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	<title>Arquivos HP Lovecraft &#8211; Persona | Jornalismo Cultural</title>
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	<description>Desde 2015 provando que a distância entre Bergman, Lady Gaga e a novela das 9 nem existe.</description>
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		<title>O medo em O Chamado de Cthulhu na verdade é uma sugestão</title>
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		<pubDate>Thu, 28 Oct 2021 16:40:13 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p>Angelus Simões O clima é de abóboras, doces e Terror. Outubro chega e traz com ele uma das datas mais aguardadas pelos amantes do gênero, o Halloween. E é impossível falar de cultura do Horror sem evocar o nome de Howard Phillips Lovecraft, contista de ficção de Terror e fundador de um novo gênero dessa &#8230; <a href="http://personaunesp.com.br/o-chamado-de-cthulhu-critica/" class="more-link">Continue lendo<span class="screen-reader-text"> "O medo em O Chamado de Cthulhu na verdade é uma sugestão"</span></a></p>
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										<content:encoded><![CDATA[<figure id="attachment_24196" aria-describedby="caption-attachment-24196" style="width: 800px" class="wp-caption alignnone"><img fetchpriority="high" decoding="async" class="wp-image-24196" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/10/Imagem-1-capa.png" alt="Capa do livro O Chamado de Cthulhu, pela editora Darkside Books. Foto quadrada, com o livro no centro. A capa é composta majoritariamente pela figura do monstro se levantando do oceano. A criatura posiciona-se de costas para o observador, estando visível principalmente suas asas e braço direito. A imagem possui tons brancos, cinzas e pretos que dão uma impressão de nevoeiro." width="800" height="800" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/10/Imagem-1-capa.png 400w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/10/Imagem-1-capa-150x150.png 150w" sizes="(max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 984px) 61vw, (max-width: 1362px) 45vw, 600px" /><figcaption id="caption-attachment-24196" class="wp-caption-text">Uma das principais inspirações do autor ao escrever esse conto foi o poema <a href="https://www.nerdmaldito.com/2017/06/o-kraken-o-poema-que-inspirou-criacao.html">O Kraken</a> de Alfred Tennyson (Foto: Darkside Books)</figcaption></figure>
<p><b>Angelus Simões</b></p>
<p><span style="font-weight: 400;">O clima é de abóboras, doces e Terror. Outubro chega e traz com ele uma das datas mais aguardadas pelos amantes do gênero, o </span><i><span style="font-weight: 400;">Halloween</span></i><span style="font-weight: 400;">. E é impossível falar de cultura do Horror sem evocar o nome de</span><a href="https://www.infoescola.com/biografias/h-p-lovecraft/"> <span style="font-weight: 400;">Howard Phillips Lovecraft</span></a><span style="font-weight: 400;">, contista de ficção de Terror e fundador de um novo gênero dessa mesma cultura, e autor de </span><i><span style="font-weight: 400;">O Chamado de Cthulhu</span></i><span style="font-weight: 400;">.</span></p>
<p><span id="more-24195"></span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">O nome de Lovecraft é conhecido pela grande maioria dos entusiastas de ficção e Horror, e mesmo aqueles que não se relacionam muito com Literatura não estão salvos de suas obras. A influência das criações do autor, como </span><i><span style="font-weight: 400;">The Call of Cthulhu</span></i><span style="font-weight: 400;">, alcançou o mundo dos </span><i><span style="font-weight: 400;">games</span></i><span style="font-weight: 400;">, dos quadrinhos, séries, </span><i><span style="font-weight: 400;">RPGs,</span></i><span style="font-weight: 400;"> animações e filmes, como, por exemplo, o jogo</span><a href="https://turnmundonerd.com.br/como-h-p-lovecraft-influenciou-bloodborne/"> <i><span style="font-weight: 400;">Bloodborne</span></i></a><span style="font-weight: 400;"> e a série de animação </span><i><span style="font-weight: 400;">Rick and Morty. </span></i></p>
<p><span style="font-weight: 400;">O principal problema com a grande popularidade angariada por suas histórias, está no fato de que isso acaba por ofuscar o verdadeiro monstro de suas obras, o </span><a href="https://medium.com/the-speculative-hinterlands/lovecraft-and-the-language-of-eugenics-c28e8ff7977b"><span style="font-weight: 400;">seu próprio racismo</span></a><span style="font-weight: 400;">. Quando se fala em Lovecraft, muitos pensam em </span><span style="font-weight: 400;">Dagon </span><span style="font-weight: 400;">ou </span><span style="font-weight: 400;">Cthulhu</span><i><span style="font-weight: 400;">, </span></i><span style="font-weight: 400;">e pouco  se pensa na postura racista e preconceituosa que ele representa, e mesmo  aqueles que pensam no assunto costumam estar dispostos a perdoar essa imensa mazela que permeia quase todos os contos do autor em prol da qualidade de escrita do mesmo.</span></p>
<figure id="attachment_24197" aria-describedby="caption-attachment-24197" style="width: 1920px" class="wp-caption alignnone"><img decoding="async" class="size-full wp-image-24197" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/10/imagem-2-12.jpg" alt="A imagem apresenta uma cena da abertura de Rick and Morty. No fundo da cena na parte inferior há uma paisagem deserta e pedregosa em tons cinzas e azuis, na parte superior ao fundo encontra-se o céu. Centralizados na imagem estão a nave de Rick e Morty, fugindo da criatura que se assemelha ao monstro de Lovecraft. O monstro possui seis olhos vermelhos em uma cabeça cefalópode com seis tentáculos, um par de asas em tons rosados e braços terminados em garras afiadas." width="1920" height="1080" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/10/imagem-2-12.jpg 1920w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/10/imagem-2-12-800x450.jpg 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/10/imagem-2-12-1024x576.jpg 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/10/imagem-2-12-768x432.jpg 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/10/imagem-2-12-1536x864.jpg 1536w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/10/imagem-2-12-1200x675.jpg 1200w" sizes="(max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 1362px) 62vw, 840px" /><figcaption id="caption-attachment-24197" class="wp-caption-text">Alusão ao personagem Cthulhu na abertura de Rick and Morty (Foto: Adult Swim)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">Dessa forma, é crucial preparar-se para um texto advindo de outro lugar histórico. O fato é que as histórias de Lovecraft não são influenciadas apenas pelos valores da época em que foram escritos mas também pelo contexto de </span><a href="https://www.youtube.com/watch?v=udk5uWt1GSE"><span style="font-weight: 400;">vida</span></a><span style="font-weight: 400;"> do próprio autor. O contista cresceu a maior parte de sua infância na mansão do avô, afastado inclusive da escola devido a sua saúde frágil, e passava grande parte de seu tempo na biblioteca da casa, lendo obras clássicas e livros de Terror.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Esse comportamento literato deu a Howard um vasto arsenal de mitologia e vocabulário para fazer mão em seus textos. No entanto, a soma de sua reclusão com a vida em uma cidade pequena e a criação aristocrática, acabou por fortalecer os preconceitos do autor, gerando um comportamento </span><a href="https://entretenimento.uol.com.br/colunas/pagina-cinco/2020/08/20/michel-houellebecq-sobre-h-p-lovecraft-sempre-foi-racista.htm"><span style="font-weight: 400;">racista</span></a><span style="font-weight: 400;">, xenofóbico e muitas vezes eugenista, atitude essa que viria a ser acentuada durante seu período de maior convivência social em Nova Iorque. Esse medo e desprezo em relação ao diferente se vê traduzido em seu estilo de escrita e em suas histórias, sempre protagonizadas por vilões de etnia estrangeira e/ou não-branca. Especula-se que, inclusive, alguns de seus primeiros monstros fossem representações desses povos por quem tinha menosprezo.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Assim sendo, é importante ter consciência sobre essas mazelas que mancham de forma significativa as diversas criações de Lovecraft. Infelizmente, para aqueles que desejam conhecer o Horror cósmico como foi concebido, vez ou outra acabará por ler alguma de suas obras e terá de enfrentar os monstros não-ficcionais em seus textos. No fim, cabe a cada um decidir como lidar com isso.</span></p>
<figure id="attachment_24198" aria-describedby="caption-attachment-24198" style="width: 1095px" class="wp-caption alignnone"><img decoding="async" class="size-full wp-image-24198" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/10/imagem-3-12.jpg" alt="Fotografia de um aviso presente no início de um livro de contos de H.P Lovecraft. O aviso diz o seguinte: “Ao escritor incomodava a descaracterização das paisagens e dos costumes que tanto queria preservar, e ele atribuía uma decadência generalizada, entre outras coisas, à presença cada vez mais próxima de pessoas de diferentes etnias. Suas histórias apresentam, muitas vezes, indígenas, negros, mestiços, ciganos e imigrantes de várias origens de forma pejorativa. Não é possível dissociar os contos de Lovecraft, repletos de criaturas cósmicas assustadoras, dos contos entremeados de manifestação do preconceito. Fica a critério do leitor o tratamento que dará a essas passagens, para que o clima de horror prevaleça durante a leitura." width="1095" height="836" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/10/imagem-3-12.jpg 1095w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/10/imagem-3-12-800x611.jpg 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/10/imagem-3-12-1024x782.jpg 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/10/imagem-3-12-768x586.jpg 768w" sizes="(max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 1362px) 62vw, 840px" /><figcaption id="caption-attachment-24198" class="wp-caption-text">Aviso presente em um livro que reúne contos do autor (Foto: Angelus Simões)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">Dos contos do autor, juntamente com suas criaturas míticas,</span> <a href="http://filosofianerd.com.br/pdf/lovecraft_chamado_cthulhu.pdf"><i><span style="font-weight: 400;">O Chamado de Cthulhu</span></i></a><span style="font-weight: 400;"> é possivelmente o mais conhecido e influente de todos. A história se inicia com uma estrutura característica adotada pelo contista: a narrativa em primeira pessoa. Esse é um recurso utilizado com maestria por Lovecraft, que o utiliza para aproximar o leitor das experiências narradas e trazer um tom de realidade maior para seu Horror. Nesse em específico, Lovecraft nos faz acompanhar quase na pele a construção do medo e da insanidade vividas pela personagem narradora da história.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">A trama, publicada em 1928, tem início quando o narrador herda de seu tio-avô, um professor universitário, vários documentos e obras referentes ao seu trabalho, e dentre eles se depara com um estudo peculiar nomeado como </span><i><span style="font-weight: 400;">“O culto de Cthulhu”</span></i><span style="font-weight: 400;">. Esse estudo trata de uma série de documentos, cartas e anotações que tem como centro uma seita obscura e secreta a uma divindade ancestral que possui o nome de</span> <a href="https://www.lpm-blog.com.br/?p=28089"><span style="font-weight: 400;">Cthulhu</span></a><span style="font-weight: 400;">.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">A história então se desenvolve para ser dividida em três partes que visam ilustrar esse estudo sobre o culto. Na primeira, o texto acompanha as investigações do protagonista acerca dos estudos realizados por seu tio-avô, e neles, o parente acaba por descobrir uma interligação entre artistas e poetas que  têm alucinações e sonhos semelhantes relacionados a algum tipo de monstruosidade perdida nas profundezas do mar. Essa parte da narrativa é fundamental para plantar a semente da apreensão no leitor, nos fazendo olhar o horror da história em um plano maior e mais ameaçador. Na segunda parte, o conto regressa um pouco no tempo e nos mostra um culto nos pântanos de </span><a href="https://catracalivre.com.br/viagem-livre/entre-fantasmas-vodu-e-vampiros-nova-orleans-tem-o-titulo-de-cidade-mais-mal-assombrada-do-mundo/"><span style="font-weight: 400;">Nova Orleans</span></a><span style="font-weight: 400;">. Enquanto se desenvolve essa etapa da história, o Horror cósmico começa a mostrar sua face, diminuindo-nos a vítimas impotentes das vontades de uma raça ancestral adormecida em nosso planeta, enquanto tudo o que podemos fazer é aguardar seu despertar.</span></p>
<p><figure id="attachment_24199" aria-describedby="caption-attachment-24199" style="width: 1334px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-full wp-image-24199" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/10/imagem-4-2.jpeg" alt="Imagem retangular, em tons frios de azul e preto, representando um grupo de pessoas nuas movendo-se ao redor de uma fogueira que por sua vez encontra-se ao redor de um pilar." width="1334" height="943" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/10/imagem-4-2.jpeg 1334w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/10/imagem-4-2-800x566.jpeg 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/10/imagem-4-2-1024x724.jpeg 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/10/imagem-4-2-768x543.jpeg 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/10/imagem-4-2-1200x848.jpeg 1200w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 1362px) 62vw, 840px" /><figcaption id="caption-attachment-24199" class="wp-caption-text">“Os prisioneiros revelaram-se todos homens de um tipo de mestiçagem muito inferior e mentalmente aberrante (&#8230;)” [Foto: Skript]</figcaption></figure><span style="font-weight: 400;">Na terceira e última etapa da narrativa, o protagonista investiga o caso da tripulação de uma embarcação que foi atacada por cultistas, e, ao sobreviver, acabou supostamente se deparando com a cidade ciclópica, antes vista apenas nos sonhos dos artistas e nas narrativas dos adoradores. Esse ponto em específico do texto pode ser um pouco decepcionante para alguns, pelo fato de quebrar o ar de mistério sobre a existência de todas as coisas descritas nas partes anteriores, mas ainda é de suma importância na construção do medo no conto como um todo.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">O ponto mais forte do estilo de Lovecraft, que é altamente presente nesse conto, é o Terror como uma sugestão. A maior parte da história é composta por divagações e investigações por parte do narrador, onde nada de concreto de fato acontece, e, no entanto, o medo está ali. Esse terror psicológico deixa o próprio </span><span style="font-weight: 400;">Cthulhu</span><i><span style="font-weight: 400;">,</span></i><span style="font-weight: 400;"> que leva o nome no título, como uma espécie de personagem secundário, uma sombra milenar que se estende através do tempo para assombrar os dias atuais. O mérito do conto está em nos deixar com medo daquilo que não sabemos o que é, como definir ou que sequer somos capazes de compreender, e é nisso que se baseia o</span> <a href="https://revistagalileu.globo.com/Cultura/noticia/2019/12/bases-filosoficas-do-horror-cosmico-na-literatura.html"><span style="font-weight: 400;">Horror cósmico</span></a><span style="font-weight: 400;"> (subgênero de Terror em que Lovecraft foi pioneiro), na insignificância humana perante um universo desconhecido, assustador e incompreensível.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">A verdadeira face do medo criado pelo autor é o desconhecido, reflexo direto da mentalidade do próprio contista, que se traduz em um preconceito explícito que é transmitido por seus personagens. Os grandes cultistas e protagonistas das vilanias retratadas em seus textos são as minorias, povos estigmatizados e negligenciados pela história, de origem majoritariamente negra. O medo de Lovecraft é o medo do estrangeiro, o próprio </span><span style="font-weight: 400;">Cthulhu</span><span style="font-weight: 400;"> é uma criatura advinda de fora da Terra, das profundezas ancestrais do Cosmo.</span></p>
<figure id="attachment_24200" aria-describedby="caption-attachment-24200" style="width: 1086px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-full wp-image-24200" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/10/imagem-5-6.jpg" alt="No centro da imagem encontra-se Lovecraft com a metade direita de seu rosto coberta por sombras, assim como as órbitas de seus olhos, dando a entender que a fonte de luz vem de sua esquerda ao fundo, e emanando dele encontram-se quatro tentáculos de polvo. A arte foi feita em um estilo pontilhista (estilo que constitui formar uma imagem através de vários pontos), usando apenas as cores branca, preta e cinza." width="1086" height="652" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/10/imagem-5-6.jpg 1086w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/10/imagem-5-6-800x480.jpg 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/10/imagem-5-6-1024x615.jpg 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/10/imagem-5-6-768x461.jpg 768w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 1362px) 62vw, 840px" /><figcaption id="caption-attachment-24200" class="wp-caption-text">Lovecraft não foi capaz de se formar e cursar Astronomia como desejava, e o desejo de estudar essa ciência foi um das razões para escrever ficção científica (Foto: André Mello)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">É nesse espectro de medo do desconhecido, de horror psicológico e de atomização do ser, que se constrói a maior parte da narrativa. Mas, para os amantes de finais abertos e reflexivos, esse conto traz pequenas decepções ao abordar uma confirmação concreta da existência desta divindade alienígena, a consolação se dá pelo fato de não se saber ao certo o que houve com ela, e que destino terá o planeta Terra.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">O conto em si, que conta com 64 páginas e tradução de Ramon Mapa na edição da </span><i><span style="font-weight: 400;">Darkside Books</span></i><span style="font-weight: 400;">, é um clássico essencial aos amantes do terror psicológico e para aqueles que  desejam ter um contato genuíno com o Horror cósmico. Seu grande defeito, porém, se encontra na mentalidade do autor e no momento histórico em que foi escrito, o que exige um olhar crítico e preparado. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">No que se refere às traduções para o português brasileiro, é perfeitamente cabível afirmar que a língua latina casa muito bem com a história de <em>O Chamado de Cthulhu</em>, valendo-se de um arsenal vasto de palavras rebuscadas que ajudam a construir o clima de um Terror quase gótico. Não é à toa que suas obras inspiram autores até os dias de hoje, como é o caso do Mestre do Terror</span> <a href="https://blog.estantevirtual.com.br/2016/05/13/conheca-os-idolos-de-stephen-king/"><span style="font-weight: 400;">Stephen King</span></a><span style="font-weight: 400;">, ou até mesmo escritores mais fantásticos, como Neil Gaiman.</span></p>
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		<title>A ousadia de sobreviver em Lovecraft Country</title>
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		<pubDate>Thu, 22 Oct 2020 17:41:04 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p>Leonardo Teixeira Em Lovecraft Country, é constante o diálogo entre passado e futuro. “Quando meu neto nascer, ele será minha fé transformada em carne e osso”, uma personagem diz, em um dos muitos climaxes da trama. Aqui, ícones e referências da cultura negra dão liga a uma trama sobre ancestralidade. Não só sobre as qualidades &#8230; <a href="http://personaunesp.com.br/lovecraft-country-critica/" class="more-link">Continue lendo<span class="screen-reader-text"> "A ousadia de sobreviver em Lovecraft Country"</span></a></p>
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]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<figure id="attachment_16079" aria-describedby="caption-attachment-16079" style="width: 1280px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-full wp-image-16079" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2020/10/lovecraft-country-1.jpg" alt="" width="1280" height="720" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2020/10/lovecraft-country-1.jpg 1280w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2020/10/lovecraft-country-1-300x169.jpg 300w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2020/10/lovecraft-country-1-1024x576.jpg 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2020/10/lovecraft-country-1-768x432.jpg 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2020/10/lovecraft-country-1-1200x675.jpg 1200w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 1362px) 62vw, 840px" /><figcaption id="caption-attachment-16079" class="wp-caption-text">Horrores cósmicos e sociais perseguem os protagonistas do show, que fez tremer os últimos dez domingos da HBO (Foto: Elizabeth Morris/HBO)</figcaption></figure>
<p><b>Leonardo Teixeira</b></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Em </span><i><span style="font-weight: 400;">Lovecraft Country</span></i><span style="font-weight: 400;">, é constante o diálogo entre passado e futuro. </span><i><span style="font-weight: 400;">“Quando meu neto nascer, ele será minha fé transformada em carne e osso”</span></i><span style="font-weight: 400;">, uma personagem diz, em um dos muitos climaxes da trama. Aqui, ícones e referências da cultura negra dão liga a uma trama sobre ancestralidade. Não só sobre as qualidades e ensinamentos passados de mãe para filha, mas também as feridas. A inspiração na obra de um babaca eugenista, em uma história protagonizada por pessoas pretas, adiciona mais força ao texto, que explora a monstruosidade como característica inerente ao ser humano. </span></p>
<p><span id="more-16078"></span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">É a década de 50, em Chicago. Atticus, ou Tic (</span><a href="https://www.youtube.com/watch?v=4qAyefPV2lQ"><span style="font-weight: 400;">Jonathan Majors</span></a><span style="font-weight: 400;">), retorna ao distrito negro onde cresceu, para investigar o paradeiro de seu pai. Mas ele está diferente. Agora é um veterano da Guerra da Coréia, para a qual se alistou fugindo do ambiente familiar violento. Pistas do pai o colocam na estrada, em direção à cidade fictícia de Ardham, no interior de Massachusetts. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Mas ele não vai sozinho. Letitia, ou Leti (Jurnee Smollett), é uma fotógrafa e ativista que também está de volta ao pedaço, depois de anos ausente do seio familiar. Sua mãe morreu há pouco tempo, mas ela não compareceu ao velório. George (Courtney B. Vance), tio de Tic, completa o trio de viajantes. Ele é editor do </span><i><span style="font-weight: 400;">The Safe Negro Travel Guide</span></i><span style="font-weight: 400;"> (em inglês, O Guia de Viagem do Negro Seguro), uma versão fictícia do guia editado por Victor Hugo Green entre 1933 e 1966 sobre locais seguros para hospedagem e alimentação de pessoas negras nos Estados Unidos. </span></p>
<figure id="attachment_16080" aria-describedby="caption-attachment-16080" style="width: 1024px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-full wp-image-16080" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2020/10/lovecraft-country-2.jpg" alt="" width="1024" height="683" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2020/10/lovecraft-country-2.jpg 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2020/10/lovecraft-country-2-300x200.jpg 300w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2020/10/lovecraft-country-2-768x512.jpg 768w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 1362px) 62vw, 840px" /><figcaption id="caption-attachment-16080" class="wp-caption-text">Traumas geracionais são determinantes nas relações familiares da série (Foto: Eli Joshua Ade/HBO)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">A </span><i><span style="font-weight: 400;">road trip</span></i><span style="font-weight: 400;"> é o ponto de partida de uma aventura macabra e emocionante. Em plena vigência do Jim Crow, as leis segregatórias do país que vigoraram até 1964, a narrativa dessas duas famílias negras passa por momentos em que a </span><a href="https://personaunesp.com.br/corra-filme-critica/"><span style="font-weight: 400;">tensão racial compete com o horror</span></a><span style="font-weight: 400;">. Fica difícil saber o que mais assusta. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">O que se segue são dez episódios explosivos que mesclam terror, ficção científica e aventura, com revisitações a fórmulas desses gêneros. Os heróis enfrentam monstros, rituais de magia, espíritos obsessores, entre outras entidades, mas pouco lhes é explicado. O ritmo rápido e cortante do texto não permite grandes exposições. Só que esses elementos não são estranhos aos personagens, todos grandes fãs de narrativas fantásticas.</span></p>
<div class="jetpack-video-wrapper"><iframe loading="lazy" title="Lovecraft Country: Trailer Oficial | HBO" width="840" height="473" src="https://www.youtube.com/embed/a7XlZJ4F3e0?feature=oembed" frameborder="0" allow="accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share" referrerpolicy="strict-origin-when-cross-origin" allowfullscreen></iframe></div>
<p><span style="font-weight: 400;">Os autores dessas histórias, porém, não retribuem a admiração. No cinema de horror, é muito comum que os raros personagens negros presentes nas produções sejam o foco do medo ou os primeiros a morrer. A historiadora americana Robin R. Means Coleman disseca essa relação problemática no livro </span><i><span style="font-weight: 400;">Horror Noire: A Representação Negra no Cinema de Terror</span></i><span style="font-weight: 400;">.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Outro exemplo é o próprio H.P. Lovecraft, tido como o criador da literatura de terror cósmico e inspiração para </span><a href="https://personaunesp.com.br/territorio-lovecraft-livro-critica/"><i><span style="font-weight: 400;">Território Lovecraft</span></i></a><span style="font-weight: 400;">, o livro que deu origem à série. Existem </span><a href="https://medium.com/the-speculative-hinterlands/lovecraft-and-the-language-of-eugenics-c28e8ff7977b"><span style="font-weight: 400;">evidências</span></a><span style="font-weight: 400;"> de que o escritor, que morreu em 1937, acreditava nas teorias racistas do eugenismo e flertava com o nazismo. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Consciente do amor não-correspondido de seus personagens pela literatura fantástica, a produção liderada por Misha Green ressignifica a obra do racista americano, transformando-a num testamento da resiliência negra. Um exemplo é a cena inaugural do </span><i><span style="font-weight: 400;">show</span></i><span style="font-weight: 400;">, em que o jogador de beisebol Jackie Robinson, conhecido por ser o primeiro homem negro a jogar na liga principal americana, luta em uma batalha alienígena. </span></p>
<figure id="attachment_16081" aria-describedby="caption-attachment-16081" style="width: 1024px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-full wp-image-16081" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2020/10/lovecraft-country-3.jpg" alt="" width="1024" height="680" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2020/10/lovecraft-country-3.jpg 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2020/10/lovecraft-country-3-300x199.jpg 300w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2020/10/lovecraft-country-3-768x510.jpg 768w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 1362px) 62vw, 840px" /><figcaption id="caption-attachment-16081" class="wp-caption-text">“No terror, existe um extremo a que nossa ansiedade por chegar a qualquer momento. Essa é a experiência negra”, Misha Green explicou ao New York Times (Foto: Eli Joshua Ade/HBO)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">Diversos outros ícones, como James Baldwin, </span><a href="https://cultura.uol.com.br/entretenimento/noticias/2020/09/28/154_lovecraft-country-elza-soares-e-inspiracao-para-vestido-de-personagem-em-serie-americana.html"><span style="font-weight: 400;">Elza Soares</span></a><span style="font-weight: 400;">, </span><a href="https://www.youtube.com/watch?v=L0w9Usktr8w"><span style="font-weight: 400;">Sonia Sanchez</span></a><span style="font-weight: 400;"> e </span><a href="https://www.youtube.com/watch?v=OJYTBWaLK84"><span style="font-weight: 400;">Zora Neale Hurston</span></a><span style="font-weight: 400;">, assim como alguns </span><a href="https://www.omelete.com.br/series-tv/lovecraft-country-revisita-o-massacre-de-tulsa-em-episodio-emocionante"><span style="font-weight: 400;">eventos históricos reais</span></a><span style="font-weight: 400;">, ajudam Green a desenvolver os episódios. É uma frase de Hurston, inclusive, que nos ajuda a entender a jornada desses personagens. </span><i><span style="font-weight: 400;">“Se você ficar em silêncio sobre sua dor, eles irão te matar e dizer que você gostou”</span></i><span style="font-weight: 400;">, ela escreveu. Os grandes momentos de </span><i><span style="font-weight: 400;">Lovecraft Country</span></i><span style="font-weight: 400;"> ocorrem quando seus heróis se permitem demonstrar raiva pelas injustiças e horrores que vivem. E respondem aos ataques. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Não é de hoje que a raiva e a desobediência civil são usadas como válvula de escape na exploração de tensões sociais na arte. A fúria pela injustiça racial é força motriz de trabalhos de </span><a href="https://www.youtube.com/watch?v=-HM2S6TVYII"><span style="font-weight: 400;">Nina Simone</span></a><span style="font-weight: 400;">, </span><a href="https://www.youtube.com/watch?v=yVAD4fYRcvA"><span style="font-weight: 400;">Spike Lee</span></a><span style="font-weight: 400;">, Basquiat, </span><a href="https://www.youtube.com/watch?v=BTqNemB6mio"><span style="font-weight: 400;">Solange</span></a><span style="font-weight: 400;"> e </span><a href="https://personaunesp.com.br/lemonade-amor-confianca-empoderamento/"><span style="font-weight: 400;">Beyoncé</span></a><span style="font-weight: 400;"> Knowles, Linn da Quebrada, entre tantos outros.</span></p>
<div class="jetpack-video-wrapper"><iframe loading="lazy" title="Linn da Quebrada - Bomba Pra Caralho (Áudio-Vídeo Oficial)" width="840" height="473" src="https://www.youtube.com/embed/ZYOIvMyZ_GU?feature=oembed" frameborder="0" allow="accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share" referrerpolicy="strict-origin-when-cross-origin" allowfullscreen></iframe></div>
<p><span style="font-weight: 400;">Entrar em contato com a própria indignação faz parte do processo de cura pelo qual passam. Montrose (interpretado pelo brilhante Michael K. Williams) protagoniza o arco em que isso mais se evidencia. Williams explora da forma mais crua possível a trajetória de um homem que nunca pôde processar os efeitos das violências que sofreu durante a vida. E foi para o filho o único pai que ele sabia ser. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Hippolyta é outro destaque. Aunjanue Ellis interpreta uma mulher sufocada pela maternidade e pelo casamento, que embarca numa jornada solitária para descobrir quem é. Por sua vez, a irmã mais velha de Leti, Ruby (Wunmi Mosaku), já sabe quem é. Mas procura uma fuga da realidade, que é tão dura. </span></p>
<figure id="attachment_16083" aria-describedby="caption-attachment-16083" style="width: 3840px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-full wp-image-16083" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2020/10/lovecraft-country-4-1.png" alt="" width="3840" height="2160" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2020/10/lovecraft-country-4-1.png 3840w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2020/10/lovecraft-country-4-1-300x169.png 300w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2020/10/lovecraft-country-4-1-1024x576.png 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2020/10/lovecraft-country-4-1-768x432.png 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2020/10/lovecraft-country-4-1-1536x864.png 1536w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2020/10/lovecraft-country-4-1-2048x1152.png 2048w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2020/10/lovecraft-country-4-1-1200x675.png 1200w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 1362px) 62vw, 840px" /><figcaption id="caption-attachment-16083" class="wp-caption-text">Um dos momentos mais viajados e poéticos da jornada de Hippolyta, inspirado por um figurino de Elza Soares (Foto: HBO/Divulgação)</figcaption></figure>
<p><a href="https://personaunesp.com.br/us-jordan-peele-critica-2019/"><span style="font-weight: 400;">Jordan Peele</span></a><span style="font-weight: 400;"> e </span><a href="https://personaunesp.com.br/j-j-abrams-prodigio-hollywood/"><span style="font-weight: 400;">J.J. Abrams</span></a><span style="font-weight: 400;"> também assinam a produção executiva da série, que quase sempre tem um comentário sociopolítico inteligente a tecer sobre temas que pulsam há décadas. O sexto episódio, </span><i><span style="font-weight: 400;">Meet Me in Daegu</span></i><span style="font-weight: 400;">, por exemplo, é um texto inteligentíssimo sobre o fenômeno do oprimido que se torna opressor. Narrativas LGBT, violência de gênero, afrofuturismo e colonialismo são alguns outros temas que o </span><i><span style="font-weight: 400;">show </span></i><span style="font-weight: 400;">explora com elegância.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Em uma história de fantasia e terror com tantos pés fincados na realidade, quem realmente são os monstros? O primeiro ano de </span><i><span style="font-weight: 400;">Lovecraft Country</span></i><span style="font-weight: 400;"> não responde ao questionamento, mas levanta reflexões muito bem-vindas. E triunfa ao estudar como podemos superar essas perversidades, para que a herança que deixamos para nossos tataranetos seja a cura. E não nossos traumas.</span></p>
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		<title>Ninguém é cancelado no Território Lovecraft</title>
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		<pubDate>Mon, 19 Oct 2020 16:35:06 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Literatura]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Vitor Evangelista O termo cultura do cancelamento é tão novo quanto as pessoas que o levam a sério. Atribuído à atitudes consideradas erradas, o ato de cancelar alguém busca anular sua voz, e apagar quaisquer de suas contribuições. O que fazer, entretanto, quando o indivíduo digno de ser cancelado está morto há 83 anos? Para &#8230; <a href="http://personaunesp.com.br/territorio-lovecraft-livro-critica/" class="more-link">Continue lendo<span class="screen-reader-text"> "Ninguém é cancelado no Território Lovecraft"</span></a></p>
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										<content:encoded><![CDATA[<figure id="attachment_16052" aria-describedby="caption-attachment-16052" style="width: 1200px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-full wp-image-16052" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2020/10/Territorio-Lovecraft_Fright.jpg" alt="" width="1200" height="720" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2020/10/Territorio-Lovecraft_Fright.jpg 1200w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2020/10/Territorio-Lovecraft_Fright-300x180.jpg 300w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2020/10/Territorio-Lovecraft_Fright-1024x614.jpg 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2020/10/Territorio-Lovecraft_Fright-768x461.jpg 768w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 1362px) 62vw, 840px" /><figcaption id="caption-attachment-16052" class="wp-caption-text">Por mais que a publicação de Território Lovecraft seja recente, Matt Ruff revelou que essa ideia germina em sua mente desde os tempos da faculdade (Foto: Fright Like a Girl)</figcaption></figure>
<p><strong>Vitor Evangelista</strong></p>
<p><span style="font-weight: 400;">O termo </span><a href="https://www.bbc.com/portuguese/geral-53537542"><span style="font-weight: 400;">cultura do cancelamento</span></a><span style="font-weight: 400;"> é tão novo quanto as pessoas que o levam a sério. Atribuído à atitudes consideradas erradas, o ato de cancelar alguém busca anular sua voz, e apagar quaisquer de suas contribuições. O que fazer, entretanto, quando o indivíduo digno de ser cancelado está morto há 83 anos? Para Matt Ruff, autor de</span><i><span style="font-weight: 400;"> Território Lovecraft</span></i><span style="font-weight: 400;">, o certo é não fazer nada que se assemelhe ao cancelamento. Eis o impensável: ele raciocina e entende, adivinhem só, que nem tudo é simples como dois mais dois são quatro.</span></p>
<p><span id="more-16050"></span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Howard Phillips Lovecraft é considerado o pai do </span><a href="http://fantasticursos.com/o-que-e-horror-cosmico/"><span style="font-weight: 400;">horror cósmico</span></a><span style="font-weight: 400;">, ‘gênero’ que o próprio cunhou, escrevendo contos e novelas que misturavam o medo do desconhecido com figuras de fora deste planeta. Além disso, Lovecraft era um racista de primeira. Crescido no período de ascensão do fascismo e do nazismo, não é surpresa que ele se identificou com os </span><a href="https://entretenimento.uol.com.br/colunas/pagina-cinco/2020/08/20/michel-houellebecq-sobre-h-p-lovecraft-sempre-foi-racista.htm"><span style="font-weight: 400;">ideais</span></a><span style="font-weight: 400;"> de Adolf Hitler, fazendo isso refletir em suas obras. E é aí que entra outro escritor, desta vez, Matt Ruff, que teve a brilhante ideia de ressignificar tudo que o falecido racista criou, colocando pessoas negras no centro de narrativas essencialmente </span><a href="https://medium.com/@rntpincelli/a-improv%C3%A1vel-ressurrei%C3%A7%C3%A3o-de-h-p-lovecraft-fbcbe014101b"><i><span style="font-weight: 400;">lovecraftianas</span></i></a><span style="font-weight: 400;">.</span></p>
<figure id="attachment_16051" aria-describedby="caption-attachment-16051" style="width: 1200px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-full wp-image-16051" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2020/10/matt.png" alt="" width="1200" height="627" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2020/10/matt.png 1200w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2020/10/matt-300x157.png 300w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2020/10/matt-1024x535.png 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2020/10/matt-768x401.png 768w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 1362px) 62vw, 840px" /><figcaption id="caption-attachment-16051" class="wp-caption-text">O tal território Lovecraft fica em Massachusetts, abrigando locais reais e fictícios da criação do defunto; na foto vemos Matt Ruff, ao lado de seu livro (Foto: Reprodução)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">Assim nasce </span><i><span style="font-weight: 400;">Território Lovecraft</span></i><span style="font-weight: 400;"> (</span><i><span style="font-weight: 400;">Lovecraft Country</span></i><span style="font-weight: 400;">, no original), </span><a href="https://popeek.com.br/criticas/critica-territorio-lovecraft-matt-ruff/"><span style="font-weight: 400;">publicado</span></a><span style="font-weight: 400;"> em 2016 nos Estados Unidos e esse ano no Brasil, com tradução de Thais Paiva. Narrando a fantástica jornada de Atticus em busca do pai, que está mantido refém numa região da América segregada dos anos 50, o tal Território Lovecraft, onde se passam a maioria das histórias do autor. Ressaltando o fator metalinguístico da obra, logo de cara o tio de Atticus, ou Tic, pontua o </span><a href="https://geekness.com.br/racismo-em-hp-lovecraft/"><span style="font-weight: 400;">racismo</span></a><span style="font-weight: 400;"> do escritor, mesmo sendo dono de obras revolucionárias para o gênero.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">É necessário exercitar o bom senso, e o livro de Ruff pinga seus is logo de cara. Não podemos apagar o trabalho de alguém ou anular seus feitos. O que podemos (e devemos) fazer, é entender as problemáticas. A trama em momento algum relativiza ou passa a mão na cabeça sebosa do defunto, mas faz algo muito mais avassalador: coloca as ‘minorias’ que ele tanto desprezava como heróis de suas jornadas. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Quer trama mais </span><a href="https://brasil.elpais.com/internacional/2020-06-07/por-que-os-negros-dos-eua-nao-respiram.html"><span style="font-weight: 400;">atual</span></a><span style="font-weight: 400;"> que isso? Não à toa, a </span><i><span style="font-weight: 400;">HBO </span></i><span style="font-weight: 400;">adaptou para a TV a história e, assim, surgiu a (até então) série dramática </span><a href="https://www.intrinseca.com.br/blog/2020/06/o-que-esperar-da-adaptacao-de-territorio-lovecraft/"><i><span style="font-weight: 400;">Lovecraft Country</span></i></a><span style="font-weight: 400;">, que exibiu o capítulo final no último domingo. Muito mais incisiva e bem sucedida que o material original, a produção comandada com a astúcia de Misha Green carrega o legado de </span><a href="http://personaunesp.com.br/watchmen-hbo-critica/"><i><span style="font-weight: 400;">Watchmen</span></i></a><span style="font-weight: 400;">, outra arrebatadora série com </span><a href="https://www.bbc.com/portuguese/internacional-50188869"><span style="font-weight: 400;">forte temática racial</span></a><span style="font-weight: 400;">.</span></p>
<figure id="attachment_16058" aria-describedby="caption-attachment-16058" style="width: 2048px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-full wp-image-16058" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2020/10/lovecraft-ep-8.jpg" alt="" width="2048" height="1364" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2020/10/lovecraft-ep-8.jpg 2048w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2020/10/lovecraft-ep-8-300x200.jpg 300w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2020/10/lovecraft-ep-8-1024x682.jpg 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2020/10/lovecraft-ep-8-768x512.jpg 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2020/10/lovecraft-ep-8-1536x1023.jpg 1536w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2020/10/lovecraft-ep-8-1200x799.jpg 1200w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 1362px) 62vw, 840px" /><figcaption id="caption-attachment-16058" class="wp-caption-text">A criação de Diana substituindo a figura de Horace foi um vigor para a trama: no lugar do terrível conto ‘Horace e o Boneco do Diabo’, a série nos apresentou ao ótimo e assustador Jig-A-Bobo (Foto: Reprodução)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">A própria contracapa do livro da </span><i><span style="font-weight: 400;">Intrínseca</span></i><span style="font-weight: 400;"> entrega o fator incomum de sua construção:</span><i><span style="font-weight: 400;"> ‘estruturado ao mesmo tempo como uma coletânea de contos e um romance’</span></i><span style="font-weight: 400;">. As nove histórias seguem uma linha narrativa principal, dessa jornada de Atticus enfrentando Deus e o mundo, ainda que foque em distintas figuras desse rico ecossistema. Conhecemos a família de Tic, seus amigos e inimigos. A prosa de Matt Ruff se empodera de uma fluidez líquida, tornando a leitura corrida, mas em momento algum atropelada ou esbaforida. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Outro ponto de destaque é que Matt Ruff é um homem branco, que acaba escrevendo sobre o racismo nos anos 50. Todavia, a abordagem escolhida nas palavras e situações parece inserir um comentário sutil e direto, mas nunca tomando para si uma discussão que não lhe cabe. O que, inevitavelmente, alavanca o fator mais agressivo na abordagem televisiva da trama, encabeçada por profissionais negros. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">A escrita de Ruff é uma mão cheia para a adaptação. Os contos são curtos e deixam muito em aberto. Não na trama em si, mas em quesito narrativo, descritivo e temático. Ele lança ideias ao ar, denota os pontos de pressão mas nunca ata os nós, o laceio fica na cabeça de quem lê, ou, o mais comum, de quem sintonizou na </span><a href="https://www.omelete.com.br/terror/lovecraft-country-expectativas-influencias-comic-con"><i><span style="font-weight: 400;">HBO</span></i></a><span style="font-weight: 400;"> nas últimas dez noites de domingo.</span></p>
<figure id="attachment_16055" aria-describedby="caption-attachment-16055" style="width: 1440px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-full wp-image-16055" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2020/10/2AL7J4LYEFC3BKB54PE3E54YL4.jpg" alt="" width="1440" height="960" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2020/10/2AL7J4LYEFC3BKB54PE3E54YL4.jpg 1440w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2020/10/2AL7J4LYEFC3BKB54PE3E54YL4-300x200.jpg 300w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2020/10/2AL7J4LYEFC3BKB54PE3E54YL4-1024x683.jpg 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2020/10/2AL7J4LYEFC3BKB54PE3E54YL4-768x512.jpg 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2020/10/2AL7J4LYEFC3BKB54PE3E54YL4-1200x800.jpg 1200w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 1362px) 62vw, 840px" /><figcaption id="caption-attachment-16055" class="wp-caption-text">Jordan Peele, diretor de Corra! e Nós, se interessou pela trama e logo conseguiu um acordo com a HBO, chamando a talentosa Misha Green para comandar a coisa toda (Foto: Reprodução)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">Por mais que </span><i><span style="font-weight: 400;">Território Lovecraft</span></i><span style="font-weight: 400;"> seja recheados de histórias que ficam na cabeça mesmo após suas finalizações, o livro não se redime na hora de realmente vitaminar seus acontecimentos. Ainda mais pelo formato episódico da narrativa, existem lacunas temporais que, à primeira vista, incomodam o leitor apaixonado por detalhes minuciosos. Isso até Ruff revelar exatamente sobre o que está escrevendo.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Atticus é o Sol desse sistema. O personagem, por vezes pedante e desinteressante, carrega nas costas todas as profecias e escolhas de </span><i><span style="font-weight: 400;">Território Lovecraft</span></i><span style="font-weight: 400;">. O que é uma pena, considerando a riqueza de seus coadjuvantes. Esse efeito de potencial desperdiçado grita alto quando lemos excelentes contos de Letitia (</span><i><span style="font-weight: 400;">A Casa Assombrada dos Sonhos</span></i><span style="font-weight: 400;">) e Ruby (</span><i><span style="font-weight: 400;">Jekyll em Hyde Park</span></i><span style="font-weight: 400;">), para depois sermos sugados na atmosfera bunda mole de Tic.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">O comando de Misha Green na adaptação da </span><i><span style="font-weight: 400;">HBO</span></i><span style="font-weight: 400;">, aliado à produção de Jordan Peele, remendou esses furos de excitação narrativa. </span><i><span style="font-weight: 400;">Lovecraft Country</span></i><span style="font-weight: 400;"> soube uniformizar seus moldes e, por mais que Tic ainda seja central ao todo, Leti, Ruby, Hippolyta e Montrose ganham as camadas e momentos que deveriam ter recebido nas 352 páginas do livro. O drama de TV foi mais além, transformando Horace em Diana (ainda bem), e investindo na excelente figura de Ji-Ah (no melhor episódio da série). Chega a ser curioso encontrar um livro que não seja melhor sucedido que sua versão adaptada..</span></p>
<figure id="attachment_16056" aria-describedby="caption-attachment-16056" style="width: 1200px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-full wp-image-16056" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2020/10/love.jpeg" alt="" width="1200" height="587" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2020/10/love.jpeg 1200w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2020/10/love-300x147.jpeg 300w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2020/10/love-1024x501.jpeg 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2020/10/love-768x376.jpeg 768w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 1362px) 62vw, 840px" /><figcaption id="caption-attachment-16056" class="wp-caption-text">É claro que não esperamos fins trágicos nessa narrativa de redenção, mas a conclusão de Território Lovecraft deixa a desejar pelas conveniências e até a simplicidade que evoca (Foto: Reprodução)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">A mera existência, e sucesso, de </span><i><span style="font-weight: 400;">Território Lovecraft </span></i><span style="font-weight: 400;">coloca uma pulga atrás de nossas orelhas para uma importante questão: será que isso vira tendência? O que não falta atualmente são figuras consolidadas que, num mundo de conto de fadas, seriam, enfim, canceladas. Matt Ruff pode ter aberto portas para, quem sabe, daqui algumas décadas, alguém publicar o </span><a href="https://brasil.elpais.com/cultura/2020-07-12/ascensao-e-queda-de-j-k-rowling.html"><i><span style="font-weight: 400;">Território Rowling</span></i></a><span style="font-weight: 400;">, com os bruxos enfrentando os males de Hogwarts e os medos da homofobia e da transfobia, que sua infeliz autora tanto suscita e sublinha.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Por enquanto, nos resta a especulação e a problematização. Essa investida do livro, saindo da bolha do cancelar e esquecer, e usando a modernidade como arma de evolução e prosperidade, veio em hora certa. Enquanto dentro das páginas </span><i><span style="font-weight: 400;">Território Lovecraft</span></i><span style="font-weight: 400;"> se beneficia da riqueza dos contos episódicos que homenageiam o horror cósmico e o gênero </span><a href="https://medium.com/@patriciagnipper/as-pulp-fictions-e-a-fic%C3%A7%C3%A3o-cient%C3%ADfica-como-a-conhecemos-a1f2b6fe89ef"><i><span style="font-weight: 400;">pulp</span></i></a><span style="font-weight: 400;">, fora delas nós nos beneficiamos de uma leitura interessante no âmbito de entretenimento e do conhecimento. Me parece uma troca justa.</span></p>
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