chayse Irvin &#8211; Persona | Jornalismo Cultural</title>
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	<description>Desde 2015 provando que a distância entre Bergman, Lady Gaga e a novela das 9 nem existe.</description>
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		<title>Todos somos Criaturas do Senhor</title>
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		<pubDate>Wed, 26 Apr 2023 20:42:23 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p>Vitória Gomez A Irlanda tem sido palco de produções interessantes e diversas. Longe dos conflitos amistosos e de uma bela ambientação folclórica, ou até da sensibilidade tocante de uma tal menina silenciosa, a ilha também abriga as Criaturas do Senhor e seus lados sombrios e humanos. Na obra, produzida pela oscarizada A24, a decisão de &#8230; <a href="http://personaunesp.com.br/criaturas-do-senhor-critica/" class="more-link">Continue lendo<span class="screen-reader-text"> "Todos somos Criaturas do Senhor"</span></a></p>
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										<content:encoded><![CDATA[<figure id="attachment_30718" aria-describedby="caption-attachment-30718" style="width: 768px" class="wp-caption alignnone"><img fetchpriority="high" decoding="async" class="size-full wp-image-30718" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/04/criaturas-do-senhor-1.jpg" alt="" width="768" height="512" /><figcaption id="caption-attachment-30718" class="wp-caption-text">Criaturas do Senhor estreou no Festival de Cannes em 2022 e chegou nos cinemas brasileiros em abril, seis meses após o lançamento global (Foto: A24)</figcaption></figure>
<p><b>Vitória Gomez</b></p>
<p><span style="font-weight: 400;">A Irlanda tem sido palco de produções interessantes e diversas. Longe dos conflitos amistosos e de uma bela </span><a href="https://personaunesp.com.br/os-banshees-de-inisherin-critica/"><span style="font-weight: 400;">ambientação folclórica</span></a><span style="font-weight: 400;">, ou até da sensibilidade tocante de uma tal </span><a href="https://personaunesp.com.br/a-menina-silenciosa-critica/"><span style="font-weight: 400;">menina silenciosa</span></a><span style="font-weight: 400;">, a ilha também abriga as </span><i><span style="font-weight: 400;">Criaturas do Senhor </span></i><span style="font-weight: 400;">e seus lados sombrios e humanos. Na obra, produzida pela oscarizada </span><i><span style="font-weight: 400;">A24</span></i><span style="font-weight: 400;">, a decisão de uma mãe entre proteger seu filho ou deixá-lo aceitar as consequências de suas próprias ações norteiam um dilema sem volta, capaz de alterar a trajetória da cidade inteira e de um patriarcado atemporal.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Estrelado pelos indicados ao </span><a href="https://personaunesp.com.br/tag/oscar/"><i><span style="font-weight: 400;">Oscar</span></i></a> <span style="font-weight: 400;">Emily Watson e Paul Mescal, o filme demora a mostrar a que veio. Brian (Mescal) retorna ao lar, uma ilha não nomeada da Irlanda, depois de anos morando na Austrália. Sua partida é um mistério e seu retorno, mais ainda. Mesmo assim, o homem, na casa dos seus vinte e tantos anos, é bem recebido pela irmã Erin (Toni O’Rourke) e principalmente pela mãe, Aileen (Watson). O menino de ouro da mulher, porém, não é bem como ela o vê e, ao longo dos 100 minutos, se revela.</span></p>
<p><span id="more-30714"></span></p>
<figure id="attachment_30717" aria-describedby="caption-attachment-30717" style="width: 768px" class="wp-caption alignnone"><img decoding="async" class="size-full wp-image-30717" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/04/criaturas-do-senhor-3.jpg" alt="" width="768" height="432" /><figcaption id="caption-attachment-30717" class="wp-caption-text">Criaturas do Senhor é uma co-produção da A24, BBC Film e três produtoras regionais irlandesas (Foto: A24)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">Se a recepção do filho caçula é amarga pelo pai, interpretado por Declan Conlon, isso pouco importa diante da felicidade da mãe em reencontrá-lo. Para ela, o motivo pelo qual ele se foi é irrelevante, assomo como o porquê de ter voltado &#8211; ele </span><a href="https://personaunesp.com.br/belfast-critica/"><span style="font-weight: 400;">está em casa</span></a><span style="font-weight: 400;">. Ainda assim, a desconfiança prevalece, já que Brian supostamente retornou ao lar apenas para trabalhar na plantação de ostras do avô, Paddy, uma atividade à princípio monótona demais para segurar um jovem em uma cidade pacata. Com o patriarca em terceira geração já sem condições de saúde para tocar o negócio, a família assume a empresa.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Empresa essa que parece pautar o dia a dia de grande parte dos moradores da ilha. O local gira em torno do trabalho: enquanto os homens se dedicam à plantação e à pesca, as mulheres recebem, limpam, separam e comercializam as ostras. A divisão de tarefas é clara e sem mistérios, assim como a relação entre os gêneros nos âmbitos doméstico e social, mas a </span><a href="https://personaunesp.com.br/alcarras-critica/"><span style="font-weight: 400;">comunidade</span></a><span style="font-weight: 400;"> se mantém unida, próxima e sem questionar, como tipicamente acontece em locais pouco povoados.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">O retorno de Brian é o que vira a maré. O bom moço se revela não tão bom assim. Como seu pai e avô faziam antes dele, o personagem de Mescal usa as madrugadas para a pesca ilegal e a natureza parece notar o desequilíbrio: as ostras retornam mofadas, inúteis para serem vendidas, e os trabalhadores são liberados até segunda ordem. A unidade local pouco se abala e </span><a href="https://mubi.com/notebook/posts/cannes-correspondences-2-magic-is-in-the-air"><i><span style="font-weight: 400;">God’s Creatures</span></i></a> <span style="font-weight: 400;">(no original) soa tão maçante quanto a vida na ilha irlandesa.</span></p>
<figure id="attachment_30719" aria-describedby="caption-attachment-30719" style="width: 550px" class="wp-caption alignnone"><img decoding="async" class="size-full wp-image-30719" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/04/criaturas-do-senhor-2.jpg" alt="" width="550" height="309" /><figcaption id="caption-attachment-30719" class="wp-caption-text">Emily Watson acumula conquistas: a atriz britânica foi indicada ao Oscar duas vezes, por Ondas do Destino e Hilary e Jackie, e ao Emmy, como Melhor Atriz Coadjuvante em Minissérie ou Telefilme por Chernobyl (Foto: A24)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">Na direção, Anna Rose Holmer e Saela Davis, veteranas de colaboração, reconhecem a dupla de trunfos que protagoniza a obra e se contentam com eles. Apoiada nas atuações, a condução de </span><i><span style="font-weight: 400;">Criaturas do Senhor </span></i><span style="font-weight: 400;">abraça um ritmo tão lento e fatigante quanto o cotidiano da comunidade. Ao contrário de aura de mistério que evoca a curiosidade em </span><a href="https://www.youtube.com/watch?v=jfHnykLOjH4"><i><span style="font-weight: 400;">The Fits</span></i></a> <span style="font-weight: 400;">(drama dirigido por Holmer e co-roteirizado por Davis), a segunda parceria das cineastas só sai da apatia tarde, quando Aileen tem de escolher entre proteger o filho ou ver a justiça sendo feita.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Até então &#8211; e mesmo depois da longa uma hora até chegar ao ponto -, o que se destaca é o trabalho intenso de </span><a href="http://personaunesp.com.br/normal-people-critica/"><span style="font-weight: 400;">Mescal</span></a><span style="font-weight: 400;"> e Watson, juntamente com os departamentos de fotografia e som, que enriquecem a ambientação do longa e são os grandes responsáveis pela verdadeira aura tensa. Apesar da superficialidade inicial em adereçar as dúvidas que provoca, deixadas de lado até um longínquo terceiro ato, os cenários de solidão nos quais os personagens são filmados e a ferida em aberto que permeia a comunidade reforçam a desconfiança e a hostilidade.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Aqui, o roteiro escrito a quatro mãos por Fodhla Cronin O&#8217;Reilly e Shane Crowley pouco ajuda e dá o mínimo para os atores trabalharem: Brian é tão unidimensional que é difícil não julgá-lo como culpado, apesar de toda a cidade não vê-lo assim. A Paul Mescal fica a tarefa de enchê-lo de olhares vazios e choros desesperançosos, de quem abraça a realidade de um personagem fadado a indigno. Ao contrário de obras anteriores, em que pôde explorar as nuances das personalidades de seus papéis &#8211; desde um </span><a href="https://personaunesp.com.br/aftersun-critica/"><span style="font-weight: 400;">pai amoroso</span></a><span style="font-weight: 400;">, mas ausente a um </span><a href="https://personaunesp.com.br/sally-rooney-pessoas-normais-critica/"><span style="font-weight: 400;">estudante apaixonado</span></a><span style="font-weight: 400;">, mas sem rumo -, o irlandês conta com seu próprio repertório de profundidade para dar a Brian um retrato de desilusão e apatia que ecoa no vento e no silêncio da ilha.</span></p>
<figure id="attachment_30716" aria-describedby="caption-attachment-30716" style="width: 640px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-full wp-image-30716" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/04/criaturas-do-senhor-1.1.jpg" alt="" width="640" height="336" /><figcaption id="caption-attachment-30716" class="wp-caption-text">Indicado ao Emmy em 2020 por Pessoas Normais, Paul Mescal acumulou nomeações por Aftersun, incluindo o Critics Choice Awards, o BAFTA e o Oscar (Foto: A24)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">Mais do que o </span><a href="https://www.vanityfair.com/hollywood/2022/05/paul-mescal-interview-cannes-aftersun"><span style="font-weight: 400;">galã da </span><i><span style="font-weight: 400;">internet</span></i></a><span style="font-weight: 400;">, Emily Watson é quem brilha. Na pele da mãe, a atriz</span> <span style="font-weight: 400;">usa a quietude do roteiro e a lentidão da direção para mostrar seus dilemas. Mesmo com a alarmante chegada do filho, o cotidiano local só é timidamente abalado quando ele é acusado de estuprar Sarah (Aisling Franciosi), com quem já nutria uma relação anteriormente. Sem necessidade de discorrer a situação ou confirmar a culpa &#8211; uma escolha sábia da direção -, Aileen não hesita em fornecer o álibi para inocentar Brian, antes mesmo de saber pelo que ele era acusado.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Em diante, </span><i><span style="font-weight: 400;">Criaturas do Senhor </span></i><span style="font-weight: 400;">é todo de Watson: seus olhares perdidos são </span><a href="https://www.exibidor.com.br/noticias/mercado/11815-a24-a-produtora-que-virou-protagonista-dos-cinemas"><span style="font-weight: 400;">protagonistas</span></a><span style="font-weight: 400;"> e, suplicantes e cortantes, imploram ao filho que não tenha feito o que fez. Capitaneado pela interpretação inquietante e aflitiva da atriz, o processo de tomada de consciência engata o drama psicológico. Ela, uma mãe que tinha de escolher entre o sangue de seu sangue e o próprio senso de justiça e moral, passa a se mover de forma inerte na sociedade, como quem é apenas telespectadora do resultado das suas ações. Jogada aos cantos, habitando as arestas da câmera de Chayse Irvin, Aileen carrega o conflito em si.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Se a direção e o roteiro guardam as cartas nas mangas apenas para o final, a fotografia de Irvin não espera um segundo para mostrar a que veio. As lentes do cinegrafista é que fazem o trabalho simbólico, encarando os olhares desviados de Aileen e percebendo as </span><a href="https://personaunesp.com.br/close-critica/"><span style="font-weight: 400;">sutilezas</span></a><span style="font-weight: 400;"> de um suspeito Brian desde o início. O carisma negativo do moço é amenizado com os focos atenciosos da câmera, como em momentos em que interage com o avô doente. Aliado às imagens, o departamento de som escala a tensão e as nuances da narrativa nos uivos do vento, nas ondas do mar e nos ruídos das ostras batendo umas contras as outras em um galpão sem vida. À beira mar, as </span><i><span style="font-weight: 400;">Criaturas do Senhor </span></i><span style="font-weight: 400;">estão imersas nos silêncio e no barulho de si mesmas.</span></p>
<figure id="attachment_30715" aria-describedby="caption-attachment-30715" style="width: 720px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-full wp-image-30715" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/04/craituras-4.webp" alt="" width="720" height="360" /><figcaption id="caption-attachment-30715" class="wp-caption-text">O veterano Lalor Roddy é quem interpreta Paddy, o avô da história: o ator, que participou do vencedor do Oscar Belfast, é um símbolo local de patriarcado e estagnação (Foto: A24)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">Ainda que inicialmente possa parecer sem rumo, </span><i><span style="font-weight: 400;">Criaturas do Senhor </span></i><span style="font-weight: 400;">apresenta um estudo de personagens conflituosos e humanos em seus </span><a href="https://personaunesp.com.br/wolfwalkers-critica/"><span style="font-weight: 400;">contextos sociais</span></a><span style="font-weight: 400;">. Para além disso, estuda os sentimentos mais íntimos e até sombrios de uma mãe em proteção ao seu filho. Até que ponto Aileen iria para defendê-lo? De outro lado, até que ponto iria para fazer da própria consciência um lugar mais tranquilo e habitável, depois da sua decisão?</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Como produção da </span><i><span style="font-weight: 400;">A24 </span></i><span style="font-weight: 400;">&#8211; atualmente, um selo impossível de ser ignorado e majoritariamente sinônimo de unicidade e visão autoral &#8211; , o longa-metragem, porém, faz menos do que pode: ao invés de aproveitar a liberdade criativa concedida pela distribuidora e as interpretações ferozes e profundas de suas </span><a href="https://www.indiewire.com/2023/03/paul-mescal-wants-to-keep-making-indie-films-1234815921/"><span style="font-weight: 400;">estrelas independentes</span></a><span style="font-weight: 400;">, as criaturas só fazem o seu melhor nas situações em que são colocadas. Por fim, com Brian aceitando seu destino e Aileen dividida entre seguir a vida e reparar suas escolhas, quem cresce é Sarah, isolada e deixada de fora. Se </span><i><span style="font-weight: 400;">Criaturas do Senhor </span></i><span style="font-weight: 400;">morre na praia, a moça, assim como o telespectador, dirige para longe ao som de trilhas mais positivas. Afinal, “</span><i><span style="font-weight: 400;">somos todos Criaturas do Senhor</span></i><span style="font-weight: 400;">”.</span></p>
<div class="jetpack-video-wrapper"><iframe loading="lazy" title="God’s Creatures | Official Trailer HD | A24" width="840" height="473" src="https://www.youtube.com/embed/fyOk1QVDlsI?feature=oembed" frameborder="0" allow="accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share" referrerpolicy="strict-origin-when-cross-origin" allowfullscreen></iframe></div>
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		<title>O visual deslumbrante e vazio não salva Blonde do sadismo de Andrew Dominik</title>
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		<pubDate>Fri, 03 Mar 2023 18:33:26 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p>Alerta de gatilho: abuso, violência doméstica, estupro, aborto, suicídio.  Giovanna Freisinger Blonde, produção que reimagina a história de Marilyn Monroe, proporcionou a Ana de Armas sua primeira indicação ao Oscar. Concorrendo pelo título de Melhor Atriz por sua interpretação da personagem, ela desponta como forte candidata ao prêmio. Apesar da citação não vir como uma &#8230; <a href="http://personaunesp.com.br/blonde-critica/" class="more-link">Continue lendo<span class="screen-reader-text"> "O visual deslumbrante e vazio não salva Blonde do sadismo de Andrew Dominik"</span></a></p>
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]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: right;"><em><span style="font-weight: 400;">Alerta de gatilho: abuso, violência doméstica, estupro, aborto, suicídio. </span></em></p>
<figure id="attachment_30096" aria-describedby="caption-attachment-30096" style="width: 967px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-full wp-image-30096" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/03/Img-1.jpg" alt="Cena do filme Blonde. A imagem mostra as costas da personagem Marilyn Monroe com a parte de baixo de seu vestido levantada, em uma interpretação de sua icônica cena no filme O Pecado Mora ao Lado. Imagem em preto e branco. " width="967" height="544" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/03/Img-1.jpg 967w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/03/Img-1-800x450.jpg 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/03/Img-1-768x432.jpg 768w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 1362px) 62vw, 840px" /><figcaption id="caption-attachment-30096" class="wp-caption-text">Em Blonde, a primeira cena sugere qual será a abordagem de Marilyn Monroe, que o levou ao Oscar (Foto: Netflix)</figcaption></figure>
<p><b>Giovanna Freisinger</b></p>
<p><a href="https://www.omelete.com.br/filmes/blonde-ana-de-armas-trailer-netflix-marilyn"><i><span style="font-weight: 400;">Blonde</span></i></a><span style="font-weight: 400;">, produção que reimagina a história de Marilyn Monroe, proporcionou a Ana de Armas sua primeira indicação ao </span><a href="https://personaunesp.com.br/tag/oscar/"><i><span style="font-weight: 400;">Oscar</span></i></a><span style="font-weight: 400;">. Concorrendo pelo título de Melhor Atriz por sua interpretação da personagem, ela desponta como forte candidata ao prêmio. Apesar da citação não vir como uma surpresa, após indicações em outras premiações importantes, como o </span><a href="https://personaunesp.com.br/tag/globo-de-ouro/"><span style="font-weight: 400;">Globo de Ouro</span></a><span style="font-weight: 400;">, o </span><a href="https://www.omelete.com.br/filmes/indicados-sag-awards-2023-lista-completa"><i><span style="font-weight: 400;">SAG Awards</span></i></a><span style="font-weight: 400;"> e o </span><a href="https://www.omelete.com.br/filmes/bafta-2023-indicados"><i><span style="font-weight: 400;">BAFTA</span></i></a><span style="font-weight: 400;">, as respostas do público à essa nomeação foram divididas. Isso não em relação ao merecimento da atriz por sua performance, mas à inclusão do filme na premiação em primeiro lugar, cedendo visibilidade e prestígio à obra, que, para muitos, faria melhor ao mundo sendo esquecida.</span></p>
<p><span id="more-30092"></span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">60 anos após sua morte, o nome e a imagem de Marilyn Monroe ainda são distorcidos a fim de se encaixarem na fantasia de terceiros. Há uma noção sobre a qual essas pessoas se apoiam, de que elas têm esse direito, como se, por ter sido uma figura muito pública, a identidade de Marilyn estivesse disponível para quem quiser projetar seus desejos e crenças sobre ela. </span><a href="https://mubi.com/pt/cast/andrew-dominik"><span style="font-weight: 400;">Andrew Dominik</span></a><span style="font-weight: 400;">, diretor e roteirista de </span><i><span style="font-weight: 400;">Blonde</span></i><span style="font-weight: 400;">, se provou uma dessas pessoas, demonstrando que, mesmo após pesquisar extensivamente sobre a vida da atriz, não nutre respeito algum pela sua história e identidade, ao fazer um filme de péssimo gosto, emprestando sua relevância cultural.</span></p>
<p><i><span style="font-weight: 400;">Blonde </span></i><span style="font-weight: 400;">não é mais um filme biográfico. É uma história de ficção, baseada no </span><a href="https://aventurasnahistoria.uol.com.br/noticias/sem-categoria/blonde-conheca-os-livros-que-inspiraram-o-filme-sobre-marilyn-monroe.phtml"><span style="font-weight: 400;">livro de mesmo nome</span></a><span style="font-weight: 400;">, escrito por </span><a href="https://www1.folha.uol.com.br/ilustrada/2022/05/joyce-carol-oates-triunfa-ao-narrar-destruicao-de-lacos-familiares.shtml"><span style="font-weight: 400;">Joyce Carol Oates</span></a><span style="font-weight: 400;"> e publicado em 2000. A história aproveita aspectos da vida real de Monroe e a visão do público sobre ela para discutir questões psicológicas e sociais mais abrangentes. Sob esse pretexto, Dominik direciona a narrativa para servir suas intenções questionáveis. A familiarização prévia da audiência com a personagem o permite explorar apenas os aspectos mais sombrios da biografia (como uma compilação de seus piores momentos), sem oferecer contexto ou contraste com as demais partes da vida dela. O livro original tem 738 páginas, das quais muitos aspectos, reais e fictícios, foram descartados na seleção do autor do que achava relevante contar em sua obra.</span></p>
<figure id="attachment_30097" aria-describedby="caption-attachment-30097" style="width: 967px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-full wp-image-30097" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/03/Img-2.jpg" alt="Cena do filme Blonde. Marilyn de costas, do tronco para cima, olhando para trás por cima do ombro e sorrindo. Em seu vestido branco para O Pecado Mora ao Lado. Foto em preto e branco" width="967" height="725" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/03/Img-2.jpg 967w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/03/Img-2-800x600.jpg 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/03/Img-2-768x576.jpg 768w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 1362px) 62vw, 840px" /><figcaption id="caption-attachment-30097" class="wp-caption-text">Ana de Armas entrega a performance de sua carreira a uma personagem dramática, mas sem dimensões (Foto: Netflix)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">O problema de </span><i><span style="font-weight: 400;">Blonde</span></i><span style="font-weight: 400;"> não está na ficção, mas em nenhum dos trechos inventados servir para elevar a personagem ou a narrativa além de uma representação extremamente redutora de uma mulher icônica. As cenas são resumidas à sexualização e à </span><a href="https://www.youtube.com/watch?v=cwaCDRwHp8k"><span style="font-weight: 400;">tortura</span></a><span style="font-weight: 400;"> da protagonista, muitas vezes com essas se sobrepondo, deixando a audiência desconfortável durante toda a duração do filme, sem entregar compensação nenhuma alheia ao valor de choque. Durante todo o longa, o esforço aplicado transparece para que o espectador sinta algo. Esforço esse que não encontra resultados satisfatórios perante à abordagem rasa tomada. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Com menos de 20 minutos, temos a primeira cena de abuso sexual. Ao realizar um teste de elenco, Monroe é estuprada por Sr. Z (</span><span style="font-weight: 400;">David Warshofsky)</span><span style="font-weight: 400;">,</span><span style="font-weight: 400;"> personagem que faz referência implícita a </span><a href="https://deadline.com/2017/10/will-academy-weinstein-meeting-be-haunted-by-zanuck-ghost-1202188246/"><span style="font-weight: 400;">Darryl F. Zanuck</span></a><span style="font-weight: 400;">, então chefe da </span><i><span style="font-weight: 400;">Fox</span></i><span style="font-weight: 400;">, emissora em que conseguiu seu primeiro emprego. </span><span style="font-weight: 400;">Zanuck é, hoje, conhecidamente um agressor sexual, que violou muitas atrizes que trabalhavam para sua companhia. No entanto, não há qualquer registro de que esse tenha sido o caso de Marilyn &#8211; nem com ele, nem com qualquer outro produtor. O que há, na verdade, são diversos registros da atriz prestando um papel essencial na luta contra o </span><a href="https://observatoriodocinema.uol.com.br/famosos/2018/08/marilyn-monroe-lutou-contra-o-teste-do-sofa-em-hollywood"><span style="font-weight: 400;">teste do sofá</span></a><span style="font-weight: 400;">, prática, infelizmente, típica para a década de 50.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">A partir daí, a narrativa se modela com base nos relacionamentos da protagonista. O </span><a href="https://epipoca.com.br/blonde-chaplin-jr-e-eddy-tiveram-mesmo-um-caso-com-marilyn-monroe/"><span style="font-weight: 400;">trisal</span></a><span style="font-weight: 400;"> formado com Charlie Chaplin Jr. (Xavier Samuel) e Edward G. Robinson Jr. (Evan Williams), apesar de completamente fictício, parece apresentar um escape para a personagem, como uma forma de atribuir mais controle a ela sobre o que quer. A relação é apresentada a partir da ideia de que eles são os únicos que a veem por quem ela é, a Norma Jeane por trás do mito da Marilyn Monroe e, em retorno, ela os vê apesar do estigma de seus pais famosos. Essa talvez seja a concepção mais interessante do roteiro, mas promete algo que não entrega. O breve tempo do relacionamento na tela não é expandido para muito além das </span><a href="https://www.metroworldnews.com.br/entretenimento/2022/09/15/cenas-de-sexo-explicito-em-blonde-deixam-ate-a-critica-em-choque/"><span style="font-weight: 400;">cenas de sexo</span></a><span style="font-weight: 400;">, privando a audiência dessas facetas além da fama.</span></p>
<figure id="attachment_30098" aria-describedby="caption-attachment-30098" style="width: 967px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-full wp-image-30098" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/03/Img-8.jpg" alt="Cena do filme Blonde. Da esquerda para a direita: Edward G. Robinson Jr, Marilyn Monroe e Charlie Chaplin Jr. Edward segura o rosto de Marilyn a sua frente enquanto eles se olham e Charlie está por trás dela seu rosto encostado no cabelo dela" width="967" height="725" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/03/Img-8.jpg 967w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/03/Img-8-800x600.jpg 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/03/Img-8-768x576.jpg 768w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 1362px) 62vw, 840px" /><figcaption id="caption-attachment-30098" class="wp-caption-text">Dominik mostra, de maneira vergonhosa, o quão preso está ao corpo de Marilyn, capaz de ignorar por completo sua mente, mesmo declarando ser esse o foco de sua produção (Foto: Netflix)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">A violência doméstica mostrada em seu casamento com o jogador de beisebol </span><a href="https://www.mercurynews.com/2022/09/30/joe-dimaggio-is-lovestruck-controlling-and-abusive-in-new-marilyn-monroe-biopic/"><span style="font-weight: 400;">Joe DiMaggio</span></a><span style="font-weight: 400;"> (Bobby Cannavale) realmente corresponde aos acontecimentos da vida real, mas, ainda assim, é impossível ignorar a fetichização da mulher fragilizada nessas cenas, o que torna essa abordagem do tema difícil de engolir. Mais adiante, sua famosa relação com o então presidente John F. Kennedy (Caspar Phillipson) é abordada brevemente, representada de forma fria e violenta, enquanto, fora da ficção, não há qualquer relato de o </span><a href="https://aventurasnahistoria.uol.com.br/noticias/reportagem/o-que-e-verdade-sobre-o-relacionamento-entre-marilyn-monroe-e-john-f-kennedy.phtml"><span style="font-weight: 400;">contato</span></a><span style="font-weight: 400;"> tenha sido abusivo ou não consensual, e esse nem é um rumor comum, o que faz a interpretação parecer, mais uma vez, as mãos de Dominik sobre ela. Ver o filme culpá-la por seu destino e retirar suas escolhas, ao mesmo tempo, é no mínimo estranho.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Além da violência de seus relacionamentos e os contrapontos da fama, uma das principais questões que permeiam </span><i><span style="font-weight: 400;">Blonde</span></i><span style="font-weight: 400;"> é a maternidade e, como se pode imaginar, a abordagem soa terrível vindo do roteiro de um homem. A personagem passa por três abortos, todos acompanhados de sequências aterrorizantes. Os dois não espontâneos foram forçados a ela por terceiros, a colocando perante a violação das suas vontades e do seu corpo. O espontâneo é antecipado por uma simulação do feto em CGI, com um diálogo telepático bizarro que a coloca em uma espiral de culpa, diante de uma propaganda, não tão bem velada, </span><a href="https://www.vanityfair.com/hollywood/2022/10/blonde-contributes-to-anti-abortion-propaganda-says-planned-parenthood"><span style="font-weight: 400;">anti-aborto</span></a><span style="font-weight: 400;">.</span></p>
<figure id="attachment_30095" aria-describedby="caption-attachment-30095" style="width: 1438px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-full wp-image-30095" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/03/Img-10.jpg" alt="Cena do filme Blonde. Representação virtual de um feto dentro da barriga. Tronco, mãos e rosto do feto no plano." width="1438" height="1079" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/03/Img-10.jpg 1438w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/03/Img-10-800x600.jpg 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/03/Img-10-1024x768.jpg 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/03/Img-10-768x576.jpg 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/03/Img-10-1200x900.jpg 1200w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 1362px) 62vw, 840px" /><figcaption id="caption-attachment-30095" class="wp-caption-text">Durante sua vida, Marilyn sofreu pelo menos dois abortos espontaneos e uma gravidez ectópica, possivelmente por conta de sua batalha contra a endometriose; não há qualquer registro de aborto voluntário (Foto: Netflix)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">A frequência e a intensidade das cenas com o teor apelativo e violento tornam o filme, supostamente sobre os danos experienciados por um </span><a href="https://firstcuriosity.com/news/how-did-marilyn-monroe-become-the-ultimate-sex-symbol-did-she-like-the-title/#:~:text=She%20was%20an%20American%20actress,of%20the%20era's%20sexual%20revolution."><i><span style="font-weight: 400;">sex symbol</span></i></a><span style="font-weight: 400;"> em Hollywood e a psique humana, no condescendente rebaixamento de uma mulher notória, sob uma visão moralista de que sua queda é decorrência de sua promiscuidade, que arruina sua vida e seus relacionamentos. Somos, enquanto audiência, convidados a assisti-la sofrer e a alimentar essa fantasia de punição. Para um projeto que conversa com o modo como a indústria tratou a protagonista, falta autoconsciência. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Diante dessas circunstâncias, perdemos qualquer aspecto de quem foi Marilyn Monroe além de seu rosto, seu corpo e seus traumas. Ela foi a mulher mais importante de Hollywood da sua época, </span><a href="https://www.opovo.com.br/vidaearte/2022/09/24/entenda-como-marilyn-monroe-se-tornou-um-icone-da-cultura.html"><span style="font-weight: 400;">senão de todos os tempos</span></a><span style="font-weight: 400;">, e não graças a seu rosto bonito (como sempre existiram milhares), mas ao seu talento transcendente, que captava o público.</span> <span style="font-weight: 400;">Marilyn sempre soube o que estava fazendo diante das câmeras. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Por isso, é tão </span><span style="font-weight: 400;">desconcertante acompanhar</span><span style="font-weight: 400;"> um filme que empresta sua imagem, se baseia em sua história e despreza o que a levou ao sucesso. Talvez, </span><i><span style="font-weight: 400;">Blonde</span></i><span style="font-weight: 400;">, como um todo, fique menos confuso diante do que o autor tem a dizer. </span><a href="https://www.estadao.com.br/emais/tv/diretor-de-blonde-e-criticado-por-fala-machista-sobre-classico-estrelado-por-marilyn-monroe/"><span style="font-weight: 400;">Em entrevista</span></a><span style="font-weight: 400;"> à jornalista Christina Newland, para a revista do Instituto de Cinema Britânico, Dominik afirma que Monroe se tornou um ícone cultural estrelando em vários filmes que “</span><i><span style="font-weight: 400;">ninguém realmente assiste</span></i><span style="font-weight: 400;">” e se referiu a </span><i><span style="font-weight: 400;">Os Homens Preferem as Loiras</span></i><span style="font-weight: 400;"> &#8211; obra estimada quase que de forma unânime entre críticos de Cinema, como uma das melhores comédias já feitas &#8211; como um filme sobre “</span><i><span style="font-weight: 400;">vadias bem vestidas</span></i><span style="font-weight: 400;">”. </span></p>
<figure id="attachment_30094" aria-describedby="caption-attachment-30094" style="width: 967px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-full wp-image-30094" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/03/Img-4.jpg" alt="Cena do filme Blonde. A imagem mostra uma sala de cinema, escura, com a tela em posição central e para frente e a plateia de costas. A plateia está lotada. Na tela, Marilyn a frente de um fundo vermelho, com um vestido rosa, luvas rosas, uma pulseira, um colar e um brinco de diamantes e batom vermelho" width="967" height="725" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/03/Img-4.jpg 967w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/03/Img-4-800x600.jpg 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/03/Img-4-768x576.jpg 768w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 1362px) 62vw, 840px" /><figcaption id="caption-attachment-30094" class="wp-caption-text">Lançado em 1953, Os Homens Preferem as Loiras foi bem-recebido pela crítica e pelo público, se tornando um dos filmes com maior bilheteria do ano (Foto: Netflix)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">Grande parte do apelo de </span><i><span style="font-weight: 400;">Blonde</span></i><span style="font-weight: 400;">, junto à atuação incontestável da </span><a href="https://www.youtube.com/watch?v=LPp-Oo2t_Wo"><span style="font-weight: 400;">Ana de Armas</span></a><span style="font-weight: 400;"> na pele da protagonista, é seu visual, com imagens lindas e escolhas estilísticas ousadas de direção de câmera, responsabilidade do diretor de fotografia Chayse Irvin, e arte, graças ao diretor de arte Peter Andrus, junto a toda a equipe de efeitos visuais. Porém, não há nada para sustentá-las. Além dos jogos de câmera, luz e efeitos especiais, pode-se reparar que a proporção de tela não é estável e as cenas alternam entre coloridas e preto e branco. Quando questionado por Newland sobre o propósito dessas escolhas, o diretor explicou que não há razão para a narrativa, o que ele queria era apenas reproduzir fotografias famosas. Assim, seguiu seus formatos, como uma forma de conhecer a vida da personagem, visualmente. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Além disso, houve um empenho para adequar Ana de Armas ao papel, desde as </span><a href="https://twitter.com/netflix/status/1575878135064641541?ref_src=twsrc%5Etfw%7Ctwcamp%5Etweetembed%7Ctwterm%5E1575878135064641541%7Ctwgr%5E71a8f7f47f8046db67b076918358ff66c813e805%7Ctwcon%5Es1_&amp;ref_url=https%3A%2F%2Fportalpopline.com.br%2Fblonde-video-transformacao-ana-de-armas-marilyn-monroe%2F"><span style="font-weight: 400;">mudanças físicas</span></a><span style="font-weight: 400;">, com o cabelo e a maquiagem, nos departamento comandados por </span><span style="font-weight: 400;">Jaime Leigh McIntosh</span><span style="font-weight: 400;"> e </span><span style="font-weight: 400;">Tina Roesler Kerwin,</span><span style="font-weight: 400;"> até o treinamento de sua </span><a href="https://www.metropoles.com/colunas/claudia-meireles/veja-os-segredos-para-transformar-ana-de-armas-em-marilyn-monroe"><span style="font-weight: 400;">voz, sotaque e maneirismos</span></a><span style="font-weight: 400;">. O esforço de </span><i><span style="font-weight: 400;">Blonde </span></i><span style="font-weight: 400;">para se assemelhar à realidade não é incomum em histórias biográficas &#8211; mas, novamente, não se trata de uma história biográfica. </span><span style="font-weight: 400;">Se dedicar a alcançar a memória coletiva, para então alterá-la, pintando sobre ela tragédias e misturando os </span><a href="https://veja.abril.com.br/coluna/e-tudo-historia/blonde-o-que-e-fato-e-o-que-e-ficcao-no-filme-sobre-marilyn-monroe/"><span style="font-weight: 400;">limites entre verdade e ficção</span></a><span style="font-weight: 400;">, não parece a forma mais ética de abordar uma história baseada em uma vida real, mesmo que dentro de sua liberdade criativa.</span></p>
<figure id="attachment_30099" aria-describedby="caption-attachment-30099" style="width: 728px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-full wp-image-30099" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/03/Img-5.webp" alt="À direita: cena do filme Blonde. À esquerda: fotografia real da Marilyn Monroe. Comparação lado a lado entre a releitura e a foto. Em ambas, uma mulher de cabelo curto, óculos e blusa listrada, por trás de Marilyn, ajusta a roupa da atriz. Um macacão branco curto, sem mangas e colado ao corpo. Marilyn se inclina para frente, com as mãos na cintura e olhando para o lado. Foto em preto e branco" width="728" height="500" /><figcaption id="caption-attachment-30099" class="wp-caption-text">Dominik explica que a ideia visual do filme é referenciar a memória coletiva, como um “déjà vu estranho”, mas com outro sentido às imagens (Foto: Netflix)</figcaption></figure>
<p><b>O descaso com a representação de problemas psicológicos</b></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Andrew Dominik, </span><a href="https://www.bfi.org.uk/sight-and-sound/interviews/im-not-interested-reality-im-interested-images-andrew-dominik-blonde"><span style="font-weight: 400;">em sua entrevista</span></a><span style="font-weight: 400;"> com Newland, contou que, inicialmente, queria contar uma história sobre como os dramas da infância moldam a percepção de um adulto sobre o mundo e que viu em </span><i><span style="font-weight: 400;">Blonde </span></i><span style="font-weight: 400;">essa história. Porém, ele peca no desempenho dessa ideia ao centralizar toda a narrativa nos traumas vividos pela personagem. Isso resulta em um roteiro ineficiente, já que, sem a contemplação dos contrastes e nuances, o trauma e os conflitos apresentados ficam, além de rasos, irrealistas, como uma experiência que só poderia ter sido fabricada para propósitos dramáticos.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">A partir dessa representação, o diretor cria também uma relação desonesta de dicotomia, sob a qual uma pessoa levada ao </span><a href="https://igormiranda.com.br/2022/08/marilyn-monroe-morte-ultimos-dias/"><span style="font-weight: 400;">suícidio</span></a><span style="font-weight: 400;"> não poderia ser nada além de trágica. Com isso, ele reduz a humanidade da personagem a seus problemas e a mantém refém do papel de vítima em seu roteiro, tomando dela o controle sobre sua vida. </span></p>
<figure id="attachment_30093" aria-describedby="caption-attachment-30093" style="width: 1436px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-full wp-image-30093" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/03/Img-8.png" alt="Cena do filme Blonde. Marilyn, já sem vida, deitada em sua cama, sem roupa, enrolada no lençol branco e com um travesseiro sobre seu braço direito. De seu lado esquerdo, um telefone desconectado, debaixo da sua mão" width="1436" height="1080" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/03/Img-8.png 1436w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/03/Img-8-800x602.png 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/03/Img-8-1024x770.png 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/03/Img-8-768x578.png 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/03/Img-8-1200x903.png 1200w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 1362px) 62vw, 840px" /><figcaption id="caption-attachment-30093" class="wp-caption-text">O pai é a última visão de Marilyn antes de morrer, atribuindo sua morte ao que a obra atribuiu à sua vida: um homem, ou a falta de um (Foto: Netflix)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">Na conversa com Newland, ele também defende sua abordagem redutora com afirmações como “</span><i><span style="font-weight: 400;">qualquer pessoa que se mata não é uma figura de empoderamento feminino</span></i><span style="font-weight: 400;">”, demonstrando as limitações de seu ponto de vista. Marilyn foi uma </span><a href="https://www.smh.com.au/entertainment/movies/marilyn-monroe-the-unlikely-feminist-20180628-p4zo89.html"><span style="font-weight: 400;">figura de empoderamento feminino</span></a><span style="font-weight: 400;">, ao mesmo tempo que foi uma história de alerta às mulheres sobre os efeitos de uma sociedade patriarcal. Ela foi e ainda é ambos, justamente porque não era um arquétipo de personagem, mas uma pessoa real.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Para um artista que se propõe desde o princípio a produzir uma obra sobre questões psicológicas, suas origens e seus efeitos na vida adulta, a representação de Dominik é fraca e caricata, ao reduzir pessoas deprimidas a indivíduos unidimensionais. A menção do longa entre os reconhecidos pelo </span><a href="https://personaunesp.com.br/tag/oscar-2023/"><i><span style="font-weight: 400;">Oscar </span></i><span style="font-weight: 400;">2023</span></a><span style="font-weight: 400;"> é, realmente, impressionante quando além de ser insincero, é extremamente entediante assistir uma personagem rasa como Marilyn é em </span><i><span style="font-weight: 400;">Blonde</span></i><span style="font-weight: 400;">.</span></p>
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