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	<title>Arquivos Umberto Eco &#8211; Persona | Jornalismo Cultural</title>
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	<description>Desde 2015 provando que a distância entre Bergman, Lady Gaga e a novela das 9 nem existe.</description>
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		<title>Ficções: a obra aberta de Jorge Luis Borges</title>
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		<pubDate>Mon, 14 Jun 2021 13:37:19 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p>Bruno Andrade Nos círculos literários, os autores são geralmente mensurados por seus romances. O tempo demandado, a prosa, a estética, o intuito, tudo isso é levado em consideração. Mas diferente dos romances — e parafraseando Julio Cortázar —, os contos não vencem por pontos, e sim por nocaute. Mesmo sem nunca ter escrito um romance, &#8230; <a href="http://personaunesp.com.br/jorge-luis-borges-morte-35-anos/" class="more-link">Continue lendo<span class="screen-reader-text"> "Ficções: a obra aberta de Jorge Luis Borges"</span></a></p>
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										<content:encoded><![CDATA[<figure id="attachment_21199" aria-describedby="caption-attachment-21199" style="width: 957px" class="wp-caption alignnone"><img fetchpriority="high" decoding="async" class="size-full wp-image-21199" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/06/IMAGEM1.jpg" alt="Foto em preto e branco do escritor Jorge Luis Borges. Ele é um homem caucasiano, de cabelos brancos, veste terno preto, camisa branca e gravata preta. Ele mantém a cabeça ereta, enquanto olha para a frente" width="957" height="918" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/06/IMAGEM1.jpg 957w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/06/IMAGEM1-800x767.jpg 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/06/IMAGEM1-768x737.jpg 768w" sizes="(max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 1362px) 62vw, 840px" /><figcaption id="caption-attachment-21199" class="wp-caption-text">Ficções é considerado um dos livros mais importantes na carreira do escritor argentino, que faleceu há 35 anos (Foto: Ferdinando Scianna/Magnum Photos)</figcaption></figure>
<p><b>Bruno Andrade</b></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Nos círculos literários, os autores são geralmente mensurados por seus romances. O tempo demandado, a prosa, a estética, o intuito, tudo isso é levado em consideração. Mas diferente dos romances — e parafraseando </span><a href="https://personaunesp.com.br/todos-os-fogos-o-fogo-escrita-abrasadora-cortazar/"><span style="font-weight: 400;">Julio Cortázar</span></a><span style="font-weight: 400;"> —, os contos não vencem por pontos, e sim por nocaute. Mesmo sem nunca ter escrito um romance, Jorge Luis Borges figura na lista dos maiores escritores de todos os tempos. Falecido em 14 de junho de 1986, a morte do autor completa 35 anos.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Borges nasceu em 24 de agosto de 1899 — fato que permitiu ao escritor classificar-se como </span><i><span style="font-weight: 400;">“um homem do século 19”</span></i><span style="font-weight: 400;"> —, em Buenos Aires. Antes de aprender o espanhol, foi alfabetizado em inglês. Começou sua carreira como poeta, publicando seu primeiro livro, </span><i><span style="font-weight: 400;">Fervor de Buenos Aires</span></i><span style="font-weight: 400;">, em 1923. Depois publicou ensaios e, mais tarde, em 1935, publicou sua primeira coleção de contos, </span><a href="https://deusmelivro.com/critica/historia-universal-da-infamia-jorge-luis-borges-15-4-2015/#.YLpq3oWSnDc"><i><span style="font-weight: 400;">História universal da infâmia</span></i></a><i><span style="font-weight: 400;">. </span></i><span style="font-weight: 400;">A obra que daria projeção internacional ao autor seria publicada em 1944, cujo nome não poderia ser mais apropriado:</span> <a href="https://recortelirico.com.br/2016/11/ficcoes-de-jorge-luis-borges/"><i><span style="font-weight: 400;">Ficções</span></i></a><i><span style="font-weight: 400;">.</span></i></p>
<p><span id="more-21197"></span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">O título do livro já demanda interpretações. Sabe-se que, em literatura, a ficção não é sinônimo de mentira. Trata-se de um relato pessoal, muitas vezes realista, sobre determinados temas e assuntos que só expressam verdade dentro do texto. Portanto, desde o início, Borges anuncia que o livro não é um relato fidedigno, mas uma alusão à forma literária. A grandiosidade dos contos de Jorge Luis Borges está justamente na habilidade de transformar em fantástico — através dos gêneros narrativos — aquilo que nos passa despercebido. A ficção em Borges está fantasiada de veracidade.</span></p>
<figure id="attachment_21201" aria-describedby="caption-attachment-21201" style="width: 683px" class="wp-caption alignnone"><img decoding="async" class="wp-image-21201 size-large" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/06/IMAGEM2-683x1024.jpg" alt="Arte da capa brasileira do livro Ficções. A capa contém formas triangulares na cor preta e na cor vermelha. O título do livro, nome do autor e marca da editora estão na cor branca" width="683" height="1024" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/06/IMAGEM2-683x1024.jpg 683w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/06/IMAGEM2-534x800.jpg 534w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/06/IMAGEM2-768x1152.jpg 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/06/IMAGEM2-1024x1536.jpg 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/06/IMAGEM2-1366x2048.jpg 1366w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/06/IMAGEM2-1200x1799.jpg 1200w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/06/IMAGEM2.jpg 1654w" sizes="(max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 984px) 61vw, (max-width: 1362px) 45vw, 600px" /><figcaption id="caption-attachment-21201" class="wp-caption-text">Capa da edição brasileira, publicada pela Companhia das Letras em 2007, com tradução de Davi Arrigucci Júnior (Foto: Companhia das Letras)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">A obra de Jorge Luis Borges é, atualmente, publicada pela editora </span><i><span style="font-weight: 400;">Companhia das Letras</span></i><span style="font-weight: 400;">, e os livros </span><i><span style="font-weight: 400;">Ficções </span></i><span style="font-weight: 400;">e </span><a href="http://www.blogletras.com/2019/08/a-descoberta-da-realidade-em-o-aleph-de.html"><i><span style="font-weight: 400;">O Aleph</span></i></a> <span style="font-weight: 400;">(outro livro importante em sua carreira) foram traduzidos por Davi Arrigucci Jr.. O livro é constituído por 16 contos, conhecidos pela profundidade filosófica, e divididos em duas partes. A primeira, </span><i><span style="font-weight: 400;">O jardim de veredas que se bifurcam</span></i><span style="font-weight: 400;">, foi publicada isoladamente em 1941. A segunda, </span><i><span style="font-weight: 400;">Artifícios, </span></i><span style="font-weight: 400;">era inédita até a publicação da coletânea em 1944. Os contos, embora distintos, oferecem certa coesão nos temas: espelhos, labirintos, memória, eternidade e o tempo. A perplexidade de Borges diante das ficções do imposto mundo real pode ser identificada logo no primeiro prólogo (Borges era conhecido por seus prólogos e chegou a publicar uma coletânea deles; </span><i><span style="font-weight: 400;">Ficções </span></i><span style="font-weight: 400;">possui dois), no qual escreve: “</span><i><span style="font-weight: 400;">Desvario trabalhoso e empobrecedor o de compor vastos livros; o de espraiar em quinhentas páginas uma ideia cuja perfeita exposição oral cabe em poucos minutos”</span></i><span style="font-weight: 400;">.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">O argentino é considerado por muitos um autor pós-moderno, e, embora não se tenha clareza, uma das problemáticas da pós-modernidade é a suposição de que não existem novidades. Há certa sensação de que tudo foi criado, e, portanto, não há mais obras originais. Nesse ponto de vista, Jorge Luis Borges se aproveita da banal realidade cotidiana e enxerga nela o mítico, acrescentando à rotina características fantásticas. Entre as muitas realidades míticas presentes nos contos borgianos, </span><a href="https://www.planocritico.com/critica-tlon-uqbar-orbis-tertius-de-jorge-luis-borges/"><i><span style="font-weight: 400;">Tlön, Uqbar, Orbis Tertius</span></i></a> <span style="font-weight: 400;">— primeiro conto da coletânea — questiona se algo realmente existe sem que alguém o perceba. No conto, </span><i><span style="font-weight: 400;">Tl</span></i><i><span style="font-weight: 400;">ön </span></i><span style="font-weight: 400;">é um mundo imaginário — encontrado por Borges em uma enciclopédia —, onde os habitantes reconhecem apenas o que é visível e negam qualquer realidade oculta. Mais do que um princípio religioso, o conto discute a percepção, pois, na obra do autor, a realidade possui uma essência onírica. </span></p>
<figure id="attachment_21198" aria-describedby="caption-attachment-21198" style="width: 1195px" class="wp-caption alignnone"><img decoding="async" class="size-full wp-image-21198" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/06/IMAGEM3.png" alt="Foto em preto e branco do escritor Jorge Luis Borges. Ele é um homem de cabelos brancos, veste terno e gravata, e está sentado em uma cadeira enquanto segura uma bengala. Está com a cabeça inclinada para trás, olhando para cima" width="1195" height="1259" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/06/IMAGEM3.png 1195w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/06/IMAGEM3-759x800.png 759w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/06/IMAGEM3-972x1024.png 972w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/06/IMAGEM3-768x809.png 768w" sizes="(max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 1362px) 62vw, 840px" /><figcaption id="caption-attachment-21198" class="wp-caption-text">Borges começou a ficar cego na infância, devido a uma degeneração genética herdada do pai; esse fator foi decisivo para sua obra (Foto: Ferdinando Scianna/Magnum Photos)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">Adolfo Bioy Casares, escritor e amigo de Borges, escreve no prólogo de </span><a href="http://jornalismojunior.com.br/antologia-da-literatura-fantastica/"><i><span style="font-weight: 400;">Antologia da Literatura Fantástica</span></i></a> <span style="font-weight: 400;">(1940) — coletânea de contos fantásticos feita em colaboração com Silvina Ocampo e com o próprio Borges — que ele </span><i><span style="font-weight: 400;">“criou um novo gênero literário, que partilha do ensaio e da ficção”</span></i><span style="font-weight: 400;">. Desde suas primeiras publicações, o escritor impôs o desconcerto e a dúvida, nos fazendo questionar se a obra recém-lida é realmente uma ficção ou um ensaio literário. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">À moda de Hemingway, os contos de </span><i><span style="font-weight: 400;">Ficções</span></i><span style="font-weight: 400;"> tem precisão milimétrica, como se fossem encaixados peça por peça. Em </span><i><span style="font-weight: 400;">A Biblioteca de Babel</span></i><span style="font-weight: 400;">, o autor apresenta um paradoxo. A linguagem é um instrumento universal, mas não pode resumir todas as experiências da vida, que, muitas vezes, dependem exclusivamente de nossas interpretações. A biblioteca nada mais é do que o universo, dado que, no conto, o mundo é concebido através dela. Os bibliotecários buscam alguém que consiga compreender todas as obras presentes na biblioteca, o que poderíamos enxergar como um deus. Se analisarmos pela teoria do filósofo </span><a href="https://personaunesp.com.br/obra-ficcional-umberto-eco-historia-ignorancia/"><span style="font-weight: 400;">Umberto Eco</span></a><span style="font-weight: 400;"> — que, inclusive, criou um personagem em </span><i><span style="font-weight: 400;">O nome da rosa </span></i><span style="font-weight: 400;">(1980) chamado Jorge de Burgos, em homenagem a Borges —, lembramos de seu conceito de obra aberta. Tendo como horizonte o </span><a href="https://personaunesp.com.br/bloomsday-desafio-ulysses/"><i><span style="font-weight: 400;">Finnegans Wake, </span></i><span style="font-weight: 400;">de James Joyce</span></a><span style="font-weight: 400;">, Eco diz que a obra de arte contemporânea é aberta a interpretações, e seu conceito remete justamente à noção de infinitude do texto literário. A experiência literária está refém das experiências pessoais do leitor, e não pode conceber uma interpretação exata.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Em 1961, Borges venceu com Samuel Beckett o Prêmio</span><i><span style="font-weight: 400;"> Formentor de las Letras </span></i><span style="font-weight: 400;">pela publicação de </span><i><span style="font-weight: 400;">Ficções. </span></i><span style="font-weight: 400;">Para o autor, esse foi o momento decisivo para sua fama internacional. Fato é que sua influência na literatura é inegável, criando, para alguns críticos, um momento de ruptura — um </span><i><span style="font-weight: 400;">“antes e depois”</span></i><span style="font-weight: 400;"> de sua obra. O escritor chileno Roberto Bolaño disse, em entrevista, que seus livros derivam de </span><i><span style="font-weight: 400;">“uma dívida eterna com Jorge Luis Borges e Julio Cortázar”</span></i><span style="font-weight: 400;">. Para </span><a href="https://personaunesp.com.br/utopia-da-realidade-horrenda-ainda-nos-restam-50-anos-de-solidao/"><span style="font-weight: 400;">Gabriel García Marquez</span></a><span style="font-weight: 400;">, vencedor do Prêmio Nobel de Literatura, a obra do autor o intimidava pela sua genialidade. O norte-americano </span><a href="http://personaunesp.com.br/graca-infinita-critica/"><span style="font-weight: 400;">David Foster Wallace</span></a><span style="font-weight: 400;"> também foi influenciado por Borges e chegou a resenhar para o </span><a href="https://www.nytimes.com/2004/11/07/books/review/borges-on-the-couch.html"><i><span style="font-weight: 400;">The New York Times</span></i></a> <span style="font-weight: 400;">sua biografia. </span></p>
<figure id="attachment_21200" aria-describedby="caption-attachment-21200" style="width: 1600px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-full wp-image-21200" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/06/IMAGEM4-1.jpg" alt="Foto do escritor Jorge Luis Borges e do escritor Adolfo Bioy Casares. Os dois são homens caucasianos de cabelos brancos, estão sentados em cadeiras de madeira, vestem terno e gravata, e algumas pessoas estão em volta. Jorge Luis Borges veste um terno preto e segura uma bengala, enquanto Adolfo Bioy Casares veste um terno cinza claro, utiliza um suéter verde por cima da camisa e mantém o braço direito sobre uma mesa de madeira. Ao fundo, alguns livros estão em uma estante" width="1600" height="817" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/06/IMAGEM4-1.jpg 1600w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/06/IMAGEM4-1-800x409.jpg 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/06/IMAGEM4-1-1024x523.jpg 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/06/IMAGEM4-1-768x392.jpg 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/06/IMAGEM4-1-1536x784.jpg 1536w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/06/IMAGEM4-1-1200x613.jpg 1200w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 1362px) 62vw, 840px" /><figcaption id="caption-attachment-21200" class="wp-caption-text">Jorge Luis Borges e Adolfo Bioy Casares tinham um projeto literário extremamente racional, acompanhado de muitas correções e edições, mas que aparentava casualidade por seu ar fantástico (Foto: Reprodução)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">Outro grande admirador da obra borgiana foi o crítico norte-americano </span><a href="https://personaunesp.com.br/macbeth-ambicao-sangue-furia/"><span style="font-weight: 400;">Harold Bloom</span></a><span style="font-weight: 400;">, e escreveu que, no trabalho do argentino, </span><i><span style="font-weight: 400;">“a perda foi sempre a ênfase criativa [&#8230;]: só se pode perder aquilo que nunca se teve, é esse o refrão que se encontra ao longo de toda a sua obra”</span></i><span style="font-weight: 400;">. Esse comentário faz alusão a cegueira de Borges — um dos fatores cruciais para entender a dimensão de seus contos —, que ocorreu gradualmente em decorrência de uma doença hereditária. Aos 55 anos já estava completamente cego, e as obras publicadas após a cegueira foram narradas pelo autor e transcritas pela mãe ou pela esposa, María Kodama. Em entrevista concedida a Roberto d’Ávila para a TV brasileira, um ano antes de morrer, Borges diz que ficar cego </span><i><span style="font-weight: 400;">“é incômodo, mas sendo gradual não é trágico”</span></i><span style="font-weight: 400;">. Na ocasião, o escritor completa dizendo que nasceu ficando cego, e perdeu completamente a visão quando aprendeu a enxergar.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Muitas vezes, os leitores se perdem no encanto dos temas abordados por Jorge Luis Borges, e deixa-se passar que sua prosa é considerada uma das melhores do século XX — mérito defensável através do tradutor. Como o autor aponta nos dois prólogos do livro, o foco está na maneira de narrar e em suas formas. Borges anuncia que </span><i><span style="font-weight: 400;">O jardim de veredas que se bifurcam </span></i><span style="font-weight: 400;">é um conto policial, bem como em </span><i><span style="font-weight: 400;">Exame da obra de Herbert Quain </span></i><span style="font-weight: 400;">encontram-se notas sobre um livro imaginário. Essa transição entre gêneros, muitas vezes dentro do mesmo conto, demonstra a maestria do autor.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Com mais de 75 anos desde sua publicação, </span><i><span style="font-weight: 400;">Ficções </span></i><span style="font-weight: 400;">ainda cativa e estimula diversos leitores por sua dimensão filosófica e construção concisa. A obra do autor — que chegou a influenciar Michel Foucault, conforme o próprio escreveu no prefácio de </span><i><span style="font-weight: 400;">As palavras e as coisas </span></i><span style="font-weight: 400;">(1966) — continua despertando curiosidade e estranheza. Borges apontou para os caminhos que se bifurcam, e nos ensinou a questionar todas as possibilidades — ele foi todos, e nenhum.</span></p>
<div class="jetpack-video-wrapper"><iframe loading="lazy" title="Entrevista de Jorge Luis Borges" width="840" height="473" src="https://www.youtube.com/embed/8VZ-ykJARhs?feature=oembed" frameborder="0" allow="accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share" referrerpolicy="strict-origin-when-cross-origin" allowfullscreen></iframe></div>
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		<title>Batman vs Superman: Uma lição de Umberto Eco sobre os mitos contemporâneos</title>
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		<pubDate>Wed, 23 Mar 2016 22:06:52 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p>Eli Vagner F. Rodrigues A estreia da semana “Batman vs Superman” consolida tanto a disputa DC vs Marvel no calendário anual dos blockbusters derivados dos quadrinhos quanto recoloca em cena dois dos mais lucrativos heróis da história do cinema. O filme, mais uma vez, vai dividir o público, não somente entre os que torcerão para &#8230; <a href="http://personaunesp.com.br/batman-x-superman-licao-umberto-eco-sobre-mitos-contemporaneos/" class="more-link">Continue lendo<span class="screen-reader-text"> "Batman vs Superman: Uma lição de Umberto Eco sobre os mitos contemporâneos"</span></a></p>
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										<content:encoded><![CDATA[<p><img loading="lazy" decoding="async" class="alignnone size-full wp-image-1267" src="https://criticapersona.files.wordpress.com/2016/03/foto-1.jpg" alt="foto 1" width="1298" height="863" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2016/03/foto-1.jpg 1298w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2016/03/foto-1-300x199.jpg 300w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2016/03/foto-1-768x511.jpg 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2016/03/foto-1-1024x681.jpg 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2016/03/foto-1-1200x798.jpg 1200w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 1362px) 62vw, 840px" /></p>
<p><strong>Eli Vagner F. Rodrigues</strong></p>
<p>A estreia da semana “<i>Batman vs Superman</i>” consolida tanto a disputa <i>DC</i> <i>vs</i> <i>Marvel</i> no calendário anual dos <i>blockbusters</i> derivados dos quadrinhos quanto recoloca em cena dois dos mais lucrativos heróis da história do cinema. O filme, mais uma vez, vai dividir o público, não somente entre os que torcerão para o homem-morcego, herói sem poderes adquiridos, que conta apenas com sua força humana, notável inteligência e obstinação e os que torcem para o virtuoso alienígena semideus, dotado de força quase ilimitada, poderes ultra-humanos.<span id="more-1253"></span></p>
<p>Além desta divisão características do universo dos fãs, prevemos uma divisão entre a crítica. De um lado os críticos que consideram os filmes de heróis um filão mais do que previsível, mero entretenimento sem inovações no campo da arte cinematográfica e de outro os que consideram o fenômeno uma atraente renovação no cenário da cultura contemporânea. Estes últimos consideram Christopher Nolan, Brian Singer e Zack Snyder, diretores cujas obras levaram o universo das artes sequenciais (quadrinhos) a um nível superior de expressão artística. A crítica negativa se baseia na suposta facilidade que estes diretores encontram ao trabalharem com esses “mitos modernos”, e com estórias que já foram “testadas” no mercado mundial das <i>Comics.</i> Na lógica deste mercado o público já estaria garantido há décadas e o exército de fãs faria a multiplicação de valor que se verifica nos dias de hoje, em todos os sentidos da palavra, seja econômico, seja estético. Se o fator econômico é indiscutível (lucro certo) a apreciação do valor estético sofre o influxo massivo das novas ondas culturais <i>geek, nerd, sci-fi,</i> <i>gamer</i>, que com a escalada exponencial da tecnologia e da informatização do mundo só tende a crescer. Existe um nexo entre o universo da tecnologia e da informática com o mundo da ciência e este, por sua vez, tem uma relação de consumo direto com o universo criativo representado pela ficção científica, ficção de fantasia, séries, quadrinhos, etc. As editoras que exploram estes filões editoriais dobraram seus títulos nos últimos anos. Este universo de fãs e novos leitores é mais crítico do que podemos pensar, mas a visão crítica não costuma superar o entusiasmo. A crítica, no caso, está mais ligada à lógica do “poderia ser mais fiel”, ou “distorceram a personagem”, característica dos fãs que querem afirmar seu conhecimento diante da legião de leigos.</p>
<p>Esta esperada controvérsia, e a divisão da crítica, inevitavelmente nos lembra o famoso livro de Umberto Eco “Apocalípticos e Integrados” que, injustamente, como o próprio autor ressalta, “tenta subsumir atitudes humanas, com toda sua variedade e seus matizes, sob dois conceitos genéricos e polêmicos”. Mas é também nesta obra que Eco dedica um longo e interessante capítulo ao mito do <i>Superman</i>, que pode nos interessar nesta semana de estreia.</p>
<p><img loading="lazy" decoding="async" class="alignnone size-full wp-image-1273" src="https://criticapersona.files.wordpress.com/2016/03/foto-2.jpg" alt="foto 2" width="1299" height="652" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2016/03/foto-2.jpg 1299w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2016/03/foto-2-300x151.jpg 300w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2016/03/foto-2-768x385.jpg 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2016/03/foto-2-1024x514.jpg 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2016/03/foto-2-1200x602.jpg 1200w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 1362px) 62vw, 840px" /></p>
<p><b>O mito do </b><b><i>Superman</i></b></p>
<p>Eco define a mitificação como uma simbolização incônscia, uma identificação do objeto com uma soma de finalidades nem sempre racionalizáveis, projeção de uma imagem de tendências, aspirações e temores particularmente emergentes num indivíduo, numa comunidade, em toda época histórica. Temos, portanto, nossos mitos. Mas ao mesmo tempo que temos mitificações em várias culturas e épocas, temos também o fenômeno da desmistificação. Quando falamos de desmistificação, explica Eco, nos referimos a todo processo de dissolução de um repertório simbólico institucionalizado, o que ocorreu, por exemplo, com alguns elementos da cristandade.</p>
<p>O <i>Superman</i> representa de maneira exemplar um mito moderno. O herói dotado de poderes superiores aos do homem comum é uma constante da imaginação popular. Hércules, Sigfried, Pantagruel e mesmo Peter Pan compõem, entre muitos outros, este conjunto de projeções humanas. O que se nota em todos estes heróis é que frequentemente suas virtudes se humanizam e o que se valoriza nas estórias seria a potencialização de algum poder meramente humano. No caso do <i>Superman</i> este poder está ligado às virtudes morais. A aproximação entre o herói e o leitor se dá no campo da possibilidade. O homem comum pode exercer a mesma virtude, aquela que dará o desfecho mais importante da história e ela, muitas vezes, não é baseada na força física ou em características supra-humanas. Outra característica destacada por Eco é que o <i>Superman</i> não é humano, é um alienígena, mas chegou à terra criança e foi criado (humanizado) por pais humanos, gente simples, do campo, honesta e virtuosa. No trabalho é um tanto atrapalhado, não tem projeção social relevante e é míope, apesar de ter uma visão de raio-X. Constrói-se um mito, também, pela identificação e aproximação. O indivíduo comum, funcionário, sem recursos, dotes e força, se identifica imediatamente. Vale dizer que boa parte do que é atribuído aqui ao <i>Superman</i> compõe a caracterização de <i>Batman</i> uma vez que o homem-morcego também é um importante mito deste universo. Criado por Bob Kane em 1939, incorpora uma imagem moral também bastante rigorosa e desenvolveu, sob a pena de vários roteiristas, uma espécie de coerência pragmática ao longo de 70 anos. O elemento que enriquece a caracterização da personagem é a complexidade psicológica determinada por traumas, personalidade obsessiva, e os limites entre sanidade, loucura e delírio. Hoje, depois de certo desgaste da personagem, parece sofrer de uma síndrome da dualidade herói-vilão e se vê quase obscurecido por seu arqui-inimigo Coringa, que em várias estórias, tanto dos quadrinhos como das adaptações para o cinema, notadamente constitui o foco dramático em detrimento do próprio herói.</p>
<p><img loading="lazy" decoding="async" class="alignnone size-full wp-image-1277" src="https://criticapersona.files.wordpress.com/2016/03/foto-3.jpg" alt="foto 3" width="530" height="298" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2016/03/foto-3.jpg 530w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2016/03/foto-3-300x169.jpg 300w" sizes="auto, (max-width: 530px) 85vw, 530px" /></p>
<p>Mas é em outro ponto que que Eco nos brinda com uma compreensão original, visto que até agora, basicamente, só repetimos o que é de conhecimento de todos.</p>
<p>A personagem do herói mitológico característica da mitologia antiga é sempre identificado pelo que fez no passado. Sua caracterização, suas qualidades, seu perfil heroico está baseado na sua estória pregressa, suas realizações, seus feitos. Emblemática e didática é a figura de Hércules que era conhecido por suas façanhas (os doze trabalhos). Mas não é somente Hércules que carrega esta caracterização, Odisseu (Ulysses), Teseu, Perseu, Ariadne (porque não?), Ajax, Aquiles, até mesmo Édipo, samurais. Sobre estes heróis conta-se sempre a mesma estória, a saber a estória de seus feitos no passado. O curioso é que sempre ouvimos a mesma estória e revivemos o mito com interesse. Neste registro o herói tem como caracterização sempre as mesmas qualidades e ele deve revela-las no momento em que forem exigidas na trama. A característica do herói o define. Se Hércules perder a força ele deixa de ser Hércules, se deixar de ser um semideus ele não é mais o mesmo. Portanto o herói está preso a uma estrutura fixa. Eco denomina esta característica de uma “fixidez emblemática que o torna facilmente reconhecível”. O mesmo acontece com o super-heróis modernos. O <i>Superman</i> está preso em uma estrutura de comportamento e de poderes que determinam suas capacidades de ação e, portanto, as possibilidades da trama.</p>
<p><img loading="lazy" decoding="async" class="alignnone size-full wp-image-1280" src="https://criticapersona.files.wordpress.com/2016/03/foto-4.jpg" alt="foto 4" width="1200" height="520" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2016/03/foto-4.jpg 1200w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2016/03/foto-4-300x130.jpg 300w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2016/03/foto-4-768x333.jpg 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2016/03/foto-4-1024x444.jpg 1024w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 1362px) 62vw, 840px" /></p>
<p>Para Eco, no entanto, a personagem mitológica de quadrinhos encontra-se em uma situação singular:</p>
<p><em>“Ele deve ser um de arquétipo, a soma de determinadas aspirações coletiva e, portanto, deve necessariamente se imobilizar numa fixidez emblemática que o torne facilmente reconhecível, mas é comercializado em um âmbito de uma produção romanesca”.</em></p>
<p>Este âmbito da produção romanesca exige a novidade e o inaudito, o inesperado e a surpresa do roteiro. Os exemplos dados por Eco nos bastam para entender a lógica e estrutura da civilização do romance.</p>
<p>Quando os detetives descobrem o culpado (Sherlock Holmes, Agatha Christie), quando Javert paga sua dívida de gratidão à Jean Valjean (Os miseráveis), quando a aventura dos três mosqueteiros continua em <i>Vinte Anos Depois</i>, quando <i>Edmond Dantès, </i><i>O Conde de Monte cristo,</i> finaliza sua estória, assistimos um lance teatral cuja imprevisibilidade faz parte da invenção. Nesta tradição o interesse maior do leitor é deslocado para o que acontecerá e, portanto, para a invenção do enredo, que passa para primeiro plano. O acontecimento não aconteceu antes da narrativa, ocorre enquanto se narra e, muitas vezes, o autor, em certos momentos, não sabe o que acontecerá. Quando acompanhamos inúmeros desenlaces das estórias, muitas vezes inesperados, este truque dramático passa a ser esperado em outras obras. Este recurso parece viciar o leitor. Vale notar que a curiosidade é irmã do ato de consumo. Forma-se o cenário de sucesso da produção cultural romanesca. Consumimos novidades, surpresas, novas possibilidades de desfechos narrativos. O jogo determinado pelo consumo de produtos culturais e a surpresa, inovação ou novidade que ele proporciona, alimenta a mesmice cotidiana com alguma diferença momentânea. Por esta razão a palavra “<i>spoiler”</i> se tornou tão popular entre os adolescentes.</p>
<p>“O termo se refere a qualquer fragmento de uma fala, texto, imagem ou vídeo que se encarregue de fazer revelações de fatos importantes, ou mesmo, do próprio desfecho da trama de filmes, séries, desenhos animados, animações e animes, conteúdo televisivo, livros e videogames em que, na maioria das vezes, prejudicam ou arruínam a apreciação de tais obras pela primeira vez.”</p>
<p>O consumidor não quer <i>spoilers,</i> quer sentir a emoção da surpresa até o último momento, até a revelação. Neste ambiente o trailer ganhou uma versão mais enxuta, o <i>teaser</i>. O <i>Teaser</i> (em inglês &#8220;aquele que provoca&#8221; (provocante), do verbo tease, &#8220;provocar&#8221;) “é uma técnica usada em marketing para chamar a atenção para uma campanha publicitária, aumentando o interesse de um determinado público alvo a respeito de sua mensagem, por intermédio do uso de informações enigmáticas no início da campanha.” As “informações enigmáticas” incitam a curiosidade, esta é movida pelo novo, pela novidade, pela surpresa.</p>
<p>Todo este aperfeiçoamento do mercado está diretamente relacionado com a estrutura romanesca. Segundo Eco, essa nova dimensão da narrativa é contrabalanceada por uma “mitificabilidade” menor da personagem. “A personagem do mito assume uma personalidade   estética, uma capacidade de tornar-se termo de referência para comportamento e sentimentos que também pertencem a todos nós. ” O cinema incorporou facilmente esta lógica.</p>
<p>Estas características contraditórias entre a fixidez das personagens e a necessidade de novas estórias e desfechos, a novidade esperada pelo público, levou os roteiristas de quadrinhos a verdadeiros malabarismos criativos. Esta limitação deu um impulso à imaginação. Assim criaram-se universos paralelos, realidades virtuais, viagens no tempo, linhas temporais distintas, crossovers, arcos e sagas com realidades muito particulares. Esse fenômeno transformou o universo em questão em uma área de especialização. O público preguiçoso que acompanhava as tirinhas dos jornais não deixa de existir, mas surge também um público voraz, nada preguiçoso, de aficionados que se especializa. Os aficionados, os fãs (<i>fan-fanatic</i>) se dedicam integralmente ao seu objeto. Pode-se questionar a qualidade “literária” do que consomem, não sua dedicação ao objeto de culto.</p>
<p><img loading="lazy" decoding="async" class="alignnone size-full wp-image-1270" src="https://criticapersona.files.wordpress.com/2016/03/foto-5.jpg" alt="foto 5" width="1305" height="753" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2016/03/foto-5.jpg 1305w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2016/03/foto-5-300x173.jpg 300w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2016/03/foto-5-768x443.jpg 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2016/03/foto-5-1024x591.jpg 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2016/03/foto-5-1200x692.jpg 1200w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 1362px) 62vw, 840px" /></p>
<p>Mas voltemos a <i>Metrópolis</i>, ao <i>Daily Planet</i> e às estratégias romanescas de <i>hollywood</i> frente à fixidez dos mitos modernos.</p>
<p>A curiosidade que paira sobre a estreia da semana, pelo menos para o público que não conhece de antemão as estórias, sagas e arcos das HQs, além do nosso condicionamento de obrigatoriedade de consumo dos <i>blockbusters</i>, é algo que está relacionado com a análise de Umberto Eco. Boa parte do público pode ir ao cinema pensando em como dois heróis de caracterização moral tão rigorosa, e parecida, na construção de suas mitologias pessoais, poderiam entrar em conflito. O que deve ter ocorrido para que dois bons moços como Bruce Wayne e Clark Kent, vigilantes da justiça, entrem em conflito. Além disso paira, também, a curiosidade sobre como um mero mortal enfrentará um semideus. Em outras palavras, a novidade e a necessidade de reinvenção, neste caso, já está implícita no próprio título do filme.</p>
<p>&nbsp;</p>
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		<title>A obra ficcional de Umberto Eco e a História da Ignorância</title>
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		<pubDate>Fri, 22 Jan 2016 23:25:35 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Literatura]]></category>
		<category><![CDATA[Eli Vagner]]></category>
		<category><![CDATA[Umberto Eco]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Umberto Eco Eli Vagner F. Rodrigues A obra ficcional de Umberto Eco é conhecida por exigir do leitor um pouco mais do que uma visão mediana da cultura. Suas obras são elaboradas a partir de complexas referências do mundo das artes, filosofia, história e da própria literatura. O que torna a leitura fascinante também dificulta &#8230; <a href="http://personaunesp.com.br/obra-ficcional-umberto-eco-historia-ignorancia/" class="more-link">Continue lendo<span class="screen-reader-text"> "A obra ficcional de Umberto Eco e a História da Ignorância"</span></a></p>
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										<content:encoded><![CDATA[<p><img loading="lazy" decoding="async" class="alignnone size-full wp-image-131" src="https://criticapersona.files.wordpress.com/2016/01/eco.jpg" alt="eco" width="625" height="377" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2016/01/eco.jpg 625w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2016/01/eco-300x181.jpg 300w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 984px) 61vw, (max-width: 1362px) 45vw, 600px" /><em>Umberto Eco</em></p>
<p><strong>Eli Vagner F. Rodrigues</strong></p>
<p><span style="font-weight: 400;">A obra ficcional de Umberto Eco é conhecida por exigir do leitor um pouco mais do que uma visão mediana da cultura. Suas obras são elaboradas a partir de complexas referências do mundo das artes, filosofia, história e da própria literatura. O que torna a leitura fascinante também dificulta a interpretação. Esta característica e a reação do público (crítica e leitores) levou o autor a publicar o “</span><i><span style="font-weight: 400;">Pós-scriptum ao Nome da Rosa</span></i><span style="font-weight: 400;">”, espécie de bula para a elucidação de alguns aspectos da obra que se tornou um best-seller. Este traço de academicismo e erudição atrai milhares de leitores, no mundo todo, a cada lançamento de um de seus livros de ficção. O público encontra uma espécie de teste intelectual a cada página produzida pelo bruxo de Bologna.</span></p>
<p><span id="more-129"></span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">O jogo proposto por Eco a cada novo romance está baseado no pressuposto de que o leitor possui um bom conhecimento do que podemos denominar “a evolução do pensamento humano”, suas conquistas e progresso. Um aspecto curioso, porém, pode ser destacado a partir de uma leitura mais atenta de suas obras. Desde o primeiro romance “</span><i><span style="font-weight: 400;">Nome da Rosa”</span></i><span style="font-weight: 400;"> até o recente </span><i><span style="font-weight: 400;">“O Cemitério de Praga”</span></i><span style="font-weight: 400;"> e mesmo no recentíssimo “</span><i><span style="font-weight: 400;">Número Zero”</span></i><span style="font-weight: 400;">, um tema inusitado permeia as obras de Umberto Eco, a saber, a história da ignorância humana. Acostumados a tentar identificar as referências sobre as conquistas da inteligência em suas obras ficamos surpresos com um enfoque contrário ao que seria a história de nosso progresso intelectual. A tese de Eco, explicada em linhas gerais por Jean Claude Carriere na obra “</span><i><span style="font-weight: 400;">Não contem com o fim do livro”</span></i><span style="font-weight: 400;"> é a de que a história da ignorância é mais pródiga em exemplos, segmentos, objetos de análise e estudo, do que a história das conquistas intelectuais. Além disso, o estudo do erro, da ignorância, da superstição, do medo, é uma forma de estudar o próprio progresso. Em seu primeiro romance “</span><i><span style="font-weight: 400;">O Nome da Rosa”</span></i><span style="font-weight: 400;">, Eco contrapõe o método investigativo, característico da ciência e da criminologia, com um ambiente de superstição característico da alta idade média. O objetivo seria traçar um erudito panorama das crenças, superstições e teorias “científicas” da época, sob o pano de fundo da vida monástica, da contemplação filosófica e da opressão dogmática da igreja e da inquisição. A diversão a que se entrega o do chamado “leitor modelo”, que, assim como o monge detetive (Guilherme de Baskerville, clara homenagem à Guilherme de Ockam e à Artur Conan Doyle – O Cão dos Baskerville) persegue a verdade sobre os assassinatos, é desvendar não apenas os crimes, mas a história do dogmatismo e das heresias. O leitor é levado a uma busca pela iluminação intelectual assim como os personagens tentam se livrar das trevas da ignorância que está presente em cada cela monástica e em cada biblioteca proibida. Nesse sentido a obra se torna um desafio de conhecimento, um jogo de perguntas e respostas sobre a ignorância e o medo do conhecimento. Mas é também nas referências ao dogma, ao obscuro, e à pseudociência que se dá a experiência interpretativa do mundo. A interpretação do mundo passa necessariamente pela dualidade da tentativa e do erro.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">A segunda obra, “</span><i><span style="font-weight: 400;">O Pêndulo de Foucault”</span></i><span style="font-weight: 400;">, apela não somente para a ignorância dos personagens como mote para a compreensão do histórico intelectual humano, aborda diretamente a nossa suposta ignorância sobre a verdadeira história da humanidade, isto é, pela trama oculta que teria dado origem às instituições e fatos que, ignorantes das verdadeiras causas, atribuímos aos fatores conhecidos através da “história oficial”. Em outras palavras, Eco explora as teorias de conspiração, desta vez sob a ótica das sociedades secretas. Misticismo, Ocultismo e Iniciação dão acesso à outra compreensão da realidade. As três palavras estão sempre relacionadas com a história da ignorância, tanto do ponto de vista do ceticismo, que obviamente classifica toda a literatura e a prática destas artes “diabólicas” como fruto da ignorância, quanto do ponto de vista da suposta ignorância que a maioria (nós que não praticamos essas heresias) teria da verdadeira trama por trás da realidade cotidiana. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">O romance “</span><i><span style="font-weight: 400;">A Ilha do dia anterior”</span></i><span style="font-weight: 400;"> se baseia numa ignorância fundamental, a ideia de que o tempo pode ser espacial. Explico, no romance, nas ilhas Salomão e nas Ilhas Fiji, geograficamente distantes poucos metros, ao mesmo tempo vivem dias diferentes, numa o hoje, na outra o amanhã ou o ontem, dependendo da ilha. Os erros das línguas, a confusão da linguagem e a ciência do século XVI dá o pano de fundo da trama. Química é alquimia, a botânica ainda é incipiente, não tínhamos os modernos métodos de síntese, a astronomia ainda tem resquícios das teorias de Ptolomeu, a teologia se molda ao Aristotelismo, a cartografia é um terreno de imprecisões, a medicina não conhece os micro-organismos, a nossa ignorância sobre o mundo era maior que o conhecimento que possuíamos. Neste contexto a linguagem é pura polifonia, como destaca o tradutor da obra para o português, Marco Luchesi, “sobreposição, decomposição, dualidade, romance escrito em barroco”.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">“</span><i><span style="font-weight: 400;">Baudolino”, </span></i><span style="font-weight: 400;">quarto romance de sua carreira ficcional tem lugar especial nesta listagem e, a meu ver, antecipa o tema de “</span><i><span style="font-weight: 400;">O cemitério de praga</span></i><span style="font-weight: 400;">” em vários aspectos. O narrador (primeira pessoa) é um inventor de histórias (eufemismo para mentiroso) que molda a narrativa de acordo com sua consciência turva (algo bastante comum entre os humanos). Por toda a obra tem-se a sensação de que estamos sendo enganados pelo autor da história oficial. A tese que afirma que a história é contada pelos vencedores ganha ampla fundamentação ficcional neste exercício literário de Eco.</span></p>
<p><img loading="lazy" decoding="async" class=" size-full wp-image-136 aligncenter" src="https://criticapersona.files.wordpress.com/2016/01/109871272gg.jpg" alt="109871272GG" width="500" height="500" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2016/01/109871272gg.jpg 500w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2016/01/109871272gg-150x150.jpg 150w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2016/01/109871272gg-300x300.jpg 300w" sizes="auto, (max-width: 500px) 85vw, 500px" /></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Chegamos, talvez, no ápice do projeto de conhecimento pela ignorância criado por Umberto Eco. No romance “</span><i><span style="font-weight: 400;">O cemitério de Praga”</span></i><span style="font-weight: 400;"> o pano de fundo das elucubrações de Simonini, personagem central do romance, é composto por um histórico de conspirações e falsificações que levaram a publicação e divulgação do famoso apócrifo “</span><i><span style="font-weight: 400;">O manuscrito dos sábios de Sião</span></i><span style="font-weight: 400;">”. Este panfleto representa uma das maiores armações político-cultural-literárias a favor do racismo e do preconceito antissemita. Sendo um dos mais divulgados entre os panfletos disseminadores do ódio cultural, ficou conhecido como um exemplo de falsificação de ideias e fatos no sentido de criar uma cultura do ódio racial. O alcance e influência desta “obra da ignorância humana” não tem paralelo na história do erro. O chamado mito da conspiração judaica atingiu desde declarados antissemitas sem formação intelectual (boa parte da cúpula do terceiro Reich) como pensadores fundamentais para o século XX. Para termos uma ideia do estrago provocado pelo panfleto, recentemente Peter Trawny, catedrático responsável pela edição dos cadernos negros de Heidegger, considerado o maior filósofo do século XX, publicou uma obra intitulada “Heidegger e o mito da conspiração judaica”. O mito da conspiração judaica teria atingido até mesmo as esferas mais altas da inteligência alemã. A partir deste simbólico exemplo somos levados a concluir que a história da ignorância não deve ser menosprezada como um tema menor. Com Umberto Eco e sua fantástica obra ficcional constatamos que realmente o conhecimento é um gênero da ignorância.</span></p>
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