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	<title>Arquivos Bando à Parte &#8211; Persona | Jornalismo Cultural</title>
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	<description>Desde 2015 provando que a distância entre Bergman, Lady Gaga e a novela das 9 nem existe.</description>
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		<title>Dulcineia explora a música como a conexão, inspiração e destino de um artista em busca de sua identidade</title>
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		<pubDate>Mon, 06 Nov 2023 18:36:38 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p>Henrique Marinhos Dirigido e roteirizado pelo cineasta português Artur Serra Araújo, Dulcineia conta a história de Hugo, um contrabaixista de jazz que decide tirar um ano sabático e voltar a Porto, sua cidade natal, em busca de equilíbrio e inspiração. No entanto, como o fio condutor da trama, a sinfonia se desenvolve lentamente em torno &#8230; <a href="http://personaunesp.com.br/dulcineia-critica/" class="more-link">Continue lendo<span class="screen-reader-text"> "Dulcineia explora a música como a conexão, inspiração e destino de um artista em busca de sua identidade"</span></a></p>
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										<content:encoded><![CDATA[<figure id="attachment_31775" aria-describedby="caption-attachment-31775" style="width: 1920px" class="wp-caption alignnone"><img fetchpriority="high" decoding="async" class="size-full wp-image-31775" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/11/image3.jpg" alt="Cena do filme Dulcineia. Na imagem estão os dois protagonistas Hugo e Dulcineia andando de bicicleta. Hugo é um homem de meia idade com cabelos lisos, longos e presos. Ele tem uma barba preta que cobre seu rosto enquanto anda de bicicleta. Dulcineia é uma mulher branca de cabelos castanhos longos. Ambos estão em uma rodovia movimentada e muito iluminada por postes e reflexos da água em poças formadas pela chuva. Estão usando capas de chuva, Dulcineia uma capa vermelha e Hugo uma capa transparente." width="1920" height="1080" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/11/image3.jpg 1920w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/11/image3-800x450.jpg 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/11/image3-1024x576.jpg 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/11/image3-768x432.jpg 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/11/image3-1536x864.jpg 1536w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/11/image3-1200x675.jpg 1200w" sizes="(max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 1362px) 62vw, 840px" /><figcaption id="caption-attachment-31775" class="wp-caption-text">Junto a Dulcineia, mais de 20 filmes portugueses integram a 47ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo (Foto: Bando à Parte)</figcaption></figure>
<p><b>Henrique Marinhos</b></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Dirigido e roteirizado pelo cineasta português </span><a href="http://porto.lecool.com/inspirations/artur-serra-araujo/"><span style="font-weight: 400;">Artur Serra Araújo</span></a><span style="font-weight: 400;">, </span><i><span style="font-weight: 400;">Dulcineia</span></i><span style="font-weight: 400;"> conta a história de Hugo, um contrabaixista de</span><i><span style="font-weight: 400;"> jazz</span></i><span style="font-weight: 400;"> que decide tirar um ano sabático e voltar a Porto, sua cidade natal, em busca de equilíbrio e inspiração. No entanto, como o fio condutor da trama, a sinfonia se desenvolve lentamente em torno de um mistério como um pianista famoso, que toca uma música que o protagonista vem escrevendo na sua cabeça há anos, mas nunca conseguiu colocá-la no papel.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">A obra está presente na 47ª </span><a href="https://personaunesp.com.br/tag/mostra-internacional-de-cinema-em-sao-paulo/"><span style="font-weight: 400;">Mostra Internacional de Cinema em São Paulo</span></a><span style="font-weight: 400;">, na seção Perspectiva Internacional, e mistura elementos de romance, suspense e uma quase fantasia. Suas referências também são diretas e bem-vindas, construindo uma base sólida para o desenvolvimento da narrativa: Dom Quixote, que influi o nome da personagem Dulcineia (</span><a href="https://personaunesp.com.br/sra-harris-vai-a-paris-critica/#more-29922"><span style="font-weight: 400;">Alba Baptista</span></a><span style="font-weight: 400;">) e sua relação com Hugo (António Parra); a própria cultura de Porto, retratada em belas imagens e diálogos; e o </span><a href="https://personaunesp.com.br/tag/jazz/"><i><span style="font-weight: 400;">jazz</span></i></a><span style="font-weight: 400;">, a paixão e a expressão de Hugo e dos demais músicos que ele encontra em sua nova jornada de autoconhecimento. </span></p>
<p><span id="more-31773"></span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Apesar do destaque positivo das atuações do elenco principal, a exploração de temas como a identidade e o destino já são complexas por si só. Além disso, a escolha de utilizar questões fantásticas em um personagem enigmático e contraditório, que vive uma crise existencial e artística, contrapõem ainda mais a clareza da narrativa. Infelizmente, essa dinâmica traz um desenrolar não tão fluido e confortável à plateia </span><span style="font-weight: 400;">–</span><span style="font-weight: 400;"> mesmo que talvez fosse para ser assim. </span></p>
<figure id="attachment_31774" aria-describedby="caption-attachment-31774" style="width: 545px" class="wp-caption alignnone"><img decoding="async" class="size-full wp-image-31774" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/11/image2.png" alt="Capa do livro “O Ano Sabático” de João Tordo. Ao centro está o formato de uma nota musical preenchida com a estampa das teclas de um piano. Ao fundo, riscos pretos e marrons imitam a textura de madeira no que poderia ser de um instrumento musical, com linhas cinzas sendo suas cordas à esquerda e formas circulares em preto como seus orifícios. Ao topo alinhado à esquerda está o nome do autor em caixa alta “João Tordo” seguido do nome do livro “O ano Sabático” logo abaixo. Ao centro esquerdo está o logo da editora, Companhia das Letras”, seguido do escrito “Autor vencedor do prêmio literário José Saramago”" width="545" height="869" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/11/image2.png 545w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/11/image2-502x800.png 502w" sizes="(max-width: 545px) 85vw, 545px" /><figcaption id="caption-attachment-31774" class="wp-caption-text">Dulcineia é uma adaptação do romance literário O Ano Sabático, de João Tordo (Foto: Companhia das Letras)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">Em um esforço notável para relacionar o audiovisual com o roteiro, a construção do longa é muito calma e contemplativa. A fotografia de </span><a href="https://mubi.com/pt/cast/tiago-carvalho"><span style="font-weight: 400;">Tiago Carvalho</span></a><span style="font-weight: 400;"> reúne tons frios e escuros em uma ambiência de desesperança, ressaltando os detalhes dos cenários e dos personagens. E assim como o visual, que muitas vezes impulsiona instrumentos musicais como foco, a composição sonora, com o desenho de som por Pedro Marinho e música por Pedro Marques, também reflete estados emocionais e atmosféricos do protagonista de maneira majestosa, alternando entre melodias suaves, harmoniosas, tensas e dissonantes muito bem aproveitadas pelos atores.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">No entanto, a montagem, também por Tiago Carvalho, com planos longos e curtos, não entra em uníssono com toda composição descrita até aqui. Aparentemente comprometida com o mistério por sua alternância, a escolha de diálogos, transições e duração dos planos não potencializa tudo que é ofertado pelas boas atuações, fotografia e som. Talvez sequer fizesse diferença em produções mais curtas, mas em seus longos 90 minutos, a concentração e construção de uma linearidade por parte do público poderiam ter sido facilitados, ainda considerando a obra como uma adaptação pelo </span><a href="https://mubi.com/pt/cast/artur-serra-araujo"><span style="font-weight: 400;">diretor</span></a><span style="font-weight: 400;">.</span></p>
<figure id="attachment_31776" aria-describedby="caption-attachment-31776" style="width: 666px" class="wp-caption alignnone"><img decoding="async" class="size-full wp-image-31776" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/11/image1.png" alt=" Cena do filme Dulcineia. Na imagem está o protagonista Hugo, um homem de meia idade com cabelos lisos, longos e presos em um coque. Ele tem uma barba preta que cobre seu rosto enquanto maneja um instrumento musical de quatro cordas que se assemelha a um violoncelo. A imagem abrange a altura do busto até o topo do quarto em que Hugo está. Com uma partitura em um palanque a sua frente. O ambiente é um quarto vazio com apenas uma janela e cortinas atrás dele, que iluminam o ambiente em uma luz amarela. Deixando a figura de seu corpo, do instrumento e da partitura contra-luz." width="666" height="462" /><figcaption id="caption-attachment-31776" class="wp-caption-text">O filme esteve disponível com visualizações limitadas no Sesc Digital durante a 47ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo (Foto: Bando à Parte)</figcaption></figure>
<p><i><span style="font-weight: 400;">Dulcineia </span></i><span style="font-weight: 400;">como um todo, na verdade, é uma ode à Música como Arte e parte da vida dos personagens. Apresentada através do contrabaixo, do piano, da guitarra, da bateria e da voz, a orquestra audiovisual transita entre pontos de muita beleza e contemplação e uma tensa confusão expressa pela </span><a href="https://personaunesp.com.br/a-pior-pessoa-do-mundo-critica/"><span style="font-weight: 400;">busca de si mesmo</span></a><span style="font-weight: 400;">, mas também pela organização, intencional ou não, de cenas contrapostas como entraves para a fluidez.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">O filme é, sem dúvida, uma produção com profundidade e ricas referências, dialogando com a literatura, a Música e o Cinema, mesmo que com uma estética representativa de autoconhecimento não tão única assim. O questionamento dos limites das escolhas e desejos do </span><a href="https://agenteanorte.com/agencia/antonio-parra/"><span style="font-weight: 400;">Hugo</span></a><span style="font-weight: 400;"> causam o frio na barriga que só o conhecimento de si mesmo pode provocar &#8211; e que bom ser assim. </span></p>
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		<title>O fantasma da gentrificação assombra Distopia</title>
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		<pubDate>Fri, 21 Oct 2022 17:43:21 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p>Enzo Caramori Se a vida real, capturada em seu fluxo, for passível de ser ficcionalizada para ser compreendida, o documentário português Distopia (2021) é um filme de terror que desde seu início já desmascara os seus monstros. Representando Portugal no repertório da Perspectiva Internacional da 46ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo, o filme &#8230; <a href="http://personaunesp.com.br/distopia-critica/" class="more-link">Continue lendo<span class="screen-reader-text"> "O fantasma da gentrificação assombra Distopia"</span></a></p>
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										<content:encoded><![CDATA[<figure id="attachment_28884" aria-describedby="caption-attachment-28884" style="width: 1920px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-full wp-image-28884" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/10/IMDb-3.jpg" alt="Cena do documentário Distopia. A foto é uma captura de um dos trechos do filme Distopia. Quatro prédios amarelos — parte do conjunto habitacional do bairro do Aleixo — estão sendo demolidos. O prédio da direita cai em meio a fumaça, abaixo se encontram outras habitações e um terreno verde." width="1920" height="1080" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/10/IMDb-3.jpg 1920w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/10/IMDb-3-800x450.jpg 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/10/IMDb-3-1024x576.jpg 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/10/IMDb-3-768x432.jpg 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/10/IMDb-3-1536x864.jpg 1536w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/10/IMDb-3-1200x675.jpg 1200w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 1362px) 62vw, 840px" /><figcaption id="caption-attachment-28884" class="wp-caption-text">O documentário chega à Perspectiva Internacional da 46ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo carregando o prêmio HBO Portugal para Melhor Filme da Competição Portuguesa no DocLisboa International Film Festival 2021 (Foto: Bando a Parte)</figcaption></figure>
<p><b>Enzo Caramori</b></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Se a vida real, capturada em seu fluxo, for passível de ser ficcionalizada para ser compreendida, o documentário português </span><a href="https://46.mostra.org/filmes/distopia"><i><span style="font-weight: 400;">Distopia</span></i></a> <span style="font-weight: 400;">(2021) é um filme de terror que desde seu início já desmascara os seus monstros. Representando Portugal no repertório da Perspectiva Internacional da 46ª </span><a href="http://personaunesp.com.br/tag/mostra-internacional-de-cinema-em-sao-paulo/"><span style="font-weight: 400;">Mostra Internacional</span></a><span style="font-weight: 400;"> de Cinema em São Paulo, o filme introduz o fantasma da </span><a href="https://jornaleconomico.pt/noticias/o-processo-de-gentrificacao-em-curso-nas-cidades-e-periferias-de-lisboa-e-porto-264850"><span style="font-weight: 400;">gentrificação</span></a><span style="font-weight: 400;"> como o motor dos desterramentos e demolições que atravessam a cidade do Porto, em um retrato de treze anos da vida dos bairros de Bacelo, Aleixo e Fontainhas. Dirigido por Tiago Afonso, a forma documental encontra sua força ao direcionar a câmera tanto aos sujeitos atravessados por essa desterritorialização quanto aos espaços e ruínas, o que constitui uma espécie de anti-documento nessa condição de filmar o que está na iminência de não mais existir.</span></p>
<p><span id="more-28883"></span></p>
<p><i><span style="font-weight: 400;">Distopia </span></i><span style="font-weight: 400;">é uma narrativa audiovisual de emergência, na qual o imediatismo da filmagem é evidenciado por um gesto que, em um primeiro momento, quase não é cinematográfico. É mais uma construção de um álibi aos processos de injustiça vivenciados pelas pessoas, tanto as hostis quanto as receptivas às lentes de Afonso. O primeiro capítulo é pontuado em 2007, enquanto o espectador acompanha uma comunidade cigana, habitante das barracas da Rua do Bacelo, em suas tentativas de </span><a href="https://www.jpn.up.pt/2007/03/27/criticas-a-actuacao-da-camara-do-porto-no-bacelo/"><span style="font-weight: 400;">resistência ao despejo</span></a><span style="font-weight: 400;"> e de articulação com o poder público, personalizado pela figura de Rui Rio, o Presidente da Câmara Municipal do Porto na época. O diretor intercede nas discussões — em defesa da ocupação —, além de traçar uma tentativa de reinstalação da experiência pública de comunidade, sob a ótica da comunidade.</span></p>
<figure id="attachment_28885" aria-describedby="caption-attachment-28885" style="width: 1608px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-full wp-image-28885" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/10/IMDb-2.jpg" alt="Cena do filme Distopia. Ao fundo, as barracas no bairro do Bacelo, onde encontram-se pedaços de madeira empilhados e, à direita, um trailer branco. Em um pedaço de madeira branco, uma lona vermelha está jogada, enquanto uma bandeira está amarrotada e enrolada, suspensa no ar." width="1608" height="1080" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/10/IMDb-2.jpg 1608w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/10/IMDb-2-800x537.jpg 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/10/IMDb-2-1024x688.jpg 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/10/IMDb-2-768x516.jpg 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/10/IMDb-2-1536x1032.jpg 1536w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/10/IMDb-2-1200x806.jpg 1200w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 1362px) 62vw, 840px" /><figcaption id="caption-attachment-28885" class="wp-caption-text">No documentário de Afonso, a cidade do Porto é atravessada pela especulação imobiliária desenfreada e pelo silenciamento das tradições locais (Foto: Bando a Parte)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">Inicialmente, os furtivos registros não eram feitos com o intuito de uma unidade narrativa, sendo ligados posteriormente pela brutal espinha dorsal que é a constância dessas violências. Talvez fosse possível compor um longa-metragem interminável, no qual ainda residiria o </span><a href="https://www.jpn.up.pt/2021/11/26/urgencia-resignacao-e-magoa-uma-conversa-com-tiago-afonso-sobre-a-distopia-que-dedicou-ao-porto/"><span style="font-weight: 400;">ativismo</span></a><span style="font-weight: 400;"> do fazer Cinema na luta para evitar que lares e histórias fossem despossuídas. Tanto que as gravações nos conjuntos habitacionais do Aleixo e na Feira da Vandoma, em Fontainhas, inicialmente pareciam ser paralelas. No entanto, logo se revelaram tangentes pelo mesmo futuro: a aniquilação de qualquer alternativa de </span><a href="https://observador.pt/especiais/distopia-durante-13-anos-tiago-afonso-filmou-o-porto-que-desapareceu-quando-os-bairros-ficaram-vazios/"><span style="font-weight: 400;">vivência coletiva</span></a><span style="font-weight: 400;"> em prol do modelo capitalista de cidade funcionalista.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Os treze anos encapsulados em 62 minutos instigam, para além de um atestado da permanência dos movimentos de desalojamento, uma reflexão sobre a permanência desses lugares e dessas personagens na memória coletiva. Esse esforço se expressa no exercício de Afonso de colocar as crianças moradoras do Aleixo detrás das câmeras, tornando-as diretoras, em um exercício de descrição de suas colegas frente às câmeras. Essa é uma das tentativas de dar voz à materialidade dos afetos e da infância, perdida pela destruição de inúmeras moradas sob o pretexto de </span><a href="https://www.publico.pt/2022/01/21/p3/fotogaleria/aleixo-foram-torres-ficou-consumo-407396"><span style="font-weight: 400;">sanitização social</span></a><span style="font-weight: 400;"> frente ao tráfico de drogas, além de, claro, deixar o terreno pronto a projetos arquitetônicos de luxo. </span></p>
<figure id="attachment_28886" aria-describedby="caption-attachment-28886" style="width: 1920px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-full wp-image-28886" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/10/IMDb-4.jpg" alt="Cena do filme distopia. Embaixo de um viaduto, no primeiro plano da imagem, duas mulheres ciganas estão lado a lado. A da esquerda olha para cima, a algo distante da câmera. Usa uma blusa alaranjada, um cordão dourado no pescoço. Seus cabelos são negros e presos em um rabo de cavalo. Ao seu lado, a outra mulher olha para baixo, com uma jaqueta fechada cinza, estampada de estrelas. Seus cabelos negros estão presos em um coque. Ao fundo, um pedaço de escassa vegetação." width="1920" height="1080" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/10/IMDb-4.jpg 1920w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/10/IMDb-4-800x450.jpg 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/10/IMDb-4-1024x576.jpg 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/10/IMDb-4-768x432.jpg 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/10/IMDb-4-1536x864.jpg 1536w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/10/IMDb-4-1200x675.jpg 1200w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 1362px) 62vw, 840px" /><figcaption id="caption-attachment-28886" class="wp-caption-text">O aburguesamento da cidade é um personagem oculto – porém onisciente – sobre histórias que refletem a modificação dos tecidos sociais urbanos (Foto: Bando a Parte)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">De 2007 a 2021, </span><a href="https://vimeo.com/646630124?embedded=true&amp;source=vimeo_logo&amp;owner=31954675"><i><span style="font-weight: 400;">Distopia </span></i></a><span style="font-weight: 400;">é uma teoria de gentrificação que renega prédios modernizados e apáticos, escolhendo desenvolver a experiência através da voz daqueles que foram mutilados por seus efeitos. Além do passeio temporal, subjetivo e geográfico</span><i><span style="font-weight: 400;">, </span></i><span style="font-weight: 400;">o título português é também um perambular estético sobre a transformação das fontes visuais e sonoras que estruturam os retratos de despossessão das comunidades de suas habitações e de suas práticas de sociabilidade. O objeto do olhar é variado: ratos mortos, destroços, multidões e barracos improvisados tomam a tela. Embaixo de viadutos, com caixas de som e olhares distantes, se rememoram as (re)existências de outros modos de viver em outros ritmos. Memórias essas de quando se era possível existir em um espaço com liberdade; onde reinava a brincadeira de crianças contra a crueza de uma cidade que não mais é um direito, mas sim um </span><a href="https://mag.sapo.pt/cinema/atualidade-cinema/artigos/distopia-de-tiago-afonso-mostra-gentrificacao-da-cidade-no-porto-post-doc"><span style="font-weight: 400;">decreto de expulsão</span></a><span style="font-weight: 400;">.</span></p>
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		<title>O outro lado do Mar Infinito atormenta uma geração</title>
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		<pubDate>Thu, 28 Oct 2021 20:21:02 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p>Nathália Mendes Submerso nas águas de uma piscina qualquer, Pedro Miguel (Nuno Nolasco) abre os olhos e enxerga um azul sem fim. A vastidão do desconhecido é iluminada por feixes de luzes brilhantes vindas de um mundo acima do seu, enquanto as bolhas de seu oxigênio flutuam ao redor e ele só está ali, existindo. &#8230; <a href="http://personaunesp.com.br/mar-infinito-critica/" class="more-link">Continue lendo<span class="screen-reader-text"> "O outro lado do Mar Infinito atormenta uma geração"</span></a></p>
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										<content:encoded><![CDATA[<figure id="attachment_24225" aria-describedby="caption-attachment-24225" style="width: 800px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="wp-image-24225 size-full" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/10/1-3.jpg" alt="Cena do filme Mar Infinito. Na imagem, o personagem Miguel está debaixo d’água e conectado por um aparelho de oxigênio que sai do lado esquerdo da imagem. Ele é um homem branco de cabelos castanhos, está sem camisa e com o corpo e braços flutuando sozinhos, virado de lado. A máscara de oxigênio está presa no alto e lados de sua cabeça" width="800" height="450" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/10/1-3.jpg 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/10/1-3-768x432.jpg 768w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 984px) 61vw, (max-width: 1362px) 45vw, 600px" /><figcaption id="caption-attachment-24225" class="wp-caption-text">Jorge Quintela fotografa um jovem abandonado pela própria espécie através de lentes precisamente calmas, na produção que integra a Competição Novos Diretores na 45ª Mostra Internacional de São Paulo (Foto: Bando à Parte)</figcaption></figure>
<p><b>Nathália Mendes</b></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Submerso nas águas de uma piscina qualquer, Pedro Miguel (Nuno Nolasco) abre os olhos e enxerga um azul sem fim. A vastidão do desconhecido é iluminada por feixes de luzes brilhantes vindas de um mundo acima do seu, enquanto as bolhas de seu oxigênio flutuam ao redor e ele só está ali, existindo. Não há como imaginar que esse momento é mais uma tentativa do protagonista em enfrentar sua aquafobia, mas sim que o mesmo estaria tão intrinsecamente conectado com a premissa de </span><a href="https://www.youtube.com/watch?v=61QkMbIVBcg&amp;t=1s"><i><span style="font-weight: 400;">Mar Infinito</span></i></a><span style="font-weight: 400;">. O longa estreou na Competição Novos Diretores na 45ª </span><a href="http://personaunesp.com.br/tag/mostra-internacional-de-cinema-em-sao-paulo/"><span style="font-weight: 400;">Mostra Internacional</span></a><span style="font-weight: 400;"> de Cinema em São Paulo como um filme de ficção intergalático em que um jovem luta por um lugar com a humanidade fora do planeta, mas é, na verdade, a solidão de uma geração sem rumo, afogada por uma incerteza esmagadora.</span></p>
<p><span id="more-24223"></span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Esse é o primeiro longa-metragem escrito e dirigido por </span><a href="https://mubi.com/pt/cast/carlos-amaral"><span style="font-weight: 400;">Carlos Amaral</span></a><span style="font-weight: 400;">, conhecido pelo curta </span><a href="https://vimeo.com/69633406"><i><span style="font-weight: 400;">Longe do Éden</span></i></a><span style="font-weight: 400;">. A sua produção portuguesa transformou o baixo orçamento, que nunca alcançaria um audiovisual mediano de viagem pelo universo, em uma reflexão sobre a parcela da sociedade que é deixada de fora quando os </span><a href="https://g1.globo.com/google/amp/inovacao/noticia/2021/09/15/spacex-de-elon-musk-faz-1o-voo-orbital-com-civis-no-espaco.ghtml"><span style="font-weight: 400;">ricos aventureiros</span></a><span style="font-weight: 400;"> decidem saltar para fora do planeta Terra. Em </span><i><span style="font-weight: 400;">Infinite Sea</span></i><span style="font-weight: 400;">, Pedro Miguel tenta </span><i><span style="font-weight: 400;">hackear</span></i><span style="font-weight: 400;"> o sistema que o reprovou por fobia de água, para, assim, poder embarcar na </span><i><span style="font-weight: 400;">Proxima Centauri </span></i><span style="font-weight: 400;">e se juntar à colonização de um astro desconhecido. Sua rotina monótona mostra um mundo completamente habitável e saudável, mas abandonado, e os humanos que ficaram vivem em um ciclo de desesperança e melancolia. Depois de tantos meses frustrado, o protagonista conhece Eva (Maria Leite) e, compartilhando um desgaste existencial, a jovem se torna a única motivação para continuar.</span></p>
<figure id="attachment_24224" aria-describedby="caption-attachment-24224" style="width: 1920px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-full wp-image-24224" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/10/2-1-3.jpg" alt="Cena do filme Mar Infinito. Na imagem, Miguel e Eva estão abraçados em pé, em um trecho de areia em meio ao mar. Miguel está à esquerda, é um homem branco com cabelos castanhos enrolados e bigode e veste um macacão bege. Eva está à direita virada de lado, com os braços em volta de Miguel e a cabeça encostada em seu ombro. Ela é uma mulher branca de cabelo castanho curto, e veste macacão bege." width="1920" height="804" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/10/2-1-3.jpg 1920w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/10/2-1-3-800x335.jpg 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/10/2-1-3-1024x429.jpg 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/10/2-1-3-768x322.jpg 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/10/2-1-3-1536x643.jpg 1536w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/10/2-1-3-1200x503.jpg 1200w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 1362px) 62vw, 840px" /><figcaption id="caption-attachment-24224" class="wp-caption-text">A propaganda do programa Proxima Centauri utiliza a frase “Você é o futuro” e, mesmo assim, os jovens não foram escolhidos para fazer parte (Foto: Bando à Parte)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">Acompanhado de uma trilha sonora prazerosa e esporádica, o filme desenha uma obra de solidão completa. O casal não desiste de alcançar o futuro na </span><i><span style="font-weight: 400;">Proxima Centauri</span></i><span style="font-weight: 400;">, e, no ritmo deles, assistimos o mundo numa paleta de tons azuis e violetas, com personagens mais velhos enfurnados em buracos abandonados e afirmando que suas existências foram descartadas. Persistindo, o casal descobre-se a si próprio e ao outro, como, por exemplo, quando Eva ensina Miguel a nadar e ele a ensina a andar de bicicleta, conhecimentos simples que pertencem à infância. Isso mostra a proporção do sentimento de abandono que ambos apresentam, uma contrapartida com os </span><a href="https://personaunesp.com.br/a-chegada-extraterrestres/"><span style="font-weight: 400;">filmes futuristas famosos</span></a><span style="font-weight: 400;"> no Cinema.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">A personagem de Eva é consistida na pura adição de frases narrativas sobre o peso existencial, todas clichês, e, ainda assim, dolorosas ao peito. </span><i><span style="font-weight: 400;">“Às vezes sinto que já fomos embora e estamos a caminho, flutuando no espaço enquanto sonhamos com a vida no destino” </span></i><span style="font-weight: 400;">é uma das falas na voz deleitável de </span><a href="https://www.vogue.pt/maria-leite-entrevista"><span style="font-weight: 400;">Maria Leite</span></a><span style="font-weight: 400;"> que são um soco no estômago, pois exemplifica como a </span><a href="https://www.businessinsider.com/millennials-mental-health-burnout-lonely-depressed-money-stress"><span style="font-weight: 400;">geração </span><i><span style="font-weight: 400;">millennial</span></i></a><span style="font-weight: 400;"> parece se encontrar: andando num infinito espaço-tempo, sem a certeza de, se ao cruzar a ponte, encontrará alguma vida.  Em conjunto com isso, Miguel entende que eles são descartáveis; os escolhidos possuem seu lugar, mas há futuro para eles?</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Após os jovens conseguirem embarcar no programa, o longa mostra o seu tom mais reflexivo e confuso. O casal entra em um sono induzido debaixo d’água até chegar ao destino prometido, mas quando acordam Miguel está sozinho. Ele segue seu caminho em uma terra lamacenta, se mantendo com a promessa de procurar Eva </span><i><span style="font-weight: 400;">“depois do mar infinito”</span></i><span style="font-weight: 400;">, e sua realidade mistura-se ao devaneio. Não sabemos se toda a trajetória realmente aconteceu, ou se Eva é a voz na mente de Miguel que o compele a não desistir em um futuro que mais se assemelha a um pesadelo. Assim, com uma estética visual perfeita e um tom calmo demais que anda e não chega em lugar algum, </span><i><span style="font-weight: 400;">Mar Infinito</span></i><span style="font-weight: 400;"> pauta na </span><a href="https://45.mostra.org/filmes/mar-infinito"><span style="font-weight: 400;">Mostra de São Paulo</span></a><span style="font-weight: 400;"> o temor paralisante em ver o mundo avançando, mas tudo o que se enxerga do lado de cá é um horizonte aguado, sem esperança de alcançar terra firme. É como se estivéssemos submersos, assistindo o resto do mundo num azul infinito.</span></p>
<div class="jetpack-video-wrapper"><iframe loading="lazy" title="MAR INFINITO de Carlos Amaral (2021) – trailer" width="840" height="473" src="https://www.youtube.com/embed/61QkMbIVBcg?start=1&#038;feature=oembed" frameborder="0" allow="accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share" referrerpolicy="strict-origin-when-cross-origin" allowfullscreen></iframe></div>
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