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	<title>Arquivos Literatura Inglesa &#8211; Persona | Jornalismo Cultural</title>
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	<description>Desde 2015 provando que a distância entre Bergman, Lady Gaga e a novela das 9 nem existe.</description>
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		<title>Klara e o Sol: quando a sensibilidade de um robô supera a nossa</title>
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		<pubDate>Mon, 19 Apr 2021 14:16:14 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p>Isabella Siqueira Apesar dos ares de preconceito que rodeiam o novo livro de Kazuo Ishiguro, é preciso olhar para Klara e o Sol com a mente aberta. O célebre autor, vencedor do Nobel de Literatura em 2017, lançou neste ano seu oitavo romance, que chegou ao Brasil pela editora Companhia das Letras. O escritor, que &#8230; <a href="http://personaunesp.com.br/klara-e-o-sol-critica/" class="more-link">Continue lendo<span class="screen-reader-text"> "Klara e o Sol: quando a sensibilidade de um robô supera a nossa"</span></a></p>
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										<content:encoded><![CDATA[<figure id="attachment_19820" aria-describedby="caption-attachment-19820" style="width: 438px" class="wp-caption alignnone"><img fetchpriority="high" decoding="async" class="size-full wp-image-19820" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/04/9786559210237_gg.jpg" alt="Capa do livro Klara e o Sol. O fundo é laranja, o desenho situado no centro é composto por um borrado dourado em cima, um borrão preto embaixo e um círculo falhado em linhas finas pretas no centro. Na parte inferior está o título em branco, e embaixo o símbolo e nome da editora, o nome do autor “Kazuo Ishiguro” em branco consta na parte de acima. " width="438" height="650" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/04/9786559210237_gg.jpg 438w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/04/9786559210237_gg-202x300.jpg 202w" sizes="(max-width: 438px) 85vw, 438px" /><figcaption id="caption-attachment-19820" class="wp-caption-text">A obra é o oitavo romance do autor britânico de origem japonesa (Foto: Reprodução)</figcaption></figure>
<p><strong>Isabella Siqueira</strong></p>
<p>Apesar dos ares de preconceito que rodeiam o novo livro de <a href="https://brasil.elpais.com/brasil/2017/10/05/cultura/1507187608_482902.html">Kazuo Ishiguro</a>, é preciso olhar para <i>Klara e o Sol</i> com a mente aberta. O célebre autor, vencedor do <a href="https://www.publico.pt/2017/10/05/culturaipsilon/noticia/e-o-nobel-regressou-ao-romance-1787865"><i>Nobel</i> de Literatura</a> em 2017, lançou neste ano seu oitavo romance, que chegou ao Brasil pela editora <a href="http://personaunesp.com.br/apague-a-luz-se-for-chorar-critica/"><i>Companhia das Letras</i></a>. O escritor, que muitas vezes teve seu mérito questionado, desenvolve uma trama que é pobre quando se pesa apenas a qualidade da ficção científica, mas satisfatória quando observada através da lente sentimental.</p>
<p><span id="more-19819"></span></p>
<p>Após a consagração do cantor americano <a href="http://g1.globo.com/pop-arte/noticia/2016/10/nobel-para-bob-dylan-e-polemico-o-que-define-alguem-como-escritor.html">Bob Dylan</a>, que ganhou o <a href="https://www.rtp.pt/noticias/cultura/kazuo-ishiguro-e-um-autor-de-merito-que-nao-destacaria-editor-francisco-vale_n1031646"><i>Nobel</i></a> um ano antes de Ishiguro, o escritor britânico foi visto somente como uma opção segura depois da escolha polêmica. Mas, para julgar com clareza sua nova obra, é necessário esquecer qualquer questionamento sobre a qualidade de sua obra. E, mesmo que tenha sido referenciado pela <a href="https://www1.folha.uol.com.br/ilustrada/2021/03/klara-e-o-sol-e-indefensavel-para-um-ganhador-do-nobel.shtml">crítica</a> como um livro indigno de um ganhador do maior prêmio de literatura, <i>Klara e o Sol</i> é um bom romance sobre a complexidade das emoções humanas e de suas criações tecnológicas.</p>
<p>Klara, uma espécie de robô humanoide, é uma AA (Amiga Artificial) que inicia a trama já demonstrando muita sensibilidade e percepção sobre tudo à sua volta, se destacando assim entre os outros AA&#8217;s. A obra, que é dividida em cinco partes, começa numa loja onde a personagem se encontra observando atentamente o Sol, essa relação especial é referenciada ao longo da história, ficando claro que apesar da inteligência superior, ela tem ideias ingênuas sobre as propriedades da estrela.</p>
<figure id="attachment_19821" aria-describedby="caption-attachment-19821" style="width: 329px" class="wp-caption alignnone"><img decoding="async" class="size-full wp-image-19821" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/04/41L0svyb0sL._SX327_BO1204203200_.jpg" alt="A tradução da obra no Brasil foi realizada por Ana Guadalupe (Foto: Reprodução) Descrição: Capa estrangeira do livro Klara e o Sol. O livro é vermelho médio, ele possui uma estampa de uma mão com um sol no centro. O nome do autor está na parte de baixo em preto." width="329" height="499" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/04/41L0svyb0sL._SX327_BO1204203200_.jpg 329w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/04/41L0svyb0sL._SX327_BO1204203200_-198x300.jpg 198w" sizes="(max-width: 329px) 85vw, 329px" /><figcaption id="caption-attachment-19821" class="wp-caption-text">A tradução da obra no Brasil foi realizada por Ana Guadalupe (Foto: Reprodução)</figcaption></figure>
<p>Esse começo serve apenas para situar o jeito de pensar e as características de Klara. Em nenhum momento o autor explicita quais são as condições em que ela foi criada, todo esse universo decadente é deixado às sombras. Mas, tudo bem, já que o real sentido da narrativa de Ishiguro não é desenvolver um <a href="https://www.omelete.com.br/duna/duna-influencia-ficcao-cientifica"><i>Duna</i></a> da vida, e sim voltar com os temas em comuns de suas outras obras, como <a href="https://www.bonashistorias.com.br/single-post/2020/02/16/livros-os-vestigios-do-dia-o-principal-romance-de-kazuo-ishiguro"><i>Vestígios do Dia</i></a> e <a href="http://www.achadoselidos.com.br/2017/12/13/resenha-nao-me-abandone-jamais/"><i>Não Me Abandone Jamais</i></a>. A praia do autor é na verdade falar sobre sentimentos, seja na véspera da Segunda Guerra ou num futuro onde a tecnologia controla o DNA das pessoas.</p>
<p>É nessa premissa absurda que uma robô como Klara se fez tão precisa no futuro triste de Ishiguro. Crianças superiores e solitárias são o único fruto de um mundo onde é possível modificar a genética ao gosto dos humanos. Um Amigo Artificial não passa de uma companhia cara e de alta tecnologia, são máquinas criadas para ensinar, ajudar e curar a solidão de jovens modificados. Mas, apesar de ser exaltada apenas pela sua evolução, semelhante a um celular de última geração, a protagonista da história é tão <a href="https://www.finisgeekis.com/2021/03/31/klara-e-o-sol-as-maquinas-podem-nos-reensinar-a-ser-humanos/">empática e justa</a> quanto uma pessoa real, e por sua personalidade sensível é fácil gostar de Klara e desgostar dos que a rodeiam.</p>
<p>Infelizmente, o autor desenvolve apenas Klara, e os demais personagens não passam de um apoio para as reflexões da AA. Após ser escolhida como companhia de Josie, uma pré-adolescente com problemas médicos misteriosos, a protagonista se envolve em <a href="https://www.nytimes.com/2021/02/23/books/review/klara-and-the-sun-kazuo-ishiguro.html">complexas relações</a> que não encontram suas expectativas dos tempos em que estava na loja. Sua única outra relação que é um pouco mais profunda é com a Mãe e Rick, amigo e namoradinho da infância da menina.</p>
<figure id="attachment_19822" aria-describedby="caption-attachment-19822" style="width: 496px" class="wp-caption alignnone"><img decoding="async" class="size-full wp-image-19822" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/04/ishiguro-15228-portrait-medium.jpg" alt="Foto do escritor Kazuo Ishiguro. Ele é um homem ásiatico com cabelos brancos e olhos castanhos, ele usa um óculos fino, veste um terno preto com uma gravata azul. O fundo atrás do autor é azul escuro. " width="496" height="744" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/04/ishiguro-15228-portrait-medium.jpg 496w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/04/ishiguro-15228-portrait-medium-200x300.jpg 200w" sizes="(max-width: 496px) 85vw, 496px" /><figcaption id="caption-attachment-19822" class="wp-caption-text">Klara e o Sol é similar ao livro Não Me Abandone Jamais, obra que também explora o gênero de ficção científica (Foto: Reprodução)</figcaption></figure>
<p>O interesse da protagonista pelas relações que acontecem à sua volta, Josie com sua mãe e Rick, é o assunto principal da trama, que não descreve muito a tecnologia envolvida, mas sim suas consequências diretas. Com muita sutileza, Ishiguro dá pistas sobre a real entrada de Klara na família, e todas as possibilidades que sua personalidade perceptiva oferecem num mundo onde as relações são rasas e descartáveis. Mas, o que o autor deixa claro é que, apesar do esforço e sucesso da personagem em demonstrar emoções apesar de seu corpo artificial, existe algo de único em cada ser humano, e que jamais será substituível.</p>
<p>Mesmo que o autor cite constantemente que a forma de Klara ver o mundo, é completamente diferente da de um Transeunte, já que ela coloca tudo em <a href="https://www.vulture.com/article/review-klara-and-the-sun-kazuo-ishiguro.html">caixinhas</a> como se fosse o processamento de uma imagem, é essa visão única que dá à personagem certa ingenuidade. Com o passar do <a href="https://www.theguardian.com/books/2021/mar/01/klara-and-the-sun-by-kazuo-ishiguro-review-another-masterpiece">livro</a>, ela cria uma tese de que o Sol é capaz de poderes absurdos e curativos, visto que enxerga os acontecimentos sem tanta lógica quanto deveria. E, mesmo que a base dela esteja correta, pois o Sol é a fonte de energia de todas as coisas vivas, tal obsessão a faz imaginar que o astro é capaz do impossível.</p>
<p>Ainda sobre o universo não explorado de Ishiguro, o sistema de classes em vigor é interessante, mas simplista até demais. A divisão criada entre as crianças levantadas, termo usado para os bebês que foram modificados geneticamente, e as que os pais não tiveram a coragem de impor tais mudanças é explorada no contexto de riqueza e pobreza. Fica claro que a desvantagem social dos jovens que foram levantados é compensada por ganhos financeiros, oportunidades e uma vida sem preconceito. Apesar da ideia ser um tanto básica, funciona para o contexto da obra, que não aprofunda esse sistema injusto de divisão baseado em uma escolha drástica feita no nascimento de cada indivíduo.</p>
<figure id="attachment_19825" aria-describedby="caption-attachment-19825" style="width: 887px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-full wp-image-19825" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/04/Kazuo_Ishiguro_in_Stockholm_2017_07.jpg" alt="Foto do escritor Kazuo Ishiguro. Ele é um homem ásiatico com cabelos brancos e olhos castanhos, ele usa um óculos fino, veste um terno preto com uma gravata listrada. O fundo atrás do autor é desfocado." width="887" height="1000" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/04/Kazuo_Ishiguro_in_Stockholm_2017_07.jpg 887w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/04/Kazuo_Ishiguro_in_Stockholm_2017_07-266x300.jpg 266w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/04/Kazuo_Ishiguro_in_Stockholm_2017_07-768x866.jpg 768w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 1362px) 62vw, 840px" /><figcaption id="caption-attachment-19825" class="wp-caption-text">O livro é o primeiro trabalho do autor após ter ganhado o Nobel em 2017 (Foto: Reprodução)</figcaption></figure>
<p>A premissa de <i>Klara e o Sol </i>é vaga, assim como o futuro que o autor nipo-britânico propõe. Mas, observando sem preconceitos anteriores, o livro não merece críticas exageradas. Baseando-se em uma ideia onde qualquer <a href="https://expresso.pt/cultura/2021-03-21-O-coracao-humano-na-ficcao-cientifica-de-Kazuo-Ishiguro-e49147a8">relação ou comportamento</a> pode ser facilmente reproduzido pela tecnologia, e de que não existe nada de especial sobre cada pessoa, <a href="https://cultura.estadao.com.br/noticias/literatura,kazuo-ishiguro-declara-que-fantasia-e-realidade-se-relacionam-bem,70003631289">Kazuo Ishiguro</a> conduz com muita graça a <a href="https://www.publico.pt/2021/03/03/culturaipsilon/noticia/klara-vai-ficar-connosco-1952764">trajetória de uma humanoide</a> mais humana do que muitos por aí sonham em ser.</p>
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		<title>Garota, Mulher, Outras e a sonoridade de cada pessoa</title>
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		<pubDate>Tue, 06 Apr 2021 14:20:14 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p>Isabella Siqueira A partir de uma narrativa quase poética e única, Garota, Mulher, Outras já pode (e deve) ser considerado um clássico da literatura britânica. Sua autora, Bernardine Evaristo, traça com cuidado as histórias de 12 protagonistas diferentes, que são ligadas por um fio condutor que compreende todo o século XX no Reino Unido. Indo além &#8230; <a href="http://personaunesp.com.br/garota-mulher-outras-critica/" class="more-link">Continue lendo<span class="screen-reader-text"> "Garota, Mulher, Outras e a sonoridade de cada pessoa"</span></a></p>
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										<content:encoded><![CDATA[<figure id="attachment_19611" aria-describedby="caption-attachment-19611" style="width: 550px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="wp-image-19611" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/04/91UMqMH8NsL-683x1024.jpg" alt="Capa do livro Garota, Mulher, Outras. A capa do livro apresenta um desenho de uma mulher negra que veste uma roupa preta e cinza estampada com flores e plantas. A mulher possui olhos pretos e cabelos pretos curtos, e usa ainda um brinco de pérola. O título do livro está no canto inferior direito em branco, e o nome da autora, Bernardine Evaristo, está na cor verde água. O cenário atrás da mulher é uma parede verde com estampa de folhas, e uma moldura de quadro. O selo da editora, Companhia das Letras, está em escritos brancos no canto superior esquerdo. " width="550" height="824" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/04/91UMqMH8NsL-683x1024.jpg 683w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/04/91UMqMH8NsL-200x300.jpg 200w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/04/91UMqMH8NsL-768x1152.jpg 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/04/91UMqMH8NsL-1024x1536.jpg 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/04/91UMqMH8NsL-1366x2048.jpg 1366w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/04/91UMqMH8NsL-1200x1799.jpg 1200w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/04/91UMqMH8NsL.jpg 1654w" sizes="auto, (max-width: 550px) 85vw, 550px" /><figcaption id="caption-attachment-19611" class="wp-caption-text">Garota, Mulher, Outras foi trazido ao Brasil pela Companhia das Letras com a cuidadosa tradução de Camila Von Holdefer (Foto: Reprodução)</figcaption></figure>
<p><b>Isabella Siqueira</b></p>
<p>A partir de uma narrativa quase poética e única, <i>Garota, Mulher, Outras</i> já pode (e deve) ser considerado um clássico da literatura britânica. Sua autora, <a href="https://brasil.elpais.com/babelia/2020-06-12/bernardine-evaristo-o-black-lives-matter-e-o-metoo-ja-mudaram-a-sociedade.html">Bernardine Evaristo</a>, traça com cuidado as histórias de 12 protagonistas diferentes, que são ligadas por um fio condutor que compreende todo o século XX no Reino Unido. Indo além da riqueza de referências culturais, políticas e sociais que a obra apresenta, é no âmbito sentimental que a trama floresce.</p>
<p><span id="more-19610"></span></p>
<p>O livro vencedor do <a href="https://www.publishnews.com.br/materias/2019/10/15/sem-conseguir-decidir-juri-do-booker-prize-escolhe-duas-ganhadoras"><i>Booker Prize</i></a> de 2019, e que consagrou Evaristo como a primeira e única mulher negra a ser contemplada com o prêmio, entrega uma envolvente trama sobre pluralidade. Nomes como <a href="https://www.thebookseller.com/news/barack-obama-hails-girl-woman-other-and-normal-people-his-favourite-books-2019-1144076">Barack Obama</a> e <a href="https://lithub.com/roxane-gays-favorite-book-of-2019-was-girl-woman-other/">Roxane Gray</a> já fizeram referência a obra, que contempla sob uma nova ótica assuntos como sexualidade, classe, racismo e opressão.</p>
<p>Lançado no Brasil em 2020, <a href="https://www.companhiadasletras.com.br/detalhe.php?codigo=14850"><i>Garota, Mulher, Outras</i></a> tem uma divisão marcada em 5 partes &#8211; as quatro primeiras focadas nas <a href="https://www.otempo.com.br/diversao/garota-mulher-outras-de-autora-que-vem-a-flip-reflete-bem-a-atualidade-1.2413604">12 protagonistas</a> centrais e a quinta parte consistindo no último evento que relaciona todas as histórias &#8211; se descobre que cada relato é possivelmente mais interessante que o anterior. Assim, talvez, o único defeito da obra esteja no próprio leitor, que em muitos momentos espera algumas páginas a mais de cada história, uma continuação do envolvente retrato apresentado.</p>
<figure id="attachment_19612" aria-describedby="caption-attachment-19612" style="width: 1240px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-full wp-image-19612" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/04/bernardine-1240x698-1.jpg" alt="Foto da autora Bernardine Evaristo. A autora é uma mulher negra, com cabelos castanhos crespos médios, ela utiliza no cabelo uma tiara estampada e brincos de argola prateados. Ela veste um blazer pink, uma camisa branca e uma gravata frouxa preta O cenário atrás contém muitas pessoas em desfoque." width="1240" height="698" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/04/bernardine-1240x698-1.jpg 1240w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/04/bernardine-1240x698-1-300x169.jpg 300w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/04/bernardine-1240x698-1-1024x576.jpg 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/04/bernardine-1240x698-1-768x432.jpg 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/04/bernardine-1240x698-1-1200x675.jpg 1200w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 1362px) 62vw, 840px" /><figcaption id="caption-attachment-19612" class="wp-caption-text">Em 2019, Bernardine dividiu o prêmio Booker Prize com a autora canadense Margaret Atwood, premiada pelo livro Os Testamentos (Foto: Reprodução)</figcaption></figure>
<p>Ainda, a <a href="https://afroliteraria.com.br/garota-mulher-outras-uma-obra-unica-e-plural/">narrativa</a> brilhante da autora não ajuda. O aspecto fluído, composto por versos livres, curtos, sem letras maiúsculas ou ponto final, dão um ar poético à obra, sendo difícil não recitar algumas passagens mais emotivas. <a href="https://cultura.estadao.com.br/noticias/literatura,garota-mulher-outras-traz-uma-escrita-engenhosa-sobre-raca-identidade-e-sexualidade,70003477139"><i>Garota, Mulher, Outras</i></a> possui uma sonoridade própria mesmo sem rimas, tornando memoráveis até as cenas mais incômodas, como as de tortura piscologica e abusos sexuais, sem a necessidade de descrições diretas. De início, é até difícil situar quando está acontecendo um diálogo ou não, dado que a autora navega entre os dois sem deixar claro, o que produz o tipo de livro que exige, muitas vezes, uma segunda leitura.</p>
<p>Também é perceptível em sua escrita, como ela interpreta a vivência, personalidade e classe social da personagem sem a necessidade de uma narrativa em primeira pessoa, por meio de expressões, sotaque estrangeiro e gírias. A exemplo da parte de Yazz, representada pelo tom moderno da jovem que vive no mundo das <i>hashtags</i> e de expressões como <i>Squad</i>, ao invés de grupo de amigas.</p>
<p>Ou, até, quando é possível diferenciar o discurso otimista de LaTisha, personagem que brinca até em momentos traumáticos, em comparação com a narrativa séria de Carole, que adquiriu aos poucos o tom formal do seu novo círculo social durante a faculdade, e acaba negando os costumes nigerianos da mãe, Bummi. Nota-se também o cuidado da autora <a href="https://www.blogdacompanhia.com.br/conteudos/visualizar/A-experiencia-de-traduzir-e-ler-Bernardine-Evaristo">(e da tradutora)</a> em utilizar <a href="https://medium.com/@pedrosttv/sistema-elu-linguagem-neutra-em-g%C3%A9nero-pt-pt-9529ed3885cf">pronomes adequados</a> ao escrever a narrativa da <i>twitteira </i>e <i>influencer</i> Morgan, que foi criade como menina, mas que se identifica com <a href="https://revistamarieclaire.globo.com/Comportamento/noticia/2020/12/lingua-para-todes-um-ensaio-sobre-o-genero-neutro.html">gênero neutro</a> a alguns anos.</p>
<blockquote><p><i>“Megan decidiu testar Elu e Delu, o mais importante pra mim é que eu sei como me sinto, e um dia o resto do mundo vai poder me alcançar, mesmo que seja uma revolução silenciosa e mais longa que minha vida, se é que vai acontecer.”</i></p></blockquote>
<p>O estilo único da narrativa de Evaristo encaixa perfeitamente com as histórias contadas, a diversidade de experiências apresentadas casa com a semelhança entre todas as personagens. Se propondo a trazer 11 mulheres, em sua maioria negras, e uma pessoa não binárie, mesmo que separadas pela geração ou pelo espaço, é impossível negar que todas são ligadas pela independência.</p>
<p>Com idades variando entre a protagonista mais jovem, Yazz, de 19 anos, e a mais velha, Hattie, de 93 anos, cada personagem se recusa a ser subjugada pelo ambiente hostil em que vive, seja na Inglaterra, Nigéria e Barbados, sendo elas imigrantes ou filhas de imigrantes. A pluralidade de histórias forma uma conversa entre gerações, a trama traz aos poucos como a opressão, a <a href="https://www.brasildefato.com.br/2020/01/31/brexit-muda-as-relacoes-pessoais-e-imigrantes-relatam-incertezas">imigração</a> e a estrutura da sociedade ajudou a formar uma nova realidade, um novo Reino Unido, para cada uma delas.</p>
<p>Embora as temáticas abordadas deem a impressão de uma trama forte sobre militância social, a autora opta por não transformar cada protagonista em apenas uma voz de um discurso comum. Questões de raça, classe e sexualidade são levantadas no romance sem qualquer pretensão panfletária. Ainda com um humor refinado, Evaristo ironiza, mas sem desrespeitar, os grupos militantes, que hoje estão em tantas subdivisões que fica até difícil acompanhar.</p>
<blockquote><p><i>“As feministas radicais queriam alojamentos só de mulheres, autogeridos por uma cooperativa</i></p>
<p><i>As feministas radicais lésbicas queriam alojamentos separados das feministas radicais não lésbicas, também autogeridos por uma cooperativa</i></p>
<p><i>As feministas radicais lésbicas e negras queriam a mesma coisa, mas que nenhum branquelo de qualquer gênero entrasse lá”</i></p></blockquote>
<p>Ainda que aborde assuntos que não são novos para a <a href="https://personaunesp.com.br/serie-napolitana-critica/">literatura contemporânea</a>, mas que são inovadores tendo em vista os anos de antiquados romances clássicos, Evaristo dá um passo além. Ousando levantar pautas ainda não muito exploradas até para os mais progressistas, como no capítulo sufocante de Dominique, que aborda desde o início um relacionamento abusivo e a violência entre um casal homoafetivo, tendo como pano de fundo uma curiosa comunidade de mulheres nos Estados Unidos.</p>
<p>Em diversos momentos, as personagens se questionam sobre suas atitudes e posicionamentos, o que é feminista o bastante ou o que não é &#8211; cada uma com apenas o espaço e tempo em que está inserida para guiar suas decisões. Indo de mulheres que desde jovens foram iniciadas em um contexto empoderado, até outras que viveram o conflito familiar gerado pela diferença de décadas, é muito insensível julgar as atitudes de cada protagonista, analisando <a href="https://quatrocincoum.folha.uol.com.br/br/resenhas/literatura/estar-juntas"><i>Garota, Mulher, Outras</i></a> sob uma ótica unificada do que é ser mulher.</p>
<figure id="attachment_19613" aria-describedby="caption-attachment-19613" style="width: 532px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="wp-image-19613" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/04/81BBjotEQHL-667x1024.jpg" alt="Capa da edição em inglês do livro. A capa é amarela, com uma mulher negra desenhada, ela está de perfil e utiliza um lenço no cabelo, que é estampado com as cores: vermelho, azul e rosa claro. O título do livro e o nome da autora estão em letras brancas ao centro da capa. E o símbolo da editora, Penguin, está no canto inferior direito. " width="532" height="817" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/04/81BBjotEQHL-667x1024.jpg 667w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/04/81BBjotEQHL-195x300.jpg 195w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/04/81BBjotEQHL-768x1179.jpg 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/04/81BBjotEQHL-1001x1536.jpg 1001w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/04/81BBjotEQHL-1334x2048.jpg 1334w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/04/81BBjotEQHL-1200x1842.jpg 1200w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/04/81BBjotEQHL.jpg 1668w" sizes="auto, (max-width: 532px) 85vw, 532px" /><figcaption id="caption-attachment-19613" class="wp-caption-text">Edição em inglês do livro, publicada pela Penguin (Foto: Reprodução)</figcaption></figure>
<p>Com o passar da obra, fica claro que o laço que relaciona cada conjunto de histórias é de amizade ou familiar, a autora dá ênfase em relacionamentos entre amigas e mães e filhas. O próximo relato tem origem no anterior, a perspectiva que precede a outra é questionada em razão da nova, e cada história encontra dois lados.</p>
<p>Apesar de mostrar experiências traumáticas e se concentrar em personagens cujas vidas não foram confortáveis, <a href="https://oglobo.globo.com/cultura/trump-a-ultima-pessoa-que-leria-meu-livro-diz-bernardine-evaristo-atracao-da-flip-virtual-24771987">Bernardine Evaristo</a> não se concentra no horror e na miséria. Muito pelo contrário, o que sua obra deixa é a singularidade de cada personagem, e como ela consegue com muita sutileza relacionar cada narrativa. O cuidado e respeito caracterizam <i>Garota, Mulher, Outras</i>, a oitava obra da escritora anglo-nigeriana, que se tornou um fenômeno editorial por sua coragem e sensibilidade extrema.</p>
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		<title>Há 15 anos, o clássico de Jane Austen estreava no cinema com orgulho, mas sem preconceito</title>
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		<pubDate>Wed, 11 Nov 2020 14:22:46 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p>“É estranho pensar que todas as grandes mulheres da ficção tenham sido, até o advento de Jane Austen, não só retratadas pelo outro sexo, mas apenas de acordo com sua relação com o outro sexo&#8221;.   (Virginia Woolf) Vanessa Marques Orgulho e Preconceito (2005), dirigido por Joe Wright, é a adaptação para o cinema da obra &#8230; <a href="http://personaunesp.com.br/orgulho-e-preconceito-15-anos/" class="more-link">Continue lendo<span class="screen-reader-text"> "Há 15 anos, o clássico de Jane Austen estreava no cinema com orgulho, mas sem preconceito"</span></a></p>
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										<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: right;"><i>“É estranho pensar que todas as grandes mulheres da ficção tenham sido, até o advento de Jane Austen, não só retratadas pelo outro sexo, mas apenas de acordo com sua relação com o outro sexo&#8221;. </i><i>  (Virginia Woolf)</i></p>
<figure id="attachment_16615" aria-describedby="caption-attachment-16615" style="width: 1600px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="wp-image-16615 size-full" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2020/11/prideandprejudice_97.jpg" alt="Na foto vemos cinco mulheres numa sala, com a protagonista, Elizabeth Bennet, na frente " width="1600" height="1047" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2020/11/prideandprejudice_97.jpg 1600w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2020/11/prideandprejudice_97-300x196.jpg 300w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2020/11/prideandprejudice_97-1024x670.jpg 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2020/11/prideandprejudice_97-768x503.jpg 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2020/11/prideandprejudice_97-1536x1005.jpg 1536w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2020/11/prideandprejudice_97-1200x785.jpg 1200w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 1362px) 62vw, 840px" /><figcaption id="caption-attachment-16615" class="wp-caption-text">Da esquerda para a direita: Kitty, Sra. Bennet, Elizabeth, Lydia, Jane e Mary, ao fundo (Foto: Reprodução)</figcaption></figure>
<p><strong>Vanessa Marques</strong></p>
<p><i>Orgulho e Preconceito</i> (2005), dirigido por Joe Wright, é a adaptação para o cinema da obra famosa de Jane Austen. Sob uma capa de aparente inocência, a trama retrata os costumes rígidos e patriarcais da aristocracia rural inglesa do século 19. Estrelado por Keira Knightley (Elizabeth Bennet) e Matthew Macfadyen (Darcy), o longa-metragem, que retornou ao catálogo da <i>Netflix</i> em seu ano de debutante, mergulha o espectador numa estética delicada e sensorial, fruto da tríade indicada ao <i>Oscar</i> — produção, direção de arte e trilha sonora.</p>
<p><span id="more-16611"></span></p>
<p>A família Bennet, composta de cinco irmãs e nenhum filho homem, vive o desprazer de não possuir um herdeiro legítimo, visto que a mulher, pela Lei do Morgadio, não desfrutava do direito à herança. Nesse sentido, o casamento era a única fonte de segurança financeira e estabilidade, de modo que a matriarca Sra. Bennet (Brenda Blethyn) aspira casar suas filhas com rapazes abastados. Assim, a notícia da fixação temporária de Charles Bingley (Simon Woods), homem de posses e solteiro, numa propriedade vizinha aos Bennet, traz certa agitação para a vida pacata da família.</p>
<p>Durante os bailes e demais protocolos sociais, a ingênua Jane Bennet  (Rosamund Pike) captura a afeição imediata do novo morador de Netherfield Park. Na companhia de Bingley, o Sr. Darcy, embora mais endinheirado que o amigo, demonstra uma natureza taciturna e reservada. A primeira aparição do protagonista dá-lhe uma feição excessivamente<i> blasé</i> e arrogante. Logo, a relação dele com Elizabeth, oriunda de uma condição menos privilegiada, nasce entre diversas turbulências, dentre os quais obstáculos internos (orgulhos) e externos (preconceitos sociais).</p>
<figure id="attachment_16616" aria-describedby="caption-attachment-16616" style="width: 2324px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="wp-image-16616 size-full" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2020/11/imagem-2-pp.jpg" alt="Na foto vemos oito persoangens numa sala clássica" width="2324" height="1500" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2020/11/imagem-2-pp.jpg 2324w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2020/11/imagem-2-pp-300x194.jpg 300w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2020/11/imagem-2-pp-1024x661.jpg 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2020/11/imagem-2-pp-768x496.jpg 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2020/11/imagem-2-pp-1536x991.jpg 1536w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2020/11/imagem-2-pp-2048x1322.jpg 2048w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2020/11/imagem-2-pp-1200x775.jpg 1200w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 1362px) 62vw, 840px" /><figcaption id="caption-attachment-16616" class="wp-caption-text">O figurino do filme foi criado por Jacqueline Durran, que também assinou os figurinos de <em>Anna Karenina</em> (2012) e <em>Little Women</em> (2019) (Foto: Reprodução)</figcaption></figure>
<p>Keira Knightley, a mocinha de <i>Piratas do Caribe</i>, interpreta uma protagonista incisiva, perspicaz e contestadora. Elizabeth não partilha das ambições econômicas da progenitora quanto ao matrimônio. Na realidade, ela se prova uma jovem expansiva que não teme expor enfaticamente as suas ideias. Como comenta a esnobe Lady Catherine (Judi Dench), Elizabeth <i>&#8220;dá a própria opinião de forma decisiva para uma pessoa de tão pouca idade”.</i> Com efeito, quando o primo Collins (Tom Hollander) a pede em casamento, Lizzy recusa por enxergar a faceta caricata e pedante daquele homem. O fato de ele ser o único potencial candidato a herdeiro do Sr. Bennet (Donald Sutherland) pouco faz diferença. Ela triunfa ao impor a sua vontade, contrariando a regência patriarcal e a lógica comercial vigente nos acordos matrimoniais.</p>
<p>Embora o romance seja o fio condutor do título original, a autora era particularmente isenta de sentimentalismo. Em seus livros, Austen desenvolveu os casais por meio de diálogos rápidos e mordazes, em oposição ao romantismo exagerado que lhe foi contemporâneo. O <a href="https://youtu.be/NSL55lOwznU">realismo</a>, a ironia e o anti-sentimentalismo pouco são explorados no filme, que destaca a tensão entre os pares opostos, o despertar da paixão repentina e o melodrama. É construído um romance altamente idealizado, desprovido de apelo sexual, que não hesita em esbanjar olhares e declarações profundas de Darcy ao longo do enredo.</p>
<figure id="attachment_16617" aria-describedby="caption-attachment-16617" style="width: 1400px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="wp-image-16617 size-full" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2020/11/imagem-3-pp.jpg" alt="Na foto vemos ambos os protagonistas juntos ao amanhecer, Darcy e Elizabeth." width="1400" height="800" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2020/11/imagem-3-pp.jpg 1400w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2020/11/imagem-3-pp-300x171.jpg 300w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2020/11/imagem-3-pp-1024x585.jpg 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2020/11/imagem-3-pp-768x439.jpg 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2020/11/imagem-3-pp-1200x686.jpg 1200w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 1362px) 62vw, 840px" /><figcaption id="caption-attachment-16617" class="wp-caption-text">O longa-metragem recebeu quatro indicações ao Oscar 2006 nas categorias Melhor Atriz, Melhor Direção de Arte, Melhor Figurino e Melhor Trilha Sonora (Foto: Reprodução)</figcaption></figure>
<p>O enfoque atribuído para a narrativa do casal, entretanto, leva ao equívoco comum de se pensar que a obra originária e sua criadora eram decididamente românticas. A escritora, que nunca se casou e introduziu críticas sociais em seus escritos, não era romântica. <a href="https://www.youtube.com/watch?v=SirbSITcT5A">Austen</a> criava personagens femininas complexas e satirizava as contradições e futilidades da aristocracia inglesa. O seu advento, conforme Virginia Woolf reiterou no ensaio <i>Um Teto Todo Seu</i> (1929), permitiu que a ficção universal finalmente conhecesse o protagonismo feminino representado pelas lentes de uma escritora. Austen, portanto, não escreveu um conto de fadas, na verdade, ironizou toda uma classe orgulhosa e decadente, que buscava sustento através de associações amorosas lucrativas.</p>
<p>Num século em que mulheres não produziam manuscritos e sequer recebiam educação fora do âmbito doméstico, Jane Austen publicou o primeiro livro anonimamente, somente com os dizeres<em> “por uma dama”</em>. Dessa maneira, a intelectual deixou <a href="https://medium.com/lado-m/jane-austen-e-o-feminismo-por-que-jane-pode-ser-chamada-de-feminista-4e8c6c108ec5">legado</a> em sua escrita, a partir da concepção de uma heroína espirituosa e avessa aos costumes tradicionais. Em suma, é preciso lembrar que <i>Orgulho e Preconceito</i> não é um romance água com açúcar, mas uma obra que representa o pioneirismo e o olhar crítico de uma mulher que perpassou o <i>status quo</i> de seu tempo.</p>
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