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	<title>Arquivos Gabriel Diaz &#8211; Persona | Jornalismo Cultural</title>
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	<description>Desde 2015 provando que a distância entre Bergman, Lady Gaga e a novela das 9 nem existe.</description>
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		<title>Super Mario Galaxy: O Filme não é feito para os fãs, e sim aos apaixonados</title>
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		<pubDate>Mon, 06 Apr 2026 13:00:01 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p>Gabriel Diaz Antes mesmo do primeiro teaser ser lançado, os fóruns da internet fervilhavam com muitas teorias. Entusiastas de longa data do encanador bigodudo, que cresceram com os diversos jogos da franquia, esperavam com ansiedade o que a Nintendo e a Illumination teriam para oferecer como continuação de Super Mario Bros (2023). E quando as &#8230; <a href="http://personaunesp.com.br/critica-super-mario-galaxy-o-filme/" class="more-link">Continue lendo<span class="screen-reader-text"> "Super Mario Galaxy: O Filme não é feito para os fãs, e sim aos apaixonados"</span></a></p>
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										<content:encoded><![CDATA[<figure id="attachment_37184" aria-describedby="caption-attachment-37184" style="width: 800px" class="wp-caption alignnone"><img fetchpriority="high" decoding="async" class="size-medium wp-image-37184" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2026/04/image5-800x420.png" alt="Cena animada colorida mostra quatro personagens voando pelo espaço em alta velocidade. Ao centro, um homem de bigode com boné vermelho e macacão azul cavalga um dinossauro verde de olhos grandes, que avança com a boca aberta. À esquerda, outro homem com roupa verde flutua com expressão determinada. À direita, uma princesa de vestido rosa e coroa dourada voa envolta por um brilho mágico. O fundo é um céu cósmico com partículas luminosas e rastros de energia em tons neon." width="800" height="420" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2026/04/image5-800x420.png 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2026/04/image5-1024x538.png 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2026/04/image5-768x403.png 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2026/04/image5-1536x806.png 1536w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2026/04/image5-1200x630.png 1200w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2026/04/image5.png 1920w" sizes="(max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 984px) 61vw, (max-width: 1362px) 45vw, 600px" /><figcaption id="caption-attachment-37184" class="wp-caption-text">Além da trama principal, a sequência expande o universo da Nintendo com participações especiais e easter eggs para todos os públicos (Foto: Universal Pictures)</figcaption></figure>
<p><b>Gabriel Diaz</b></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Antes mesmo do primeiro </span><a href="https://www.youtube.com/watch?v=RC56sjMdKuU"><i><span style="font-weight: 400;">teaser</span></i></a> <span style="font-weight: 400;">ser lançado, os fóruns da internet fervilhavam com muitas teorias. Entusiastas de longa data do encanador bigodudo, que cresceram com os diversos jogos da franquia, esperavam com ansiedade o que a </span><i><span style="font-weight: 400;">Nintendo </span></i><span style="font-weight: 400;">e a </span><i><span style="font-weight: 400;">Illumination </span></i><span style="font-weight: 400;">teriam para oferecer como continuação de </span><a href="https://www.cnnbrasil.com.br/entretenimento/super-mario-bros-se-torna-maior-adaptacao-de-jogo-para-cinema-da-historia/"><i><span style="font-weight: 400;">Super Mario Bros</span></i></a><span style="font-weight: 400;"> (2023). E quando as imagens chegaram, a euforia tomou conta. </span><span id="more-37183"></span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">A apresentação de </span><i><span style="font-weight: 400;">Super Mario Galaxy</span></i><span style="font-weight: 400;"> trouxe as galáxias coloridas, o adorável Yoshi e a tão aclamada Princesa Rosalina – elementos clássicos de todo o universo do </span><i><span style="font-weight: 400;">game</span></i><span style="font-weight: 400;">. Assim como no primeiro filme, a história aposta na expansão e não se enquadra fielmente ao enredo tradicional dos jogos, especialmente a </span><a href="https://www.tecmundo.com.br/minha-serie/603525-confira-as-principais-diferencas-entre-o-filme-e-o-jogo-super-mario-galaxy.htm"><span style="font-weight: 400;">inspiração</span></a><span style="font-weight: 400;"> que levou o nome do título, lançado em 2007 na plataforma do </span><i><span style="font-weight: 400;">Nintendo Wii</span></i><span style="font-weight: 400;">. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Se está funcionando, não há razão para arriscar e decepcionar um público fiel, seja de sua maioria infantil ou apenas quem goste dos jogos. Então, a técnica de seguir uma narrativa própria, misturando referências de diferentes títulos da franquia Mario para reinterpretá-las para o Cinema, se mantém. A proposta não é adaptar diretamente o jogo, mas executar uma releitura de uma experiência mais ampla. Além disso, o longa marca os </span><a href="https://canaltech.com.br/games/super-mario-40-anos-curiosidades-marcos-do-game/"><span style="font-weight: 400;">40 anos</span></a><span style="font-weight: 400;"> de um dos personagens mais icônicos da história dos videogames. A expectativa era de uma celebração à altura. O que poucos perceberam, porém, é que essa celebração tem um destinatário muito específico; e talvez não seja quem você imagina.</span></p>
<figure id="attachment_37185" aria-describedby="caption-attachment-37185" style="width: 800px" class="wp-caption alignnone"><img decoding="async" class="size-medium wp-image-37185" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2026/04/image4-1-800x450.png" alt="Imagem dividida diagonalmente em duas partes. À esquerda, um homem de boné vermelho gira no espaço com o corpo inclinado, cercado por estrelas brilhantes e pequenas criaturas luminosas em formato de estrela. À direita, o mesmo personagem monta um dinossauro verde que estica a língua para pegar uma fruta vermelha enquanto flutua em um céu azul com nuvens. As duas cenas contrastam o espaço profundo e um ambiente mais claro e celeste." width="800" height="450" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2026/04/image4-1-800x450.png 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2026/04/image4-1-1024x576.png 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2026/04/image4-1-768x432.png 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2026/04/image4-1-1200x675.png 1200w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2026/04/image4-1.png 1280w" sizes="(max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 984px) 61vw, (max-width: 1362px) 45vw, 600px" /><figcaption id="caption-attachment-37185" class="wp-caption-text">Por trás da inspiração, o jogo original de Wii revolucionou o mundo dos games ao apresentar novas mecânicas que redefiniram o gameplay (Foto: Nintendo)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">O longa propõe a missão de continuar o legado da primeira aventura de Mario (Chris Pratt) e Luigi (Charlie Day), porém a trama parte por outra premissa: Bowser Jr. (Ben Safdie), filho do grande vilão Bowser (Jack Black), sequestra Rosalina (Brie Larson) em busca de poder suficiente para impressionar o pai. Além dos irmãos principais, Peach (Anya Taylor-Joy), Toad (Keegan-Michael Key) e o recém-chegado Yoshi (</span><a href="https://cinepop.com.br/donald-glover-fez-campanha-para-dublar-o-yoshi-em-super-mario-galaxy-afirma-jack-black-725936/"><span style="font-weight: 400;">Donald Glover</span></a><span style="font-weight: 400;">) partem numa missão de resgate que os conduz por planetas aquáticos, desertos estelares e cidades espaciais.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Rosalina, que no </span><i><span style="font-weight: 400;">game </span></i><span style="font-weight: 400;">exerce um papel mais independente e enigmático, passa a ocupar a posição de ‘princesa a ser resgatada’, alterando significativamente a condução da história. Em paralelo, Peach assume uma postura mais </span><a href="https://www.nintendoblast.com.br/2023/03/super-mario-bros-o-filme-diretores-explicam-sua-abordagem-da-peach.html"><span style="font-weight: 400;">ativa</span></a><span style="font-weight: 400;"> ao lado de Toad, reforçando uma abordagem mais dinâmica e atualizada dos personagens clássicos. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Matthew Fogel escreveu o roteiro com a clareza objetiva de quem entende que seu público-alvo tem entre seis e dez anos de idade, pois entrega começo, meio e fim com uma eficiência quase mecânica. Entretanto, entrega alusões de jogos para os mais antigos fãs, como de </span><a href="https://gamewire.com.br/reviews/super-mario-odyssey-a-magia-de-redescobrir-mario"><i><span style="font-weight: 400;">Super Mario Odyssey</span></i></a> <span style="font-weight: 400;">(2017), </span><a href="https://www.wired.com/2011/04/super-mario-bros-2/"><i><span style="font-weight: 400;">Super Mario Bros. 2</span></i></a><span style="font-weight: 400;"> (1988) e até do </span><a href="https://delfos.net.br/super-mario-sunshine-de-cabeca-fria/"><i><span style="font-weight: 400;">Super Mario Sunshine</span></i></a><span style="font-weight: 400;"> (2002), na forma como Bowser Jr. empunha seu icônico pincel mágico. E diferente do primeiro filme, a sequência demonstra contenção narrativa, o que, paradoxalmente, tanto é um avanço quanto a raiz de suas frustrações mais profundas.</span></p>
<figure id="attachment_37188" aria-describedby="caption-attachment-37188" style="width: 800px" class="wp-caption alignnone"><img decoding="async" class="size-medium wp-image-37188" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2026/04/image3-1-800x479.png" alt="Criatura animada semelhante a um filhote de tartaruga com corpo robusto, pele amarelada e focinho arredondado aparece em primeiro plano. Ela usa uma bandana com desenho de dentes afiados e pulseiras escuras nos braços. O personagem está sentado em uma cadeira metálica com cabos ao redor, levantando as mãos com expressão animada. A iluminação mistura tons de vermelho e azul, criando um ambiente tecnológico e levemente ameaçador." width="800" height="479" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2026/04/image3-1-800x479.png 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2026/04/image3-1-1024x613.png 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2026/04/image3-1-768x460.png 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2026/04/image3-1-1200x718.png 1200w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2026/04/image3-1.png 1340w" sizes="(max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 984px) 61vw, (max-width: 1362px) 45vw, 600px" /><figcaption id="caption-attachment-37188" class="wp-caption-text">Na versão brasileira, a voz do Bowser Jr recebeu a dublagem de Charles Emmanuel (Foto: Illumination Studios)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">A direção de Aaron Horvath e Michael Jelenic, os mesmos responsáveis pelo primeiro longa, encontra neste segundo capítulo uma versão de si mesma amplificada em confiança técnica. As sequências de ação são fluidas e vertiginosas, com uma câmera que mergulha na gravidade invertida dos planetas como se o espectador estivesse ele mesmo com um </span><a href="https://rewardbr.com.br/super-mario-galaxy-mudou-os-videogames-para-sempre-e-quase-ninguem-percebeu/"><span style="font-weight: 400;">controle de Wii</span></a><span style="font-weight: 400;"> na mão. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Talvez seja importante ressaltar que a </span><i><span style="font-weight: 400;">Illumination</span></i><span style="font-weight: 400;"> sempre opera com orçamentos notavelmente enxutos: cerca de 100 milhões de dólares, metade do que </span><i><span style="font-weight: 400;">Pixar</span></i><span style="font-weight: 400;"> e </span><i><span style="font-weight: 400;">Disney</span></i><span style="font-weight: 400;"> costumam investir em suas produções; e entrega resultados que desafiam e </span><a href="https://universonintendo.com/super-mario-galaxy-o-filme-ja-soma-us-1221-milhoes-em-dois-dias-apos-estreia/"><span style="font-weight: 400;">superam</span></a><span style="font-weight: 400;"> essa lógica financeira. A direção de arte, que inclui o brasileiro </span><a href="https://www.omelete.com.br/games/super-mario-galaxy-quadro-bowser-brasileiro"><span style="font-weight: 400;">Renan Porto</span></a><span style="font-weight: 400;"> na equipe, é, sem exagero, o ápice cinematográfico do longa: os planetas têm identidades visuais distintas, as paletas de cores mudam de galáxia para galáxia com uma coerência que sugere um trabalho meticuloso de </span><i><span style="font-weight: 400;">design </span></i><span style="font-weight: 400;">que vai muito além do decorativo.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">É possível ver numa única pincelada do pincel mágico de </span><a href="https://www.nintendoblast.com.br/2025/11/perfil-bowser-jr-super-mario-galaxy-filme.html"><span style="font-weight: 400;">Bowser Jr.</span></a><span style="font-weight: 400;"> que ali possui uma textura quase tátil, e os fantoches, que emergem em uma das cenas de ação mais inventivas do filme, revelam uma produção disposta a experimentar materiais e estilos sem medo do estranhamento. É um comportamento comum de produções de animação, mas que conseguiu superar a si próprio e atingiu cenários genuinamente impressionantes.</span></p>
<figure id="attachment_37187" aria-describedby="caption-attachment-37187" style="width: 800px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-medium wp-image-37187" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2026/04/image2-2-800x463.png" alt="Cena noturna mostra duas figuras de costas, um homem de boné vermelho e uma mulher de vestido longo rosa, observando o céu estrelado de cima de um telhado. O horizonte é preenchido por meteoros luminosos cruzando o céu em várias direções, deixando rastros brilhantes em tons de azul, rosa e amarelo. A atmosfera é calma e contemplativa, com iluminação suave refletindo nas silhuetas dos personagens." width="800" height="463" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2026/04/image2-2-800x463.png 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2026/04/image2-2-1024x593.png 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2026/04/image2-2-768x445.png 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2026/04/image2-2.png 1200w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 984px) 61vw, (max-width: 1362px) 45vw, 600px" /><figcaption id="caption-attachment-37187" class="wp-caption-text">O filme registrou a maior estreia de 2026 ao arrecadar US$ 34 milhões em seu primeiro dia em cartaz, superando recorde anterior da franquia (Foto: Illumination Studios)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">Brian Tyler, o mesmo do primeiro longa, é o nome da </span><a href="https://open.spotify.com/intl-pt/album/4iexP0v3Nax6gDm2gkgIw8?si=mt5h95oTQWOLdJ9n7VdV_Q"><span style="font-weight: 400;">trilha sonora</span></a><span style="font-weight: 400;"> e ela foi reaproveitada em arranjos que transitam entre o sinfônico e o eletrônico, sempre encaixada com precisão cirúrgica nos momentos de ação. Se há uma crítica a fazer ao uso, é essa conexão entre música e emoção narrativa. Se no primeiro era tão marcante, com seus momentos de clímax sonoro que arrepiavam, aqui parece ligeiramente enfraquecida, como se a trilha estivesse a serviço da experiência sensorial mais do que da jornada emocional dos personagens. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">O que a obra faz de melhor, e de forma absolutamente consciente, é funcionar como uma espécie de </span><a href="https://www.nintendoblast.com.br/2015/09/super-mario-maker-analise.html"><i><span style="font-weight: 400;">Super Mario Maker</span></i></a><span style="font-weight: 400;"> (2015) cinematográfico. Para quem não conhece, este jogo era a materialização de um sonho coletivo: dar ao jogador as ferramentas de criação do próprio </span><a href="https://abra.com.br/artigos/shigeru-miyamoto-o-genio-por-tras-de-super-mario-e-zelda"><span style="font-weight: 400;">Shigeru Miyamoto</span></a><span style="font-weight: 400;"> e deixá-lo construir seus mundos livremente. No cinema, opera-se numa lógica semelhante: pega o arsenal de 40 anos de franquia e o distribui generosamente pela tela, convidando o espectador apaixonado a caçar referências como se cada quadro fosse um nível a ser explorado.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Dentre as menções, </span><a href="https://www.youtube.com/watch?v=QFDEMFnfUns"><span style="font-weight: 400;">Pikmins</span></a><span style="font-weight: 400;"> aparecem em cantos discretos, </span><a href="https://ovicio.com.br/10-fatos-sobre-star-fox/"><span style="font-weight: 400;">Fox McCloud</span></a><span style="font-weight: 400;"> (Glen Powell) chega com sua Arwing numa entrada épica, Birdo e Wart ressurgem como antagonistas clássicos e o guarda-chuva de Peach remete diretamente a </span><a href="https://projectn.com.br/project-retro-super-princess-peach-a-revolucao-feminina-no-reino-do-cogumelo/"><i><span style="font-weight: 400;">Super Princess Peach</span></i></a><span style="font-weight: 400;"> (2005). Nenhum desses elementos pertencia originalmente ao universo </span><i><span style="font-weight: 400;">Galaxy</span></i><span style="font-weight: 400;">, e por isso a decisão divide opiniões.</span></p>
<figure id="attachment_37189" aria-describedby="caption-attachment-37189" style="width: 800px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-medium wp-image-37189" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2026/04/image6-800x450.png" alt="Personagem semelhante a uma raposa está em pose heroica no topo de uma estrutura futurista. Ele usa um traje tecnológico com colete azul, luvas e um dispositivo verde brilhante sobre um dos olhos. Ao fundo, o céu tem tons vibrantes de pôr do sol misturados com roxo e laranja, enquanto pequenas naves voadoras se aproximam. A iluminação destaca o personagem como protagonista em um cenário de ação e ficção científica." width="800" height="450" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2026/04/image6-800x450.png 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2026/04/image6-1024x576.png 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2026/04/image6-768x432.png 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2026/04/image6-1200x675.png 1200w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2026/04/image6.png 1280w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 984px) 61vw, (max-width: 1362px) 45vw, 600px" /><figcaption id="caption-attachment-37189" class="wp-caption-text">O anúncio prévio de Fox McCloud, da série de jogos Star Fox, sustentou perfeitamente o personagem dentro da narrativa espacial (Foto: Illumination Studios)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">Para quem vê o filme como extensão da franquia, acaba soando generoso. Para quem esperava uma transposição mais </span><a href="https://www.estadao.com.br/cultura/cinema/super-mario-galaxy-o-filme-e-o-oposto-do-que-o-jogo-representou/?srsltid=AfmBOopgOx5uoopUX9SKBdm2upGBJq7EakZ9xU62TDU7Fx-1nMlWHH-u"><span style="font-weight: 400;">fiel</span></a><span style="font-weight: 400;"> ao jogo de 2007, é uma diluição. Felizmente, parece que a </span><i><span style="font-weight: 400;">Nintendo </span></i><span style="font-weight: 400;">entendeu isso e realizou um projeto de longo prazo que consegue funcionar de maneira orgânica na maior parte do tempo, sem um caos indigesto de citações sem contexto.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">A verdade é que quem não construiu memórias afetivas com esses personagens ao longo de décadas encontrará uma narrativa apressada, personagens subdesenvolvidos e uma quantidade de informações visuais que atordoa sem necessariamente emocionar. Pode-se usar a Rosalina, ausente no filme até o clímax, como um símbolo de desperdício desconcertante de uma personagem cuja história de origem é uma das mais tocantes de toda a franquia. A relação entre ela e Peach, reveladas como </span><a href="https://www.omelete.com.br/filmes/super-mario-galaxy-teoria-peach-rosalina"><span style="font-weight: 400;">irmãs</span></a><span style="font-weight: 400;"> numa das maiores surpresas narrativas do longa, é esboçada com um </span><i><span style="font-weight: 400;">flashback </span></i><span style="font-weight: 400;">e depois praticamente abandonada.</span></p>
<figure id="attachment_37186" aria-describedby="caption-attachment-37186" style="width: 800px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-medium wp-image-37186" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2026/04/image1-1-800x450.png" alt="Personagem feminina com traços de princesa está sentada em uma cadeira de madeira clássica dentro de uma biblioteca repleta de livros. Ela usa um vestido azul turquesa com detalhes prateados e uma pequena coroa, mantendo uma expressão serena enquanto segura um livro aberto. Três pequenas criaturas estelares e brilhantes flutuam ao seu redor nas cores amarelo, verde e branco, iluminando suavemente a cena. A composição utiliza tons quentes e luzes pontuais para criar uma atmosfera mágica, acolhedora e de fantasia." width="800" height="450" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2026/04/image1-1-800x450.png 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2026/04/image1-1-1024x576.png 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2026/04/image1-1-768x432.png 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2026/04/image1-1-1536x864.png 1536w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2026/04/image1-1-1200x675.png 1200w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2026/04/image1-1.png 1999w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 984px) 61vw, (max-width: 1362px) 45vw, 600px" /><figcaption id="caption-attachment-37186" class="wp-caption-text">A ausência de destaque da Rosalina foi citada como um dos problemas que contribuíram para a recepção mais fraca no Rotten Tomatoes (Foto: Nintendo)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">Os cortes abruptos entre registros emocionais muito distintos também comprometem a imersão, pois, em um arco mais melancólico e potencialmente rico do roteiro como o de Bowser e seu filho Bowser Jr., não há espaço para respirar entre um </span><i><span style="font-weight: 400;">power-up</span></i><span style="font-weight: 400;"> e outro, mesmo que a cena em que Bowser conta ao filho uma lição de moral </span><a href="https://www.youtube.com/watch?v=aqKzZLFBgb8"><span style="font-weight: 400;">paterna</span></a><span style="font-weight: 400;">. Apesar disso tudo, a dinâmica entre Yoshi e Luigi é comédia e afeto puro, funcionando no nível humano mais simples. Que bom que existe, porém que pena que o filme passa rápido demais por ela.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">No fim, </span><i><span style="font-weight: 400;">Super Mario Galaxy</span></i><span style="font-weight: 400;"> se define justamente por esse equilíbrio instável entre nostalgia e inovação, nada diferente do que se esperava. Ao escolher expandir em vez de adaptar fielmente, cria-se uma identidade própria que encanta parte do público e desafia outra. Ele não é feito para quem vai ao cinema buscando a densidade de um </span><a href="https://personaunesp.com.br/texto-ghibli-fest-40-anos-do-studio-ghibli/"><span style="font-weight: 400;">Studio Ghibli</span></a><span style="font-weight: 400;">; é feito para quem, ao ouvir o tema principal da série, sente imediatamente o peso afetivo de uma infância inteira guardada naquelas notas e para as crianças que ainda estão construindo as suas</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">A obra conclui mais uma etapa dentro do universo, que aparentemente está nem perto de ser finalizado. A </span><i><span style="font-weight: 400;">Nintendo </span></i><span style="font-weight: 400;">conseguiu se fantasiar de </span><a href="https://exame.com/pop/qual-a-ordem-cronologica-dos-filmes-da-marvel/"><i><span style="font-weight: 400;">Marvel</span></i></a> <span style="font-weight: 400;">e criou extensões do universo, dando a entender que outros jogos poderiam estar presentes numa versão cinematográfica. Será que um possível filme da série de </span><a href="https://www.adorocinema.com/noticias/filmes/noticia-1000197784/"><i><span style="font-weight: 400;">Super Smash Bros</span></i></a><span style="font-weight: 400;"> estará nas telonas nos próximos anos? Se faz sentido? Talvez não, porém o que predomina é o sentimento de fã, então seria sensacional.</span></p>
<div class="jetpack-video-wrapper"><iframe loading="lazy" title="Super Mario Galaxy: O Filme | Trailer final" width="840" height="473" src="https://www.youtube.com/embed/HRyy_FdyieU?feature=oembed" frameborder="0" allow="accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share" referrerpolicy="strict-origin-when-cross-origin" allowfullscreen></iframe></div>
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		<title>XTRANHO, de Matuê, cumpre seu papel intencional e gera desconforto</title>
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		<pubDate>Thu, 19 Feb 2026 13:00:33 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Música]]></category>
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		<category><![CDATA[Gabriel Diaz]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Gabriel Diaz No começo de sua carreira, Matuê era a &#8216;cura&#8216;, representada pelo seu primeiro álbum de estúdio, Máquina do Tempo (2020). Agora, segundo suas próprias palavras, ele se torna a &#8216;peste&#8217;. É possível ler XTRANHO como uma infestação estética: um disco que deseja incomodar, provocar rejeição e instaurar ruído em um cenário cada vez &#8230; <a href="http://personaunesp.com.br/xtranho-de-matue-cumpre-seu-papel-intencional-e-gera-desconforto/" class="more-link">Continue lendo<span class="screen-reader-text"> "XTRANHO, de Matuê, cumpre seu papel intencional e gera desconforto"</span></a></p>
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										<content:encoded><![CDATA[<figure id="attachment_36942" aria-describedby="caption-attachment-36942" style="width: 640px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="wp-image-36942 size-full" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2026/02/ab67616d0000b2738d04125ccc35c6a708e932e8.jpeg" alt="Capa do álbum XTRANHO, do cantor Matuê. A imagem apresenta um rosto masculino em alto contraste, quase como um negativo fotográfico: olhos e sorriso emergem do preto absoluto, formando uma expressão ambígua entre ironia e ameaça. A estética crua e minimalista transforma o rosto em símbolo, mais ideia do que identidade." width="640" height="640" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2026/02/ab67616d0000b2738d04125ccc35c6a708e932e8.jpeg 640w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2026/02/ab67616d0000b2738d04125ccc35c6a708e932e8-150x150.jpeg 150w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 984px) 61vw, (max-width: 1362px) 45vw, 600px" /><figcaption id="caption-attachment-36942" class="wp-caption-text">XTRANHO revela os limites da ruptura prometida por um dos maiores nomes do trap nacional (Foto: 30PRAUM)</figcaption></figure>
<p><strong>Gabriel Diaz</strong></p>
<p><span style="font-weight: 400;">No começo de sua carreira, Matuê era a &#8216;</span><a href="https://open.spotify.com/intl-pt/track/0bV0LtjtZH76gD0ujPYS3n?si=1ebad4b5ea524bd6"><span style="font-weight: 400;">cura</span></a><span style="font-weight: 400;">&#8216;, representada pelo seu primeiro álbum de estúdio, </span><a href="https://open.spotify.com/intl-pt/album/6ehm0SMBBoSxH8oSrFXre6?si=AkD1-VQPSmevWR8IJXgDpQ"><i><span style="font-weight: 400;">Máquina do Tempo</span></i></a><span style="font-weight: 400;"> (2020). Agora, segundo suas próprias palavras, ele se torna a &#8216;peste&#8217;. É possível ler </span><a href="https://open.spotify.com/intl-pt/album/5ORsvI5ThmZw7PS1NTvZaB?si=1ffcc29d4f194dff"><i><span style="font-weight: 400;">XTRANHO</span></i></a><span style="font-weight: 400;"> como uma infestação estética: um disco que deseja incomodar, provocar rejeição e instaurar ruído em um cenário cada vez mais previsível do </span><i><span style="font-weight: 400;">trap</span></i> <i><span style="font-weight: 400;">mainstream</span></i><span style="font-weight: 400;">. O lançamento foi tratado como um evento, tendo uma audição pública no </span><a href="https://portalpopline.com.br/matue-ocupa-o-anhangabau-e-revela-novo-album-xtranho-em-acao-gratuita-para-milhares-de-fas/"><span style="font-weight: 400;">Vale do Anhangabaú</span></a><span style="font-weight: 400;">, englobada à uma identidade visual agressiva com múltiplas capas e um </span><i><span style="font-weight: 400;">website </span></i><span style="font-weight: 400;">interativo (indisponível para acesso). Desde o primeiro contato, fica claro que o projeto não se limita ao som, mas extrapola além do campo musical. Ainda assim, sua principal fragilidade está na distância entre a ideia de ruptura anunciada e aquilo que efetivamente se materializa durante as faixas.</span></p>
<p><span id="more-36762"></span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Ao revisitar o passado, a produção ocupa uma posição curiosa na discografia do artista. Enquanto </span><a href="https://open.spotify.com/intl-pt/album/5CP84pfi4AFe95UTACFWrk?si=xtFvv3NNQxm1YpWCJxChNQ"><i><span style="font-weight: 400;">333</span></i></a> <span style="font-weight: 400;">retratava um amadurecimento artístico, com reflexões mais densas sobre fama, identidade e sucesso, </span><i><span style="font-weight: 400;">XTRANHO </span></i><span style="font-weight: 400;">parece dar o retorno na estrada – nele, opera-se um movimento regressivo, mais elementar e impulsivo, abandonando qualquer ambição racional. A sonoridade é como título promete: uma </span><a href="https://hiphopafins.substack.com/p/com-xtranho-matue-promete-revolucao"><span style="font-weight: 400;">estranheza</span></a><span style="font-weight: 400;"> que abandona boa parte da singularidade construída anteriormente e se ancora em referências já consolidadas do </span><i><span style="font-weight: 400;">trap </span></i><span style="font-weight: 400;">experimental internacional, especialmente Travis Scott, </span><a href="https://atl.clicrbs.com.br/musica/noticia/2025/04/playboi-carti-o-vampiro-do-trap-que-virou-icone-cultural-cm9lvligh01fj0150udf89xrh.html"><span style="font-weight: 400;">Playboi Carti</span></a><span style="font-weight: 400;"> e o universo do selo </span><a href="https://glamour.globo.com/moda/noticia/2023/08/opium-a-tendencia-de-moda-que-bate-de-frente-com-o-quiet-luxury.ghtml"><i><span style="font-weight: 400;">Opium</span></i></a><span style="font-weight: 400;">. Não há problema em dialogar com essas matrizes, até porque o </span><i><span style="font-weight: 400;">trap </span></i><span style="font-weight: 400;">sempre foi um gênero de circulação global, porém aqui a apropriação soa tardia e pouco transformadora. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">O ‘estranho’ é cansativo. O sentimento prometido aparece domesticado, filtrado por fórmulas que já se tornaram comerciais, principalmente quando se trata de um artista geracional dentro do gênero. Apesar de ser caracterizado como </span><a href="https://murbbrasil.com/top10-trappers-underground-brasil/"><i><span style="font-weight: 400;">‘underground’</span></i></a><span style="font-weight: 400;">, o disco esvazia qualquer pretensão de ruptura, pois não ousa realmente. O álbum mostra competência, explicada pelas produções limpas, os graves bem posicionados e as texturas densas e agressivas.</span></p>
<figure id="attachment_36763" aria-describedby="caption-attachment-36763" style="width: 800px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-medium wp-image-36763" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2026/01/image1-4-800x450.png" alt="A imagem mostra um homem negro de cabelos longos em dreadlocks, iluminado por luz dura em um ambiente escuro de bastidores. O olhar se projeta para fora do quadro, distante e atento, como se carregasse o peso do silêncio entre o palco e a solidão." width="800" height="450" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2026/01/image1-4-800x450.png 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2026/01/image1-4-1024x576.png 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2026/01/image1-4-768x432.png 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2026/01/image1-4-1536x864.png 1536w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2026/01/image1-4-1200x675.png 1200w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2026/01/image1-4.png 1920w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 984px) 61vw, (max-width: 1362px) 45vw, 600px" /><figcaption id="caption-attachment-36763" class="wp-caption-text">Segundo o próprio artista, o novo álbum aposta no choque estético e na provocação como discurso central (Foto: 30PRAUM)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">Contudo, técnica sem propósito não sustenta uma obra. A sensação constante é de que a forma tenta compensar a ausência de conteúdo numa aposta em </span><a href="https://www.youtube.com/watch?v=QlBkAfi2Muw"><i><span style="font-weight: 400;">beats </span></i><span style="font-weight: 400;">distorcidos</span></a><span style="font-weight: 400;"> e atmosferas sufocantes como se isso, por si só, fosse sinônimo de experimentação – e, claro, não é. A sonoridade soa atual, mas também genérica, incapaz de criar momentos e refrões verdadeiramente memoráveis: acredito que repetir ‘fogo’ por milhares de vezes não soa insano, tal como </span><a href="https://open.spotify.com/intl-pt/track/42VsgItocQwOQC3XWZ8JNA?si=d1d9f99b4c8044b2"><i><span style="font-weight: 400;">FEIN</span></i></a> <span style="font-weight: 400;">(2023), outra produção que, infelizmente, envelheceu mal.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Essa fragilidade se torna ainda mais evidente no campo lírico, onde o álbum atinge seu ponto mais baixo. </span><a href="https://open.spotify.com/intl-pt/track/1LT3tGHfUbjrdDT5BPa1Iq?si=80568e448ceb48e3"><i><span style="font-weight: 400;">FACAS E MACHADOS</span></i></a><span style="font-weight: 400;"> é o símbolo mais claro do colapso discursivo desse projeto. A música constrói uma ambiência agressiva e promissora, no entanto a letra dissolve qualquer impacto ao mergulhar em um amontoado de frases desconexas, infantilizadas e sem densidade simbólica. Não se trata de fluxo de consciência sofisticado ou de nonsense intencional: é puramente vazio. São versos que conversam com o nada e não criam estranhamento poético, apenas revelam falta de elaboração. O mesmo ocorre em </span><a href="https://open.spotify.com/intl-pt/track/4sX07T4478VYdBm0R71POZ?si=347d1a29f15a42b1"><i><span style="font-weight: 400;">ALTERADO</span></i></a><span style="font-weight: 400;">, que em sua ostentação deixa de funcionar como comentário social ou autorreflexão e passa a operar como fetiche. É um discurso que parece mirar um público </span><a href="https://oglobo.globo.com/cultura/noticia/2024/09/14/autor-da-musica-crack-com-mussilon-matue-fala-de-cantar-sobre-droga-e-sexo-para-publico-adolescente.ghtml"><span style="font-weight: 400;">adolescente</span></a><span style="font-weight: 400;">, reforçando a ideia de que a provocação é mais performática do que conceitual – o que, nitidamente, está acontecendo, visto a repercussão do artista diante das </span><a href="https://rollingstone.com.br/musica/matue-reage-jornalista-globo-critica-novo-album-xtranho/"><span style="font-weight: 400;">críticas</span></a><span style="font-weight: 400;">. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Há um cuidado evidente na criação de texturas e ambiências, sobretudo em </span><a href="https://open.spotify.com/intl-pt/track/5Y2QDfKgRS6lPkyVITN4P0?si=e3f38318531e43cd"><i><span style="font-weight: 400;">MEU CEMITÉRIO</span></i></a><span style="font-weight: 400;">, que executam sucessivamente o flerte entre o desconforto e a linguagem artística. Ainda assim, essa sofisticação instrumental nem sempre encontra correspondência na escrita. Em setembro deste ano, um </span><a href="https://www.instagram.com/reel/DObrofOiJVj/"><span style="font-weight: 400;">vídeo</span></a><span style="font-weight: 400;"> de uma garota viralizou na internet que correspondia a uma agressão ocorrida em um show do Don Toliver, durante um </span><i><span style="font-weight: 400;">moshpit </span></i><span style="font-weight: 400;">no</span> <span style="font-weight: 400;">festival The Town. Num tom satírico, Matuê inclui esse áudio em sua faixa inicial, </span><a href="https://open.spotify.com/intl-pt/track/6zI2BCllRpA8H8KR5v8u3v?si=fe9e7aa02e7a4c34"><i><span style="font-weight: 400;">REI TUÊ</span></i></a><span style="font-weight: 400;">, o que completa a síntese dos limites éticos e estéticos do disco. O gesto se apresenta como transgressão, mas carece de elaboração crítica, pois é o tipo de recurso que gera engajamento imediato e polarização nas redes, porém dificilmente sustenta uma leitura mais profunda. Então, reforça a impressão de que </span><i><span style="font-weight: 400;">XTRANHO </span></i><span style="font-weight: 400;">confunde provocação com barulho e radicalidade com mau gosto.</span></p>
<figure id="attachment_36764" aria-describedby="caption-attachment-36764" style="width: 800px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-medium wp-image-36764" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2026/01/image2-4-800x480.png" alt="A imagem é um corte de um videoclipe do cantor Matuê e mostra uma figura masculina agachada em um cemitério à noite, cercada por árvores e lápides, envolta por fumaça azulada. A cena evoca luto, introspecção e ritual, transformando o espaço da morte em território de contemplação e memória." width="800" height="480" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2026/01/image2-4-800x480.png 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2026/01/image2-4-768x461.png 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2026/01/image2-4.png 1000w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 984px) 61vw, (max-width: 1362px) 45vw, 600px" /><figcaption id="caption-attachment-36764" class="wp-caption-text">Visualizer da faixa MEU CEMITÉRIO, com estética sombria e agressiva, características típicas da produção (Foto: 30PRAUM)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">Por outro lado, seria reducionista tratar </span><i><span style="font-weight: 400;">XTRANHO </span></i><span style="font-weight: 400;">como um fracasso artístico completo. Parte da defesa do álbum se apoia na ideia de valorização da dimensão coletiva, especialmente por meio das colaborações com artistas menos conhecidos, como </span><a href="https://open.spotify.com/intl-pt/album/3Fzo07bEdiOfM1f3FX6XCF?si=jUvKo3s0SDaUJgP8spQFyg"><span style="font-weight: 400;">Kouth</span></a><span style="font-weight: 400;">, </span><a href="https://open.spotify.com/intl-pt/album/6vE1WHyTRdcvJx1IOUGXS9?si=G6ka9DoMSD6QZwX_XCvZuA"><span style="font-weight: 400;">Cashley</span></a><span style="font-weight: 400;"> e outros nomes da cena </span><i><span style="font-weight: 400;">underground </span></i><span style="font-weight: 400;">– o que amplia a </span><a href="https://blogs.pucpr.br/escoladebelasartes/2025/11/24/o-corre-por-tras-do-trap-como-a-cena-underground-cria-lanca-e-vive-da-musica/"><span style="font-weight: 400;">visibilidade</span></a><span style="font-weight: 400;"> de vozes marginalizadas e reforça uma ideia de bando, recorrente no discurso do cantor principal. Ainda que essas parcerias possam ser lidas como um ‘selo de autenticidade’ aplicado a um projeto </span><i><span style="font-weight: 400;">major</span></i><span style="font-weight: 400;">, elas produzem momentos de frescor e indicam uma disposição real de diálogo com a base criativa do </span><i><span style="font-weight: 400;">trap </span></i><span style="font-weight: 400;">brasileiro.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">A recepção polarizada do álbum também é parte fundamental de sua leitura e revela outro aspecto crucial: o papel da </span><a href="https://www.margemnewsletter.com/p/o-matue-e-a-relevancia-da-critica"><span style="font-weight: 400;">fanbase</span></a><span style="font-weight: 400;"> como escudo crítico. Nas redes, </span><i><span style="font-weight: 400;">XTRANHO </span></i><span style="font-weight: 400;">foi simultaneamente chamado de ‘visionário’ e ‘</span><a href="https://x.com/lopeszjao/status/1998916927868305897"><span style="font-weight: 400;">confuso</span></a><span style="font-weight: 400;">’. O título opera como justificativa automática para qualquer falha, pois se algo não funciona, a resposta é simples: ‘é estranho mesmo’, como se qualquer fragilidade pudesse ser relativizada. Incrivelmente, a situação está pior que os </span><a href="https://jornalismojunior.com.br/divas-pop/"><span style="font-weight: 400;">fãs de </span><i><span style="font-weight: 400;">diva pop</span></i></a><span style="font-weight: 400;">, porque assim, a defesa apaixonada do álbum se confunde com a defesa de uma identidade coletiva, em oposição à crítica especializada e à mídia tradicional. O </span><i><span style="font-weight: 400;">long-play</span></i><span style="font-weight: 400;">, nesse sentido, produz menos como obra autônoma e mais como artefato de </span><i><span style="font-weight: 400;">marketing </span></i><span style="font-weight: 400;">e lealdade.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">No saldo final, </span><i><span style="font-weight: 400;">XTRANHO </span></i><span style="font-weight: 400;">não falha por tentar algo novo e promete uma ruptura que não entrega. O disco é inconsistente e conceitualmente imaturo, sustentado mais por estética, </span><i><span style="font-weight: 400;">hype </span></i><span style="font-weight: 400;">e espetáculo do que por canção significativa. Para dizer que houve bons frutos, é possível dele medir o </span><a href="https://x.com/trapcit0u/status/1992822430235082969"><span style="font-weight: 400;">alcance</span></a><span style="font-weight: 400;"> simbólico do Matuê, a força de sua base e os limites entre provocação e profundidade. Dessa forma, ele expõe contradições, testa lealdades e evidencia como, no </span><i><span style="font-weight: 400;">trap </span></i><span style="font-weight: 400;">contemporâneo, </span><i><span style="font-weight: 400;">design</span></i><span style="font-weight: 400;">, </span><i><span style="font-weight: 400;">marketing </span></i><span style="font-weight: 400;">e identidade coletiva muitas vezes se sobrepõem à música em si. Talvez, no futuro, esse trabalho seja lembrado menos pelas faixas que o compõem e mais pelo debate que instaurou e isso, querendo ou não, também é um dado crítico a ser considerado.</span></p>
<p><iframe title="Spotify Embed: XTRANHO" style="border-radius: 12px" width="100%" height="352" frameborder="0" allowfullscreen allow="autoplay; clipboard-write; encrypted-media; fullscreen; picture-in-picture" loading="lazy" src="https://open.spotify.com/embed/album/5ORsvI5ThmZw7PS1NTvZaB?si=Qo_7Mq_zTXmmGykQFIPK_w&amp;utm_source=oembed"></iframe></p>
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		<title>From Zero é a carta de superação de Linkin Park, e isso é inegável</title>
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		<pubDate>Sat, 31 Jan 2026 15:00:23 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Música]]></category>
		<category><![CDATA[2024]]></category>
		<category><![CDATA[Análise]]></category>
		<category><![CDATA[Emily Armstrong]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Gabriel Diaz Havia sinais de exaustão emocional em torno de Chester Bennington, ex-vocalista e figura astral em volta do Linkin Park, muito antes de 20 de julho de 2017. Entrevistas carregadas de vulnerabilidade, letras cada vez mais confessionais, performances que pareciam atravessadas por um cansaço existencial. E tudo isso foi relido, retrospectivamente, como prenúncio de &#8230; <a href="http://personaunesp.com.br/critica-from-zero/" class="more-link">Continue lendo<span class="screen-reader-text"> "From Zero é a carta de superação de Linkin Park, e isso é inegável"</span></a></p>
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										<content:encoded><![CDATA[<figure id="attachment_36784" aria-describedby="caption-attachment-36784" style="width: 800px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-medium wp-image-36784" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2026/01/image3-4-800x800.png" alt="Capa do álbum From Zero, da banda Linkin Park. A imagem mostra uma composição abstrata de líquidos em tons de rosa, preto e branco espalhados sobre uma superfície, formando ondas, bolhas e camadas irregulares. No centro da imagem, há um pequeno símbolo circular branco, contrastando com o fundo orgânico e fluido." width="800" height="800" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2026/01/image3-4-800x800.png 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2026/01/image3-4-1024x1024.png 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2026/01/image3-4-150x150.png 150w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2026/01/image3-4-768x768.png 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2026/01/image3-4.png 1200w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 984px) 61vw, (max-width: 1362px) 45vw, 600px" /><figcaption id="caption-attachment-36784" class="wp-caption-text">From Zero é o disco mais vendido do Linkin Park no Brasil, obtendo a marca de 120 mil cópias vendidas (Foto: Warner Records)</figcaption></figure>
<p><b>Gabriel Diaz</b></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Havia sinais de exaustão emocional em torno de </span><a href="https://rollingstone.com.br/musica/o-incrivel-teste-de-chester-bennington-para-entrar-no-linkin-park-narrado-pelos-colegas/"><span style="font-weight: 400;">Chester Bennington</span></a><span style="font-weight: 400;">, ex-vocalista e figura astral em volta do Linkin Park, muito antes de 20 de julho de 2017. Entrevistas carregadas de vulnerabilidade, letras cada vez mais confessionais, performances que pareciam atravessadas por um cansaço existencial. E tudo isso foi relido, retrospectivamente, como prenúncio de uma perda que abalaria não apenas o Linkin Park, mas uma geração inteira do </span><i><span style="font-weight: 400;">rock</span></i><span style="font-weight: 400;">. </span><a href="https://open.spotify.com/intl-pt/album/5Eevxp2BCbWq25ZdiXRwYd?si=01e37c8bf2174da4"><i><span style="font-weight: 400;">One More Light</span></i></a> <span style="font-weight: 400;">(2017), lançado pouco antes de sua </span><a href="https://rollingstone.com.br/noticia/como-foram-os-ultimos-dias-de-chester-bennington-do-linkin-park-abatimento-e-esperanca/"><span style="font-weight: 400;">morte</span></a><span style="font-weight: 400;">, já soava como uma carta de despedida não intencional: era um álbum frágil, exposto, muitas vezes incompreendido, contudo emocionalmente direto. </span></p>
<p><span id="more-36780"></span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">A notícia do suicídio de Chester interrompeu a trajetória da banda e instaurou um luto coletivo que se confundiu com o próprio fim simbólico do grupo. Para muitos fãs, o Linkin Park havia acabado ali por uma impossibilidade ética e afetiva de seguir sem sua voz – e, até hoje, uma minoria se </span><a href="https://extra.globo.com/entretenimento/musica/noticia/2024/10/nova-vocalista-do-linkin-park-divide-opinioes-dos-fas-entenda-as-polemicas-que-envolvem-emily-armstrong.ghtml"><span style="font-weight: 400;">recusa</span></a><span style="font-weight: 400;"> a aceitar a nova formação por resquícios do passado ainda não superados. O hiato perdurou e foi puramente técnico, porém principalmente moral. Por anos, o silêncio da banda funcionou como espaço de respeito, e só sobrava a dúvida no ar: o projeto estava encerrado ou apenas em pausa?</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Ao longo desse tempo, o nome Linkin Park permaneceu como um espectro cultural, constantemente presente em playlists, memórias afetivas, fóruns, porém ausente de novos gestos artísticos, conforme a indústria se transformava. Por isso, quando </span><a href="https://disconecta.com.br/noticias/o-que-aconteceu-quando-o-cronometro-crescente-do-linkin-park-chegou-ao-fim/"><span style="font-weight: 400;">rumores</span></a><span style="font-weight: 400;"> de retorno começaram a circular em 2024, a reação foi ambígua: esperança misturada à desconfiança, desejo de reencontro atravessado por medo de profanação. A confirmação veio em setembro, com o anúncio do tão aclamado </span><a href="https://open.spotify.com/intl-pt/album/4R6FV9NSzhPihHR0h4pI93?si=MntQkCCwQLOy5hLzVBMVyw"><i><span style="font-weight: 400;">From Zero</span></i></a><span style="font-weight: 400;"> e a chegada de um novo rosto: </span><a href="https://billboard.com.br/quem-e-emily-armstrong-vocalista-do-linkin-park/"><span style="font-weight: 400;">Emily Armstrong</span></a><span style="font-weight: 400;"> como nova vocalista. Claramente, o inesperado rapidamente polarizou a mídia e os fãs: entre quem enxergava coragem e quem via oportunismo, entre os que celebravam a sobrevivência e os que viam um desrespeito ao luto.</span></p>
<figure id="attachment_36783" aria-describedby="caption-attachment-36783" style="width: 800px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-medium wp-image-36783" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2026/01/image2-6-800x450.png" alt="Seis integrantes da banda Linkin Park sentados juntos em estúdio, vistos de baixo para cima, vestindo roupas largas em tons neutros e jeans. Ao centro, uma mulher com cabelo platinado cruza as pernas e encara a câmera, enquanto os demais membros ao redor mantêm posturas relaxadas e expressões sérias ou contemplativas." width="800" height="450" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2026/01/image2-6-800x450.png 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2026/01/image2-6-1024x576.png 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2026/01/image2-6-768x432.png 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2026/01/image2-6-1200x675.png 1200w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2026/01/image2-6.png 1312w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 984px) 61vw, (max-width: 1362px) 45vw, 600px" /><figcaption id="caption-attachment-36783" class="wp-caption-text">O encontro entre Emily Armstrong e a banda começou de forma discreta: sessões de composição com Mike Shinoda em 2019 (Foto: Jimmy Fontaine)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">A presença de Emily não foi recebida como mera substituição, mas também não escapou dessa leitura. Sua voz feminina, datada como mais aguda, mais limpa, menos rasgada que a de Chester, opera como deslocamento estético e simbólico. O ponto central não é se ela ‘</span><a href="https://igormiranda.com.br/2024/11/emily-armstrong-superou-medo-substituir-chester-bennington-linkin-park/"><span style="font-weight: 400;">substitui</span></a><span style="font-weight: 400;">’ o Chester, algo que particularmente seria uma tarefa impossível, e sim se ela consegue instaurar uma nova dinâmica emocional para o Linkin Park, mantendo o </span><a href="https://atlantidasc.com.br/linkin-park-tira-faixa-do-ultimo-album-com-chester-de-setlists-entenda-motivo/"><span style="font-weight: 400;">respeito</span></a><span style="font-weight: 400;"> que consolidava entre os membros remanescentes. </span></p>
<p><i><span style="font-weight: 400;">From Zero</span></i><span style="font-weight: 400;"> responde a isso com uma estratégia curiosa: não tenta apagar o passado, tampouco reencená-lo fielmente. O álbum assume, desde sua vinheta inicial, a impossibilidade do recomeço absoluto. A pergunta quase irônica </span><i><span style="font-weight: 400;">‘</span></i><a href="https://open.spotify.com/intl-pt/track/1uhces29ApKuQWFdpiUsvH?si=ed9b4efc8c334e5e"><i><span style="font-weight: 400;">Do zero? Tipo, do nada?</span></i><span style="font-weight: 400;">’</span></a><span style="font-weight: 400;"> não soa como promessa, e sim como reconhecimento de limite, principalmente vindo da voz de Emily. Não se começa do zero quando se carrega uma história tão marcada por trauma, sucesso, reinvenções e perda.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Essa consciência atravessa o álbum inteiro. É um disco muito cuidadoso no que se diz falar menos sobre reinvenção e focar em sua estabilização. Em vez de tentar surpreender radicalmente, o Linkin Park opta por reafirmar sua identidade, reorganizando-a ao redor de novos corpos e novas tensões – até porque o grupo não precisa impressionar ninguém do que são capazes. A escolha de </span><a href="https://open.spotify.com/intl-pt/track/1EDPVGbyPKJPeGqATwXZvN?si=ea63ddbc774d4220"><i><span style="font-weight: 400;">The Emptiness Machine</span></i></a><span style="font-weight: 400;"> como primeiro </span><i><span style="font-weight: 400;">single </span></i><span style="font-weight: 400;">sintetiza o que é verdadeiramente este projeto: a faixa reúne peso controlado e uma estrutura que soa imediatamente reconhecível como Linkin Park. Ao mesmo tempo, carrega mais fortemente a assinatura criativa de </span><a href="https://billboard.com.br/mike-shinoda-do-linkin-park-agradece-apoio-de-fas-apos-7-anos-de-hiato/"><span style="font-weight: 400;">Mike Shinoda</span></a><span style="font-weight: 400;">, sugerindo uma reconfiguração de forças internas. É como se a banda dissesse: ainda somos nós, porém mais fortes.</span></p>
<div class="jetpack-video-wrapper"><iframe loading="lazy" title="The Emptiness Machine (Official Music Video) - Linkin Park" width="840" height="473" src="https://www.youtube.com/embed/SRXH9AbT280?feature=oembed" frameborder="0" allow="accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share" referrerpolicy="strict-origin-when-cross-origin" allowfullscreen></iframe></div>
<p><span style="font-weight: 400;">Essa lógica se estende à construção do álbum como um fluxo contínuo, marcado por transições quase constantes entre faixas. Esse encadeamento não é apenas estético e funciona como metáfora de um processo de reconstrução em movimento, sem pausas confortáveis ou zonas de repouso. Em </span><a href="https://open.spotify.com/intl-pt/track/5mFZipkX1HZ4Idz5LOWpzq?si=1b3e311a3aa44db4"><i><span style="font-weight: 400;">Cut the Bridge</span></i></a><span style="font-weight: 400;">, por exemplo, o grupo surpreende ao flertar com um </span><i><span style="font-weight: 400;">groove </span></i><span style="font-weight: 400;">mais dançante, quase </span><i><span style="font-weight: 400;">pop-rock</span></i><span style="font-weight: 400;">, evocando inclusive associações com o </span><a href="https://open.spotify.com/intl-pt/album/4sgYpkIASM1jVlNC8Wp9oF?si=bVN1lkQyTyCV0Av1QYhaPQ"><span style="font-weight: 400;">Paramore</span></a><span style="font-weight: 400;">, de 2013 (saudades). A faixa revela a versatilidade de Emily, abrindo espaço para movimentos corporais onde antes predominava o impacto e, agora, tensiona sua própria identidade rítmica.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Há se destacar também sua apresentação em </span><a href="https://open.spotify.com/intl-pt/track/2HBBM75Xv3o2Mqdyh1NcM0?si=e764ea1598ed4c09"><i><span style="font-weight: 400;">Heavy Is the Crown</span></i></a><span style="font-weight: 400;"> que se equilibra entre agressividade e precisão. Nesta faixa, é impossível não dizer que o longo grito da vocalista funciona quase como um ritual de afirmação: é sagaz e você compreende toda sua afirmação furiosa. Ainda assim, a </span><a href="https://www.vagalume.com.br/news/2025/07/22/mike-shinoda-afirma-que-alguns-fas-do-linkin-park-atacavam-emily-armstrong-por-ela-nao-ser-homem.html"><span style="font-weight: 400;">química</span></a><span style="font-weight: 400;"> entre ela e Shinoda, embora evidente, não reproduz exatamente a dinâmica histórica da banda – e isso não é um defeito, mas um sinal de que algo novo, ainda instável, está em formação.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">A produção também não foge de sua face mais contemplativa. </span><a href="https://www.youtube.com/watch?v=fSHoePrnmMw&amp;list=RDfSHoePrnmMw&amp;start_radio=1&amp;pp=ygUbb3ZlciBlYWNoIG90aGVyIGxpbmtpbiBwYXJroAcB"><i><span style="font-weight: 400;">Over Each Othe</span></i><span style="font-weight: 400;">r</span></a><span style="font-weight: 400;"> é exemplo de uma única faixa sem transição direta com a anterior e como um raro momento em que Emily ocupa sozinha o centro vocal. Assim como, no álbum inteiro, ela favorece seu protagonismo com extrema perfeição. Apesar da sonoridade mais afável se remeter inevitavelmente a </span><i><span style="font-weight: 400;">One More Light</span></i><span style="font-weight: 400;">, o disco mais controverso da banda, a abordagem soa menos ansiosa por dialogar com o </span><i><span style="font-weight: 400;">mainstream</span></i><span style="font-weight: 400;">. Em vez de experimentar pela clássica ruptura do </span><a href="https://www.youtube.com/watch?v=UUXfqQE8GnA"><i><span style="font-weight: 400;">nu metal</span></i></a><span style="font-weight: 400;">, a faixa prefere a introspecção, funcionando como um momento de suspensão emocional no meio de um álbum que alterna constantemente entre peso e delicadeza.</span></p>
<figure id="attachment_36781" aria-describedby="caption-attachment-36781" style="width: 800px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-medium wp-image-36781" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2026/01/image4-5-800x533.png" alt="Uma mulher com cabelo platinado e um homem com boné sobre o palco durante um show, sorrindo e segurando juntos uma bandeira do Brasil aberta. Ao fundo, telões exibem imagens em preto e branco, enquanto luzes quentes e a plateia lotada reforçam o clima de celebração e conexão com o público." width="800" height="533" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2026/01/image4-5-800x533.png 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2026/01/image4-5-1024x683.png 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2026/01/image4-5-768x512.png 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2026/01/image4-5.png 1200w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 984px) 61vw, (max-width: 1362px) 45vw, 600px" /><figcaption id="caption-attachment-36781" class="wp-caption-text">Desde o retorno da banda, o Brasil foi palco de cinco apresentações em diversas cidades, como São Paulo, Brasília e Curitiba (Foto: Lucas Tavares)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">Inclusive, essa alternância é uma das marcas mais consistentes de </span><i><span style="font-weight: 400;">From Zero</span></i><span style="font-weight: 400;">. Não existe um único território emocional que é ocupado, nota-se uma transição entre agressividade, melancolia e energia contida, como se buscasse mapear os estágios de um luto que não se resolve, apenas se transforma. Isso fica particularmente evidente em </span><a href="https://open.spotify.com/intl-pt/track/7BkzAHnNW7WfrT4NcLaUDx?si=2205cc92a887481b"><i><span style="font-weight: 400;">Casualty</span></i></a><span style="font-weight: 400;">, um dos trabalhos mais viscerais de uma protagonista solo. A explosão de Emily anuncia raiva, algo raro na trajetória recente da banda. A influência </span><i><span style="font-weight: 400;">punk/hardcore</span></i><span style="font-weight: 400;">, especialmente no refrão, desloca o Linkin Park de seu conforto </span><i><span style="font-weight: 400;">nu metal</span></i><span style="font-weight: 400;"> e injeta uma urgência quase </span><a href="https://www.instagram.com/reel/DJdMEU0t5DT/"><span style="font-weight: 400;">anárquica</span></a><span style="font-weight: 400;">. Aqui, todos os integrantes parecem ganhar espaço: o baixo de Phoenix surge com definição rara, Shinoda experimenta uma abordagem vocal mais rasgada, e a banda soa, finalmente, como um corpo coletivo em combustão.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">A maior evidência de simbolismo se encontra no encerramento, período em que a banda possui algumas cicatrizes. </span><a href="https://open.spotify.com/intl-pt/track/6aCBjSb87RizdH8lVBIRW7?si=bdea4e4250b34d37"><i><span style="font-weight: 400;">Good Things Go</span></i></a><span style="font-weight: 400;"> é um hino que encerra o álbum e ela o interpreta, rebuscando os </span><a href="https://open.spotify.com/intl-pt/track/3dxiWIBVJRlqh9xk144rf4?si=9479bde33ffe4800"><i><span style="font-weight: 400;">raps</span></i><span style="font-weight: 400;"> clássicos</span></a><span style="font-weight: 400;"> de Shinoda, em seu modelo mais reconhecível, e refrães </span><i><span style="font-weight: 400;">superpop</span></i><span style="font-weight: 400;">, inicialmente sem guitarra, depois acompanhados por ela. Essa construção em camadas espelha a própria história da banda: um núcleo identitário persistente cercado por tentativas de expansão, adaptação e sobrevivência. A frase final</span> <span style="font-weight: 400;">“</span><i><span style="font-weight: 400;">às vezes, coisas ruins ocupam o lugar e coisas boas se vão</span></i><span style="font-weight: 400;">” é a síntese de que não há superação plena, não há catarse definitiva, apenas a constatação de que essas marcas permanecem – e que viver com elas é a única forma possível de seguir.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Novamente, </span><i><span style="font-weight: 400;">From Zero</span></i><span style="font-weight: 400;"> não é um disco de reinvenção. Não há pretensão de revolucionar o </span><i><span style="font-weight: 400;">rock</span></i><span style="font-weight: 400;"> alternativo, nem redefinir o </span><i><span style="font-weight: 400;">nu metal</span></i><span style="font-weight: 400;">. Trata-se de um rito de passagem, como </span><a href="https://open.spotify.com/intl-pt/album/2tlTBLz2w52rpGCLBGyGw6?si=cb9fd2f976e4479e"><i><span style="font-weight: 400;">Minutes to Midnight</span></i></a><span style="font-weight: 400;"> (2007) foi em sua época, ou como </span><i><span style="font-weight: 400;">One More Light </span></i><span style="font-weight: 400;">tentou ser em outro registro. Ele ocupa o lugar desconfortável entre passado e futuro, entre memória e projeção, entre homenagem e autonomia – e, por isso, torna-se um álbum </span><a href="https://euquerofalardemusica.com.br/isso-e-o-que-voces-pediram-linkin-park-vence-a-desconfianca-em-from-zero/"><span style="font-weight: 400;">marcante</span></a><span style="font-weight: 400;">.</span></p>
<figure id="attachment_36782" aria-describedby="caption-attachment-36782" style="width: 800px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-medium wp-image-36782" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2026/01/image1-5-800x500.png" alt="Seis músicos reunidos no centro do palco ao final de um show, de braços levantados e sorrindo, diante de uma multidão com as mãos erguidas. Luzes fortes iluminam a cena, destacando o entusiasmo coletivo entre artistas e público." width="800" height="500" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2026/01/image1-5-800x500.png 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2026/01/image1-5-1024x640.png 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2026/01/image1-5-768x480.png 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2026/01/image1-5-1200x750.png 1200w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2026/01/image1-5.png 1320w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 984px) 61vw, (max-width: 1362px) 45vw, 600px" /><figcaption id="caption-attachment-36782" class="wp-caption-text">O álbum recebeu duas indicações no Grammys deste ano: Melhor Álbum de Rock e Melhor Performance de Rock, com o single The Emptiness Machine (Foto: Fernando Schlaepfer)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">Parte da imprensa celebrou o retorno como um ato de coragem emocional, outros apontaram a segurança excessiva das escolhas estéticas. A </span><a href="https://g1.globo.com/sp/sorocaba-jundiai/noticia/2024/11/15/fas-do-linkin-park-compartilham-historias-e-comentam-hype-para-shows-no-brasil-mudou-minha-vida.ghtml"><i><span style="font-weight: 400;">fanbase</span></i></a><span style="font-weight: 400;">, por sua vez, oscila entre a gratidão e a defesa automática, muito sensibilizada em reencontrar a banda e a dificuldade de aceitar suas transformações. Há quem veja em Emily uma voz funcional, e quem enxergue nela a possibilidade de um novo eixo emocional para o grupo. Há quem leia o álbum como homenagem, e quem o interprete como tentativa de reativar um legado sob risco de fossilização. Ambas as leituras são legítimas e o próprio disco parece consciente dessa tensão.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Culturalmente, o retorno do Linkin Park aos palcos, em 2024, também dialoga com um movimento mais amplo: a </span><a href="https://rollingstone.com.br/noticia/como-nostalgia-influencia-cultura-pop-da-coletividade-dos-fandoms-sequencias-de-filmes-antigos-entrevista/"><span style="font-weight: 400;">nostalgia</span></a><span style="font-weight: 400;"> como linguagem dominante da cultura </span><i><span style="font-weight: 400;">pop </span></i><span style="font-weight: 400;">contemporânea, o retorno de estéticas dos </span><a href="https://www.tenhomaisdiscosqueamigos.com/2025/05/19/estetica-y2k-cultura-pop/"><span style="font-weight: 400;">anos 2000</span></a><span style="font-weight: 400;">, e, principalmente, a revalorização do </span><i><span style="font-weight: 400;">nu metal </span></i><span style="font-weight: 400;">– pelo menos, a passagem da banda pelo território brasileiro intensificou isso. Nesse contexto, o álbum não tenta apagar Chester, sua ausência é sentida e lembrada em cada faixa, não como lacuna a ser preenchida, e sim como presença fantasmática que molda todas as decisões criativas.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">No fim, após um ano de lançamento, </span><i><span style="font-weight: 400;">From Zero</span></i><span style="font-weight: 400;"> se impõe como um álbum de qualidade consistente, emocionalmente honesto e esteticamente competente. Não teria como começar do zero, como seu título disfarça, e nem poderia. Começa do reconhecimento de que algumas perdas não se </span><a href="https://rollingstone.com.br/musica/por-que-o-linkin-park-resolveu-continuar-sem-chester-segundo-mike-shinoda/"><span style="font-weight: 400;">superam</span></a><span style="font-weight: 400;">, apenas se integram à própria identidade. E talvez seja justamente isso que torne este retorno legítimo: sem a promessa de um novo Linkin Park, contemplado da aceitação de que o antigo ainda vive – não intacto, não ileso, mas transformado.</span></p>
<p><iframe title="Spotify Embed: From Zero" style="border-radius: 12px" width="100%" height="352" frameborder="0" allowfullscreen allow="autoplay; clipboard-write; encrypted-media; fullscreen; picture-in-picture" loading="lazy" src="https://open.spotify.com/embed/album/4R6FV9NSzhPihHR0h4pI93?si=MntQkCCwQLOy5hLzVBMVyw&amp;nd=1&amp;dlsi=ebd6a47cf7ea47da&amp;utm_source=oembed"></iframe></p>
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		<title>Persona Entrevista: Yasutomo Chikuma</title>
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		<pubDate>Wed, 26 Nov 2025 16:52:14 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Entrevista]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Gabriel Diaz O silêncio é capaz de ser tão expressivo quanto a palavra, e o amor – quando não se realiza nos corpos – encontra refúgio na memória. Na seção Perspectiva Internacional, a 49ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo apresenta o novo longa de Yasutomo Chikuma: O Espaço Mais Profundo em Nós. A &#8230; <a href="http://personaunesp.com.br/persona-entrevista-yasutomo-chikuma/" class="more-link">Continue lendo<span class="screen-reader-text"> "Persona Entrevista: Yasutomo Chikuma"</span></a></p>
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										<content:encoded><![CDATA[<figure id="attachment_36479" aria-describedby="caption-attachment-36479" style="width: 800px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-medium wp-image-36479" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2025/11/Persona-entrevista-3-800x450.png" alt="Card gráfico de entrevista em estilo editorial. No fundo, um padrão abstrato em tons de verde escuro e turquesa cria ondas fluidas que remetem a gravuras japonesas. À esquerda, aparece o logotipo em forma de olho e os textos “Persona Entrevista” e “49ª Mostra Internacional de Cinema – São Paulo Int’l Film Festival”. À direita, dentro de um enquadramento de bordas arredondadas, há o retrato de uma pessoa com expressão neutra, usando boné claro e óculos de sol apoiados sobre a aba. A luz quente do exterior ilumina parcialmente o rosto, enquanto o fundo desfocado sugere um ambiente urbano." width="800" height="450" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2025/11/Persona-entrevista-3-800x450.png 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2025/11/Persona-entrevista-3-1024x576.png 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2025/11/Persona-entrevista-3-768x432.png 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2025/11/Persona-entrevista-3-1536x864.png 1536w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2025/11/Persona-entrevista-3-1200x675.png 1200w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2025/11/Persona-entrevista-3.png 1600w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 984px) 61vw, (max-width: 1362px) 45vw, 600px" /><figcaption id="caption-attachment-36479" class="wp-caption-text">Diretamente do Japão, Yasutomo Chikuma iniciou sua carreira no cinema experimental antes de migrar para longas narrativos (Arte: Arthur Caires / Foto: Tai Ouchi)</figcaption></figure>
<p><b>Gabriel Diaz</b></p>
<p><span style="font-weight: 400;">O silêncio é capaz de ser tão expressivo quanto a palavra, e o amor – quando não se realiza nos corpos – encontra refúgio na memória. Na seção Perspectiva Internacional, a </span><a href="https://personaunesp.com.br/tag/49a-mostra-internacional-de-cinema-em-sao-paulo/"><span style="font-weight: 400;">49ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo</span></a><span style="font-weight: 400;"> apresenta o novo longa de Yasutomo Chikuma: </span><i><span style="font-weight: 400;">O Espaço Mais Profundo em Nós</span></i><span style="font-weight: 400;">. A trama parte do vínculo íntimo entre Kaori (Momoko Fukuchi), uma mulher arromântica e assexual, e Takeru (Kanichiro), um homem que não suporta mais o próprio corpo, para refletir sobre a impossibilidade do amor e a persistência da culpa nessa ausência. Após a morte de Takeru, Kaori viaja com Nakano (Ryutaro Nakagawa), seu amigo, até o litoral onde ele se matou. </span></p>
<p><span id="more-36471"></span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Nascido em 1983, Chikuma iniciou sua carreira como ator em 2004, porém foi como diretor que se consolidou no circuito internacional. Seu primeiro longa, </span><i><span style="font-weight: 400;">Now, I&#8230; </span></i><span style="font-weight: 400;">(2009), abriu caminho para uma filmografia marcada pela investigação do invisível. Depois, vieram </span><i><span style="font-weight: 400;">The Ark in the Mirage</span></i><span style="font-weight: 400;"> (2015), que estreou no Festival de Karlovy Vary, e </span><i><span style="font-weight: 400;">Two Silhouettes</span></i><span style="font-weight: 400;"> (2020), uma história de amor mística que reforçou sua assinatura autoral. Mais recentemente, </span><a href="https://www.dailymotion.com/video/x8kyziz"><i><span style="font-weight: 400;">As It Flows</span></i></a><span style="font-weight: 400;"> (2022) confirmou seu interesse por narrativas que se desenrolam entre o silêncio e a memória.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Sua cinematografia foca em olhar para dentro, onde o humano é sempre o território mais inexplorado. Com planos longos e uma atmosfera que mistura serenidade e vertigem, o diretor japonês constrói um cinema em que a água, a ausência e o corpo masculino são territórios de investigação. Não se trata apenas de símbolos, porém também são como respirações. Seus personagens, presos entre a ternura e o vazio, descobrem que amar pode ser um gesto sem posse e que chorar é a forma mais autêntica de existir. A partir disso, o </span><a href="https://personaunesp.com.br/tag/persona-entrevista/"><span style="font-weight: 400;">Persona Entrevista</span></a><span style="font-weight: 400;"> evidencia os segredos e as motivações de Yasutomo Chikuma para a construção de sua história.</span></p>
<figure id="attachment_36472" aria-describedby="caption-attachment-36472" style="width: 800px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-medium wp-image-36472" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2025/11/file_2025-11-18_05.38.08-800x391.png" alt="Fotografia de um homem e uma mulher à beira mar enquanto observam o horizonte em silêncio. Ela está de costas, com uma saia longa e jaqueta clara, enquanto ele, de sobretudo escuro, permanece um pouco afastado. O mar calmo e o céu azul compõem uma paisagem serena, marcada pela distância emocional entre os dois." width="800" height="391" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2025/11/file_2025-11-18_05.38.08-800x391.png 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2025/11/file_2025-11-18_05.38.08-1024x500.png 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2025/11/file_2025-11-18_05.38.08-768x375.png 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2025/11/file_2025-11-18_05.38.08-1536x750.png 1536w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2025/11/file_2025-11-18_05.38.08-1200x586.png 1200w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2025/11/file_2025-11-18_05.38.08.png 1600w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 984px) 61vw, (max-width: 1362px) 45vw, 600px" /><figcaption id="caption-attachment-36472" class="wp-caption-text">Segundo o diretor, o filme foi rodado inteiramente em locações reais no litoral japonês, sem o uso de estúdios (Foto: MUBI)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">O título do filme carrega a promessa de que há algo profundo em nós, algo que o audiovisual tenta alcançar. Entretanto, o que, exatamente, Chikuma procura nesse fundo?</span></p>
<p><b>Sobre o título da obra, o que representa o “espaço mais profundo de nós”?</b></p>
<p><b>Yasutomo Chikuma: </b><i><span style="font-weight: 400;">“É o lugar onde guardamos o que não sabemos nomear. Talvez o amor, talvez o medo, talvez apenas um eco. Eu acredito que todo ser humano carrega um mar interno, e é ali que se perdem as pessoas que amamos. O cinema tenta iluminar esse fundo, mas só consegue tocar a superfície.”</span></i></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Apesar de não conhecer a língua portuguesa e estar acompanhado de uma tradutora, o diretor parece conversar do mesmo modo que captura a filmagem, sem pressa e, principalmente, atento ao que não cabe nas palavras. A ideia do mar interno perpassa toda a sua filmografia. A água nunca é apenas cenário, chega a ser um estado emocional ou até uma memória que se dissolve. É sobre o espaço entre o que somos e o que perdemos. No filme, Kaori observa o litoral com a mesma expressão de quem tenta decifrar um enigma sem solução. O mar é Takeru, depois que ele deixa de ter corpo, depois que a morte o transforma em ausência.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Se o diretor busca investigar o invisível, é porque ele entende que o amor não é plenitude, ao contrário disso, é o espaço impossível de ser habitado, o espelho que corta quem tenta se ver nele. Kaori e Takeru compartilham uma vida que não se consome e não segue as regras do desejo ou da posse. Eles existem um ao lado do outro, todavia nunca inteiramente juntos.</span></p>
<p><b>O filme parece filmar o amor não como uma plenitude, mas como um espaço impossível de ser habitado. O que o levou a essa ideia?</b></p>
<p><b>Yasutomo Chikuma: </b><i><span style="font-weight: 400;">“Eu sempre vi o amor como um espelho rachado. Quando duas pessoas tentam se ver nele, acabam cortadas pela própria imagem. Kaori e Takeru não sabem amar como o mundo ensina. Eles se amam em silêncio, em cuidado, em ausência. E isso é, para mim, o gesto mais radical. O filme não quer preencher esse espaço, mas respeitar o vazio que o amor deixa.”</span></i></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Há uma ternura contida entre os dois personagens, quase como se fossem parentes. A protagonista segura um copo de um jeito específico, Takeru olha para o horizonte sem dizer nada. São gestos pequenos, contudo carregados de significado. O diretor não idealiza essa relação, porém diz como ela é imperfeita, incompleta e real.</span></p>
<p><b>Kaori é uma mulher assexual, mas o filme nunca reduz isso a um rótulo. Há uma ternura contida entre ela e Takeru, quase como se fossem parentes. Como você trabalhou essa relação sem cair em idealização?</b></p>
<p><b>Yasutomo Chikuma: </b><i><span style="font-weight: 400;">“O afeto entre eles não precisa de desejo. Ele se manifesta na rotina, no jeito como ela segura um copo ou ele observa o mar. Quis filmar o amor como uma presença invisível, algo que só existe quando não é nomeado. A assexualidade aqui é um território de sutileza, de resistência à leitura fácil do corpo como necessidade.”</span></i></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Chikuma começa a falar devagar, escolhendo cada palavra como quem monta um quebra-cabeça. Ele parece consciente de que está lidando com algo que o cinema japonês raramente representa, um vínculo que não cabe nas categorias disponíveis. O longa nunca transformou a assexualidade de Kaori em um problema ou em curiosidade. É apenas o modo como ela existe no mundo, assim como o modo no qual ama Takeru.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Entretanto, para prosseguir, é necessário retornar ao elemento fundamental do brilho cinematográfico de Chikuma: a água. Ela aparece em todos os seus filmes e, em </span><i><span style="font-weight: 400;">O Espaço Mais Profundo em Nós</span></i><span style="font-weight: 400;">, o litoral não é apenas o lugar onde Takeru morreu – é o espaço onde Kaori tenta processar a perda, onde ela se afoga para tentar se ver outra vez.</span></p>
<p><b>A água aparece constantemente no filme, seja no mar ou nas lágrimas que nunca chegam a cair. Qual o significado desse elemento visual em sua obra?</b></p>
<p><b>Chikuma: </b><i><span style="font-weight: 400;">“A água é o espaço entre o que somos e o que perdemos. Ela dissolve a forma, mistura o vivo e o morto. Quando filmo o mar, não quero extrair a beleza, quero manter a suspensão dele. É um elemento que mantém os personagens entre estados e o mar é o corpo de Takeru depois que ele deixa de ser um corpo. É também o espelho onde Kaori se afoga para tentar se ver outra vez.”</span></i></p>
<figure id="attachment_36473" aria-describedby="caption-attachment-36473" style="width: 800px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-medium wp-image-36473" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2025/11/file_2025-11-18_05.38.12-800x431.png" alt="Frame de uma mulher de costas, vestindo roupas escuras, enquanto observa duas velas acesas posicionadas sobre uma pequena estrutura metálica embutida em uma parede de mármore claro. O enquadramento é simétrico e minimalista, com tons frios e luz suave, transmitindo uma sensação de luto e introspecção. À direita, vê-se um elevador fechado e à esquerda, uma placa discreta reforça o ambiente institucional." width="800" height="431" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2025/11/file_2025-11-18_05.38.12-800x431.png 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2025/11/file_2025-11-18_05.38.12-1024x552.png 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2025/11/file_2025-11-18_05.38.12-768x414.png 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2025/11/file_2025-11-18_05.38.12.png 1167w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 984px) 61vw, (max-width: 1362px) 45vw, 600px" /><figcaption id="caption-attachment-36473" class="wp-caption-text">O diretor esteve presente na 16ª Conferência Asiática sobre Mídia, Comunicação e Cinema (Foto: MUBI)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">Quando Kaori e Nakano caminham juntos ao litoral, eles atravessam um limiar invisível, marcado pela transição da presença para a ausência. Todavia, talvez não haja compreensão capaz. Possivelmente, o filme seja justamente sobre a impossibilidade de entender o que se perdeu.</span></p>
<p><b>E se pensarmos a água como um rito de passagem?</b></p>
<p><b>Chikuma: </b><i><span style="font-weight: 400;">“Sim, a água funciona como um rito de passagem no filme. Ela não é apenas um cenário, mas um espaço de transformação. Quando Kaori e Nakano caminham junto ao mar, ou quando Takeru se afasta, a água marca a passagem de um estado para outro. Seja da presença para a ausência ou da confusão para a compreensão, continua sendo um espelho. É um lugar onde os personagens enfrentam a própria finitude e descobrem algo sobre si mesmos.”</span></i></p>
<p><i><span style="font-weight: 400;">“Cada mergulho, cada reflexão sobre o mar, é como atravessar um limiar invisível, uma espécie de batismo silencioso que não purifica, mas revela a profundidade do que se carrega dentro. O tempo é a matéria do esquecimento. Eu filmo como quem tenta segurar a poeira antes que ela se misture ao vento. Por isso os planos longos não querem mostrar nada, querem permitir que algo aconteça. O cinema é o único lugar onde o passado ainda respira.”</span></i></p>
<p><span style="font-weight: 400;">A partir dessa narrativa, Chikuma domina e fala sobre o tempo como matéria do esquecimento. Sua última frase mostra o quanto ele se interessa em permitir que algo aconteça, tentando segurar a poeira antes que ela se misture ao vento. A morte de Takeru acontece fora de quadro. Não há violência, não há espetáculo. Ele simplesmente desaparece, e o que resta é o silêncio. Kaori não chora e, se realmente chora, as lágrimas nunca chegam a cair. O luto, no filme, não tem som.</span></p>
<p><b>A morte de Takeru é tratada sem violência, quase como um desaparecimento. Como foi lidar com o suicídio de modo tão sereno?</b></p>
<p><b>Chikuma: </b><i><span style="font-weight: 400;">“Eu não queria transformar a morte em espetáculo. A morte, no filme, é apenas mais um gesto humano. Ela não grita, apenas sussurra. Talvez porque eu próprio não a tema, eu temo mais o que sobra dela: o silêncio. Kaori não chora porque entende que o luto não tem som. O suicídio de Takeru não é uma punição, é uma forma de dizer ‘eu não consigo mais continuar sendo visto’.”</span></i></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Chikuma insiste em expressar um homem que se quebra, não por fraqueza, mas por excesso de sensibilidade. Dentro das telas, o masculino é sempre o corpo que resiste e, nessa obra, ele é o corpo que cede, que se entrega, que desiste. E Kaori é o olhar que acolhe o fracasso do outro, sem qualquer julgamento.</span></p>
<p><b>Em vários momentos, Kaori e Nakano parecem refletir sobre a fragilidade do homem. Há um olhar político nesse gesto?</b></p>
<p><b>Chikuma: </b><i><span style="font-weight: 400;">“Todo filme é político quando se nega a repetir um gesto. Eu quis filmar um homem que se quebra, não por fraqueza, mas por excesso de sensibilidade. O masculino, no cinema, é sempre o corpo que resiste. Eu quis o contrário: o corpo que cede, que se entrega, que desiste. E quis que o feminino observasse isso sem julgar. Kaori é o olhar que acolhe o fracasso do outro.”</span></i></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Com isso, Yasutomo Chikuma convida o espectador a atravessar rios e mares internos e a olhar para o que se perde e o que permanece. A sua produção não oferece respostas claras, apenas a delicadeza de permanecer diante do mistério.</span></p>
<blockquote><p><i><span style="font-weight: 400;">&#8220;No mar, cada passo é como atravessar um limiar invisível, uma espécie de batismo silencioso que não purifica, mas revela a profundidade do que se carrega dentro&#8221;</span></i></p></blockquote>
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		<title>Era Uma Vez em Gaza mistura o absurdo dentro e fora do cinema</title>
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		<pubDate>Wed, 26 Nov 2025 13:00:34 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Cinema]]></category>
		<category><![CDATA[49ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Gabriel Diaz Era uma vez… um território que só conhecia ruínas. Era uma vez, também, o Cinema que tenta recontar suas próprias feridas. A fórmula clássica dos títulos que começam com ‘Once Upon a Time’ sempre carregou o peso de um mito. De Sergio Leone a Quentin Tarantino, é a indústria que fala de um &#8230; <a href="http://personaunesp.com.br/era-uma-vez-em-gaza-critica/" class="more-link">Continue lendo<span class="screen-reader-text"> "Era Uma Vez em Gaza mistura o absurdo dentro e fora do cinema"</span></a></p>
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										<content:encoded><![CDATA[<figure id="attachment_36420" aria-describedby="caption-attachment-36420" style="width: 800px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-medium wp-image-36420" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2025/11/file_2025-11-18_05.37.28-800x431.png" alt="Fotografia de um grupo de homens reunidos em uma sala em ruínas, com paredes em tons claros descascadas e iluminação branca artificial e intensa. À esquerda, um homem sentado ergue as mãos, enquanto uma câmera e um microfone gravam em meio à técnicos de filmagem que o cercam. Soldados armados, à direita, completam a cena, em que a linha entre encenação e realidade parece se dissolver." width="800" height="431" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2025/11/file_2025-11-18_05.37.28-800x431.png 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2025/11/file_2025-11-18_05.37.28-1024x552.png 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2025/11/file_2025-11-18_05.37.28-768x414.png 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2025/11/file_2025-11-18_05.37.28-1536x828.png 1536w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2025/11/file_2025-11-18_05.37.28-1200x647.png 1200w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2025/11/file_2025-11-18_05.37.28.png 1600w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 984px) 61vw, (max-width: 1362px) 45vw, 600px" /><figcaption id="caption-attachment-36420" class="wp-caption-text">Filmado na Jordânia, o longa confirma o cinema palestino como uma força estética global (Foto: Les Films du Tambour)</figcaption></figure>
<p><b>Gabriel Diaz</b></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Era uma vez… um território que só conhecia ruínas. Era uma vez, também, o Cinema que tenta recontar suas próprias feridas. A fórmula clássica dos títulos que começam com </span><a href="https://collider.com/best-once-upon-a-time-movies/"><span style="font-weight: 400;">‘Once Upon a Time’</span></a><span style="font-weight: 400;"> sempre carregou o peso de um mito. De Sergio Leone a </span><a href="https://personaunesp.com.br/era-uma-vez-em-hollywood-5-anos/"><span style="font-weight: 400;">Quentin Tarantino</span></a><span style="font-weight: 400;">, é a indústria que fala de um tempo inventado, quase mítico, em que o real e a fábula se confundem. </span><i><span style="font-weight: 400;">Era Uma Vez em Gaza</span></i><span style="font-weight: 400;">, dirigido pelos irmãos Arab e Tarzan Nasser, adota esse mesmo artifício, mas o subverte. </span></p>
<p><span id="more-36419"></span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Dessa vez, o ‘conto de fadas’ não inaugura uma epopeia de heróis, porém o epitáfio de um povo em colapso. Um </span><a href="https://www.indiewire.com/gallery/best-western-movies-of-all-time/the-professionals-from-left-claudia-cardinale-lee-marvin-robert-ryan-woody-strode-1966/"><i><span style="font-weight: 400;">western</span></i></a><span style="font-weight: 400;"> feito da poeira do bloqueio e da comédia amarga que só sobrevive quando tudo o resto já morreu. </span><a href="https://www.nationalgeographicbrasil.com/historia/2023/10/o-que-e-a-faixa-de-gaza-e-onde-ela-esta-localizada"><span style="font-weight: 400;">Gaza</span></a><span style="font-weight: 400;"> se torna mais um palco de uma </span><i><span style="font-weight: 400;">Hollywood</span></i><span style="font-weight: 400;"> às avessas – um grotesco ‘Gazawood’, onde as estrelas brilham à luz de drones e as histórias são rodadas entre escombros.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Quando filmado sobre a catástrofe, o humor se transforma em resistência. Misturando a estrutura de um faroeste clássico com o ritmo nervoso de uma comédia negra, o longa revisita o ano de 2007 – o qual o cerco israelense se consolidou e o território passou a viver em confinamento permanente. Exibido na seção Perspectiva Internacional da </span><a href="https://personaunesp.com.br/tag/49a-mostra-internacional-de-cinema-em-sao-paulo/"><span style="font-weight: 400;">49ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo</span></a><span style="font-weight: 400;">, a obra reafirma a vocação de olhar o absurdo com lucidez, devolvendo à imagem o poder de testemunhar sem ceder à dor. </span></p>
<figure id="attachment_36421" aria-describedby="caption-attachment-36421" style="width: 800px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-medium wp-image-36421" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2025/11/file_2025-11-18_05.37.32-800x432.png" alt="Foto de dois homens conversando, separados por um balcão de comida, sob uma luz fria e azulada. Um deles, apoiado no vidro, fuma enquanto fala e o outro observa em silêncio, sentado diante de pratos e utensílios. A cena carrega uma sensação de cansaço cotidiano, marcada pelo reflexo do vidro e pela penumbra do ambiente." width="800" height="432" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2025/11/file_2025-11-18_05.37.32-800x432.png 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2025/11/file_2025-11-18_05.37.32-1024x552.png 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2025/11/file_2025-11-18_05.37.32-768x414.png 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2025/11/file_2025-11-18_05.37.32-1536x828.png 1536w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2025/11/file_2025-11-18_05.37.32-1200x647.png 1200w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2025/11/file_2025-11-18_05.37.32.png 1600w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 984px) 61vw, (max-width: 1362px) 45vw, 600px" /><figcaption id="caption-attachment-36421" class="wp-caption-text">“As pessoas em Gaza são incrivelmente resilientes, nunca desistem. Queríamos mostrar o lado ‘normal’ de Gaza”, relata Arab Nasser à Variety (Foto: Les Films du Tambour)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">Entre as bancas de </span><a href="https://operamundi.uol.com.br/opiniao/o-falafel-e-arabe-ou-ou-israelense/"><span style="font-weight: 400;">falafel</span></a><span style="font-weight: 400;"> e os becos de um cotidiano saturado de vigilância, são apresentados Yahya (Nader Abd Alhay) e Osama (Majd Eid), dois traficantes que tentam sobreviver com a ingenuidade e o desespero dos que já não têm saída. A droga escondida nos sanduíches é só um disfarce para a verdade maior: todos, em Gaza, estão contrabandeando algum tipo de esperança.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Dentro da produção de Christophe Graillot, há um destaque maior para a câmera que circula os personagens com a precisão de um duelo, alternando entre planos abertos que revelam o isolamento do território e </span><i><span style="font-weight: 400;">closes</span></i><span style="font-weight: 400;"> que aprisionam seus rostos como se cada gesto fosse vigiado. Há uma plasticidade </span><a href="https://www.infoescola.com/geografia/vegetacao-da-asia/"><span style="font-weight: 400;">árida</span></a><span style="font-weight: 400;">, porém com uma textura documental – a areia e o concreto parecem reais demais para pertencerem à ficção. Essa fusão entre gêneros cria uma tensão visual constante de que Gaza é cenário e personagem, ferida e espelho.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Ademais, as ruas poeirentas e os interiores decadentes são invadidos por cartazes de propaganda e retratos de líderes políticos, evocando um realismo simbólico que lembra o cinema de </span><a href="https://palavrasdecinema.com/2017/05/14/os-cinco-melhores-filmes-de-emir-kusturica/"><span style="font-weight: 400;">Emir Kusturica</span></a><span style="font-weight: 400;">. Tudo é exagerado, quase teatral, mas profundamente verdadeiro. Quando Yahya é escolhido para protagonizar o primeiro filme de ação filmado em Gaza, a sátira se completa, em que o Cinema dentro do Cinema transforma o horror em espetáculo, questionando a própria forma como o Ocidente consome a tragédia palestina. É a </span><i><span style="font-weight: 400;">Hollywood</span></i><span style="font-weight: 400;"> invertida, feita sob a mira de </span><i><span style="font-weight: 400;">checkpoints</span></i><span style="font-weight: 400;"> e drones em que o termo ‘Gazawood’, inserido durante o longa, surge como metáfora e denúncia – um lembrete de que até a </span><a href="https://mostra.org/jornal-da-mostra/documentarios-e-ficcoes-com-diferentes-olhares-sobre-a-palestina-estao-na-programacao-da-49-mostra"><span style="font-weight: 400;">ficção palestina</span></a><span style="font-weight: 400;"> é um ato de sobrevivência.</span></p>
<figure id="attachment_36422" aria-describedby="caption-attachment-36422" style="width: 800px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-medium wp-image-36422" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2025/11/file_2025-11-18_05.37.35-800x450.png" alt="Fotografia de um homem de expressão séria e olhar distante ocupa o centro do enquadramento em um ambiente sombrio e deteriorado iluminado por uma luz branca que destaca seu rosto. Atrás dele, figuras uniformizadas empunham armas, compondo uma cena tensa que mistura fragilidade e ameaça. O contraste entre a serenidade do homem e a iminência da violência cria uma atmosfera carregada de dramaticidade, onde a linha entre ficção e realidade parece prestes a se romper." width="800" height="450" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2025/11/file_2025-11-18_05.37.35-800x450.png 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2025/11/file_2025-11-18_05.37.35-1024x576.png 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2025/11/file_2025-11-18_05.37.35-768x432.png 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2025/11/file_2025-11-18_05.37.35-1200x675.png 1200w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2025/11/file_2025-11-18_05.37.35.png 1536w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 984px) 61vw, (max-width: 1362px) 45vw, 600px" /><figcaption id="caption-attachment-36422" class="wp-caption-text">O personagem Yahya se torna protagonista após ser recrutado pelo Ministério da Cultura palestina (Foto: Les Films du Tambour)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">O roteiro se equilibra entre o absurdo e o trágico, evitando o panfleto político. O humor existente não suaviza a </span><a href="https://deadline.com/video/once-upon-a-time-in-gaza-directors-trump-real-life-cannes/"><span style="font-weight: 400;">violência</span></a><span style="font-weight: 400;">, mas a amplifica. Os diálogos são secos, diretos, e ganham força no </span><a href="https://editoraelefante.com.br/panico-moral-e-coragem-de-falar-o-silencio-ocidental-sobre-gaza/?srsltid=AfmBOooYOaMieJbeZ_B5Cnd8Yw5N4JGKFME636A17WUXEphenbJ0tguI"><span style="font-weight: 400;">silêncio</span></a><span style="font-weight: 400;">, principalmente nos momentos em que nada é dito – sendo eles os que mais pesam. A cada sequência, o espectador é arrastado para dentro de uma Gaza que oscila entre o riso e o desespero, entre o Cinema e a vida. É nessa irregularidade que o filme encontra sua coerência, não havendo ritmo possível onde não há normalidade.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Contudo, existem momentos em que a metáfora se torna excessiva. O jogo do </span><a href="https://cinemaemcena.com.br/coluna/ler/429/filmes-dentro-de-filmes"><span style="font-weight: 400;">‘filme dentro do filme’</span></a><span style="font-weight: 400;"> poderia se sustentar com menos sobrecarga simbólica e, por vezes, a fábula ameaça engolir o real. Ainda assim, é precisamente esse risco que dá ao longa sua ousadia estética. Os diretores não capturam o cenário de guerra como uma reportagem nem como um manifesto, e sim como um terreno de invenção, no que transforma a obra numa recusa a linearidade – como se dissesse que o Cinema palestino não pode mais contar histórias ‘comuns’, porque a normalidade lhe foi negada. O artifício de um </span><i><span style="font-weight: 400;">western</span></i><span style="font-weight: 400;"> serve, então, como armadura narrativa: o duelo moral, o herói trágico e o vilão corrupto se tornam alegorias da própria sobrevivência.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Quando comparado a </span><a href="https://www.youtube.com/watch?v=Nt-IYeGRHu4"><i><span style="font-weight: 400;">Gaza, Meu Amor</span></i></a><span style="font-weight: 400;"> (2020), </span><i><span style="font-weight: 400;">Era Uma Vez em Gaza</span></i><span style="font-weight: 400;"> soa menos lírico e mais corrosivo. Se o anterior abordava o amor tardio como gesto de resistência, este revela o humor como último refúgio. Tarzan e Arab amadurecem ao compreender que a ironia é uma forma de fé e que gargalhar do horror é insistir na vida. Suas coroações na premiação de </span><a href="https://www.france24.com/en/culture/20250521-cannes-2025-gaza-casts-shadow-over-festival-films-celebrate-palestinian-resilience"><span style="font-weight: 400;">Cannes</span></a><span style="font-weight: 400;">, em Melhor Direção na seção </span><i><span style="font-weight: 400;">Un Certain Regard</span></i><span style="font-weight: 400;">, não são um gesto de exotismo, e sim o reconhecimento de uma linguagem cinematográfica que desafia o formato e o discurso. Em seus olhares, há sempre o mesmo dilema: rir ou resistir. E o espectador, cúmplice desse impasse, descobre que talvez o riso seja a única forma possível de resistência em Gaza.</span></p>
<figure id="attachment_36468" aria-describedby="caption-attachment-36468" style="width: 512px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-full wp-image-36468" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2025/11/file_2025-11-25_18.23.15.png" alt="Diante de um fundo neutro, a foto destaca quatro homens posando lado a lado, com expressões que alternam entre a confiança e a introspecção. Vestidos em roupas escuras, sobretudo jaquetas de couro, e exibindo cabelos longos e barbas marcantes, eles formam um grupo cuja presença impõe identidade e coesão. A proximidade física e os olhares diretos à câmera revelam cumplicidade e força coletiva, sugerindo tanto um vínculo pessoal quanto uma postura artística compartilhada." width="512" height="288" /><figcaption id="caption-attachment-36468" class="wp-caption-text">Em entrevista à Deadline, os diretores relatam que começaram a escrever o roteiro do filme em 2015 (Foto: Natasha Pisarenko)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">Em última instância, </span><i><span style="font-weight: 400;">Era Uma Vez em Gaza</span></i><span style="font-weight: 400;"> sempre deixou claro o seu propósito de representar uma produção sobre o ato de filmar. E além, sobre o gesto de inventar uma imagem quando todas as figuras mundiais insistem em te apagar. A questão não é filtrar a dor de um povo para que ela seja compreendida, e sim filmá-la para que ela não seja esquecida. Se </span><a href="https://www.bbc.com/portuguese/noticias/2014/07/140726_hollywood_gaza_lgb"><i><span style="font-weight: 400;">Hollywood</span></i></a><span style="font-weight: 400;"> criou mitos sobre o heroísmo americano, ‘Gazawood’ cria fábulas sobre a sobrevivência palestina e reafirma a Sétima Arte como uma forma de continuar existindo quando já não há lugar no mundo.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">O ‘Era uma vez’ é o tempo verbal da </span><a href="https://www.msf.org.br/noticias/um-mes-apos-o-cessar-fogo-em-gaza-palestinos-seguem-vivendo-em-condicoes-precarias-e-expostos-a-violencia/"><span style="font-weight: 400;">sobrevivência</span></a><span style="font-weight: 400;">. E talvez seja nesse paradoxo que o filme finaliza sua grandeza ao transformar a dor em fábula e a ruína em Cinema. Os irmãos Nasser fazem de Gaza não apenas um território sitiado, mas um território de criação. Um </span><i><span style="font-weight: 400;">western</span></i><span style="font-weight: 400;"> sem cavalo, uma comédia sem riso, uma história que ainda resiste ao fim.</span></p>
<div class="jetpack-video-wrapper"><iframe loading="lazy" title="Once Upon a Time in Gaza (2025) - Trailer (English Subs)" width="840" height="473" src="https://www.youtube.com/embed/-1NOr9c0EOw?feature=oembed" frameborder="0" allow="accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share" referrerpolicy="strict-origin-when-cross-origin" allowfullscreen></iframe></div>
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		<title>O Espaço Mais Profundo em Nós permanece à superfície</title>
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		<pubDate>Tue, 18 Nov 2025 13:00:26 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Cinema]]></category>
		<category><![CDATA[2025]]></category>
		<category><![CDATA[49ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo]]></category>
		<category><![CDATA[Análise]]></category>
		<category><![CDATA[Cinema japonês]]></category>
		<category><![CDATA[Crítica]]></category>
		<category><![CDATA[Cultura Japonesa]]></category>
		<category><![CDATA[Festival Internacional de Calcutá]]></category>
		<category><![CDATA[Gabriel Diaz]]></category>
		<category><![CDATA[MUBI]]></category>
		<category><![CDATA[O Espaço Mais Profundo em Nós]]></category>
		<category><![CDATA[Yasutomo Chikuma]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Gabriel Diaz O Espaço Mais Profundo em Nós confirma o olhar de Yasutomo Chikuma para o invisível. Seu cinema se volta ao que não se pode tocar, às zonas de silêncio entre o amor e o luto. Nesta história, apresentada na seção Perspectiva Internacional da 49ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo, Kaori (Momoko &#8230; <a href="http://personaunesp.com.br/o-espaco-mais-profundo-em-nos-critica/" class="more-link">Continue lendo<span class="screen-reader-text"> "O Espaço Mais Profundo em Nós permanece à superfície"</span></a></p>
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										<content:encoded><![CDATA[<figure id="attachment_36376" aria-describedby="caption-attachment-36376" style="width: 512px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="wp-image-36376 size-full" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2025/11/OEspacoEntreNos-1.png" alt="O rosto de uma jovem é parcialmente iluminado por uma luz verde-azulada que incide lateralmente, criando um contraste suave entre brilho e sombra. Seus cabelos longos caem sobre o rosto, e o olhar baixo sugere introspecção ou melancolia. O fundo é escuro, reforçando a atmosfera etérea e contemplativa da cena." width="512" height="288" /><figcaption id="caption-attachment-36376" class="wp-caption-text">O filme está entre os indicados ao Prêmio NETPAC no Festival Internacional de Cinema de Calcutá (Foto: MUBI)</figcaption></figure>
<p><b>Gabriel Diaz</b></p>
<p><i><span style="font-weight: 400;">O Espaço Mais Profundo em Nós</span></i><span style="font-weight: 400;"> confirma o olhar de Yasutomo Chikuma para o invisível. Seu cinema se volta ao que não se pode tocar, às zonas de silêncio entre o amor e o luto. Nesta história, apresentada na seção Perspectiva Internacional da </span><a href="https://personaunesp.com.br/tag/49a-mostra-internacional-de-cinema-em-sao-paulo/"><span style="font-weight: 400;">49ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo</span></a><span style="font-weight: 400;">, Kaori (Momoko Fukuchi), uma mulher </span><a href="https://queer.ig.com.br/2022-04-09/o-que-e-arromantico.html"><span style="font-weight: 400;">arromântica</span></a><span style="font-weight: 400;"> e assexual, compartilha uma vida com Takeru (Kanichiro), um homem em conflito com o próprio corpo e sua permanência no mundo. A relação dos dois é feita de gestos e pausas – uma convivência que não se consome, apenas se sustenta. Quando Takeru morre, o que resta a Kaori é caminhar entre a lembrança e o vazio, acompanhada por Nakano (Ryutaro Nakagawa), o amigo que talvez também tenha amado o mesmo homem.</span></p>
<p><span id="more-36375"></span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">O diretor registra o que acontece dentro da quietude. Seus planos longos e respirações prolongadas, características típicas do </span><a href="https://www.bfi.org.uk/lists/10-great-slow-films"><i><span style="font-weight: 400;">slow cinema</span></i></a><span style="font-weight: 400;">, criam a sensação de que o tempo se dilata diante de cada movimento. O litoral, local em que a narrativa se desenrola, não funciona como paisagem, mas como projeção do estado interior de Kaori – o movimento das ondas replica o ritmo de sua consciência, sua respiração irregular diante do </span><a href="https://rollingstone.com.br/noticia/6-filmes-com-cenas-de-luto-emocionantes-de-harry-potter-adoraveis-mulheres/"><span style="font-weight: 400;">luto</span></a><span style="font-weight: 400;">. Nesse espaço suspenso, o filme se torna uma escuta do que o silêncio tenta dizer e daquilo que o amor nunca soube nomear.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Na cultura japonesa, a morte não é ruptura, mas passagem. Existe o conceito de </span><a href="https://voyapon.com/death-in-japan-spirituality-culture/#htoc-gimu-the-unsolvable-moral-debt"><i><span style="font-weight: 400;">gimu</span></i></a><span style="font-weight: 400;">, a dívida moral impagável que os filhos têm para com aqueles que lhes deram a vida – uma gratidão que se estende para além do fim. Os mortos permanecem próximos dos vivos, habitando o </span><a href="https://brasilescola.uol.com.br/religiao/xintoismo.htm"><i><span style="font-weight: 400;">anoyo</span></i></a><span style="font-weight: 400;">, o além que se comunica constantemente com este mundo. Para que essa </span><a href="https://funerariasantacasa24h.com.br/funeral-japones/"><span style="font-weight: 400;">travessia</span></a><span style="font-weight: 400;"> ocorra em paz, é preciso resolver tudo: nenhum rancor, nenhuma dúvida, nenhum vínculo mal encerrado. Chikuma filma justamente esse espaço de indefinição, onde Kaori não consegue encerrar Takeru porque o afeto entre eles nunca teve a linguagem do desejo ou da posse. Como pode se despedir de alguém que nunca coube nas categorias tradicionais de amor?</span></p>
<figure id="attachment_36377" aria-describedby="caption-attachment-36377" style="width: 700px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-full wp-image-36377" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2025/11/OEspacoEntreNos-2.png" alt="Um jovem está sentado ao ar livre, envolto em um casaco branco e cachecol preto, olhando para frente com expressão de tristeza contida. A luz natural do amanhecer ou entardecer banha suavemente seu rosto, enquanto o fundo desfocado revela árvores e um céu pálido, sugerindo um momento de solidão e reflexão." width="700" height="394" /><figcaption id="caption-attachment-36377" class="wp-caption-text">A figura de Takeru representa a impossibilidade de fixação e funciona como ausência estruturante (Foto: MUBI)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">A resposta está personificada na protagonista: ela não segue os padrões do conceito amoroso. A </span><a href="https://valkirias.com.br/assexualidade-arromanticidade-e-a-falta-de-representacao-na-cultura-pop/"><span style="font-weight: 400;">assexualidade</span></a><span style="font-weight: 400;"> no cinema ainda é sub-representada, aparecendo majoritariamente em papéis secundários ou tratada como problema a ser resolvido. Chikuma faz o oposto: coloca Kaori no centro da narrativa, não como ausência, e sim como presença que redefine os termos da relação. Sua assexualidade não é obstáculo ao afeto, é a própria forma dele. O filme reconhece que a cultura possui rituais para esposas, amantes, filhos, porém não para quem habita essas </span><a href="https://revistacult.uol.com.br/home/teoria-queer-e-os-desafios-as-molduras-do-olhar/"><span style="font-weight: 400;">zonas sem nome</span></a><span style="font-weight: 400;">. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Nos versos </span><i><span style="font-weight: 400;">“Meu bem, vamos viver a vida / Então vem, senão eu vou perder quem sou”</span></i><span style="font-weight: 400;">, a música </span><a href="https://open.spotify.com/intl-pt/track/0KpA8R3NM3N0JB4NAGbAxO?si=b1cfdd561a324af3"><i><span style="font-weight: 400;">Life on Mars?</span></i></a><span style="font-weight: 400;">, na versão de </span><a href="https://personaunesp.com.br/5-anos-de-marighella-e-a-contestacao-de-uma-narrativa-unica-critica/"><span style="font-weight: 400;">Seu Jorge</span></a><span style="font-weight: 400;">, captura a mesma inquietação do audiovisual: a diferença entre estar vivo e verdadeiramente viver. Kaori não pode performar o luto esperado, porque o vínculo que tinha com Takeru nunca se encaixou nas categorias disponíveis. O que resta, então, é inventar uma linguagem para esse </span><a href="https://abmluto.org.br/sobre-o-sentido-da-existencia-o-luto-e-a-morte/"><span style="font-weight: 400;">vazio</span></a><span style="font-weight: 400;"> – e é isso que a obra tenta fazer, ainda que nem sempre consiga. Os dois compartilham um afeto que não depende do desejo, mas da permanência. A produção encontra beleza nas pequenas repetições, como o modo como ela segura um copo, o olhar dele perdido no horizonte. Ainda assim, o diretor às vezes se prende à própria delicadeza. A contenção que deveria revelar o mistério acaba domesticando-o, demonstrando que a sutileza se confunde com apagamento, e a introspecção se torna ausência de conflito.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Há diálogos entre o longa e toda uma indústria que não se contenta com respostas fáceis. A água, elemento recorrente em toda a </span><a href="https://filmow.com/yasutomo-chikuma-a505238/filmografia/"><span style="font-weight: 400;">filmografia</span></a><span style="font-weight: 400;"> de Chikuma, carrega aqui um duplo sentido: é refúgio e dissolução, juntamente com a memória e o esquecimento. O diretor a utiliza como símbolo de cadência diante de um fluxo que conecta cada respiração e cada intervalo. Quando Kaori observa o mar, o que se reflete não é a imagem do que perdeu, é a impossibilidade de compreender essa perda. A câmera, atenta e pudorosa, mantém uma </span><a href="https://www.spescoladeteatro.org.br/noticia/o-que-e-distanciamento-no-teatro"><span style="font-weight: 400;">distância</span></a><span style="font-weight: 400;"> que é também ética: filma sem invadir, enquanto olha sem exigir resposta.</span></p>
<figure id="attachment_36378" aria-describedby="caption-attachment-36378" style="width: 800px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-medium wp-image-36378" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2025/11/OEspacoEntreNos-3-800x391.png" alt="À beira-mar, um homem e uma mulher observam o horizonte em silêncio. Ela está de costas, com uma saia longa e jaqueta clara, enquanto ele, de sobretudo escuro, permanece um pouco afastado. O mar calmo e o céu azul compõem uma paisagem serena, marcada pela distância emocional entre os dois." width="800" height="391" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2025/11/OEspacoEntreNos-3-800x391.png 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2025/11/OEspacoEntreNos-3-1024x500.png 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2025/11/OEspacoEntreNos-3-768x375.png 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2025/11/OEspacoEntreNos-3-1536x750.png 1536w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2025/11/OEspacoEntreNos-3-1200x586.png 1200w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2025/11/OEspacoEntreNos-3.png 1600w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 984px) 61vw, (max-width: 1362px) 45vw, 600px" /><figcaption id="caption-attachment-36378" class="wp-caption-text">No longa, a paisagem marinha é o espaço entre o que somos e o que perdemos (Foto: MUBI)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">Visualmente, a produção é irrepreensível. A fotografia cria um universo onde tudo parece prestes a se desfazer, contudo há uma distância entre a intenção estética e o impacto emocional – tal qual o aflito entre a estética do belo e o sublime de </span><a href="https://pensamentoextemporaneo.com.br/?p=2544"><span style="font-weight: 400;">Immanuel Kant</span></a><span style="font-weight: 400;">. Ao perseguir a beleza como constância, Chikuma transforma o estranhamento em ornamento. Seu cinema respira, porém sem mudança de ar: o andamento é sempre o mesmo, a emoção permanece contida, até quando o tema exige transbordamento.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Com a chegada de Nakano, a trama se aproxima do ensaio e se afasta do drama. A comunicação dele com Kaori investiga o que restou de Takeru ou o vazio que ele deixou. Os dois voltam às mesmas perguntas: o que significa amar sem possuir? Como guardar alguém que nunca quis ser guardado? No entanto, o roteiro hesita diante da própria ambição. Essas questões se repetem sem ganhar novas camadas, sem que os personagens (ou o longa) se arrisquem a perdê-las de vista. O que deveria ser um aprofundamento vira insistência, e a </span><a href="https://cantodosclassicos.com/20-filmes-minimalistas-que-merecem-sua-atencao/"><span style="font-weight: 400;">densidade</span></a><span style="font-weight: 400;"> se dilui na repetição.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Não é um trabalho à altura dos grandes </span><a href="https://japanhousesp.com.br/story/os-encantos-do-cinema-japones-historia-e-perspectivas/"><span style="font-weight: 400;">dramas japoneses</span></a><span style="font-weight: 400;"> recentes, mas possui uma inquietação que o mantém vivo. Apesar da honestidade em sua tentativa de filmar o luto como estado, </span><i><span style="font-weight: 400;">O Espaço Mais Profundo em Nós</span></i><span style="font-weight: 400;"> propõe investigar o fundo que o Cinema só consegue tocar pela superfície, porém recua diante do próprio abismo – apenas o que resta é a dúvida. O diretor filma o mistério, entretanto não se permite habitá-lo. A obra anuncia um mergulho e permanece à beira. Kaori precisava de uma linguagem para um luto sem categoria, todavia o que o Cinema lhe oferece é apenas </span><a href="https://entretenimento.r7.com/entretetizei/especial-o-aconchego-silencioso-do-cinema-japones-13082025/"><span style="font-weight: 400;">silêncio</span></a><span style="font-weight: 400;"> decorativo. A inquietação está lá, mas também contida, ornamentada, protegida de si mesma. Falta ao filme a coragem de se perder e, justamente, nessa perda que a Sétima Arte encontra o que não se pode nomear.</span></p>
<div class="jetpack-video-wrapper"><iframe loading="lazy" title="【2025年サンパウロ国際映画祭正式出品作品】映画『そこにきみはいて』60秒予告" width="840" height="473" src="https://www.youtube.com/embed/1E7yrKhn6TU?feature=oembed" frameborder="0" allow="accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share" referrerpolicy="strict-origin-when-cross-origin" allowfullscreen></iframe></div>
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		<title>De forma cômica, No Other Choice te ensina a se livrar da sua concorrência</title>
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		<pubDate>Sat, 15 Nov 2025 14:21:45 +0000</pubDate>
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		<category><![CDATA[Gabriel Diaz]]></category>
		<category><![CDATA[Lee Byung-hun]]></category>
		<category><![CDATA[No Other Choice]]></category>
		<category><![CDATA[Park Chan-Wook]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Gabriel Diaz Desde o fenômeno de Parasita (2019) nas grandes premiações, a indústria cinematográfica parecia não ter reencontrado outro produto audiovisual sul-coreano capaz de ocupar o mesmo impacto de precisão formal e consciência narrativa – até surgir, neste ano, No Other Choice. Enquanto Bong Joon-ho explorava a estratificação social por meio do coletivismo, o conterrâneo &#8230; <a href="http://personaunesp.com.br/de-forma-comica-no-other-choice-te-ensina-a-se-livrar-da-sua-concorrencia/" class="more-link">Continue lendo<span class="screen-reader-text"> "De forma cômica, No Other Choice te ensina a se livrar da sua concorrência"</span></a></p>
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										<content:encoded><![CDATA[<figure id="attachment_36336" aria-describedby="caption-attachment-36336" style="width: 800px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-medium wp-image-36336" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2025/11/image3-12-800x451.png" alt="Um homem aparece parcialmente atrás de uma porta, vestindo terno preto, gravata verde e um avental vermelho. Ele observa algo fora do quadro com expressão de alerta e preocupação. A iluminação é suave, destacando seu rosto tenso, enquanto o fundo revela parte de uma parede com papel floral." width="800" height="451" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2025/11/image3-12-800x451.png 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2025/11/image3-12-1024x577.png 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2025/11/image3-12-768x433.png 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2025/11/image3-12-1200x676.png 1200w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2025/11/image3-12.png 1296w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 984px) 61vw, (max-width: 1362px) 45vw, 600px" /><figcaption id="caption-attachment-36336" class="wp-caption-text">O diretor Park Chan-wook apresenta uma sátira sobre desemprego, competitividade e decisões extremas (Foto: Moho Film)</figcaption></figure>
<p><b>Gabriel Diaz</b></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Desde o fenômeno de </span><a href="https://personaunesp.com.br/parasita-critica/"><i><span style="font-weight: 400;">Parasita</span></i></a><span style="font-weight: 400;"> (2019) nas grandes premiações, a indústria cinematográfica parecia não ter reencontrado outro produto audiovisual sul-coreano capaz de ocupar o mesmo impacto de precisão formal e consciência narrativa – até surgir, neste ano, </span><i><span style="font-weight: 400;">No Other Choice</span></i><span style="font-weight: 400;">. Enquanto </span><a href="https://personaunesp.com.br/mickey-17-critica/"><span style="font-weight: 400;">Bong Joon-ho</span></a><span style="font-weight: 400;"> explorava a estratificação social por meio do coletivismo, o conterrâneo investe na patologia individual horizontal em um corporativismo predatório e nos apresenta um homem que decide cavar o próprio nível até não restar ninguém além dele.</span></p>
<p><span id="more-36333"></span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Há 25 anos, Yoo Man-soo (</span><a href="https://recreio.com.br/noticias/entretenimento/alem-de-round-6-5-doramas-com-lee-byung-hun.phtml"><span style="font-weight: 400;">Lee Byung-hun</span></a><span style="font-weight: 400;">) construiu uma carreira sólida em uma empresa de celulóide – o papel e seus derivados são, para ele, uma paixão única. Casado, pai de dois filhos e dono de dois cães, vive na casa dos sonhos conquistada com esforço. No entanto, sua estabilidade começa a ruir quando a empresa é comprada por um conglomerado norte-americano e anuncia uma reestruturação no quadro de funcionários. A demissão o motivou a seguir na procura de um novo emprego, porém a escolha de uma única vaga fez com que o transfigurasse num assassino em série, deixando a entender que eliminar a concorrência deixa de ser metáfora para se tornar instrução literal.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">A genialidade por trás do filme, que consta na seção Perspectiva Internacional da </span><a href="https://personaunesp.com.br/tag/49a-mostra-internacional-de-cinema-em-sao-paulo/"><span style="font-weight: 400;">49ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo</span></a><span style="font-weight: 400;">, se estende na indissociação entre o riso e a tragédia, refletindo uma trama que não teme o desconforto. A transformação do cotidiano em espetáculo possui nome e sobrenome: </span><a href="https://www.koreatimes.co.kr/entertainment/films/20251020/park-chan-wook-wins-best-director-at-sitges-for-no-other-choice"><span style="font-weight: 400;">Park Chan-wook</span></a><span style="font-weight: 400;">, idealizador de um Cinema que retoma não apenas o que representa o mundo corporativo, mas aquilo que o tensiona. A proposta do diretor se centraliza no olhar meticuloso sobre o desespero e isso não se reflete no espectador devido ao tom humorístico que torna o longa extremamente hilário. A ironia é o seu idioma, a ambiguidade o seu método. </span></p>
<figure id="attachment_36335" aria-describedby="caption-attachment-36335" style="width: 800px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-medium wp-image-36335" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2025/11/image2-12-800x450.png" alt="Dentro de uma sala com luz difusa, um homem de avental vermelho e luvas verdes estende as mãos na direção de outro homem, que está sentado e reage com surpresa, apontando o dedo para ele. O ambiente é repleto de móveis escuros, quadros e equipamentos de som, sugerindo um momento de confronto contido." width="800" height="450" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2025/11/image2-12-800x450.png 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2025/11/image2-12-1024x576.png 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2025/11/image2-12-768x432.png 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2025/11/image2-12-1536x864.png 1536w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2025/11/image2-12-1200x675.png 1200w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2025/11/image2-12.png 1999w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 984px) 61vw, (max-width: 1362px) 45vw, 600px" /><figcaption id="caption-attachment-36335" class="wp-caption-text">O olhar desesperador de Man-soo sintetiza o espírito do filme (Foto: CJ ENM Studios)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">As cenas são rítmicas e parecem durar mais do que deveriam, na possibilidade de que o tempo hesitasse diante do ridículo humano. Não é fácil transformar o ordinário em ameaça, Chan-wook filma o trabalho e o tédio com o mesmo rigor, alternando planos estáticos e movimentos lentos que sublinham o vazio das ações. Cada enquadramento se comporta como uma moldura que aprisiona o corpo e todos os silêncios se transformam em respiros negados. A </span><a href="https://www.youtube.com/watch?v=YJRQX8Mha5g"><span style="font-weight: 400;">direção</span></a><span style="font-weight: 400;"> não quer fomentar o espanto diante das ações, e sim o estranhamento. O cotidiano é filmado como se fosse ficção científica – algo quase indecifrável.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">É nesse intervalo entre o real e o absurdo que o ápice da produção se instala: o </span><a href="https://www.hollywoodreporter.com/movies/movie-features/park-chan-wook-no-other-choice-interview-1236397524/"><span style="font-weight: 400;">humor ácido</span></a><span style="font-weight: 400;">. </span><i><span style="font-weight: 400;">No Other Choice</span></i><span style="font-weight: 400;"> é engraçado, porém nunca leve. A sátira não nasce de piadas, e sim da repetição: o indivíduo que insiste, o gesto que retorna, a reunião que se reencena. Há algo de cruel em perceber o quão previsível é a autodestruição do próprio ser, buscando a vida ou a morte em prol da empregabilidade. Chan-wook domina com maestria o tempo da ironia, construindo uma cumplicidade perversa com o espectador, pois ele ri e reconhece simultaneamente o desconforto. Um mesmo sistema que nos premia por sermos competitivos é o que nos condena quando levamos essa competição às últimas consequências, mostrando que </span><a href="https://www.culturagenial.com/o-homem-e-lobo-do-homem/"><span style="font-weight: 400;">o homem é o lobo do próprio homem</span></a><span style="font-weight: 400;">.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">A atuação de Lee Byung-hun supera seus trabalhos anteriores, até mesmo o conhecido Front Man, de </span><a href="https://personaunesp.com.br/round-6-critica/"><i><span style="font-weight: 400;">Round 6</span></i></a> <span style="font-weight: 400;">(2021), que se assemelha nos aspectos sanguinários. Ele constrói um protagonista fragmentado entre o riso nervoso e o olhar exausto, sustenta o tom tragicômico da narrativa. Há uma precisão quase cruel na sua performance: Man-soo não é vítima nem algoz, é apenas alguém tentando se manter de pé dentro de um sistema de aparências. Ao seu lado, </span><a href="https://www.soompi.com/article/1763764wpp/son-ye-jin-shines-as-a-reliable-wife-when-her-family-faces-a-crisis-in-new-film-no-other-choice"><span style="font-weight: 400;">Son Ye-jin</span></a><span style="font-weight: 400;"> interpreta a esposa Yoo Mi-ri com uma serenidade que disfarça o cansaço. O casal encarna o que há de mais devastador no longa: a incapacidade de comunicar o próprio desespero. Tudo se torna um diálogo interrompido.</span></p>
<figure id="attachment_36334" aria-describedby="caption-attachment-36334" style="width: 800px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-medium wp-image-36334" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2025/11/image1-14-800x450.png" alt="Ao ar livre, um homem, uma mulher e duas crianças se abraçam em meio a um jardim verdejante e iluminado pelo sol. O gesto é espontâneo e afetuoso, transmitindo alegria e leveza. No fundo, há árvores altas e um muro de tijolos coberto por vegetação, compondo um cenário de harmonia familiar." width="800" height="450" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2025/11/image1-14-800x450.png 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2025/11/image1-14-768x432.png 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2025/11/image1-14.png 1024w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 984px) 61vw, (max-width: 1362px) 45vw, 600px" /><figcaption id="caption-attachment-36334" class="wp-caption-text">A fotografia de Kim Woo-hyung aposta em planos que simulam a harmonia (Foto: NEON)</figcaption></figure>
<p><i><span style="font-weight: 400;">No Other Choice</span></i><span style="font-weight: 400;"> é, em última instância, sobre o gesto de continuar – mesmo quando nada mais se sustenta. O título soa bastante como um epitáfio: talvez, na realidade, nunca houvesse outra escolha. Chan-wook retrata um homem comum que se torna monstro não por maldade inata, mas porque o sistema recompensa a monstruosidade. Então, o registro da persistência humana diante do colapso se torna diferencial entre outros produtos do gênero, pois reafirma o </span><a href="https://www.dw.com/pt-br/o-que-faz-da-coreia-do-sul-uma-pot%C3%AAncia-do-cinema/a-64667636"><span style="font-weight: 400;">Cinema sul-coreano</span></a><span style="font-weight: 400;"> como espaço de invenção. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">O longa foi premiado no </span><a href="https://www.koreatimes.co.kr/entertainment/films/20250915/no-other-choice-wins-inaugural-international-peoples-choice-award-at-tiff"><span style="font-weight: 400;">Festival Internacional de Cinema de Toronto</span></a><span style="font-weight: 400;"> como a escolha do público, considerada a melhor produção deste ano, e agora representa a Coreia do Sul na corrida pelo </span><a href="https://revistakoreain.com.br/2025/09/no-other-choice-filme-de-park-chan-wook-e-escolhido-para-representar-a-coreia-do-sul-no-oscar/"><span style="font-weight: 400;">Oscar 2026</span></a><span style="font-weight: 400;">. Isso é apenas o resultado de um autor que compreende o horror como continuidade ao invés de uma ruptura. A mentalidade do caos, aqui, é método – e a lucidez, a forma mais elegante de loucura. </span></p>
<div class="jetpack-video-wrapper"><iframe loading="lazy" title="NO OTHER CHOICE - Official Trailer - In Select Theaters Christmas" width="840" height="473" src="https://www.youtube.com/embed/HKZpuG_ezvY?feature=oembed" frameborder="0" allow="accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share" referrerpolicy="strict-origin-when-cross-origin" allowfullscreen></iframe></div>
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		<title>Não tenha medo, A Memória do Cheiro das Coisas é apenas uma redenção que não se purifica</title>
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		<pubDate>Mon, 03 Nov 2025 13:00:08 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Cinema]]></category>
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		<category><![CDATA[António Ferreira]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Gabriel Diaz Há algo inevitavelmente político em qualquer tentativa de revisitar o passado colonial português – sobretudo quando essa memória é filtrada pelo olhar do envelhecimento, a doença e a solidão. Diretamente da seção Perspectiva Internacional na 49ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo, o diretor António Ferreira apresenta A Memória do Cheiro das &#8230; <a href="http://personaunesp.com.br/a-memoria-do-cheiro-das-coisas-critica/" class="more-link">Continue lendo<span class="screen-reader-text"> "Não tenha medo, A Memória do Cheiro das Coisas é apenas uma redenção que não se purifica"</span></a></p>
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										<content:encoded><![CDATA[<figure id="attachment_36129" aria-describedby="caption-attachment-36129" style="width: 800px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-medium wp-image-36129" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2025/11/11634-large-800x390.jpg" alt="Na fotografia, um homem branco idoso de barba grisalha está sentado à beira de uma cama em um quarto de hospital com paredes azuis. Ele usa um colete de tricô, majoritariamente da cor verde oliva, sobre uma camisa social branca enquanto olha para baixo, com expressão melancólica. Ao fundo, há uma luminária acesa e uma mesa de cabeceira amarela com porta-retratos e um abajur." width="800" height="390" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2025/11/11634-large-800x390.jpg 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2025/11/11634-large-1024x500.jpg 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2025/11/11634-large-768x375.jpg 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2025/11/11634-large-1536x750.jpg 1536w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2025/11/11634-large-1200x586.jpg 1200w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2025/11/11634-large.jpg 2000w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 984px) 61vw, (max-width: 1362px) 45vw, 600px" /><figcaption id="caption-attachment-36129" class="wp-caption-text">Com coprodução brasileira, A Memória do Cheiro das Coisas estreou mundialmente no Festival de Xangai (Foto: Persona Non Grata Pictures)</figcaption></figure>
<p><b>Gabriel Diaz</b></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Há algo inevitavelmente político em qualquer tentativa de revisitar o passado </span><a href="https://jacobin.com.br/2025/10/portugal-se-recusa-a-encarar-o-legado-do-seu-brutal-passado-colonial/"><span style="font-weight: 400;">colonial português</span></a><span style="font-weight: 400;"> – sobretudo quando essa memória é filtrada pelo olhar do envelhecimento, a doença e a solidão. Diretamente da seção Perspectiva Internacional na </span><a href="https://personaunesp.com.br/tag/49a-mostra-internacional-de-cinema-em-sao-paulo/"><span style="font-weight: 400;">49ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo</span></a><span style="font-weight: 400;">, o diretor António Ferreira apresenta </span><i><span style="font-weight: 400;">A Memória do Cheiro das Coisas</span></i><span style="font-weight: 400;">, um filme que mergulha nesse terreno delicado, tentando equilibrar a culpa histórica com o afeto cotidiano, e parte dessa convergência para construir um drama intimista que atravessa corpo e história. </span></p>
<p><span id="more-36108"></span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Essa foi a resultante de uma obra honesta, com intenções nobres e uma sensibilidade formal notável. Contudo, ao almejar conciliar um crime inestimável, termina por exibir uma lucidez incompleta sobre o próprio </span><a href="https://www.publico.pt/2017/09/02/sociedade/noticia/portugal-e-dos-paises-da-europa-que-mais-manifesta-racismo-1783934"><span style="font-weight: 400;">racismo</span></a><span style="font-weight: 400;"> do qual busca criticar. Logo, a ambição de compreender o remorso histórico esbarra no risco de, ao tentar entendê-la, perpetuá-la.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">O longa nos leva para um monótono cotidiano do senhor Arménio (</span><a href="https://portugalglobal.pt/pt/noticias/2025/junho/jose-martins-vence-o-premio-de-melhor-ator-em-xangai/"><span style="font-weight: 400;">José Martins</span></a><span style="font-weight: 400;">), um ex-combatente dos conflitos portugueses contra Angola, em sua chegada a um lar de idosos. O ambiente, inicialmente duro e silencioso, revela-se um espaço intimista aos olhos exteriores. A partir desse momento, instaura-se o contraste que António Ferreira constrói sua observação sobre o tempo e a </span><a href="https://flaviaaugustafono.com.br/memorias-afetivas-na-terceira-idade/"><span style="font-weight: 400;">memória</span></a><span style="font-weight: 400;">. A cinematografia é tão quieta que se torna aconchegante, tal como um domingo chuvoso e improdutivo</span><i><span style="font-weight: 400;">. </span></i><span style="font-weight: 400;">Entretanto, logo se percebe que essa quietude é apenas teórica, pois a vida de Arménio, que parecia estar no fim, ainda se mantém internamente agitada por lembranças que insistem em não serem enterradas, como se cada recordação fosse um retorno à </span><a href="https://gazzetapaulista.com.br/a-guerra-de-independencia-de-angola-tambem-conhecida-como-luta-armada-de-libertacao-nacional/"><span style="font-weight: 400;">guerra</span></a><span style="font-weight: 400;">.</span></p>
<figure id="attachment_36130" aria-describedby="caption-attachment-36130" style="width: 800px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-medium wp-image-36130" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2025/11/A-Memoria-do-Cheiro-das-Coisas-estreia-em-30-de-outubro-800x480.webp" alt="A imagem mostra um homem branco idoso magro, com expressão de espanto, sentado em um ambiente escuro, iluminado por um foco de luz branco em meio a uma parede azulada. Ele está com a camisa desabotoada, com tubos de oxigênio no nariz, e parece fragilizado. Um cilindro de oxigênio branco aparece parcialmente ao fundo, reforçando o clima de vulnerabilidade." width="800" height="480" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2025/11/A-Memoria-do-Cheiro-das-Coisas-estreia-em-30-de-outubro-800x480.webp 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2025/11/A-Memoria-do-Cheiro-das-Coisas-estreia-em-30-de-outubro-1024x614.webp 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2025/11/A-Memoria-do-Cheiro-das-Coisas-estreia-em-30-de-outubro-768x461.webp 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2025/11/A-Memoria-do-Cheiro-das-Coisas-estreia-em-30-de-outubro-1536x922.webp 1536w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2025/11/A-Memoria-do-Cheiro-das-Coisas-estreia-em-30-de-outubro-1200x720.webp 1200w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2025/11/A-Memoria-do-Cheiro-das-Coisas-estreia-em-30-de-outubro.webp 1920w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 984px) 61vw, (max-width: 1362px) 45vw, 600px" /><figcaption id="caption-attachment-36130" class="wp-caption-text">A atuação de José Martins evoca sucessivamente o conflito entre as memórias de Arménio (Foto: Persona Non Grata Pictures)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">A chegada de Hermínia (Mina Andala), sua cuidadora negra, funciona como um catalisador, reacendendo traumas, preconceitos e fantasmas com a intensidade de uma herança passada, assim como sugere o filme ao afirmar que </span><i><span style="font-weight: 400;">&#8220;as cabeças só se calam quando são espetadas por uma estaca&#8221;</span></i><span style="font-weight: 400;">. Sua interpretação constrói uma personagem que escapa deliberadamente do estereótipo hollywoodiano da </span><a href="https://mundonegro.inf.br/o-complexo-de-branco-salvador-nos-filmes-de-hollywood/"><span style="font-weight: 400;">&#8216;figura redentora&#8217;</span></a><span style="font-weight: 400;"> do homem branco, evidenciando que a tensão entre os dois é o motor central da narrativa. A partir disso, encontra-se nas pausas e nos silêncios uma força serena que desarma o espectador, lembrando-nos que o afeto e a dignidade profissional também podem ser formas de resistência silenciosa.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">A filmografia de Ferreira permanece quase documental e tem se mostrado crescentemente interessada na tensão entre memória e esquecimento, realidade e mito. A produção audiovisual radicaliza esse gesto ao usar a decadência física do corpo como uma metáfora potente para o corpo social </span><a href="https://aterraeredonda.com.br/teoria-social-e-desafios-pos-coloniais/"><span style="font-weight: 400;">pós-colonial</span></a><span style="font-weight: 400;">. A direção aposta numa estética contida, próxima do documentário, um recurso que reforça a intenção de homenagear os cuidadores e humanizar o cotidiano do </span><a href="https://www.migalhas.com.br/depeso/397546/o-que-caracteriza-o-abandono-afetivo-o-que-diz-a-lei"><span style="font-weight: 400;">abandono</span></a><span style="font-weight: 400;">. No entanto, essa aproximação entre ficção e realidade, por vezes, soa mais ilustrativa do que orgânica, e a </span><a href="https://infocusfilmschool.com/what-is-mise-en-scene/"><i><span style="font-weight: 400;">mise-en-scène</span></i></a><span style="font-weight: 400;"> – que pretende fundir passado e presente – ocasionalmente se perde em sua própria solenidade. Tecnicamente, o longa é um retrato preciso da fragilidade. A fotografia, com seus tons pálidos e iluminação lateral, cria uma textura quase terrosa que parece emanar dos próprios corpos dos personagens, contribuindo para uma sensação de clausura que ecoa a estrutura narrativa. </span></p>
<figure id="attachment_36131" aria-describedby="caption-attachment-36131" style="width: 800px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-medium wp-image-36131" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2025/11/A-MEMORIA-DO-CHEIRO-DAS-COISAS-241-800x480.jpg" alt="No frame, um homem branco idoso com tubos de oxigênio no nariz está sendo amparado no chão por uma mulher negra vestida em um uniforme totalmente bege. Ela o segura com firmeza e preocupação, enquanto ele apresenta um semblante de exaustão. A cena ocorre em um ambiente interno de iluminação suave, com cortinas claras e paredes escuras ao fundo." width="800" height="480" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2025/11/A-MEMORIA-DO-CHEIRO-DAS-COISAS-241-800x480.jpg 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2025/11/A-MEMORIA-DO-CHEIRO-DAS-COISAS-241-1024x614.jpg 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2025/11/A-MEMORIA-DO-CHEIRO-DAS-COISAS-241-768x461.jpg 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2025/11/A-MEMORIA-DO-CHEIRO-DAS-COISAS-241-1536x922.jpg 1536w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2025/11/A-MEMORIA-DO-CHEIRO-DAS-COISAS-241-2048x1229.jpg 2048w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2025/11/A-MEMORIA-DO-CHEIRO-DAS-COISAS-241-1200x720.jpg 1200w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 984px) 61vw, (max-width: 1362px) 45vw, 600px" /><figcaption id="caption-attachment-36131" class="wp-caption-text">A personagem de Mina Andala se torna espelho e ferida da culpa do protagonista (Foto: Persona Non Grata Pictures)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">António Ferreira constrói uma ’partitura da decadência’ a partir da repetição obsessiva de ruídos cotidianos, sejam eles passos, respirações ou tosses, em que o tempo é medido pela cadência da respiração ofegante de Arménio. No entanto, a trama passa a oferecer uma forma de redenção àquele que, pela lógica da própria história, não a merece e confunde empatia com perdão e humanidade com absolvição. Em sua tentativa de reparar simbolicamente o que a História não perdoa, o longa acaba por reforçar o mesmo </span><a href="https://www.publico.pt/2023/07/12/opiniao/opiniao/racismo-estrutural-ferida-aberta-sociedade-portuguesa-2056515"><span style="font-weight: 400;">racismo estrutural</span></a><span style="font-weight: 400;"> que pretendia desarmar.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">No fim, o que resta é a memória. Não a do cheiro das coisas, mas a do cheiro do próprio </span><a href="https://www.magazine-hd.com/apps/wp/30-filmes-ultima-decada-cinema-portugues/13/"><span style="font-weight: 400;">Cinema</span></a><span style="font-weight: 400;"> e da tentativa falha, porém necessária, de confrontar um passado que se recusa a passar. A produção permanece no papel de expor – com genuíno desconforto e fragilidade – a ferida ainda aberta de um país que, personificado por Arménio, ainda teme encarar a própria consciência. Poderia ser um grande filme sobre o </span><a href="https://g1.globo.com/mg/minas-gerais/especial-publicitario/bem-viver-em-minas/noticia/2021/04/07/por-que-temos-medo-de-envelhecer.ghtml"><span style="font-weight: 400;">envelhecer</span></a><span style="font-weight: 400;"> ou sobre os traumas íntimos da guerra. Todavia, ao tentar ser também um manifesto sobre racismo e reconciliação, termina por revelar que a verdadeira ferida é o medo da lembrança, daquilo que, mesmo esquecido, ainda exala e assombra o presente.</span></p>
<div class="jetpack-video-wrapper"><iframe loading="lazy" title="A Memória do Cheiro das Coisas | The Scent of Things Remembered (2025) | TRAILER OFICIAL" width="840" height="630" src="https://www.youtube.com/embed/UWyiP128FZ8?feature=oembed" frameborder="0" allow="accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share" referrerpolicy="strict-origin-when-cross-origin" allowfullscreen></iframe></div>
<p>O post <a href="http://personaunesp.com.br/a-memoria-do-cheiro-das-coisas-critica/">Não tenha medo, A Memória do Cheiro das Coisas é apenas uma redenção que não se purifica</a> apareceu primeiro em <a href="http://personaunesp.com.br">Persona | Jornalismo Cultural</a>.</p>
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		<title>Loucuras mostra a poligamia como remédio para um distúrbio incurável</title>
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		<pubDate>Fri, 31 Oct 2025 14:06:17 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Cinema]]></category>
		<category><![CDATA[49ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo]]></category>
		<category><![CDATA[Catherine Chabot]]></category>
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		<category><![CDATA[Coop Vidéo de Montréal]]></category>
		<category><![CDATA[Éric K. Boulianne]]></category>
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		<category><![CDATA[Loucuras]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Gabriel Diaz Sob o disfarce de liberdade, ainda há a fragilidade de uma geração que tenta racionalizar o desejo. Segundo o dicionário Michaelis, a poligamia é, em essência, a união reprodutiva entre três ou mais indivíduos de uma espécie. Nos países ocidentais, especialmente no Canadá (onde o filme se originou), ela é criminalizada por ser &#8230; <a href="http://personaunesp.com.br/loucuras-mostra-a-poligamia-como-remedio-para-um-disturbio-incuravel/" class="more-link">Continue lendo<span class="screen-reader-text"> "Loucuras mostra a poligamia como remédio para um distúrbio incurável"</span></a></p>
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										<content:encoded><![CDATA[<figure id="attachment_36081" aria-describedby="caption-attachment-36081" style="width: 800px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-medium wp-image-36081" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2025/10/image1-16-800x400.png" alt="Uma mulher e um homem estão muito próximos, encostados um no outro. A mulher segura o ombro do homem com as duas mãos e o observa com expressão emocionada. Ele retribui o olhar, de óculos e expressão corada. Ambos vestem roupas escuras, e o ambiente parece interno, com luz suave." width="800" height="400" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2025/10/image1-16-800x400.png 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2025/10/image1-16-1024x512.png 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2025/10/image1-16-768x384.png 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2025/10/image1-16.png 1200w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 984px) 61vw, (max-width: 1362px) 45vw, 600px" /><figcaption id="caption-attachment-36081" class="wp-caption-text">O longa quebequense apresenta uma história de exploração e autodescoberta sexual (Foto: Coop Vidéo de Montréal)</figcaption></figure>
<p><b>Gabriel Diaz</b></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Sob o disfarce de liberdade, ainda há a fragilidade de uma geração que tenta racionalizar o desejo. Segundo o dicionário </span><i><span style="font-weight: 400;">Michaelis</span></i><span style="font-weight: 400;">, a poligamia é, em essência, a união reprodutiva entre três ou mais indivíduos de uma espécie. Nos países ocidentais, especialmente no </span><a href="https://www.conjur.com.br/2011-nov-25/poligamia-fere-direitos-humanos-fundamentais-afirma-ministro-canada/"><span style="font-weight: 400;">Canadá</span></a><span style="font-weight: 400;"> (onde o filme se originou), ela é criminalizada por ser considerada uma ruptura da estrutura social monogâmica. Porém, em </span><a href="https://www.youtube.com/watch?v=w1ZfKWzpTt4"><span style="font-weight: 400;">Loucuras</span></a><span style="font-weight: 400;">, exibido na seção Competição Novos Diretores da </span><a href="https://personaunesp.com.br/tag/49a-mostra-internacional-de-cinema-em-sao-paulo/"><span style="font-weight: 400;">49ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo</span></a><span style="font-weight: 400;">, o conceito se converte em metáfora: não a transgressão da lei, mas a do próprio sentimento. O diretor Éric K. Boulianne, também protagonista, transforma a ideia de ‘muitos amores’ em uma tentativa desesperada de curar o vazio de um casamento esgotado.</span></p>
<p><span id="more-36080"></span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">François (Éric K. Boulianne) e Julie (Catherine Chabot) estão juntos há dezesseis anos, pais de duas filhas, e vivem um cotidiano regido mais por função do que por afeto. A trama se inicia com uma provocação: após ouvir experiências de casais adeptos de </span><a href="https://www.bbc.com/portuguese/vert-cap-62476758"><span style="font-weight: 400;">relacionamentos abertos</span></a><span style="font-weight: 400;">, os dois passam a se perguntar se o que sentem ainda é amor ou apenas costume. A decisão de abrir o relacionamento nasce mais da inquietação do que da coragem, tornando-se um gesto de autopreservação que acaba expondo suas fissuras mais íntimas. Dividido em seis capítulos inspirados pela </span><a href="https://ecoarte.info/rotoscopia/"><span style="font-weight: 400;">rotoscopia</span></a><span style="font-weight: 400;"> do Cinema da </span><a href="https://www.oldest.org/uncategorized/oldest-animated-movies/"><span style="font-weight: 400;">animação à mão</span></a><span style="font-weight: 400;">, o longa opera quase como uma autópsia do amor: examina cada fragmento do que um dia foi vital, revelando que a proposta é também a causa da doença.</span></p>
<figure id="attachment_36082" aria-describedby="caption-attachment-36082" style="width: 800px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-medium wp-image-36082" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2025/10/image2-14-800x450.png" alt="Um casal está sentado à mesa de jantar com taças de vinho pela metade. A mulher veste uma blusa xadrez em tons de marrom e branco; o homem usa suéter escuro com camisa por baixo. Eles olham para frente, atentos a algo fora do enquadramento. O ambiente tem luz quente e uma planta no canto." width="800" height="450" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2025/10/image2-14-800x450.png 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2025/10/image2-14-1024x576.png 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2025/10/image2-14-768x432.png 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2025/10/image2-14.png 1200w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 984px) 61vw, (max-width: 1362px) 45vw, 600px" /><figcaption id="caption-attachment-36082" class="wp-caption-text">O filme foi exibido no Festival Internacional de Cinema de Locarno (Foto: Coop Vidéo de Montréal)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">O grande mérito de </span><i><span style="font-weight: 400;">Loucuras </span></i><span style="font-weight: 400;">está em deslocar o debate sobre a monogamia. A fragilidade não está no formato do relacionamento, porém na forma como ele é usado para maquiar o cansaço cotidiano. O que o filme questiona, ainda que sem plena consciência, é a crença moderna de que o amor pode ser reconfigurado pela via terapêutica, seguindo o </span><a href="https://mrochapsico.com.br/blog/a-teoria-do-amor-liquido-de-bauman-reflexoes-psicologicas-sobre-relacoes-e-a-modernidade/"><span style="font-weight: 400;">amor líquido</span></a><span style="font-weight: 400;"> de Zygmunt Bauman – como se abrir o relacionamento fosse um remédio contra o tédio e não uma nova forma de confinamento. Julie e François fingem neutralidade diante do desconforto, mas o corpo não mente: o constrangimento durante o sexo e as conversas constroem um retrato mais sincero do que qualquer diálogo ensaiado. A indiferença que tentam performar é apenas mais uma forma de desespero.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Catherine Chabot, no papel de Julie, entrega uma atuação delicada, oscilando entre curiosidade e repressão, enquanto Boulianne constrói um François errático e teimoso, dividido entre a vaidade ferida e a carência emocional. A química entre eles não é incendiária, todavia é justamente essa ausência de fogo que torna a obra verossímil: </span><i><span style="font-weight: 400;">Loucuras </span></i><span style="font-weight: 400;">é sobre a combustão que não vem, sobre o desejo que se converte em protocolo. Constantemente, as duas filhas funcionam como espelho e alívio cômico na </span><a href="https://www.youtube.com/watch?v=EyEpFkVlV5o&amp;t"><span style="font-weight: 400;">narrativa</span></a><span style="font-weight: 400;">, evidenciando o contraste entre a inocência infantil e a artificialidade adulta – apesar delas saberem mais o que estão fazendo do que os próprios pais. A família inteira, afinal, participa do experimento e é isso que torna a trama mais incômoda e honesta.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Há uma secura calculada: o longa observa o amor com a mesma frieza com que seus protagonistas vivem, de forma semelhante ao desgaste conjugal que ocorre em </span><a href="https://personaunesp.com.br/historia-de-um-casamento-critica/"><i><span style="font-weight: 400;">História de um Casamento</span></i></a><span style="font-weight: 400;"> (2019). Nas cenas, Boulianne assume discretamente um ritmo que beira a lentidão, permitindo que os silêncios e os olhares sustentem o peso do roteiro. Os tons dessaturados presentes na fotografia reforçam o confinamento emocional do casal e o humor, presente em situações cotidianas, serve mais como defesa do que como alívio. </span></p>
<figure id="attachment_36083" aria-describedby="caption-attachment-36083" style="width: 800px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-medium wp-image-36083" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2025/10/image3-16-800x400.png" alt=" Um casal se beija em um quarto com iluminação amarelada. A mulher, de cabelo preso, segura o rosto do homem, que usa óculos. Ao fundo, há uma parede com padrão geométrico e parte de um abajur. A cena é íntima e filmada de perto." width="800" height="400" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2025/10/image3-16-800x400.png 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2025/10/image3-16-1024x512.png 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2025/10/image3-16-768x384.png 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2025/10/image3-16.png 1200w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 984px) 61vw, (max-width: 1362px) 45vw, 600px" /><figcaption id="caption-attachment-36083" class="wp-caption-text">O diretor Éric K. Boulianne relata que o longa é uma reflexão sobre o casal moderno e uma ode ao amor (Foto: Coop Vidéo de Montréal)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">O longa</span> <span style="font-weight: 400;">é uma </span><a href="https://www.youtube.com/watch?v=9AQX2sRfuW8"><span style="font-weight: 400;">comédia</span></a><span style="font-weight: 400;"> que tenta ser </span><i><span style="font-weight: 400;">sexy</span></i><span style="font-weight: 400;">, porém acaba soando melancólico. A direção articula ironia e tristeza em doses desiguais, revelando um olhar que, ainda que hesitante, é profundamente humano. O que poderia ser apenas uma pseudo-infidelidade se transforma em uma reflexão sobre o medo de desaparecer dentro da própria rotina, afetando os dois simultaneamente. As ‘loucuras’ do título, afinal, não são os encontros sexuais, mas o delírio de acreditar que o amor pode ser administrado como um experimento.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Em seu desfecho, o filme não oferece redenção e termina onde começou: na dúvida, tal qual um círculo cíclico. Aquele casal que, antes, buscava multiplicar o desejo, agora encontra apenas a confirmação de sua escassez. A poligamia, tratada como tábua de salvação, se revela apenas uma nova forma de solidão. </span><i><span style="font-weight: 400;">Loucuras </span></i><span style="font-weight: 400;">é, portanto, menos sobre liberdade e mais sobre o mal-estar contemporâneo, assim como </span><a href="https://colunastortas.com.br/o-mal-estar-na-civilizacao-sigmund-freud/"><span style="font-weight: 400;">Freud</span></a><span style="font-weight: 400;"> dizia. É sobre a tentativa de sustentar o amor com argumentos quando o corpo já desistiu de sentir, alimentando mais esse fracasso que a produção encontra sua beleza: uma crônica do esgotamento afetivo de nosso tempo, em que amar se tornou uma forma sofisticada de sobrevivência.</span></p>
<div class="jetpack-video-wrapper"><iframe loading="lazy" title="FOLLIES Clip | TIFF 2025" width="840" height="473" src="https://www.youtube.com/embed/EyEpFkVlV5o?feature=oembed" frameborder="0" allow="accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share" referrerpolicy="strict-origin-when-cross-origin" allowfullscreen></iframe></div>
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		<title>O Telefone Preto 2 é uma alucinação sobrenatural que entende o trauma, mas se perde em suas sombras</title>
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		<pubDate>Thu, 23 Oct 2025 13:00:48 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Cinema]]></category>
		<category><![CDATA[2025]]></category>
		<category><![CDATA[Análise]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Aviso: este texto contém alguns spoilers Gabriel Diaz Após quatro anos do primeiro longa, o horror já não está apenas à espreita no porão claustrofóbico, mas se instala na mente, no sonho, no limiar entre o que se vê e o que se teme. Scott Derrickson retorna ao universo da obra original de Joe Hill, &#8230; <a href="http://personaunesp.com.br/critica-o-telefone-preto-2/" class="more-link">Continue lendo<span class="screen-reader-text"> "O Telefone Preto 2 é uma alucinação sobrenatural que entende o trauma, mas se perde em suas sombras"</span></a></p>
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]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p><b><i>Aviso</i></b><i><span style="font-weight: 400;">: este texto contém alguns spoilers </span></i></p>
<figure id="attachment_35985" aria-describedby="caption-attachment-35985" style="width: 800px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-medium wp-image-35985" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2025/10/image2-9-800x533.png" alt="Um adolescente de cabelo castanho e jaqueta verde está dentro de uma cabine telefônica, segurando o telefone próximo ao ouvido e olhando atentamente para um homem do lado de fora. O homem usa uma máscara pálida e rachada com chifres, cabelos longos e roupas escuras, observando o garoto sob uma luz fria e tensa." width="800" height="533" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2025/10/image2-9-800x533.png 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2025/10/image2-9-768x512.png 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2025/10/image2-9.png 1024w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 984px) 61vw, (max-width: 1362px) 45vw, 600px" /><figcaption id="caption-attachment-35985" class="wp-caption-text">Dentre os rostos marcados pela neve e pela culpa, o horror de O Telefone Preto 2 é mais psicológico do que físico (Foto: Universal Pictures)</figcaption></figure>
<p><b>Gabriel Diaz</b></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Após quatro anos do primeiro longa, o horror já não está apenas à espreita no porão claustrofóbico, mas se instala na mente, no sonho, no limiar entre o que se vê e o que se teme. </span><a href="https://personaunesp.com.br/entre-montanhas-critica/"><span style="font-weight: 400;">Scott Derrickson</span></a><span style="font-weight: 400;"> retorna ao universo da obra original de Joe Hill, tentando expandir uma história que, no primeiro filme, parecia já ter alcançado seu fim natural. Conhecido por unir fé e medo em clássicos como </span><a href="https://youtu.be/Bi-PLwxwvy8?si=JmG9FByLw98rRnol"><i><span style="font-weight: 400;">O Exorcismo de Emily Rose</span></i></a><span style="font-weight: 400;"> (2005) e </span><a href="https://www.youtube.com/watch?v=3rz8a6mY1Lo"><i><span style="font-weight: 400;">A Entidade</span></i></a><span style="font-weight: 400;"> (2012),o diretor retoma aqui temas que o fascinam: o trauma, o sagrado e o invisível. </span><a href="https://www.youtube.com/watch?v=H6qAKtW7lyo"><i><span style="font-weight: 400;">O Telefone Preto 2</span></i></a><span style="font-weight: 400;"> é, ao mesmo tempo, uma continuação e uma reflexão sobre o que resta do terror quando o monstro morre, porém o medo permanece. O resultado é uma produção ambiciosa e visualmente intrigante, embora irregular no equilíbrio entre simbologia e narrativa.</span></p>
<p><span id="more-35983"></span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Ambientada em 1982, a trama retorna com o personagem Finney (</span><a href="https://personaunesp.com.br/live-action-de-como-treinar-o-seu-dragao-encanta-visualmente-mas-carece-de-ousadia-narrativa/"><span style="font-weight: 400;">Mason Thames</span></a><span style="font-weight: 400;">), agora adolescente, que vive isolado, marcado pelo passado violento que tenta reprimir. Sua irmã, Gwen (Madeleine McGraw), canaliza as feridas da infância em visões cada vez mais intensas, que a conduzem até Alpine Lake, um acampamento cristão ligado ao passado da mãe. É lá que o horror se reconfigura: o Sequestrador (</span><a href="https://personaunesp.com.br/boyhood-da-infancia-a-juventude-10-anos/"><span style="font-weight: 400;">Ethan Hawke</span></a><span style="font-weight: 400;">), morto, retorna em forma espectral para atormentá-los nos sonhos.</span></p>
<figure id="attachment_35986" aria-describedby="caption-attachment-35986" style="width: 800px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-medium wp-image-35986" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2025/10/image3-8-800x534.png" alt="Um homem de cabelos longos e roupas escuras está em uma cozinha industrial iluminada por tons quentes. Ele veste uma máscara branca com chifres e expressão demoníaca, segurando uma faca grande em uma das mãos, com uma postura ameaçadora e olhar voltado para alguém fora do enquadramento." width="800" height="534" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2025/10/image3-8-800x534.png 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2025/10/image3-8-1024x683.png 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2025/10/image3-8-768x512.png 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2025/10/image3-8-1536x1024.png 1536w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2025/10/image3-8-1200x800.png 1200w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2025/10/image3-8.png 1600w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 984px) 61vw, (max-width: 1362px) 45vw, 600px" /><figcaption id="caption-attachment-35986" class="wp-caption-text">O vilão de Ethan Hawke foi derrotado no longa original, mas retorna para a sequência (Foto: Universal Pictures)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">Essa inversão psicológica é o que aproxima o longa de uma leitura platônica, sobretudo pela evocação da </span><a href="https://fasbam.edu.br/2020/06/25/a-alegoria-da-caverna-de-platao/"><span style="font-weight: 400;">Alegoria da Caverna</span></a><span style="font-weight: 400;">. Assim como os prisioneiros de </span><a href="https://acropole.org.br/artigos/filosofia/platao-biografia-vida-e-obras/"><span style="font-weight: 400;">Platão</span></a><span style="font-weight: 400;">, que confundem sombras com realidade, Gwen e Finney estão presos às imagens do passado, incapazes de distinguir o que é lembrança, delírio ou revelação. A cada sonho, os limites entre luz e escuridão se embaralham, e o terror surge justamente dessa confusão perceptiva. Derrickson parece sugerir que sair da caverna – encarar a verdade – pode ser tão doloroso quanto permanecer nas sombras. O horror aqui é o despertar.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Visualmente, </span><i><span style="font-weight: 400;">O Telefone Preto 2</span></i><span style="font-weight: 400;"> é uma carta de amor à estética dos </span><a href="https://ecosesilencio.com.br/efeitos-visuais-em-filmes-de-terror-anos-80-x-hoje/"><span style="font-weight: 400;">anos 1980</span></a><span style="font-weight: 400;">. A fotografia granulada, os ruídos visuais e as projeções típicas do gênero </span><a href="https://www.youtube.com/watch?v=cmYsRcLMvO8"><i><span style="font-weight: 400;">found-footage</span></i></a><span style="font-weight: 400;"> criam um clima analógico que reforça a sensação de memória fragmentada, simulando uma experiência sensorial próxima à do sonho – ou, mais especificamente, do delírio. Derrickson não busca o susto pelo susto, prefere a construção lenta da tensão, fazendo do ruído, da pausa e da ambiguidade seus principais instrumentos de medo. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Entretanto, a partir desse ponto, o longa se entrega excessivamente ao simbólico, perdendo a sua linguagem mais brilhante. O roteiro oscila entre a profundidade emocional e o clichê sobrenatural. Ao transformar o Sequestrador em uma figura onírica que invade os sonhos – tal qual uma espécie reformulada de </span><a href="https://www.youtube.com/watch?v=Adgp0v_mfTk&amp;t"><span style="font-weight: 400;">Freddy Krueger</span></a><span style="font-weight: 400;"> –, o filme perde parte do realismo perturbador que tornava o original tão eficaz. Assim como seu personagem, Ethan Hawke se personifica como um fantasma carregado de pura vingança, contrastando muito de sua personalidade fria e significante do primeiro. A atuação mantém o magnetismo visual, mas carece de novidade: ele assombra, mas não surpreende. O medo, antes físico e palpável, agora se dilui na abstração espiritual e numa performance ignorável.</span></p>
<figure id="attachment_35984" aria-describedby="caption-attachment-35984" style="width: 800px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-medium wp-image-35984" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2025/10/image1-9-800x450.png" alt="Em uma cozinha industrial, uma mulher com cabelo curto e ruivo flutua horizontalmente no ar, gritando com expressão de dor. Duas pessoas, um homem e uma mulher, tentam segurá-la pelas pernas, enquanto panelas e utensílios pendem ao fundo, reforçando a atmosfera sobrenatural da cena." width="800" height="450" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2025/10/image1-9-800x450.png 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2025/10/image1-9-768x432.png 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2025/10/image1-9.png 1008w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 984px) 61vw, (max-width: 1362px) 45vw, 600px" /><figcaption id="caption-attachment-35984" class="wp-caption-text">Madeleine McGraw encara o sobrenatural com uma fé hesitante, tornando-se a protagonista desse pesadelo (Foto: Blumhouse Productions)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">Em contrapartida, a inversão de protagonismo dá novo fôlego à franquia. Gwen assume o papel central da narrativa, tornando-se uma figura trágica e heróica ao mesmo tempo. Madeleine McGraw entrega uma performance madura, equilibrando fé e desespero, inocência e força – isso não tira as parcelas culposas de que sua personagem é extremamente chata. Mason Thames, por sua vez, explora com sutileza o ressentimento e a raiva do sobrevivente, porém de um modo tão sutil que aparenta ser invisível. De forma clara, seu personagem é uma peça fundamental para o funcionamento do enredo, todavia nem toda a desconstrução do caráter de </span><a href="https://www.vanityfair.com/hollywood/2013/03/bad-boys-hollywood-alec-baldwin"><i><span style="font-weight: 400;">bad boy</span></i></a><span style="font-weight: 400;"> fez com que tivesse algum destaque, juntando o inútil ao desagradável. Essa dualidade fraterna entre o trauma reprimido de Finney e a sensibilidade visionária de Gwen espelha o próprio conflito entre o real e o ilusório, sobre o que está nas sombras e o que se revela à luz, retomando de forma imperceptível a tensão platônica que o audiovisual encena.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">O aspecto </span><a href="https://darkside.blog.br/por-que-terror-e-religiao-costumam-andar-juntos/"><span style="font-weight: 400;">religioso</span></a><span style="font-weight: 400;">, constante na filmografia de Derrickson, ressurge no primeiro ato por meio do acampamento cristão e de uma retórica sobre culpa e redenção. No entanto, essa dimensão espiritual se dilui conforme o sobrenatural assume o controle da narrativa. A </span><a href="https://www.contacto.lu/opiniao/black-phone-2-.-pode-ver-este-filme-em-vez-de-ir-a-missa/97045474.html"><span style="font-weight: 400;">fé</span></a><span style="font-weight: 400;"> aparece menos como certeza e mais como tentativa de organizar o caos, um gesto de desespero diante do inexplicável. Se existe um Deus, ele se oculta entre máscaras e ecos distorcidos. Derrickson transforma essa ambiguidade em reflexão: o mal, assim como a verdade, nunca se revela por completo – apenas por fragmentos, por sombras que confundem o olhar.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">No fim, </span><i><span style="font-weight: 400;">O Telefone Preto 2</span></i><span style="font-weight: 400;"> se sustenta como uma experiência audiovisual de forte apelo estético e simbólico, mas com desequilíbrios narrativos. É um filme que compreende o poder do trauma e da memória, mas se perde em suas próprias metáforas. Derrickson demonstra domínio técnico e sensibilidade emocional, embora o roteiro não acompanhe o mesmo rigor. E talvez seja esse o ponto mais perturbador que a sequência trouxe: o </span><a href="https://www.otempo.com.br/opiniao/diego-almeida/2025/10/17/final-explicado-de-o-telefone-preto-2"><span style="font-weight: 400;">inferno</span></a><span style="font-weight: 400;"> é diferente do que imaginávamos, ele não é quente, é frio. Um frio que não vem das neves do acampamento, e sim do vazio que resta quando o medo congela tudo o que é humano. Ao menos, a produção não chega a ser mais um </span><a href="https://rollingstone.com.br/cinema/m3gan-20-por-que-a-sequencia-fracassou-nas-bilheteiras/"><span style="font-weight: 400;">fracasso</span></a><span style="font-weight: 400;"> da </span><i><span style="font-weight: 400;">Blumhouse Productions</span></i><span style="font-weight: 400;">.</span></p>
<div class="jetpack-video-wrapper"><iframe loading="lazy" title="O Telefone Preto 2 | Trailer Final" width="840" height="473" src="https://www.youtube.com/embed/4FTqSFaKyjs?feature=oembed" frameborder="0" allow="accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share" referrerpolicy="strict-origin-when-cross-origin" allowfullscreen></iframe></div>
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