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	<title>Arquivos Sexualização &#8211; Persona | Jornalismo Cultural</title>
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	<description>Desde 2015 provando que a distância entre Bergman, Lady Gaga e a novela das 9 nem existe.</description>
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		<title>Do esgoto de Hollywood a suas telas: The Idol prova que polêmicas não trazem um hit e qualidade</title>
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		<pubDate>Fri, 24 Nov 2023 12:17:25 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p>Talita Cardoso Abusos da mídia, dores físicas e psicológicas de artistas, transtornos desencadeados pelo meio e todos os bastidores podres da indústria musical de forma nunca antes vista. Foi o que The Idol prometeu explorar ao narrar a perspectiva de Jocelyn (Lily-Rose Depp), uma cantora mentalmente instável e fisicamente ferida pela profissão, que tem sua &#8230; <a href="http://personaunesp.com.br/the-idol-critica/" class="more-link">Continue lendo<span class="screen-reader-text"> "Do esgoto de Hollywood a suas telas: The Idol prova que polêmicas não trazem um hit e qualidade"</span></a></p>
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										<content:encoded><![CDATA[<figure id="attachment_31937" aria-describedby="caption-attachment-31937" style="width: 1999px" class="wp-caption alignnone"><img fetchpriority="high" decoding="async" class="size-full wp-image-31937" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/11/image6.jpg" alt="Cena da série The Idol. Na imagem há Lily-Rose Depp, uma mulher branca e loira à frente, com a cabeça levemente virada para a direita e uma camiseta regata branca com decote, ela é abraçada por trás por Tedros, The Weeknd, um homem negro, com barba, óculos escuros e camisa branca com alguns detalhes triangulares em preto. Ambos estão sorrindo. Ao fundo, é possível enxergar algumas pessoas dançando. A fotografia foi tirada em uma balada." width="1999" height="756" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/11/image6.jpg 1999w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/11/image6-800x303.jpg 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/11/image6-1024x387.jpg 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/11/image6-768x290.jpg 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/11/image6-1536x581.jpg 1536w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/11/image6-1200x454.jpg 1200w" sizes="(max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 1362px) 62vw, 840px" /><figcaption id="caption-attachment-31937" class="wp-caption-text">No Festival de Cannes, o diretor Sam Levinson afirmou que as controvérsias fariam de The Idol a maior série do verão (Foto: HBO Max)</figcaption></figure>
<p><b>Talita Cardoso</b></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Abusos da mídia, dores físicas e psicológicas de artistas, transtornos desencadeados pelo meio e todos os bastidores podres da indústria musical de forma nunca antes vista. Foi o que </span><i><span style="font-weight: 400;">The Idol</span></i><span style="font-weight: 400;"> prometeu explorar ao narrar a perspectiva de Jocelyn (Lily-Rose Depp), uma cantora mentalmente instável e fisicamente ferida pela profissão, que tem sua vida e a forma como enxerga a arte alterada ao conhecer um problemático produtor musical, Tedros (The Weeknd).</span></p>
<p><span id="more-31931"></span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Apesar de abordar muitos dos temas os quais se propõem, a qualidade na forma como eles são retratados é desprezível, mas o que o público poderia esperar de uma série que antes mesmo de estrear já estava banhada de polêmicas e, após uma exibição prévia no </span><a href="https://www.festival-cannes.com/"><span style="font-weight: 400;">Festival de Cannes</span></a><span style="font-weight: 400;">, foi massacrada pela crítica especializada. Isso fez com que a obra, dirigida e roteirizada por Sam Levinson, </span><a href="https://www.tecmundo.com.br/minha-serie/269083-the-idol-serie-polemica-hbo-the-weeknd-cancelada.htm"><span style="font-weight: 400;">fosse cancelada</span></a><span style="font-weight: 400;"> após a recepção negativa do público, por mais que, previamente, a segunda temporada estivesse sendo cotada pela produtora.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">A promessa de problematizar um meio por si só problemático ficou só em sonho e, apesar do elenco e a produção terem dado as caras em Cannes sorridentes e orgulhosos, com Sam Levinson chorando e fazendo declarações ousadas de que </span><i><span style="font-weight: 400;">The Idol</span></i><span style="font-weight: 400;"> iria hitar, a aceitação do público não foi a das melhores. Já no primeiro episódio, </span><i><span style="font-weight: 400;">Cara Melada e Contos do Malandro</span></i><span style="font-weight: 400;">, a audiência ficou atrás de outro sucesso da </span><i><span style="font-weight: 400;">HBO</span></i><span style="font-weight: 400;">, também dirigida por Levinson, </span><a href="https://personaunesp.com.br/euphoria-part-1-rue-critica/"><i><span style="font-weight: 400;">Euphoria</span></i></a><span style="font-weight: 400;">.</span></p>
<figure id="attachment_31934" aria-describedby="caption-attachment-31934" style="width: 1999px" class="wp-caption alignnone"><img decoding="async" class="size-full wp-image-31934" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/11/image3-8.jpg" alt="Cena da série The Idol. Lily-Rose Depp, uma mulher branca e loira, com cabelos longos e The Weeknd, homem negro, de barba, que está usando um óculos escuros, se abraçam olhando para a esquerda da imagem. A imagem é escura, quase preta, com uma luz vermelha destacando ambos. Ao fundo há uma mulher desfocada e sorrindo." width="1999" height="756" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/11/image3-8.jpg 1999w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/11/image3-8-800x303.jpg 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/11/image3-8-1024x387.jpg 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/11/image3-8-768x290.jpg 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/11/image3-8-1536x581.jpg 1536w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/11/image3-8-1200x454.jpg 1200w" sizes="(max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 1362px) 62vw, 840px" /><figcaption id="caption-attachment-31934" class="wp-caption-text">A <a href="https://www.rollingstone.com/tv-movies/tv-movie-features/the-idol-hbo-next-euphoria-torture-porn-the-weeknd-sam-levinson-lily-rose-depp-blackpink-jennie-1234688754/">revista Rolling Stones</a> divulgou que o orçamento da série foi de, no mínimo, US$ 75 milhões de dólares (Foto: HBO Max)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">O fracasso de público pode ser explicado por uma junção de muitos fatores. O roteiro se assemelha a um </span><a href="https://manasemanos.com.br/soft-porn-virou-sinonimo-de-empoderamento-feminino/"><i><span style="font-weight: 400;">soft porn</span></i></a><span style="font-weight: 400;">, exatamente o que se espera de algo criado sem a perspectiva feminina: </span><a href="https://comunidadeculturaearte.com/a-sexualizacao-e-objetificacao-de-personagens-femininas-no-cinema-uma-visao/"><span style="font-weight: 400;">sexualização e degradação feminina</span></a><span style="font-weight: 400;"> disfarçada de crítica e arte, pode ser um dos principais. Logo no piloto, tudo é sobre sexo, desde o enredo principal do até os diálogos mais banais. A monotemática de um texto que não se aprofunda em nada se torna mais sutil ao longo da série, mas a trama nunca evolui para algo a mais. Além de misógina, </span><i><span style="font-weight: 400;">The Idol</span></i><span style="font-weight: 400;"> é rasa e tudo o que era suposto para problematizar. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Apesar disso, é perceptível a tentativa de captar a indústria musical. O sofrimento de Jocelyn é palpável para o público, mostrando as dificuldades em controlar suas emoções para parecer perfeita aos olhos dos outros, as dores de ter que fingir que está bem mesmo quando está prestes a desmoronar e de ter que continuar tentando mesmo que seu corpo já não aguente mais e possua demasiadas feridas abertas. Suas dores são físicas e psicológicas, claramente muito </span><a href="https://wwd.com/pop-culture/culture-news/the-idol-britney-spears-selena-gomez-inspiration-1235684986/"><span style="font-weight: 400;">inspiradas em divas </span><i><span style="font-weight: 400;">pop</span></i><span style="font-weight: 400;"> verdadeiras</span></a><span style="font-weight: 400;">, que tiveram suas angústias sexualizadas e tiradas de contexto ao longo do programa. </span></p>
<figure id="attachment_31936" aria-describedby="caption-attachment-31936" style="width: 1999px" class="wp-caption alignnone"><img decoding="async" class="size-full wp-image-31936" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/11/image5-1.jpg" alt="Cena da série The Idol. Na imagem há Lily-Rose Depp, uma mulher branca e loira, com cabelos longos, olhando para si mesma em um espelho, virada para o lado esquerdo da imagem. Ela está com uma maquiagem preta no olho e um batom neutro. É possível enxergar apenas de seu ombro para cima e da para ver alguns detalhes de sua roupa rosa. Ao fundo, a imagem é quase totalmente preta e desfocada." width="1999" height="756" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/11/image5-1.jpg 1999w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/11/image5-1-800x303.jpg 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/11/image5-1-1024x387.jpg 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/11/image5-1-768x290.jpg 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/11/image5-1-1536x581.jpg 1536w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/11/image5-1-1200x454.jpg 1200w" sizes="(max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 1362px) 62vw, 840px" /><figcaption id="caption-attachment-31936" class="wp-caption-text">Em <a href="https://www.independent.co.uk/arts-entertainment/tv/news/the-idol-episode-5-lily-rose-depp-b2368224.html">entrevista para a Vogue Austrália</a>, Lily-Rose Depp afirmou que The Idol não é uma série para qualquer pessoa e que “toda melhor arte é polarizante” (Foto: HBO Max)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">Além de um roteiro preguiçoso, os visuais, os figurinos e as cores não funcionam. Mesmo com a clara tentativa de criar uma </span><a href="https://www.inglesnapontadalingua.com.br/2010/07/o-que-significa-o-termo-it-girl.html"><i><span style="font-weight: 400;">it girl</span></i></a><span style="font-weight: 400;"> que se torne inspiração, nada é memorável e acaba se tornando esquecível. Ainda sobre a estética, o único ponto alto e que merece destaque são as cenas em que Tedros aparece e as imagens se tornam escuras, com alguns tons em vermelho, trazendo a ideia de corrupção da personagem. Além disso, o jogo de câmera, idealizado por Marcell Rév, se torna mais inquieto e ansioso, sendo interessante em uma primeira análise. Entretanto, essa é uma tática visual que enjoa facilmente e se assemelha a uma mera extensão dos </span><a href="https://www.youtube.com/watch?v=ORVz_qeKgvg&amp;list=PLPWfqOiEsaWSx3tNonuFZ4CVxSQYaqqFG"><span style="font-weight: 400;">videoclipes de The Weeknd</span></a><span style="font-weight: 400;">.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Já no elenco, Lily-Rose Depp não faz uma atuação terrível e tem seus bons momentos, claramente evoluindo ao longo dos episódios. O cantor é inexpressivo e consegue a proeza de fazer e falar os maiores absurdos sem esboçar nenhuma reação, não se conectando nem ao menos com seus parceiros de cena. </span><a href="https://www.revistalofficiel.com.br/pop-culture/jennie-kim-musa-chanel"><span style="font-weight: 400;">Jennie Kim, interpretando Dyanne</span></a><span style="font-weight: 400;">, rouba a atenção sempre que está na tela. Apesar de aparecer em poucos momentos, a cantora foi dona de uma das únicas, senão única, cena viral da série, a </span><a href="https://www.tiktok.com/@_jenlily_/video/7241197226956000539?_r=1&amp;_t=8e4WCfKQAMw"><span style="font-weight: 400;">coreografia de </span><i><span style="font-weight: 400;">World Class Sinner</span></i></a><span style="font-weight: 400;">.</span></p>
<figure id="attachment_31933" aria-describedby="caption-attachment-31933" style="width: 1999px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-full wp-image-31933" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/11/image2-8.jpg" alt="Cena da série The Idol. Jennie é uma mulher coreana de cabelos pretos e longos, com alguns fios amarrados em um coque e o resto solto. Ela está sentada e olhando para a direita de forma fixa. Suas roupas são completamente pretas, sendo uma camiseta com manga de um lado só e uma calça. A imagem é bem escura e tem tons amarelados nas partes iluminadas. O fundo possui luzes e uma cortina." width="1999" height="756" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/11/image2-8.jpg 1999w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/11/image2-8-800x303.jpg 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/11/image2-8-1024x387.jpg 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/11/image2-8-768x290.jpg 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/11/image2-8-1536x581.jpg 1536w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/11/image2-8-1200x454.jpg 1200w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 1362px) 62vw, 840px" /><figcaption id="caption-attachment-31933" class="wp-caption-text">Jennie foi um dos <a href="https://revistaquem.globo.com/entretenimento/k-pop/noticia/2023/05/jennie-kim-do-blackpink-rouba-a-cena-em-cannes.ghtml">destaques em Cannes</a> quando apareceu com o restante do elenco de The Idol no tapete vermelho (Foto: HBO Max)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">Há claras tentativas falidas e ridículas de inserir um suposto </span><a href="https://www.institutoalgar.org.br/o-empoderamento-feminino/"><span style="font-weight: 400;">empoderamento feminino</span></a><span style="font-weight: 400;"> na protagonista, que evidenciam ainda mais um roteiro em que nenhuma mulher colocou os dedos. O feminismo liberal representado não traz pauta relevante, se limitando à ideia de um movimento aliado ao capitalismo, ambos incentivando Jocelyn a lucrar com seu corpo, mesmo que a própria cantora se mostre descontente em se expor nua visando lucros. Todos a tratam como inocente e a julgam por não querer fazer isso consigo mesma. No fim, isso apenas reforçou o ideal machista do</span><i><span style="font-weight: 400;"> script</span></i><span style="font-weight: 400;">.</span><i><span style="font-weight: 400;"> </span></i></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Além disso, o ‘relacionamento’ representado entre Jocelyn e Tedros é repugnante e desnecessariamente romantizado. De início, o homem a utiliza como bem entende, o que gerou </span><a href="https://www.omelete.com.br/hbo-max/the-idol-reacoes-critica-cannes"><span style="font-weight: 400;">severas críticas à série</span></a><span style="font-weight: 400;">. Assim, houve uma tentativa de amenizar todo o abuso mostrado ao longo dos episódios, trazendo um </span><i><span style="font-weight: 400;">plot twist</span></i><span style="font-weight: 400;"> sem noção e mal construído para a personagem de Lily-Rose Depp. Repentinamente, um roteiro que foi todo construído na ideia do abuso de uma mulher claramente quebrada psicologicamente faz com que ela se torne uma vilã e o abusador, um coitado. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">É fácil relacionar o final da série a uma tentativa de uma </span><i><span style="font-weight: 400;">girl boss</span></i><span style="font-weight: 400;">, um </span><a href="https://frenezirevista.com/2022/08/24/female-rage-conheca-a-furia-feminina-na-literatura/"><i><span style="font-weight: 400;">female rage</span></i></a><span style="font-weight: 400;"> ou um ‘</span><a href="https://pixelnerd.com.br/literalmente-eu-saiba-quais-personagens-da-cultura-pop-constantemente-sao-associadas-a-personalidades-de-pessoas/"><span style="font-weight: 400;">literalmente eu</span></a><span style="font-weight: 400;">’ para conquistar o público e viralizar no </span><i><span style="font-weight: 400;">TikTok</span></i><span style="font-weight: 400;">. Claramente, não funciona. Personagens assim, atualmente, só conquistam o público feminino quando não são construídas sob o </span><a href="https://claudemirpereira.com.br/2022/03/o-olhar-masculino-por-elen-biguelini/"><span style="font-weight: 400;">olhar masculino</span></a><span style="font-weight: 400;">. Ao contrário do que parece ter sido desejado, o final só tornou tudo mais misógino e inconsequente. Além disso, muitos dos abusos cometidos são tidos como ‘método de trabalho’ por Tedros e em nenhum momento há uma reflexão sobre isso. Uma produção que se propõe a fazer análises sobre a toxicidade de uma indústria parece, na verdade, normalizar abusos inaceitáveis e deixar passar claras problemáticas.</span></p>
<figure id="attachment_31935" aria-describedby="caption-attachment-31935" style="width: 1999px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-full wp-image-31935" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/11/image4-5.jpg" alt="Cena da série The Idol. The Weeknd, como Tedros. Ele é um homem negro, de barba e cabelo preto curto que está sentado e apoiando seu braço direito no sofá enquanto olha para a direita da imagem. Ele usa uma camisa branca com alguns detalhes em rosa que está aberta e é possível ver uma camiseta preta por dentro. Ele também usa um colar. Ao fundo, é possível ver algumas luzes." width="1999" height="756" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/11/image4-5.jpg 1999w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/11/image4-5-800x303.jpg 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/11/image4-5-1024x387.jpg 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/11/image4-5-768x290.jpg 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/11/image4-5-1536x581.jpg 1536w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/11/image4-5-1200x454.jpg 1200w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 1362px) 62vw, 840px" /><figcaption id="caption-attachment-31935" class="wp-caption-text">The Weeknd negou, em entrevista, que Tredos tenha sido criado para seduzir a audiência, mas o define como portador de uma “vibração sinistra” e “aesthetic” (Foto: HBO Max)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">O único aspecto genuinamente competente da série é sua trilha sonora. Afinal, The Weeknd como roteirista e ator é um ótimo músico. Quase todas as melodias que compõem o enredo têm seu dedo nas produções e composições, o que não é ruim, já que ele entrega qualidade. Merecem destaque </span><a href="https://open.spotify.com/intl-pt/track/7CyPwkp0oE8Ro9Dd5CUDjW?si=83061f188f18422f"><i><span style="font-weight: 400;">One Of The Girls</span></i></a><span style="font-weight: 400;">, uma das mais ouvidas no </span><i><span style="font-weight: 400;">Spotify</span></i><span style="font-weight: 400;">, com seus vocais e ritmo marcantes, e </span><a href="https://open.spotify.com/intl-pt/track/6WzRpISELf3YglGAh7TXcG?si=73da166e89794e16"><i><span style="font-weight: 400;">Popular</span></i></a><span style="font-weight: 400;">, com uma batida notável e a participação especial da lendária </span><a href="https://personaunesp.com.br/madonna-ray-of-light-critica/"><span style="font-weight: 400;">Madonna</span></a><span style="font-weight: 400;">. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">O que poucos sabem é que </span><i><span style="font-weight: 400;">The Idol</span></i><span style="font-weight: 400;"> se tornou um conjunto de desastres após a demissão da </span><a href="https://musicaecinema.com/a-polemica-demissao-de-amy-seimetz-de-serie-da-hbo/"><span style="font-weight: 400;">diretora inicial, Amy Seimetz</span></a><span style="font-weight: 400;">, que saiu repentinamente quando quase todos os episódios da série já estavam finalizados. </span><a href="https://uproxx.com/music/the-weeknd-the-idol-overhaul-female-perspective/"><span style="font-weight: 400;">Burburinhos disseram</span></a><span style="font-weight: 400;"> que The Weeknd, co-criador, acreditava que o </span><i><span style="font-weight: 400;">show</span></i><span style="font-weight: 400;"> tinha uma perspectiva feminista muito forte e por isso substituiu Seimetz por Levinson, que reescreveu e regravou praticamente tudo.</span></p>
<figure id="attachment_31932" aria-describedby="caption-attachment-31932" style="width: 1999px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-full wp-image-31932" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/11/image1-7.jpg" alt="Na imagem há Lily-Rose Depp, uma mulher branca e loira à frente, com a cabeça levemente inclinada para esquerda, repousando-a sobre o braço de um homem atrás dela. Ela usa um óculos escuro. O homem atrás dela é The Weeknd, um homem negro, que está com o braço direito levantado, óculos escuros e um palito entre os dentes. Ambos têm suas cabeças viradas em direção a foto e estão dentro de um carro conversível com estofado vermelho e, ao fundo, é possível enxergar o céu azul e algumas palmeiras" width="1999" height="756" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/11/image1-7.jpg 1999w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/11/image1-7-800x303.jpg 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/11/image1-7-1024x387.jpg 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/11/image1-7-768x290.jpg 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/11/image1-7-1536x581.jpg 1536w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/11/image1-7-1200x454.jpg 1200w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 1362px) 62vw, 840px" /><figcaption id="caption-attachment-31932" class="wp-caption-text">Fotos dos bastidores da <a href="https://www.filmfare.com/news/hollywood/bts-pics-from-the-first-version-of-the-idol-reveal-a-shockingly-different-show-59651.html">antiga versão de The Idol</a> vazaram, revelando Jocelyn como uma artista pop estilo anos 2000, muitas cores e uma série completamente diferente da entregue por Sam Levinson e The Weeknd (Foto: HBO Max)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">Com tanta coisa negativa, não tinha um ser humano para avisar que </span><i><span style="font-weight: 400;">The Idol</span></i><span style="font-weight: 400;"> era uma péssima ideia? Na verdade, tinha sim. Com a clara mudança de perspectiva, vários membros da produção foram contra a produção e, em </span><a href="https://www.rollingstone.com/tv-movies/tv-movie-features/the-idol-hbo-next-euphoria-torture-porn-the-weeknd-sam-levinson-lily-rose-depp-blackpink-jennie-1234688754/"><span style="font-weight: 400;">entrevista para a </span><i><span style="font-weight: 400;">Rolling Stones</span></i></a><span style="font-weight: 400;">, contaram sobre as polêmicas no </span><i><span style="font-weight: 400;">set</span></i><span style="font-weight: 400;">. Um deles ressaltou que a série saiu de uma sátira para se tornar exatamente o que eles queriam satirizar; já outro problematizou as cenas romantizadas de abuso, mas mesmo com diversos avisos, o seriado saiu do papel e ganhou vida.</span><span style="font-weight: 400;"> </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Com uma enxurrada de controvérsias e uma baixa qualidade, a obra foi </span><a href="https://www.nationalworld.com/culture/television/the-idol-cancelled-the-weeknd-lily-rose-depp-sam-levinson-hbo-4202455"><span style="font-weight: 400;">encerrada com um episódio a menos</span></a><span style="font-weight: 400;"> do que a ideia inicial da antiga diretora. Com cinco atos de 50 minutos cada, </span><i><span style="font-weight: 400;">The Idol</span></i><span style="font-weight: 400;"> é uma tortura de 275 minutos legalizada pela </span><i><span style="font-weight: 400;">HBO</span></i><span style="font-weight: 400;"> e  um drama angustiante de se assistir. Não há história, não é artístico. Por mais que Sam Levinson considere o acúmulo de comentários negativos uma forma de</span><i><span style="font-weight: 400;"> marketing</span></i><span style="font-weight: 400;">, a série continua podre e não precisava nem ao menos ter passado do primeiro episódio.</span></p>
<p><iframe title="Spotify Embed: The Idol Official Playlist" style="border-radius: 12px" width="100%" height="352" frameborder="0" allowfullscreen allow="autoplay; clipboard-write; encrypted-media; fullscreen; picture-in-picture" loading="lazy" src="https://open.spotify.com/embed/playlist/37i9dQZF1DX6JvB1I8cgKT?si=da5519034cd94df8&#038;utm_source=oembed"></iframe></p>
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		<title>Quem tem medo de Jennifer Check?: Garota Infernal e o verdadeiro inimigo</title>
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		<pubDate>Fri, 29 Oct 2021 16:56:19 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p>Ayra Mori Se em 2009 Garota Infernal foi considerado um crasso fracasso, após uma década de seu lançamento o filme se restabeleceu como Terror cult feminista à frente de seu tempo. Escrito por Diablo Cody, dirigido por Karyn Kusama e protagonizado pela dupla Megan Fox e Amanda Seyfried, Garota Infernal é um estudo de caso &#8230; <a href="http://personaunesp.com.br/garota-infernal-critica/" class="more-link">Continue lendo<span class="screen-reader-text"> "Quem tem medo de Jennifer Check?: Garota Infernal e o verdadeiro inimigo"</span></a></p>
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										<content:encoded><![CDATA[<figure id="attachment_24203" aria-describedby="caption-attachment-24203" style="width: 1280px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-full wp-image-24203" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/10/img1.jpg" alt="Cena do filme Garota Infernal. Megan Fox, que interpreta Jennifer Check, é uma mulher branca, de olhos azuis e cabelos pretos. Jennifer é uma adolescente no colegial. Ela se olha no espelho de um armário azul marinho, típico dos colégios estadunidenses. O espelho é arredondado com strass prata e rosa em sua volta. Na lateral superior esquerda e na lateral inferior direita do espelho estão colados dois adesivos de desenhos orgânicos, também em rosa. Não se vê nada na cena além da vista do rosto de Jennifer refletido no espelho e o fundo azul marinho do armário." width="1280" height="692" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/10/img1.jpg 1280w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/10/img1-800x433.jpg 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/10/img1-1024x554.jpg 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/10/img1-768x415.jpg 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/10/img1-1200x649.jpg 1200w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 1362px) 62vw, 840px" /><figcaption id="caption-attachment-24203" class="wp-caption-text">Fracasso comercial, Garota Infernal pouco a pouco se restabeleceu como terror cult feminista (Foto: Fox/Dune Entertainment)</figcaption></figure>
<p><b>Ayra Mori</b></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Se em 2009 </span><a href="https://youtu.be/C8azftM5puI"><i><span style="font-weight: 400;">Garota Infernal</span></i></a><span style="font-weight: 400;"> foi considerado um crasso fracasso, após uma década de seu lançamento o filme se restabeleceu como </span><a href="https://www.vox.com/culture/2018/10/31/18037996/jennifers-body-flop-cult-classic-feminist-horror"><span style="font-weight: 400;">Terror </span><i><span style="font-weight: 400;">cult </span></i><span style="font-weight: 400;">feminista</span></a><span style="font-weight: 400;"> à frente de seu tempo. Escrito por Diablo Cody, dirigido por Karyn Kusama e protagonizado pela dupla Megan Fox e Amanda Seyfried, </span><i><span style="font-weight: 400;">Garota Infernal</span></i><span style="font-weight: 400;"> é um estudo de caso sobre como um roteiro perspicaz, um enquadramento subversivo da câmera e personagens autoconscientes são capazes de transfigurar o olhar masculino predominante no gênero, pondo em foco a </span><a href="https://www.instagram.com/p/CVTmHYPrAAc/?utm_medium=share_sheet"><span style="font-weight: 400;">perspectiva feminina</span></a><span style="font-weight: 400;"> quanto às violações do corpo através de Jennifer e, </span><span style="font-weight: 400;">bem, “</span><a href="https://www.npr.org/2021/09/16/1037893623/olivia-rodrigo-jennifers-body-good-4-u-teenage-girls-anger"><i><span style="font-weight: 400;">O inferno é uma garota adolescente</span></i></a><span style="font-weight: 400;">”.</span></p>
<p><span id="more-24202"></span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Após o sucesso do encantador </span><a href="https://youtu.be/K0SKf0K3bxg"><i><span style="font-weight: 400;">Juno</span></i></a><span style="font-weight: 400;">, primeiro filme de Cody que lhe rendeu uma vitória no </span><a href="https://www.esqueletosnoarmario.com/post/redescobrindo-garota-infernal"><i><span style="font-weight: 400;">Oscar</span></i><span style="font-weight: 400;"> de Melhor Roteiro Original</span></a><span style="font-weight: 400;">, um misto de expectativa e incerteza pairava acima do próximo projeto da roteirista – seria talento ou sorte de principiante? Assim, concedida total liberdade criativa pelos grandes estúdios, Cody decidiu abraçar suas ideias mais perversas ao escrever um horror pastiche que centralizasse personagens mulheres, explorasse amizades femininas e, principalmente, que fosse sobre uma garota canibal comedora de homens.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Contudo, historicamente, o </span><a href="https://judao.com.br/explorando-o-exploitation/"><i><span style="font-weight: 400;">exploitation</span></i></a> <span style="font-weight: 400;">carrega consigo uma </span><a href="https://www.theguardian.com/film/2009/nov/02/jennifers-body-feminist-exploitation"><span style="font-weight: 400;">má reputação</span></a><span style="font-weight: 400;">. Nele, sobretudo nas décadas de 1950 à 1970, o papel das mulheres se reduzia basicamente ao prazer de sua dor, </span><i><span style="font-weight: 400;">voyeurizado </span></i><span style="font-weight: 400;">pelo</span> <a href="https://blogfca.pucminas.br/ccm/male-gaze-e-a-prevalencia-da-visao-masculina/"><i><span style="font-weight: 400;">olhar masculino</span></i></a><span style="font-weight: 400;"> (termo conhecido como </span><i><span style="font-weight: 400;">male gaze</span></i><span style="font-weight: 400;">, em inglês). E se o gênero por si só já é definido</span><span style="font-weight: 400;"> como “lixo”, um filme cuja narrativa concentra-se na transformação de uma garota popular em demônio que se alimenta especificamente de homens – além de ser encabeçado por uma equipe de mulheres –, certamente seria um desafio comercial na época.</span></p>
<figure id="attachment_24204" aria-describedby="caption-attachment-24204" style="width: 1920px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-full wp-image-24204" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/10/img2.png" alt="Cena do filme Garota Infernal. Megan Fox, que interpreta Jennifer Check, é uma mulher branca, de olhos azuis e cabelos pretos. Jennifer é uma adolescente no colegial. Ela está nua, nadando em um lago. As águas do lago refletem a luz do fim da tarde, num tom azul escuro. As partes não refletidas da água estão em tom preto. No enquadramento da cena, Jennifer está centralizada encarando a câmera. Ao seu redor só é possível ver o lago." width="1920" height="1048" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/10/img2.png 1920w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/10/img2-800x437.png 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/10/img2-1024x559.png 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/10/img2-768x419.png 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/10/img2-1536x838.png 1536w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/10/img2-1200x655.png 1200w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 1362px) 62vw, 840px" /><figcaption id="caption-attachment-24204" class="wp-caption-text">Assim como Jennifer Check, Megan Fox sentia-se violada, traçando paralelos entre o rito satânico do filme à indústria cinematográfica (Foto: Fox/Dune Entertainment)</figcaption></figure>
<p><i><span style="font-weight: 400;">Garota Infernal</span></i><span style="font-weight: 400;"> ultrapassou os limites do véu que separa arquétipos igualmente condenatórios da “lésbica frígida” à “burra promíscua”, inaugurando um debate quanto à </span><a href="https://rollingstone.uol.com.br/noticia/por-que-megan-fox-acredita-que-garota-infernal-esta-frente-do-tempo/"><span style="font-weight: 400;">misoginia internalizada em Hollywood</span></a><span style="font-weight: 400;">. Jennifer Check (Megan Fox) não é casta, inocente e muito menos é modelo de feminismo, pelo contrário, ela é rude, egoísta e maldosa. Ela está longe de ser a vítima perfeita e, acertadamente, isso não importa no filme. Cody não entrega ao público uma mocinha fácil de se torcer, porém, em momento algum sugere que mesmo alguém tão desprezível como Jennifer mereça passar pelas agonias que passou.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Quando Jennifer acaba sozinha dentro de uma </span><i><span style="font-weight: 400;">van</span></i><span style="font-weight: 400;">, rodeada por desconhecidos, o tom de inevitabilidade é indigesto. Ao finalmente se dar conta do que está por vir, não há mais nada que a personagem possa fazer. Ela se desespera, questiona e fracassadamente implora por piedade à banda </span><i><span style="font-weight: 400;">indie </span></i><span style="font-weight: 400;">medíocre que, em busca do triunfo </span><i><span style="font-weight: 400;">à la</span></i><span style="font-weight: 400;"> Maroon 5, é capaz de sacrificá-la em dois segundos. Todavia, a cena, carregada de efeitos visuais alucinantes, traz o ponto de vista de Jennifer, de como ela se sente no momento. A visão dos assassinos não importa e Cody nos estende sua lente, nos encorajando a entender e respeitar Jennifer. Não há fetichização em seu sofrimento e, aqui, a </span><a href="https://www.facebook.com/diasdecinefilia/posts/2650699001682110/"><span style="font-weight: 400;">escrita sensível de Cody</span></a><span style="font-weight: 400;"> brilha. Por não ser virgem, o sacrifício dá errado e agora, súcubo, Jennifer inicia uma série de matanças em </span><i><span style="font-weight: 400;">Devil’s Kettle</span></i><span style="font-weight: 400;"> que estremece a relação com sua melhor amiga Needy (Amanda Seyfried).</span></p>
<figure id="attachment_24205" aria-describedby="caption-attachment-24205" style="width: 1280px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-full wp-image-24205" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/10/img3.jpg" alt="Cena do filme Garota Infernal. Megan Fox, que interpreta Jennifer Check, é uma mulher branca, de olhos azuis e cabelos pretos. Jennifer é uma adolescente no colegial. No enquadramento, ela está centralizada, sorrindo e encarando a câmera com um olhar obsessivo. Ela está com o rosto encardido de sujeira, maquiagem borrada e sangue na boca. Ela veste uma jaqueta branca, também suja e manchada de sangue, e argolas médias em prata. É noite e não há luz no fundo. O fundo é a casa da amiga de Jennifer, Needy, completamente escura." width="1280" height="692" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/10/img3.jpg 1280w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/10/img3-800x433.jpg 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/10/img3-1024x554.jpg 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/10/img3-768x415.jpg 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/10/img3-1200x649.jpg 1200w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 1362px) 62vw, 840px" /><figcaption id="caption-attachment-24205" class="wp-caption-text">O corpo grotesco de Jennifer foi um dos artifícios utilizados por Diablo Cody e Karyn Kusama para negar o male gaze (Foto: Fox/Dune Entertainment)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">Os paralelos com as </span><a href="https://personaunesp.com.br/thelma-e-louise-30-anos/"><span style="font-weight: 400;">dinâmicas abusivas de poder</span></a><span style="font-weight: 400;"> na indústria </span><i><span style="font-weight: 400;">hollywoodiana </span></i><span style="font-weight: 400;">parecem ser óbvias. No entanto, </span><i><span style="font-weight: 400;">Garota Infernal</span></i><span style="font-weight: 400;"> não foi produzido na era do </span><a href="https://www1.folha.uol.com.br/mercado/2018/06/movimento-metoo-gera-417-acusacoes-de-assedio-em-empresas-diz-consultoria.shtml"><i><span style="font-weight: 400;">#MeToo</span></i></a><span style="font-weight: 400;"> e muita coisa mudou em 10 anos. Se esses debates de gênero e violência sexual – infelizmente atemporais –, ganharam repercussão em 2019, no ano de 2009 pouco se discutia a questão. Revelando em entrevistas as próprias </span><a href="https://youtu.be/u2JLRtWlq0o"><span style="font-weight: 400;">experiências pessoais</span></a><span style="font-weight: 400;"> pré-</span><i><span style="font-weight: 400;">#MeToo</span></i><span style="font-weight: 400;">, Fox chegou a comparar o sacrifício de Jennifer ao da própria carreira: “</span><i><span style="font-weight: 400;">Eu sentia que estava sendo sacrificada por seus ganhos, quase sem nenhuma preocupação com meu bem-estar físico. [&#8230;] O que quer que eles precisassem fazer de mim ou me colocar, eles fariam</span></i><span style="font-weight: 400;">.”</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">E, de fato, escalada como estrela do filme, a </span><a href="https://www.indiewire.com/2018/12/karyn-kusama-jennifers-body-marketing-misogynistic-1202026860/"><span style="font-weight: 400;">estratégia de </span><i><span style="font-weight: 400;">marketing</span></i></a> <span style="font-weight: 400;">se voltou à hiperssexualização do corpo de Fox. O estigma de que o terror não agrada garotas definiu o público alvo de maneira equivocada e </span><i><span style="font-weight: 400;">Garota Infernal</span></i><span style="font-weight: 400;"> foi vendido para garotos adolescentes como um filme totalmente diferente do que realmente era. A divulgação consistiu apenas no apelo sexual quase pornográfico de Fox, voltado exclusivamente ao </span><i><span style="font-weight: 400;">olhar masculino</span></i><span style="font-weight: 400;"> – justamente o que Cody e Kusama propunham negar. Não há nudez explícita, Jennifer parece estar doente na metade do filme e o </span><a href="https://macabra.tv/o-medo-da-carne-nos-filmes-de-horror-corporal/"><i><span style="font-weight: 400;">horror corporal</span></i></a> <span style="font-weight: 400;">não é a melhor definição de </span><i><span style="font-weight: 400;">sexy</span></i><span style="font-weight: 400;">. O desastre foi fatal.</span></p>
<figure id="attachment_24206" aria-describedby="caption-attachment-24206" style="width: 1280px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-full wp-image-24206" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/10/img4.jpg" alt="Cena do filme Garota Infernal. Na cena estão Amanda Seyfried, que interpreta Needy, e Megan Fox, que interpreta Jennifer, em ordem. Amanda Seyfried é uma mulher branca de cabelos loiros longos. Ela usa óculos, regata lilás e calça preta. Megan Fox é uma mulher branca de cabelos pretos longos. Ela veste uma blusa branca com manga média cinza escuro, shorts e meias listradas em cinza, branco e vermelho. Ambas estão conversando em cima de uma cama com lençol bege e coberta estampada em tons alaranjados queimados. A cama está centralizada no enquadramento, assim como as personagens. Acima da cama está uma janela com cortina de voil, onde é possível ver que é noite. À frente da janela está pendurada um pisca-pisca de luz amarelada. O fundo da imagem é um quarto. As laterais do quarto possuem forro chanfrado em branco, paredes com papel de parede floral em dourado e vermelho e cabeceiras verdes cheias de objetos. Megan Fox, que interpreta Jennifer Check, é uma mulher branca, de olhos azuis e cabelos pretos. Jennifer é uma adolescente no colegial." width="1280" height="692" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/10/img4.jpg 1280w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/10/img4-800x433.jpg 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/10/img4-1024x554.jpg 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/10/img4-768x415.jpg 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/10/img4-1200x649.jpg 1200w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 1362px) 62vw, 840px" /><figcaption id="caption-attachment-24206" class="wp-caption-text">Needy, a amiga nerd devota, Jennifer, a garota demônio mais cobiçada da escola (Foto: Fox/Dune Entertainment)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">Falhando em atrair o público feminino e decepcionando o masculino, a reprovação foi consensual. Tanto a crítica especializada quanto o público, ambos compostos majoritariamente por homens cis, héteros e brancos, repudiou o filme. As </span><a href="https://www.indiewire.com/2020/09/megan-fox-jennifers-body-feminist-1234589224/"><span style="font-weight: 400;">avaliações eram negativas, até misóginas</span></a><span style="font-weight: 400;">, numa época em que artistas como Megan Fox, Salma Hayek e Angelina Jolie, por exemplo, eram tratadas explicitamente como </span><a href="https://noticiasdatv.uol.com.br/noticia/celebridades/megan-fox-critica-machismo-em-hollywood-me-viam-como-um-casco-vazio-60767"><span style="font-weight: 400;">mercadorias sexuais</span></a><span style="font-weight: 400;">, vistas mais como um rosto bonito do que atrizes talentosas. Para mais, com o advento da </span><i><span style="font-weight: 400;">internet</span></i><span style="font-weight: 400;">, </span><i><span style="font-weight: 400;">blogs </span></i><span style="font-weight: 400;">de fofoca, perseguição de </span><i><span style="font-weight: 400;">paparazzis</span></i><span style="font-weight: 400;">, o ataque à Fox foi intensificado pelo </span><i><span style="font-weight: 400;">cyberbullying</span></i><span style="font-weight: 400;">, culminando na sua reclusão, junto com a de Cody, que desencadeou problemas psicológicos.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Mas para além do legado injusto que o filme suportou por efeito das circunstâncias externas que o envolveram, </span><i><span style="font-weight: 400;">Garota Infernal</span></i><span style="font-weight: 400;"> é uma história sobre a </span><a href="https://mulhernocinema.com/especiais/vida-de-menina-5-filmes-sobre-juventude-estrelados-dirigidos-e-escritos-por-mulheres/"><span style="font-weight: 400;">perda da inocência</span></a><span style="font-weight: 400;"> e novas descobertas. O sacrifício de Jennifer pode ter ressuscitado-a, mas seu antigo eu foi morto, sepultado. Ela não é mais a mesma, ela se sente vazia. A amizade platônica entre Jennifer e Needy (tradução de </span><i><span style="font-weight: 400;">“carente”</span></i><span style="font-weight: 400;">, o astucioso apelido é derivado de Anita) é um dos indicativos centrais desse amadurecimento. Logo, ainda que a relação entre as melhores amigas tenha sido sempre nociva, é somente quando Jennifer se torna demônio que Needy finalmente se dá conta da ambiguidade dessa “amizade”.</span></p>
<figure id="attachment_24207" aria-describedby="caption-attachment-24207" style="width: 1200px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-full wp-image-24207" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/10/img5.jpg" alt="Cena do filme Garota Infernal. Na cena estão Amanda Seyfried, que interpreta Needy, e Megan Fox, que interpreta Jennifer, em ordem. Elas estão frente a frente prestes a se beijar. Só é possível ver o recorte dos narizes às bocas das personagens. Elas são refletidas por uma meia-luz em tom quente alaranjado. O fundo, que contorna o perfil das personagens, é totalmente preto." width="1200" height="675" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/10/img5.jpg 1200w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/10/img5-800x450.jpg 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/10/img5-1024x576.jpg 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/10/img5-768x432.jpg 768w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 1362px) 62vw, 840px" /><figcaption id="caption-attachment-24207" class="wp-caption-text">A cena de beijo entre Needy e Jennifer foi desconfortável para as ambas atrizes, que temiam a fetichização dela (Foto: Fox/Dune Entertainment)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">Inicialmente, Needy olha para Jennifer com admiração. Ela deixa o namorado para seguir a amiga assim que lhe é ordenado e a tensão entre ambas é inquestionável, crescendo gradativamente até o estopim do subtexto sexual insinuado na narrativa, quando as amigas se beijam. A cena não dura mais de um minuto e traz à tona a confusão de Needy sobre seus sentimentos reprimidos. O </span><a href="https://gizmodo.com/the-real-horror-of-jennifers-body-toxic-friends-5361181"><span style="font-weight: 400;">relacionamento codependente</span></a><span style="font-weight: 400;"> delas é claramente mais intenso do que simples amizade, oscilando num complicado espectro que varia entre as melhores e piores sensações do amor e ódio.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Entretanto, a </span><a href="https://periodicos.ufba.br/index.php/revistaperiodicus/article/view/24822"><span style="font-weight: 400;">leitura </span><i><span style="font-weight: 400;">queer</span></i></a> <span style="font-weight: 400;">sobre o relacionamento delas não propõe, nem ao menos tenta, ser exemplo de uma </span><a href="https://personaunesp.com.br/rua-do-medo-1666-parte-3-critica/"><span style="font-weight: 400;">representação sáfica</span></a><span style="font-weight: 400;"> positiva. Ao invés disso, Cody explora a maneira como, instruídas a competir pelo pouco espaço disponível, as alianças femininas são corrompidas pelo patriarcado, ainda que reluzam sinais de paixão. Por fim, o inimigo se torna outras garotas, não o sistema em si. O brilho do olho de Needy ao olhar Jennifer, antes cintilante, agora se apaga.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Revisitando a obra com olhos contemporâneos, é inegável que </span><i><span style="font-weight: 400;">Jennifer’s Body</span></i><span style="font-weight: 400;"> reivindicou a estrutura primária do </span><a href="https://deliriumnerd.com/2020/11/19/uma-reflexao-sobre-rape-revenge-e-falso-feminismo/"><i><span style="font-weight: 400;">rape-revenge</span></i></a><span style="font-weight: 400;"> por protagonistas que não se limitam aos arquétipos habituais do Terror – a vítima é cruel, a mocinha se corrompe. A cereja do bolo é o ar </span><i><span style="font-weight: 400;">camp </span></i><span style="font-weight: 400;">nostálgico que remete um universo passado com filtro de cores saturadas no qual pessoas usavam o </span><i><span style="font-weight: 400;">MySpace </span></i><span style="font-weight: 400;">e penduravam pôsteres de bandas </span><i><span style="font-weight: 400;">emo </span></i><span style="font-weight: 400;">nos quartos. Sem qualquer moralização, o filme traça metáforas ácidas sobre o trauma, onde o patriarcado é tão vil quanto o monstro demoníaco enjaulado dentro de uma adolescente canibal. E, infelizmente, </span><i><span style="font-weight: 400;">Garota Infernal</span></i><span style="font-weight: 400;"> provou na pele o poder do sistema, questionando: quem tem medo de Jennifer Check?</span></p>
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