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	<title>Arquivos Juventude Alemã &#8211; Persona | Jornalismo Cultural</title>
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	<description>Desde 2015 provando que a distância entre Bergman, Lady Gaga e a novela das 9 nem existe.</description>
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		<title>O sofrimento transcende o tempo em Regresso a Reims (Fragmentos)</title>
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		<pubDate>Tue, 26 Oct 2021 16:11:30 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p>Bruno Andrade Parte considerável dos conflitos geracionais consiste em renegar a vida pregressa do indivíduo que está bem diante de você, comumente associado a alguém antiquado à época. Essa ausência de visão pode transformá-lo em um ser suportável, mas diminuí-lo como ser humano. Pelo menos essa é a lição que tiramos de Pais e Filhos, &#8230; <a href="http://personaunesp.com.br/regresso-a-reims-fragmentos-critica/" class="more-link">Continue lendo<span class="screen-reader-text"> "O sofrimento transcende o tempo em Regresso a Reims (Fragmentos)"</span></a></p>
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										<content:encoded><![CDATA[<p><figure id="attachment_24090" aria-describedby="caption-attachment-24090" style="width: 1000px" class="wp-caption alignnone"><img fetchpriority="high" decoding="async" class="size-full wp-image-24090" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/10/FOTO-1.jpg" alt="Fotografia colorida de uma família francesa. Na foto, da esquerda para a direita, há um homem de cabelos grisalhos, vestindo terno cinza e camisa branca, de braços cruzados e boca semi-aberta; depois, há um homem com cabelos pretos lisos, sorrindo de boca fechada, vestindo uma blusa azul, camisa branca e uma calça azul. Também está de braços cruzados. À sua esquerda, há uma mulher de braços cruzados, vestindo um vestido de cor verde, com uma bolsa em cor marrom pendurada em seu braço esquerdo. Ela possui um cabelo liso de cor preta, que cobre suas orelhas. Depois, há uma menina de cabelo castanho liso, utilizando um vestido de cor verde com bolinhas brancas. Ela está com os dois braços cruzados atrás das costas. Essas 4 pessoas são brancas. Ao fundo estão alguns pessoas caminhando, com bandeiras com as cores da França expostas." width="1000" height="702" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/10/FOTO-1.jpg 1000w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/10/FOTO-1-800x562.jpg 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/10/FOTO-1-768x539.jpg 768w" sizes="(max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 1362px) 62vw, 840px" /><figcaption id="caption-attachment-24090" class="wp-caption-text">Integrando a seção Perspectiva Internacional da 45ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo, Regresso a Reims (Fragmentos) é um recorte da história da classe média na França [Foto: Les Films de Pierre]</figcaption></figure><b>Bruno Andrade</b></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Parte considerável dos conflitos geracionais consiste em renegar a vida pregressa do indivíduo que está bem diante de você, comumente associado a alguém antiquado à época. Essa ausência de visão pode transformá-lo em um ser suportável, mas diminuí-lo como ser humano. Pelo menos essa é a lição que tiramos de </span><a href="https://www.literatamy.com/post/pais-e-filhos-ivan-turgueniev"><i><span style="font-weight: 400;">Pais e Filhos</span></i></a><span style="font-weight: 400;">,</span> <span style="font-weight: 400;">de Ivan Turguêniev. A essa postura, o diretor e roteirista Jean-Gabriel Périot se opõe ferozmente, e joga luz sobre a história dos trabalhadores franceses em seu documentário </span><i><span style="font-weight: 400;">Regresso a Reims (Fragmentos)</span></i><span style="font-weight: 400;">, exibido na 45ª </span><a href="http://personaunesp.com.br/tag/mostra-internacional-de-cinema-em-sao-paulo/"><span style="font-weight: 400;">Mostra Internacional</span></a><span style="font-weight: 400;"> de Cinema em São Paulo.   </span></p>
<p><span id="more-24089"></span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">O longa é uma adaptação do livro de memórias </span><i><span style="font-weight: 400;">Retorno a Reims</span></i><span style="font-weight: 400;">, escrito pelo filósofo </span><a href="https://ionline.sapo.pt/artigo/723627/didier-eribon-do-operariado-que-vota-na-extrema-direita?seccao=Mais_i"><span style="font-weight: 400;">Didier Eribon</span></a><span style="font-weight: 400;">. Em decorrência das experiências de vida narradas nas páginas, principalmente o testemunho da infância da mãe de Eribon, a obra teve um grande impacto na França quando publicada, em 2009, e tornou-se um </span><i><span style="font-weight: 400;">best-seller</span></i><span style="font-weight: 400;">. Ao longo dos escritos, o autor traça um regresso metafísico a Reims, comuna francesa onde cresceu, denunciando a opressão das minorias no país ocasionada pelo uso político da pobreza por aqueles que idealmente deveriam atacar essas estruturas de dominação.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Propiciando reflexões através de imagens pessoais e de época, que vão desde os anos 1950 até os dias atuais, o filme de Périot opta pelo ensaio, adaptando livremente os capítulos originais. Com a narração de trechos do livro a cargo da atriz </span><a href="https://personaunesp.com.br/retrato-jovem-chamas-critica/"><span style="font-weight: 400;">Adèle Haenel</span></a><span style="font-weight: 400;"> — os </span><i><span style="font-weight: 400;">‘Fragmentos’ </span></i><span style="font-weight: 400;">a que se refere o título —, alternadamente aos testemunhos dos trabalhadores, o documentário transforma o particular em universal, apontando para a vasta multidão de negligenciados como protagonistas da história, com as cenas de arquivos denunciando a longa trajetória de abuso e humilhação sofrida por essas classes mais baixas.</span></p>
<figure id="attachment_24091" aria-describedby="caption-attachment-24091" style="width: 999px" class="wp-caption alignnone"><img decoding="async" class="size-full wp-image-24091" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/10/FOTO-2.jpg" alt="Foto do diretor Jean-Gabriel Périot. Ele é um homem branco e loiro, possui olhos verdes, cabelos lisos e rasos e uma barba rala. Ele está utilizando um óculos com lentes transparentes e hastes de cor preta; veste uma camisa branca, um suéter de cor preta e uma jaqueta também de cor preta. Ele está parado olhando fixamente para a câmera, e o fundo da imagem é em cor cinza." width="999" height="702" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/10/FOTO-2.jpg 999w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/10/FOTO-2-800x562.jpg 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/10/FOTO-2-768x540.jpg 768w" sizes="(max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 1362px) 62vw, 840px" /><figcaption id="caption-attachment-24091" class="wp-caption-text">A técnica de mesclar documentos históricos e narrações já foi utilizada por Jean-Gabriel Périot em trabalhos anteriores, principalmente em seus curta-metragens e no longa Juventude Alemã, indicado ao Prêmio César em 2016 (Foto: Les Films de Pierre)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">Esse extenso panorama traz evidências de algo previsível: os pais oprimidos transmitem a opressão aos seus filhos, transformando o sofrimento em algo hereditário. O que fica claro é que esse sistema se mantém vivo na contemporaneidade, principalmente quando enxergamos, por exemplo, as visíveis desigualdades no trabalho, além da exploração a qual se submetem os mais pobres, numa tentativa de sobreviver em um mundo que parece ter se esquecido deles — ou que, provavelmente, nunca os considerou. Como diz um trabalhador em um trecho do filme: </span><i><span style="font-weight: 400;">“ao envelhecer, o corpo do operário exibe a realidade das coisas&#8221;.</span></i></p>
<p><span style="font-weight: 400;">A deterioração lenta do corpo desses trabalhadores, e a alienação imposta a esses indivíduos, permite enxergar ao passar das cenas que, na realidade, só existem </span><i><span style="font-weight: 400;">“as classes altas e as classes baixas”</span></i><span style="font-weight: 400;">, como escreveu George Orwell em </span><a href="https://guiadoestudante.abril.com.br/estudo/saiba-mais-sobre-o-livro-1984-de-george-orwell/"><i><span style="font-weight: 400;">1984</span></i></a><span style="font-weight: 400;">. Dar voz aos oprimidos, sem qualquer intervenção, é uma das grandes manobras do diretor. Em alguns momentos, enxergamos a mão de alguém segurando um microfone, mas essa pessoa nunca aparece ou impõe algo aos entrevistados. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">A sequência aparentemente cronológica de imagens mostra os motivos ocultos que levaram ex-comunistas a votarem em peso em pessoas como </span><a href="https://observador.pt/2021/10/22/lider-da-extrema-direita-francesa-apoia-primeiro-ministro-polaco-na-crise-com-ue/"><span style="font-weight: 400;">Marine Le Pen</span></a><span style="font-weight: 400;">, motivados pelo descontentamento com a hierarquia social, numa tentativa desesperada de consolidar a própria identidade. Conforme o enredo de </span><i><span style="font-weight: 400;">Regresso a Reims </span></i><span style="font-weight: 400;">(</span><i><span style="font-weight: 400;">Retour à Reims</span></i><span style="font-weight: 400;">, no original) aproxima-se dos tempos atuais, conseguimos vislumbrar ecos de </span><a href="https://outraspalavras.net/sem-categoria/para-compreender-a-sociedade-do-espetaculo/"><i><span style="font-weight: 400;">A sociedade do espetáculo</span></i></a><span style="font-weight: 400;"> (1973), filme de Guy Debord baseado em seu livro homônimo de 1967 — uma das grandes influências de Périot.</span></p>
<p><figure id="attachment_24092" aria-describedby="caption-attachment-24092" style="width: 683px" class="wp-caption aligncenter"><img decoding="async" class="wp-image-24092 size-large" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/10/FOTO-3-683x1024.jpg" alt="Capa do livro Retorno a Reims, de Didier Eribon. Na imagem, há um desenho de um cachorro de cor branca, com duas manchas castanhas em cada um de seus olhos. Ele está deitado sobre um tapete de cor vermelha, com riscos de cor azul, marrom e laranja. O fundo da imagem é cinza. Na parte superior, de forma centralizada, está escrito Didier Eribon, em fonte de cor branca. Abaixo dessas duas palavras, também em fonte de cor branca, está escrito Retorno a Reims." width="683" height="1024" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/10/FOTO-3-683x1024.jpg 683w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/10/FOTO-3-533x800.jpg 533w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/10/FOTO-3-768x1152.jpg 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/10/FOTO-3-1024x1536.jpg 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/10/FOTO-3-1365x2048.jpg 1365w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/10/FOTO-3-1200x1800.jpg 1200w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/10/FOTO-3.jpg 1417w" sizes="(max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 984px) 61vw, (max-width: 1362px) 45vw, 600px" /><figcaption id="caption-attachment-24092" class="wp-caption-text">Capa da obra escrita pelo filósofo Didier Eribon, que inspirou o documentário Regresso a Reims (Fragmentos); o livro é publicado no Brasil pela editora Âyiné, sob tradução de Cecilia Schuback [Foto: Âyiné]</figcaption></figure><span style="font-weight: 400;">À medida que o </span><a href="https://personaunesp.com.br/category/documentario/"><span style="font-weight: 400;">documentário</span></a><span style="font-weight: 400;"> chega ao fim, vemos os oprimidos cada vez mais desiludidos com promessas eleitorais vazias. O filme mostra a visão dos trabalhadores sobre políticos de esquerda e direita, pois, durante os anos 1980, aqueles alinhados à esquerda não enxergaram qualquer tipo de avanço em suas vidas, ficando presos a ideais que não lhes entregavam comida na mesa, enquanto facções de extrema-direita tentavam tirar vantagem dessa situação, enganando deliberadamente a população.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">O longa de 80 minutos nos emudece e transporta à </span><a href="https://personaunesp.com.br/aquarius-5-anos/"><span style="font-weight: 400;">melancolia</span></a><span style="font-weight: 400;"> em uma simples troca de imagem, visto que as falas dos trabalhadores acompanham sempre um sorriso perdido, com olhares evasivos e afirmações do tipo </span><i><span style="font-weight: 400;">“é assim que as coisas são”</span></i><span style="font-weight: 400;">. O poder do documentário de Jean-Gabriel Périot (como também da obra de Didier Eribon) é o de construir, de forma singela, um mosaico para compreender — mesmo que parcialmente — o motivo de certas coisas acontecerem ainda em 2021, como a adesão praticamente inconsciente de classes mais baixas a grupos de extrema-direita. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Todos querem ter uma vida minimamente decente, e por essa razão são incapazes de enxergar golpes e enganações, tornando-se cegos diante dos fatos. A bem da verdade, esses indivíduos não podem enxergar, pois seus olhos foram deixados em algum chão de fábrica. A principal mensagem deixada em </span><i><span style="font-weight: 400;">Regresso a Reims</span></i><span style="font-weight: 400;"> é de que a desigualdade social é um dos maiores fracassos da civilização. </span></p>
<div class="jetpack-video-wrapper"><iframe loading="lazy" title="RETOUR A REIMS [FRAGMENTS] (Jean-Gabriel Périot) | L&#039;Alternativa Internacional. Llargmetratge | 2021" width="840" height="473" src="https://www.youtube.com/embed/35IiPdQ1KyQ?feature=oembed" frameborder="0" allow="accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share" referrerpolicy="strict-origin-when-cross-origin" allowfullscreen></iframe></div>
<p>O post <a href="http://personaunesp.com.br/regresso-a-reims-fragmentos-critica/">O sofrimento transcende o tempo em Regresso a Reims (Fragmentos)</a> apareceu primeiro em <a href="http://personaunesp.com.br">Persona | Jornalismo Cultural</a>.</p>
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