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	<title>Arquivos Rui Rio &#8211; Persona | Jornalismo Cultural</title>
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	<description>Desde 2015 provando que a distância entre Bergman, Lady Gaga e a novela das 9 nem existe.</description>
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		<title>O fantasma da gentrificação assombra Distopia</title>
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		<pubDate>Fri, 21 Oct 2022 17:43:21 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p>Enzo Caramori Se a vida real, capturada em seu fluxo, for passível de ser ficcionalizada para ser compreendida, o documentário português Distopia (2021) é um filme de terror que desde seu início já desmascara os seus monstros. Representando Portugal no repertório da Perspectiva Internacional da 46ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo, o filme &#8230; <a href="http://personaunesp.com.br/distopia-critica/" class="more-link">Continue lendo<span class="screen-reader-text"> "O fantasma da gentrificação assombra Distopia"</span></a></p>
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										<content:encoded><![CDATA[<figure id="attachment_28884" aria-describedby="caption-attachment-28884" style="width: 1920px" class="wp-caption alignnone"><img fetchpriority="high" decoding="async" class="size-full wp-image-28884" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/10/IMDb-3.jpg" alt="Cena do documentário Distopia. A foto é uma captura de um dos trechos do filme Distopia. Quatro prédios amarelos — parte do conjunto habitacional do bairro do Aleixo — estão sendo demolidos. O prédio da direita cai em meio a fumaça, abaixo se encontram outras habitações e um terreno verde." width="1920" height="1080" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/10/IMDb-3.jpg 1920w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/10/IMDb-3-800x450.jpg 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/10/IMDb-3-1024x576.jpg 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/10/IMDb-3-768x432.jpg 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/10/IMDb-3-1536x864.jpg 1536w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/10/IMDb-3-1200x675.jpg 1200w" sizes="(max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 1362px) 62vw, 840px" /><figcaption id="caption-attachment-28884" class="wp-caption-text">O documentário chega à Perspectiva Internacional da 46ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo carregando o prêmio HBO Portugal para Melhor Filme da Competição Portuguesa no DocLisboa International Film Festival 2021 (Foto: Bando a Parte)</figcaption></figure>
<p><b>Enzo Caramori</b></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Se a vida real, capturada em seu fluxo, for passível de ser ficcionalizada para ser compreendida, o documentário português </span><a href="https://46.mostra.org/filmes/distopia"><i><span style="font-weight: 400;">Distopia</span></i></a> <span style="font-weight: 400;">(2021) é um filme de terror que desde seu início já desmascara os seus monstros. Representando Portugal no repertório da Perspectiva Internacional da 46ª </span><a href="http://personaunesp.com.br/tag/mostra-internacional-de-cinema-em-sao-paulo/"><span style="font-weight: 400;">Mostra Internacional</span></a><span style="font-weight: 400;"> de Cinema em São Paulo, o filme introduz o fantasma da </span><a href="https://jornaleconomico.pt/noticias/o-processo-de-gentrificacao-em-curso-nas-cidades-e-periferias-de-lisboa-e-porto-264850"><span style="font-weight: 400;">gentrificação</span></a><span style="font-weight: 400;"> como o motor dos desterramentos e demolições que atravessam a cidade do Porto, em um retrato de treze anos da vida dos bairros de Bacelo, Aleixo e Fontainhas. Dirigido por Tiago Afonso, a forma documental encontra sua força ao direcionar a câmera tanto aos sujeitos atravessados por essa desterritorialização quanto aos espaços e ruínas, o que constitui uma espécie de anti-documento nessa condição de filmar o que está na iminência de não mais existir.</span></p>
<p><span id="more-28883"></span></p>
<p><i><span style="font-weight: 400;">Distopia </span></i><span style="font-weight: 400;">é uma narrativa audiovisual de emergência, na qual o imediatismo da filmagem é evidenciado por um gesto que, em um primeiro momento, quase não é cinematográfico. É mais uma construção de um álibi aos processos de injustiça vivenciados pelas pessoas, tanto as hostis quanto as receptivas às lentes de Afonso. O primeiro capítulo é pontuado em 2007, enquanto o espectador acompanha uma comunidade cigana, habitante das barracas da Rua do Bacelo, em suas tentativas de </span><a href="https://www.jpn.up.pt/2007/03/27/criticas-a-actuacao-da-camara-do-porto-no-bacelo/"><span style="font-weight: 400;">resistência ao despejo</span></a><span style="font-weight: 400;"> e de articulação com o poder público, personalizado pela figura de Rui Rio, o Presidente da Câmara Municipal do Porto na época. O diretor intercede nas discussões — em defesa da ocupação —, além de traçar uma tentativa de reinstalação da experiência pública de comunidade, sob a ótica da comunidade.</span></p>
<figure id="attachment_28885" aria-describedby="caption-attachment-28885" style="width: 1608px" class="wp-caption alignnone"><img decoding="async" class="size-full wp-image-28885" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/10/IMDb-2.jpg" alt="Cena do filme Distopia. Ao fundo, as barracas no bairro do Bacelo, onde encontram-se pedaços de madeira empilhados e, à direita, um trailer branco. Em um pedaço de madeira branco, uma lona vermelha está jogada, enquanto uma bandeira está amarrotada e enrolada, suspensa no ar." width="1608" height="1080" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/10/IMDb-2.jpg 1608w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/10/IMDb-2-800x537.jpg 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/10/IMDb-2-1024x688.jpg 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/10/IMDb-2-768x516.jpg 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/10/IMDb-2-1536x1032.jpg 1536w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/10/IMDb-2-1200x806.jpg 1200w" sizes="(max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 1362px) 62vw, 840px" /><figcaption id="caption-attachment-28885" class="wp-caption-text">No documentário de Afonso, a cidade do Porto é atravessada pela especulação imobiliária desenfreada e pelo silenciamento das tradições locais (Foto: Bando a Parte)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">Inicialmente, os furtivos registros não eram feitos com o intuito de uma unidade narrativa, sendo ligados posteriormente pela brutal espinha dorsal que é a constância dessas violências. Talvez fosse possível compor um longa-metragem interminável, no qual ainda residiria o </span><a href="https://www.jpn.up.pt/2021/11/26/urgencia-resignacao-e-magoa-uma-conversa-com-tiago-afonso-sobre-a-distopia-que-dedicou-ao-porto/"><span style="font-weight: 400;">ativismo</span></a><span style="font-weight: 400;"> do fazer Cinema na luta para evitar que lares e histórias fossem despossuídas. Tanto que as gravações nos conjuntos habitacionais do Aleixo e na Feira da Vandoma, em Fontainhas, inicialmente pareciam ser paralelas. No entanto, logo se revelaram tangentes pelo mesmo futuro: a aniquilação de qualquer alternativa de </span><a href="https://observador.pt/especiais/distopia-durante-13-anos-tiago-afonso-filmou-o-porto-que-desapareceu-quando-os-bairros-ficaram-vazios/"><span style="font-weight: 400;">vivência coletiva</span></a><span style="font-weight: 400;"> em prol do modelo capitalista de cidade funcionalista.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Os treze anos encapsulados em 62 minutos instigam, para além de um atestado da permanência dos movimentos de desalojamento, uma reflexão sobre a permanência desses lugares e dessas personagens na memória coletiva. Esse esforço se expressa no exercício de Afonso de colocar as crianças moradoras do Aleixo detrás das câmeras, tornando-as diretoras, em um exercício de descrição de suas colegas frente às câmeras. Essa é uma das tentativas de dar voz à materialidade dos afetos e da infância, perdida pela destruição de inúmeras moradas sob o pretexto de </span><a href="https://www.publico.pt/2022/01/21/p3/fotogaleria/aleixo-foram-torres-ficou-consumo-407396"><span style="font-weight: 400;">sanitização social</span></a><span style="font-weight: 400;"> frente ao tráfico de drogas, além de, claro, deixar o terreno pronto a projetos arquitetônicos de luxo. </span></p>
<figure id="attachment_28886" aria-describedby="caption-attachment-28886" style="width: 1920px" class="wp-caption alignnone"><img decoding="async" class="size-full wp-image-28886" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/10/IMDb-4.jpg" alt="Cena do filme distopia. Embaixo de um viaduto, no primeiro plano da imagem, duas mulheres ciganas estão lado a lado. A da esquerda olha para cima, a algo distante da câmera. Usa uma blusa alaranjada, um cordão dourado no pescoço. Seus cabelos são negros e presos em um rabo de cavalo. Ao seu lado, a outra mulher olha para baixo, com uma jaqueta fechada cinza, estampada de estrelas. Seus cabelos negros estão presos em um coque. Ao fundo, um pedaço de escassa vegetação." width="1920" height="1080" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/10/IMDb-4.jpg 1920w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/10/IMDb-4-800x450.jpg 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/10/IMDb-4-1024x576.jpg 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/10/IMDb-4-768x432.jpg 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/10/IMDb-4-1536x864.jpg 1536w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/10/IMDb-4-1200x675.jpg 1200w" sizes="(max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 1362px) 62vw, 840px" /><figcaption id="caption-attachment-28886" class="wp-caption-text">O aburguesamento da cidade é um personagem oculto – porém onisciente – sobre histórias que refletem a modificação dos tecidos sociais urbanos (Foto: Bando a Parte)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">De 2007 a 2021, </span><a href="https://vimeo.com/646630124?embedded=true&amp;source=vimeo_logo&amp;owner=31954675"><i><span style="font-weight: 400;">Distopia </span></i></a><span style="font-weight: 400;">é uma teoria de gentrificação que renega prédios modernizados e apáticos, escolhendo desenvolver a experiência através da voz daqueles que foram mutilados por seus efeitos. Além do passeio temporal, subjetivo e geográfico</span><i><span style="font-weight: 400;">, </span></i><span style="font-weight: 400;">o título português é também um perambular estético sobre a transformação das fontes visuais e sonoras que estruturam os retratos de despossessão das comunidades de suas habitações e de suas práticas de sociabilidade. O objeto do olhar é variado: ratos mortos, destroços, multidões e barracos improvisados tomam a tela. Embaixo de viadutos, com caixas de som e olhares distantes, se rememoram as (re)existências de outros modos de viver em outros ritmos. Memórias essas de quando se era possível existir em um espaço com liberdade; onde reinava a brincadeira de crianças contra a crueza de uma cidade que não mais é um direito, mas sim um </span><a href="https://mag.sapo.pt/cinema/atualidade-cinema/artigos/distopia-de-tiago-afonso-mostra-gentrificacao-da-cidade-no-porto-post-doc"><span style="font-weight: 400;">decreto de expulsão</span></a><span style="font-weight: 400;">.</span></p>
<p>O post <a href="http://personaunesp.com.br/distopia-critica/">O fantasma da gentrificação assombra Distopia</a> apareceu primeiro em <a href="http://personaunesp.com.br">Persona | Jornalismo Cultural</a>.</p>
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