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	<title>Arquivos Patricia Saravy &#8211; Persona | Jornalismo Cultural</title>
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	<description>Desde 2015 provando que a distância entre Bergman, Lady Gaga e a novela das 9 nem existe.</description>
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		<title>Você pisa em território indígena e O Estranho expõe isso</title>
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		<pubDate>Thu, 27 Jun 2024 19:00:52 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p>Marcela Lavorato Qual seria o seu sentimento se, ainda criança, tivesse o território invadido, a casa demolida e a vida inteiramente mudada, para sempre, para dar lugar a um aeroporto? O Estranho se apresenta dessa forma, como uma ficção, mas entrega um caráter mais documental pelo motivo de que essa é a história de muitas &#8230; <a href="http://personaunesp.com.br/o-estranho-critica/" class="more-link">Continue lendo<span class="screen-reader-text"> "Você pisa em território indígena e O Estranho expõe isso"</span></a></p>
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										<content:encoded><![CDATA[<figure id="attachment_33627" aria-describedby="caption-attachment-33627" style="width: 1728px" class="wp-caption alignnone"><img fetchpriority="high" decoding="async" class="size-full wp-image-33627" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2024/06/image3-7.png" alt="Cena do filme O Estranho. Ao fundo, vemos um avião no lado direito da imagem. Em primeiro plano, uma grade divide o aeroporto das duas mulheres que estão do lado de fora da grade. Ao lado esquerdo, Sílvia está apoiada na grade. Utiliza uma tiara colorida, uma blusa vermelha com uma abertura nas costas e calça jeans. Mais a direita, Alê está de braços cruzados. Utiliza uma camisa cinza, calça jeans e seu cabelo está amarrado com uma trança." width="1728" height="1152" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2024/06/image3-7.png 1728w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2024/06/image3-7-800x533.png 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2024/06/image3-7-1024x683.png 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2024/06/image3-7-768x512.png 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2024/06/image3-7-1536x1024.png 1536w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2024/06/image3-7-1200x800.png 1200w" sizes="(max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 1362px) 62vw, 840px" /><figcaption id="caption-attachment-33627" class="wp-caption-text">Ao longo de 1 hora e quarenta minutos, vemos a história de Guarulhos por diversas perspectivas (Foto: Embaúba Filmes)</figcaption></figure>
<p><b>Marcela Lavorato</b></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Qual seria o seu sentimento se, ainda criança, tivesse o território invadido, a casa demolida e a vida inteiramente mudada, para sempre, para dar lugar a um aeroporto? </span><a href="https://www.rfi.fr/br/cultura/20230219-berlinale-2023-longa-brasileiro-o-estranho-relaciona-conflitos-de-identidade-a-intrus%C3%B5es-em-territ%C3%B3rios-ind%C3%ADgenas"><i><span style="font-weight: 400;">O Estranho</span></i></a><span style="font-weight: 400;"> se apresenta dessa forma, como uma ficção, mas entrega um caráter mais documental pelo motivo de que essa é a história de muitas pessoas que são afetadas pela colonização, seja a de 500 anos atrás ou a de ontem. </span></p>
<p><span id="more-33624"></span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">A trama, exibida no 73º Festival de Cinema de Berlim, acompanha Alê (Larissa Siqueira) e a sua jornada para trabalhar no Aeroporto de Guarulhos, em cima do lugar onde já foi sua casa, em </span><a href="https://medium.com/@dasnarrativas/aldeia-ind%C3%ADgena-filhos-desta-terra-a89102d394d4"><span style="font-weight: 400;">território indígena</span></a><span style="font-weight: 400;">. Dentro dessa atmosfera, somos envolvidos no drama da personagem, partindo do dia a dia no emprego até suas abstrações sobre a sua vida – como ela é ou como poderia ser. Caminhamos com Alê e somos invadidos pelas suas emoções quando a mesma relembra o seu passado, que é muito sentido no presente. Por se tratar de um tema tão atual em nossa história, a obra afirma-se nessa capacidade do Cinema de reverberar questões sociais através do espaço-tempo, sem ser simplista.</span></p>
<figure id="attachment_33625" aria-describedby="caption-attachment-33625" style="width: 1728px" class="wp-caption alignnone"><img decoding="async" class="size-full wp-image-33625" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2024/06/image1-7.png" alt="Cena do filme O Estranho. Quatro fotos estão sobre a cama. Em cada foto, há pelo menos uma pedra de diferentes formatos, cores e materiais. Uma mão está no centro da imagem colocando um objeto sobre as fotos." width="1728" height="1152" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2024/06/image1-7.png 1728w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2024/06/image1-7-800x533.png 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2024/06/image1-7-1024x683.png 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2024/06/image1-7-768x512.png 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2024/06/image1-7-1536x1024.png 1536w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2024/06/image1-7-1200x800.png 1200w" sizes="(max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 1362px) 62vw, 840px" /><figcaption id="caption-attachment-33625" class="wp-caption-text">O longa ecoa sua potência, atravessando seus telespectadores (Foto: Embaúba Filmes)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">Trazendo atores e amadores, como a personagem Antônia (Antônia Franco), </span><i><span style="font-weight: 400;">O Estranho</span></i><span style="font-weight: 400;"> se enriquece com essa troca de experiências e vivências. A atuação de todo o elenco e os núcleos que se misturaram é essencial para ambientar o clima do filme, com destaque para: Larissa Siqueira, Rômulo Braga, Antonia Franco, Thiago Calixto, Laysa Costa e </span><a href="https://personaunesp.com.br/a-felicidade-das-coisas-critica/"><span style="font-weight: 400;">Patrícia Saravy</span></a><span style="font-weight: 400;">. Os atores foram capazes de extrair potência nos fatos do cotidiano, como na cumplicidade do relacionamento </span><i><span style="font-weight: 400;">queer</span></i><span style="font-weight: 400;"> entre </span><a href="https://lesbocine.com/filme-o-estranho-destaque-no-ultimo-festival-de-berlim-chega-aos-cinemas-nacionais/"><span style="font-weight: 400;">Alê e Sílvia</span></a><span style="font-weight: 400;"> (Patrícia Saravy). Além de tratar sobre a preservação do território indígena, vemos também a questão da precarização do trabalho no aeroporto, a rotina do sagrado, o translado ao retornar do emprego, o contato com a natureza e a procura por pertencer a um lugar de representatividade, que acaba sendo destruído a medida em que seu território é invadido. Tudo isso, de uma maneira pujante, que nos leva a experimentar o filme para além dele mesmo.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Encaminhado a partir de uma pesquisa sobre os diversos pontos da história de Guarulhos, a dupla de </span><a href="https://meioamargo.com/o-estranho-entrevista-flora-dias-juruna-mallon-berlinale/"><span style="font-weight: 400;">diretores</span></a><span style="font-weight: 400;"> Flora Dias e Juruna Mallon – que já trabalharam juntos em</span> <i><span style="font-weight: 400;">O Sol nos Meus Olhos</span></i><span style="font-weight: 400;"> (2013) –, assinam uma produção evidentemente necessária para a atualidade. Idealizando o projeto desde 2014, os cineastas não pecam em apresentar algo que, em suas próprias palavras, o próprio movimento indígena vem há décadas reclamando: o </span><a href="https://www.solopretoeindigena.com.br/"><span style="font-weight: 400;">Brasil é território indígena</span></a><span style="font-weight: 400;">. </span><span style="font-weight: 400;">Em certo momento do filme, a ficção passa a ser realmente documental por causa das entrevistas com os indígenas da Aldeia multiétnica </span><a href="https://www.instagram.com/filhosdestaterra/"><span style="font-weight: 400;">Filhos Desta Terra</span></a><span style="font-weight: 400;">, que mostram as suas culturas, ancestralidades e a resistência para garantir os seus territórios por direito. </span></p>
<p><i><span style="font-weight: 400;">O Estranho</span></i><span style="font-weight: 400;"> produz uma narrativa – assinada também pelos diretores – muito fluida, que não necessariamente precisa apresentar desfechos para se mostrar como completa. As histórias individuais das protagonistas, mesmo não concluídas, se inteiram, pois estão entrelaçadas nessa comunhão de trabalho, casal e amizade. A porosidade do enredo é como se fosse uma lençol freático: a medida em que nos é introduzido um novo relato, o acúmulo da narrativa vai se compondo até preencher um espaço dentro de nós que nunca estará completo, pois o filme se constrói também através de mostrar, para os espectadores, que eles também têm de ‘ir atrás’ dessa </span><a href="https://www.revistas.usp.br/revmae/article/view/119012/116402"><span style="font-weight: 400;">história</span></a><span style="font-weight: 400;">, tão invisibilizada e ignorada por tanto tempo. </span></p>
<figure id="attachment_33626" aria-describedby="caption-attachment-33626" style="width: 1728px" class="wp-caption alignnone"><img decoding="async" class="size-full wp-image-33626" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2024/06/image2-7.png" alt="Cena de O Estranho. Ao fundo, um túnel em volta de uma floresta. Em primeiro plano, uma mulher indígena, do povo Pankararu, caminha pela estrada fumando um cachimbo. Ela veste uma blusa cinza, uma saia de palha com listras vermelhas e utiliza colares." width="1728" height="1152" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2024/06/image2-7.png 1728w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2024/06/image2-7-800x533.png 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2024/06/image2-7-1024x683.png 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2024/06/image2-7-768x512.png 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2024/06/image2-7-1536x1024.png 1536w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2024/06/image2-7-1200x800.png 1200w" sizes="(max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 1362px) 62vw, 840px" /><figcaption id="caption-attachment-33626" class="wp-caption-text">O filme mostra uma parcela da história de Guarulhos, que é tão negligenciada (Foto: Embaúba Filmes)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">A sonoridade do filme, direcionada por Gustavo </span><span style="font-weight: 400;">Zysman Nascimento, Léo Bortolin e Vitor Moraes, é uma questão muito pulsante:</span><span style="font-weight: 400;"> turbinas de avião, rodinhas das malas de viagem, cantos sagrados, rio, correnteza, pássaros e cachoeiras. Tudo é muito sentido não só pela escuta, mas também pela eficácia das imagens – com direção de Camila Freitas e assistência de </span><span style="font-weight: 400;">Ana Galizia</span><span style="font-weight: 400;"> –, que se juntam com os sons, como a cena do </span><a href="https://www.terra.com.br/vida-e-estilo/turismo/o-estranho-e-olhar-ancestral-sobre-o-aeroporto-de-guarulhos,0f3c6dd79a23285fa076bf4ba81da0ebap23kcsn.html"><span style="font-weight: 400;">Rio Baquirivu</span></a><span style="font-weight: 400;">; às vezes com leveza, como a chuva, ou com brutalidade, representada pelas aterrissagens. Com transições através de sobreposições de imagens e sons, o silêncio se apresenta como parte importante para a composição, desenhando uma textura própria do longa que podemos experimentar a partir da montagem feita por </span><span style="font-weight: 400;">João Marcos de Almeida</span><span style="font-weight: 400;">.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Com isso, </span><i><span style="font-weight: 400;">O Estranho –</span></i><span style="font-weight: 400;"> vencedor de diversos prêmios, entre eles, </span><span style="font-weight: 400;">Melhor Som e Melhor Fotografia no Festival Internacional de Curitiba, Olhar de Cinema, e Melhor Filme no </span><i><span style="font-weight: 400;">Queer Art</span></i><span style="font-weight: 400;"> Lisboa –,</span> <span style="font-weight: 400;">mostra que quem é o estranho ali da situação é o aeroporto. O território, antes de tudo, era constituído por famílias e amigos; vidas que foram levadas para longe de onde pertenciam. A construção do Aeroporto de Guarulhos toca em uma ferida aberta há muito tempo e o filme traz essa denúncia através de uma trajetória que, mesmo sendo individual e particular, é a de muitas pessoas e de </span><a href="https://lugaresdememoria.com.br/saracura-quilombo-no-coracao-de-sao-paulo/"><span style="font-weight: 400;">muitos territórios</span></a><span style="font-weight: 400;"> nesse Brasil.</span></p>
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		<title>A Felicidade das Coisas se exprime entre angústias</title>
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		<pubDate>Wed, 27 Oct 2021 18:00:11 +0000</pubDate>
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										<content:encoded><![CDATA[<figure id="attachment_24161" aria-describedby="caption-attachment-24161" style="width: 1376px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-full wp-image-24161" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/10/IMAGEM-1-4-1.jpg" alt="Imagem retangular retirada do filme ‘A Felicidade das Coisas’. Em foco, vemos o rosto de Paula, uma mulher de pele parda, cabelos da cor preta, curtos e lisos, que veste um suéter branco e vermelho, e uma camiseta branca por baixo. Ela olha para frente, séria e reflexiva. Ao fundo, vemos desfocado o pôr-do-sol tímido de um dia ligeiramente nublado." width="1376" height="774" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/10/IMAGEM-1-4-1.jpg 1376w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/10/IMAGEM-1-4-1-800x450.jpg 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/10/IMAGEM-1-4-1-1024x576.jpg 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/10/IMAGEM-1-4-1-768x432.jpg 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/10/IMAGEM-1-4-1-1200x675.jpg 1200w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 1362px) 62vw, 840px" /><figcaption id="caption-attachment-24161" class="wp-caption-text">O drama familiar em questão integra tanto a seção Mostra Brasil quanto a Competição Novos Diretores da 45ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo (Foto: Embaúba Filmes)</figcaption></figure>
<p><b>Enrico Souto</b></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Uma família de classe média-baixa, desajustada, que viaja na expectativa de sair da rotina, fugir da monotonia e recarregar as energias, mas que ao chegar lá, precisa enfrentar todas as tensões que transbordam do lado de fora, dessa vez acompanhadas da frustração de que não há como escapar dos infortúnios da vida. É essa experiência, tão relacionável e tão próxima de nós, que é relatada em </span><i><span style="font-weight: 400;">A Felicidade das Coisas</span></i><span style="font-weight: 400;">, filme brasileiro que marca presença na 45ª </span><a href="http://personaunesp.com.br/tag/mostra-internacional-de-cinema-em-sao-paulo/"><span style="font-weight: 400;">Mostra Internacional</span></a><span style="font-weight: 400;"> de Cinema em São Paulo, revelando, por fim, a potência dessas pacatas relações, e o que encontramos ao investigá-las.</span></p>
<p><span id="more-24160"></span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Aqui, vemos o mundo pelos olhos de Paula (</span><a href="https://www.campograndenews.com.br/lado-b/artes-23-08-2011-08/curta-que-concorre-a-vaga-no-oscar-tem-atriz-campo-grandense"><span style="font-weight: 400;">Patrícia Saravy</span></a><span style="font-weight: 400;">), mãe de duas crianças, e que agora espera uma terceira filha. O cenário é o de uma casa de veraneio em Caraguatatuba, no litoral de São Paulo, onde ela passa as férias com os filhos e sua mãe (</span><a href="https://revistaquem.globo.com/TV-e-Novelas/noticia/2020/02/magali-biff-de-amor-de-mae-ja-foi-bruxa-em-chiquititas-nos-anos-90.html"><span style="font-weight: 400;">Magali Biff</span></a><span style="font-weight: 400;">). Acompanhamos o cotidiano daquele espaço, a família frequentando a praia suja e modesta; observando, do outro lado da grade, as outras crianças brincando e relaxando no clube riquíssimo da cidade, que eles não podem pagar; convivendo com a vizinhança, para eles ainda estranha; enquanto lidam com suas desconfianças e aprendem a confiar uns nos outros.</span></p>
<p><figure id="attachment_24162" aria-describedby="caption-attachment-24162" style="width: 1376px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-full wp-image-24162" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/10/IMAGEM-2-4-1.jpg" alt="Imagem retangular retirada do filme ‘A Felicidade das Coisas’. Vemos, em foco, duas pessoas. A primeira, à esquerda, é uma mulher branca, idosa, com cabelos lisos e castanhos-claros presos, vestindo uma regata florida e um colar no pescoço. Ela olha para cima, encarando as mãos de sua neta. A garota, à esquerda, é uma menina negra, com cabelos pretos e lisos, presos em um rabo-de-cavalo. Ela está de perfil, veste uma regata azul, e tem suas duas mãos levantadas em direção à cabeça de sua avó, onde ela coloca presilhas em seu cabelo. O cenário diurna, e as duas estão na parte interna de um carro, onde sentam no banco de trás." width="1376" height="774" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/10/IMAGEM-2-4-1.jpg 1376w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/10/IMAGEM-2-4-1-800x450.jpg 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/10/IMAGEM-2-4-1-1024x576.jpg 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/10/IMAGEM-2-4-1-768x432.jpg 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/10/IMAGEM-2-4-1-1200x675.jpg 1200w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 1362px) 62vw, 840px" /><figcaption id="caption-attachment-24162" class="wp-caption-text">A ambientação e temas de A Felicidade das Coisas compartilham semelhanças com outra produção brasileira: Benzinho (2018), de Gustavo Pizzi [Foto: Embaúba Filmes]</figcaption></figure><span style="font-weight: 400;">Na maior parte do tempo, a narrativa gira em torno de um grande objeto: a piscina que Paula pretendia construir na casa. Esse desejo, contudo, desvanece quando seus problemas financeiros vêm à tona. Ela não consegue pagar pelos materiais para a construção, e seu marido mantém-se distante, recusando a ajudá-la financeiramente. A piscina, antes a solução imediata para seus problemas, agora torna-se apenas mais um dos inúmeros fardos que Paula precisa carregar, que culminam no seu </span><a href="https://www.brasildefato.com.br/2021/05/09/sobrecarga-desemprego-e-inseguranca-a-vida-das-maes-um-ano-apos-chegada-da-covid-19"><span style="font-weight: 400;">completo sufocamento</span></a><span style="font-weight: 400;">. O sentimento que fica é que, não importa o quanto se esforce, ela nunca terá </span><a href="https://periodicos.ufba.br/index.php/feminismos/article/download/42114/23913"><span style="font-weight: 400;">direito ao alívio</span></a><span style="font-weight: 400;">. E sua reação instintiva a essas viscerais emoções é a dureza e hostilidade, o que faz com que ela, ainda que não se dê conta, gradualmente se afaste daqueles que ama.</span></p>
<p><i><span style="font-weight: 400;">A Felicidade das Coisas</span></i><span style="font-weight: 400;"> (</span><i><span style="font-weight: 400;">The Joy of Things</span></i><span style="font-weight: 400;">, no inglês) é a estreia de </span><a href="https://45.mostra.org/diretores/thais-fujinaga"><span style="font-weight: 400;">Thais Fujinaga</span></a><span style="font-weight: 400;"> na direção de longas-metragens e, através do filme, a diretora demonstra de cara sua inventividade e visão sofisticada. Sua direção ambienta o espectador de forma orgânica, e nos entrega elementos a respeito daquele microuniverso com plena naturalidade. Informações como ‘o lugar onde a história se passa’ ou ‘o período no tempo em que eles estão’ são ditas sutilmente, de modo que o público as absorva espontaneamente, mesmo que não perceba. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Além disso, não necessariamente o filme segue uma estrutura narrativa de três atos, apostando em uma divisão mais ramificada, quase como uma sequência de esquetes independentes que se conectam. Esse caminho poderia ser um ponto negativo, mas aqui ele potencializa as qualidades do longa, pelo caráter sólito e corriqueiro daqueles conflitos. Isso dá verossimilhança para a trama, sugerindo que ela carrega muito mais história do que os registros que temos acesso, ao mesmo tempo que traz a sensação de que estamos realmente vivendo aquelas intempéries com a família. No fim, nos conectamos facilmente com esses personagens exatamente porque as situações retratadas ali são absolutamente cotidianas.</span></p>
<figure id="attachment_24163" aria-describedby="caption-attachment-24163" style="width: 1376px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-full wp-image-24163" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/10/IMAGEM-3-3-1.jpg" alt="Imagem retangular retirada do filme ‘A Felicidade das Coisas’. Vemos, de perfil, e em foco, Guto, um garoto negro, de cabelos lisos e curtos da cor preta, que veste uma camiseta laranja com gola branca. Ele tem fones de ouvido presos em suas orelhas, e ele fecha os olhos enquanto ouve a música. O menino está sentado no banco de passageiro de um carro, e apoia sua cabeça sobre o banco. O cenário é diurno e, ao fundo, do lado de fora, vemos materiais de construção dispostos pelo terreno onde o carro está estacionado." width="1376" height="774" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/10/IMAGEM-3-3-1.jpg 1376w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/10/IMAGEM-3-3-1-800x450.jpg 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/10/IMAGEM-3-3-1-1024x576.jpg 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/10/IMAGEM-3-3-1-768x432.jpg 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/10/IMAGEM-3-3-1-1200x675.jpg 1200w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 1362px) 62vw, 840px" /><figcaption id="caption-attachment-24163" class="wp-caption-text">A fotografia de André Luiz de Luiz aposta em uma iluminação natural com cores sóbrias, reforçando a natureza ordinária daqueles registros (Foto: Embaúba Filmes)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">Fujinaga também sabe precisamente no que dar foco e quando dar foco. Um exemplo é a imagem do marido de Paula, pai das crianças. Ele não tem voz, não tem rosto, nem presença. Nunca explica-se a real conjuntura do casamento entre ele e a protagonista, mas sabe-se que o homem é negligente, tanto com sua esposa, que precisa mais do que nunca da sua ajuda pela chegada do bebê, quanto com seus filhos, que sentem com pesar essa ausência. A escolha de manter o personagem nas sombras, praticamente apagado, é primorosa, não só por traduzir com exatidão como a família se sente a seu respeito, como também por parecer partir da intenção ativa de não apagar o </span><a href="https://revistacult.uol.com.br/home/cuidado-maes-pandemia/"><span style="font-weight: 400;">sofrimento e aflição</span></a><span style="font-weight: 400;"> de Paula, que poderiam, com facilidade, ser menosprezados por um cineasta menos sensível e sem a </span><a href="http://centrodaterra.org.br/thais-fujinaga"><span style="font-weight: 400;">bagagem</span></a><span style="font-weight: 400;"> e vivência de Thais.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Ao contrário do que o título primariamente dá a entender, </span><a href="https://45.mostra.org/filmes/a-felicidade-das-coisas"><i><span style="font-weight: 400;">A Felicidade das Coisas</span></i></a><span style="font-weight: 400;"> trata muito mais sobre as angústias que acompanham a vida e nossas relações afetivas. Mas, principalmente, trata sobre as alternativas que procuramos na tentativa de nos livrarmos dessas angústias: sobre o Guto (</span><a href="https://www.instagram.com/messiasbarrosgois/"><span style="font-weight: 400;">Messias Barros Góis</span></a><span style="font-weight: 400;">) desprendendo-se da mãe e buscando validação entre os garotos da comunidade; sobre a Gabi (</span><a href="https://www.instagram.com/laviniacastelari.oficial/?hl=pt-br"><span style="font-weight: 400;">Lavínia Castelari</span></a><span style="font-weight: 400;">) se esforçando para compreender os conflitos da família através de suas lentes ainda ingênuas; sobre a Paula lutando contra seus desencantos, e sobre a avó encontrando maneiras de colocar aquela piscina em pé, almejando restaurar os vínculos familiares, já em cacos. A mensagem final do filme é dúbia, sem saber concluir se a busca por essa felicidade vale ou não seu preço. Porém, ratifica que é apenas por meio desses elos tão complexos que conseguimos perceber o mundo à nossa volta.</span></p>
<div class="jetpack-video-wrapper"><iframe loading="lazy" title="A felicidade das coisas – trailer | IFFR 2021" width="840" height="473" src="https://www.youtube.com/embed/OvvXfpjJeJc?feature=oembed" frameborder="0" allow="accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share" referrerpolicy="strict-origin-when-cross-origin" allowfullscreen></iframe></div>
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