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	<title>Arquivos Gero Camilo &#8211; Persona | Jornalismo Cultural</title>
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	<description>Desde 2015 provando que a distância entre Bergman, Lady Gaga e a novela das 9 nem existe.</description>
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		<title>Mussum, o Filmis: o samba e o humor brasileiro agradecem</title>
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		<pubDate>Mon, 13 Nov 2023 19:44:57 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p>Vitória Gomez Mussum, o Filmis chegou às telas em uma safra fértil para as personalidades brasileiras: alguns meses depois de Nosso Sonho, junto do documentário Elis e Tom, Só Tinha de Ser com Você e Meu Nome é Gal, e pouco antes de Meu Sangue Ferve por Você. Haja cultura e diversidade em um ano &#8230; <a href="http://personaunesp.com.br/mussum-o-filmis-critica/" class="more-link">Continue lendo<span class="screen-reader-text"> "Mussum, o Filmis: o samba e o humor brasileiro agradecem"</span></a></p>
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										<content:encoded><![CDATA[<figure id="attachment_31839" aria-describedby="caption-attachment-31839" style="width: 1280px" class="wp-caption alignnone"><img fetchpriority="high" decoding="async" class="size-full wp-image-31839" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/11/mussum-e1699901741586.jpg" alt="" width="1280" height="531" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/11/mussum-e1699901741586.jpg 1280w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/11/mussum-e1699901741586-800x332.jpg 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/11/mussum-e1699901741586-1024x425.jpg 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/11/mussum-e1699901741586-768x319.jpg 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/11/mussum-e1699901741586-1200x498.jpg 1200w" sizes="(max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 1362px) 62vw, 840px" /><figcaption id="caption-attachment-31839" class="wp-caption-text">Maior estreia nacional em 2023, Mussum, o Filmis integrou a programação da 47ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo (Foto: Downtown Filmes)</figcaption></figure>
<p><b>Vitória Gomez</b></p>
<p><i><span style="font-weight: 400;">Mussum, o Filmis</span></i><span style="font-weight: 400;"> chegou às telas em uma safra fértil para as personalidades brasileiras: alguns meses depois de </span><a href="https://personaunesp.com.br/nosso-sonho-critica/"><i><span style="font-weight: 400;">Nosso Sonho</span></i></a><span style="font-weight: 400;">, junto do documentário </span><i><span style="font-weight: 400;">Elis e Tom, Só Tinha de Ser com Você </span></i><span style="font-weight: 400;">e </span><a href="https://www.youtube.com/watch?v=eV1cJ560K2E"><i><span style="font-weight: 400;">Meu Nome é Gal</span></i></a><span style="font-weight: 400;">, e pouco antes de </span><i><span style="font-weight: 400;">Meu Sangue Ferve por Você</span></i><span style="font-weight: 400;">. Haja cultura e diversidade em um ano em que, independentemente dos desempenhos individuais de cada obra, o Cinema nacional mostrou a potência que é &#8211; e que poderia ser ainda maior com </span><a href="https://www1.folha.uol.com.br/ilustrada/2023/08/as-cotas-de-tela-sao-positivas-para-o-cinema-brasileiro-e-precisam-ser-retomadas.shtml"><span style="font-weight: 400;">políticas públicas</span></a><span style="font-weight: 400;"> que verdadeiramente valorizassem esse potencial. Para melhorar, a envolvente cinebiografia do sambista, ator e comediante Mussum, eternamente conhecido pelo seu papel como um dOs Trapalhões, arranca risadas fáceis e, não por menos, estreou com seis Kikitos do Festival da Gramado na bagagem, além de passagens pelo Festival do Rio 2023 e pela 47ª </span><a href="https://personaunesp.com.br/tag/mostra-internacional-de-cinema-em-sao-paulo/"><span style="font-weight: 400;">Mostra Internacional de Cinema em São Paulo</span></a><span style="font-weight: 400;">, na seção Mostra Brasil.</span></p>
<p><span id="more-31833"></span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">O </span><i><span style="font-weight: 400;">Filmis </span></i><span style="font-weight: 400;">veio com um desafio: adaptar para as telas, em pouco menos de duas horas, a vida de uma personalidade polivalente, que se destacou na Música, na TV e no Cinema. Logo aqui, o roteiro de Paulo Cursino toma uma decisão importante de focar menos no extenso currículo pelo qual o profissional é conhecido e mais em Antônio Carlos Bernardes Gomes, nome real de </span><a href="https://gshow.globo.com/tudo-mais/tv-e-famosos/noticia/ailton-graca-explica-origem-do-apelido-mussum-e-um-peixe.ghtml"><span style="font-weight: 400;">Mussum</span></a><span style="font-weight: 400;">. É por esse título (ou melhor, Carlinhos) que ele era conhecido em sua faceta artística preferida, a de sambista, e o apelido da Televisão vira coadjuvante em uma história que mostra os bastidores pessoais do Trapalhão.</span></p>
<figure id="attachment_31834" aria-describedby="caption-attachment-31834" style="width: 750px" class="wp-caption alignnone"><img decoding="async" class="size-full wp-image-31834" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/11/image1-2.jpg" alt="" width="750" height="421" /><figcaption id="caption-attachment-31834" class="wp-caption-text">Estreando na direção de longas-metragem em Mussum, Silvio Guindane é mais conhecido por seu trabalho como ator, tendo participado Bom Dia, Verônica e É Fada (Foto: Downtown Filmes)</figcaption></figure>
<p><i><span style="font-weight: 400;">Mussum, o Filmis </span></i><span style="font-weight: 400;">é pau para toda obra: entre comédia e drama, a obra entrega excelência, risadas e emoções. Além de transitar entre os dois gêneros, o longa-metragem &#8211; o primeiro de Silvio Guindane na direção -, passeia entre a </span><a href="https://oglobo.globo.com/cultura/filmes/noticia/2023/10/22/ailton-graca-mussum-e-um-personagem-tao-grande-que-precisa-de-tres-atores-para-dar-vida.ghtml"><span style="font-weight: 400;">vida pessoal de Carlinhos</span></a><span style="font-weight: 400;"> desde a infância até o auge da carreira na Rede Globo, esquivando até de alguns clichês. Por exemplo, a origem humilde do menino, que cresceu com uma mãe solo diarista e sem pai por perto no Rio de Janeiro, ganha tons de comédia com uma mãe mestre em arrancar sorrisos. Interpretada por Cacau Protásio em um primeiro momento, Malvina ensina o filho que estudar é o mais importante na vida e que, como jogador de futebol ou sambista, ele não vai dar certo.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">O erro é claro. O doce Carlinhos, até aqui vivido por um carismático Thawan Lucas Bandeira, vai para um colégio interno e vira militar. Pelo menos, isso é o que a versão jovem adulta de </span><a href="https://www.papodecinema.com.br/entrevistas/mussum-o-filmis-todo-mundo-brinca-que-foi-uma-parada-espiritual-que-o-mussum-baixou-em-mim-naquele-momento-revela-yuri-marcal/"><span style="font-weight: 400;">Yuri Marçal</span></a><span style="font-weight: 400;"> conta. Cheio de caras e bocas, o protagonista é apresentado como um sambista de primeira e, mesmo que minta para mãe sobre seu paradeiro, ganha a vida tocando junto de Elza Soares e fazendo mais dinheiro do que ele poderia imaginar, o que o faz largar o Exército e investir de vez na carreira. </span><i><span style="font-weight: 400;">Mussum, o Filmis </span></i><span style="font-weight: 400;">é econômico em como ele chegou até ali, mas, mais para frente, mostra que a economia na verdade era sucintez.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Fato é: a formação que tocou com a rainha da Música brasileira era </span><a href="https://www.youtube.com/watch?v=rvuNLJX1Pt8&amp;pp=ygUZb3JpZ2luYWlzIGRvIHNhbWJhIHRlcmV6YQ%3D%3D"><span style="font-weight: 400;">Os Originais do Samba</span></a><span style="font-weight: 400;">, grupo de Antônio Carlos que se tornou notório no gênero musical. No entanto, por mais que Carlinhos estivesse satisfeito com o título de musicista dividindo uma roda de samba com Cartola, a sorte (ou o acaso) o chamou. </span><i><span style="font-weight: 400;">Mussum</span></i><span style="font-weight: 400;"> mostra como, em uma apresentação na Rede Globo, o artista foi notado pelo diretor e, de um segundo para o outro, estava dividindo o palco com Grande Otelo e ganhando o apelido que o acompanharia pelo resto de seus dias.</span></p>
<figure id="attachment_31835" aria-describedby="caption-attachment-31835" style="width: 768px" class="wp-caption alignnone"><img decoding="async" class="size-full wp-image-31835" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/11/image2-4.jpg" alt="" width="768" height="512" /><figcaption id="caption-attachment-31835" class="wp-caption-text">O longa-metragem foi sucesso de bilheteria e, logo no dia da estreia, arrecadou R$ 640 mil, se tornando a maior estreia nacional do ano (Foto: Downtown Filmes)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">Nesse momento, Carlinhos já é </span><a href="https://veja.abril.com.br/cultura/ailton-graca-sobre-mussum-o-racismo-cria-estereotipos-para-homem-preto"><span style="font-weight: 400;">Ailton Graça</span></a><span style="font-weight: 400;">. As transições cheias de estilo, que combinam com o tom descontraído que o longa propõe, engolem alguns eventos importantes da vida de Mussum, sem um controle certo do tempo. Porém, o roteiro admite (e acerta) que não tenta abraçar o mundo com as mãos. Passagens como o primeiro e o segundo casamento do artista, sua relação com os filhos e até o início da colaboração com a </span><a href="https://oglobo.globo.com/blogs/ancelmo-gois/post/2023/10/mussum-o-filmis-sera-exibido-na-quadra-da-mangueira-grande-paixao-do-humorista.ghtml"><span style="font-weight: 400;">Estação Primeira de Mangueira</span></a><span style="font-weight: 400;"> passam batido, mas compensam o espectador com outros momentos igualmente emocionantes. É impossível não se emocionar com o pequeno ensinando a mãe a escrever o nome ou sentir que está vendo a história se desenrolando ao testemunhar o comediante e a cantora Alcione (</span><span style="font-weight: 400;">Clarice Paixão</span><span style="font-weight: 400;">) no mesmo quadro, ou Chico Anysio (Vanderlei Bernardino) criando o dialeto que deixou o personagem caricato na Escolinha do professor Raimundo.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Quem carrega toda essa emoção é Graça. O veterano da TV e do Cinema fecha o trio de ouro com a versão mais velha de Mussum, vivendo sua ascensão na frente das câmeras e na Música, desde a descoberta até a crise no grupo de samba e a entradas n</span><a href="https://noticiasdatv.uol.com.br/noticia/televisao/em-1983-lucro-exorbitante-de-renato-aragao-provocou-rebeliao-em-os-trapalhoes-39202"><span style="font-weight: 400;">Os Trapalhões</span></a><span style="font-weight: 400;">. O filme deixa claro como o carisma e o bom humor de Antônio Carlos &#8211; e não Mussum &#8211; o alçou ao estrelato, chamando atenção inclusive de Anysio e Renato Aragão (Gero Camilo), que posteriormente o convidaria para integrar o quarteto mais famoso do domingo. Nisso, o ator igualmente carismático usa da sua maestria para preencher todos os espaços em que adentra, seja pela extravagância de sua risada, seu jeito cômico e magnético de falar ou por sua personalidade real, que o levaria a conflitos pessoais.</span></p>
<p><figure id="attachment_31837" aria-describedby="caption-attachment-31837" style="width: 768px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-full wp-image-31837" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/11/image4-2.jpg" alt="" width="768" height="512" /><figcaption id="caption-attachment-31837" class="wp-caption-text">No Festival de Gramado, as atuações de Mussum, o Filmis renderam ao longa os troféus de Melhor Ator (Ailton Graça), Melhor Atriz Coadjuvante (Neusa Borges) e Melhor Ator Coadjuvante (Yuri Marçal) [Foto: Downtown Filmes]</figcaption></figure><span style="font-weight: 400;">Tais conflitos, inclusive, ganham mais ou menos importância dentro das quase duas horas. A trama elege o que prioriza, deixando um quê de dúvida sobre o que ficou de fora e o que foi </span><a href="https://gshow.globo.com/tudo-mais/tv-e-famosos/noticia/silvio-guindane-diz-que-fora-das-telas-mussum-nao-bebia-como-personagem-nao-era-a-parada-dele-nunca-foi.ghtml"><span style="font-weight: 400;">romantizado</span></a><span style="font-weight: 400;"> na vida de Mussum para as telas. A crise no primeiro casamento e a paternidade do artista, por exemplo, recebem menos atenção do que as brigas dentro do grupo musical ou entre Trapalhões em ascensão. Já o </span><a href="https://www.papodecinema.com.br/entrevistas/mussum-o-filmis-quem-filma-o-preto-como-sofredor-e-o-branco-a-gente-nao-se-acha-coitado-por-isso-queria-falar-desse-amor-de-mae-e-filho-revela-o-diretor-silvio-guindane/"><span style="font-weight: 400;">racismo</span></a><span style="font-weight: 400;"> aparece de forma sutil, mas a comédia não esquece do tom social: Carlinhos tem um letramento racial desde a infância, graças à mãe, e já mais velho pontua situações incômodas às quais é submetido dentro do programa de TV no domingo. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">O longa se balanceia e se redime em outros pontos. Recriando as cenas do programa na TV e das performances dOs Originais do Samba, trazendo figurinos da época e incluindo grandes nomes da cultura popular brasileira, </span><i><span style="font-weight: 400;">Mussum, o Filmis </span></i><span style="font-weight: 400;">acerta na nostalgia, na identificação da cultura nacional e na dinamicidade, </span><a href="https://www.youtube.com/watch?v=d2qyEAzpBso"><span style="font-weight: 400;">deixando a própria história se contar</span></a><span style="font-weight: 400;">. Afinal, até os mais novos sabem quem é Didi, Boni ou Alcione. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Já um dos pontos altos da sucintez do roteiro é o foco especial entre o conflito de interesses de Antônio Carlos e a relação com a mãe. </span><i><span style="font-weight: 400;">Mussum, o Filmis </span></i><span style="font-weight: 400;">faz jus à carreira de sambista do comediante e mostra como ele optou continuar na TV, mas sempre sonhando em retornar ao samba. Já na relação com a matriarca, a transição da juventude para a idade adulta traz Neusa Borges como a versão mais velha de Malvina. O retrato do afeto entre mãe e filho, com </span><a href="https://g1.globo.com/rs/rio-grande-do-sul/noticia/2023/08/20/mussum-o-filmis-e-o-grande-vencedor-do-51o-festival-de-cinema-de-gramado.ghtml"><span style="font-weight: 400;">cenas comoventes</span></a><span style="font-weight: 400;"> toda vez que Graça e Borges contracenam, mostram que o </span><i><span style="font-weight: 400;">Filmis </span></i><span style="font-weight: 400;">realmente não é sobre a carreira de Mussum, mas quem sempre esteve por trás dela.</span></p>
<p><figure id="attachment_31836" aria-describedby="caption-attachment-31836" style="width: 750px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-full wp-image-31836" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/11/image3-3.jpg" alt="" width="750" height="421" /><figcaption id="caption-attachment-31836" class="wp-caption-text">Mussum, o Filmis foi o grande vencedor de Gramado e, além dos prêmios de atuação, levou Melhor Filme, Melhor Trilha Musical (Max de Castro) e Melhor Filme do júri popular [Foto: Downtown Filmes]</figcaption></figure><span style="font-weight: 400;">Alguns clichês são inevitáveis em todos os gêneros e, em cinebiografias, a tentativa de conectar a vida do artista retratado com o público pode enforcar a obra, criando momentos de emoção que simplesmente não vão para frente. Talvez por se tratar de uma história nacional e tão próxima de casa (ou melhor, da TV da sala), </span><i><span style="font-weight: 400;">Mussum, o Filmis </span></i><span style="font-weight: 400;">tem tudo para encantar qualquer audiência &#8211; ela só tem que ser corajosa o suficiente para deixar a </span><i><span style="font-weight: 400;">Marvel</span></i><span style="font-weight: 400;"> de lado e </span><a href="https://almapreta.com.br/sessao/cultura/mussum-o-filmis-tem-a-maior-estreia-no-cinema-nacional-em-2023/"><span style="font-weight: 400;">valorizar o Cinema</span></a><span style="font-weight: 400;"> e as personalidades brasileiras. </span></p>
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		<title>As Manhãs de Setembro em um país ensinado a odiar minorias</title>
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					<description><![CDATA[<p>Giovanne Ramos Estamos no país que mais mata transexuais e travestis no mundo. De acordo com um relatório anual publicado pela Associação Nacional de Travestis e Transexuais do Brasil (ANTRA), o país teve um total de 175 pessoas transexuais assassinadas em 2020. Esse número equivale a uma morte a cada dois dias, de vítimas que &#8230; <a href="http://personaunesp.com.br/manhas-de-setembro-critica/" class="more-link">Continue lendo<span class="screen-reader-text"> "As Manhãs de Setembro em um país ensinado a odiar minorias"</span></a></p>
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										<content:encoded><![CDATA[<figure id="attachment_22053" aria-describedby="caption-attachment-22053" style="width: 1279px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-full wp-image-22053" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/08/Imagem-1.jpg" alt="Cena da série “Manhãs de Setembro”. Na imagem, a personagem Leide na esquerda, usando uma jaqueta jeans branca, blusa azul e batom vermelho. Seu cabelo está preso e sua expressão é de emoção, olhando para frente. Está sentada de braços cruzados. No meio, o personagem Gersinho, negro, de baixa estatura, usando blusa de frio aberta preta, blusa azul marinho e olhando para frente. Na direita, a personagem Cassandra. Negra, usando um casaco de lã laranja, blusa marrom, óculos e com expressão de emoção, também olhando para a frente. O ambiente é uma sala de aula." width="1279" height="525" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/08/Imagem-1.jpg 1279w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/08/Imagem-1-800x328.jpg 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/08/Imagem-1-1024x420.jpg 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/08/Imagem-1-768x315.jpg 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/08/Imagem-1-1200x493.jpg 1200w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 1362px) 62vw, 840px" /><figcaption id="caption-attachment-22053" class="wp-caption-text">Manhãs de Setembro brinca com a complexidade do conceito de família e emociona com elenco competente (Foto: Amazon Prime Vídeo)</figcaption></figure>
<p><b>Giovanne Ramos</b></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Estamos no país que mais mata transexuais e travestis no mundo. De acordo com um </span><a href="https://antrabrasil.files.wordpress.com/2021/01/dossie-trans-2021-29jan2021.pdf"><span style="font-weight: 400;">relatório anual</span></a><span style="font-weight: 400;"> publicado pela Associação Nacional de Travestis e Transexuais do Brasil (</span><a href="https://antrabrasil.org/"><span style="font-weight: 400;">ANTRA</span></a><span style="font-weight: 400;">), o país teve um total de 175 pessoas transexuais assassinadas em 2020. Esse número equivale a uma morte a cada dois dias, de vítimas que eram mulheres trans/travestis, em sua maioria negras, pobres e prostitutas. E não, </span><i><span style="font-weight: 400;">Manhãs de Setembro</span></i><span style="font-weight: 400;"> não retrata a realidade de uma estatística, pelo contrário, a série nos permite vivenciar um drama que foge dessas fatalidades, mas sem esconder a dura realidade do que é pertencer a esse recorte num país como o Brasil.</span></p>
<p><span id="more-22050"></span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Dirigido por Luis Pinheiro e Dainara Toffoli, a série brasileira idealizada por Miguel de Almeida chegou ao catálogo do </span><i><span style="font-weight: 400;">Amazon Prime Video</span></i><span style="font-weight: 400;"> no dia 25 de junho, </span><a href="https://elle.com.br/cultura/liniker-estreia-como-atriz"><span style="font-weight: 400;">chamando atenção pela protagonista</span></a><span style="font-weight: 400;"> e sua premissa. Liniker conquistou o país com sua voz e suas </span><a href="https://www.youtube.com/watch?v=M4s3yTJCcmI&amp;ab_channel=LinikereosCaramelows"><span style="font-weight: 400;">músicas poéticas</span></a><span style="font-weight: 400;">, além de sua trajetória única. Mas protagonizando algo tão grande? É uma novidade. Talvez a sua primeira vez no ramo </span><i><span style="font-weight: 400;">mainstream</span></i><span style="font-weight: 400;">. Há um certo mito de que nem todos os cantores entregam uma boa atuação &#8211; </span><a href="https://observatoriodatv.uol.com.br/critica-de-tv/em-sequencia-importante-fiuk-deixa-a-desejar-em-a-forca-do-querer"><span style="font-weight: 400;">Fiuk que o diga</span></a><span style="font-weight: 400;"> -, mas esse não foi o caso da artista. Dando vida à Cassandra, Liniker expressa uma realidade que é bem conhecida por muitos e não tanto por outros.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Com uma temporada única dividida em cinco episódios, somos apresentados à história de Cassandra, transexual, negra, entregadora de aplicativo, aspirante à cantora e, de certa maneira, ranzinza. Logo no início do primeiro capítulo, </span><i><span style="font-weight: 400;">É Só Por Hoje</span></i><span style="font-weight: 400;">, acompanhamos a sua trajetória da aquisição de uma </span><i><span style="font-weight: 400;">kitnet </span></i><span style="font-weight: 400;">na cidade de São Paulo. Não é nem preciso dizer que as condições são semelhantes a de um cortiço. Quem já teve a oportunidade de fazer uma passagem pela cidade, consegue notar a semelhança da paleta soturna e fria da obra com o </span><a href="https://www.nossasaopaulo.org.br/2020/01/22/64-das-pessoas-que-moram-em-sao-paulo-afirmam-que-se-pudessem-sairiam-da-cidade/"><span style="font-weight: 400;">local</span></a><span style="font-weight: 400;"> onde é ambientada.</span></p>
<figure id="attachment_22054" aria-describedby="caption-attachment-22054" style="width: 1024px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-full wp-image-22054" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/08/Imagem-2.jpg" alt="Cena da série “Manhãs de Setembro”. Na imagem, a personagem Cassandra usando roupas estampadas e apoiada na varanda. A imagem possui tons dourados. A personagem está situada à direita da foto, olhando para o horizonte." width="1024" height="576" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/08/Imagem-2.jpg 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/08/Imagem-2-800x450.jpg 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/08/Imagem-2-768x432.jpg 768w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 1362px) 62vw, 840px" /><figcaption id="caption-attachment-22054" class="wp-caption-text">O contexto de fundo colabora com o enriquecimento da trama, e a retratação de São Paulo a partir de quem está na base da pirâmide social é quase um soco de realidade (Foto: Amazon Prime Vídeo)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">Para um sortudo que não foi pego por </span><i><span style="font-weight: 400;">spoilers</span></i><span style="font-weight: 400;"> e caiu de paraquedas na série, a sensação é de que a trama central é a relação de Cassandra com o seu par romântico Ivaldo (interpretado por </span><a href="https://canaltech.com.br/entretenimento/thomas-aquino-de-boca-a-boca-conta-como-foi-atuar-na-nova-serie-da-netflix-169130/"><span style="font-weight: 400;">Thomas Aquino</span></a><span style="font-weight: 400;">) e os perrengues da vida afetiva de uma mulher transicionada. Mas a história vai além desse tipo de afetividade. O seu núcleo é a relação da nossa protagonista carrancuda com Leide (</span><a href="https://kogut.oglobo.globo.com/noticias-da-tv/critica/noticia/2021/01/karine-teles-atriz-sublime-numa-personagem-irresistivel-em-nova-serie-do-canal-brasil.html"><span style="font-weight: 400;">Karine Teles</span></a><span style="font-weight: 400;">), uma paquera da vida antes da transição, e Gersinho.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Gersinho, interpretado pelo estreante Gustavo Coelho, é uma criança de 12 anos que nunca conheceu o pai. Ao mesmo tempo, mora em um carro carcomido com sua mãe Leide, vendedora </span><a href="https://www.metropoles.com/brasil/ambulantes-desafiam-fase-emergencial-e-seguem-nas-ruas-de-sao-paulo"><span style="font-weight: 400;">ambulante</span></a><span style="font-weight: 400;"> e sem-teto, que, impulsionada pelo desejo do filho, decide ir atrás de Clóvis, o pai do garoto. Esse é o </span><i><span style="font-weight: 400;">plot</span></i><span style="font-weight: 400;">, Clóvis agora é Cassandra, que se vê desesperada ao descobrir que a relação antiga com Leide resultou em um filho que desconhecia até então. Neste momento, é como se pudéssemos enxergar uma placa de negação na testa da personagem. Ela passa por um bom tempo rejeitando o garoto, que numa espécie de pureza, enxerga na pessoa feminina a imagem de seu pai.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">O restante da série é de difícil descrição. É incrível o tanto de nuances que permeiam </span><i><span style="font-weight: 400;">Manhãs de Setembro </span></i><span style="font-weight: 400;">em cinco episódios de 30 minutos cada. Mas alguns fatores são dignos de destaque, começando pela alusão à cantora Vanusa. A homenagem vem desde o </span><a href="https://www.youtube.com/watch?v=-az59cJi9dE&amp;ab_channel=Jos%C3%A9Almeida"><span style="font-weight: 400;">título da série</span></a><span style="font-weight: 400;">, até a importância dada para a artista, uma explícita inspiração de Cassandra. A narradora “fada madrinha”, uma voz oculta que aconselha &#8211; nem sempre no melhor sentido da coisa &#8211; a protagonista em diversos momentos, é um baita tributo à figura irreverente da musa brasileira que nos deixou em 2020. E as interpretações! Parte da discografia de Vanusa ganham uma roupagem incrível na voz de Liniker e costura diversos momentos em que é possível associar a riqueza lírica com a situação em cena.</span></p>
<figure id="attachment_22055" aria-describedby="caption-attachment-22055" style="width: 1331px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-full wp-image-22055" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/08/Imagem-3.jpg" alt="Cena da série “Manhãs de Setembro”. Na imagem, a personagem Cassandra está centralizada, sentada e cantando segurando um microfone. Usa roupas pretas. Ao lado esquerdo, o personagem Décio, senhor, branco, tocando instrumentos. O fundo é uma cortina vermelha de teatro." width="1331" height="749" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/08/Imagem-3.jpg 1331w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/08/Imagem-3-800x450.jpg 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/08/Imagem-3-1024x576.jpg 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/08/Imagem-3-768x432.jpg 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/08/Imagem-3-1200x675.jpg 1200w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 1362px) 62vw, 840px" /><figcaption id="caption-attachment-22055" class="wp-caption-text">Como um Ode à Vanusa, Liniker honra a artista fazendo o que sabe de melhor: cantar, se equilibrando numa atuação digna (Foto: Amazon Prime Vídeo)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">A </span><a href="https://revistacrescer.globo.com/Educacao-Comportamento/noticia/2021/01/maternidade-trans-e-resistencia-historias-de-mulheres-que-lutam-diariamente-pelo-direito-da-maternidade.html"><span style="font-weight: 400;">maternidade</span></a><span style="font-weight: 400;"> é outro norte precioso da obra. Temos Leide, uma mulher que ama o seu filho mas não sabe como ser uma boa mãe e passa toda a sua história entre erros tentando ser a figura materna digna que Gersinho merece. Cassandra, por sua vez, custa a aceitar o pequeno, ainda mais pela criança chamá-la de pai, inocentemente sem conseguir discernir a imagem feminina da convenção de que, se Leide é sua mãe, Cassandra só pode ser o pai. Esse embate da criança carente por aceitação e da protagonista que nega aceitá-la torna tudo menos clichê e previsível, e de certa forma até prazeroso. É satisfatório notar os momentos que o pequeno gênio consegue penetrar a casca dura de Cass. Impossível ninguém se emocionar no momento </span><a href="https://pbs.twimg.com/media/E6TSoGVWYAclxyH?format=jpg&amp;name=medium"><span style="font-weight: 400;">“</span><i><span style="font-weight: 400;">Você é muito bonita, pai</span></i><span style="font-weight: 400;">”</span></a><span style="font-weight: 400;">.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Para fechar o ciclo de abordagem familiar, somos também presenteados com algumas estruturas únicas. </span><i><span style="font-weight: 400;">Manhãs de Setembro</span></i><span style="font-weight: 400;"> nos apresenta ao casal Aristides (Gero Camilo) e Décio (Paulo Miklos), amigos de Cassandra e que protagonizam momentos memoráveis com Gersinho; à Grazy, colega de escola da estrela mirim, que, de maneira subentendida, é filha de uma garota de programa que confia na esperteza da filha; ao núcleo familiar de Ivaldo, onde sua filha bem resolvida pretende se assumir, chocando o pai com tanta confiança; e por último e não menos importante, também existe a rede afetiva de Cassandra, composta por outras mulheres negras transexuais &#8211; incluindo Pedrita, interpretada por </span><a href="https://www.youtube.com/watch?v=y5rY2N1XuLI&amp;ab_channel=LinndaQuebrada"><span style="font-weight: 400;">Linn da Quebrada</span></a><span style="font-weight: 400;">.</span></p>
<figure id="attachment_22056" aria-describedby="caption-attachment-22056" style="width: 1920px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-full wp-image-22056" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/08/Imagem-4.jpg" alt="Cena da série “Manhãs de Setembro”. Na imagem, a personagem Pedrita à esquerda usando um top e mini saia com estampas de tigre. Ao seu lado, Cassandra, de regata estampada e short. Ambas estão se movimentando e sorrindo. O cenário é um quarto." width="1920" height="1080" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/08/Imagem-4.jpg 1920w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/08/Imagem-4-800x450.jpg 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/08/Imagem-4-1024x576.jpg 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/08/Imagem-4-768x432.jpg 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/08/Imagem-4-1536x864.jpg 1536w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/08/Imagem-4-1200x675.jpg 1200w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 1362px) 62vw, 840px" /><figcaption id="caption-attachment-22056" class="wp-caption-text">A série é um dos poucos materiais nacionais que retratam tamanha diversidade em núcleos centrais, que sirva de incentivo para muitas outras (Foto: Amazon Prime Vídeo)</figcaption></figure>
<p><i><span style="font-weight: 400;">Manhãs de Setembro</span></i><span style="font-weight: 400;"> é uma daquelas séries que <a href="https://personaunesp.com.br/pose-segunda-temporada-critica/">não possui uma única mensagem, mas várias</a>. E se você pisca o olho, acaba perdendo alguma delas. É sobre as possibilidades de família, </span><a href="https://www.brazilianjournals.com/index.php/BRJD/article/view/25989"><span style="font-weight: 400;">precarização do trabalho</span></a> <span style="font-weight: 400;">e de moradias, pessoas em situação de rua, estratificação social, afetividade e acima de tudo, realidade. São tantos pontos, que alguns com certeza podem ter sido deixados de fora dessa crítica, e a visão de quem assiste pode ser distinta. Mas é isso que caracteriza um trabalho tão subjetivo. O texto foi aberto com a realidade trágica de muitas trans/travestis, mas a produção é preenchida com instantes de risos, tristezas, alegrias e prazeres, mostrando que essa não é, e nem deve ser o único aspecto a ser notado, muito menos, a única possibilidade.</span></p>
<div class="jetpack-video-wrapper"><iframe loading="lazy" title="Manhãs de Setembro  | Trailer Oficial | Amazon Prime Video" width="840" height="473" src="https://www.youtube.com/embed/NoXyFvRjem0?feature=oembed" frameborder="0" allow="accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share" referrerpolicy="strict-origin-when-cross-origin" allowfullscreen></iframe></div>
<p>O post <a href="http://personaunesp.com.br/manhas-de-setembro-critica/">As Manhãs de Setembro em um país ensinado a odiar minorias</a> apareceu primeiro em <a href="http://personaunesp.com.br">Persona | Jornalismo Cultural</a>.</p>
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