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	<title>Arquivos Hayao Miyazaki &#8211; Persona | Jornalismo Cultural</title>
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	<description>Desde 2015 provando que a distância entre Bergman, Lady Gaga e a novela das 9 nem existe.</description>
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		<title>Há 40 anos, o Studio Ghibli plantava um legado que floresce até hoje</title>
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		<pubDate>Tue, 25 Nov 2025 14:04:11 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p>Henrique Marinhos e Maira Cavenaghi Originalmente marcado do dia 18 de setembro ao dia 1 de outubro de 2025, a primeira parte do Ghibli Fest, festival de cinema realizado a fim de comemorar os 40 anos do célebre estúdio de animação japonesa Ghibli, fez tanto sucesso entre o público brasileiro que estenderam a programação em &#8230; <a href="http://personaunesp.com.br/texto-ghibli-fest-40-anos-do-studio-ghibli/" class="more-link">Continue lendo<span class="screen-reader-text"> "Há 40 anos, o Studio Ghibli plantava um legado que floresce até hoje"</span></a></p>
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										<content:encoded><![CDATA[<figure id="attachment_35937" aria-describedby="caption-attachment-35937" style="width: 800px" class="wp-caption alignnone"><img fetchpriority="high" decoding="async" class="size-medium wp-image-35937" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2025/10/image2-7-800x433.png" alt="Esta é uma imagem com o logo do Studio Ghibli, um famoso estúdio de animação japonês. O fundo é de um azul vibrante e sólido. No centro, há um desenho de contorno preto do personagem Totoro, uma criatura grande e peluda com orelhas pontudas, visto de perfil. Em cima de sua cabeça, há um Totoro menor. Sobre a imagem, está escrito &quot;STUDIO GHIBLI&quot; em letras brancas, com caracteres em japonês logo acima." width="800" height="433" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2025/10/image2-7-800x433.png 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2025/10/image2-7-1024x555.png 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2025/10/image2-7-768x416.png 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2025/10/image2-7-1536x832.png 1536w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2025/10/image2-7-1200x650.png 1200w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2025/10/image2-7.png 1920w" sizes="(max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 984px) 61vw, (max-width: 1362px) 45vw, 600px" /><figcaption id="caption-attachment-35937" class="wp-caption-text">Há rumores entre os fãs que o nome do estúdio remete ao modelo de avião italiano desenvolvido durante a Segunda Guerra Mundial, Caproni Ca.309 Ghibli, uma referência a paixão de Miyazaki pela aviação (Foto: Studio Ghibli)</figcaption></figure>
<p><b>Henrique Marinhos e Maira Cavenaghi</b></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Originalmente marcado do dia 18 de setembro ao dia 1 de outubro de 2025, a primeira parte do </span><a href="https://www.ingresso.com/filmes/ghibli-fest-2025"><i><span style="font-weight: 400;">Ghibli Fest</span></i></a><span style="font-weight: 400;">, festival de cinema realizado a fim de comemorar os 40 anos do célebre estúdio de animação japonesa </span><i><span style="font-weight: 400;">Ghibli</span></i><span style="font-weight: 400;">, fez tanto sucesso entre o público brasileiro que estenderam a programação em mais 15 dias. Durante quase um mês, 14 longas metragens foram relançados em cinemas de todo o país, incluindo tanto grandes clássicos, como </span><a href="https://personaunesp.com.br/a-viagem-de-chihiro-20-anos/"><i><span style="font-weight: 400;">A Viagem de Chihiro</span></i></a><span style="font-weight: 400;"> (2001) e </span><a href="https://personaunesp.com.br/o-tumulo-dos-vagalumes-totoro-critica/"><i><span style="font-weight: 400;">Meu Amigo Totoro</span></i></a><span style="font-weight: 400;"> (1988), quanto obras menos conhecidas do estúdio, porém não menos surpreendentes, como </span><i><span style="font-weight: 400;">Eu Posso Ouvir o Oceano</span></i><span style="font-weight: 400;"> (1993).</span></p>
<p><span id="more-35935"></span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">O </span><i><span style="font-weight: 400;">Studio Ghibli</span></i><span style="font-weight: 400;"> foi fundado em 1985 pelos diretores Hayao Miyazaki e Isao Takahata em parceria com o produtor Toshio Suzuki. Antes do início formal do estúdio, o trio de cineastas desenvolveu junto o filme </span><i><span style="font-weight: 400;">Nausicaä do Vale do Vento</span></i><span style="font-weight: 400;"> (1984), baseado em um </span><a href="https://editorajbc.com.br/mangas/colecao/nausicaa-do-vale-do-vento/"><span style="font-weight: 400;">mangá</span></a><span style="font-weight: 400;"> escrito por Miyazaki. Após a boa recepção da animação pelo público, o grupo de animadores dedicou-se na produção do primeiro filme oficial do recém criado </span><i><span style="font-weight: 400;">Studio Ghibli</span></i><span style="font-weight: 400;">: </span><i><span style="font-weight: 400;">Castelo no Céu</span></i><span style="font-weight: 400;"> (1986). Ambos já trazem como ponto principal da narrativa a crítica à crise climática, tema constantemente explorado por Miyazaki em grande parte de suas obras. Outro ponto marcante é a abordagem fantástica e poética escolhida para os filmes, tanto no aspecto narrativo quanto nas suaves ilustrações, estilo que tornou-se marca registrada do estúdio. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Na sequência, em 1988, o estúdio lançou dois filmes </span><a href="https://youtu.be/rWfbpG2Ia2g?si=eRphWcpB42-8PSRN"><span style="font-weight: 400;">no mesmo dia</span></a><span style="font-weight: 400;">: </span><i><span style="font-weight: 400;">Meu Amigo Totoro</span></i><span style="font-weight: 400;">, dirigido por Miyazaki, e </span><a href="https://personaunesp.com.br/o-tumulo-dos-vagalumes-totoro-critica/"><i><span style="font-weight: 400;">Túmulo dos Vagalumes</span></i></a><span style="font-weight: 400;">, de Takahata. Essa estratégia foi adotada devido ao caráter contrastante das animações, uma vez que, enquanto </span><i><span style="font-weight: 400;">Meu Amigo Totoro</span></i><span style="font-weight: 400;"> continuava a atmosfera fantástica das primeiras obras do diretor, inclusive amenizando a narrativa para uma abordagem mais mágica e lúdica, própria para o público infantil, o filme </span><i><span style="font-weight: 400;">Túmulo dos Vagalumes</span></i><span style="font-weight: 400;"> focava no impacto da Segunda Guerra Mundial na população civil japonesa. Ambos são considerados marcos do Cinema, porém a obra de Miyazaki consolidou o </span><i><span style="font-weight: 400;">Studio Ghibli</span></i><span style="font-weight: 400;"> no imaginário popular mundial, com a imagem do Totoro sendo utilizada até os dias atuais como a principal logo do estúdio.</span></p>
<figure id="attachment_35943" aria-describedby="caption-attachment-35943" style="width: 800px" class="wp-caption alignnone"><img decoding="async" class="size-medium wp-image-35943" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2025/10/image9-800x450.png" alt="Esta é uma fotografia de Hayao Miyazaki, o aclamado diretor do Studio Ghibli. Ele é um homem idoso, de cabelos e barba brancos, e usa óculos de armação escura. Ele veste um smoking preto com uma gravata borboleta e sorri calorosamente para a câmera. Com as duas mãos, ele segura orgulhosamente uma estatueta do Oscar, que é dourada e brilhante. O fundo é predominantemente dourado e desfocado, sugerindo que ele está em um palco durante uma cerimônia de premiação." width="800" height="450" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2025/10/image9-800x450.png 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2025/10/image9-1024x576.png 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2025/10/image9-768x432.png 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2025/10/image9-1200x675.png 1200w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2025/10/image9.png 1280w" sizes="(max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 984px) 61vw, (max-width: 1362px) 45vw, 600px" /><figcaption id="caption-attachment-35943" class="wp-caption-text">Miyazaki é o segundo japonês na história a receber o Governors Awards, Prêmio Honorário da Academia. O primeiro foi Akira Kurosawa em 1990 (Foto: Frazer Harrison)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">O </span><i><span style="font-weight: 400;">Studio Ghibli</span></i><span style="font-weight: 400;"> está, definitivamente, consolidado no panteão da indústria cinematográfica mundial. A recente consagração com uma </span><a href="https://www.cnnbrasil.com.br/entretenimento/festival-de-cannes-studio-ghibli-recebera-palma-de-ouro-honoraria/"><span style="font-weight: 400;">Palma de Ouro</span></a><span style="font-weight: 400;"> honorária no Festival de </span><i><span style="font-weight: 400;">Cannes</span></i><span style="font-weight: 400;"> – a primeira concedida a uma entidade coletiva como um estúdio – e a conquista de um segundo Oscar de Melhor Animação por </span><a href="https://personaunesp.com.br/o-menino-e-a-garca-critica/"><i><span style="font-weight: 400;">O Menino e a Garça</span></i></a> <span style="font-weight: 400;">(2024) também reconhecem seu sinônimo de Cinema da mais alta estirpe. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Para além da beleza e técnica, suas narrativas exploram a complexidade da experiência humana, a nossa relação com a natureza e a busca por identidade, tudo envolto em um profundo senso de humanismo.</span> <span style="font-weight: 400;">Essa perpetuação também tem o </span><i><span style="font-weight: 400;">Ghibli Fest</span></i><span style="font-weight: 400;"> como mecanismo para além de sua celebração de 40 anos, que leva os clássicos do estúdio de volta às salas de cinema em escala global e possibilita que sejam redescobertos por </span><a href="https://www.meioemensagem.com.br/marketing/studio-ghibli-onda-nas-redes-sociais-reacende-debate-sobre-ia-e-direito-autoral"><span style="font-weight: 400;">novas gerações</span></a><span style="font-weight: 400;"> e reinterpretados pelas antigas, agora dialogando com as ansiedades contemporâneas. </span></p>
<figure id="attachment_35940" aria-describedby="caption-attachment-35940" style="width: 800px" class="wp-caption alignnone"><img decoding="async" class="size-medium wp-image-35940" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2025/10/image6-1-800x534.png" alt="Esta é uma fotografia da réplica em tamanho real do Castelo Animado, do filme &quot;O Castelo Animado&quot; do Studio Ghibli, localizada no Ghibli Park no Japão. A estrutura é uma construção fantástica e assimétrica, parecendo uma colagem de diferentes casas, canos e peças de metal, com uma base escura e enferrujada que se assemelha a uma criatura com pernas e canhões. Em um nível intermediário, há paredes coloridas, uma verde e outra branca. O cenário é um parque com vegetação rasteira, rochas e uma densa floresta ao fundo, sob um céu azul claro. À esquerda, está o personagem Espantalho, com um chapéu-coco e um casaco esfarrapado." width="800" height="534" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2025/10/image6-1-800x534.png 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2025/10/image6-1-768x512.png 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2025/10/image6-1.png 820w" sizes="(max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 984px) 61vw, (max-width: 1362px) 45vw, 600px" /><figcaption id="caption-attachment-35940" class="wp-caption-text">No Ghibli Park, os visitantes podem entrar em uma réplica do Castelo Animado, localizado no setor do Vale das Bruxas (Foto: PR Times)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">Entre uma cultura de </span><i><span style="font-weight: 400;">burnout</span></i><span style="font-weight: 400;">, crise climática e instabilidade geopolítica, não assistimos a </span><i><span style="font-weight: 400;">O Serviço de Entregas da Kiki</span></i><span style="font-weight: 400;"> (1989) ou </span><i><span style="font-weight: 400;">Nausicaä do Vale do Vento</span></i><span style="font-weight: 400;"> (1984) da mesma forma que o público de suas épocas. Sentimos até de forma mais íntima. A partir disso, podemos nomear esse gigante da animação como um dos embaixadores do </span><a href="https://repositorio.ufsc.br/handle/123456789/257857?show=full"><i><span style="font-weight: 400;">Cool Japan</span></i></a><span style="font-weight: 400;"> – o nome do </span><i><span style="font-weight: 400;">soft power</span></i><span style="font-weight: 400;"> que apresenta a cultura japonesa para o mercado global –, que molda e constrói a ponte cultural que volta a audiência internacional e sua percepção quanto ao país e sua cultura. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">O sucesso do estúdio não se restringe apenas às bilheterias arrecadadas, com diversos produtos derivados das animações comercializados internacionalmente, desde os mais comuns, como roupas, até réplicas de itens célebres dos longas-metragens. Assim como o seu contraponto ocidental, a </span><i><span style="font-weight: 400;">Disney</span></i><span style="font-weight: 400;">, o </span><i><span style="font-weight: 400;">Estúdio Ghibli</span></i><span style="font-weight: 400;"> também abriu seu próprio parque de diversões em Nagoia com ambientações inspiradas nos universos fantásticos das suas histórias, tornando realidade o sonho dos fãs de explorar florestas com seres mágicos</span> <span style="font-weight: 400;">e visitar chalés aconchegantes, como em </span><i><span style="font-weight: 400;">Meu Amigo Totoro</span></i><span style="font-weight: 400;"> (1988). Em menor escala, em Tóquio tem o </span><a href="https://www.ghibli-museum.jp/en/films/"><span style="font-weight: 400;">Museu </span><i><span style="font-weight: 400;">Ghibli</span></i></a><span style="font-weight: 400;">, onde, além de exposições sobre a história do estúdio, os visitantes podem apreciar curtas-metragens exclusivos, inclusive alguns dirigidos pelo Miyazaki. </span></p>
<figure id="attachment_35942" aria-describedby="caption-attachment-35942" style="width: 630px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-full wp-image-35942" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2025/10/image8.png" alt="Esta é uma fotografia em ambiente externo dos cineastas japoneses Hayao Miyazaki, à esquerda, e Isao Takahata, à direita, co-fundadores do Studio Ghibli. Miyazaki, com seus característicos cabelos brancos e óculos, veste um avental branco sobre uma camisa de manga curta e segura um machado fincado em um toco de madeira. Ao seu lado, Takahata veste uma camisa social clara de manga curta e calças escuras, segurando um casaco. Ambos olham para cima, para algo fora do campo de visão, em frente a uma casa de madeira escura com vegetação verde e uma pilha de lenha ao fundo." width="630" height="307" /><figcaption id="caption-attachment-35942" class="wp-caption-text">Alguns críticos interpretam que o filme mais recente de Miyazaki, O Menino e a Garça, é inspirado no seu relacionamento com Takahata, o qual faleceu em 2018 (Foto: Brutus Magazine)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">A identidade artística do </span><i><span style="font-weight: 400;">Studio Ghibli</span></i><span style="font-weight: 400;"> é também resultado de uma coalizão criativa entre seus dois fundadores/diretores, Miyazaki e Takahata. A relação entre eles, documentada em obras como </span><i><span style="font-weight: 400;">O Reino dos Sonhos e da Loucura </span></i><span style="font-weight: 400;">(2013), é frequentemente descrita como uma rivalidade de mangá </span><a href="https://www.omelete.com.br/anime-manga/lista-rivais-animes-sasuke"><i><span style="font-weight: 400;">shounen</span></i></a><span style="font-weight: 400;"> em que dois amigos e rivais que se impulsionam mutuamente para a excelência, cada um buscando superar o trabalho do outro. Essa tensão dialética e não monolítica foi, possivelmente, um dos ingredientes na fórmula para o sucesso arrebatador do estúdio.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Miyazaki infunde em suas obras um otimismo humanista fundamental, uma crença resiliente de que, apesar de tudo, vale a pena viver neste mundo. Takahata, por outro lado, inclinava-se para um realismo frequentemente doloroso e pessimista. Seus filmes, como o devastador </span><a href="https://dialogosinternacionais.com.br/?p=3355"><i><span style="font-weight: 400;">O Túmulo dos Vagalumes</span></i></a><span style="font-weight: 400;">, tocam em nervos expostos da história e da condição humana.</span> <span style="font-weight: 400;">Essa dicotomia estendia-se também à sua abordagem estilística. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Takahata era um experimentalista, alterando radicalmente o estilo de animação para servir à história, como visto na estética de tirinhas de jornal de </span><a href="https://www.planocritico.com/critica-meus-vizinhos-os-yamadas/"><i><span style="font-weight: 400;">Meus Vizinhos os Yamadas</span></i></a><span style="font-weight: 400;"> (1999) ou na beleza etérea de aquarela de </span><i><span style="font-weight: 400;">O Conto da Princesa Kaguya </span></i><span style="font-weight: 400;">(2013). Já Miyazaki, embora igualmente detalhista, opera dentro de uma fantasia mais consistente, onde o realismo serve para ancorar o fantástico e dar peso a mundos imaginários. </span></p>
<figure id="attachment_35936" aria-describedby="caption-attachment-35936" style="width: 800px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-medium wp-image-35936" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2025/10/image1-7-800x450.png" alt="Cena da animação Nausicaä do Vale do Vento, do Studio Ghibli. A imagem retrata uma personagem em um cenário de floresta fantástica e sombria, com tons predominantes de roxo e azul escuro. A personagem, usando um traje azul, capacete e uma máscara, segura uma arma longa e parece estar em alerta. À sua frente, há uma grande criatura insetoide de cor avermelhada com múltiplos olhos. O ambiente é preenchido por plantas estranhas e altas, algumas com pontas brancas e brilhantes, e estruturas que se assemelham a cogumelos gigantes." width="800" height="450" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2025/10/image1-7-800x450.png 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2025/10/image1-7-1024x576.png 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2025/10/image1-7-768x432.png 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2025/10/image1-7-1536x864.png 1536w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2025/10/image1-7-1200x675.png 1200w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2025/10/image1-7.png 1999w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 984px) 61vw, (max-width: 1362px) 45vw, 600px" /><figcaption id="caption-attachment-35936" class="wp-caption-text">O mangá original de Nausicaä contém 7 volumes, lançados entre 1982 e 1994, e atualmente já foram vendidas mais de 10 milhões de cópias apenas no Japão (Foto: Studio Ghibli)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">Lançado antes da fundação oficial do estúdio, mas considerado seu precursor espiritual, </span><a href="https://reporterpopular.com.br/nausicaa-do-vale-do-vento-e-a-alegoria-da-industrializacao/"><i><span style="font-weight: 400;">Nausicaä do Vale do Vento</span></i></a><span style="font-weight: 400;"> (1984) foi concebido na Guerra Fria. Sua narrativa é em um mundo pós-apocalíptico, devastado pelo dito Sete Dias de Fogo e coberto por uma selva tóxica, uma alegoria ao medo de um inverno nuclear. Hoje, essa mesma imagem adquire uma relevância literal e assustadora. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Uma década depois, Miyazaki revisitaria a tensão entre a humanidade e a natureza de uma forma ainda mais conflituosa em </span><a href="https://tesouracomponta.com/o-relancamento-de-princesa-mononoke-a-ferida-ainda-nao-cicatrizou/"><i><span style="font-weight: 400;">Princesa Mononoke</span></i></a><span style="font-weight: 400;"> (1997). Se em </span><i><span style="font-weight: 400;">Nausicaä</span></i><span style="font-weight: 400;"> a esperança reside na compreensão e coexistência com uma natureza alienígena, </span><i><span style="font-weight: 400;">Mononoke</span></i><span style="font-weight: 400;"> apresenta um conflito irreconciliável entre o progresso industrial da Cidade de Ferro, liderada pela pragmática Lady Eboshi, e os deuses-animais da floresta, representados pela selvagem San. A violência é explícita e as lealdades são complexas, no entanto a possibilidade de um equilíbrio, ainda que frágil, permanece como um ideal </span><i><span style="font-weight: 400;">miyazakiano</span></i><span style="font-weight: 400;">.</span></p>
<figure id="attachment_35941" aria-describedby="caption-attachment-35941" style="width: 800px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-medium wp-image-35941" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2025/10/image7-800x463.png" alt="Cena da animação Pom Poko, do Studio Ghibli. A imagem exibe um exército de tanukis (cães-guaxinim japoneses) em pé e com aparência de guerreiros. No centro, um tanuki maior e mais proeminente, usando uma faixa vermelha na cabeça e uma armadura, lidera o grupo com uma expressão séria. Os demais tanukis ao fundo também usam faixas coloridas na cabeça, empunham cajados de madeira e mostram expressões de raiva e determinação. A cena se passa à noite, sob um céu azul-escuro, e um dos tanukis segura uma pequena bandeira vermelha." width="800" height="463" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2025/10/image7-800x463.png 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2025/10/image7-1024x592.png 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2025/10/image7-768x444.png 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2025/10/image7-1200x694.png 1200w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2025/10/image7.png 1400w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 984px) 61vw, (max-width: 1362px) 45vw, 600px" /><figcaption id="caption-attachment-35941" class="wp-caption-text">Os guaxinins do filme Pompoko são inspirados no folclore japonês e assumem uma forma realista quando estão sob observação dos humanos, porém agem de forma antropomórfica quando sozinhos (Foto: Studio Ghibli)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">À primeira vista e por outro lado, de Takahata, </span><a href="https://www.planocritico.com/critica-pompoko-a-grande-batalha-dos-guaxinins/"><i><span style="font-weight: 400;">PomPoko &#8211; A Grande Batalha dos Guaxinins</span></i></a> <span style="font-weight: 400;">(1994) parece uma fábula ambientalista sobre a luta de </span><i><span style="font-weight: 400;">tanukis</span></i><span style="font-weight: 400;"> (cães-guaxinim) mágicos contra a expansão urbana de Tóquio. No entanto, fala sobre a destruição da cultura, do folclore e das tradições diante do avanço implacável do ‘progresso’ capitalista. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Quando os </span><a href="https://japanhousesp.com.br/jhsponline/yokai-tanuki-o-cao-guaxinim-que-atrai-prosperidade-e-boa-sorte/"><i><span style="font-weight: 400;">tanukis</span></i></a><span style="font-weight: 400;"> usam sua magia para projetar uma visão fantasmagórica da paisagem como ela era antes do desenvolvimento – não uma natureza selvagem, mas um mosaico de fazendas, santuários e vilarejos. Isso revela que a luta é por um estilo de vida. Enquanto Miyazaki, tanto em </span><i><span style="font-weight: 400;">Nausicaä</span></i><span style="font-weight: 400;"> quanto em </span><i><span style="font-weight: 400;">Mononoke</span></i><span style="font-weight: 400;">, busca um caminho, por mais difícil que seja, para a harmonia ou um novo começo, a conclusão de </span><i><span style="font-weight: 400;">Pom Poko</span></i><span style="font-weight: 400;"> é majoritariamente pessimista e socialmente realista. A magia dos tanukis falha em deter o dito progresso. Não há pacto com a natureza ou vitória moral; a única saída é a assimilação, a perda de identidade em troca da sobrevivência. </span></p>
<figure id="attachment_35938" aria-describedby="caption-attachment-35938" style="width: 800px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-medium wp-image-35938" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2025/10/image4-3-800x433.png" alt="Cena da animação O Castelo Animado, do Studio Ghibli. A imagem mostra Sophie, uma jovem de cabelos brancos presos em uma trança, vestindo um longo azul com avental branco. Ela está de pé em uma escadaria externa, olhando para uma rua de uma cidade com arquitetura europeia. O céu e os prédios ao fim da rua estão dramaticamente pegando fogo e iluminados em tons de vermelho e laranja." width="800" height="433" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2025/10/image4-3-800x433.png 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2025/10/image4-3-1024x554.png 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2025/10/image4-3-768x415.png 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2025/10/image4-3-1200x649.png 1200w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2025/10/image4-3.png 1400w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 984px) 61vw, (max-width: 1362px) 45vw, 600px" /><figcaption id="caption-attachment-35938" class="wp-caption-text">O filme do Castelo Animado foi adaptado do livro homônimo da escritora americana Diana Wynne Jones publicado em 1986 (Foto: Studio Ghibli)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">A produção de </span><i><span style="font-weight: 400;">O Castelo Animado</span></i><span style="font-weight: 400;"> (2004) foi uma resposta de Miyazaki à Guerra do Iraque de 2003. Nesse mesmo ano, ele não estava presente na cerimônia do </span><i><span style="font-weight: 400;">Oscar</span></i><span style="font-weight: 400;"> quando ganhou Melhor Animação pelo filme </span><i><span style="font-weight: 400;">A Viagem de Chihiro</span></i><span style="font-weight: 400;">. Em </span><a href="https://www.latimes.com/archives/blogs/hero-complex-blog/story/2009-07-24/comic-con-miyazaki-breaks-his-silent-protest-of-americas-actions-in-iraq-with-visit-to-the-u-s"><span style="font-weight: 400;">entrevista ao </span><i><span style="font-weight: 400;">LA Times</span></i></a><span style="font-weight: 400;">, explicou que “</span><i><span style="font-weight: 400;">Não queria estar presente em um país que estava bombardeando o Iraque</span></i><span style="font-weight: 400;">”, destacando, novamente, os valores pacifistas do diretor. No filme, a guerra é retratada como anônima, sem sentido e terrivelmente destrutiva. Enormes naves de guerra bombardeiam cidades civis, as transformando em infernos de fogo. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Howl, </span><a href="https://www.followthemoonrabbit.com/howls-moving-castle-people-dont-want-to-be-adults/"><span style="font-weight: 400;">o protagonista</span></a><span style="font-weight: 400;"> subverte o arquétipo do herói de guerra. Ele é, na essência, um objetor de consciência que usa sua magia para evitar o combate. Quando é forçado a lutar, ele se transforma em uma criatura monstruosa, vez que a participação na violência é inerentemente desumanizadora. Sua luta, em paralelo, também é para proteger as pessoas que ama. Miyazaki, assim, transforma o pacifismo de dogmas em resistência pessoal e existencial.</span></p>
<figure id="attachment_35939" aria-describedby="caption-attachment-35939" style="width: 800px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-medium wp-image-35939" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2025/10/image5-1-800x497.png" alt="Cena da animação A viagem de chihiro, focando na protagonista. Ela é uma menina de cabelos castanhos e olhos grandes, com uma expressão de surpresa e bochechas coradas. Ela veste uma blusa branca e verde e segura um elástico de cabelo roxo. Ao fundo, na parede, há um pequeno quadro ou tapeçaria colorida com a figura de uma bruxa de chapéu pontudo e vestido escuro, além de um baú e outros elementos rústicos do cenário." width="800" height="497" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2025/10/image5-1-800x497.png 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2025/10/image5-1-1024x637.png 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2025/10/image5-1-768x477.png 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2025/10/image5-1.png 1184w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 984px) 61vw, (max-width: 1362px) 45vw, 600px" /><figcaption id="caption-attachment-35939" class="wp-caption-text">Entre os filmes do estúdio, existem vários easter eggs de outros do mesmo universo, como o quadro de uma bruxinha em A Viagem de Chihiro (Foto: Studio Ghibli)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">Entre as obras mais aclamadas do </span><i><span style="font-weight: 400;">Studio Ghibli</span></i><span style="font-weight: 400;">, </span><a href="https://personaunesp.com.br/a-viagem-de-chihiro-20-anos/"><i><span style="font-weight: 400;">A Viagem de Chihiro</span></i></a><span style="font-weight: 400;"> e </span><i><span style="font-weight: 400;">O Serviço de Entregas da Kiki</span></i><span style="font-weight: 400;"> exemplificam a dualidade em conter críticas sociais e ao mesmo tempo, construídas como peças de entretenimento de altíssima qualidade. Em </span><i><span style="font-weight: 400;">A Viagem de Chihiro</span></i><span style="font-weight: 400;">, vencedor do </span><i><span style="font-weight: 400;">Oscar</span></i><span style="font-weight: 400;"> e um fenômeno global, a crítica ao capitalismo tardio e à cultura de consumo que permeia todo o longa.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">A </span><a href="https://coisasdojapao.com/2020/12/cinco-lugares-que-parecem-cenas-de-spirited-away-do-studio-ghibli/"><span style="font-weight: 400;">casa de banhos</span></a><span style="font-weight: 400;"> dos espíritos é um microcosmo da sociedade, regida por Yubaba, uma feiticeira em trajes ocidentais como poder corporativo personificado. Seu primeiro ato é roubar o nome de seus empregados, apagando sua identidade em troca de trabalho. Assim, o consumo é associado à perda enquanto os pais de Chihiro viram porcos por sua avidez, e o </span><a href="https://www.adorocinema.com/noticias/filmes/noticia-1000063369/"><span style="font-weight: 400;">Sem Rosto</span></a><span style="font-weight: 400;">, personificação da ansiedade de identidade, tenta preencher seu vazio consumindo os outros, tornando-se um monstro insaciável. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Contudo, parte do apelo universal de </span><i><span style="font-weight: 400;">Chihiro</span></i><span style="font-weight: 400;"> reside em sua capacidade de ser apreciado puramente como uma espetacular aventura de amadurecimento. A construção de seu mundo, repleto de deuses e espíritos da mitologia japonesa é visualmente deslumbrante. Da mesma forma, </span><a href="https://valkirias.com.br/o-servico-de-entregas-da-kiki/"><i><span style="font-weight: 400;">O Serviço de Entregas da Kiki</span></i></a><span style="font-weight: 400;">, traz crise de Kiki, na qual ela perde sua capacidade de voar em uma metáfora para a exaustão criativa que ocorre quando a paixão vira trabalho, e sua ruca reside em seus afetos e nas pequenas felicidades e gentilezas do dia-a-dia.</span></p>
<figure id="attachment_35946" aria-describedby="caption-attachment-35946" style="width: 800px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="wp-image-35946 size-medium" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2025/10/image3-6-800x449.png" alt="Cena da animação &quot;Eu Posso Ouvir o Oceano&quot;, do Studio Ghibli. A imagem mostra os protagonistas Taku Morisaki, à esquerda, e Rikako Muto, à direita, sentados lado a lado dentro de um avião. Taku, de cabelo preto e jaqueta vermelha, olha para baixo com fones de ouvido. Rikako, de longos cabelos pretos e blusa listrada, olha para o lado com uma expressão pensativa. Os assentos do avião são azuis e o logo da companhia aérea ANA é visível." width="800" height="449" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2025/10/image3-6-800x449.png 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2025/10/image3-6-1024x575.png 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2025/10/image3-6-768x431.png 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2025/10/image3-6-1200x674.png 1200w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2025/10/image3-6.png 1280w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 984px) 61vw, (max-width: 1362px) 45vw, 600px" /><figcaption id="caption-attachment-35946" class="wp-caption-text">O filme Eu Posso Ouvir o Oceano é uma adaptação da série de livros de mesmo nome criada por Saeko Himoru (Foto: Studio Ghibli)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">Produzido como um filme para a televisão por uma equipe mais jovem do estúdio e por outro diretor, Tomomi Mochizuki, </span><a href="https://www.planocritico.com/critica-eu-posso-ouvir-o-oceano/"><i><span style="font-weight: 400;">Eu Posso Ouvir o Oceano</span></i></a> <span style="font-weight: 400;">(1993) é uma obra singular no cânone </span><i><span style="font-weight: 400;">Ghibli</span></i><span style="font-weight: 400;"> – um drama realista e contido. Visto hoje, a produção é uma cápsula do tempo de um mundo brevemente pré-internet. Sua trama de triângulo amoroso adolescente é impulsionada por mal-entendidos, telefonemas perdidos, encontros desencontrados e a lenta troca de cartas – conflitos inconcebíveis hoje. O longa serve como um contraponto melancólico e fora da curva no estúdio, com apenas uma hora é também um dos menos vistos e aclamados.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Ao incluir esses filmes menos consolidados, o </span><i><span style="font-weight: 400;">Ghibli Fest</span></i><span style="font-weight: 400;"> cria espaço para celebrar não apenas seus grandes mestres, como Miyazaki e Takahata, mas também todos os outros diretores e profissionais que participaram ativamente da formação da filmografia do estúdio. No início de 2026, está programada para acontecer a segunda parte do festival, com oito novos filmes ainda não relançados durante essa fase inicial. É a oportunidade perfeita para rever seus filmes favoritos ou se aventurar pela primeira vez no universo encantador das animações do </span><i><span style="font-weight: 400;">Studio Ghibli</span></i><span style="font-weight: 400;">. </span></p>
<div class="jetpack-video-wrapper"><iframe loading="lazy" title="Ghibli Fest | Trailer Oficial" width="840" height="473" src="https://www.youtube.com/embed/5bJ1SfEO4JM?feature=oembed" frameborder="0" allow="accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share" referrerpolicy="strict-origin-when-cross-origin" allowfullscreen></iframe></div>
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		<title>A dor, a Arte, O Menino e a Garça</title>
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		<pubDate>Thu, 29 Feb 2024 17:52:14 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Cinema]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Guilherme Veiga O Cinema, nascido e criado envolto a subjetivismo, nunca foi unânime. Percebemos isso ao questionarmos quem foi o maior idealizador dessa Arte, por exemplo. Não existe resposta certa, não há consenso. Uns respondem baseados em apego, outros levam qualidade em conta, mas nunca surge um denominador comum – e ainda bem que é &#8230; <a href="http://personaunesp.com.br/o-menino-e-a-garca-critica/" class="more-link">Continue lendo<span class="screen-reader-text"> "A dor, a Arte, O Menino e a Garça"</span></a></p>
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										<content:encoded><![CDATA[<figure id="attachment_32536" aria-describedby="caption-attachment-32536" style="width: 800px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-medium wp-image-32536" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2024/02/image2-6-800x434.png" alt="Cena da animação O Menino e a Garça. Nela vemos Mahito uma criança em estilo de anime de pele branca, olhos pretos, e cabelo preto. Na imagem também há a figura da garça, que tem um bico amarelo, onde há uma rolha, dentes humanos, penugem branca com alguns detalhes em azul. Mahito e a garça estão se encarando, enquanto estão escondidos em um muro de pedra na cor esverdeada." width="800" height="434" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2024/02/image2-6-800x434.png 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2024/02/image2-6-1024x555.png 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2024/02/image2-6-768x416.png 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2024/02/image2-6-1536x832.png 1536w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2024/02/image2-6-1200x650.png 1200w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2024/02/image2-6.png 1993w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 984px) 61vw, (max-width: 1362px) 45vw, 600px" /><figcaption id="caption-attachment-32536" class="wp-caption-text">Após período de incerteza, longa chegou às telas brasileiras pela Sato Company (Foto: Studio Ghibli)</figcaption></figure>
<p><b>Guilherme Veiga</b></p>
<p><span style="font-weight: 400;">O Cinema, nascido e criado envolto a subjetivismo, nunca foi unânime. Percebemos isso ao questionarmos quem foi o maior idealizador dessa Arte, por exemplo. Não existe resposta certa, não há consenso. Uns respondem baseados em apego, outros levam qualidade em conta, mas nunca surge um denominador comum – e ainda bem que é assim. Nem mesmo se delimitarmos o conjunto de opções: nos filmes de máfia, Martin Scorsese e Francis Ford Coppola despontam; no Cinema </span><i><span style="font-weight: 400;">blockbuster</span></i><span style="font-weight: 400;">, Steven Spielberg e James Cameron são pilares; no terror, Wes Craven e John Carpenter e a lista continua não importa o quão nichada. Mas como para toda regra há uma exceção, ao falarmos de animação estamos falando de </span><a href="https://www.youtube.com/watch?v=8ZJed_7Rdf0"><span style="font-weight: 400;">Hayao Miyazaki</span></a><span style="font-weight: 400;">, ele e somente ele.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Continuando um movimento recente de se entender e se eternizar como parte da história da Sétima Arte (já que a própria indústria não reconhece isso), a exemplo do que Spielberg fez com </span><a href="https://personaunesp.com.br/os-fabelmans-critica/"><i><span style="font-weight: 400;">Os Fabelmans</span></i></a><span style="font-weight: 400;"> ou Scorsese emulou de forma sútil em </span><a href="https://personaunesp.com.br/assassinos-da-lua-das-flores-critica/"><i><span style="font-weight: 400;">Assassinos da Lua Das Flores</span></i></a><span style="font-weight: 400;">, o lendário fundador do Studio Ghibli também retorna da aposentadoria. Coppola já tem 84 anos; Clint Eastwood, 92; Ridley Scott, 86; Craven e Carpenter já se foram, e por mais que doa perceber que pessoas que indiretamente fizeram parte de nossas vidas estão nos deixando, eras se encerram. E é com </span><i><span style="font-weight: 400;">O Menino e a Garça </span></i><span style="font-weight: 400;">que Miyazaki, com seus 83 anos, prepara a si e ao espectador para o fim.</span></p>
<p><span id="more-32535"></span></p>
<figure id="attachment_32537" aria-describedby="caption-attachment-32537" style="width: 800px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-medium wp-image-32537" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2024/02/image1-5-800x433.png" alt="Cena da animação O Menino e a Garça. Nela vemos dezenas de Warawaras, seres em formato entre o oval e o circular, de cor branca, com pequenos braços e pernas, olhos e boca. Eles estão descendo sobre uma superfície inclinada, por isso, alguns estão caindo." width="800" height="433" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2024/02/image1-5-800x433.png 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2024/02/image1-5-768x415.png 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2024/02/image1-5.png 1008w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 984px) 61vw, (max-width: 1362px) 45vw, 600px" /><figcaption id="caption-attachment-32537" class="wp-caption-text">Já comuns na estética do diretor, os Warawara – representações de almas antes do nascimento – são os ‘bichinhos fofos’ da vez (Foto: Studio Ghibli)</figcaption></figure>
<p><i><span style="font-weight: 400;">O Menino e a Garça </span></i><span style="font-weight: 400;">conta a história de Mahito, um menino de onze anos que, após perder sua mãe na </span><a href="https://personaunesp.com.br/godzilla-minus-one-critica/"><span style="font-weight: 400;">Segunda Guerra</span></a><span style="font-weight: 400;">, se muda para uma região bucólica, depois de seu pai começar a se relacionar com sua tia. Na fazenda em questão, tentando se adaptar com sua nova dinâmica familiar e ainda revivendo o luto, ele encontra uma garça mágica, que o instiga a desbravar uma torre abandonada da região. Após o desaparecimento de sua agora madrasta Natsuko, Mahito é atraído pela garça para dentro da torre, que joga os dois em uma espécie de submundo mágico, onde precisam encontrar Natsuko e trazê-la de volta ao ‘mundo real’.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">As aspas nas últimas palavras do parágrafo anterior são intencionais, não para desqualificar o gênero animação, mas sim porque Miyazaki propositalmente brinca com (e ultrapassa) as fronteiras do que é real. O diretor é adepto ao </span><a href="https://brasilescola.uol.com.br/religiao/xintoismo.htm"><span style="font-weight: 400;">xintoismo</span></a><span style="font-weight: 400;">, crença japonesa que prega o culto à natureza e a aproximação entre o mundo e o sagrado. Dessa forma, suas obras sempre representaram a união das duas religiões do cineasta. Em uma, ele é devoto, na outra, Deus.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Na tradução original do japonês, e que também foi o primeiro título provisório do longa no exterior, ele se chamaria </span><i><span style="font-weight: 400;">How Do You Live?</span></i><span style="font-weight: 400;"> (Como Você Vive?). Mesmo esse nome não atendendo o molde do qual todas as outras obras do Studio Ghibli foram nomeadas, talvez ele fosse o mais certeiro. A Arte de Miyazaki é, em suma, reflexiva, diferente do que a animação, principalmente a ocidental, tentou imputar como somente uma representação de um mundo fantasioso, impulsionada pela </span><a href="https://www.polygon.com/animation-cartoons/2020/5/27/21272224/disney-studio-ghibli-partnership-dubs-history"><i><span style="font-weight: 400;">Disney</span></i></a><span style="font-weight: 400;"> – até por isso, ele detesta ser denominado de Walt Disney japonês. Dessa forma, </span><i><span style="font-weight: 400;">O Menino e a Garça</span></i><span style="font-weight: 400;"> instiga esse questionamento ao espectador, dessa vez através da reflexão do diretor acerca da pergunta.</span></p>
<p><figure id="attachment_32538" aria-describedby="caption-attachment-32538" style="width: 800px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-medium wp-image-32538" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2024/02/image4-4-800x450.png" alt="Cena de O Menino e a Garça. Nela vemos Mahito e o tio-avô, um idoso de cabelos brancos espetados. os dois estão de costas, Mahito veste uma regata branca, calça cinza e cinto, enquanto o tio-avô veste uma espécie de capa na cor marrom. Eles estão em um campo verdejante com algumas flores amarelas ao vento e encaram uma gigantesca pedra na cor marrom que está flutuando." width="800" height="450" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2024/02/image4-4-800x450.png 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2024/02/image4-4-1024x576.png 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2024/02/image4-4-768x432.png 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2024/02/image4-4-1536x864.png 1536w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2024/02/image4-4-1200x675.png 1200w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2024/02/image4-4.png 1600w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 984px) 61vw, (max-width: 1362px) 45vw, 600px" /><figcaption id="caption-attachment-32538" class="wp-caption-text">Mesmo sem nenhum esforço de marketing, o filme foi a maior bilheteria de abertura de Miyazaki no Japão desde A Viagem de Chihiro (2001) [Foto: Studio Ghibli]</figcaption></figure><span style="font-weight: 400;">Por isso, mais do que toda sua filmografia, </span><i><span style="font-weight: 400;">O Menino e a Garça </span></i><span style="font-weight: 400;">é essencialmente a figura do diretor, não só em estética, já que faz uma ode aos signos de sua carreira, mas em história. Miyazaki está refletido na aquarela de cada </span><i><span style="font-weight: 400;">frame</span></i><span style="font-weight: 400;">, na composição de cada personagem. Ele é desde Mahito até o </span><a href="https://www.cbr.com/ponyo-miyazaki-apology-to-son/"><span style="font-weight: 400;">pai ameaçador</span></a><span style="font-weight: 400;">. Mas como foi sempre de seu feitio cruzar os limites sobrepostos, ao mesmo tempo que a obra fala dele, também fala de sua volta. Segundo Toshio Suzuki, co-fundador do Studio Ghibli, ele se vê na garça, enquanto o personagem do tio-avô de Mahito é claramente Isao Takahata (</span><i><span style="font-weight: 400;">O Túmulo dos Vagalumes</span></i><span style="font-weight: 400;">), outro fundador e mentor do diretor na animação.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">O processo criativo do longa começou em 2016 e, em 2018, </span><a href="https://www.nytimes.com/2018/04/06/obituaries/isao-takahata-leader-in-japanese-animation-dies-at-82.html"><span style="font-weight: 400;">Takahata faleceu</span></a><span style="font-weight: 400;">, na idade que o diretor de </span><i><span style="font-weight: 400;">O Menino e a Garça </span></i><span style="font-weight: 400;">tinha durante seu lançamento no ano passado. De acordo com Suzuki, o tio-avô teria mais tempo de tela, mas a produção foi reformulada após Miyazaki ter que lidar com o luto, razão essa que torna a angústia de Mahito ainda mais verossímil e dilacerante.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Tais razões fazem com que a mais recente obra seja a mais pessoal não só do diretor como do estúdio ao tratar de forma tão próxima e reimaginada um tema como a </span><a href="https://musicnonstop.uol.com.br/livro-desvenda-como-os-desenhos-animados-do-studio-ghibli-lidam-com-o-luto-em-suas-historias/"><span style="font-weight: 400;">morte</span></a><span style="font-weight: 400;">. É preciso uma nobreza gigantesca para encarar uma temática tão próxima de si, para enfiar o dedo na própria ferida que custa cicatrizar e fazer uma dor tão pungente virar Arte.</span></p>
<figure id="attachment_32539" aria-describedby="caption-attachment-32539" style="width: 800px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-medium wp-image-32539" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2024/02/image3-4-800x495.png" alt="Cena de O Menino e a Garça. Nela, vemos Mahito, um menino de pele branca, olhos e cabelos pretos. Ele veste uma espécie de casaco militar na cor cinza. Ele está de lado para a imagem, com o semblante assustado e sujo. Algumas bandagens estão sobre seu corpo e passando pela tela. Ao fundo, apenas um fundo preto." width="800" height="495" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2024/02/image3-4-800x495.png 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2024/02/image3-4-1024x634.png 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2024/02/image3-4-768x476.png 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2024/02/image3-4.png 1200w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 984px) 61vw, (max-width: 1362px) 45vw, 600px" /><figcaption id="caption-attachment-32539" class="wp-caption-text">O Menino e a Garça é a sétima indicação do Studio Ghibli ao Oscar e a quarta de Miyazaki (Foto: Studio Ghibli)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">Chega a ser um escárnio que uma companhia tão importante para a animação só tenha um </span><a href="https://personaunesp.com.br/?s=oscar"><i><span style="font-weight: 400;">Oscar</span></i></a><span style="font-weight: 400;"> com </span><i><span style="font-weight: 400;">A Viagem de Chihiro</span></i><span style="font-weight: 400;">. Porém, para uma organização que custa a </span><a href="https://personaunesp.com.br/animacao-oscar-artigo/"><span style="font-weight: 400;">aceitar o gênero</span></a><span style="font-weight: 400;">, conceber que existem produções fora do eixo americano é um passo grande demais. Por mais que a trilha sonora incrível de </span><a href="https://www.youtube.com/watch?v=HfQvAKlCqtU"><span style="font-weight: 400;">Joe Hisaishi</span></a><span style="font-weight: 400;"> tenha sido esnobada, o longa chega para a disputa de Melhor Animação com um </span><i><span style="font-weight: 400;">line-up</span></i><span style="font-weight: 400;"> bastante favorável, no qual vai disputar com um monopólio da </span><i><span style="font-weight: 400;">Pixar</span></i><span style="font-weight: 400;"> agora cambaleante, que tem como representante </span><a href="https://personaunesp.com.br/elementos-critica/"><i><span style="font-weight: 400;">Elementos</span></i></a><span style="font-weight: 400;">, e com </span><a href="https://personaunesp.com.br/homem-aranha-atraves-do-aranhaverso-critica/"><i><span style="font-weight: 400;">Homem-Aranha: Através do Aranhaverso</span></i></a><span style="font-weight: 400;">, que chega sem o mesmo fôlego de seu antecessor.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Assim como as peças que compõem os mundos de </span><a href="https://www.youtube.com/watch?v=t5khm-VjEu4"><i><span style="font-weight: 400;">O Menino e a Garça</span></i></a><span style="font-weight: 400;">, a obra chegou no momento certo para coroar uma filmografia. Entre as idas e vindas das supostas aposentadorias do diretor, uma coisa é certa: sua volta é sempre pelo seu amor incondicional pela animação. Dessa vez, o tom de despedida é verdadeiramente mais real, só que menos amargo. Miyazaki entrou mais uma vez em sua epifania fantástica e dessa vez em seu íntimo, abriu as portas de seu legado e saiu, mas deixou a porta aberta para nós. E sempre seremos bem-vindos.</span></p>
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		<title>20 anos atrás, A Viagem de Chihiro ensinava através do silêncio</title>
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		<pubDate>Fri, 30 Jul 2021 15:51:54 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p>Enrico Souto Entre as jornadas monumentais, épicas e maiores que a vida de Princesa Mononoke e O Castelo Animado, e as histórias mais comedidas, intimistas e descaradamente infantis de Meu Vizinho Totoro e O Serviço de Entregas da Kiki, A Viagem de Chihiro é a amálgama perfeita dessas duas facetas de Hayao Miyazaki. Não que &#8230; <a href="http://personaunesp.com.br/a-viagem-de-chihiro-20-anos/" class="more-link">Continue lendo<span class="screen-reader-text"> "20 anos atrás, A Viagem de Chihiro ensinava através do silêncio"</span></a></p>
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										<content:encoded><![CDATA[<figure id="attachment_21729" aria-describedby="caption-attachment-21729" style="width: 1920px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-full wp-image-21729" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/07/IMAGEM-1-1.jpg" alt="Cena do filme de animação “A Viagem de Chihiro”. À frente, vemos Chihiro, uma garota asiática, pele branca, bochechas rosadas e cabelo castanho preso em um rabo de cavalo. Ela usa uma camisa branca e verde, um short vermelho e tênis amarelos. Ela está sorrindo eufórica, correndo em cima de uma ponte de madeira, enquanto uma multidão acalorada atrás dela se despede e comemora. Todos estão em um grande prédio de arquitetura japonesa, pintado de vermelho e branco, com os tetos esverdeados. A cena se passa de dia." width="1920" height="1038" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/07/IMAGEM-1-1.jpg 1920w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/07/IMAGEM-1-1-800x433.jpg 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/07/IMAGEM-1-1-1024x554.jpg 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/07/IMAGEM-1-1-768x415.jpg 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/07/IMAGEM-1-1-1536x830.jpg 1536w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/07/IMAGEM-1-1-1200x649.jpg 1200w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 1362px) 62vw, 840px" /><figcaption id="caption-attachment-21729" class="wp-caption-text">Chihiro atesta: ainda vale a pena ser criança (Foto: Studio Ghibli)</figcaption></figure>
<p><b>Enrico Souto</b></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Entre as jornadas monumentais, épicas e maiores que a vida de </span><a href="http://personaunesp.com.br/20-anos-mononoke-critica/"><i><span style="font-weight: 400;">Princesa Mononoke</span></i></a><span style="font-weight: 400;"> e </span><a href="https://www.omelete.com.br/filmes/criticas/io-castelo-animadoi"><i><span style="font-weight: 400;">O Castelo Animado</span></i></a><span style="font-weight: 400;">, </span><span style="font-weight: 400;">e as histórias mais comedidas, intimistas e descaradamente infantis de </span><a href="https://personaunesp.com.br/o-tumulo-dos-vagalumes-totoro-critica/"><i><span style="font-weight: 400;">Meu Vizinho Totoro</span></i></a> <span style="font-weight: 400;">e </span><a href="https://valkirias.com.br/o-servico-de-entregas-da-kiki/"><i><span style="font-weight: 400;">O Serviço de Entregas da Kiki</span></i></a><span style="font-weight: 400;">, </span><a href="https://valkirias.com.br/simbologia-e-identidade-em-a-viagem-de-chihiro/"><i><span style="font-weight: 400;">A Viagem de Chihiro</span></i></a> <span style="font-weight: 400;">é a amálgama perfeita dessas duas facetas de Hayao Miyazaki. Não que </span><i><span style="font-weight: 400;">Mononoke</span></i><span style="font-weight: 400;"> não tenha retratos de serenidade e um forte prisma emocional, nem que </span><i><span style="font-weight: 400;">Kiki</span></i><span style="font-weight: 400;"> não disponha de cenas grandiosas e homéricas – o diretor costuma trabalhar em uma zona cinzenta que uma categorização meramente dualista não seria capaz de cobrir –, porém, olhando para trás 20 anos depois, é indiscutível que, nesse título, essas potências, provenientes do gênero de realismo mágico, encontram seu equilíbrio definitivo, a partir de uma narrativa sensível e tocante sobre os infortúnios de crescer e se tornar adulto, rompendo barreiras culturais e de linguagem como nenhuma outra mídia fez antes.</span></p>
<p><span id="more-21728"></span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Apesar de algumas obras isoladas explorarem as convenções estéticas dos </span><i><span style="font-weight: 400;">animes</span></i><span style="font-weight: 400;"> em técnicas de animação digitais, como os </span><a href="https://www.omegascopio.com.br/artigos/o-filme-que-acabou-com-a-square-pictures/"><span style="font-weight: 400;">filmes de </span><i><span style="font-weight: 400;">Final Fantasy</span></i></a> <span style="font-weight: 400;">dos anos 2000 e o mais recente lançado longa de </span><a href="https://www.planocritico.com/critica-lupin-iii-o-primeiro/"><i><span style="font-weight: 400;">Lupin III: O Primeiro</span></i></a><span style="font-weight: 400;">, é fato que o mercado de animações do Japão mantém-se bastante fiel às técnicas tradicionais do </span><i><span style="font-weight: 400;">2D</span></i><span style="font-weight: 400;">, diferente do mercado cinematográfico do Ocidente, que se converteram inteiramente para a computação gráfica. Visto isso, </span><i><span style="font-weight: 400;">A Viagem de Chihiro</span></i><span style="font-weight: 400;">, que foi lançado pela </span><i><span style="font-weight: 400;">Studio Ghibli</span></i> <span style="font-weight: 400;">em 2001,</span> <span style="font-weight: 400;">nasceu exatamente nesse período de transição para as animações ocidentais, em que os desenhos à mão eram gradualmente substituídos pelo </span><i><span style="font-weight: 400;">CGI</span></i><span style="font-weight: 400;"> e o </span><i><span style="font-weight: 400;">3D</span></i><span style="font-weight: 400;">. Nesse contexto, faz sentido que o longa mais aclamado de Hayao Miyazaki seja não apenas o </span><a href="https://www.omelete.com.br/anime-manga/bento-animes-concorreram-ao-oscar"><span style="font-weight: 400;">único </span><i><span style="font-weight: 400;">anime</span></i></a><span style="font-weight: 400;">, mas também a única animação </span><i><span style="font-weight: 400;">2D</span></i><span style="font-weight: 400;"> da história do </span><i><span style="font-weight: 400;">Oscar</span></i><span style="font-weight: 400;"> a ganhar o prêmio de </span><a href="https://www1.folha.uol.com.br/folha/ilustrada/ult90u31572.shtml"><span style="font-weight: 400;">Melhor Animação</span></a><span style="font-weight: 400;">.</span></p>
<figure id="attachment_21730" aria-describedby="caption-attachment-21730" style="width: 2010px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-full wp-image-21730" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/07/IMAGEM-2-2.jpg" alt="Imagem do filme de animação “A Viagem de Chihiro”. A cena se passa de dia. No centro, vemos Chihiro, uma garota asiática, de pele branca, bochechas rosadas e cabelos castanhos presos em um rabo de cavalo, vestindo um kimono vermelho. Ela se esgueira entre um grande jardim de flores brancas e vermelhas, e seu semblante é confuso." width="2010" height="1086" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/07/IMAGEM-2-2.jpg 2010w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/07/IMAGEM-2-2-800x432.jpg 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/07/IMAGEM-2-2-1024x553.jpg 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/07/IMAGEM-2-2-768x415.jpg 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/07/IMAGEM-2-2-1536x830.jpg 1536w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/07/IMAGEM-2-2-1200x648.jpg 1200w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 1362px) 62vw, 840px" /><figcaption id="caption-attachment-21730" class="wp-caption-text">Imagem de um dos trechos do filme que utilizam essa técnica de mesclagem, quando Chihiro segue Haku por um jardim florido (Foto: Studio Ghibli)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">Essa condição transicional também se manifesta nas </span><a href="https://blog.saga.art.br/saiba-como-funcionam-as-tecnicas-de-animacao/"><span style="font-weight: 400;">técnicas</span></a><span style="font-weight: 400;"> utilizadas para a produção do filme. Sim, </span><i><span style="font-weight: 400;">A Viagem de Chihiro </span></i><span style="font-weight: 400;">é predominantemente animado através de desenhos à mão, mas pontualmente também se mescla essa prática com o </span><a href="https://pt.mod-fashions.com/why-disney-doesnt-make-2d-animated-movies-any-more"><span style="font-weight: 400;">uso de </span><i><span style="font-weight: 400;">CGI</span></i></a><span style="font-weight: 400;">, semelhante ao que fazia a </span><a href="https://www.youtube.com/watch?v=ENenh-wsPA0"><i><span style="font-weight: 400;">Disney</span></i></a><span style="font-weight: 400;"> com seus filmes do Renascimento nos anos 90, principalmente em planos de movimento. Essa técnica, que hoje caiu em desuso e até pode causar certo estranhamento para públicos mais novos, traz um ar nostálgico e refrescante que, para os votantes que já estavam acostumados a seu uso nas animações ocidentais, pode ter influenciado o seu bom rendimento nas premiações.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Além do método inventivo de animação, os aspectos técnicos do filme imediatamente saltam aos olhos. A direção de arte foi claramente conduzida com maestria; a paleta de cores utilizada é colorida e saturada, traduzindo precisamente a diversidade daquele universo e das criaturas que a compõem; a estética estapafúrdia e surrealista do </span><i><span style="font-weight: 400;">design </span></i><span style="font-weight: 400;">de personagens é cheia de identidade e coloca o design fotorrealista e sem personalidade dos filmes da década de 2010 da </span><i><span style="font-weight: 400;">Walt Disney Animation Studios</span></i> <span style="font-weight: 400;">no chinelo; e a </span><a href="https://open.spotify.com/album/766a5fKJYFy9ii4Kz2bQy9?si=Tn6KUm1YQ8GGOCz9uAFkzw&amp;dl_branch=1"><span style="font-weight: 400;">trilha sonora</span></a><span style="font-weight: 400;"> composta por </span><a href="https://www.eurogamer.pt/articles/2018-02-14-ni-no-kuni-2-destaca-a-banda-sonora-de-joe-hisaishi"><span style="font-weight: 400;">Joe Hisaishi</span></a><span style="font-weight: 400;">, </span><a href="https://www.openculture.com/2021/02/a-glorious-concert-celebrating-the-films-of-hayao-miyazaki-arranged-by-film-composer-joe-hisaishi.html"><span style="font-weight: 400;">parceiro de longa data</span></a><span style="font-weight: 400;"> de Miyazaki, é simples e funcional, comunicando através do minimalismo com arranjos facilmente reconhecíveis tanto para uma audiência nostálgica quanto para novos públicos.</span></p>
<figure id="attachment_21731" aria-describedby="caption-attachment-21731" style="width: 1280px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-full wp-image-21731" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/07/IMAGEM-3-2.jpg" alt="Imagem do filme de animação “A Viagem de Chihiro”. A cena se passa dentro de um quarto luxuoso, com um longo tapete vermelho no chão, poltronas elegantes, um grande vaso de pintura estilizada e sofisticada e ao fundo duas grandes janelas fechadas, que revelam o céu azulado do lado de fora. Ao centro, está Zeniba, uma mulher idosa, de torso curto e cabeça desproporcionalmente grande. Seu rosto é completamente enrugado, ela usa uma sombra roxa em suas pálpebras e seu cabelo longo e branco preso em um coque. Ela é ligeiramente transparente, podendo ser visto parte do fundo através dela, usa brincos de pérola dourados nas orelhas e veste um vestido azul. Sua mão direita, marcada pelas longas unhas vermelhas, está erguida, e ela olha pro chão, em direção a Chihiro: uma garota de pele branca e cabelos castanhos presos em um rabo de cavalo. Ela veste um kimono vermelho e está de costas para a câmera, sem que possamos ver seu rosto. Ela está agachada em frente à Haku, um dragão asiático branco com uma crina esverdeada que se estende por todo o seu corpo. Ele está com os olhos fechados, inconsciente, sangrando e claramente machucado. Ao lado dele, estão três cabeças avulsas, de pele verde e uma longa barba preta. As três estão de perfil, com um olhar assustado; e acima dele vemos um pequeno pássaro peculiar: seu corpo é de um corvo, com uma penugem escura, e sua cabeça é a de uma mulher idosa, cujo cabelo escuro é preso em um coque. O pássaro também olha para Zeniba, espantado. Além deles, do outro lado de Zeniba, está Bah, um bebê gigante, de pele branca, usando um avental vermelho. Ele está de perfil, com a cabeça virada para Zeniba, sem que possamos enxergar seu rosto.]" width="1280" height="694" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/07/IMAGEM-3-2.jpg 1280w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/07/IMAGEM-3-2-800x434.jpg 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/07/IMAGEM-3-2-1024x555.jpg 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/07/IMAGEM-3-2-768x416.jpg 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/07/IMAGEM-3-2-1200x651.jpg 1200w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 1362px) 62vw, 840px" /><figcaption id="caption-attachment-21731" class="wp-caption-text">Das irmãs Yubaba e Zeniba e a forma de dragão esbelta de Haku ao bebê Bah e as cabeças verdes, o design de A Viagem de Chihiro é criativo, inusitado e explora diferentes proporções e medidas para cada personagem (Foto: Studio Ghibli)</figcaption></figure>
<p><i><span style="font-weight: 400;">A Viagem de Chihiro</span></i><span style="font-weight: 400;"> abre com a visão de um cartão, que acompanha um lindo buquê de flores rosadas. Nele, está escrito </span><i><span style="font-weight: 400;">“Boa sorte, Chihiro! Nos encontraremos novamente!”</span></i><span style="font-weight: 400;">. Essas são flores de despedida, que a garota que segura o buquê, Chihiro, ganhou de seus amigos ao descobrirem que ela mudaria de cidade. Nesse momento, a acompanhamos no caminho de sua nova casa: deitada no banco de trás do carro lotado de malas, deprimida, enquanto seus pais conversam no banco da frente, tentando animá-la. Então as flores rosadas do buquê que Chihiro abraçava melancolicamente morrem, levando ao desespero da menina. Ela até tenta recorrer aos pais, mas eles não lhe dão atenção. Nesses poucos segundos já recebemos informações o suficiente sobre o entorno da trama. Chihiro está chateada por ter que se mudar e deixar seus amigos, enquanto seus pais, mesmo que se esforcem, não a entendem e ignoram seus anseios.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">No caminho para a casa nova, a família se perde e acaba em frente a um longo túnel. Desde a chegada deles, Chihiro fica apreensiva e se atenta a aspectos estranhos do local, desde as estátuas excêntricas espalhadas pela entrada até o vento que se comporta bizarramente, que seus pais não percebem. A garota tenta avisá-los mais uma vez, que novamente desdenham de seu comportamento. Passando pelo túnel, eles descobrem um parque abandonado e, a despeito do incômodo da filha, começam a adentrar no lugar, deparando-se com um restaurante vazio que servia um grande banquete. Os pais, sem pensar duas vezes, se servem da comida, que Chihiro nega veementemente.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Por consequência, não demora muito para que suas preocupações se concretizem e o local se revele uma casa de banho para espíritos gerida por uma bruxa autoritária chamada Yubaba, onde humanas como ela não são bem-vindas. Além disso, seus pais, que agiam de forma descuidada, são capturados e transformados em porcos. Sendo assim, Chihiro, agora presa nesse universo fantástico e hostil, é forçada a trabalhar para o estabelecimento por sua própria sobrevivência, enquanto busca salvar seus pais e retornar ao mundo dos humanos. Na jornada, ela cresce e amadurece, contando com a ajuda de novas amizades construídas pelo caminho.</span></p>
<figure id="attachment_21732" aria-describedby="caption-attachment-21732" style="width: 1693px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-full wp-image-21732" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/07/IMAGEM-4-1.jpg" alt="Imagem do filme de animação “A Viagem de Chihiro”. A cena se passa de dia. Ocupando quase toda a imagem, está Chihiro, uma garota asiática, de pele branca, bochechas rosadas e cabelos castanhos presos em um rabo de cavalo. Ela veste uma camisa branca e verde, um short vermelho e tênis amarelos. Ela está deitada no banco de trás de um carro, que está abarrotado de malas e sacolas, com os pés apoiados em uma grande caixa de papelão. A menina olha para o lado, triste e melancólica, enquanto segura com as duas mãos um buquê de flores rosadas, pressionando-as contra seu peito." width="1693" height="915" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/07/IMAGEM-4-1.jpg 1693w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/07/IMAGEM-4-1-800x432.jpg 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/07/IMAGEM-4-1-1024x553.jpg 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/07/IMAGEM-4-1-768x415.jpg 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/07/IMAGEM-4-1-1536x830.jpg 1536w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/07/IMAGEM-4-1-1200x649.jpg 1200w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 1362px) 62vw, 840px" /><figcaption id="caption-attachment-21732" class="wp-caption-text">Chihiro no início do filme, melancólica, junta ao buquê de flores rosadas que prenunciava o início de sua longa viagem (Foto: Studio Ghibli)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">A partir dessa sinopse, é fácil relacionar </span><i><span style="font-weight: 400;">A Viagem de Chihiro</span></i><span style="font-weight: 400;"> com o clássico da literatura infantil </span><a href="https://darkside.blog.br/alice-liddell-conheca-a-verdadeira-alice-no-pais-das-maravilhas/"><i><span style="font-weight: 400;">Alice no País das Maravilhas</span></i></a><span style="font-weight: 400;">, escrito pelo matemático inglês Charles Lutwidge Dodgson no século XIX, e que mais tarde seria </span><a href="https://www.planocritico.com/critica-alice-no-pais-das-maravilhas-1951/"><span style="font-weight: 400;">adaptado</span></a><span style="font-weight: 400;"> pelos estúdios de Walt Disney. Ambos contam histórias sobre garotas na fase inicial da puberdade que acabam caindo em um mundo fantasioso e surreal, lidando com figuras singulares e curiosas, e ambos são atravessados por discussões sobre amadurecimento e a transição da infância para a vida adulta. Esse ponto não será muito abordado aqui – um </span><a href="http://personaunesp.com.br/a-viagem-de-chihiro-viagem-todos-nos/"><span style="font-weight: 400;">texto anteriormente publicado</span></a><span style="font-weight: 400;"> no Persona faz esse paralelo com muito mais aprofundamento –, porém o que cabe ser dito é que, entre as duas obras, há uma diferença notória de tom. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">À medida que, assistindo a adaptação da </span><i><span style="font-weight: 400;">Disney</span></i><span style="font-weight: 400;">, é perceptível que </span><i><span style="font-weight: 400;">Alice no País das Maravilhas</span></i><span style="font-weight: 400;"> parte de uma ótica bem mais moralista, retratando uma Alice curiosa e imprudente que, ao ignorar os avisos da mãe, se coloca em perigo, </span><i><span style="font-weight: 400;">A Viagem de Chihiro</span></i><span style="font-weight: 400;"> compreende as complexas nuances presentes nas relações entre pais e filhos. No segundo caso, os responsáveis pelas atitudes irresponsáveis e levianas que os levam para esse novo mundo supostamente quimérico são os próprios pais, enquanto Chihiro tem pouquíssima agência sobre suas ações e é levada para lá contra sua vontade. Ademais, enquanto Dodgson decide explicitar que a experiência de Alice não passou de um sonho, Miyazaki deixa essa questão dúbia e abre à interpretação do público.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Essas e outras diferenças, na realidade, advém principalmente de um atrito histórico, territorial e cultural fortíssimo entre o Ocidente e o Oriente. Para todos os efeitos, </span><i><span style="font-weight: 400;">A Viagem de Chihiro</span></i><span style="font-weight: 400;"> é totalmente imerso na cosmovisão japonesa, desde a construção de diálogos e a linguagem de câmera até a direção de arte e o </span><i><span style="font-weight: 400;">storytelling</span></i><span style="font-weight: 400;">. E é impressionante como uma obra localizada fora da nossa realidade como Ocidente e com sensibilidades totalmente distintas das nossas consegue nos tocar de formas tão intensas. Nesse enfoque, uma das convenções culturais e estéticas que </span><a href="https://coisasdojapao.com/2018/12/ma-uma-reflexao-japonesa-sobre-a-quarta-dimensao-cdj/"><span style="font-weight: 400;">Miyazaki mais explora</span></a><span style="font-weight: 400;"> em suas obras, e que nesse filme ganha um destaque particular, é o conceito filosófico e artístico de </span><i><span style="font-weight: 400;">Ma</span></i><span style="font-weight: 400;">.</span></p>
<figure id="attachment_21733" aria-describedby="caption-attachment-21733" style="width: 1280px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-full wp-image-21733" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/07/IMAGEM-5-3.jpg" alt=" Imagem do filme de animação “A Viagem de Chihiro”. A cena se passa em uma sala fechada, com as paredes cheias de coloridas pinturas tradicionais japonesas. A sala está abarrotada de pratos de comida e tigelas, distribuídas caótica e desorganizadamente pelo chão. De um lado da sala está Chihiro, uma garota asiática, de pele branca, bochechas rosadas e cabelos castanhos presos em um rabo de cavalo. Ela está de perfil, veste um kimono vermelho e se ajoelha em posição Seiza, com as nádegas apoiadas nos calcanhares, de frente à figura de uma criatura gigantesca, o Sem Rosto. Seu corpo é inteiro da cor preta, seu torso é todo corpulento, se estendendo até o seu pescoço que gradativamente se afina até a cabeça. No lugar de seu rosto, está uma máscara branca de semblante apático, e a criatura fica se sustenta em quatro patas, as pernas longas e esguias. Ela se curva para a garota, encarando-a diretamente.]" width="1280" height="720" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/07/IMAGEM-5-3.jpg 1280w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/07/IMAGEM-5-3-800x450.jpg 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/07/IMAGEM-5-3-1024x576.jpg 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/07/IMAGEM-5-3-768x432.jpg 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/07/IMAGEM-5-3-1200x675.jpg 1200w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 1362px) 62vw, 840px" /><figcaption id="caption-attachment-21733" class="wp-caption-text">Se no início da trama Chihiro mal conseguia descer uma escada, no final ela trava desafios descomunais e literalmente monstruosos (Foto: Studio Ghibli)</figcaption></figure>
<p><a href="https://www.japanhousesp.com.br/artigo/conceitos-japoneses-ma-com-michiko-okano/"><i><span style="font-weight: 400;">Ma</span></i></a><span style="font-weight: 400;"> (間) é uma palavra japonesa cujo significado pode ser traduzido como ‘entre-espaço’, ‘espaço intermediário’ ou ‘intervalo’. É um conceito filosófico difundido na cultura japonesa, que influencia a sua forma coletiva de enxergar o mundo e está presente em todas as suas manifestações culturais desde a antiguidade, das artes plásticas e visuais até a arquitetura, Música e Cinema. Michiko Okano, professora da Universidade Federal de São Paulo, explica em seu artigo </span><a href="https://www.revistas.usp.br/revusp/article/download/76178/79922/103972"><i><span style="font-weight: 400;">Ma – a estética do “entre”</span></i></a><span style="font-weight: 400;"> como é difícil para a sociedade Ocidental, alicerçada em concepções filosóficas como o Dualismo Platônico ou o princípio aristotélico de ‘ser ou não ser’, compreender a dinâmica abstrata, intangível e até contraditória do </span><i><span style="font-weight: 400;">Ma</span></i><span style="font-weight: 400;">, que nega a lógica racional e bipolar do Ocidente e abre caminho para uma terceira via de compreensão.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">O </span><i><span style="font-weight: 400;">Ma </span></i><span style="font-weight: 400;">se apresenta nesse </span><a href="https://www.archdaily.com.br/br/912901/o-conceito-ma-para-arata-isozaki-um-modo-de-ver-o-mundo"><span style="font-weight: 400;">meio termo</span></a><span style="font-weight: 400;">, em que ele não é nem um, nem outro, contudo pode ser os dois ao mesmo tempo; um ‘não-lugar’, à medida que representa um </span><a href="https://entretempos.blogfolha.uol.com.br/2020/04/22/tempo-pausa-silencio-o-ma-%E9%96%93-como-uma-potencia-do-vazio/"><span style="font-weight: 400;">momento de pausa</span></a><span style="font-weight: 400;">, de transição e de intervalo, porém que não se caracteriza pelo mero vazio ou falta de significado, e sim pelo potencial de significado que se manifesta dele. </span><a href="https://peachnojapao.com/devaneios/%E9%96%93-ma-o-kanji-que-me-faz-valorizar-as-pausas-e-os-vazios/"><span style="font-weight: 400;">Um exemplo</span></a><span style="font-weight: 400;"> de manifestação do </span><i><span style="font-weight: 400;">Ma</span></i><span style="font-weight: 400;"> na cultura japonesa é o longo caminho de entrada de um santuário xintoísta, que pode ser visto como dispensável em uma leitura superficial, mas que tem a função de preparar espiritualmente o visitante para adentrar no espaço sagrado, deixando as questões mundanas no caminho e imergindo na experiência que logo virá.</span></p>
<figure id="attachment_21734" aria-describedby="caption-attachment-21734" style="width: 2559px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-full wp-image-21734" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/07/IMAGEM-6.jpg" alt="Pintura tradicional japonesa, feita em um papel bege, com uma moldura marrom. Quase toda a pintura encontra-se vazia, exceto pelos desenhos isolados de pinheiros no centro e no canto direito da imagem, feitos de tinta preta. Os pinheiros apresentam-se em tonalidades diferentes, para denotar profundidade." width="2559" height="1198" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/07/IMAGEM-6.jpg 2559w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/07/IMAGEM-6-800x375.jpg 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/07/IMAGEM-6-1024x479.jpg 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/07/IMAGEM-6-768x360.jpg 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/07/IMAGEM-6-1536x719.jpg 1536w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/07/IMAGEM-6-2048x959.jpg 2048w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/07/IMAGEM-6-1200x562.jpg 1200w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 1362px) 62vw, 840px" /><figcaption id="caption-attachment-21734" class="wp-caption-text">Shôrin-zu Byôbu (Biombo das Árvores de Pinheiro), de Tôhaku Hasegawa: pintura considerada patrimônio nacional do Japão e uma das principais referências do emprego do Ma nas artes visuais, feita no final do século XVI; aqui os papéis se invertem, os espaços vazios, que se traduzem como a neblina, constroem a maior parte da paisagem, enquanto os pinheiros somente a emolduram, dando uma sensação de ambivalência [Foto: Reprodução]</figcaption></figure>
<blockquote><p><span style="font-weight: 400;">“O Ma, enquanto possibilidade, associa-se ao “vazio”, que, distinto de uma concepção ocidental cujo significado é o nada, é visto como algo do nível da potencialidade, que tudo pode conter, e, portanto, da possibilidade de geração do novo. É, por conseguinte, o vazio da disponibilidade de nascimento de algo novo e não da ausência e da morte.” </span></p>
<p><i><span style="font-weight: 400;">– Michiko Okano</span></i></p></blockquote>
<p><span style="font-weight: 400;">Visto isso, a presença do </span><i><span style="font-weight: 400;">Ma</span></i><span style="font-weight: 400;"> em </span><i><span style="font-weight: 400;">A Viagem de Chihiro</span></i><span style="font-weight: 400;"> é marcante e influencia </span><a href="https://www.youtube.com/watch?v=Kyp3YV2t0gQ"><span style="font-weight: 400;">diversos aspectos</span></a><span style="font-weight: 400;"> da obra. Diferente das animações ocidentais, que costumam apresentar um ritmo mais acelerado e de constante frenesi e urgência, visando fisgar a insólita atenção dos pequenos, </span><a href="https://movierdo.com/hayao-miyazaki-the-master-of-ma/"><span style="font-weight: 400;">Miyazaki</span></a><span style="font-weight: 400;"> aqui valoriza planos longos, cenas contemplativas e instantes que não necessariamente avançam a narrativa, mas que ajudam a dar senso de espaço e tempo para cada cenário, fortalecendo as conexões entre os personagens e entre o público. Além disso, esses momentos singelos, assim como o caminho para um santuário xintoísta, também são preenchidos por nossos próprios pensamentos como espectadores, dando espaço para que possamos absorver e assimilar o universo e os eventos da trama.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">O próprio Miyazaki, </span><a href="https://www.rogerebert.com/interviews/hayao-miyazaki-interview"><span style="font-weight: 400;">em entrevista</span></a><span style="font-weight: 400;"> com o cineasta Roger Ebert em 2002, comenta como essa estratégia de entulhar filmes infantis, muito presentes em produções </span><i><span style="font-weight: 400;">hollywoodianas</span></i><span style="font-weight: 400;">, pode também ser auto sabotadora: </span><i><span style="font-weight: 400;">“As pessoas que fazem filmes têm medo do silêncio, [&#8230;] ficam preocupadas que o público fique com tédio, que saiam da sala de cinema para buscar mais pipoca. Mas só porque o filme é 80 por cento intenso, não significa que as crianças vão te abençoar com sua concentração. O que realmente importa são as emoções subjacentes – nunca as deixe para trás.”</span></i></p>
<figure id="attachment_21735" aria-describedby="caption-attachment-21735" style="width: 1171px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-full wp-image-21735" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/07/IMAGEM-7.jpg" alt="Imagem do filme de animação “A Viagem de Chihiro. A visão que temos é a da parte interna de um trem: o banco avermelhado que se estende por todo o vagão e as janelas que revelam o céu azulado do lado de fora. Ao centro, sentados no banco, estão Chihiro, uma garota asiática, de pele branca, bochechas rosadas e cabelos castanhos presos num rabo de cavalo, vestindo uma camiseta branca e verde, um short vermelho e tênis amarelos; e Sem Rosto, uma criatura inteira preta, com uma máscara branca no lugar do rosto, que é ligeiramente transparente, podendo se ver parte do fundo através dele. Eles olham para frente, com o semblante reflexivo. Ao lado deles, pode-se ver sentadas algumas figuras misteriosas, usando ternos e chapéus pretos que cobrem totalmente seus rostos. Elas, assim como Sem Rosto, também são ligeiramente transparentes, podendo se ver parte do fundo através delas. Além deles, vemos, apoiados na janela, um ratinho rosa e um mosquito preto, que observam a paisagem pelo vidro.]" width="1171" height="780" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/07/IMAGEM-7.jpg 1171w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/07/IMAGEM-7-800x533.jpg 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/07/IMAGEM-7-1024x682.jpg 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/07/IMAGEM-7-768x512.jpg 768w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 1362px) 62vw, 840px" /><figcaption id="caption-attachment-21735" class="wp-caption-text">Chihiro e Sem Rosto viajando de trem: uma das cenas mais memoráveis e icônicas do Cinema de Animação, e a síntese definitiva do Ma na obra de Miyazaki, da linguagem à construção de mundo (Foto: Studio Ghibli)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">E </span><i><span style="font-weight: 400;">A Viagem de Chihiro </span></i><span style="font-weight: 400;">está recheado desses retratos. Cenas em que Chihiro está comendo com Lin enquanto observa o luar, em que ela faz uma viagem de trem com Sem Rosto, observando silenciosamente os passageiros fantasmas gradativamente irem embora até que eles fiquem completamente sós, ou em que ela simplesmente precisa superar o desafio de descer uma longa escada, que no fim demonstra não ser tão difícil assim. O que não significa que não são retratadas situações de ação intensa e movimentação frenética, e sim que esses são equilibrados por momentos de calmaria e respiro. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Contudo, o </span><i><span style="font-weight: 400;">Ma</span></i><span style="font-weight: 400;"> não se expressa apenas em ambientação ou linguagem, mas também na construção de mundo e na mitologia do filme. Por exemplo, como quando Chihiro passa muito tempo dentro da cidade mágica sem consumir nada de lá, ela começa a gradualmente desaparecer, posicionando-se na limiar entre a existência e a não-existência: um intervalo entre as duas condições, um não-lugar, em que mesmo que ainda possa ser vista, ela perde sua tangibilidade; ou como, não importa o quanto ela se esforce e queira, Chihiro nunca de fato consegue se encaixar na rígida linha de produção que é exigida por Yubaba na casa de banho, ainda que tenha capacidade para tal.</span></p>
<figure id="attachment_21736" aria-describedby="caption-attachment-21736" style="width: 1280px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-full wp-image-21736" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/07/IMAGEM-8.jpg" alt=" Imagem do filme de animação “A Viagem de Chihiro”. A cena se passa de noite. Vemos Chihiro: uma garota asiática, de pele branca, bochechas rosadas e cabelos castanhos presos em um rabo de cavalo, vestindo uma camisa branca e verde. A menina está ligeiramente transparente, como se estivesse gradualmente sumindo, e é possível ver parte do fundo através dela. Ela está claramente assustada e totalmente retraída, as mãos coladas uma na outra, as pernas dobradas, e o seu olhar é de completo medo. Ao lado dela, tentando consolá-la, com seus braços a envolvendo, está Haku: um homem asiático, de pele clara e cabelos pretos que formam uma franja em sua testa e se alongam até os ombros nas laterais. Ele usa um kimono azul e olha para a garota, seu semblante calmo e preocupado.]" width="1280" height="692" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/07/IMAGEM-8.jpg 1280w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/07/IMAGEM-8-800x433.jpg 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/07/IMAGEM-8-1024x554.jpg 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/07/IMAGEM-8-768x415.jpg 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/07/IMAGEM-8-1200x649.jpg 1200w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 1362px) 62vw, 840px" /><figcaption id="caption-attachment-21736" class="wp-caption-text">Cena em que Chihiro começa a desaparecer e Haku vai socorrê-la: o ‘não-lugar’ (Foto: Studio Ghibli)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">A propósito, a jornada emocional de Chihiro é um dos elementos mais impactantes de sua viagem. O </span><a href="https://cinemacao.com/2018/02/18/a-viagem-de-chihiro-a-profundidade-na-narrativa-de-hayo-miyazaki/"><span style="font-weight: 400;">arco da personagem</span></a><span style="font-weight: 400;"> tem como ponto central a busca por identidade, que se personifica no conflito com o nome. Assim que é contratada por Yubaba, Chihiro tem seu nome roubado e substituído por Sen. Haku explica que a bruxa governa seus funcionários roubando seus nomes e, consequentemente, suas autonomias e livre-arbítrio, e que a chave para que a garota consiga encontrar seu caminho para casa é que ela nunca esqueça de seu nome, ou seja, de quem ela é.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Essa questão traduz muito bem a temática de amadurecimento onde o filme circula e os comentários que ele faz a respeito. </span><a href="https://www.chimichangas.com.br/animes/a-viagem-de-chihiro-os-simbolismos-por-tras-do-filme/"><span style="font-weight: 400;">Todos os elementos</span></a><span style="font-weight: 400;"> da casa de banho representam signos da vida adulta: a ganância e materialismo do Sem Rosto, a obsessão com trabalho de Kamaji, o autoritarismo da própria Yubaba; todas condições que consomem esses personagens e que os privam pouco a pouco de sua humanidade. Personagens como Sem Rosto só desabrocham e se encontram quando se afastam desse ambiente opressivo, e é curioso perceber como Chihiro só consegue sobreviver naquele cenário terrivelmente adulto exatamente porque, conforme ganha confiança e amadurece, ela se mantém fiel às suas convicções e conserva sua essência infantil.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Em alguns aspectos, a filmografia de Hayao Miyazaki remete às abordagens com obras infantis de </span><a href="http://coral.ufsm.br/congressodireito/anais/2017/8-2.pdf"><span style="font-weight: 400;">Dr. Seuss</span></a><span style="font-weight: 400;">, no sentido de incluir fortes </span><a href="https://ichi.pro/pt/lembra-do-lorax-conservadores-queriam-cancelar-dr-seuss-por-causa-disso-178205057615518"><span style="font-weight: 400;">posicionamentos políticos</span></a><span style="font-weight: 400;"> nas suas histórias, trazendo morais que perpassam por pautas como ambientalismo, consumismo e capitalismo, e não é diferente com </span><i><span style="font-weight: 400;">A Viagem de Chihiro</span></i><span style="font-weight: 400;">. Da sequência com o espírito do rio poluído, que vai à casa de banho e todos recusam-se em repulsa a atendê-lo, exceto por Chihiro, a única que não o subestima ou o julga pela imagem, até todo o arco dramático do Sem Rosto, mergulhado na ganância, avareza e consumismo, que é desarmado pela ingenuidade da protagonista e posteriormente encontra seu lugar como ajudante de Zeniba, irmã gêmea de Yubaba. A mensagem pode vir mais sutilmente ou de forma mais literal e expositiva – a justificativa para Haku ter sobrevivido no incidente do 2º ato é literalmente ‘o poder do amor’ –, mas sempre acessível e claramente entendível para qualquer criança e espectador atento.</span></p>
<figure id="attachment_21737" aria-describedby="caption-attachment-21737" style="width: 1163px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-full wp-image-21737" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/07/IMAGEM-9.jpg" alt="Imagem do filme de animação “A Viagem de Chihiro”. A cena mostra Chihiro: uma garota asiática, de pele branca, bochechas rosadas e cabelos castanhos presos em rabo de cavalo, vestindo um kimono vermelho. Ela aparece de perfil enquanto segura, claramente preocupada, a cabeça de Haku: um dragão asiático branco com crinas verdes e dois chifres na cabeça. Sua boca está sangrando, seu corpo está cheio de machucados, e ele está evidentemente bravo e irritado, mostrando seus dentes afiados.]" width="1163" height="753" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/07/IMAGEM-9.jpg 1163w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/07/IMAGEM-9-800x518.jpg 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/07/IMAGEM-9-1024x663.jpg 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/07/IMAGEM-9-768x497.jpg 768w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 1362px) 62vw, 840px" /><figcaption id="caption-attachment-21737" class="wp-caption-text">Chihiro é capaz de demonstrar amor e gratidão genuínos mesmo para aqueles que se prostram hostil e agressivamente a princípio (Foto: Studio Ghibli)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">Mas onde o filme realmente brilha é em seus retratos de amizades e relações interpessoais, que Chihiro cultiva por toda a trajetória. Cada personagem carrega uma personalidade única, e Chihiro se conecta com cada um deles de formas distintas e particulares, criando desde novos vínculos com figuras inusitadas que em outras histórias se configurariam como vilões, como com o bebê Bah, filho de Yubaba, e com Sem Rosto, antes hostil porém pouco a pouco demonstrando-se capaz de receber e dar amor, até reencontrando e fortalecendo vínculos antigos, como ocorre com Haku. Suas interações são norteadas com sensibilidade e verossimilhança, como com Kamaji, que a princípio é ranzinza mas por fim passa a ser uma figura paterna para a menina, e com Lin, sua tutora na casa de banho, que cria com ela uma relação forte de companheirismo.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Nos momentos finais de </span><i><span style="font-weight: 400;">A Viagem de Chihiro</span></i><span style="font-weight: 400;">, quando a garota finalmente encontra o caminho para casa e se liberta de Yubaba, Haku, enquanto a guia para fora, lhe diz: “</span><i><span style="font-weight: 400;">não olhe para trás, não até passar pelo túnel</span></i><span style="font-weight: 400;">”. E é isso que a menina faz. Vai correndo de encontro aos pais, revisita o percurso que a trouxe à casa de banho, percorre o túnel, e a última cena mostra Chihiro, já de frente ao carro, olhando para trás, em silêncio. O intervalo é longo e, enquanto ela reflete sobre sua viagem, nós refletimos junto com ela. Em uma sociedade calcada em opressão, exploração e capital, ser criança é subversão e resistência. Então que, assim como Chihiro, nós possamos trilhar nossas viagens intrépidos e seguros de nós, sem que nunca esqueçamos quem somos, de onde viemos, e o que nos trouxe até aqui em primeiro lugar. Nessa loucura de crescer, que continuemos crianças.</span></p>
<figure id="attachment_21738" aria-describedby="caption-attachment-21738" style="width: 1280px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-full wp-image-21738" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/07/IMAGEM-10.jpg" alt="Imagem do filme de animação “A Viagem de Chihiro”. A cena se passa de dia. Vemos Chihiro, uma garota asiática, de pele clara, com cabelos castanhos presos em um rabo de cavalo. A câmera está posicionada atrás dela, de forma que não podemos ver o seu rosto. Ela olha para frente, encarando o cenário de um túnel, envolvido por uma longa vegetação verde e diversificada. Dentro do túnel é escuro, de forma que não é possível enxergar o que há além da entrada." width="1280" height="692" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/07/IMAGEM-10.jpg 1280w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/07/IMAGEM-10-800x433.jpg 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/07/IMAGEM-10-1024x554.jpg 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/07/IMAGEM-10-768x415.jpg 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/07/IMAGEM-10-1200x649.jpg 1200w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 1362px) 62vw, 840px" /><figcaption id="caption-attachment-21738" class="wp-caption-text">O que a gente encontra além do fim do túnel? (Foto: Studio Ghibli)</figcaption></figure>
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