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	<title>Arquivos Fernando Meirelles &#8211; Persona | Jornalismo Cultural</title>
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	<description>Desde 2015 provando que a distância entre Bergman, Lady Gaga e a novela das 9 nem existe.</description>
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		<title>Wagner Moura faz de Marighella uma experiência coletiva</title>
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		<pubDate>Tue, 30 Nov 2021 16:36:53 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p>Vitor Evangelista 52 anos se passaram desde que Carlos Marighella foi alvejado por tiros em uma emboscada, dentro de um carro na Alameda Casa Branca, em São Paulo. O momento, marcado para sempre nos livros de História como mais um dos massacres políticos e sociais da Ditadura Militar, agora é transposto às telas da ficção, &#8230; <a href="http://personaunesp.com.br/marighella-critica/" class="more-link">Continue lendo<span class="screen-reader-text"> "Wagner Moura faz de Marighella uma experiência coletiva"</span></a></p>
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										<content:encoded><![CDATA[<figure id="attachment_24928" aria-describedby="caption-attachment-24928" style="width: 1086px" class="wp-caption alignnone"><img fetchpriority="high" decoding="async" class="size-full wp-image-24928" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/11/um.jpg" alt="Cena do filme Marighella, mostra Seu Jorge, um homem negro e adulto, com o filho no colo, uma criança que usa camisa branca e se abraça ao pescoço do pai. A cena é de dia e ao fundo vemos árvores e carros." width="1086" height="652" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/11/um.jpg 1086w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/11/um-800x480.jpg 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/11/um-1024x615.jpg 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/11/um-768x461.jpg 768w" sizes="(max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 1362px) 62vw, 840px" /><figcaption id="caption-attachment-24928" class="wp-caption-text">A coletiva de imprensa de Marighella ocorreu no Cine Marquise, na Avenida Paulista, à duas quadras de distância do local onde o Guerrilheiro foi assassinado em 1969 (Foto: O2 Filmes)</figcaption></figure>
<p><strong>Vitor Evangelista</strong></p>
<p><span style="font-weight: 400;">52 anos se passaram desde que </span><a href="https://www.uol.com.br/splash/noticias/2021/11/04/marighella-historia-quem-foi.htm"><span style="font-weight: 400;">Carlos Marighella</span></a><span style="font-weight: 400;"> foi alvejado por tiros em uma emboscada, dentro de um carro na Alameda Casa Branca, em São Paulo. O momento, marcado para sempre nos livros de História como mais um dos massacres políticos e sociais da Ditadura Militar, agora é transposto às telas da ficção, na dolorosa constatação de que o Brasil de 1969 dialoga com eloquência e pesar com o país de 2021. </span><i><span style="font-weight: 400;">Marighella</span></i><span style="font-weight: 400;">, cinebiografia do </span><a href="https://traduagindo.com/2021/05/08/entrevista-com-carlos-marighella/"><span style="font-weight: 400;">Guerrilheiro que Incendiou o Mundo</span></a><span style="font-weight: 400;">, aposta no Cinema de ação e revolta para, em meio ao banho de sangue e lágrimas, exprimir esperança.</span></p>
<p><span id="more-24927"></span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">A árdua tarefa de transformar a vida e a morte de Carlos Marighella em Arte não é recente. Na verdade, a ideia surgiu em 2013, como revelou o diretor Wagner Moura no evento de pré-estreia que aconteceu em São Paulo, no Cine Marquise da Avenida Paulista, no fim de outubro. Quando entrou em contato com o </span><a href="https://www.youtube.com/watch?v=BsmGBsfrVEU"><span style="font-weight: 400;">livro de Mário Magalhães</span></a><span style="font-weight: 400;">, a decisão de ter alguém de esquerda e baiano no comando da produção pareceu uma combinação mágica para o ator, que sempre teve vontade de assumir o posto da direção, mas achou que o faria com uma obra menor, focada em poucos personagens e em uma história mais simples.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">E simples não é nem de longe sinônimo de </span><i><span style="font-weight: 400;">Marighella</span></i><span style="font-weight: 400;">. A publicação de Magalhães se estende por centenas e centenas de páginas, mas o recorte de Moura foi astuto o bastante para entender o recado. Ele queria, a princípio, devolver ao imaginário popular essa figura que foi amaldiçoada, e, fascinado por histórias de revolta, encontrou nesse filme o veículo ideal para unir o útil ao agradável. É certo que sua escolha inicial para viver o protagonista acabou não indo para frente e, após a saída de Mano Brown, o </span><a href="https://www.youtube.com/watch?v=5Os1zJQALz8"><span style="font-weight: 400;">poeta lutador</span></a><span style="font-weight: 400;"> que não fazia concessões, chegou Seu Jorge.</span></p>
<figure id="attachment_24929" aria-describedby="caption-attachment-24929" style="width: 1280px" class="wp-caption alignnone"><img decoding="async" class="size-full wp-image-24929" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/11/dois.jpg" alt="Cena do filme Marighella, mostra o protagonista Seu Jorge usando terno e sentado, olhando para a frente com a cara fechada. Ele é um homem adulto, de pele negra e cabelos pretos." width="1280" height="720" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/11/dois.jpg 1280w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/11/dois-800x450.jpg 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/11/dois-1024x576.jpg 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/11/dois-768x432.jpg 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/11/dois-1200x675.jpg 1200w" sizes="(max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 1362px) 62vw, 840px" /><figcaption id="caption-attachment-24929" class="wp-caption-text">O filme dilui os posicionamentos comunistas de Carlos Marighella, pintando uma imagem mais forte de patriota e nacionalista do militante (Foto: O2 Filmes)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">Também presente na coletiva, o artista não poupou elogios ao trabalho do diretor e foi muito sincero na hora de colocar em palavras o que atuar em </span><i><span style="font-weight: 400;">Marighella </span></i><span style="font-weight: 400;">significava para sua própria jornada de reconexão com o Brasil, país pelo qual é apaixonado e se encontrava distante. Esse fogo de ardência é sentido em cada uma de suas preciosas e carregadas cenas. Quando banha seu filho Carlinhos no mar, numa construção que brinca com o </span><a href="https://personaunesp.com.br/moonlight-kendrick-lamar/"><span style="font-weight: 400;">batismo de </span><i><span style="font-weight: 400;">Moonlight</span></i></a><span style="font-weight: 400;">, Seu Jorge já anuncia que as próximas duas horas e quarenta serão constituídas de </span><a href="https://www.youtube.com/watch?v=f8tXFV_bkPU"><span style="font-weight: 400;">fortes emoções</span></a><span style="font-weight: 400;">.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">A história se divide em duas. Mesclando momentos em 1964, após a instauração do golpe apoiado pelos EUA, e em 1968, logo depois de Marighella cofundar a Ação Libertadora Nacional (ALN). Dessa forma, a direção de Moura, em conjunto ao roteiro escrito por ele e </span><a href="https://vimeo.com/225578736"><span style="font-weight: 400;">Felipe Braga</span></a><span style="font-weight: 400;">, se priva de perpassar cada momento da criação e amadurecimento do protagonista, dando fôlego e tempo de tela para os dilemas de um Marighella envelhecendo, além de manejar com destreza o desenvolvimento de alguns coadjuvantes. Em 64, Seu Jorge é eufórico e a preocupação de revolta floresce por seus expressivos olhos. A maior qualidade dessa atuação, entretanto, se reserva aos momentos de calmaria, quando o ator abaixa a guarda.</span></p>
<figure id="attachment_24930" aria-describedby="caption-attachment-24930" style="width: 1046px" class="wp-caption alignnone"><img decoding="async" class="size-full wp-image-24930" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/11/tres.jpg" alt="Cena do filme Marighella, mostra Seu Jorge em foco, de lado, e Humberto Carrão, branco e de barba preta. ao fundo desfocado." width="1046" height="638" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/11/tres.jpg 1046w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/11/tres-800x488.jpg 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/11/tres-1024x625.jpg 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/11/tres-768x468.jpg 768w" sizes="(max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 1362px) 62vw, 840px" /><figcaption id="caption-attachment-24930" class="wp-caption-text">Wagner Moura ilumina a figura da Religião e a importância dos freis dominicanos na luta contra a Ditadura Militar, ressaltando a coragem dos homens e a crueldade a que foram submetidos (Foto: O2 Filmes)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">Para viver um </span><a href="https://www1.folha.uol.com.br/ilustrada/2021/10/seu-jorge-diz-que-ataques-a-marighella-sao-racistas-e-pais-nao-sabe-lidar-com-isso.shtml"><span style="font-weight: 400;">homem negro</span></a><span style="font-weight: 400;"> de pele clara, a escalação de Seu Jorge causou um rebuliço na mídia, visto que o ator tem a pele retinta. Na exibição para a imprensa, Wagner Moura detalhou o processo de </span><i><span style="font-weight: 400;">casting</span></i><span style="font-weight: 400;"> e que o objetivo era</span><i><span style="font-weight: 400;"> “empretecer”</span></i><span style="font-weight: 400;"> Marighella, neto de escravos sudaneses e filho de uma mãe nascida no ano da abolição. A </span><a href="https://oglobo.globo.com/cultura/como-homem-negro-de-50-anos-tenho-questoes-diz-seu-jorge-interprete-de-marighella-pixinguinha-no-cinema-25255500"><span style="font-weight: 400;">questão racial</span></a><span style="font-weight: 400;"> era intrínseca à vivência e a luta do baiano, e enquanto a produção enfatiza esse ponto de tensão, ela acaba também diluindo outra de suas características de formação: o </span><a href="https://memoriasdaditadura.org.br/biografias-da-resistencia/carlos-marighella/"><span style="font-weight: 400;">comunismo</span></a><span style="font-weight: 400;">. Por mais que o roteiro deixe de escanteio os ideais do protagonista, quem conhece a História tem noção de sua posição marxista-leninista, e dos objetivos do combate à Ditadura Militar. Além da busca por igualdade e justiça, a ALN enxergava a necessidade da luta armada como caminho para a instalação de um governo popular revolucionário no Brasil. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">No contraste, </span><a href="https://www.omelete.com.br/especiais/entrevista-bruno-gagliasso-marighella/"><span style="font-weight: 400;">Bruno Gagliasso</span></a><span style="font-weight: 400;"> encarna a escória do mundo na figura de Lúcio, policial que vai à caça dos militantes e guerrilheiros. O personagem, embora tenha outro nome, é a representação de </span><a href="https://memoriasdaditadura.org.br/biografias-da-ditadura/delegado-fleury/"><span style="font-weight: 400;">Sérgio Fleury</span></a><span style="font-weight: 400;">, delegado responsável por arquitetar a morte de Marighella. Quando perguntado na coletiva de que maneira deu nuances ao mal absoluto, o global revelou a dificuldade de se preparar para o papel. Pai de crianças negras, ele interpreta um racista e fascista desmedido, raivoso e violento. Gagliasso não opta pelo óbvio quando vocifera cada uma das ofensas cuspidas em tela, ele abraça o lado político da empreitada, contornando sua atuação ao redor da denúncia e do imediatismo do </span><a href="https://economia.uol.com.br/noticias/estadao-conteudo/2021/10/19/bolsonaro-nega-ter-culpa-pela-crise-ache-um-cara-melhor.htm"><span style="font-weight: 400;">Brasil de 2021</span></a><span style="font-weight: 400;">.</span></p>
<figure id="attachment_24931" aria-describedby="caption-attachment-24931" style="width: 2560px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-full wp-image-24931" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/11/quatro.jpeg" alt="Cena noturna do filme Marighella, mostra vários homens com armas apontadas para um mesmo lugar, atirando." width="2560" height="1404" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/11/quatro.jpeg 2560w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/11/quatro-800x439.jpeg 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/11/quatro-1024x562.jpeg 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/11/quatro-768x421.jpeg 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/11/quatro-1536x842.jpeg 1536w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/11/quatro-2048x1123.jpeg 2048w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/11/quatro-1200x658.jpeg 1200w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 1362px) 62vw, 840px" /><figcaption id="caption-attachment-24931" class="wp-caption-text">Embora demore a mostrar em tela as torturas da Ditadura, quando o filme dedica uma longa sequência ao momento, ele não poupa o teor da brutalidade e da violência (Foto: O2 Filmes)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">A </span><a href="https://noticias.uol.com.br/colunas/leonardo-sakamoto/2020/01/14/marighella-nao-e-caso-isolado-cultura-esta-sob-censura-diz-wagner-moura.htm"><span style="font-weight: 400;">censura</span></a><span style="font-weight: 400;"> que atingiu o filme não foi acaso do destino. Como efeito cascata, Wagner Moura insistiu em catalogar esse bolsão de caos político entre os anos 13 e 21, desde as </span><a href="https://revistagalileu.globo.com/Revista/noticia/2018/06/manifestacoes-de-junho-de-2013-completam-cinco-anos-o-que-mudou.html"><span style="font-weight: 400;">Manifestações de Junho</span></a><span style="font-weight: 400;">, o </span><a href="https://personaunesp.com.br/democracia-em-vertigem-critica/"><span style="font-weight: 400;">Golpe de 2016</span></a><span style="font-weight: 400;"> e a eleição de Bolsonaro dois anos mais tarde, até chegar ao hoje, </span><a href="https://brasil.elpais.com/brasil/2021-04-16/inacao-e-desinformacao-do-governo-bolsonaro-agravam-a-pandemia-no-brasil.html"><span style="font-weight: 400;">pandêmico</span></a><span style="font-weight: 400;">, enclausurado, natimorto. Quando subiu ao poder, o presidente não demorou a </span><a href="https://www1.folha.uol.com.br/ilustrada/2019/09/em-ofensiva-contra-ancine-bolsonaro-corta-43-de-fundo-do-audiovisual.shtml"><span style="font-weight: 400;">cortar verbas da Cultura</span></a><span style="font-weight: 400;">, e a Ancine, agência responsável pela retomada e pela frutífera colheita do </span><a href="https://personaunesp.com.br/entrevista-lirio-ferreira/"><span style="font-weight: 400;">Cinema nacional pós-anos 90</span></a><span style="font-weight: 400;">, acabou inerte, dormente, sangrando. </span><i><span style="font-weight: 400;">Marighella </span></i><span style="font-weight: 400;">estreou em 2019, no </span><a href="https://g1.globo.com/pop-arte/cinema/noticia/2019/02/15/wagner-moura-lanca-marighella-no-festival-de-berlim-e-posa-com-placa-de-marielle-franco.ghtml"><span style="font-weight: 400;">Festival de Berlim</span></a><span style="font-weight: 400;">, mas só pôde prestigiar uma exibição na terra que o concebeu dois anos depois.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">A projeção no Cine Marquise foi a segunda coletiva do longa, depois daquela inaugural na </span><a href="https://entretenimento.uol.com.br/noticias/redacao/2019/02/14/marighella-e-aplaudido-pelo-publico-em-1-exibicao-no-festival-de-berlim.htm"><span style="font-weight: 400;">Alemanha</span></a><span style="font-weight: 400;">. A produtora Andrea Barata Ribeiro foi enfática quando detalhou os percalços enfrentados pelo filme, desde pedidos negados pela Ancine (em um momento onde Bolsonaro enfatizava que </span><a href="https://g1.globo.com/politica/noticia/2019/07/19/se-nao-puder-ter-filtro-nos-extinguiremos-a-ancine-diz-bolsonaro.ghtml"><span style="font-weight: 400;">filtraria o que achasse necessário</span></a><span style="font-weight: 400;">) até a dificuldade de entrar em cartaz. Ano passado, a ideia era um lançamento no Dia da Consciência Negra, que acabou não ocorrendo. Esse ano, eles conseguiram chegar em Novembro, mês simbólico para tudo que </span><i><span style="font-weight: 400;">Marighella </span></i><span style="font-weight: 400;">significa. </span></p>
<figure id="attachment_24932" aria-describedby="caption-attachment-24932" style="width: 768px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-full wp-image-24932" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/11/cinco.jpg" alt="Cena do filme Marighella, mostra Adriana Esteves sentada e olhando para a janela. Ela é branca, tem cabelos escuros e é iluminada pela luz do sol que entra pela janela." width="768" height="512" /><figcaption id="caption-attachment-24932" class="wp-caption-text">Adriana Esteves teve o prazer de visitar a dona Clara da vida real e relatou que a presença de Marighella na residência da mulher é gigantesca: “a impressão é que ele vai tocar a campainha” (Foto: O2 Filmes)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">Além de ser uma ficção que coloca lentes dramáticas na jornada dos guerrilheiros, </span><i><span style="font-weight: 400;">Marighella </span></i><span style="font-weight: 400;">precisava funcionar como filme. Por mais que nem todos os acontecimentos tenham de fato acontecido, Wagner Moura enfatiza que eles são plausíveis para aqueles personagens. </span><a href="https://www.youtube.com/watch?v=DCFttf8ZgfY"><span style="font-weight: 400;">Maria Marighella</span></a><span style="font-weight: 400;">, atriz e neta de Carlos, é quem simboliza na carne esse elo forte com a realidade. Ela interpreta sua própria avó Elza, a mãe de seu pai, e faz da pequena presença na rodagem um dos corações pulsantes da obra.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Sua contraparte, e espécie de irmã de alma, é Clara, personagem de </span><a href="https://www.youtube.com/watch?v=i33O69m4Ci0"><span style="font-weight: 400;">Adriana Esteves</span></a><span style="font-weight: 400;">, esposa de Marighella. A atriz, que assistiu ao longa pela primeira vez apenas dois dias antes da exibição na Avenida Paulista, tinha emoção no olhar quando ressaltou o poder do amor de um filme como esse, o poder de empatia e de esperança manufaturado pela visão do diretor. O exemplo mais claro fica perto da conclusão, quando depois de morto, Marighella tem sua foto exibida em uma redação de jornal.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Lá, Carlinhos e sua mãe se chocam com o terror da realidade. Na hora em que Moura parece que cortará para o preto e dará por encerrada a experiência de quase 3 horas, o diretor, então aliado à montagem de Lucas Gonzaga, nos transporta para a residência de Clara. Esteves, aflita e absorta, quase que sentindo o momento sem ao menos ter a confirmação do assassinato, abraça o espectador. Ela sofre, chora, se conecta à personagem de Maria Marighella sem a necessidade de compartilhar o espaço físico. A </span><a href="https://www.youtube.com/watch?v=LQeqMMI1m9M"><span style="font-weight: 400;">força</span></a><span style="font-weight: 400;"> dessa decisão de Moura é sentida em segundo plano, correndo pelas beiradas. </span></p>
<figure id="attachment_24933" aria-describedby="caption-attachment-24933" style="width: 1280px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-full wp-image-24933" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/11/seis.jpg" alt="Cena do filme Marighella, mostra de perfil o ator Bruno Gagliasso urinando na parede. Está de dia e a câmera mostra apenas seu rosto e ombros, mas seus olhos miram o chão. " width="1280" height="720" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/11/seis.jpg 1280w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/11/seis-800x450.jpg 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/11/seis-1024x576.jpg 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/11/seis-768x432.jpg 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/11/seis-1200x675.jpg 1200w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 1362px) 62vw, 840px" /><figcaption id="caption-attachment-24933" class="wp-caption-text">No exercício de entregar o filme para as comunidades da qual Marighella fez parte, o longa teve exibições especiais na companhia da Coalizão Negra Por Direitos, além de uma pré-estreia na Bahia, terra natal do protagonista (Foto: O2 Filmes)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">O contraste de gerações entre Marighella e os companheiros de luta pode parecer desencaixado à princípio, mas é uma deliberação proposital. Com a Arte acostumada a representar seus militantes jovens demais, o filme coloca esse homem de cinquenta anos para liderar uma galera que mal chegou aos trinta. O </span><a href="https://www.marxists.org/portugues/marighella/1969/manual/index.htm"><i><span style="font-weight: 400;">Mini-Manual do Guerrilheiro Urbano</span></i></a><span style="font-weight: 400;"> (1969), como bem relembra Maria Marighella em sua fala sobre a importância da juventude, dá “funções” a cada um dos grupos, dos artistas, aos estudantes e aos cidadãos “comuns”. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Colocar em cena Seu Jorge ao lado de nomes como Humberto Carrão, Bella Camero e Jorge Paz serve para mostrar que essas pessoas tinham vidas, sonhos felizes, trabalhos ordinários e muito a perder. </span><a href="https://oglobo.globo.com/cultura/revista-da-tv/humberto-carrao-nao-sei-jogar-jogo-das-celebridades-nem-quero-1-24209398"><span style="font-weight: 400;">Carrão</span></a><span style="font-weight: 400;">, escondido por uma barba espessa e uma camada de suor que o camufla em cena, vive pela euforia do grito e da rebelião. </span><a href="https://www.youtube.com/watch?v=HRGyhfZCXGU"><span style="font-weight: 400;">Camero</span></a><span style="font-weight: 400;"> tem a sensatez aliada ao fogo da inquietação, e </span><a href="https://www.metropoles.com/entretenimento/cinema/ator-da-periferia-do-df-supera-dificuldades-e-e-destaque-em-marighella"><span style="font-weight: 400;">Paz</span></a><span style="font-weight: 400;">, o coadjuvante mais importante do longa, cultiva o medo do amanhã pela família e a destreza do hoje pela verdade e pela justiça. Quando o filme poda cada uma de suas raízes, o sentimento de amargor é sinônimo de melancolia, mas nunca de derrota.</span></p>
<figure id="attachment_24934" aria-describedby="caption-attachment-24934" style="width: 1200px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-full wp-image-24934" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/11/sete.jpg" alt="Cena do filme Marighella, mostra o ator Humberto Carrão com um jornal na mão e fumando na calçada. Ele é branco, tem barbas e cabelos volumosos e escuros e usa uma camisa estampada marrom com o botão de cima aberto." width="1200" height="667" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/11/sete.jpg 1200w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/11/sete-800x445.jpg 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/11/sete-1024x569.jpg 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/11/sete-768x427.jpg 768w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 1362px) 62vw, 840px" /><figcaption id="caption-attachment-24934" class="wp-caption-text">Embora tenha sido exibido ao mesmo tempo em que rolava a 45ª Mostra de SP, Wagner Moura disse que o filme “foi evitado” pela organização do Festival, que prezava por longas inéditos em sua programação (Foto: O2 Filmes)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">A experiência coletiva que </span><i><span style="font-weight: 400;">Marighella </span></i><span style="font-weight: 400;">aflora mora no debate, na troca de ideias e na propagação do senso de luta. Não cabe apontar o que o filme “adaptou corretamente” a história ou julgar as liberdades tomadas pela Sétima Arte. Tendo como objetivo primário funcionar dentro do gênero da ficção, </span><i><span style="font-weight: 400;">Marighella </span></i><span style="font-weight: 400;">não pinta seu protagonista como herói demais, ou vilão de menos. Seu Jorge dá vida a um </span><a href="https://www.youtube.com/watch?v=fd8oX1u8gRA"><span style="font-weight: 400;">homem repleto de falhas e sonhos</span></a><span style="font-weight: 400;">, que encontrava na agitação e na manifestação a única maneira de pregar seus ideais. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">O </span><a href="https://www.instagram.com/p/CSSlAR6rKGT/"><span style="font-weight: 400;">Cinema no Brasil</span></a><span style="font-weight: 400;">, como em qualquer outro lugar do mundo, vem munido de ideologias e comentários sociais. Mas, se quem assiste acredita que a luta pelos direitos sociais, a igualdade, o antifascismo e o </span><a href="https://www.ecycle.com.br/antirracista/"><span style="font-weight: 400;">antirracismo</span></a><span style="font-weight: 400;"> são “manobras de esquerda” ou “posições radicais de doutrinação”, o problema não está dentro das quase três horas de realização cinematográfica. </span></p>
<figure id="attachment_24935" aria-describedby="caption-attachment-24935" style="width: 768px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-full wp-image-24935" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/11/oito.jpg" alt="Cena do filme Marighella. A foto em preto e branco mostra Seu Jorge em pé e olhando para o lado, usando camisa branca." width="768" height="512" /><figcaption id="caption-attachment-24935" class="wp-caption-text">Recentemente, o <a href="https://istoe.com.br/193279_A+FARSA+NA+MORTE+DE+MARIGHELLA+/">fotógrafo Sérgio Jorge</a> realizou uma encenação da pose real de Marighella assassinado no veículo, mostrando uma versão diferente da veiculada pelos militares (Foto: O2 Filmes)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">Anos depois de dar vida a um </span><a href="https://personaunesp.com.br/cidade-de-deus-tropa-de-elite/"><span style="font-weight: 400;">Capitão Nascimento</span></a><span style="font-weight: 400;"> que se tornou bandeira de uma direita autoritária e violenta e a um </span><a href="https://www.youtube.com/watch?v=LxuIhjvhePA"><span style="font-weight: 400;">Pablo Escobar</span></a><span style="font-weight: 400;"> que caia facilmente na visão norte-americana de gato e rato, hoje Wagner Moura realiza um Cinema de ação com significado e mensagem mais delimitados. Ele não faria um filme deste calibre e com essa pegada se não fosse orgânico ao material base, como ressaltou na coletiva, definindo a obra como um híbrido de gêneros.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Extrapolando o meio-termo entre o surreal e o mundano, o filme ensurdece pelo desenho de som altíssimo e que valoriza cada caixinha da sala de cinema. Mas o absurdo tempo do corte final enfraquece uma obra que poderia chegar ao mesmo lugar (ou até a um patamar elevado) com muitos minutos a menos. Como diretor de primeira viagem, Wagner Moura faz o primordial aqui: </span><a href="https://oglobo.globo.com/cultura/marighella-ja-filme-brasileiro-mais-assistido-em-2021-apos-quatro-dias-nos-cinemas-25265660"><span style="font-weight: 400;">coloca o filme na boca do povo</span></a><span style="font-weight: 400;">, se estica para além do telão branco e se senta ao lado do espectador, plantando dúvidas, opiniões e fomentando o que o Cinema sempre se prestou a fazer, mudar perspectivas e criar sensações. </span></p>
<figure id="attachment_24936" aria-describedby="caption-attachment-24936" style="width: 800px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-full wp-image-24936" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/11/nove.png" alt="Foto da coletiva de imprensa, mostra os atores, produtores e roteiristas posando para a foto, reunidos e todos de máscara" width="800" height="450" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/11/nove.png 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/11/nove-768x432.png 768w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 984px) 61vw, (max-width: 1362px) 45vw, 600px" /><figcaption id="caption-attachment-24936" class="wp-caption-text">A coletiva de Marighella aconteceu dia 29 de outubro, no Cine Marquise da Avenida Paulista, com a presença do elenco, produtora, roteiristas e do diretor do filme (Foto: <a href="https://almapreta.com/sessao/cultura/marighella-estreia-nos-cinemas-um-filme-sobre-esperanca-diz-wagner-moura">Alma Preta</a>)</figcaption></figure>
<p><i><span style="font-weight: 400;">Marighella </span></i><span style="font-weight: 400;">é barulhento, essencialmente violento e tem em sua formação uma mensagem de motim que, sem problemas ou empecilhos, conversa com o Brasil governado por Bolsonaro mas gerido pelo caos. Vai incomodar, </span><a href="https://portalpopline.com.br/imdb-identifica-mutirao-notas-baixas-marighella/"><span style="font-weight: 400;">vai ser incomodado</span></a><span style="font-weight: 400;"> e sinaliza uma marca para o Cinema “popular”, já carregada por produções sem o mesmo alcance ou interesse da audiência. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Para efeito de comparação, no mesmo mês em que </span><i><span style="font-weight: 400;">Marighella </span></i><span style="font-weight: 400;">preencheu suas cerca de trezentas salas, </span><a href="https://www.otempo.com.br/diversao/potente-e-necessario-cabeca-de-nego-estreia-nos-cinemas-nesta-quinta-1.2558528"><i><span style="font-weight: 400;">Cabeça de Nêgo</span></i></a><span style="font-weight: 400;">, filme que também lida com questões raciais em um Brasil ebulindo, mal chegou a compor notas de rodapé. A </span><a href="https://www.omelete.com.br/filmes/marighella-cena-pos-creditos"><span style="font-weight: 400;">cena pós-créditos</span></a><span style="font-weight: 400;">, nascida de um improviso do elenco, é o clímax da paixão dos realizadores. Tomando de solavanco o hino nacional, há muito nos surrupiado, os atores colocam para fora o sentimento de nacionalismo apagado quando o assunto é comunismo, o bicho-papão do século XXI. Os guerrilheiros amavam o Brasil, Carlos Marighella amava o Brasil, </span><a href="https://aventurasnahistoria.uol.com.br/noticias/historia-hoje/wagner-moura-esclarece-cena-pos-credito-de-marighella.phtml"><span style="font-weight: 400;">Wagner Moura ama o Brasil</span></a><span style="font-weight: 400;">. </span></p>
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		<title>Dois Papas nunca salga suas feridas</title>
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		<pubDate>Tue, 07 Jan 2020 21:11:23 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Cinema]]></category>
		<category><![CDATA[Crítica]]></category>
		<category><![CDATA[Dois Papas]]></category>
		<category><![CDATA[Fernando Meirelles]]></category>
		<category><![CDATA[Netflix]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Vitor Evangelista ‘Que hino é esse que você está assobiando?’ pergunta um carrancudo Papa Bento XVI (Anthony Hopkins) ao carismático Jorge Bergoglio (Jonathan Pryce). O futuro Papa Francisco sorri ao responder, ‘é Dancing Queen, do Abba’. É nesse marasmo lírico que Fernando Meirelles decide versar sobre religião, legado e sobre desavenças. O embate ideológico entre &#8230; <a href="http://personaunesp.com.br/dois-papas-critica/" class="more-link">Continue lendo<span class="screen-reader-text"> "Dois Papas nunca salga suas feridas"</span></a></p>
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										<content:encoded><![CDATA[<figure id="attachment_13331" aria-describedby="caption-attachment-13331" style="width: 678px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-full wp-image-13331" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2019/12/1-4.jpg" alt="" width="678" height="452" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2019/12/1-4.jpg 678w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2019/12/1-4-300x200.jpg 300w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 984px) 61vw, (max-width: 1362px) 45vw, 600px" /><figcaption id="caption-attachment-13331" class="wp-caption-text">Anthony Hopkins ganhou a cultura pop na pele de Hannibal Lecter, que lhe rendeu um Oscar, e Jonathan Pryce deu vida ao Alto Pardal, em Game of Thrones (Foto: Reprodução)</figcaption></figure>
<p><b>Vitor Evangelista</b></p>
<p><i><span style="font-weight: 400;">‘Que hino é esse que você está assobiando?’</span></i><span style="font-weight: 400;"> pergunta um carrancudo Papa Bento XVI (Anthony Hopkins) ao carismático Jorge Bergoglio (Jonathan Pryce). O futuro Papa Francisco sorri ao responder,</span><i><span style="font-weight: 400;"> ‘é Dancing Queen, do Abba’</span></i><span style="font-weight: 400;">. É nesse </span><a href="https://www.cbsnews.com/news/anthony-hopkins-and-jonathan-pryce-on-playing-the-two-popes/"><span style="font-weight: 400;">marasmo lírico</span></a><span style="font-weight: 400;"> que Fernando Meirelles decide versar sobre religião, legado e sobre desavenças. O embate ideológico entre dois homens, idosos, membros da mesma Guilda. </span><i><span style="font-weight: 400;">Dois Papas</span></i><span style="font-weight: 400;"> pode ser esmiuçado e desmontado na representação de uma longa prosa, amena e chapa branca. Seria ilógico procurar na</span><i><span style="font-weight: 400;"> Netflix</span></i><span style="font-weight: 400;">, essa grande corporação que tenta agradar a todos, um estudo potente e doloroso sobre os crimes da Igreja Católica ao longo do tempo. </span></p>
<p><span id="more-13330"></span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Como figura de entretenimento e emoção de escape, </span><i><span style="font-weight: 400;">Dois Papas</span></i><span style="font-weight: 400;"> só acumula êxitos, afinal, quem não gostaria de saber o cotidiano das figuras sacras que guiam milhões de fiéis? Piadas à parte, o filme é latente ao se lambuzar em culpa. Os planos escolhidos para Meirelles dar vida aos homens de Deus reforçam um sentimento de vergonha, uma postura acuada quanto às tramas estudadas nas mais de duas horas de duração. E, mais importante que a escolha dos temas do filme, o mesmo parece tímido e acanhado quanto à maneira que opta por dedilha-los, sempre jogando no seguro, no plano comum.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">O filme toma parte, <em>a priori</em>, no momento de </span><a href="https://www.bbc.com/portuguese/noticias/2013/11/131128_analise_por_que_bento_16_renunciou_lgb"><span style="font-weight: 400;">renúncia</span></a><span style="font-weight: 400;"> de Bento XVI da figura máxima da fé católica, e sua eventual sucessão por Francisco. A renúncia de um Papa, é necessário dizer, marca um ineditismo sem tamanho nessa esfera religiosa. O precedente vem de mais de seiscentos anos atrás, e a decisão de Bento treme as bases da Igreja que, àquela época, passava por turbulências envolvendo documentos vazados, os </span><a href="http://www.ihu.unisinos.br/185-noticias/noticias-2016/557811-vatileaks-um-caso-insensato-e-embaracoso"><i><span style="font-weight: 400;">Vatileaks</span></i></a><span style="font-weight: 400;">. Esses eventos resultaram na prisão do assistente de Bento XVI, acusado de ser quem tornou público os papéis que continham crimes gravíssimos, casos relacionados a pedofilia, e tudo sob o nariz do pontífice. O caos generalizado que engoliu a figura do alemão, não restando qualquer outra jogada, senão adotar o sufixo emérito, o papa aposentado, por assim dizer.</span></p>
<figure id="attachment_13332" aria-describedby="caption-attachment-13332" style="width: 739px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-full wp-image-13332" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2019/12/2-4.jpg" alt="" width="739" height="415" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2019/12/2-4.jpg 739w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2019/12/2-4-300x168.jpg 300w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 984px) 61vw, (max-width: 1362px) 45vw, 600px" /><figcaption id="caption-attachment-13332" class="wp-caption-text">Papa Bento XVI tinha o informal apelido de ‘God’s Rottweiler’, e o filme brinca com sua fixação por um seriado protagonizado por um Pastor Alemão (Foto: Reprodução)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">Quando Jorge Bergoglio, o futuro Francisco, viaja ao Vaticano para pedir autorização de </span><a href="https://www.americamagazine.org/arts-culture/2019/11/27/two-popes-whats-fact-and-whats-fiction"><span style="font-weight: 400;">aposentadoria</span></a><span style="font-weight: 400;"> à Bento XVI, então o filme começa. Veja bem, nas leis do catolicismo, apenas cardeais com mais de 75 anos têm autorização para se afastarem do cargo, tudo assinado pelo Papa atual, é claro. Mas Jorge se vê insatisfeito com o papel que desempenha na Argentina, sua terra natal, e decide adiantar a decisão; Bento nega, veementemente, o pedido do colega. O filme se diverte aos ilustrar o personagem de Hopkins indo na contramão da figura de Pryce. O roteiro de Anthony McCarten (já falo do péssimo currículo) é singelo ao inserir uma série de piadas, momentos de quebra de tensão e, o mais impactante, falas que não parecem ter sido escritas antes. Tudo soa natural, ou melhor, desimportante, e da maneira que deve ser.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Fernando Meirelles (</span><i><span style="font-weight: 400;">Cidade de Deus</span></i><span style="font-weight: 400;">) deu esse exato direcionamento a seus astros. Entregar aquelas linhas de diálogo não como adaptações teatrais (mesmo o filme sendo, bem, </span><a href="https://www.nextbestpicture.com/latest/interview-with-the-two-popes-screenwriter-anthony-mccarten"><span style="font-weight: 400;">adaptado de uma peça</span></a><span style="font-weight: 400;">), e sim apenas dizê-las. O grande momento catarse, quando Bento coloca aos ventos sua grande decisão, é servido como uma linha qualquer. Ambos Papas estão sentados num luxuoso banco na Capela Sistina (uma réplica) e Hopkins quase arrota </span><i><span style="font-weight: 400;">‘eu vou renunciar e esse mármore está muito frio, vamos levantar’.</span></i><span style="font-weight: 400;"> McCarten modifica os usuais chavões do gênero para momentos íntimos e honestos, penteando seus temas por entre seus atores estonteantes, suas vestes sacras, cenários primorosos e a censura de 14 anos que acompanha a exibição do filme.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Encontrar em </span><i><span style="font-weight: 400;">Dois Papas</span></i><span style="font-weight: 400;"> um roteiro que, dentro de suas imposições, consiga arredondar a trama, é um feito curioso. Levando em consideração as contribuições de Anthony McCarten para a Sétima Arte, poderia se esperar o pior. Além da crônica sobre os papas, ele escreveu o abominável </span><i><span style="font-weight: 400;">A Teoria de Tudo (2014)</span></i><span style="font-weight: 400;">, o ‘tão-ruim-que-dói’ </span><a href="http://personaunesp.com.br/churchill-e-lingua-inglesa/"><i><span style="font-weight: 400;">O Destino de uma Nação (2017)</span></i></a><span style="font-weight: 400;"> e o crime hediondo em forma de película digital </span><a href="http://personaunesp.com.br/bohemian-rhapsody-critica/"><i><span style="font-weight: 400;">Bohemian Rhapsody (2018)</span></i></a><span style="font-weight: 400;">. Pelo menos sua última investida foi com temas religiosos, tendo em vista o passado recente, apenas com um exorcismo McCarten se livrará desses fantasmas. </span></p>
<figure id="attachment_13333" aria-describedby="caption-attachment-13333" style="width: 739px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-full wp-image-13333" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2019/12/3-4.jpg" alt="" width="739" height="415" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2019/12/3-4.jpg 739w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2019/12/3-4-300x168.jpg 300w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 984px) 61vw, (max-width: 1362px) 45vw, 600px" /><figcaption id="caption-attachment-13333" class="wp-caption-text">Dois Papas dá a chance de Fernando Meirelles retornar às premiações, após Cidade de Deus e O Jardineiro Fiel; ele também dirigiu Ensaio sobre a Cegueira (Foto: Reprodução)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">Mesmo que o papel de antagonistas morais dos Papas soe preguiçoso a um filme com tamanho calibre, o charme das performances desmorona as personas reais pintadas ali. Nota para dois fatores interessantes à equação: primeiro, a agência católica </span><i><span style="font-weight: 400;">ACI Prensa</span></i><span style="font-weight: 400;"> foi sucinta</span><i><span style="font-weight: 400;"> ‘o filme não representa Bento e Francisco’</span></i><span style="font-weight: 400;">; e, segundo, Meirelles </span><a href="https://filmow.com/fernando-meirelles-a65819/"><span style="font-weight: 400;">suavizou</span></a><span style="font-weight: 400;"> a figura de Bento, alegando que seu retrato é mais brando que a realidade, tudo devido ao magnetismo e a presença de cena do monstro Anthony Hopkins. O ator compartilha a velha idade com seu Joseph Ratzinger, o nome de batismo do alemão que veio a renunciar o Papado em 2013. O ator busca ir além do cinismo e da carranca de seu personagem, mesmo que seu norte sempre se volte à iminente negação de qualquer progresso para as doutrinas da Igreja. Ora ou outra o bom povo do Vaticano adora se referir a ele como nazista, esboçando assim um descontentamento com a maneira que ele decidia guiar a Fé.  </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">No outro lado da moeda, Jonathan Pryce reluz simpatia e floresce benevolência, sempre numa primeira camada. O filme faz questão de se posicionar junto à Francisco, seus traumas, pecados e arrependimentos, mas nunca realmente descascando o homem por baixo da batina. Uma porção de</span><i><span style="font-weight: 400;"> flashbacks</span></i><span style="font-weight: 400;"> que revisitam a Ditadura na Argentina são base para as decisões que Jorge Bergoglio tomou, mas o filme parece letrado demais para chocar ou mesmo emocionar com os relatos temerosos do século passado. Fernando Meirelles colocou na balança o impacto dos </span><a href="https://www.goldderby.com/article/2019/fernando-meirelles-the-two-popes-director-netflix-video-interview-transcript/"><span style="font-weight: 400;">regimes autoritários</span></a><span style="font-weight: 400;"> na América Latina e pavimentou as cenas da juventude do futuro Papa com certo grau de cautela, novamente obedecendo a doutrina maior da grande rede corporativa que bancou os cheques de </span><i><span style="font-weight: 400;">Dois Papas.</span></i></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Até as paixões de cada Papa ressoam batidas. O clássico Bento XVI é apaixonado por piano, mas não conhece as músicas dos </span><i><span style="font-weight: 400;">Beatles</span></i><span style="font-weight: 400;"> e ama Fanta Laranja. Francisco é fanático por </span><a href="https://www.bbc.com/portuguese/geral-50935149"><span style="font-weight: 400;">futebol</span></a><span style="font-weight: 400;">, torce pro </span><i><span style="font-weight: 400;">San Lorenzo</span></i><span style="font-weight: 400;">, além de dançar tango por diversão. Em momento algum </span><i><span style="font-weight: 400;">Dois Papas</span></i><span style="font-weight: 400;"> se preocupa em cantar notas fora de sua acústica. Mesmo a arrojada direção de Meirelles, aliada à montagem de Fernando Stutz, se complementa como escolha puramente estética. Ou que, pior ainda, não concretiza suas funções pré-definidas na sala de roteiro. A sobreposição de imagens, cortes rápidos e tortos, excesso de </span><i><span style="font-weight: 400;">closes</span></i><span style="font-weight: 400;">, todas delimitações que, como filme, parecem se envergonhar da bússola que dá as diretrizes. Passando desapercebidas, toda a orquestra cinematográfica do longa se transmuta numa postura cabisbaixa, ciente de pisar na bola. A humanização das figuras quase divinas debatendo Deus e o mundo não passa do parágrafo seguinte, mesmo com a ironia do roteirista ter escrito diálogos que ultrapassaram doze páginas.</span></p>
<figure id="attachment_13334" aria-describedby="caption-attachment-13334" style="width: 739px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-full wp-image-13334" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2019/12/4-3.jpg" alt="" width="739" height="415" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2019/12/4-3.jpg 739w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2019/12/4-3-300x168.jpg 300w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 984px) 61vw, (max-width: 1362px) 45vw, 600px" /><figcaption id="caption-attachment-13334" class="wp-caption-text">O filme tem ares documentais, mas uma boa parcela do enredo toma parte em fins ficcionais, como por exemplo a conversa dos Papas sobre a renúncia (Foto: Reprodução)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">Nos momentos que o filme vira o volante para temas e assuntos delicados, a corda do ônibus é puxada e somos tirados dali. Numa rasteira sem medo ou cuidado, </span><i><span style="font-weight: 400;">Dois Papas</span></i><span style="font-weight: 400;"> prefere deixar muda a sequência que Bento XVI confessa os crimes de pedofilia de seus cardeais. A trilha sobe, as palavras somem e um zumbido desconfortável toma conta da tela, ao passo que Francisco ouve em choque as barbáries da Igreja. Ele escuta, repreende e perdoa o Santo Papa, atitude essa que não será duplicada pelo público, na sarjeta da dramaturgia e da arte, especulando o óbvio que, mesmo nesse papel, foi covardemente silenciado.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Questões como o aborto e a comunidade </span><i><span style="font-weight: 400;">LGBT</span></i><span style="font-weight: 400;"> são varridos pro canto da Capela Sistina em diálogos que buscam muito mais a quebra pelo humor do que a construção de drama e peso às palavras. Todas essas </span><a href="https://www.bbc.com/portuguese/geral-50924694"><span style="font-weight: 400;">escolhas</span></a><span style="font-weight: 400;"> refletem na cinematografia de César Charlone, que filma receoso e encolhido as belíssimas construções do Vaticano. A óptica pendendo para Francisco é testemunha do retrato que a cidade ganha. Por essas e outras e por mais estranho que pareça, </span><i><span style="font-weight: 400;">Dois Papas</span></i><span style="font-weight: 400;"> não é um filme ativamente religioso. Esse posto da película de 2019 que se preocupa em vangloriar o sagrado e o ouro de Deus acaba caindo no colo de </span><a href="http://personaunesp.com.br/o-irlandes-critica/"><i><span style="font-weight: 400;">O Irlandês</span></i></a><span style="font-weight: 400;"> e sua visão quase divina da Máfia.</span></p>
<figure id="attachment_13335" aria-describedby="caption-attachment-13335" style="width: 678px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-full wp-image-13335" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2019/12/5-2.jpg" alt="" width="678" height="452" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2019/12/5-2.jpg 678w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2019/12/5-2-300x200.jpg 300w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 984px) 61vw, (max-width: 1362px) 45vw, 600px" /><figcaption id="caption-attachment-13335" class="wp-caption-text">Dois Papas abocanhou 4 indicações ao Globo de Ouro, incluindo Melhor Filme de Drama (Foto: Reprodução)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">Num cenário como o desse ano, com filmes que debatem a euforia da sociedade renegada (</span><a href="http://personaunesp.com.br/parasita-critica/"><i><span style="font-weight: 400;">Parasita</span></i></a><span style="font-weight: 400;">, </span><a href="http://personaunesp.com.br/bacurau-critica/"><i><span style="font-weight: 400;">Bacurau</span></i></a><span style="font-weight: 400;">), outros que buscam estudar o legado e o futuro incerto (</span><a href="http://personaunesp.com.br/dor-e-gloria-critica/"><i><span style="font-weight: 400;">Dor e Glória</span></i></a><span style="font-weight: 400;">, </span><a href="http://personaunesp.com.br/era-uma-vez-em-hollywood-critica/"><i><span style="font-weight: 400;">Era Uma Vez em… Hollywood</span></i></a><span style="font-weight: 400;">) e mais alguns que se dedicam ao espelho do amor e da perda (</span><i><span style="font-weight: 400;">Retrato de uma Jovem em Chamas</span></i><span style="font-weight: 400;">, </span><i><span style="font-weight: 400;">Jojo Rabbit</span></i><span style="font-weight: 400;">), </span><i><span style="font-weight: 400;">Dois Papas</span></i><span style="font-weight: 400;"> se define na base da </span><a href="https://www.enzasbargains.com/the-two-popes-movie-quotes/"><span style="font-weight: 400;">evolução</span></a><span style="font-weight: 400;"> e do autocuidado. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Uma produção rica em temas e execução mas infelizmente amordaçada com a corrente do ‘agradável’ à grande massa. Fernando Meirelles certifica seu talento para narrar histórias sobre o caráter do homem, ainda que para isso ele invista ora numa </span><a href="http://personaunesp.com.br/cidade-de-deus-tropa-de-elite/"><span style="font-weight: 400;">favela carioca</span></a><span style="font-weight: 400;">, ora em dois idosos católicos. O cinema brasileiro respira, mesmo no continente dos ianques.</span></p>
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