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	<title>Arquivos Sundance Film Festival &#8211; Persona | Jornalismo Cultural</title>
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	<description>Desde 2015 provando que a distância entre Bergman, Lady Gaga e a novela das 9 nem existe.</description>
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		<title>O Desencontrar de Vidas Passadas</title>
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		<pubDate>Wed, 25 Oct 2023 18:42:26 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p>Ludmila Henrique  Na cultura sul-coreana, há um conceito conhecido como In-Yun, que pode ser lido como “destino” ou “reencarnação”. Em gênese, In-Yun é o pressentimento que nos arrebata quando entendemos que uma eventualidade estava predestinada em nossos acasos, desenhada em algum no campo cósmico, e que nada e nem ninguém, poderia ser capaz de interferir &#8230; <a href="http://personaunesp.com.br/past-lives-critica/" class="more-link">Continue lendo<span class="screen-reader-text"> "O Desencontrar de Vidas Passadas"</span></a></p>
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										<content:encoded><![CDATA[<figure id="attachment_31664" aria-describedby="caption-attachment-31664" style="width: 736px" class="wp-caption alignnone"><img fetchpriority="high" decoding="async" class="size-full wp-image-31664" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/10/image3-3.jpg" alt="" width="736" height="368" /><figcaption id="caption-attachment-31664" class="wp-caption-text">Antes do sucesso nas telas de cinema, o longa-metragem foi aclamado pela crítica especializada no Sundance Film Festival e na 73ª edição do Berlinale (Foto: California Filmes)</figcaption></figure>
<p><b>Ludmila Henrique </b></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Na cultura sul-coreana, há um conceito conhecido como </span><i><span style="font-weight: 400;">In-Yun</span></i><span style="font-weight: 400;">, que pode ser lido como “</span><i><span style="font-weight: 400;">destino</span></i><span style="font-weight: 400;">” ou “</span><i><span style="font-weight: 400;">reencarnação</span></i><span style="font-weight: 400;">”. Em gênese, </span><i><span style="font-weight: 400;">In-Yun</span></i><span style="font-weight: 400;"> é o pressentimento que nos arrebata quando entendemos que uma eventualidade estava predestinada em nossos acasos, desenhada em algum no campo cósmico, e que nada e nem ninguém, poderia ser capaz de interferir naquela factualidade. Em </span><i><span style="font-weight: 400;">Past Lives</span></i><span style="font-weight: 400;">, longa de estreia da cineasta Celine Song exibido no Brasil durante a 25ª edição do </span><a href="https://www.festivaldorio.com.br/br/noticias/festival-do-rio-anuncia-primeiros-filmes-internacionais"><span style="font-weight: 400;">Festival do Rio</span></a><span style="font-weight: 400;">, vemos o movimento de tempo entre dois melhores amigos e a maneira que seus destinos estão entrelaçados involuntariamente com suas vidas passadas. </span></p>
<p><span id="more-31662"></span></p>
<p><a href="https://letterboxd.com/journal/missed-connections-celine-song-past-lives/"><i><span style="font-weight: 400;">Past Lives</span></i></a><span style="font-weight: 400;"> segue a trajetória de Na Young (Seung Ah Moon), jovem sul-coreana, que migrou do leste asiático para o Canadá e posteriormente para os Estados Unidos para vivenciar o tão perseguido sonho americano. Antes de assimilar as decorrências de suas escolhas, Young abandonou seu primeiro amor em seu país de origem, o jovem Hae Sung (Seung Min Yim), que embora distante do seu ponto de vista, permaneceu internalizado em algum vão de sua memória. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">O arco dividido em três atos no decorrer de 24 anos regressa no momento em que a protagonista, agora conhecida como Nora (Greta Lee) e oficialmente cidadã norte-americana, reencontra com a figura de Hae Sung (Teo Yoo) nas redes sociais e reiteradamente resgatam as lembranças perdidas por meio de mensagens diárias. Embora os avanços tenham desencadeado uma memória afetiva entre os dois, a diferença entre rotas e a distância impossibilitou que o romance seguisse para um caminho sólido, contribuindo para um novo afastamento. Ambos seguiram suas vidas, conheceram outras pessoas e se apaixonaram por elas, entretanto, nunca conseguiram esquecer de maneira efetiva os acontecimentos do </span><a href="https://letterboxd.com/crew/story/the-cast-of-past-lives-tell-us-about-their/"><span style="font-weight: 400;">passado</span></a><span style="font-weight: 400;">.</span></p>
<figure id="attachment_31663" aria-describedby="caption-attachment-31663" style="width: 735px" class="wp-caption alignnone"><img decoding="async" class="wp-image-31663 size-full" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/10/image2-3.jpg" alt="Cena do filme Past Lives. Da esquerda para a direita está Hae Sung (Seung Min Yim), jovem sul coreano, de cabelo liso, curto na tonalidade preta. Ele está vestindo uma jaqueta e uma calça em diferentes tonalidades de azul e carregando uma mochila nas costas também na cor azul. Ao seu lado está Na Young (Seung Ah Moon), jovem sul coreana, de cabelos castanhos, amarrados em um rabo de cavalo. Ela está vestindo um macacão azul jeans, uma blusa vermelha de flanela e um tênis branco, ela também está carregando uma mochila vermelha nas costas. Eles estão ao ar livre, nos arredores do bairro onde eles moram. Ao fundo é perceptível algumas casas em diversas tonalidades, plantas dentros de vasos e uma escadaria de concreto. " width="735" height="395" /><figcaption id="caption-attachment-31663" class="wp-caption-text">Past Lives alcançou 97% de aprovação no Rotten Tomatoes, marcando uma classificação média de 9.1/10 (Foto: California Filmes)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">O longa-metragem é, além de tudo, um filme sobre </span><a href="https://medium.com/framerated/past-lives-2023-complex-immigrant-romance-full-of-yearning-fd183115145e"><span style="font-weight: 400;">cidades</span></a><span style="font-weight: 400;">, sobre o espaço entre elas, suas semelhanças e dessemelhanças. A fotografia de Shabier Kirchner captura a beleza de dois polos diferentes, Seoul e Nova York. Em primeiro aspecto, por ambientar a infância de Nora e Hae Sung, a capital sul-coreana é retratada essencialmente por cenários arborizados, divagando por paisagens naturais e pátios escolares. Além da ambientação, a climatização dos primeiros minutos de tela são matizados por tonalidades mais vivas e expressivas, representando não apenas a pureza desse período, mas também o florescer da conexão entre os protagonistas.  </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Contrário ao clima vivaz da juventude, Nova York parece um muro de concreto, sólido, firme e acinzentado. A metrópole é palco do turismo estadunidense, retratado como um espaço na qual as pessoas vão para visitar, fotografar seus lugares históricos e adentrar nos restaurantes noturnos. O centro representa o </span><a href="https://www.youtube.com/watch?v=v-lxn21Ng9k"><span style="font-weight: 400;">amadurecimento</span></a><span style="font-weight: 400;"> de Nora, da mulher forte na qual ela se tornou, e que encontrou seu conforto em meio ao caos da rotina agitada na grande cidade. </span></p>
<figure id="attachment_31665" aria-describedby="caption-attachment-31665" style="width: 736px" class="wp-caption alignnone"><img decoding="async" class="size-full wp-image-31665" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/10/image4-3.jpg" alt="" width="736" height="414" /><figcaption id="caption-attachment-31665" class="wp-caption-text">Em 2023, Greta Lee participou de dois filmes registrados com maior audiência nos cinemas, Past Lives e Homem Aranha: Através do Aranhaverso (Foto: California Filmes)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">Nora é um espelho da própria cineasta, que também migrou da Coreia do Sul para os Estados Unidos. Assim como </span><a href="https://a24films.com/notes/2023/06/a-note-from-celine-song"><span style="font-weight: 400;">Celine Song</span></a><span style="font-weight: 400;">, a personagem mantém essa conexão entre as duas superfícies. Uma metáfora dos dois, ao mesmo tempo que nenhum deles. Ela carrega consigo suas raízes coreanas e a recordação da sua infância, mas igualmente se encontra como uma garota tipicamente estadunidense. Ela é duas metades que se completam e que compartilham desse amor mútuo entre os dois mundos. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Diferente disso, parafraseando a fala da protagonista,</span><a href="https://www.youtube.com/watch?v=9WJELGFUG-w"><span style="font-weight: 400;"> Hae Sung</span></a><span style="font-weight: 400;"> é em sua completude, um homem sul-coreano. Ele leva em sua essência os pensamentos, ideais e princípios da cultura coreana, compondo uma personalidade tímida e observadora, extremamente respeitosa e questionadora. Hae Sung conduz uma nostalgia acolhedora para Nora, trazendo múltiplas indagações de como suas vidas poderiam ter seguido caminhos diferentes se ela tivesse permanecido na Coreia do Sul, como as coisas poderiam ter se desenhado para um novo rumo. </span></p>
<figure id="attachment_31667" aria-describedby="caption-attachment-31667" style="width: 736px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-full wp-image-31667" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/10/image1-2.jpg" alt="" width="736" height="385" /><figcaption id="caption-attachment-31667" class="wp-caption-text">Past Lives foi indicado na categoria Urso de Ouro, prêmio de maior destaque no Festival de Cinema de Berlim (Foto: California Filmes)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">A trama dos personagens é sublinhada pela vasta sensação do</span> <span style="font-weight: 400;">“</span><i><span style="font-weight: 400;">e se…</span></i><span style="font-weight: 400;">”. Em ritmos descompassados, a sensação de como as coisas poderiam ter sido diferentes na vida de Nora e Hae Sung domina a tela de modo pontual, emergindo nos momentos de pausa, na troca de olhares e na </span><a href="https://open.spotify.com/intl-pt/album/2JwAMKpwk4IolH2KhF6nPn"><span style="font-weight: 400;">sonoridade</span></a><span style="font-weight: 400;"> que anuncia de maneira sucinta o que esses personagens significam um para outro naquele momento. A trilha sonora de Daniel Rossen e Christopher Bear totalizam esse sentimento, com timbres que invadem a cena e atingem o espaço e as emoções dos espectadores, que também seguem na reflexão sobre as escolhas que determinaram o específico momento de suas vidas. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Somando a ligação em </span><a href="https://www.youtube.com/watch?v=IAy9WVR5BUg"><i><span style="font-weight: 400;">In-Yun</span></i></a><span style="font-weight: 400;">, o atual parceiro de Nora, Arthur (John Magaro), configura outro aspecto na trajetória da personagem. A inquietude dele em razão da nova aparição de Hae Sung, carrega consigo a apreensão de novas manifestações emocionais entre os antigos melhores amigos de infância. Ainda assim, mesmo que o novo homem alcance os sentimentos de Na Young pela nostalgia, Arthur é uma representação de uma realidade, de um fato. Ele configura a escolha madura de Nora, reflete um verdadeiro encontro de almas, o “</span><i><span style="font-weight: 400;">ficar</span></i><span style="font-weight: 400;">” que estava predestinado, diferente de sua convivência com o seu antigo amor, que é marcado, sobretudo, pelo passado. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Por outro lado, a maneira que Celine Song anexa o conceito de destino no interior da cinematografia é mais pertencente ao sinônimo de encontro entre almas, do que de almas gêmeas. Isso fica evidente em meio a própria </span><a href="https://www.youtube.com/watch?v=9d4ObkmCJYs"><span style="font-weight: 400;">relação</span></a><span style="font-weight: 400;"> de Arthur e Hae Sung, que se conectam em razão de outro vínculo comum em suas vidas, o de Nora. O caminho trilhado por ela e sua transição de espaços também precedeu para o encontro dos dois, que talvez, se não fosse por ela, nunca teriam acontecido nessa vida ou poderia ter acontecido de outra maneira. </span></p>
<figure id="attachment_31666" aria-describedby="caption-attachment-31666" style="width: 1869px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-full wp-image-31666" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/10/image5-2.jpg" alt="" width="1869" height="1007" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/10/image5-2.jpg 1869w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/10/image5-2-800x431.jpg 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/10/image5-2-1024x552.jpg 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/10/image5-2-768x414.jpg 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/10/image5-2-1536x828.jpg 1536w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/10/image5-2-1200x647.jpg 1200w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 1362px) 62vw, 840px" /><figcaption id="caption-attachment-31666" class="wp-caption-text">“Se você deixa algo para trás, você ganha algo também” (Foto: California Filmes)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">A trama nos transporta para uma reflexão interna. Ela consegue, de maneira minuciosa, sensibilizar a audiência delicadamente e impactar a extensão mais profunda dos nossos sentimentos. A sensação que fica é de conciliação com o nosso eu anterior, com os atos que acreditamos ser erros ou acertos, e que na verdade, já estavam alinhados de maneira natural em nossa sina. </span><a href="https://www.berlinale.de/en/2023/programme/202313871.html"><i><span style="font-weight: 400;">Past Lives</span></i></a><span style="font-weight: 400;"> é um filme sobre amor, abandono, passado e presente. Sobre as conexões que fazemos quando criança e que moldaram nossas decisões como adultos. </span></p>
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		<title>Capitães de Zaatari não acerta o gol que precisava</title>
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		<pubDate>Sat, 30 Oct 2021 19:45:08 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p>Enrico Souto A conjuntura instável e precária que refugiados no mundo todo se encontram nunca foi tão grave. São um dos grupos mais vulneráveis socialmente, agrupando pais e mães que se sujeitam aos trabalhos mais ímpios para sustentar suas famílias, e uma juventude que não vê perspectiva de um crescimento saudável. Nesse contexto, qual o &#8230; <a href="http://personaunesp.com.br/capitaes-de-zaatari-critica/" class="more-link">Continue lendo<span class="screen-reader-text"> "Capitães de Zaatari não acerta o gol que precisava"</span></a></p>
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										<content:encoded><![CDATA[<figure id="attachment_24258" aria-describedby="caption-attachment-24258" style="width: 1600px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-full wp-image-24258" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/10/IMAGEM-1-13.jpg" alt="Imagem retangular, retirada do filme Capitães de Zaatari. O cenário é uma tarde em um acampamento de refugiados, com casebres construídos dos lados da rua de terra. No centro, em foco, vemos um grupo de seis garotos. Primeiro, à esquerda, um garoto usando um boné preto para trás, e vestindo uma camiseta laranja e branca e uma calça preta. Do seu lado esquerdo, está outro garoto, de cabelos raspados, vestindo uma camiseta preta e laranja e uma calça preta. Ele está prestes a cumprimentar um garoto mais alto, que aparenta ser mais velho. Esse é Mahmoud, ele usa um boné de aba curva azul, e veste uma calça preta e uma camiseta azul da seleção de futebol italiana. Mais atrás dele, está outro menino, menor, de cabelo raspado, que usa uma camisa azul e calça preta. Mais à esquerda, está Fawzi, um garoto da mesma altura de Mahmoud, que usa um boné vermelho, uma bermuda azul, e veste uma camiseta branca com detalhes em vermelho, e com a logo da banda Rolling Stones, uma boca mostrando a língua, estampada em seu centro. Por último, do lado esquerdo de Fawzi, está um garoto, que veste uma camisa azul e verde estampada e uma bermuda jeans, enquanto segura uma bola de futebol na mão direita. O grupo de garotos sorriem, conversando entre si." width="1600" height="1100" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/10/IMAGEM-1-13.jpg 1600w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/10/IMAGEM-1-13-800x550.jpg 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/10/IMAGEM-1-13-1024x704.jpg 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/10/IMAGEM-1-13-768x528.jpg 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/10/IMAGEM-1-13-1536x1056.jpg 1536w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/10/IMAGEM-1-13-1200x825.jpg 1200w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 1362px) 62vw, 840px" /><figcaption id="caption-attachment-24258" class="wp-caption-text">Compondo a Competição Novos Diretores, da 45ª Mostra internacional de Cinema em São Paulo, falta audácia em Capitães de Zaatari (Foto: Dogwoof)</figcaption></figure>
<p><b>Enrico Souto</b></p>
<p><span style="font-weight: 400;">A conjuntura instável e precária que </span><a href="https://medium.com/@laboratoriodejornalismo2017/refugiados-na-contemporaneidade-da4377a3c4fe"><span style="font-weight: 400;">refugiados</span></a><span style="font-weight: 400;"> no mundo todo se encontram nunca foi tão grave. São um dos grupos mais vulneráveis socialmente, agrupando pais e mães que se sujeitam aos trabalhos mais ímpios para sustentar suas famílias, e uma juventude que não vê perspectiva de um crescimento saudável. Nesse contexto, qual o papel que o esporte exerce? O futebol pode adquirir uma função transformadora e emancipatória para essas pessoas? Questões importantíssimas, mas que nunca são tratadas com a devida atenção por </span><i><span style="font-weight: 400;">Capitães de Zaatari</span></i><span style="font-weight: 400;">, documentário egípcio que é exibido na 45ª </span><a href="http://personaunesp.com.br/tag/mostra-internacional-de-cinema-em-sao-paulo/"><span style="font-weight: 400;">Mostra Internacional</span></a><span style="font-weight: 400;"> de Cinema em São Paulo.</span></p>
<p><span id="more-24257"></span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">O cenário mostrado é </span><a href="https://www.acnur.org/portugues/2020/04/21/covid-19-refugiados-sirios-se-adaptam-ao-isolamento-em-campos-da-jordania/"><span style="font-weight: 400;">Zaatari</span></a><span style="font-weight: 400;">, o maior campo de refugiados da </span><a href="https://www.bbc.com/portuguese/internacional-56378202"><span style="font-weight: 400;">Guerra da Síria</span></a><span style="font-weight: 400;">, localizado na Jordânia. Circunstância essa que teria de tudo para esmagar as aspirações de qualquer um, mas não para Fawzi e Mahmoud. Os dois garotos, apaixonados por futebol, vêem no esporte uma possibilidade de </span><a href="https://pesquisa-eaesp.fgv.br/publicacoes/pibic/o-futebol-como-porta-de-saida-da-pobreza-analisando-individuos-e-organizacoes"><span style="font-weight: 400;">transformação</span></a><span style="font-weight: 400;"> em suas vidas e na de suas famílias. E esse sonho parece bater-lhes à porta quando uma academia de futebol vai até Zaatari para selecionar jovens jogadores para um torneio internacional em Doha, no Catar, que pode finalmente conceder aos amigos a oportunidade que eles precisavam para emergir no esporte profissionalmente.</span></p>
<figure id="attachment_24259" aria-describedby="caption-attachment-24259" style="width: 1500px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-full wp-image-24259" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/10/IMAGEM-2-13.jpg" alt="Imagem retangular retirada do filme Capitães de Zaatari. Vemos, em foco, do lado esquerdo, o rosto de um menino. Ele tem a pele clara, e cabelos curtos e lisos da cor castanha. Ele está do outro lado da grade de um portão cinza, e ele olha sério, em direção à câmera. O fundo é desfocado, e a cena se passa durante o dia." width="1500" height="844" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/10/IMAGEM-2-13.jpg 1500w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/10/IMAGEM-2-13-800x450.jpg 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/10/IMAGEM-2-13-1024x576.jpg 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/10/IMAGEM-2-13-768x432.jpg 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/10/IMAGEM-2-13-1200x675.jpg 1200w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 1362px) 62vw, 840px" /><figcaption id="caption-attachment-24259" class="wp-caption-text">A perspectiva que Capitães de Zaatari traz sobre o futebol, como uma fonte de esperança e um potencial instrumento de ascensão social, é muito próxima da experiência de jogadores profissionais no Brasil (Foto: Dogwoof)</figcaption></figure>
<p><i><span style="font-weight: 400;">Captains of Za`atari</span></i><span style="font-weight: 400;">, como é chamado originalmente, acompanha essencialmente esses dois núcleos: o campo de refugiados e a competição no Catar. O retrato feito de </span><i><span style="font-weight: 400;">Zaatari</span></i><span style="font-weight: 400;"> segue o cotidiano daquele povo e, assim, os presenciamos travando suas lutas diárias. Vemos o pai de Fawzi, que já não está em sua melhor condição de saúde, sendo impedido de trabalhar fora do assentamento, impossibilitado de ver os seus filhos. Também nos deparamos com as </span><a href="https://www.scielo.br/j/rbepop/a/Xf7yQhXqhY3YyRp9fZZgzwm/?format=pdf&amp;lang=pt"><span style="font-weight: 400;">insalubridades do local</span></a><span style="font-weight: 400;">, as casas mal alocadas, as ruas não asfaltadas e o acesso precário a energia elétrica e </span><i><span style="font-weight: 400;">internet</span></i><span style="font-weight: 400;">. Na ansiedade de superar aquele lugar, os garotos decidem sacrificar seus estudos em prol dos treinos, apostando todas as poucas fichas que têm no futebol.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">São nessas situações de extrema fragilidade emocional que vemos </span><i><span style="font-weight: 400;">Capitães de Zaatari</span></i><span style="font-weight: 400;"> alcançar seu ápice. E, se há algo para ser elogiado no filme de estreia de </span><a href="https://45.mostra.org/diretores/ali-el-arabi"><span style="font-weight: 400;">Ali El Arabi</span></a><span style="font-weight: 400;"> na direção, é como ele retrata a visceralidade do relacionamento de Fawzi e Mahmoud. Sentimos junto a eles a alegria de pisar em um gramado pela primeira vez, e a amargura de ser negado a participar de uma competição que almejava por questões além de seu controle. É esse atrito constante entre conquistas e frustrações que dá o tom do documentário, traduzindo essa sensação agridoce de maneira encantadora.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Um dos pontos fortes nessa primeira metade do longa é a fotografia de Mahmoud Bashir. Optando por um esquema de </span><a href="https://medium.com/calebelopes/c%C3%A2mera-na-m%C3%A3o-d451741c21e0"><span style="font-weight: 400;">câmera na mão</span></a><span style="font-weight: 400;">, seus enquadramentos nunca se fixam. Sempre há algum tipo de perturbação, que tira sua visão cômoda do lugar comum. E esse método ganha um potencial ainda maior quando utilizado para capturar as partidas de futebol. A primeira sequência de bola em Zaatari é excepcional. Bashir cria uma sensação de quase claustrofobia, procurando alguma brecha sobre o campo rodeado pelos 22 meninos, comunicando, também visualmente, a inquietação de Fawzi e Mahmoud em deixar o acampamento para trás.</span></p>
<figure id="attachment_24260" aria-describedby="caption-attachment-24260" style="width: 1280px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-full wp-image-24260" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/10/IMAGEM-3-13.jpg" alt="Imagem retangular retirada do filme Capitães de Zaatari. O cenário é o pôr-do-sol de uma estrada de terra. Vemos nas extremidades vários postes elétricos e, no centro, a silhueta de alguns garotos jogando futebol na rua." width="1280" height="720" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/10/IMAGEM-3-13.jpg 1280w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/10/IMAGEM-3-13-800x450.jpg 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/10/IMAGEM-3-13-1024x576.jpg 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/10/IMAGEM-3-13-768x432.jpg 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/10/IMAGEM-3-13-1200x675.jpg 1200w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 1362px) 62vw, 840px" /><figcaption id="caption-attachment-24260" class="wp-caption-text">Apesar da sinopse do documentário martelar na ideia de que Fawzi e Mahmoud tomam caminhos diferentes, isso nunca ocorre de fato (Foto: Dogwoof)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">Contudo, o filme começa a enfraquecer assim que somos transportados para o núcleo de Doha. Essa inventividade que foi demonstrada no campo de areia de Zaatari se perde quando é levada para os gramados sintéticos. Pelas limitações de se registrar um </span><a href="http://qatarnews.com.br/site/?p=558"><span style="font-weight: 400;">torneio</span></a><span style="font-weight: 400;">, que não concedem a liberdade de movimento de um jogo informal, a câmera se fixa e afasta-se da ação e adrenalina do jogo. A montagem de Menna El Shishini, na tentativa de dinamizar esses </span><i><span style="font-weight: 400;">takes</span></i><span style="font-weight: 400;">, passa a trabalhar com </span><i><span style="font-weight: 400;">slow motion</span></i><span style="font-weight: 400;">. No entanto, nesse caso, o efeito apenas evidencia o empobrecimento dos registros.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Da mesma forma, o núcleo emocional acaba por se dispersar. Na segunda metade de </span><i><span style="font-weight: 400;">Capitães de Zaatari</span></i><span style="font-weight: 400;">, passam a ser priorizadas questões com relevância mínima, como o resultado de um jogo ou o desempenho objetivo na competição, e deixa a amizade dos meninos e a perspectiva da população de Zaatari de escanteio. A discussão complexa a respeito da exclusão e negligência sobre jovens refugiados é esquecida, para focar em discursos motivacionais vazios, que ganham validação por serem protagonizados por grandes nomes do futebol: no caso, </span><a href="https://brasil.elpais.com/icon/2020-08-15/xavi-hernandez-o-futebol-e-um-dos-unicos-esportes-em-que-o-trabalhador-e-insultado-e-inadmissivel.html"><span style="font-weight: 400;">Xavi</span></a><span style="font-weight: 400;"> e </span><a href="https://calciopedia.com.br/2016/04/jogadores-david-trezeguet.html"><span style="font-weight: 400;">Trezeguet</span></a><span style="font-weight: 400;">. Nesses instantes, o filme parece menos um documentário e mais um comercial da </span><a href="https://esportes.r7.com/acusacoes-de-suborno-na-fifa-geram-mais-suspeitas-sobre-copa-no-qatar-07042020"><span style="font-weight: 400;">FIFA</span></a><span style="font-weight: 400;">.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Independente disso, </span><a href="https://45.mostra.org/filmes/capitaes-de-zaatari"><i><span style="font-weight: 400;">Capitães de Zaatari</span></i></a><span style="font-weight: 400;"> exala uma paixão pujante pelo futebol e, mesmo em seus piores momentos, a direção de Ali nunca deixa isso entrar em questionamento. Porém, o seu primeiro longa-metragem perde o impacto que lhe demandava quando não se arrisca e decide manter seu tema central na superficialidade, nunca se aprofundando na </span><a href="https://www.esquerdadiario.com.br/Entenda-o-papel-do-imperialismo-por-tras-das-tragedias-migratorias"><span style="font-weight: 400;">raiz</span></a><span style="font-weight: 400;"> da problemática que ele relata. Um projeto com potencial gigantesco, mas que se perde em sua falta de ambição.</span></p>
<div class="jetpack-video-wrapper"><iframe loading="lazy" title="Captains Of Zaatari, Doc Edge Festival 2021 (Official Trailer)" width="840" height="473" src="https://www.youtube.com/embed/mfxD3EE-CN0?feature=oembed" frameborder="0" allow="accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share" referrerpolicy="strict-origin-when-cross-origin" allowfullscreen></iframe></div>
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		<title>Time: tudo pode mudar em vinte anos e nada pode mudar em duzentos deles</title>
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		<pubDate>Thu, 25 Mar 2021 20:01:15 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p>Raquel Dutra “Não haverá, nos Estados Unidos ou em qualquer lugar sujeito à sua jurisdição, nem escravidão, nem trabalhos forçados”, diz a 13ª Emenda à Constituição dos Estados Unidos, que ‘aboliu’ a escravidão no país em 1865. Um dos maiores marcos da Terra da Liberdade, no entanto, guardou uma ressalva em seu texto, definindo logo &#8230; <a href="http://personaunesp.com.br/time-documentario-critica/" class="more-link">Continue lendo<span class="screen-reader-text"> "Time: tudo pode mudar em vinte anos e nada pode mudar em duzentos deles"</span></a></p>
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										<content:encoded><![CDATA[<figure id="attachment_19356" aria-describedby="caption-attachment-19356" style="width: 840px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-large wp-image-19356" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/03/Time-1024x576.jpg" alt="Imagem do filme Time. A imagem apresenta um porta-retrato de uma familía repousado em uma mesa inclinado levemente para a diagonal. No porta retrato, na vertical, está a foto de parte da família. Ao centro da fotografia, está a mãe, Fox Rich, uma mulher negra de cabelos cacheados que usa um lenço no pescoço. Ao redor dela, atrás e em cima e na frente e embaixo, estão quatro filhos, todos entre 10 e 6 anos negros. Os que estão atrás dela são os mais velhos, e os que estão na frente são os mais novos. Todos sorriem e posam para a câmera. A moldura do porta-retrato é simples, sem decorações trabalhadas, e branca. A imagem está toda em preto e branco." width="840" height="473" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/03/Time-1024x576.jpg 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/03/Time-300x169.jpg 300w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/03/Time-768x432.jpg 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/03/Time-1200x675.jpg 1200w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/03/Time.jpg 1366w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 1362px) 62vw, 840px" /><figcaption id="caption-attachment-19356" class="wp-caption-text">Time, filme realizado em parceria com o jornal The New York Times, debate os impactos do encarceramento em massa e pauta o abolicionismo penal na categoria de Melhor Documentário do Oscar 2021 (Foto: Reprodução)</figcaption></figure>
<p><b>Raquel Dutra</b></p>
<p><span style="font-weight: 400;">“</span><i><span style="font-weight: 400;">Não haverá, nos Estados Unidos ou em qualquer lugar sujeito à sua jurisdição, nem escravidão, nem trabalhos forçados”</span></i><span style="font-weight: 400;">, </span><span style="font-weight: 400;">diz a 13ª Emenda à Constituição dos Estados Unidos, que ‘aboliu’ a escravidão no país em 1865. Um dos maiores marcos da </span><a href="https://outraspalavras.net/outrasmidias/estados-unidos-terra-da-liberdade/"><span style="font-weight: 400;">Terra da Liberdade</span></a><span style="font-weight: 400;">, no entanto, guardou uma ressalva em seu texto, definindo logo em seguida que</span><i><span style="font-weight: 400;"> “os devidamente condenados por um crime</span></i><span style="font-weight: 400;">” eram a sua exceção, criando em si mesma uma condição que permitia a prática do que acabava de extinguir. A conclusão da premissa da Emenda é literal e simples: quando você é condenado, você se torna um escravo do Estado.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Não à toa, o termo que se usa para definir a quem luta pelo fim do sistema carcarário vigente é o mesmo que se usava para se referir a quem lutava pelo fim da escravidão. </span><span style="font-weight: 400;">A longo prazo, o que o governo de Abraham Lincoln fez com o que deveria ser um avanço na garantia do direito à liberdade, à vida e à igualdade foi permitir o desencadear de um fenômeno social denominado por estudiosos como o </span><a href="https://quilomboinvisivel.com/2020/08/29/industria-carceraria-a-escravidao-no-capitalismo-moderno-parte-1-eua/"><span style="font-weight: 400;">sistema escravista moderno</span></a><span style="font-weight: 400;">. No país que abriga 5% da população mundial, está </span><a href="https://www.conjur.com.br/2011-jul-27/sistema-penitenciario-americano-pressionado-desrespeitar-direitos"><span style="font-weight: 400;">25% da população carcerária do planeta</span></a><span style="font-weight: 400;">. Assim, a cada quatro presidiários ao redor do mundo, um está encarcerado nos Estados Unidos. Como diz sua própria lei, essas são <a href="https://www.youtube.com/watch?v=wkjtAAUmjPY">as pessoas submetidas à escravidão no século 21</a>, e essa é a provocação de </span><a href="https://www.youtube.com/watch?v=kq6Hh07oLvs"><i><span style="font-weight: 400;">Time</span></i></a><span style="font-weight: 400;">.</span></p>
<p><span id="more-19355"></span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">O tema já é conhecido nos debates provocados pelo Cinema. A estrutura de servidão que se fundamenta no sistema prisional dos Estados Unidos foi desenhada por </span><a href="https://www.netflix.com/br/title/80091741"><i><span style="font-weight: 400;">A 13ª Terceira Emenda</span></i></a> <span style="font-weight: 400;">(</span><i><span style="font-weight: 400;">13th</span></i><span style="font-weight: 400;">, no original, de 2016) e alastrada pelo </span><i><span style="font-weight: 400;">mainstream</span></i><span style="font-weight: 400;"> com o seu reconhecimento no </span><i><span style="font-weight: 400;">Oscar </span></i><span style="font-weight: 400;">2017. Cinco anos depois e numa estrutura narrativa oposta e complementar à obra precursora, </span><i><span style="font-weight: 400;">Time</span></i><span style="font-weight: 400;"> volta a clamar por atenção e resolução para uma das situações mais urgentes da América através da Sétima Arte, mais uma vez com um reconhecimento considerável da elite cultural norte-americana.</span></p>
<figure id="attachment_19357" aria-describedby="caption-attachment-19357" style="width: 2560px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="wp-image-19357 size-full" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/03/timee-scaled.jpg" alt="Imagem do filme Time. A fotografia é horizontal e em preto e branco, e registra a família Rich, foco da narrativa do documentário, se dirigindo à um evento. Eles estão caminhando pela rua. Ao fundo existe um prédio de tijolinhos e árvores secas. A família está caminhando junta em direção ao lado esquerdo da imagem, de perfil. Fox Rich, a mãe, está ao centro, vestindo um vestido branco e cabelos presos num rabo de cavalo. Os filhos vestem roupas formais, ternos e camisas sociais. " width="2560" height="1349" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/03/timee-scaled.jpg 2560w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/03/timee-300x158.jpg 300w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/03/timee-1024x540.jpg 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/03/timee-768x405.jpg 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/03/timee-1536x809.jpg 1536w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/03/timee-2048x1079.jpg 2048w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/03/timee-1200x632.jpg 1200w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 1362px) 62vw, 840px" /><figcaption id="caption-attachment-19357" class="wp-caption-text">Dados do Departamento de Justiça dos EUA trazidos em A 13ª Emenda apontam que homens negros (6,5% da população do país) são 40% da população prisional, integrando um índice que atualmente tem mais pessoas negras sobre supervisão criminal do que escravos no meio do século 18 (Foto: Reprodução)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">O diálogo com o documentário de <a href="https://institutodecinema.com.br/mais/conteudo/mulheres-no-cinema-ava-duvernay">Ava DuVernay </a></span><span style="font-weight: 400;">é direto e integra</span><span style="font-weight: 400;"> o raciocínio proposto pela cineasta em 2016. Enquanto </span><i><span style="font-weight: 400;">A 13ª Emenda</span></i><span style="font-weight: 400;"> retoma a história dos Estados Unidos para construir um debate completo, profissional, profundo e teórico &#8211; ótimo, inclusive, para quem quiser compreender a fundo a história dos direitos civis norte-americanos, tema comum em algumas das principais produções dessa temporada (como </span><a href="https://personaunesp.com.br/judas-e-o-messias-negro-critica/"><i><span style="font-weight: 400;">Judas e o Messias Negro</span></i></a><i><span style="font-weight: 400;">, <a href="https://www.youtube.com/watch?v=USi-ppCfxEA">Estados Unidos vs. Billie Holiday</a>, </span></i><a href="https://www.youtube.com/watch?v=23qQ1GzV2fo"><i><span style="font-weight: 400;">Uma Noite em Miami…</span></i></a><span style="font-weight: 400;"> e </span><a href="https://personaunesp.com.br/os-7-de-chicago-critica/"><i><span style="font-weight: 400;">Os 7 de Chicago</span></i></a><span style="font-weight: 400;">) -, </span><i><span style="font-weight: 400;">Time</span></i><span style="font-weight: 400;"> se volta para o micro, no retrato que a diretora <a href="https://www.imdb.com/name/nm3797834/">Garrett Bradley</a> captura de vidas atravessadas pela política do encarceramento em massa.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Aqui, estamos dentro da <a href="http://www.foxandrob.com/">família Richardson</a>, iniciada através daquele casal do Ensino Médio completamente apaixonado e sonhador que prioriza seu amor acima de tudo. Tão logo como eles juntam os sobrenomes e frutificam a árvore genealógica, surgem os desafios da vida que começam a tirar as coisas do eixo, mostrando que o </span><a href="https://personaunesp.com.br/nomadland-critica/"><i><span style="font-weight: 400;">sonho americano</span></i></a><span style="font-weight: 400;"> não é pra todo mundo e transformando medidas desesperadas que normalmente seriam inimagináveis como uma &#8211; e talvez a única &#8211; opção. Então, numa tentativa de assalto a um banco, a matriarca Sibil Fox Rich e seu amado Robert Rich são pegos. Ela, pilotando o carro de fuga, é condenada a 3 anos e meio de detenção enquanto grávida de gêmeos. Ele, liderando a ação que não teve desdobramentos violentos, deve 60 anos severos à justiça, inicialmente sem direito à condicional ou redução de pena. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Só que essa situação não é contextualizada ao pé da letra nos primeiros minutos. O que se vê na abertura do documentário (<a href="https://www.amazon.com/Time-Fox-Rich/dp/B08J7DDGJY">disponível</a> no <em>Amazon Prime Video</em>) são gravações curtas, caseiras e íntimas de uma mulher apaixonada e desolada que registra os momentos de sua família para um dia mostrá-los à quem a formou junto dela, que não está presente. Até que ela acaricia e divide com a câmera o ventre que abriga dois bebês, solenemente apresentados como </span><a href="https://www.gramatica.net.br/origem-das-palavras/etimologia-de-justica/"><span style="font-weight: 400;">Justus</span></a><span style="font-weight: 400;"> e </span><a href="https://pt.duolingo.com/dictionary/English/freedom/cff21c2fe1e74e766d2e004682553e36"><span style="font-weight: 400;">Freedom</span></a><span style="font-weight: 400;">, e revela a condição de sua família. Ali, no detalhe, </span><i><span style="font-weight: 400;">Time</span></i><span style="font-weight: 400;"> revela a que veio, colocando-nos diante de uma história sobre um amor radical, uma urgência de justiça e uma promessa de liberdade.</span></p>
<figure id="attachment_19358" aria-describedby="caption-attachment-19358" style="width: 1600px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="wp-image-19358 size-full" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/03/time-1.jpg" alt="Imagem do Filme Time. A imagem apresenta apenas o rosto de Fox Rich através de um espelho. Ela está se observando, com uma expressão alerta e séria. Ela é uma mulher negra, usa maquiagem no contorno dos olhos e seus cabelos estão alisados. No lado esquerdo da imagem, a moldura do espelho corta o reflexo de seu rosto. A imagem está em preto e branco." width="1600" height="900" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/03/time-1.jpg 1600w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/03/time-1-300x169.jpg 300w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/03/time-1-1024x576.jpg 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/03/time-1-768x432.jpg 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/03/time-1-1536x864.jpg 1536w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/03/time-1-1200x675.jpg 1200w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 1362px) 62vw, 840px" /><figcaption id="caption-attachment-19358" class="wp-caption-text">“Nós pensamos na magnitude das pessoas que estão encarceradas mas não temos nenhum exemplo visual de como é isso. Estamos lidando com uma comunidade invisível. De certa forma, a única maneira de testemunharmos sua experiência é por meio das pessoas que estão de fora”, disse a diretora do filme em <a href="https://deadline.com/2021/01/time-documentary-garrett-bradley-interview-fox-rich-amazon-contenders-1234670492/">entrevista</a> (Foto: Reprodução)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">O centro de tudo é <a href="https://www.instagram.com/foxandrob/">Fox Rich</a>, que conduz a narrativa, gerencia e mantém a família, luta pela liberdade de seu marido e é a principal colaboradora de </span><i><span style="font-weight: 400;">Time</span></i><span style="font-weight: 400;">, que de início, seria apenas um curta sobre a história de sua família. A ideia se transformou quando Rich apresentou à Bradley um</span><span style="font-weight: 400;"> material de 100 horas de vídeos caseiros que ela havia gravado nos últimos 18 anos como forma de dividir seus momentos com os filhos com o seu marido encarcerado.</span><span style="font-weight: 400;"> Reconhecendo a riqueza sentimental e subjetiva da história registrada dos Richardson, a jovem diretora mergulhou no passado e presente da família para debater os impactos do <a href="https://www.youtube.com/watch?v=-TU5iLbUcBw">encarceramento em massa</a> e pautar uma discussão sobre o <a href="https://www.youtube.com/watch?v=eMM0mETFyJ0">abolicionismo penal</a>.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">O poder de </span><i><span style="font-weight: 400;">Time</span></i><span style="font-weight: 400;">, aliás, está exatamente na mistura borrada do tempo, livre de qualquer progressão linear. Primeiro, vê-se as crianças brincando em parque de diversões, depois, elas estão se formando na faculdade, depois, estão de volta à infância indo para o primeiro dia na escola, e depois, são adultos acompanhando o dia a dia agitado da mãe no negócio da família. Em qualquer um dos momentos, o pai não está. O </span><i><span style="font-weight: 400;">tempo</span></i><span style="font-weight: 400;"> é distorcido, incerto, sugado pelo buraco negro da ausência, intensificado pela dor da injustiça perversa e pela energia drenada para a resistência na luta pela liberdade, sempre acompanhado pela tremulação do arrependimento e pelos silêncios oferecidos à quem espera anos por respostas.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">E quando o nosso entendimento ameaça cair em algo romantizado, estagnado numa admiração ao poder e à força do amor e adorador de um arco de redenção, </span><i><span style="font-weight: 400;">Time</span></i><span style="font-weight: 400;"> calibra sua mensagem na voz firme e desperta de sua principal figura através dos termos &#8220;</span><i><span style="font-weight: 400;">pessoas pobres</span></i><span style="font-weight: 400;">&#8220;, &#8220;</span><i><span style="font-weight: 400;">pessoas de cor</span></i><span style="font-weight: 400;">&#8221; e “</span><i><span style="font-weight: 400;">pessoas brancas</span></i><span style="font-weight: 400;">”. Logo, Fox (e às vezes sua mãe implacável) dá nome aos bois com a expressão </span><i><span style="font-weight: 400;">“sistema moderno de escravidão</span></i><span style="font-weight: 400;">” no meio de suas narrações em <em>off</em> ou nas palestras que ela ministra enquanto ativista abolicionista, assistidas majoritariamente por outras mulheres negras e pelas lentes observativas de </span>Zac Manuel, Justin Zweifach e Nisa East. Com p<span style="font-weight: 400;">lena consciência de seus atos e das consequências deles para todos ao seu redor, ela também entende muito bem o seu contexto, dominado por estruturas de poder que fizeram dela e sua família uma demonstração do <a href="https://www.geledes.org.br/e-essa-cara-de-pobre-minha-filha-e-pra-te-olhar-melhor/">classismo</a> e <a href="https://www.geledes.org.br/racismo-institucional-o-ato-silencioso-que-distingue-as-racas/">racismo institucional</a>.</span></p>
<figure id="attachment_19359" aria-describedby="caption-attachment-19359" style="width: 1353px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="wp-image-19359 size-full" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/03/time-documentary-documentario-oscar2021.png" alt="Imagem do filme Time. A fotografia mostra Sibil Fox Rich e Robert Rich jovens dentro de um carro. Sibil é uma mulher negra, seus cabelos estão presos com uma presilha, ela usa uma camiseta branca e brincos de argola e se vira de lado para beijar Robert, seu esposo. Ele, um homem negro de cabelos raspados, usa uma camiseta escura, e retribui o beijo de Sibil, olhando para a câmera, que está posicionada na altura do para-brisa do carro. A foto é em preto e branco." width="1353" height="773" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/03/time-documentary-documentario-oscar2021.png 1353w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/03/time-documentary-documentario-oscar2021-300x171.png 300w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/03/time-documentary-documentario-oscar2021-1024x585.png 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/03/time-documentary-documentario-oscar2021-768x439.png 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/03/time-documentary-documentario-oscar2021-1200x686.png 1200w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 1362px) 62vw, 840px" /><figcaption id="caption-attachment-19359" class="wp-caption-text">O simbolismo da história é tremendo: Robert Rich ficou detido numa prisão de segurança máxima no estado de Louisiana, a maior dos EUA, conhecida popularmente como “Angola”, em referência ao país de origem de muitos dos escravos que trabalharam na região (Foto: Reprodução)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">Com uma temática densa nas mãos, a direção de Garrett Bradley &#8211; premiada no Festival de Cinema de </span><i><span style="font-weight: 400;">Sundance</span></i><span style="font-weight: 400;">, onde também concorreu ao Grande Prêmio do Júri antes de passar pelo </span><i><span style="font-weight: 400;">Critics Choice Documentary Awards, Independent Spirit Awards</span></i><span style="font-weight: 400;"> até chegar na <a href="https://www.termometrooscar.com/melhor-documentaacuterio.html">seleção diversificada</a> dos Melhores Documentários do </span><a href="https://personaunesp.com.br/tag/oscar-2021/"><i><span style="font-weight: 400;">Oscar </span></i><span style="font-weight: 400;">2021</span></a> <span style="font-weight: 400;">&#8211; vai pelo caminho oposto ao da criminalização para alcançar uma linguagem poderosa de humanização. </span><i><span style="font-weight: 400;">Time</span></i><span style="font-weight: 400;"> é uma obra de escuta &#8211; tanto pelo verbal quanto pelo não-verbal, tanto para quem o fez quanto para quem o acompanha. Tocar nesse assunto é incitar polêmicas e opiniões inflamadas e</span><span style="font-weight: 400;"> todo filme demonstra saber disso. Então, ele conta com a abertura de quem o assiste, que esteja disposto a ir até ele </span><span style="font-weight: 400;">sem preconceitos, permitindo-se desmontar e bagunçar suas noções morais para <a href="https://www.aosfatos.org/noticias/cinco-fatos-sobre-o-sistema-prisional-brasileiro/">enxergar e compreender uma realidade</a> que <a href="https://www.justificando.com/2019/05/30/entendendo-o-basico-para-opinar-sobre-a-crise-no-sistema-penitenciario-brasileiro/">não é distante de nós</a> como pode parecer.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">O filme faz isso através de uma montagem e roteirização atenta, calma e compassiva, e de uma fotografia que procura pelos olhos de seus personagens, olha devagar e observa todos os detalhes. Nessa direção, cria-se também </span><span style="font-weight: 400;">um contraste estético inteligentíssimo: os registros antigos de Rich são repletos de texturas, mas as imagens do presente são chapadas, um tanto esmaecidas e etéreas, casadas na ausência de cor preenchida pelos tons de preto e branco. Ao contrário do que se esperaria de uma obra que retrata o passar do tempo, <i>Time</i> não deixa suas marcas visíveis objetivamente, forçando-nos a ouvir e observar com atenção. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Essa é a forma que </span><em><span style="font-weight: 400;">Time </span></em><span style="font-weight: 400;">encontra para dizer que</span><span style="font-weight: 400;"> não busca explicações, justificativas ou dicotomias morais. O filme não sangra a ferida do arrependimento, não espetaculariza, não alarma nem discute a legitimidade do crime ou da punição. O apontamento desses aspectos fica de fora da tela, exaustivamente julgados pela sociedade que, em contrapartida, não parecem ser importantes nem mesmo para a própria justiça, que aparelhada e viciada, tem uma outra finalidade no lugar de ser de fato justa. O que ocorre é um gesto de devolver o olhar humano para pessoas que só são vistas atrás das grades, quando não como apenas números, destacando sua existência para além de estereótipos e retratos rasos.</span></p>
<figure id="attachment_19363" aria-describedby="caption-attachment-19363" style="width: 1200px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="wp-image-19363" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/03/cineclube-1024x676.png" alt="Imagem do filme Time. A fotografia mostra um homem, negro e de cabelos curtos usando uma camisa, de costas e segurando um bebê. A imagem está em preto e branco." width="1200" height="792" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/03/cineclube-1024x676.png 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/03/cineclube-300x198.png 300w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/03/cineclube-768x507.png 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/03/cineclube-1200x792.png 1200w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/03/cineclube.png 1513w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 1362px) 62vw, 840px" /><figcaption id="caption-attachment-19363" class="wp-caption-text">“Uma justiça tardia é uma justiça negada” (Foto: Reprodução)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">A delicadeza de </span><i><span style="font-weight: 400;">Time</span></i><span style="font-weight: 400;">, entretanto, não o faz ser algo menos firme, preciso ou seguro, vide a forma como ele escolhe suas palavras e nomeia seus objetos: a vivência da família fala sobre um sistema organizado, não só de uma ação dentre muitas outras <a href="https://www.bbc.com/portuguese/internacional-36429539">sintomáticas de uma sociedade desigual</a>. A intenção da diretora (que também assina a produção junto de </span>Kellen Quinn e Lauren Domino) segue sua identidade de<span style="font-weight: 400;"> investigar em suas obras as tramas que compõem o tecido social norte-americano: entender as dinâmicas por trás do sistema prisional, que comprometem muito além da vida de quem é preso, e alertar para os seus efeitos de marginalização de populações específicas e propagação de estruturas de poder.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Ao fim, surge o óbvio: muito se reflete sobre o tempo em <em>Time</em>. Uma família que tem uma relação tão complexa com ele apresenta visões otimistas e pessimistas, esperançosas e revoltadas, age diante dele de muitas formas diferentes. “</span><i><span style="font-weight: 400;">O tempo é o que você faz dele</span></i><span style="font-weight: 400;">”, conclui um dos filhos em um dado momento, antes da luta de duas décadas encontrar sua resolução. Para eles, tempo é vida, tempo é resistir, tempo é esperança e também decepção. E a vida não acaba, a luta não acaba, o amor não acaba, o tempo não acaba. Dentre todos os devaneios filosóficos que podem surgir da sutileza do filme, a </span><span style="font-weight: 400;">reflexão sobre o tempo entre os 20 anos mais severos da história da família Richardson se transforma em algo dialógico à toda a história dos últimos 200 anos na América: iniciados com uma promessa de liberdade e inseridos num tempo que muda vidas em anos, dias e até minutos, mas que também é parte de um sistema que não mudou em dois séculos.</span></p>
<div class="jetpack-video-wrapper"><iframe loading="lazy" title="TIME – Official Trailer | Prime Video" width="840" height="473" src="https://www.youtube.com/embed/kq6Hh07oLvs?feature=oembed" frameborder="0" allow="accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share" referrerpolicy="strict-origin-when-cross-origin" allowfullscreen></iframe></div>
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