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	<title>Arquivos Mostra Internacional &#8211; Persona | Jornalismo Cultural</title>
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	<description>Desde 2015 provando que a distância entre Bergman, Lady Gaga e a novela das 9 nem existe.</description>
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		<title>A Longa Viagem do Ônibus Amarelo é guiada por gestos de Cinema</title>
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		<pubDate>Thu, 16 Nov 2023 22:44:22 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p>Enzo Caramori É incerto se a noite afora, que entrava em um pequeno corredor na rua Augusta, é que invadia uma sala escura com seus barulhos, ou se seria o novo filme do diretor Júlio Bressane que venta e, acima de tudo, uiva. Na sessão de A Longa Viagem do Ônibus Amarelo (2023) na 47ª &#8230; <a href="http://personaunesp.com.br/a-longa-viagem-do-onibus-amarelo-critica/" class="more-link">Continue lendo<span class="screen-reader-text"> "A Longa Viagem do Ônibus Amarelo é guiada por gestos de Cinema"</span></a></p>
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										<content:encoded><![CDATA[<figure id="attachment_31860" aria-describedby="caption-attachment-31860" style="width: 744px" class="wp-caption aligncenter"><img fetchpriority="high" decoding="async" class="wp-image-31860 size-full" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/11/Captura-de-tela-2023-11-16-193340.png" alt="" width="744" height="543" /><figcaption id="caption-attachment-31860" class="wp-caption-text">A viagem de Júlio Bressane recupera desde antigos filmes familiares feitos em Super 8 e versões brutas de seus filmes até imagens amadoras feitas durante a pandemia de Covid-19 (Foto: TB Produções)</figcaption></figure>
<p><b>Enzo Caramori</b></p>
<p><span style="font-weight: 400;">É incerto se a noite afora, que entrava em um pequeno corredor na rua Augusta, é que invadia uma sala escura com seus barulhos, ou se seria o novo filme do diretor Júlio Bressane que venta e, acima de tudo, uiva. Na sessão de </span><a href="https://43.mostra.org/br/filme/10783-A-Longa-Viagem-do-Onibus-Amarelo"><i><span style="font-weight: 400;">A Longa Viagem do Ônibus Amarelo</span></i></a> <span style="font-weight: 400;">(2023)</span> <span style="font-weight: 400;">na 47ª </span><a href="https://personaunesp.com.br/tag/mostra-internacional-de-cinema-em-sao-paulo/"><span style="font-weight: 400;">Mostra Internacional de Cinema em São Paulo</span></a><span style="font-weight: 400;">, algo de misterioso ressoava durante a experiência de quatrocentos minutos, sete horas e variados tempos. O resgate, pelo próprio diretor em conjunto com seu montador Rodrigo Lima, de sua vasta filmografia e de seu acervo íntimo de imagens, instaura uma determinada fantasmagoria do que é, realmente, uma experiência de Cinema. </span></p>
<p><span id="more-31859"></span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">A palavra monumento, que atravessa as descrições do longa e do trabalho de Bressane, é o índice que dá a essência do que o diretor busca em uma corrente de fragmentos de imagens que nunca se apossam de valor narrativo algum, mas se multiplicam, refazem e se repetem, exigindo do espectador não necessariamente o assistir; mas o olhar. Da mesma forma que se pode flanear, distrair-se e olhar de diversos ângulos para um monumento, </span><i><span style="font-weight: 400;">A Longa Viagem do Ônibus Amarelo </span></i><span style="font-weight: 400;">convoca uma viagem estética por imagens, domando o tempo e restituindo a vertigem de um passado distante. É um monumento para além de sua duração de uma tarde, mas por se construir pelo </span><a href="https://www1.folha.uol.com.br/ilustrada/2023/10/o-cinema-esta-oculto-nos-filmes-diz-julio-bressane-premiado-na-mostra-de-sp.shtml"><span style="font-weight: 400;">desvelamento</span></a><span style="font-weight: 400;"> da montagem – a estrutura verdadeiramente primal dos filmes – em construir uma vasta estrutura quase arquivística, em que tudo que Bressane produziu, sendo um dos maiores realizadores brasileiros de Cinema, eterniza-se em um ritmo onírico, descontínuo e poético da Memória.</span></p>
<figure id="attachment_31861" aria-describedby="caption-attachment-31861" style="width: 721px" class="wp-caption aligncenter"><img decoding="async" class="size-full wp-image-31861" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/11/Captura-de-tela-2023-11-16-193645.png" alt="" width="721" height="442" /><figcaption id="caption-attachment-31861" class="wp-caption-text">Júlio Bressane foi o autor homenageado na 47ª edição da Mostra Internacional de Cinema em São Paulo (Foto: TB Produções)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">Talvez o enquadramento de </span><i><span style="font-weight: 400;">A Longa Viagem do Ônibus Amarelo </span></i><span style="font-weight: 400;">em uma sinopse fechada possa atribuir como elemento central o que o Cinema e a vivência com imagens surte à experiência vivida. No entanto, nessa lógica, qualquer cobrança de comentário do autor sobre o que registrou e viveu – como a viagem que dá nome ao filme, realizada com sua companheira Rosa Dias e o cineasta Andrea Tonacci – não entende o que, verdadeiramente, reverbera seu fluxo e seu ritmo de imagens que parecem muito mais almejar o gesto do que o sentido. Variadas </span><a href="https://cinemarama.wordpress.com/2023/04/22/bafici-2023-a-longa-viagem-do-onibus-amarelo/"><span style="font-weight: 400;">sequências</span></a><span style="font-weight: 400;"> são suscitadas por movimentos, objetos e espaços que desencadeiam a montagem: a claquete, uma câmera na mão, o subir, a língua e o descer de uma escada são alguns dos exemplos de imagens postas em sequências com um teor infinito e espiralar. Procuradas e escavadas nos filmes do diretor, essas cenas, aqui, não são referenciadas em uma condição de índices a suas próprias histórias, mas simplesmente a suas propriedades enquanto gestos de Cinema.  </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Produzido no processo de restauração de seu </span><a href="https://www1.folha.uol.com.br/ilustrada/2023/06/julio-bressane-sintetiza-seus-quase-60-filmes-em-obra-de-7-horas-com-cenas-ineditas.shtml"><span style="font-weight: 400;">material fílmico</span></a><span style="font-weight: 400;">, o caráter de sua montagem promove o toque mútuo de suas filmagens amadoras e familiares com suas peças ficcionais, que não constroem nenhum novo gênero ou algo híbrido como uma autoficção. Até mesmo essas categorias – de ficção ou documentário – são diluídas a favor de uma dinâmica intrincada, em que seus longas ficcionais são colocados em uma seara íntima e o íntimo é proposto a ficcionalização, funcionando numa ordem de montagem e de percepção em que são colocados a uma mesma condição.</span></p>
<p><a href="https://www.metropoles.com/entretenimento/julio-bressane-sera-homenageado-na-mostra-internacional-de-cinema"><span style="font-weight: 400;">Júlio Bressane</span></a><span style="font-weight: 400;"> percebe imagens por imagens, não pelo que elas possam construir em significado pela integridade e unidade, mas enquanto palimpsestos nos quais o tempo se imprime e se apaga novamente pela maneira elétrica em que a memória não somente individual, mas do filme – mídia e entidade de criação – se faz em sua vida. É mais um </span><a href="https://limiterevista.com/2023/07/11/conversa-com-julio-bressane-i/"><span style="font-weight: 400;">biografema</span></a><span style="font-weight: 400;"> do que uma biografia, enredando a partir da ficção e da não literalidade da memória a uma adaptação do real em imagens que avançam e retrocedem e que parecem, em um certo momento, serem um </span><i><span style="font-weight: 400;">making-of </span></i><span style="font-weight: 400;">não só da vida particular, mas de uma escritura específica do Cinema Brasileiro.</span></p>
<figure id="attachment_31862" aria-describedby="caption-attachment-31862" style="width: 800px" class="wp-caption aligncenter"><img decoding="async" class="size-medium wp-image-31862" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/11/UzMBFQBpZmZyLmZpb25hLW9ubGluZS5uZXQ0AGF0dGFjaG1lbnRzL2ZmMGMyZGYyLWQ4N2ItNDFlYi05YzgxLTlhN2ZiNDI1NTI1Zi5qcGc-1-800x450.webp" alt="" width="800" height="450" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/11/UzMBFQBpZmZyLmZpb25hLW9ubGluZS5uZXQ0AGF0dGFjaG1lbnRzL2ZmMGMyZGYyLWQ4N2ItNDFlYi05YzgxLTlhN2ZiNDI1NTI1Zi5qcGc-1-800x450.webp 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/11/UzMBFQBpZmZyLmZpb25hLW9ubGluZS5uZXQ0AGF0dGFjaG1lbnRzL2ZmMGMyZGYyLWQ4N2ItNDFlYi05YzgxLTlhN2ZiNDI1NTI1Zi5qcGc-1-1024x576.webp 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/11/UzMBFQBpZmZyLmZpb25hLW9ubGluZS5uZXQ0AGF0dGFjaG1lbnRzL2ZmMGMyZGYyLWQ4N2ItNDFlYi05YzgxLTlhN2ZiNDI1NTI1Zi5qcGc-1-768x432.webp 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/11/UzMBFQBpZmZyLmZpb25hLW9ubGluZS5uZXQ0AGF0dGFjaG1lbnRzL2ZmMGMyZGYyLWQ4N2ItNDFlYi05YzgxLTlhN2ZiNDI1NTI1Zi5qcGc-1-1536x864.webp 1536w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/11/UzMBFQBpZmZyLmZpb25hLW9ubGluZS5uZXQ0AGF0dGFjaG1lbnRzL2ZmMGMyZGYyLWQ4N2ItNDFlYi05YzgxLTlhN2ZiNDI1NTI1Zi5qcGc-1-1200x675.webp 1200w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/11/UzMBFQBpZmZyLmZpb25hLW9ubGluZS5uZXQ0AGF0dGFjaG1lbnRzL2ZmMGMyZGYyLWQ4N2ItNDFlYi05YzgxLTlhN2ZiNDI1NTI1Zi5qcGc-1.webp 2048w" sizes="(max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 984px) 61vw, (max-width: 1362px) 45vw, 600px" /><figcaption id="caption-attachment-31862" class="wp-caption-text">O recorte de uma História específica do país e do própria filmografia de Bressane se dá pela presença de personagens como Gal Costa, Haroldo de Campos e Grande Otelo (Foto: TB Produções)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">O Cinema não se lembra como as enciclopédias e os dicionários, e também não se esquece como os </span><a href="https://olhave.com.br/2018/10/atlas-mnemosyne-busca-infinita-por-arquivar-imagens-e-pensamentos/"><span style="font-weight: 400;">arquivos</span></a><span style="font-weight: 400;">. Mais contempla, internamente, dentro de seus blocos de ações, o mundo que o rodeia. Especialmente, </span><i><span style="font-weight: 400;">A Longa Viagem do Ônibus Amarelo </span></i><span style="font-weight: 400;">faz que, mesmo dispondo-se de títulos de linguagem cinematográfica complexa e sofisticada, os filmes apenas sejam pares de olhos comuns descobrindo novas paisagens e combinações de sentido, numa viagem-captura em que até mesmo o que não pertence ao espectador – a História íntima – desperte o esplendor. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Os rastros de uma montagem que beira o caráter confessional, expondo as obsessões estéticas e conceituais da grande autoria de Júlio Bressane, situa além de um caráter ontológico do Cinema, em que o silêncio inaugura a obra. Como um preâmbulo aos sentidos imagináveis, uma elegia não a suas seis décadas de produção, mas à memória registrada e seu suporte, como a vida, tão efêmera, mas ao mesmo tempo eterna, na forma de Arte.</span></p>
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		<title>Latente, Afire estremece e queima</title>
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		<pubDate>Mon, 30 Oct 2023 21:37:55 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p>Enzo Caramori ‘‘O amor da juventude, a  juventude do amor desaparecerá e passará quanto antes.’’ – John Hay Período em que a suspensão da realidade diária cede lugar à educação sentimental, ao titubear emocional, ao erro e à tentativa: o verão é uma quietude na qual a procrastinação dá espaço a descobertas sensíveis. É uma &#8230; <a href="http://personaunesp.com.br/afire-critica/" class="more-link">Continue lendo<span class="screen-reader-text"> "Latente, Afire estremece e queima"</span></a></p>
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										<content:encoded><![CDATA[<figure id="attachment_31721" aria-describedby="caption-attachment-31721" style="width: 800px" class="wp-caption aligncenter"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-medium wp-image-31721" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/10/images-original-800x600.png" alt="" width="800" height="600" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/10/images-original-800x600.png 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/10/images-original-1024x768.png 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/10/images-original-768x576.png 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/10/images-original-1536x1152.png 1536w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/10/images-original-2048x1536.png 2048w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/10/images-original-1200x900.png 1200w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 984px) 61vw, (max-width: 1362px) 45vw, 600px" /><figcaption id="caption-attachment-31721" class="wp-caption-text">Afire foi o vencedor do Urso de Prata do Grande Prémio do Júri no Festival Internacional Cinema de Berlim de 2023 e estreou no Brasil na 47ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo (Foto: Piffl Medien)</figcaption></figure>
<p style="text-align: left;"><b>Enzo Caramori</b></p>
<blockquote><p><span style="font-weight: 400;">‘‘O amor da juventude, a  juventude do amor</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">desaparecerá e passará quanto antes.’’</span></p>
<p style="text-align: right;"><i><span style="font-weight: 400;">– John Hay</span></i></p>
</blockquote>
<p><span style="font-weight: 400;">Período em que a suspensão da realidade diária cede lugar à educação sentimental, ao titubear emocional, ao erro e à tentativa: o verão é uma quietude na qual a procrastinação dá espaço a descobertas sensíveis. É uma das temporadas dos filmes de Éric Rohmer, cujos propósitos de suas relações ficcionais são, de qualquer maneira, a afetação, seja por leituras tediosas de Balzac, gestos sutis de sedução e o mormaço claro do sol francês. Mesmo que dispondo de um olhar que se dedica às delicadezas da estação, o drama </span><a href="https://47.mostra.org/filmes/afire-47a"><i><span style="font-weight: 400;">Afire</span></i></a> <span style="font-weight: 400;">(2023), presente na </span><a href="https://personaunesp.com.br/tag/perspectiva-internacional/"><span style="font-weight: 400;">Perspectiva Internacional</span></a><span style="font-weight: 400;"> da 47ª </span><a href="https://personaunesp.com.br/tag/mostra-internacional-de-cinema-em-sao-paulo/"><span style="font-weight: 400;">Mostra Internacional de Cinema em São Paulo</span></a><span style="font-weight: 400;">, não almeja o lugar da beleza e da delicadeza rohmeriana – na qual se inspira –, mas enfoca justamente nas feridas subjetivas de suas personagens, colhendo, do tédio, o sentimento melancólico de alheamento. </span></p>
<p><span id="more-31720"></span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">O segundo capítulo da </span><a href="https://www.cinematheque-passion.mo/pt/movie/55"><span style="font-weight: 400;">Trilogia Elemental</span></a><span style="font-weight: 400;"> do diretor Christian Petzold constrói-se em uma fábula febril, cuja paisagem bucólica e ao mesmo tempo praiana do Mar Báltico alemão é o fundo da construção de atritos e emoções sutis entre um trio central de personagens. A tentativa de isolamento dos amigos Leon (Thomas Schubert) e Félix (Langston Uibel), um escritor e outro fotógrafo, para a realização de seus respectivos projetos, poderia, em um arco narrativo do gênero de filmes de verão, ser iluminada com a presença inesperada e misteriosa de Nadja, interpretada por Paula Beer, presente no trabalho anterior de Petzold, </span><a href="https://www1.folha.uol.com.br/ilustrada/2021/12/christian-petzold-dirige-com-mais-calor-undine-versao-de-mito-alemao.shtml"><i><span style="font-weight: 400;">Undine</span></i></a> <span style="font-weight: 400;">(2020).</span> <span style="font-weight: 400;">Contudo, tanto pela ameaça silenciosa e iminente de queimadas naturais na região seca onde refugiam-se, na casa do fotógrafo, quanto pela centralização da perspectiva pessoal do escritor, um personagem em crise com sua escrita e seu ego conflitante, </span><i><span style="font-weight: 400;">Afire </span></i><span style="font-weight: 400;">torna o que poderia ser um fator idílico em algo delicado, incômodo e taciturno.</span></p>
<figure id="attachment_31723" aria-describedby="caption-attachment-31723" style="width: 800px" class="wp-caption aligncenter"><img loading="lazy" decoding="async" class="wp-image-31723 size-medium" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/10/Afire-2-1600x900-c-default-800x450.jpeg" alt="" width="800" height="450" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/10/Afire-2-1600x900-c-default-800x450.jpeg 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/10/Afire-2-1600x900-c-default-1024x576.jpeg 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/10/Afire-2-1600x900-c-default-768x432.jpeg 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/10/Afire-2-1600x900-c-default-1536x864.jpeg 1536w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/10/Afire-2-1600x900-c-default-1200x675.jpeg 1200w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/10/Afire-2-1600x900-c-default.jpeg 1600w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 984px) 61vw, (max-width: 1362px) 45vw, 600px" /><figcaption id="caption-attachment-31723" class="wp-caption-text">O realizador Harun Farocki colaborou com Petzold nos roteiros de sua trilogia Amor em Tempos de Sistemas Opressivos (Foto: Piffl Medien)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">Ao colocar sobre primeiro plano o complexo narcisismo e frustração do protagonista Leon perante si e seus amigos, a direção de Petzold não faz estremecer somente o espectador frente a diálogos minuciosamente construídos – sarcásticos e com um gosto quase </span><a href="https://kdhx.org/articles/film-reviews/3176-afire-masterfully-depicts-a-taciturn,-insecure-writer#:~:text=In%20press%20notes,by%20Nadja%E2%80%99s%20honesty%20."><span style="font-weight: 400;">tchekhoviano</span></a><span style="font-weight: 400;"> – que enveredam o espectador nos flertes, farpas e ciúmes do trio. Mas também a própria expressão dos personagens quando pouco dizem e que faz prevalecer o que deixam de falar uns aos outros: algo sempre visível em suas fisicalidades, contrastante, em momentos de tensão, com a leveza do ambiente.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">A vivência na casa os situa em uma intimidade não construída pela afinidade ou pelas semelhanças, mas justamente por um contato estabelecido por devida distância. Em uma dança de olhares, os personagens observam-se mutua e silenciosamente pela janela de seus quartos ou se escutam entre as paredes finas dos cômodos, que deixam escapar seus gemidos à noite. Esse caráter voyeurístico parece corroer Léon interiormente, que vê o verão escapar entre seus dedos, já que o perde entre extensos cochilos, maços de cigarros e o denso </span><a href="https://mubi.com/pt/notebook/posts/burning-down-the-house-christian-petzold-on-afire#:~:text=NOTEBOOK%3A%20Shame%20is%20the%20perfect%20word.%20It%E2%80%99s%20also%20a%20much%2Ddiscussed%20emotion%20in%20literature%20and%20literary%20studies.%20%C2%A0"><span style="font-weight: 400;">desespero</span></a><span style="font-weight: 400;"> de, acima de tudo, não se fazer nada.</span></p>
<figure id="attachment_31722" aria-describedby="caption-attachment-31722" style="width: 800px" class="wp-caption aligncenter"><img loading="lazy" decoding="async" class="wp-image-31722 size-medium" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/10/afire-roter-himmel-christian-petzold-2023-v0-toeafk70b0lb1-800x431.webp" alt="" width="800" height="431" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/10/afire-roter-himmel-christian-petzold-2023-v0-toeafk70b0lb1-800x431.webp 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/10/afire-roter-himmel-christian-petzold-2023-v0-toeafk70b0lb1-1024x552.webp 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/10/afire-roter-himmel-christian-petzold-2023-v0-toeafk70b0lb1-768x414.webp 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/10/afire-roter-himmel-christian-petzold-2023-v0-toeafk70b0lb1-1536x828.webp 1536w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/10/afire-roter-himmel-christian-petzold-2023-v0-toeafk70b0lb1-1200x647.webp 1200w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/10/afire-roter-himmel-christian-petzold-2023-v0-toeafk70b0lb1.webp 1920w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 984px) 61vw, (max-width: 1362px) 45vw, 600px" /><figcaption id="caption-attachment-31722" class="wp-caption-text">As duas locações de Afire, uma nas florestas de Brandemburgo e a outra próxima ao Mar Báltico, justificam os contrastes dos espaços, dando um ar irreal ao filme (Foto: Piffl Medien)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">Ainda que </span><i><span style="font-weight: 400;">Rotter Himel</span></i><span style="font-weight: 400;"> – título original do filme, que se traduz ‘‘paraíso vermelho’’ –, pareça transportar as tensões sociais e emoções reprimidas na urdidura de silêncios de </span><i><span style="font-weight: 400;">Deserto Vermelho, </span></i><span style="font-weight: 400;">dirigido por Michelangelo Antonioni, </span><a href="https://47.mostra.org/jornal-da-mostra/exposicao-antonioni"><span style="font-weight: 400;">homenageado</span></a><span style="font-weight: 400;"> pela 47ª Mostra, o longa e o Cinema de Petzold é marcado por um retrato sutil das transformações e dos sujeitos sociais da sociedade alemã. Talvez o maior traço disso seja a construção do ritmo de ações do protagonista se situar entre o alarmante sentimento de ser produtivo contra o abraçar do devaneio, que faz de sua vivência na casa mais uma performance, na qual, frente aos outros, finge estar escrevendo, do que um abraço a um aspecto inventivo do ócio. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">A praia é a paisagem possível – a uma sociedade assolada pelo pós-guerra, pela cisão política e pela lógica de honra do trabalho – de se ter um corpo, fazer sexo, se recriar e inventar fora da norma de produção. Mas, como abordado de diferentes maneiras por seus predecessores Harun Farocki e Rainer Werner Fassbinder, o trabalho é o concessor de uma identidade capaz de evanescer com o estalar dos dedos, o que faz Schubert não somente encenar o protagonista, mas, também, performar o trabalho que atende a Leon um único objetivo: sua </span><a href="https://mubi.com/pt/notebook/posts/burning-down-the-house-christian-petzold-on-afire#:~:text=PETZOLD%3A%20Yes%2C%20that%E2%80%99s,a%20unique%20selling%20point."><span style="font-weight: 400;">vergonha</span></a><span style="font-weight: 400;"> e a representação de si frente a um mundo onde outros não necessariamente trabalham, mas ocupam seus espíritos consigo mesmos. </span></p>
<p><i><span style="font-weight: 400;">Afire</span></i><span style="font-weight: 400;"> toma uma leitura mais singela e moderna de melodramas e novelas para referir-se, a partir do pessoal, a </span><a href="https://piaui.folha.uol.com.br/em-transito-um-olhar-sobre-o-monstro-que-habita-varios-tempos-historicos/"><span style="font-weight: 400;">traumas</span></a><span style="font-weight: 400;"> e crises sociais, e mostrar, mesmo com determinada distância, que talvez se precise das ondas – ou do fogo –, para se desfazer de si. </span><span style="font-weight: 400;">Quase que como um</span> <a href="https://blogdacotovia.blogspot.com/2016/04/seis-contos-morais-de-eric-rohmer.html"><span style="font-weight: 400;">conto moral</span></a> <span style="font-weight: 400;">de Petzold, o desprendimento das resistências individuais parece ser o caminho ideal para o aflorar criativo de Leon, além de um deslumbramento com a paisagem que, em filmes como </span><a href="https://mubi.com/pt/br/films/bergman-island-2021"><i><span style="font-weight: 400;">A Ilha de Bergman</span></i></a> <span style="font-weight: 400;">(2021)</span><i><span style="font-weight: 400;">, </span></i><span style="font-weight: 400;">de Mia Hansen Løve, e </span><a href="https://criticos.com.br/?p=6282"><i><span style="font-weight: 400;">Acima das Nuvens</span></i></a> <span style="font-weight: 400;">(2014)</span><i><span style="font-weight: 400;">, </span></i><span style="font-weight: 400;">de Olivier Assayas, toma a beleza do espaço e a conexão com os elementos terrenos – a sensualidade, as sensações e os sentidos – como o desbloqueio de suas dificuldades. </span></p>
<figure id="attachment_31724" aria-describedby="caption-attachment-31724" style="width: 800px" class="wp-caption aligncenter"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-medium wp-image-31724" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/10/Afire-3-1600x900-c-default-800x450.jpeg" alt="" width="800" height="450" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/10/Afire-3-1600x900-c-default-800x450.jpeg 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/10/Afire-3-1600x900-c-default-1024x576.jpeg 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/10/Afire-3-1600x900-c-default-768x432.jpeg 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/10/Afire-3-1600x900-c-default-1536x864.jpeg 1536w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/10/Afire-3-1600x900-c-default-1200x675.jpeg 1200w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/10/Afire-3-1600x900-c-default.jpeg 1600w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 984px) 61vw, (max-width: 1362px) 45vw, 600px" /><figcaption id="caption-attachment-31724" class="wp-caption-text">A Literatura está sempre presente nos filmes de Christian Petzold e, em Afire, destaca-se o poema The Azra, de Heinrich Heine (Foto: Piffl Medien)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">No filme, a </span><a href="https://mubi.com/pt/notebook/posts/hard-cover-christian-petzold-reader-director"><span style="font-weight: 400;">Literatura</span></a><span style="font-weight: 400;"> não deixa de</span> <span style="font-weight: 400;">cumprir sua função estética como um eixo de referência entre o diretor e sua criação, mas também narrativa. Personagens escritores podem, curiosamente, servir de metáforas ou alegorias a seus autores, mas nesse contexto, o ofício parece capturar o sentimento de recusa ao outro. Para além de um arcabouço do qual o protagonista justifica seus escapes às atividades cotidianas e conjuntas dos dias ensolarados, a desculpa da escrita é a concha para qual se volta quando se encontra em desalinho e alienado do corriqueiro, lidando com a introspecção e a insegurança de seu texto. Aqui, a escrita é uma covardia e uma forma de comunicação na qual se materializa essa constante conexão e desconexão do mundo que o cerca, tanto por grosserias materializadas em maus-entendidos que nebulam jantares ainda ensolarados quanto pelo embaraço íntimo </span><span style="font-weight: 400;">de uma paixão incerta.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Em </span><i><span style="font-weight: 400;">Afire, </span></i><span style="font-weight: 400;">a apatia do personagem predomina e, diferentemente dessa consonância com a natureza e o ambiente que acarreta ao pico criativo, é a partir do fogo e das cinzas – que chegam a parecer dentes-de-leão ao céu – que o </span><a href="https://lithub.com/can-writers-have-fun-afire-is-a-character-study-of-a-self-absorbed-novelist/"><span style="font-weight: 400;">escritor</span></a><span style="font-weight: 400;"> encontra-se em seu texto. Um fogo que não somente é um componente de uma fábula contemporânea que coloca uma catástrofe natural, que enfurece ao longo que o filme passa, à espreita e ao fundo dos planos e diálogos, mas sim um presságio que espelha a experiência psicológica e o colapso de seus personagens.</span></p>
<figure id="attachment_31725" aria-describedby="caption-attachment-31725" style="width: 800px" class="wp-caption aligncenter"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-medium wp-image-31725" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/10/Afire-6-1-1600x900-c-default-800x450.jpeg" alt="" width="800" height="450" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/10/Afire-6-1-1600x900-c-default-800x450.jpeg 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/10/Afire-6-1-1600x900-c-default-1024x576.jpeg 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/10/Afire-6-1-1600x900-c-default-768x432.jpeg 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/10/Afire-6-1-1600x900-c-default-1536x864.jpeg 1536w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/10/Afire-6-1-1600x900-c-default-1200x675.jpeg 1200w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/10/Afire-6-1-1600x900-c-default.jpeg 1600w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 984px) 61vw, (max-width: 1362px) 45vw, 600px" /><figcaption id="caption-attachment-31725" class="wp-caption-text">A leveza da atuação de Paula Beer justifica-se por seu histórico na dança, premeditado na escalação da atriz em Undine (Foto: Piffl Medien)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">Se de alguma forma Petzold persiste, como em </span><i><span style="font-weight: 400;">Undine, </span></i><span style="font-weight: 400;">a </span><a href="https://icsfilm.org/uncategorized/myth-within-modernity-christian-petzolds-undine/"><span style="font-weight: 400;">reconstruir mitos</span></a><span style="font-weight: 400;">, o faz dando a um imaginário específico de filmes alemães, um Cinema veranil, cuja claridade adentra pela </span><a href="https://www.theguardian.com/film/2023/aug/27/afire-review-slow-burning-german-drama-about-a-self-absorbed-writer"><span style="font-weight: 400;">queima lenta</span></a><span style="font-weight: 400;"> de tensões e pela repetição quase métrica das emoções de seus personagens. Mesmo não atravessados pelo estremecimento emocional do protagonista, são envolvidos por uma inércia que faz as mudanças serem sutis e quase imperceptíveis. Não há rupturas, mas sim uma profundidade que vai se acessando com as ações e interações com os motivos centrais da obra que, centrado no mundo egoico de Leon, se fazem ainda mais ocultos e imperceptíveis sob sua cegueira às relações sociais e emocionais que o cercam.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">O que é verossímil e se faz real é a capacidade do amor e da paixão, sentimentos abissais que torcem seus personagens para dentro e fora de si. O tremor desse indivíduo enveredado em um sua paixão e sua vergonha é um cenário que não precisa ser representados em sua literalidade, pois já é ilustrado pelo olhar abissal frente a uma catástrofe natural e sensível, desesperados para agarrarem-se ao que está a iminência de se perder, frente ao </span><a href="https://artreview.com/afire-christian-petzold-review-summer-film-eric-rohmer/"><span style="font-weight: 400;">fogo</span></a><span style="font-weight: 400;">. </span></p>
<p><i><span style="font-weight: 400;">Afire</span></i><span style="font-weight: 400;"> se estabelece mais no sentimento de não representar em sua totalidade, dada suas lentes individualistas que prendem Leon a si mesmo e que, ainda que suas patologias criativas sejam superadas, remanesce como sendo o protagonista de uma </span><a href="https://www.documentjournal.com/2023/07/afire-film-christian-petzold-paula-beer-german-cinema-cuba-libre-ghosts-barbara/"><span style="font-weight: 400;">crônica</span></a><span style="font-weight: 400;"> sobre perda. O sentimento final de culpa não apenas instaura um gosto estranho de melancolia, como de algo que não pode ser dito e que se encerra em sua perspectiva, mas também da realidade da representação. Trêmulo, em uma chama baixa próxima a se apagar, o tempo de descobertas se afoga no sentimento da inércia de alguém que fica ao fundo e observa o verão se desenrolar, enquanto restam só escritos do que poderia, em algum momento, ter sido.</span></p>
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		<title>Bardo, Falsa Crônica de Algumas Verdades é a autocrítica de Alejandro G. Iñárritu</title>
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		<pubDate>Thu, 17 Nov 2022 20:33:19 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p>Bruno Andrade O que parece ser unânime em relação a Alejandro González Iñárritu é que ele nunca se esforça em agradar. Disso surgem virtudes e defeitos: ele pode criar obras originais e autênticas, com refinado valor estético, mas também pode cair no escárnio, na decepção, na epopeia que pode ser o ego de um diretor. &#8230; <a href="http://personaunesp.com.br/bardo-falsa-cronica-de-algumas-verdades-critica/" class="more-link">Continue lendo<span class="screen-reader-text"> "Bardo, Falsa Crônica de Algumas Verdades é a autocrítica de Alejandro G. Iñárritu"</span></a></p>
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										<content:encoded><![CDATA[<figure id="attachment_29204" aria-describedby="caption-attachment-29204" style="width: 2560px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-full wp-image-29204" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/11/bardo1-scaled.jpg" alt="" width="2560" height="1440" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/11/bardo1-scaled.jpg 2560w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/11/bardo1-800x450.jpg 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/11/bardo1-1024x576.jpg 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/11/bardo1-768x432.jpg 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/11/bardo1-1536x864.jpg 1536w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/11/bardo1-2048x1152.jpg 2048w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/11/bardo1-1200x675.jpg 1200w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 1362px) 62vw, 840px" /><figcaption id="caption-attachment-29204" class="wp-caption-text">O longa foi exibido no Festival de Veneza e teve uma pré-estreia presencial no Brasil, na seção Perspectiva Internacional da 46ª Mostra SP (Foto: Netflix)</figcaption></figure>
<p><b>Bruno Andrade</b></p>
<p><span style="font-weight: 400;">O que parece ser unânime em relação a </span><span style="font-weight: 400;"><a href="https://www1.folha.uol.com.br/ilustrada/2022/10/inarritu-encara-seus-criticos-e-alfineta-os-eua-em-bardo-destaque-da-mostra-de-sp.shtml">Alejandro González Iñárritu</a></span><span style="font-weight: 400;"> é que ele nunca se esforça em agradar. Disso surgem virtudes e defeitos: ele pode criar obras originais e autênticas, com refinado valor estético, mas também pode cair no escárnio, na decepção, na epopeia que pode ser o ego de um diretor. </span><span style="font-weight: 400;"><i><a href="https://variety.com/2022/film/reviews/bardo-or-false-chronicle-of-a-handful-of-truths-review-alejandro-gonzalez-inarritu-1235355356/">Bardo, Falsa Crônica de Algumas Verdades</a></i></span><span style="font-weight: 400;"> parece ser o meio termo entre essas duas situações. Com uma trama que se propõe a traçar a história de um renomado jornalista e documentarista mexicano, Silverio Gama (Daniel Giménez Cacho) – personagem marcado por uma profunda crise existencial –, o longa integrou a seção Perspectiva Internacional da 46ª </span><span style="font-weight: 400;"><a href="https://personaunesp.com.br/tag/mostra-internacional-de-cinema-em-sao-paulo/">Mostra Internacional</a></span><span style="font-weight: 400;"> de Cinema em São Paulo.</span></p>
<p><span id="more-29201"></span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Alguns elementos presentes no filme são marcas de Iñárritu (as mesmas marcas que o fizeram vencer o </span><span style="font-weight: 400;"><i>Oscar</i></span><span style="font-weight: 400;"> de Melhor Diretor dois anos consecutivos, por </span><span style="font-weight: 400;"><i><a href="https://vejasp.abril.com.br/coluna/filmes-e-series/bardo-netflix-inarritu/">Birdman, ou a Inesperada Virtude da Ignorância</a></i></span> <span style="font-weight: 400;">[2014] e </span><span style="font-weight: 400;"><i><a href="https://pixelnerd.com.br/10-curiosidades-sobre-o-filme-o-regresso/">O Regresso</a></i></span> <span style="font-weight: 400;">[2015]): a câmera lenta e espaçada que passa por todos os cantos, quase nunca estacionada em um só lugar; o fluxo verborrágico do protagonista que se mistura às pequenas tramas narrativas que ele próprio descreve; o </span><span style="font-weight: 400;"><i>nonsense</i></span><span style="font-weight: 400;"> que, muitas vezes, se mostra apenas uma realidade vista de longe, interpolada pela criatividade da memória; e, principalmente, a representação da consciência do personagem principal.</span></p>
<figure id="attachment_29205" aria-describedby="caption-attachment-29205" style="width: 2235px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-full wp-image-29205" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/11/bardo3.jpg" alt="" width="2235" height="1257" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/11/bardo3.jpg 2235w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/11/bardo3-800x450.jpg 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/11/bardo3-1024x576.jpg 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/11/bardo3-768x432.jpg 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/11/bardo3-1536x864.jpg 1536w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/11/bardo3-2048x1152.jpg 2048w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/11/bardo3-1200x675.jpg 1200w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 1362px) 62vw, 840px" /><figcaption id="caption-attachment-29205" class="wp-caption-text">Bardo, Falsa Crônica de Algumas Verdades foi lançado oficialmente em 17 de novembro de 2022, mas só entrará no catálogo da Netflix em 16 de dezembro (Foto: Netflix)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">A princípio, o título do filme diz tudo o que se precisa saber. “</span><span style="font-weight: 400;"><i>Bardo</i></span><span style="font-weight: 400;">” é o termo tibetano para o lugar entre a vida, a morte e o renascimento, presente no texto sagrado do </span><span style="font-weight: 400;"><i><a href="https://www1.folha.uol.com.br/blogs/virada-psicodelica/2022/05/como-entender-a-expansao-da-consciencia-mediada-por-psicodelicos.shtml">Livro Tibetano dos Mortos</a></i></span><span style="font-weight: 400;">. O resto fica a cargo da composição narrativa do roteiro de Iñárritu e Nicolás Giacobone, roteirista argentino responsável pela trama de </span><span style="font-weight: 400;"><i>Birdman</i></span><span style="font-weight: 400;">. Essa informação também é de se atentar, visto que, em muitos aspectos, </span><span style="font-weight: 400;"><i>Bardo, Falsa Crônica de Algumas Verdades</i></span><span style="font-weight: 400;"> parece um “</span><span style="font-weight: 400;"><i>Birdman</i></span><span style="font-weight: 400;"> 2”, cujos elementos se assemelham em muitos níveis, inclusive sob a perspectiva de um protagonista artista (no longa de 2014, um ator em decadência; no filme de 2022, um documentarista no auge), que não sabe qual caminho seguir.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">É </span><span style="font-weight: 400;"><a href="https://www.forbes.com.mx/forbes-life/entretenimiento-bardo-pelicula-gonzalez-inarritu/">Daniel Giménez Cacho</a></span><span style="font-weight: 400;">, que integrou o elenco de </span><span style="font-weight: 400;"><i><a href="https://www.theguardian.com/film/2021/sep/23/siberia-review-abel-ferrara-willem-dafoe">Siberia</a></i></span><span style="font-weight: 400;"> (2020), de Abel Ferrara – filme que aborda igualmente o limiar entre vida e morte (o “bardo”) –, que dá vida ao protagonista menos caótico da filmografia de Iñárritu. Na trama, há 20 anos, ele foi um apresentador de TV, mas se afastou desse papel quando percebeu que estava vendendo uma versão comercial da realidade. Ele queria falar “</span><span style="font-weight: 400;"><i>algumas verdades</i></span><span style="font-weight: 400;">”, as quais tornaram-se cada vez mais difíceis de serem ditas num México que se curvou aos efeitos nocivos de uma mídia violenta. Silverio Gama consegue realizar seu desejo e se transforma em um repórter de renome em Los Angeles. Ainda assim, a obra não se propõe a ser uma odisséia de sua redenção (como </span><span style="font-weight: 400;"><i>Birdman </i></span><span style="font-weight: 400;">é, por exemplo), e Iñárritu mistura realidade e ficção, acenando às interpretações de que as duas, na verdade, podem ser a mesma coisa – tudo depende do ponto de vista do observador. Na prática, o personagem percebe que a realidade, por si só, é pura ficção.</span></p>
<figure id="attachment_29203" aria-describedby="caption-attachment-29203" style="width: 1920px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-full wp-image-29203" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/11/Alejandro-Gonzalez-Inarritu.jpg" alt="" width="1920" height="1280" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/11/Alejandro-Gonzalez-Inarritu.jpg 1920w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/11/Alejandro-Gonzalez-Inarritu-800x533.jpg 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/11/Alejandro-Gonzalez-Inarritu-1024x683.jpg 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/11/Alejandro-Gonzalez-Inarritu-768x512.jpg 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/11/Alejandro-Gonzalez-Inarritu-1536x1024.jpg 1536w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/11/Alejandro-Gonzalez-Inarritu-1200x800.jpg 1200w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 1362px) 62vw, 840px" /><figcaption id="caption-attachment-29203" class="wp-caption-text">Em entrevista ao Vanity Fair, <a href="https://www.vanityfair.com/hollywood/2022/09/awards-insider-alejandro-g-inarritu-interview-about-bardo-reviews">Alejandro G. Iñárritu</a> disse que “é uma pena que Bardo tenha sido incompreendido” (Foto: Jason LaVeris)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">Depois de uma temporada premiada com </span><span style="font-weight: 400;"><i>O Regresso</i></span><span style="font-weight: 400;">, interpolada pelo curta-metragem </span><span style="font-weight: 400;"><i><a href="https://youtu.be/zF-focK30WE">Carne y arena</a></i></span> <span style="font-weight: 400;">(2017) – resultado de um projeto de realidade virtual que recebeu um </span><span style="font-weight: 400;"><i>Oscar</i></span><span style="font-weight: 400;"> Especial da Academia –, o novo projeto do diretor não conseguiu os mesmos feitos. Após as primeiras exibições, o longa</span> <span style="font-weight: 400;">(que chega em breve aos cinemas brasileiros) teve um mau desempenho. Tentando remediar o que parece inevitável, o diretor cortou quase 30 minutos de filme, além de gerar uma reedição de diversas outras partes – é essa versão reeditada que integrou a Mostra Internacional de Cinema em São Paulo e chega à </span><span style="font-weight: 400;"><i>Netflix</i></span><span style="font-weight: 400;"> no dia 16 de dezembro, numa nova estratégia de distribuição da empresa, que o lançará primeiro nos cinemas. Ainda assim, o longa totaliza praticamente três horas de duração.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Todavia, é interessante perceber como </span><span style="font-weight: 400;"><i>Bardo, Falsa Crónica de unas Cuantas Verdades </i></span><span style="font-weight: 400;">(no original) </span><span style="font-weight: 400;"><a href="https://www.estadao.com.br/cultura/cinema/inarritu-meu-filme-bardo-e-incerto-muito-desconfortavel-e-pode-ser-irritante/">antecipa as próprias críticas</a></span><span style="font-weight: 400;"> que recebeu. Em uma das sequências do filme, durante a festa em homenagem à Silvério, ele entra num embate com Luis (Francisco Rubio), um ex-colega que se tornou uma estrela do sensacionalismo na televisão mexicana. Luis ataca Silverio por sua auto-indulgência e pretensão, acusando-o de se autoproclamar “artista” para os norte-americanos, esquecendo, assim, suas origens. Como resposta, o protagonista profere um discurso sobre a hipocrisia de uma mídia que sacrifica integridade e decência pelo altar das críticas e curtidas nas redes sociais. De alguma forma, Iñárritu esperava que seu filme fosse condenado por aquilo que atacou.</span></p>
<figure id="attachment_29202" aria-describedby="caption-attachment-29202" style="width: 2034px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-full wp-image-29202" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/11/Screen-Shot-2022-09-22-at-9.14.52-AM.webp" alt="" width="2034" height="1046" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/11/Screen-Shot-2022-09-22-at-9.14.52-AM.webp 2034w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/11/Screen-Shot-2022-09-22-at-9.14.52-AM-800x411.webp 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/11/Screen-Shot-2022-09-22-at-9.14.52-AM-1024x527.webp 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/11/Screen-Shot-2022-09-22-at-9.14.52-AM-768x395.webp 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/11/Screen-Shot-2022-09-22-at-9.14.52-AM-1536x790.webp 1536w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/11/Screen-Shot-2022-09-22-at-9.14.52-AM-1200x617.webp 1200w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 1362px) 62vw, 840px" /><figcaption id="caption-attachment-29202" class="wp-caption-text">Nicolás Giacobone, que levou o Oscar de Melhor Roteiro por Birdman, repete a parceria com Alejandro Iñárritu em Bardo (Foto: Netflix)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">Em outra cena, na qual Gama discute com o filho – o adolescente Lorenzo (Íker Sánchez Solano) –, questões sobre o colonialismo e a relação Estados Unidos — México surgem de forma visceral. Durante o embate entre os dois, o filho defende os ianques e elenca todas as “virtudes tecnológicas” de um país regido pelo dinheiro, ainda que o pai tente jogar luz na </span><span style="font-weight: 400;"><a href="https://oglobo.globo.com/cultura/filmes/noticia/2022/10/alejandro-gonzalez-inarritu-cada-pais-e-formado-por-varias-narrativas.ghtml">memória histórica do país</a></span><span style="font-weight: 400;"> latino-americano, argumentando acerca das tradições mexicanas. O curioso é, para além do debate, perceber como esse diálogo foi construído no roteiro: Lorenzo começa, lentamente, a inserir palavras em inglês durante o confronto, enquanto Silverio permanece falando o espanhol.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Próximo ao fim da discussão, Lorenzo está falando totalmente em inglês, sinalizando para a colonização do próprio garoto na conversa. Como consequência, o pai grita: “</span><span style="font-weight: 400;"><i>fale espanhol, estamos no México</i></span><span style="font-weight: 400;">”. Segundos depois, o próprio Silverio está redigindo um </span><span style="font-weight: 400;"><a href="https://www.youtube.com/watch?v=_56dnQF4NNI&amp;t=92s&amp;ab_channel=Oscars">discurso do prêmio</a></span><span style="font-weight: 400;"> que irá receber nos Estados Unidos – o inimigo que, agora, lhe concede reconhecimento. Parte da crise existencial dele surge daí, no que também parece uma autocrítica do próprio Alejandro G. Iñárritu: depois de uma história marcada por questões nacionalistas, elencando elementos de seu próprio crescimento e país de origem nas concepções artísticas, o reconhecimento se consolida, somente, após passar pelo crivo da Academia norte-americana – e, pior: depois de aceitar tudo isso. Como Silverio diz em uma das cenas, &#8220;</span><span style="font-weight: 400;"><i>o sucesso tem sido meu maior fracasso&#8221;</i></span><span style="font-weight: 400;">.</span></p>
<figure id="attachment_29206" aria-describedby="caption-attachment-29206" style="width: 2560px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-full wp-image-29206" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/11/bardo4-scaled.jpg" alt="" width="2560" height="1440" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/11/bardo4-scaled.jpg 2560w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/11/bardo4-800x450.jpg 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/11/bardo4-1024x576.jpg 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/11/bardo4-768x432.jpg 768w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 1362px) 62vw, 840px" /><figcaption id="caption-attachment-29206" class="wp-caption-text">Iñárritu demorou 5 anos para finalizar Bardo; o filme ainda traz as atrizes Griselda Siciliani e Ximena Lamadrid no elenco (Foto: Netflix)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">Submissão do México no </span><span style="font-weight: 400;"><em>Oscar</em></span><span style="font-weight: 400;"> 2023, o filme tem um enredo que parece uma mensagem do próprio diretor a ele mesmo, uma autocrítica expandida com um personagem que em muito poderia ser um alter ego. Além de ter consciência do baixo envolvimento que o grande público deve ter com a obra, o diretor também disse em entrevista que incluiu “</span><span style="font-weight: 400;"><i>alguns pensamentos que eu tenho comigo mesmo</i></span><span style="font-weight: 400;">”. Ele sabe que o </span><span style="font-weight: 400;"><i>establishment</i></span><span style="font-weight: 400;"> estadunidense passou a enxergá-lo como uma fraude, um indivíduo pretensioso que ninguém entende como entrou para a História com dois </span><span style="font-weight: 400;"><i>Oscar</i></span><span style="font-weight: 400;">’s seguidos (algo que não acontecia na categoria desde 1950). Talvez por isso o roteiro avance para o caricatural em diversos momentos, ao mesmo tempo em que dá piscadelas de que tudo não passa de um grande sonho </span><span style="font-weight: 400;"><a href="https://www.youtube.com/watch?v=Q29iibXXiOs&amp;ab_channel=Radiohead-Topic">no limbo</a></span><span style="font-weight: 400;"> da morte.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">A bem da verdade, e talvez de forma cíclica, </span><span style="font-weight: 400;"><i>Bardo</i></span><span style="font-weight: 400;"> é o primeiro longa em que Iñárritu retorna ao cenário mexicano, depois de sua elogiada estreia com </span><span style="font-weight: 400;"><i><a href="http://www.aescotilha.com.br/cinema-tv/central-de-cinema/amores-brutos-alejandro-g-inarritu-critica/">Amores Brutos</a></i></span><span style="font-weight: 400;"> (2000). De qualquer forma, trata-se de uma produção cinematográfica que é, em muitos aspectos, psicodélica, e por isso soa desigual. O que em algumas produções seria o seu maior feito, aqui fica confuso, e a ausência de distinção entre memória, verdade, mentira, realidade e ficção coloca tudo numa “cama de gato”. Existem trechos que apelam para o drama e outros para o surrealismo, cuja ligação não é forte o suficiente para sustentar essas mudanças bruscas. Mesmo que autorizadas pelo subconsciente de Silverio Gama, as variações só acenam para o enlouquecedor, e o final, propriamente, não parece finalizar nada.</span></p>
<div class="jetpack-video-wrapper"><iframe loading="lazy" title="BARDO, False Chronicle of a Handful of Truths | Official Trailer | Netflix" width="840" height="473" src="https://www.youtube.com/embed/lCQimQfDuTs?feature=oembed" frameborder="0" allow="accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share" referrerpolicy="strict-origin-when-cross-origin" allowfullscreen></iframe></div>
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		<title>Objetos de Luz materializa a reflexão dos raios</title>
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		<pubDate>Thu, 03 Nov 2022 22:47:46 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p>Jamily Rigonatto Para a Física, a luz é uma onda eletromagnética com frequência suficiente para ser visível aos olhos humanos. Em Objetos de Luz, ela ganha esse e outros milhões de significados incabíveis em definições exatas e numerológicas. No documentário, dirigido por Acácio de Almeida e Maria Carré, a luz é o ponto que amarra &#8230; <a href="http://personaunesp.com.br/objetos-de-luz-critica/" class="more-link">Continue lendo<span class="screen-reader-text"> "Objetos de Luz materializa a reflexão dos raios"</span></a></p>
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										<content:encoded><![CDATA[<figure id="attachment_29157" aria-describedby="caption-attachment-29157" style="width: 1800px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="wp-image-29157 size-full" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/11/objectos-de-luz-1.jpeg" alt="Cena do filme Objetos de Luz. Na imagem, o Homem da Luz colocando a mão em frente a um projetor de imagens. O personagem é um homem branco de barba branca, seu rosto apresenta algumas rugas. Ele veste uma blusa de mangas longas na cor cinza, além de um boné preto e óculos arredondados. O projetor exibe partículas de brilho amarelas e laranjas" width="1800" height="1013" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/11/objectos-de-luz-1.jpeg 1800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/11/objectos-de-luz-1-800x450.jpeg 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/11/objectos-de-luz-1-1024x576.jpeg 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/11/objectos-de-luz-1-768x432.jpeg 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/11/objectos-de-luz-1-1536x864.jpeg 1536w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/11/objectos-de-luz-1-1200x675.jpeg 1200w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 1362px) 62vw, 840px" /><figcaption id="caption-attachment-29157" class="wp-caption-text">Documentando as luzes cinematográficas, Objetos de Luz fez parte da Competição Novos Diretores da 46ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo (Foto: Bando à Parte)</figcaption></figure>
<p><b>Jamily Rigonatto</b></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Para a Física, a luz é uma onda eletromagnética com frequência suficiente para ser visível aos olhos humanos. Em </span><i><span style="font-weight: 400;">Objetos de Luz</span></i><span style="font-weight: 400;">, ela ganha esse e outros milhões de significados incabíveis em definições exatas e numerológicas. No documentário, dirigido por Acácio de Almeida e Maria Carré, a luz é o ponto que amarra o início e o fim. Pertencente à Competição Novos Diretores da 46ª </span><a href="https://personaunesp.com.br/tag/mostra-internacional-de-cinema-em-sao-paulo/"><span style="font-weight: 400;">Mostra Internacional</span></a><span style="font-weight: 400;"> de Cinema em São Paulo, o filme nos dá a certeza de que a luz nos eterniza.</span></p>
<p><span id="more-29154"></span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">O cenário não poderia ser mais metalinguístico: uma produção cinematográfica construída em meio a pilhas e mais pilhas de bobinas de vídeo. Os retroprojetores indicam a que vieram e se tornam protagonistas de uma narrativa singular. </span><a href="https://46.mostra.org/filmes/objetos-de-luz"><i><span style="font-weight: 400;">Objetos de Luz</span></i></a><span style="font-weight: 400;"> é, entre muitas coisas, um filme sobre memória. Lembranças guardadas uma a uma por lentes que captam imagens além do tempo e as sintetizam em maquinários para o futuro.</span></p>
<figure id="attachment_29156" aria-describedby="caption-attachment-29156" style="width: 1570px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="wp-image-29156 size-full" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/11/objectos-de-luz-2.jpg" alt="Cena do filme Objetos de Luz. Na imagem, uma das pessoas do filme em frente a uma tela de cinema. O personagem é um homem branco com cabelos brancos que apresenta algumas rugas. Ele veste uma camisa cinza de mangas longas. Atrás há uma imagem preta e branca do mesmo homem mais jovem" width="1570" height="883" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/11/objectos-de-luz-2.jpg 1570w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/11/objectos-de-luz-2-800x450.jpg 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/11/objectos-de-luz-2-1024x576.jpg 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/11/objectos-de-luz-2-768x432.jpg 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/11/objectos-de-luz-2-1536x864.jpg 1536w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/11/objectos-de-luz-2-1200x675.jpg 1200w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 1362px) 62vw, 840px" /><figcaption id="caption-attachment-29156" class="wp-caption-text">Objetos de Luz ou Objectos de Luz – nome original – é uma obra portuguesa, e a estreia de Maria Carré como diretora (Foto: Bando à Parte)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">A produção ganha uma voz, o Homem da Luz. Enquanto a fotografia – também responsabilidade de </span><a href="https://comunidadeculturaearte.com/entrevista-acacio-de-almeida-em-objectos-de-luz-estao-coisas-do-meu-passado-mas-tambem-esta-o-passado-do-filme/"><span style="font-weight: 400;">Acácio de Almeida</span></a><span style="font-weight: 400;"> – desemboca em uma viagem a múltiplos destinos, o narrador expõe reflexões mais plurais ainda. Assim, a história de </span><i><span style="font-weight: 400;">Objetos de Luz</span></i><span style="font-weight: 400;"> se dedica a esclarecer os intimismos da iluminação. São citados os fótons, as estrelas, os reflexos e tudo que há de teórico na função da luz. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Entretanto, o destaque fica para aquilo que não é teórico, as partes difíceis de mensurar em qualquer conceito pronto. Do dar à luz ao ir para a mesma, a existência humana é atravessada por raios presentes até na formação das imagens a partir da </span><a href="https://personaunesp.com.br/os-olhos-de-tammy-faye-critica/"><span style="font-weight: 400;">visão</span></a><span style="font-weight: 400;">. Os efeitos que transformam nossas vivências em cenas vívidas transgredindo para todos os aspectos de ser humano. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">No </span><a href="https://personaunesp.com.br/cinema-almanac-critica/"><span style="font-weight: 400;">Cinema</span></a><span style="font-weight: 400;">, a luz faz parte do processo da captação da imagem, ilumina os rostos que dão vida aos roteiros e é dimensionada em um objeto que precisa dela para reproduzir o que gravou. Um ciclo capaz de congelar o tempo em imagens incapazes de serem vividas novamente, mas passíveis de serem assistidas infinitas vezes e causar efeitos em todas as histórias que as cruzarem.</span></p>
<figure id="attachment_29158" aria-describedby="caption-attachment-29158" style="width: 1280px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="wp-image-29158 size-full" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/11/objectos-de-luz-3-.jpg" alt="Descrição de imagem: Cena do filme Objetos de Luz. Na imagem, uma das personagens do filme olhando no espelho. Ela é uma mulher branca mais velha, tem cabelos curtos em castanho escuro. A mulher veste um vestido claro com detalhes transparentes. A sua frente há uma imagem dela mais jovem. No reflexo do espelho aparece a figura da morte em vestes pretas." width="1280" height="720" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/11/objectos-de-luz-3-.jpg 1280w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/11/objectos-de-luz-3--800x450.jpg 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/11/objectos-de-luz-3--1024x576.jpg 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/11/objectos-de-luz-3--768x432.jpg 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/11/objectos-de-luz-3--1200x675.jpg 1200w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 1362px) 62vw, 840px" /><figcaption id="caption-attachment-29158" class="wp-caption-text">O filme foi exibido esse ano no Festival de Locarno (Foto: Bando à Parte)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">O longa se dispõe a muitas coisas; com certeza, homenagear o </span><a href="https://www.brasilparalelo.com.br/artigos/por-que-o-cinema-e-a-setima-arte"><span style="font-weight: 400;">Cinema</span></a><span style="font-weight: 400;"> é uma delas. Assim, suas montagens imprimem em imagens cinéticas a capacidade brilhante dos enredos memoriais como um dos mais importantes produtos da luz. Sejam interpretadas ou fruto da espontaneidade, tudo que é gravado e abrigado em um filme ganha uma passagem para a vida eterna. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Mostrar essa fascinação à luminescência das produções audiovisuais retoma uma questão muito pessoal para Acácio de Almeida, já que sua trajetória na fotografia cinematográfica é de longa data. O português tem um histórico vasto em colaborações com diretores como António da Cunha Telles, Paulo Rocha e Rita Azevedo Gomes, e agora traz sua esposa, a atriz </span><a href="https://www.papodecinema.com.br/filmes/a-vinganca-de-uma-mulher/"><span style="font-weight: 400;">Maria Carré</span></a><span style="font-weight: 400;">, à espreita desses holofotes.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">E é essa intimidade que faz </span><i><span style="font-weight: 400;">Objetos de Luz</span></i><span style="font-weight: 400;"> perder a força nos interesses dos telespectadores. A obra é uma ode às contemplações, mas se perde nos subjetivismos de </span><a href="https://novaresearch.unl.pt/en/publications/the-role-of-directors-of-photography-in-cinema-interview-with-aca"><span style="font-weight: 400;">Acácio</span></a><span style="font-weight: 400;">. São precisos poucos minutos para ficar óbvio que o filme é muito mais relevante para ele e seu universo pessoal do que para quem chega de surpresa procurando uma narrativa por passatempo. Dessa forma, nos sentimos de fora, invasores de pensamentos particulares demais.</span></p>
<figure id="attachment_29155" aria-describedby="caption-attachment-29155" style="width: 1024px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="wp-image-29155 size-full" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/11/objectos-de-luz-4.jpg" alt="Cena do filme Objetos de Luz. Na imagem, pequenas partículas de brilho em tons de vermelho e laranja passam por um buraco escuro." width="1024" height="640" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/11/objectos-de-luz-4.jpg 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/11/objectos-de-luz-4-800x500.jpg 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/11/objectos-de-luz-4-768x480.jpg 768w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 1362px) 62vw, 840px" /><figcaption id="caption-attachment-29155" class="wp-caption-text">“O que somos então, em relação à luz?” (Foto: Bando à Parte)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">Sem diálogos corridos e uma disposição temporal lógica, a proposta é incitar algum pensamento – talvez até fazer o público enxergar a luz de novas maneiras. Em cerca de uma hora, o </span><a href="https://personaunesp.com.br/a-noiva-critica/"><span style="font-weight: 400;">documentário</span></a><span style="font-weight: 400;"> esmiúça cada partícula da iluminação em suas singularidades e infinitudes. Aquilo que vemos e o que não, fundidos em imagens colocadas lado a lado. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Não é como se </span><i><span style="font-weight: 400;">Objetos de Luz</span></i><span style="font-weight: 400;"> fosse um filme apaixonante, mas carrega consigo sinceridade e delicadeza. O retrato é sensível e nos coloca para pensar na luz para além das lâmpadas. Seja no nascer ou no </span><a href="https://personaunesp.com.br/eu-era-um-homem-comum-critica/"><span style="font-weight: 400;">morrer</span></a><span style="font-weight: 400;">, nossas vidas não passam de raios luminosos caminhando de um lado a outro na espera de algo que nos torne imortais.</span></p>
<div class="jetpack-video-wrapper"><iframe loading="lazy" title="OBJECTOS DE LUZ | LOVE LIGHTS - TRAILER" src="https://player.vimeo.com/video/706158024?dnt=1&amp;app_id=122963" width="840" height="473" frameborder="0" allow="autoplay; fullscreen; picture-in-picture; clipboard-write"></iframe></div>
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		<title>A morte é corporativa em Plano 75</title>
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		<pubDate>Wed, 02 Nov 2022 21:19:30 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p>Bruno Andrade Em um Japão não muito distante, na tentativa de lidar com o envelhecimento da sociedade e aliviar o sufocamento econômico promovido pela política neoliberal, é criado um programa que encoraja cidadãos idosos a serem voluntários de eutanásia. A política em torno do projeto é simples: encurtar institucionalmente a vida dessas pessoas, oferecendo uma &#8230; <a href="http://personaunesp.com.br/plano-75-critica/" class="more-link">Continue lendo<span class="screen-reader-text"> "A morte é corporativa em Plano 75"</span></a></p>
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										<content:encoded><![CDATA[<figure id="attachment_29118" aria-describedby="caption-attachment-29118" style="width: 1920px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="wp-image-29118 size-full" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/11/plan71-1.jpg" alt="" width="1920" height="1080" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/11/plan71-1.jpg 1920w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/11/plan71-1-800x450.jpg 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/11/plan71-1-1024x576.jpg 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/11/plan71-1-768x432.jpg 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/11/plan71-1-1536x864.jpg 1536w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/11/plan71-1-1200x675.jpg 1200w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 1362px) 62vw, 840px" /><figcaption id="caption-attachment-29118" class="wp-caption-text">Com uma menção especial do prêmio Camera d&#8217;Or na seção Um Certo Olhar do Festival de Cannes, Plano 75 integrou a Competição Novos Diretores da 46ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo (Foto: Loaded Films)</figcaption></figure>
<p><b>Bruno Andrade</b></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Em um Japão não muito distante, na tentativa de lidar com o envelhecimento da sociedade e aliviar o sufocamento econômico promovido pela política neoliberal, é criado um programa que encoraja cidadãos idosos a serem voluntários de eutanásia. A política em torno do projeto é simples: encurtar institucionalmente a vida dessas pessoas, oferecendo uma recompensa de 100 mil ienes pelo sacrifício, que podem ser gastos livremente com o objetivo de fornecer o necessário para um “último desejo”. Esse é o enredo de </span><a href="https://variety.com/2022/film/reviews/plan-75-review-1235403356/"><i><span style="font-weight: 400;">Plano 75</span></i></a><span style="font-weight: 400;"> (<em>Plan 75</em>), a distopia necropolítica dirigida e roteirizada por </span><a href="https://www.festival-cannes.com/en/artist/chie-hayakawa-4"><span style="font-weight: 400;">Chie Hayakawa</span></a><span style="font-weight: 400;">, que integra a Competição Novos Diretores da 46ª </span><a href="https://personaunesp.com.br/tag/mostra-internacional-de-cinema-em-sao-paulo/"><span style="font-weight: 400;">Mostra Internacional</span></a><span style="font-weight: 400;"> de Cinema em São Paulo.</span></p>
<p><span id="more-29117"></span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Submissão do Japão na corrida pelo </span><a href="https://cultura.estadao.com.br/noticias/cinema,oscar-2023-filme-marte-um-vai-representar-o-brasil-na-categoria-melhor-longa-internacional,70004142320"><i><span style="font-weight: 400;">Oscar</span></i><span style="font-weight: 400;"> 2023</span></a><span style="font-weight: 400;">, o filme tem poucos diálogos e longos silêncios, nos quais se revela de forma pungente a maneira a qual os mais velhos têm sido esquecidos em governos neoliberais e suas políticas “jovens”. Em uma das cenas, Michi (Chieko Baisho), uma idosa demitida de seu emprego como camareira de hotel, questiona, ao utilizar um computador compartilhado, o porquê ele não está funcionando. Ao chegar para “ajudá-la”, a funcionária mais jovem, com apenas alguns cliques, diz que “</span><i><span style="font-weight: 400;">está tudo funcionando normalmente</span></i><span style="font-weight: 400;">”, e dá as costas. Sem explicações, Michi pergunta-se: “</span><i><span style="font-weight: 400;">o que estava errado</span></i><span style="font-weight: 400;">?”. Nessa cena, Hayakawa sintetiza toda a força por trás da história: vistos como párias e pesos nessa sociedade distópica – que, como toda distopia, guarda muitas similaridades com a realidade –, não há tempo ou interesse para explicar qualquer mudança social. O ritmo é, simplesmente, outro.</span></p>
<figure id="attachment_29119" aria-describedby="caption-attachment-29119" style="width: 1920px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="wp-image-29119 size-full" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/11/plan71-3.jpg" alt="" width="1920" height="1080" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/11/plan71-3.jpg 1920w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/11/plan71-3-800x450.jpg 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/11/plan71-3-1024x576.jpg 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/11/plan71-3-768x432.jpg 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/11/plan71-3-1536x864.jpg 1536w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/11/plan71-3-1200x675.jpg 1200w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 1362px) 62vw, 840px" /><figcaption id="caption-attachment-29119" class="wp-caption-text">Produzido no Japão, França, Filipinas e Catar, o longa também foi exibido nos festivais de Toronto e Karlovy Vary (Foto: Loaded Films)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">Com respostas sempre hostis aos seus pedidos de ajuda, a personagem entrega-se totalmente à solidão. Sem conseguir encontrar outro emprego, a idosa é seduzida pelo Plano 75, o projeto governamental que recebe pessoas a partir de 75 anos para o </span><a href="https://g1.globo.com/pop-arte/noticia/2022/09/13/jean-luc-godard-recorreu-ao-suicidio-assistido-diz-jornal.ghtml"><span style="font-weight: 400;">suícidio assistido</span></a><span style="font-weight: 400;">. Com o “sucesso” do programa, em pouco tempo idosos de 65 anos também começam a ser aceitos. O roteiro permite entender que, uma vez instaurada, a política de mortes é cada vez mais abrangente, visando conquistar toda a sociedade mais pobre, independentemente da idade. O que se torna evidente na trama de Michi é que ela precisa, na verdade, de companhia e amizade, mas o governo oferece ainda mais isolamento.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">A solidão cortante de </span><i><span style="font-weight: 400;">Plano 75</span></i> <span style="font-weight: 400;">concentra-se nas necropolíticas </span><a href="https://autonomialiteraria.com.br/loja/teoria-politica/realismo-capitalista/"><span style="font-weight: 400;">neoliberais</span></a><span style="font-weight: 400;">, em que a morte e a vida tornam-se, elas próprias, objetos de mercadoria e privatização. Com inscrições apenas presencialmente e via telefone, com atendimento 24 horas por dia, sete dias por semana – já que os idosos encontram dificuldades em inscrições pelo computador –, o projeto revela uma cultura mobilizada em empurrar corporativamente a morte aos indivíduos mais pobres, visto que esse esforço para atender suas solicitações de encerramento da vida não chega nem perto das integrações tecnológicas promovidas pelo Estado.</span></p>
<figure id="attachment_29120" aria-describedby="caption-attachment-29120" style="width: 990px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="wp-image-29120 size-full" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/11/Chie-Hayakawa-2.jpeg" alt="" width="990" height="660" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/11/Chie-Hayakawa-2.jpeg 990w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/11/Chie-Hayakawa-2-800x533.jpeg 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/11/Chie-Hayakawa-2-768x512.jpeg 768w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 1362px) 62vw, 840px" /><figcaption id="caption-attachment-29120" class="wp-caption-text">Plano 75 é o primeiro longa-metragem da japonesa Chie Hayakawa (Foto: Julie Sebadelha/AFP)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">Essa necropolítica também foi explorada recentemente em </span><a href="https://www.omelete.com.br/hbo-max/tokyo-vice-segunda-temporada-hbo-max"><i><span style="font-weight: 400;">Tokyo Vice</span></i></a> <span style="font-weight: 400;">(2022), série do </span><i><span style="font-weight: 400;">HBO</span></i> <i><span style="font-weight: 400;">Max </span></i><span style="font-weight: 400;">baseada no livro </span><a href="https://www.companhiadasletras.com.br/livro/9788535918472/toquio-proibida"><i><span style="font-weight: 400;">Tóquio Proibida</span></i></a> <span style="font-weight: 400;">(2009), do jornalista investigativo Jake Adelstein. O que parece ser uma diferença nas duas obras na verdade aponta para uma realidade incômoda entre elas. Enquanto </span><i><span style="font-weight: 400;">Tokyo Vice</span></i><span style="font-weight: 400;"> trata da investigação acerca dos suicídios de idosos nas ruas da capital do Japão, e a ligação dessas mortes com a Yakuza (a fim de proteger a família, os idosos se matam para pagar, com o seguro de vida, as dívidas que a máfia construiu com os juros, descobrindo-se posteriormente que, pelo valor pago, o seguro de vida desses idosos sempre foi o foco dos </span><i><span style="font-weight: 400;">gangsters</span></i><span style="font-weight: 400;">)</span><span style="font-weight: 400;">, </span><i><span style="font-weight: 400;">Plano 75</span></i><span style="font-weight: 400;"> aponta para as políticas públicas que têm o mesmo objetivo da máfia japonesa: exterminar os idosos, cujo movimento compartilha de forma similar obter os mesmos fins econômicos.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Por isso grande parte do enredo de </span><i><span style="font-weight: 400;">Plano 75</span></i><span style="font-weight: 400;"> consiste na representação da frieza dos sistemas corporativistas. Chie Hayakawa evita o sentimentalismo no roteiro, e reflete as personagens como simples </span><a href="https://personaunesp.com.br/jamais-o-fogo-nunca-critica/"><span style="font-weight: 400;">corpos em dominação</span></a><span style="font-weight: 400;">. Há outras duas histórias paralelas às de Michi: a de Hiromi (Hayato Isomura), um funcionário do programa que oficializa os contratos com os idosos e se vê atingido pessoalmente quando seu tio inscreve-se no Plano 75 – alimentando sua autoconsciência de que o abandonou quando chegou à vida adulta –, e Maria (Stefanie Arianne), uma imigrante filipina que trabalha efetivamente no necrotério dos idosos.</span></p>
<figure id="attachment_29121" aria-describedby="caption-attachment-29121" style="width: 1920px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="wp-image-29121 size-full" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/11/plan71-54.jpg" alt="" width="1920" height="1080" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/11/plan71-54.jpg 1920w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/11/plan71-54-800x450.jpg 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/11/plan71-54-1024x576.jpg 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/11/plan71-54-768x432.jpg 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/11/plan71-54-1536x864.jpg 1536w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/11/plan71-54-1200x675.jpg 1200w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 1362px) 62vw, 840px" /><figcaption id="caption-attachment-29121" class="wp-caption-text">Embora Plano 75 pareça ser sobre o envelhecimento, na verdade alerta para a importância da comunidade (Foto: Loaded Films)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">Ainda assim, é a relação entre Michi e Yoko (Yuumi Kawai), uma das telefonistas de atendimento ao programa, que estabelece a possível moral do longa de 105 minutos. Preservando um diálogo constante com Yoko, visto que as telefonistas mantém o contato frequente com os interessados até a consolidação das mortes, Michi – sem filhos ou parentes, e que encontra sua única amiga, também idosa, morta na cozinha de casa – sugere que as duas se conheçam pessoalmente. Ela é informada que clientes e funcionários não têm permissão para isso, na tentativa de evitar que se </span><a href="https://personaunesp.com.br/madeira-e-agua-critica/"><span style="font-weight: 400;">apeguem emocionalmente</span></a><span style="font-weight: 400;"> ou, pior, que os idosos mudem de ideia sobre a eutanásia.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Apesar da resistência, próximo ao fim do filme, Yoko, que sempre foi uma ouvinte disposta a realmente escutar as infinitas histórias de Michi, se encontra com ela. Michi entrega todo o dinheiro que recebeu, e diz que esse foi seu “</span><i><span style="font-weight: 400;">último desejo</span></i><span style="font-weight: 400;">”. Os encontros hiper controlados e cronometrados entre a idosa e a representante normalmente impassível do Estado e da própria morte – que, sob o contexto do filme, são a mesma coisa – dão lugar a uma felicidade genuína, embora pouco duradoura. Alertando para a </span><a href="https://www1.folha.uol.com.br/ilustrada/2022/05/triangle-of-sadness-de-ruben-ostlund-vence-a-palma-de-ouro-em-cannes.shtml"><span style="font-weight: 400;">importância da comunidade</span></a><span style="font-weight: 400;"> – mais do que para as políticas de extermínio dos governos –, </span><i><span style="font-weight: 400;">Plano 75</span></i><span style="font-weight: 400;"> mostra que, a despeito de Michi desistir da eutanásia ou não, sempre será tarde demais para ela; todas as coisas não ditas entre gerações, agora, foram institucionalizadas.</span></p>
<div class="jetpack-video-wrapper"><iframe loading="lazy" title="‘Plan 75’: first trailer for Japanese Cannes Un Certain Regard title" width="840" height="473" src="https://www.youtube.com/embed/12tjqwfuzDg?feature=oembed" frameborder="0" allow="accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share" referrerpolicy="strict-origin-when-cross-origin" allowfullscreen></iframe></div>
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