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	<title>Arquivos 47ª Mostra Internacional de Cinema &#8211; Persona | Jornalismo Cultural</title>
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	<description>Desde 2015 provando que a distância entre Bergman, Lady Gaga e a novela das 9 nem existe.</description>
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		<title>Folhas de Outono é uma comédia romântica sem paixão</title>
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		<pubDate>Tue, 21 Nov 2023 20:42:52 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p>Vitória Gomez Em um dia cinza, uma trabalhadora de um supermercado é demitida por furtar uma refeição vencida, que iria para o lixo. Pouca diferença faz, já que um serviço tão mecânico poderia ser melhor aplicado em qualquer outro lugar. Na mesma cidade, mas aparentemente sem conexão nenhuma, um homem alcoólatra é dispensado por beber &#8230; <a href="http://personaunesp.com.br/folhas-de-outono-critica/" class="more-link">Continue lendo<span class="screen-reader-text"> "Folhas de Outono é uma comédia romântica sem paixão"</span></a></p>
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										<content:encoded><![CDATA[<figure id="attachment_31892" aria-describedby="caption-attachment-31892" style="width: 1847px" class="wp-caption alignnone"><img fetchpriority="high" decoding="async" class="size-full wp-image-31892" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/11/fallen-leaves-6.jpg" alt="" width="1847" height="1039" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/11/fallen-leaves-6.jpg 1847w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/11/fallen-leaves-6-800x450.jpg 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/11/fallen-leaves-6-1024x576.jpg 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/11/fallen-leaves-6-768x432.jpg 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/11/fallen-leaves-6-1536x864.jpg 1536w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/11/fallen-leaves-6-1200x675.jpg 1200w" sizes="(max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 1362px) 62vw, 840px" /><figcaption id="caption-attachment-31892" class="wp-caption-text">Vencedor do Prêmio do Júri no Festival de Cannes, Folhas de Outono integrou a seção Perspectiva Internacional da 47ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo (Foto: O2 Play)</figcaption></figure>
<p><b>Vitória Gomez</b></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Em um dia cinza, uma trabalhadora de um supermercado é demitida por furtar uma refeição vencida, que iria para o lixo. Pouca diferença faz, já que um serviço tão mecânico poderia ser melhor aplicado em qualquer outro lugar. Na mesma cidade, mas aparentemente sem conexão nenhuma, um homem alcoólatra é dispensado por beber no trabalho. Para ele, a mesma coisa: com exceção do salário no fim do mês, pouco importa. É nesse cenário de desilusão e desesperança total que ambos se encontram, e </span><a href="https://47.mostra.org/filmes/fallen-leaves-47a"><i><span style="font-weight: 400;">Folhas de Outono</span></i></a> <span style="font-weight: 400;">mostra que é possível fazer comédia romântica sem nenhuma paixão ou graça.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Presente na 47ª </span><a href="https://personaunesp.com.br/tag/mostra-internacional-de-cinema-em-sao-paulo/"><span style="font-weight: 400;">Mostra Internacional de Cinema em São Paulo</span></a><span style="font-weight: 400;"> e no Festival de Cannes, o longa do finlandês Aki Kaurismäki parte de um lugar comum: uma demissão &#8211; ou melhor, duas demissões. No entanto, com a constante frieza do trabalho assombrando o dia a dia, as risadas se fazem no absurdo e na solidão compartilhada entre dois protagonistas que igualmente buscam por conexão humana (ou animal) em meio a um cotidiano de sobrevivência.</span></p>
<p><span id="more-31891"></span></p>
<figure id="attachment_31894" aria-describedby="caption-attachment-31894" style="width: 1600px" class="wp-caption alignnone"><img decoding="async" class="size-full wp-image-31894" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/11/fallen-leaves-4.jpg" alt="" width="1600" height="900" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/11/fallen-leaves-4.jpg 1600w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/11/fallen-leaves-4-800x450.jpg 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/11/fallen-leaves-4-1024x576.jpg 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/11/fallen-leaves-4-768x432.jpg 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/11/fallen-leaves-4-1536x864.jpg 1536w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/11/fallen-leaves-4-1200x675.jpg 1200w" sizes="(max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 1362px) 62vw, 840px" /><figcaption id="caption-attachment-31894" class="wp-caption-text">Kaurismäki é adepto a colocar cães em seus longas e dessa vez foi a vez de Chaplin roubar a cena (Foto: O2 Play)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">O rádio toca notícias da guerra na Ucrânia, dois elementos quase contraditórios. No primeiro encontro de Ansa (<a href="https://www.vogue.com/article/fallen-leaves-alma-poysti-interview">Alma Pöysti</a>) e Holappa (Jussi Vatanen), os dois assistem a </span><i><span style="font-weight: 400;">Os Mortos não Morrem</span></i><span style="font-weight: 400;">, de 2019, e a ex-atendente de mercado anota seu número de celular em um pedaço de papel para dar ao alcoólatra. Depois, ela procura emprego em uma </span><i><span style="font-weight: 400;">lan house</span></i><span style="font-weight: 400;">. Para além dessa sequência de elementos, </span><i><span style="font-weight: 400;">Fallen Leaves</span></i><span style="font-weight: 400;"> parece existir em uma realidade semelhante à nossa, mas que não é exatamente igual. Com um design de produção que mistura o </span><i><span style="font-weight: 400;">vintage</span></i><span style="font-weight: 400;"> a referências contemporâneas, o longa cria um tempo próprio, ao passo que se mostra universal e atemporal.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Isso porque o trabalho e a solidão não são experiências individuais. Se a Finlândia foi eleita o país mais feliz do mundo, o cenário em que as vidas de Ansa e Holappa se cruzam são tudo, menos repletas de felicidade. Na verdade, a ânsia de ambos por conexão ultrapassa o limite da tela e contamina o espectador, rendendo risadas a partir de diálogos absurdos, que nem de longe seriam ideias para dois protagonistas interessados um no outro. O <a href="https://www.filmcomment.com/blog/cannes-2023-dog-days-justine-triet-anatomy-of-a-fall-wes-anderson-asteroid-city-review/">afeto</a> não existe, muito menos a paixão, mas a vontade de que o casal ache alento em meio a um cotidiano cinza prevalece.</span></p>
<figure id="attachment_31893" aria-describedby="caption-attachment-31893" style="width: 2362px" class="wp-caption alignnone"><img decoding="async" class="size-full wp-image-31893" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/11/fallen-leaves-5.jpg" alt="" width="2362" height="1577" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/11/fallen-leaves-5.jpg 2362w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/11/fallen-leaves-5-800x534.jpg 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/11/fallen-leaves-5-1024x684.jpg 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/11/fallen-leaves-5-768x513.jpg 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/11/fallen-leaves-5-1536x1026.jpg 1536w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/11/fallen-leaves-5-2048x1367.jpg 2048w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/11/fallen-leaves-5-1200x801.jpg 1200w" sizes="(max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 1362px) 62vw, 840px" /><figcaption id="caption-attachment-31893" class="wp-caption-text">No European Film Awards, os protagonistas concorrem nas categorias de Melhor Atriz e Melhor Ator (Foto: O2 Play)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">Nisso, Alma Pöysti e Jussi Vatanen têm grande parte. O <a href="https://personaunesp.com.br/conversas-pela-noite-critica/">casal protagonista</a> encara o marasmo do dia a dia sem um sorriso no rosto e demonstra interesse um pelo outro em gestos quase despercebidos. Em alguns momentos, como quando Holappa está em coma no hospital e acorda sem sequer mudar de expressão após um beijo de Ansa, é possível sentir o humor despontando da ausência e do distanciamento. Se os finlandeses são conhecidos pela racionalidade e frieza, </span><i><span style="font-weight: 400;">Folhas de Outono </span></i><span style="font-weight: 400;">parece zombar disso, mas sem fazer nada para mudar essa percepção.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Inclusive, além da atuação, é a junção da direção e do roteiro do veterano Aki Kaurismäki com a fotografia de Timo Salminen que extrai o <a href="https://personaunesp.com.br/carvao-critica/">cômico do rotineiro</a>. Desde a técnica sóbria do filme, destacando cenários cinzentos e repletos de outras pessoas igualmente solitárias, até a falta de expressividade e dureza na entrega das falas dos atores, toda a aura da obra corrobora com o ar de desesperança. Curiosamente, é o absurdo do contraste entre essa frieza à necessidade de quebrá-la que rendem os momentos mais encantadores e, para uma sessão lotada da 47ª Mostra de São Paulo, altas risadas. </span></p>
<figure id="attachment_31895" aria-describedby="caption-attachment-31895" style="width: 2560px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-full wp-image-31895" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/11/fallen-leaves-3.png" alt="" width="2560" height="1379" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/11/fallen-leaves-3.png 2560w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/11/fallen-leaves-3-800x431.png 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/11/fallen-leaves-3-1024x552.png 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/11/fallen-leaves-3-768x414.png 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/11/fallen-leaves-3-1536x827.png 1536w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 1362px) 62vw, 840px" /><figcaption id="caption-attachment-31895" class="wp-caption-text">Aki Kaurismäki disputa Melhor Diretor e Melhor Roteirista no European Film Awards; Fallen Leaves foi indicado como Melhor Filme Europeu (Foto: O2 Play)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">Ao final, </span><i><span style="font-weight: 400;">Fallen Leaves </span></i><span style="font-weight: 400;">mostra que o romance, assim como a comédia, vem do corriqueiro. Se o dia a dia é repetitivo, o longa aproveita dessa constância para crescer nos momentos de quebra de rotina e expectativa, arrancando, no mínimo, surpresa. Abocanhando cinco indicações no </span><a href="https://x.com/mubi/status/1721840957010702573?s=46"><i><span style="font-weight: 400;">European Film Awards</span></i></a><span style="font-weight: 400;">, importante premiação do Cinema europeu, a obra caminha na direção oposta da dramaticidade e destitui da paixão o que ela realmente é: busca por conexão.</span></p>
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		<title>O pesadelo feminino toma forma em The Royal Hotel</title>
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		<pubDate>Tue, 21 Nov 2023 20:22:52 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p>Giovanna Freisinger Um bar fuleiro, na fronteira de uma remota cidade mineradora no deserto australiano, com a população majoritariamente masculina. Essa é a ambientação de The Royal Hotel. Não tem espíritos possessivos nem psicopatas mascarados, mas é um cenário para um filme de terror tão assustador quanto, senão mais. Pergunte a qualquer mulher. A diretora &#8230; <a href="http://personaunesp.com.br/the-royal-hotel-critica/" class="more-link">Continue lendo<span class="screen-reader-text"> "O pesadelo feminino toma forma em The Royal Hotel"</span></a></p>
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										<content:encoded><![CDATA[<figure id="attachment_31887" aria-describedby="caption-attachment-31887" style="width: 1200px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-full wp-image-31887" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/11/image1-3.png" alt="Cena do filme The Royal Hotel. Da esquerda para direita, Liv (Jessica Henwick) abraça por trás Hanna (Julia Garner) e descansa a cabeça em seu ombro. As amigas estão em uma sacada, olhando para o lado de fora." width="1200" height="735" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/11/image1-3.png 1200w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/11/image1-3-800x490.png 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/11/image1-3-1024x627.png 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/11/image1-3-768x470.png 768w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 1362px) 62vw, 840px" /><figcaption id="caption-attachment-31887" class="wp-caption-text">Kitty Green colabora novamente com Julia Garner, estrela do seu filme anterior, A Assistente (Foto: Universal Pictures)</figcaption></figure>
<p><b>Giovanna Freisinger</b></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Um bar fuleiro, na fronteira de uma remota cidade mineradora no deserto australiano, com a população majoritariamente masculina. Essa é a ambientação de </span><i><span style="font-weight: 400;">The Royal Hotel</span></i><span style="font-weight: 400;">.</span> <span style="font-weight: 400;">Não tem espíritos possessivos nem psicopatas mascarados, mas é um cenário para um filme de terror tão assustador quanto, senão mais. Pergunte a qualquer mulher. A diretora </span><a href="https://personaunesp.com.br/a-assistente-critica/"><span style="font-weight: 400;">Kitty Green</span></a><span style="font-weight: 400;"> aperfeiçoa o pesadelo feminino, comunicando eficientemente a sensação de ser observada como um pedaço de carne fresca, em meio a predadores famintos. O suspense se constrói sobre aquilo que é desconfortável, sinistro e, assustadoramente, familiar. </span></p>
<p><span id="more-31886"></span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">“</span><i><span style="font-weight: 400;">Vocês terão que estar ok com um pouco de atenção masculina</span></i><span style="font-weight: 400;">”. As personagens de </span><a href="https://personaunesp.com.br/inventando-anna-critica/"><span style="font-weight: 400;">Julia Garner</span></a><span style="font-weight: 400;"> e </span><a href="https://personaunesp.com.br/punho-de-ferro-serie/"><span style="font-weight: 400;">Jessica Henwick</span></a><span style="font-weight: 400;"> são avisadas antes de seguir para o local do seu emprego de férias, após o dinheiro das amigas acabar no meio do seu mochilão pela Austrália. Lá, elas se veem diante do que é verdade para muitas mulheres em ambientes de trabalho: são forçadas a engolir seco e escutar as piadas machistas, os assédios e insinuações, os olhares e o comportamento bêbado desagradável. Elas são orientadas a sorrir mais, para não afastar os clientes. Green constrói representações fiéis das micro-agressões que acompanham a opressão estrutural e cultural.</span></p>
<figure id="attachment_31889" aria-describedby="caption-attachment-31889" style="width: 841px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-full wp-image-31889" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/11/image3-3.png" alt="Cena do filme The Royal Hotel. Da esquerda para a direita, Matty (Toby Wallace) e Billy (Hugo Weaving) estão sentados em frente ao balcão do bar, olhando para e conversando com Liv, que está atrás do balcão" width="841" height="559" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/11/image3-3.png 841w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/11/image3-3-800x532.png 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/11/image3-3-768x510.png 768w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 1362px) 62vw, 840px" /><figcaption id="caption-attachment-31889" class="wp-caption-text">A inspiração para o roteiro veio do documentário Hotel Coolgardie, de Pete Gleeson, que acompanha duas amigas mochileiras trabalhando em um bar no Outback Australiano (Foto: Universal Pictures)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">Sabemos muito pouco sobre a dupla central. Elas comentam que procuraram o lugar mais afastado possível de onde vieram, mentem ser do Canadá e parecem querer deixar algo para trás. O roteiro de Green e </span><a href="https://www.nziff.co.nz/2009/archive/van-diemens-land/"><span style="font-weight: 400;">Oscar Redding</span></a><span style="font-weight: 400;"> não oferece uma janela para as motivações e intenções das protagonistas, ao invés disso, elas servem como avatares para a experiência feminina generalizada. Apesar desse elemento empobrecer o enredo, dificultando a conexão do público com as personagens, Garner e Henwick entregam performances sinceras e intensas, que ajudam a adicionar a profundidade que falta aos papéis.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">O </span><a href="https://www.abc.net.au/news/2017-10-26/royal-hotels-why-are-so-many-pubs-named-curious-central-west/9068572"><span style="font-weight: 400;">Royal Hotel</span></a><span style="font-weight: 400;">, como é chamado o bar, tem seus fregueses habituais. A cada cerveja que as garotas servem sobre a bancada, presenciamos as interações sempre um pouco incômodas. A paisagem da porta para fora é um horizonte vasto que parece infinito, mas lá dentro o ar é claustrofóbico. A câmera espelha a perspectiva de Hanna durante toda a trama, colocando o espectador no mesmo estado mental de constante alerta da personagem, necessário para se manter segura. A atmosfera indica perigo, mas tudo parece normal. Ela é levada a questionar o tempo inteiro se está exagerando, ou imaginando coisas onde não tem. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">A progressão do desconforto ao medo e, eventualmente, à violência é realizada com maestria. A tensão vai aumentando conforme fica mais certo que algo ruim está prestes a acontecer. As garotas se veem cada vez mais sozinhas, contra a cidade, contra o sistema, contra a cultura. O filme </span><a href="https://www.vanityfair.com/hollywood/2023/10/the-royal-hotel-julia-garner-shot-list-awards-insider"><span style="font-weight: 400;">subverte o terror</span></a><span style="font-weight: 400;">, mas sabe brincar com os seus elementos. Caminhando para a conclusão, a direção de Green e a cinematografia de Michael Latham incorporam mais recursos clássicos do gênero.</span></p>
<figure id="attachment_31888" aria-describedby="caption-attachment-31888" style="width: 500px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-full wp-image-31888" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/11/image2-2.png" alt="Cena do filme The Royal Hotel. Close no rosto de Hanna. Ela tem sangue escorrendo do lado direito do seu rosto e está olhando o isqueiro aceso que segura próximo ao rosto.]" width="500" height="281" /><figcaption id="caption-attachment-31888" class="wp-caption-text">O filme chegou ao Festival Internacional de Cinema de Toronto, após uma primeira exibição no Festival de Cinema de Telluride (Foto: Universal Pictures)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">Toda a construção da narrativa em torno do gradual acúmulo de tensão pede uma resolução que finalmente compense isso. Porém, o que recebemos é um sentimento frustrado de: é isso? O filme não entrega o final catártico que antecipa, nem se compromete com a decepção intencional de uma dura mensagem pessimista &#8211; à la </span><a href="https://personaunesp.com.br/bela-vinganca-critica/"><i><span style="font-weight: 400;">Bela Vingança</span></i></a><span style="font-weight: 400;">. A última cena é o cerne da obra e é tão deslocada do restante que é quase cômica. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Nesse caso, o desfecho compromete todo o enredo. É como se caminhássemos com aquelas personagens durante toda a duração de </span><i><span style="font-weight: 400;">The Royal Hotel</span></i><span style="font-weight: 400;">, para não chegarmos a lugar nenhum. É evidente que Green </span><a href="https://youtu.be/v00d-9AYEKc?feature=shared"><span style="font-weight: 400;">tem o que dizer</span></a><span style="font-weight: 400;">. A diretora faz um comentário pertinente sobre a vivência feminina e a cultura do estupro, mas, ao final de tudo, falta coesão narrativa que justifique o tempo de uma hora e meia para passar essa mensagem. </span></p>
<div class="jetpack-video-wrapper"><iframe loading="lazy" title="THE ROYAL HOTEL - Official Trailer" width="840" height="473" src="https://www.youtube.com/embed/U9zq_4ED-pI?feature=oembed" frameborder="0" allow="accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share" referrerpolicy="strict-origin-when-cross-origin" allowfullscreen></iframe></div>
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		<title>A Longa Viagem do Ônibus Amarelo é guiada por gestos de Cinema</title>
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		<pubDate>Thu, 16 Nov 2023 22:44:22 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p>Enzo Caramori É incerto se a noite afora, que entrava em um pequeno corredor na rua Augusta, é que invadia uma sala escura com seus barulhos, ou se seria o novo filme do diretor Júlio Bressane que venta e, acima de tudo, uiva. Na sessão de A Longa Viagem do Ônibus Amarelo (2023) na 47ª &#8230; <a href="http://personaunesp.com.br/a-longa-viagem-do-onibus-amarelo-critica/" class="more-link">Continue lendo<span class="screen-reader-text"> "A Longa Viagem do Ônibus Amarelo é guiada por gestos de Cinema"</span></a></p>
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										<content:encoded><![CDATA[<figure id="attachment_31860" aria-describedby="caption-attachment-31860" style="width: 744px" class="wp-caption aligncenter"><img loading="lazy" decoding="async" class="wp-image-31860 size-full" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/11/Captura-de-tela-2023-11-16-193340.png" alt="" width="744" height="543" /><figcaption id="caption-attachment-31860" class="wp-caption-text">A viagem de Júlio Bressane recupera desde antigos filmes familiares feitos em Super 8 e versões brutas de seus filmes até imagens amadoras feitas durante a pandemia de Covid-19 (Foto: TB Produções)</figcaption></figure>
<p><b>Enzo Caramori</b></p>
<p><span style="font-weight: 400;">É incerto se a noite afora, que entrava em um pequeno corredor na rua Augusta, é que invadia uma sala escura com seus barulhos, ou se seria o novo filme do diretor Júlio Bressane que venta e, acima de tudo, uiva. Na sessão de </span><a href="https://43.mostra.org/br/filme/10783-A-Longa-Viagem-do-Onibus-Amarelo"><i><span style="font-weight: 400;">A Longa Viagem do Ônibus Amarelo</span></i></a> <span style="font-weight: 400;">(2023)</span> <span style="font-weight: 400;">na 47ª </span><a href="https://personaunesp.com.br/tag/mostra-internacional-de-cinema-em-sao-paulo/"><span style="font-weight: 400;">Mostra Internacional de Cinema em São Paulo</span></a><span style="font-weight: 400;">, algo de misterioso ressoava durante a experiência de quatrocentos minutos, sete horas e variados tempos. O resgate, pelo próprio diretor em conjunto com seu montador Rodrigo Lima, de sua vasta filmografia e de seu acervo íntimo de imagens, instaura uma determinada fantasmagoria do que é, realmente, uma experiência de Cinema. </span></p>
<p><span id="more-31859"></span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">A palavra monumento, que atravessa as descrições do longa e do trabalho de Bressane, é o índice que dá a essência do que o diretor busca em uma corrente de fragmentos de imagens que nunca se apossam de valor narrativo algum, mas se multiplicam, refazem e se repetem, exigindo do espectador não necessariamente o assistir; mas o olhar. Da mesma forma que se pode flanear, distrair-se e olhar de diversos ângulos para um monumento, </span><i><span style="font-weight: 400;">A Longa Viagem do Ônibus Amarelo </span></i><span style="font-weight: 400;">convoca uma viagem estética por imagens, domando o tempo e restituindo a vertigem de um passado distante. É um monumento para além de sua duração de uma tarde, mas por se construir pelo </span><a href="https://www1.folha.uol.com.br/ilustrada/2023/10/o-cinema-esta-oculto-nos-filmes-diz-julio-bressane-premiado-na-mostra-de-sp.shtml"><span style="font-weight: 400;">desvelamento</span></a><span style="font-weight: 400;"> da montagem – a estrutura verdadeiramente primal dos filmes – em construir uma vasta estrutura quase arquivística, em que tudo que Bressane produziu, sendo um dos maiores realizadores brasileiros de Cinema, eterniza-se em um ritmo onírico, descontínuo e poético da Memória.</span></p>
<figure id="attachment_31861" aria-describedby="caption-attachment-31861" style="width: 721px" class="wp-caption aligncenter"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-full wp-image-31861" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/11/Captura-de-tela-2023-11-16-193645.png" alt="" width="721" height="442" /><figcaption id="caption-attachment-31861" class="wp-caption-text">Júlio Bressane foi o autor homenageado na 47ª edição da Mostra Internacional de Cinema em São Paulo (Foto: TB Produções)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">Talvez o enquadramento de </span><i><span style="font-weight: 400;">A Longa Viagem do Ônibus Amarelo </span></i><span style="font-weight: 400;">em uma sinopse fechada possa atribuir como elemento central o que o Cinema e a vivência com imagens surte à experiência vivida. No entanto, nessa lógica, qualquer cobrança de comentário do autor sobre o que registrou e viveu – como a viagem que dá nome ao filme, realizada com sua companheira Rosa Dias e o cineasta Andrea Tonacci – não entende o que, verdadeiramente, reverbera seu fluxo e seu ritmo de imagens que parecem muito mais almejar o gesto do que o sentido. Variadas </span><a href="https://cinemarama.wordpress.com/2023/04/22/bafici-2023-a-longa-viagem-do-onibus-amarelo/"><span style="font-weight: 400;">sequências</span></a><span style="font-weight: 400;"> são suscitadas por movimentos, objetos e espaços que desencadeiam a montagem: a claquete, uma câmera na mão, o subir, a língua e o descer de uma escada são alguns dos exemplos de imagens postas em sequências com um teor infinito e espiralar. Procuradas e escavadas nos filmes do diretor, essas cenas, aqui, não são referenciadas em uma condição de índices a suas próprias histórias, mas simplesmente a suas propriedades enquanto gestos de Cinema.  </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Produzido no processo de restauração de seu </span><a href="https://www1.folha.uol.com.br/ilustrada/2023/06/julio-bressane-sintetiza-seus-quase-60-filmes-em-obra-de-7-horas-com-cenas-ineditas.shtml"><span style="font-weight: 400;">material fílmico</span></a><span style="font-weight: 400;">, o caráter de sua montagem promove o toque mútuo de suas filmagens amadoras e familiares com suas peças ficcionais, que não constroem nenhum novo gênero ou algo híbrido como uma autoficção. Até mesmo essas categorias – de ficção ou documentário – são diluídas a favor de uma dinâmica intrincada, em que seus longas ficcionais são colocados em uma seara íntima e o íntimo é proposto a ficcionalização, funcionando numa ordem de montagem e de percepção em que são colocados a uma mesma condição.</span></p>
<p><a href="https://www.metropoles.com/entretenimento/julio-bressane-sera-homenageado-na-mostra-internacional-de-cinema"><span style="font-weight: 400;">Júlio Bressane</span></a><span style="font-weight: 400;"> percebe imagens por imagens, não pelo que elas possam construir em significado pela integridade e unidade, mas enquanto palimpsestos nos quais o tempo se imprime e se apaga novamente pela maneira elétrica em que a memória não somente individual, mas do filme – mídia e entidade de criação – se faz em sua vida. É mais um </span><a href="https://limiterevista.com/2023/07/11/conversa-com-julio-bressane-i/"><span style="font-weight: 400;">biografema</span></a><span style="font-weight: 400;"> do que uma biografia, enredando a partir da ficção e da não literalidade da memória a uma adaptação do real em imagens que avançam e retrocedem e que parecem, em um certo momento, serem um </span><i><span style="font-weight: 400;">making-of </span></i><span style="font-weight: 400;">não só da vida particular, mas de uma escritura específica do Cinema Brasileiro.</span></p>
<figure id="attachment_31862" aria-describedby="caption-attachment-31862" style="width: 800px" class="wp-caption aligncenter"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-medium wp-image-31862" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/11/UzMBFQBpZmZyLmZpb25hLW9ubGluZS5uZXQ0AGF0dGFjaG1lbnRzL2ZmMGMyZGYyLWQ4N2ItNDFlYi05YzgxLTlhN2ZiNDI1NTI1Zi5qcGc-1-800x450.webp" alt="" width="800" height="450" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/11/UzMBFQBpZmZyLmZpb25hLW9ubGluZS5uZXQ0AGF0dGFjaG1lbnRzL2ZmMGMyZGYyLWQ4N2ItNDFlYi05YzgxLTlhN2ZiNDI1NTI1Zi5qcGc-1-800x450.webp 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/11/UzMBFQBpZmZyLmZpb25hLW9ubGluZS5uZXQ0AGF0dGFjaG1lbnRzL2ZmMGMyZGYyLWQ4N2ItNDFlYi05YzgxLTlhN2ZiNDI1NTI1Zi5qcGc-1-1024x576.webp 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/11/UzMBFQBpZmZyLmZpb25hLW9ubGluZS5uZXQ0AGF0dGFjaG1lbnRzL2ZmMGMyZGYyLWQ4N2ItNDFlYi05YzgxLTlhN2ZiNDI1NTI1Zi5qcGc-1-768x432.webp 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/11/UzMBFQBpZmZyLmZpb25hLW9ubGluZS5uZXQ0AGF0dGFjaG1lbnRzL2ZmMGMyZGYyLWQ4N2ItNDFlYi05YzgxLTlhN2ZiNDI1NTI1Zi5qcGc-1-1536x864.webp 1536w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/11/UzMBFQBpZmZyLmZpb25hLW9ubGluZS5uZXQ0AGF0dGFjaG1lbnRzL2ZmMGMyZGYyLWQ4N2ItNDFlYi05YzgxLTlhN2ZiNDI1NTI1Zi5qcGc-1-1200x675.webp 1200w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/11/UzMBFQBpZmZyLmZpb25hLW9ubGluZS5uZXQ0AGF0dGFjaG1lbnRzL2ZmMGMyZGYyLWQ4N2ItNDFlYi05YzgxLTlhN2ZiNDI1NTI1Zi5qcGc-1.webp 2048w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 984px) 61vw, (max-width: 1362px) 45vw, 600px" /><figcaption id="caption-attachment-31862" class="wp-caption-text">O recorte de uma História específica do país e do própria filmografia de Bressane se dá pela presença de personagens como Gal Costa, Haroldo de Campos e Grande Otelo (Foto: TB Produções)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">O Cinema não se lembra como as enciclopédias e os dicionários, e também não se esquece como os </span><a href="https://olhave.com.br/2018/10/atlas-mnemosyne-busca-infinita-por-arquivar-imagens-e-pensamentos/"><span style="font-weight: 400;">arquivos</span></a><span style="font-weight: 400;">. Mais contempla, internamente, dentro de seus blocos de ações, o mundo que o rodeia. Especialmente, </span><i><span style="font-weight: 400;">A Longa Viagem do Ônibus Amarelo </span></i><span style="font-weight: 400;">faz que, mesmo dispondo-se de títulos de linguagem cinematográfica complexa e sofisticada, os filmes apenas sejam pares de olhos comuns descobrindo novas paisagens e combinações de sentido, numa viagem-captura em que até mesmo o que não pertence ao espectador – a História íntima – desperte o esplendor. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Os rastros de uma montagem que beira o caráter confessional, expondo as obsessões estéticas e conceituais da grande autoria de Júlio Bressane, situa além de um caráter ontológico do Cinema, em que o silêncio inaugura a obra. Como um preâmbulo aos sentidos imagináveis, uma elegia não a suas seis décadas de produção, mas à memória registrada e seu suporte, como a vida, tão efêmera, mas ao mesmo tempo eterna, na forma de Arte.</span></p>
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		<title>Não há nada de vazio em um Domingo à Tarde</title>
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		<pubDate>Fri, 10 Nov 2023 12:15:56 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p>Guilherme Machado Leal A metalinguagem é uma das formas de se contar histórias no audiovisual. A partir dela, discussões sobre a arte dentro da arte são inúmeras e não possuem uma maneira específica de abordagem. Por exemplo, em Pânico 3, os personagens gravam um filme slasher enquanto vivenciam o subgênero em suas vidas pessoais. As &#8230; <a href="http://personaunesp.com.br/o-vazio-de-domingo-a-tarde-critica/" class="more-link">Continue lendo<span class="screen-reader-text"> "Não há nada de vazio em um Domingo à Tarde"</span></a></p>
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										<content:encoded><![CDATA[<figure id="attachment_31803" aria-describedby="caption-attachment-31803" style="width: 1999px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-full wp-image-31803" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/11/image2-1.png" alt="Cena do filme O Vazio de Domingo à Tarde. Na imagem, Gisele Frade, uma mulher branca que interpreta Mônica, retira a  maquiagem em frente a um espelho com moldura branca. Ao lado direito do espelho, há fotos do rosto de Mônica com hematomas. Além disso, há uma taça de vidro e um demaquilante para a remoção da maquiagem na mesa em que a personagem está. " width="1999" height="961" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/11/image2-1.png 1999w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/11/image2-1-800x385.png 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/11/image2-1-1024x492.png 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/11/image2-1-768x369.png 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/11/image2-1-1536x738.png 1536w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/11/image2-1-1200x577.png 1200w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 1362px) 62vw, 840px" /><figcaption id="caption-attachment-31803" class="wp-caption-text">O longa-metragem, presente na 47ª Mostra Internacional de Cinema, marca a estreia de Gisele Frade como atriz nas telonas (Foto: André Carvalheira)</figcaption></figure>
<p><b>Guilherme Machado Leal</b></p>
<p><span style="font-weight: 400;">A metalinguagem é uma das formas de se contar histórias no audiovisual. A partir dela, discussões sobre a arte dentro da arte são inúmeras e não possuem uma maneira específica de abordagem. Por exemplo, em </span><a href="https://personaunesp.com.br/panico-6-critica/"><i><span style="font-weight: 400;">Pânico</span></i><span style="font-weight: 400;"> 3</span></a><span style="font-weight: 400;">, os personagens gravam um filme </span><i><span style="font-weight: 400;">slasher</span></i><span style="font-weight: 400;"> enquanto vivenciam o subgênero em suas vidas pessoais. As narrativas autorreferenciais são importantes porque tiram o foco do exterior e priorizam o processo de criação em detrimento à finalidade dele. É nesse lugar que </span><i><span style="font-weight: 400;">O Vazio de Domingo à Tarde</span></i><span style="font-weight: 400;">, dirigido por </span><a href="https://www.gustavogalvao.com/"><span style="font-weight: 400;">Gustavo Galvão</span></a><span style="font-weight: 400;">, se encontra. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">O longa, que estreou na seção Mostra Brasil da </span><a href="https://personaunesp.com.br/tag/mostra-internacional-de-cinema-em-sao-paulo/"><span style="font-weight: 400;">47ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo</span></a><span style="font-weight: 400;">, acompanha a história de Mônica (Gisele Frade), uma atriz conturbada com a sua carreira e vida pessoal, que se entrelaçam e a tornam uma só. Tendo como ponto de partida a sua relação com o trabalho, a personagem trava uma batalha interna entre o seu eu pessoal e o lugar de prestígio que ocupa no imaginário daqueles que a admiram. Nesse sentido, ao mesmo tempo em que a protagonista passa por essa jornada, Kelly (Ana Eliza Chaves), uma adolescente que almeja o estrelato, possui a artista como inspiração e fará de tudo para entrar no mundo da atuação.</span></p>
<p><span id="more-31801"></span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Ao concentrar o foco narrativo em duas tramas, Gustavo Galvão e </span><a href="https://mulhernocinema.com/entrevistas/cristiane-oliveira-sobre-a-primeira-morte-de-joana-me-interessa-investigar-o-que-se-da-na-intimidade/"><span style="font-weight: 400;">Cristiane Oliveira</span></a><span style="font-weight: 400;">, escritores do filme, discutem as perspectivas da fama em diferentes etapas da vida. Mônica está cansada dos roteiros genéricos que recebe: a comédia pastelão e o melodrama exacerbado em novelas não são mais agradáveis ao seu olhar. Ela quer um divisor de águas em sua carreira, algo que a afirme como atriz. De maneira semelhante, a jovem do interior de Goiás é metaforicamente a versão crua e despreparada da veterana, mostrando aos espectadores o lado obscuro e nada romantizado do que é ser ator.</span></p>
<figure id="attachment_31805" aria-describedby="caption-attachment-31805" style="width: 750px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-full wp-image-31805" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/11/image4.png" alt="Cena do filme O Vazio de Domingo à Tarde. Na imagem, Ana Eliza Chaves, mulher branca e intérprete da personagem Kelly, está apreensiva e sentada de frente para uma pessoa em um galpão abandonado. " width="750" height="360" /><figcaption id="caption-attachment-31805" class="wp-caption-text">O Vazio de Domingo à Tarde é o primeiro filme da carreira promissora de Ana Eliza Chaves, graduanda em Audiovisual pela Universidade de Brasília (UNB) (Foto: André Carvalheira)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">Ambientado no centro-oeste brasileiro, o longa ganha destaque por sair do eixo São Paulo-Rio e, dessa forma, levar o público a conhecer uma outra faceta do </span><a href="https://www.itaucultural.org.br/secoes/colunistas/cinema-brasileiro-desafio-chegar-grande-publico"><span style="font-weight: 400;">Cinema nacional</span></a><span style="font-weight: 400;">. Com a produção também realizada aos arredores da região, a fotografia de André Carvalheira capta com maestria tanto as paisagens naturais &#8211; a vegetação do cerrado, por exemplo &#8211; quanto às locações urbanas: Brasília, mais especificamente a Universidade de Brasília (UNB), que serviu como cenário para a trama. Além disso, os momentos de aflição vividos pelas protagonistas são devidamente compreendidos através do jogo de cores </span><i><span style="font-weight: 400;">neon</span></i><span style="font-weight: 400;"> que compõem a direção de arte.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">O que torna </span><i><span style="font-weight: 400;">O Vazio de Domingo à Tarde</span></i><span style="font-weight: 400;"> tão único no tema que aborda é a sua independência, dentro e fora das câmeras. Os roteiristas não poupam críticas aos acontecimentos que marcaram o país nos últimos anos: a </span><a href="https://www.brasildefato.com.br/2021/09/30/gestao-da-cultura-do-governo-bolsonaro-e-considerada-a-pior-das-ultimas-decadas-dizem-artistas"><span style="font-weight: 400;">desvalorização</span></a><span style="font-weight: 400;"> da cultura no governo de Jair Bolsonaro, uma piada inteligente com o jeito Record de contar histórias e o modo como as gravações de uma novela são exaustivas para os atores são algumas das feridas que o longa toca em 94 minutos. Pela sua autonomia, tais reflexões tiram o espectador da sua concepção do que é o audiovisual brasileiro. Assim, a metalinguagem assume um papel de fio-condutor da história, mas também serve como um chamariz para despertar curiosidade em uma trama inicialmente simples, mas substancial em sua totalidade.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Ainda que seja um filme essencialmente dramático, a obscuridade e a morbidez dão um tom especial para o gênero ao ter cenas desconfortáveis e angustiantes, o caracterizando como uma espécie de suspense a partir das experiências traumáticas pelas quais as personagens passam. Por esse lado, no terceiro ato, Mônica atinge o ápice do seu desgaste artístico ao ser colocada em um </span><a href="https://www.uol.com.br/splash/noticias/2022/05/10/atriz-do-filme-azul-e-a-cor-mais-quente-diz-que-gravacoes-foram-insanas.htm"><span style="font-weight: 400;">método desumano</span></a><span style="font-weight: 400;"> de atuação por um diretor sádico, mas ‘talentoso’. Interpretado por Roberto Salerno de Oliveira, o personagem mostra que, para estar no topo, esse mundo exige o abandono da individualidade em nome da arte. O problema é que, no final do dia, antes de serem ícones, personagens, todos possuem limites. E a falta deles implica, infelizmente, na perda de sua humanidade.</span></p>
<figure id="attachment_31802" aria-describedby="caption-attachment-31802" style="width: 1999px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-full wp-image-31802" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/11/image1-1.png" alt="Cena do filme O Vazio de Domingo à Tarde. Na imagem, Gisele Frade, uma mulher branca que interpreta Mônica e Erom Cordeiro, homem branco que interpreta Celso, estão cabisbaixos. Ele olha tristemente para baixo enquanto ela o conforta, com as mãos em seus ombros." width="1999" height="999" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/11/image1-1.png 1999w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/11/image1-1-800x400.png 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/11/image1-1-1024x512.png 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/11/image1-1-768x384.png 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/11/image1-1-1536x768.png 1536w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/11/image1-1-1200x600.png 1200w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 1362px) 62vw, 840px" /><figcaption id="caption-attachment-31802" class="wp-caption-text">Nem a relação com o marido Celso (Erom Cordeiro) consegue fazer com que Mônica se afaste da obsessão pela carreira (Foto: André Carvalheira)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">Apostando em um protagonismo 100% feminino, as atuações são o ponto de maior destaque do longa-metragem. A partir do trabalho de Gisele Frade (</span><i><span style="font-weight: 400;">Chiquititas</span></i><span style="font-weight: 400;">), o inferno vivido no consciente de uma estrela consagrada é analisado sob uma perspectiva real e condizente com as desvantagens que a exposição midiática traz. Carismática, agenciada por um bom profissional de relações públicas e amável não são modos de caracterizar a personagem principal, e isso é bom, pois desmistifica </span><a href="https://doutorjairo.com.br/leia/fa-ou-obsessao-entenda-sindrome-de-adoracao-celebridades/"><span style="font-weight: 400;">o culto à imagem</span></a><span style="font-weight: 400;"> do artista. Ao mesmo tempo em que a câmera é o lugar de evidência do talento de um ator, ela também é o registro diário de todos os seus atos, sejam eles morais ou não, levando ao questionamento interno de Mônica: “</span><i><span style="font-weight: 400;">o que sou eu e o que é a minha personagem?</span></i><span style="font-weight: 400;">”.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Além disso, a inocência de Kelly cruza com o caminho obscuro do jogo de poder típico da relação entre produtores e atores em começo de carreira. As atitudes da jovem possuem um objetivo final: ser aclamada como uma grande estrela. Toda a exaustão de Mônica com as injustiças do meio cultural são equiparados à determinação da adolescente em adentrar ao mesmo cenário. É como se a menina a entendesse e desejasse tudo aquilo que a veterana lutou tanto para ter. Se ao assistir a </span><a href="https://personaunesp.com.br/x-ti-west-critica/"><i><span style="font-weight: 400;">X</span></i></a><span style="font-weight: 400;"> e </span><a href="https://personaunesp.com.br/pearl-critica/"><i><span style="font-weight: 400;">Pearl</span></i></a><span style="font-weight: 400;"> fica claro que Maxine é uma extensão de Pearl, em </span><i><span style="font-weight: 400;">O Vazio de Domingo à Tarde</span></i><span style="font-weight: 400;">, o efeito é parecido. Unidas por um bem maior (o prestígio), a ambição de uma complementa a da outra, retroalimentando esse beco sem saída, ou melhor, as dificuldades de ser um artista.</span></p>
<figure id="attachment_31804" aria-describedby="caption-attachment-31804" style="width: 1080px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-full wp-image-31804" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/11/image3.png" alt="Foto de uma cena do filme O Vazio de Domingo à Tarde. Na imagem, Gisele Frade, uma mulher branca, está gravando uma cena de sua personagem Mônica." width="1080" height="720" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/11/image3.png 1080w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/11/image3-800x533.png 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/11/image3-1024x683.png 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/11/image3-768x512.png 768w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 1362px) 62vw, 840px" /><figcaption id="caption-attachment-31804" class="wp-caption-text">Enquanto uma não aguenta mais a câmera, a outra faz de tudo para ser vista (Foto: Thaís Mallon)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">Domingos acontecem em todas semanas, mas são passageiros. A sua serenidade convive lado a lado ao frenesi de uma rotina a ser seguida nos dias posteriores, assim como, indubitavelmente, a vida de uma estrela. A calmaria não faz parte do mundo dessas pessoas e tampouco ajudará em seu trabalho. Na verdade, ela pode até aparecer, mas será passageira. Em uma visão mais pessimista, poucos irão alcançar o estado de plenitude e o estrelato, pois são ideias contrastantes. </span><i><span style="font-weight: 400;">O Vazio de Domingo à Tarde</span></i><span style="font-weight: 400;"> de forma alguma é raso. Pelo contrário, ele possui </span><a href="https://www.correiobraziliense.com.br/diversao-e-arte/2023/10/5135671-cinema-brasiliense-e-destaque-em-festivais-e-em-premiacoes.html"><span style="font-weight: 400;">identidade</span></a><span style="font-weight: 400;">, cara e coração.</span></p>
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