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	<title>Arquivos Fascinação &#8211; Persona | Jornalismo Cultural</title>
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	<description>Desde 2015 provando que a distância entre Bergman, Lady Gaga e a novela das 9 nem existe.</description>
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		<title>45 anos de Falso Brilhante: a vida de Elis Regina é a nossa joia mais preciosa</title>
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		<pubDate>Wed, 17 Mar 2021 20:06:26 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p>Raquel Dutra O legado na música brasileira não é o suficiente para eu me conformar. Vez ou outra, ainda me pergunto como é que alguém conseguiu convencer o sofrido povo brasileiro de que “viver é melhor que sonhar”. O sentido ensaia desenhar-se segundos depois, quando eu me lembro que quem cantou isso foi a sonhadora &#8230; <a href="http://personaunesp.com.br/falso-brilhante-45-anos/" class="more-link">Continue lendo<span class="screen-reader-text"> "45 anos de Falso Brilhante: a vida de Elis Regina é a nossa joia mais preciosa"</span></a></p>
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										<content:encoded><![CDATA[<figure id="attachment_19092" aria-describedby="caption-attachment-19092" style="width: 840px" class="wp-caption alignnone"><img fetchpriority="high" decoding="async" class="size-large wp-image-19092" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/03/EaEvgYJX0AIk89R-1024x819.jpg" alt="Fotografia de Elis Regina apresentando seu espetáculo Falso Brilhante. A artista está ao centro da imagem, numa passarela, cercada pelo público. Ela está de frente para a câmera mas contra a luz, que impede de exergarmos seu rosto. Ela segura uma bandeira grande na mão direita e um microfone na mão esquerda. Elis usa um vestido lingo, branco, de alças finas e estampado por estrelas prateadas. Ela também usa uma chapéu com uma pena grande e seus cabelos são curtos. A fotografia está colorida em tons de amarelo e um cinza azulado." width="840" height="672" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/03/EaEvgYJX0AIk89R-1024x819.jpg 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/03/EaEvgYJX0AIk89R-300x240.jpg 300w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/03/EaEvgYJX0AIk89R-768x614.jpg 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/03/EaEvgYJX0AIk89R.jpg 1200w" sizes="(max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 1362px) 62vw, 840px" /><figcaption id="caption-attachment-19092" class="wp-caption-text">O disco que nasceu do espetáculo sobre a vida de Elis Regina é considerado um dos mais importantes da música brasileira e da carreira da artista (Foto: Reprodução)</figcaption></figure>
<p><b>Raquel Dutra</b></p>
<p><span style="font-weight: 400;">O legado na música brasileira não é o suficiente para eu me conformar. Vez ou outra, ainda me pergunto como é que alguém conseguiu convencer o sofrido povo brasileiro de que “</span><i><span style="font-weight: 400;">viver é melhor que sonhar</span></i><span style="font-weight: 400;">”. O sentido ensaia desenhar-se segundos depois, quando eu me lembro que quem cantou isso foi a sonhadora que é a concretização da ideia mais pura e completa do que pode vir a ser a vida. Mas mesmo assim, ainda é instigante, já que ela, em toda sua grandiosidade e relevância, ainda acrescenta que “</span><i><span style="font-weight: 400;">qualquer canto é menor do que a vida de qualquer pessoa</span></i><span style="font-weight: 400;">”.  </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Quer profundidade mais condizente com a maior artista do Brasil do que a que ela mesma cria na obra que conta a sua história de vida, realiza seus maiores </span><a href="https://www.letras.com/elis-regina/1012329/"><span style="font-weight: 400;">sonhos</span></a><span style="font-weight: 400;"> e desmistifica sua própria arte? Muito significado, muita intensidade e muita pulsão de vida: assim foi <a href="http://www.elisregina.com.br/index.php">Elis Regina</a>, e assim foi </span><a href="http://enciclopedia.itaucultural.org.br/obra70098/falso-brilhante"><i><span style="font-weight: 400;">Falso Brilhante</span></i></a><i><span style="font-weight: 400;">, </span></i><span style="font-weight: 400;">cuja riqueza era autoexplicativa em 1976 e assim permanece até os dias de hoje &#8211; e muito provavelmente, assim será por todo o resto da nossa história.</span></p>
<p><span id="more-19091"></span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Há 45 anos, o disco é responsável por confirmar a preciosidade da artista e abrigar algumas das canções mais atemporais da música brasileira. Considerado um dos álbuns mais importantes dentre todas as coletâneas mais maravilhosas que um dia já surgiram dos nossos artistas, <em>Falso Brilhante</em> é também a obra mais relevante da vasta discografia e carreira de Elis.</span></p>
<figure id="attachment_19093" aria-describedby="caption-attachment-19093" style="width: 564px" class="wp-caption alignnone"><img decoding="async" class="size-full wp-image-19093" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/03/71e3d578aecd93c7294f248ddc7377e8.jpg" alt="Fotografia de Elis Regina no espetáculo Falso Brilhante. Na imagem, a artista segura uma barra com as mãos e parece estar pendurada. Ela olha para baixo, com os olhos quase fechados, e veste uma roupa branca. " width="564" height="660" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/03/71e3d578aecd93c7294f248ddc7377e8.jpg 564w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/03/71e3d578aecd93c7294f248ddc7377e8-256x300.jpg 256w" sizes="(max-width: 564px) 85vw, 564px" /><figcaption id="caption-attachment-19093" class="wp-caption-text">Quando questionada sobre o conceito do espetáculo, Elis afirmava com certeza: “Não há brilhante mais falso que a vida de artista” (Foto: Reprodução)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">O projeto </span><i><span style="font-weight: 400;">Falso Brilhante</span></i><span style="font-weight: 400;"> nasceu no coração e mente de Elis misturando influências circenses com a sua história de vida e uma carga política sagaz em plena <a href="http://memoriasdaditadura.org.br/">ditadura militar</a>. Ainda bem, a pisciana nunca teve medo de apostar em seus sonhos e nas ideias mirabolantes que surgiam dos seus botões de artista. Ela investiu tudo o que tinha, armou o circo e colocou no mundo um <a href="https://www.looke.com.br/filmes/elis-regina-falso-brilhante">espetáculo grandioso</a>, que permaneceu em cartaz no Teatro Bandeirante na cidade de São Paulo entre dezembro de 1975 e fevereiro de 1977, em mais de 300 apresentações apreciadas por cerca de 280 mil pessoas, que ocupavam as mil cadeiras do teatro de quarta à domingo.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">O ponto chave não era o conteúdo em si, já que a estrela havia crescido junto com o Brasil e <a href="https://elainectimm.medium.com/elis-regina-o-sentimento-entre-as-notas-6e12cfe4549">sua história</a>, origem humilde e percalços até engatar a carreira eram de conhecimento do público tanto quanto suas mais bem-sucedidas canções. Para contar sua trajetória em </span><i><span style="font-weight: 400;">Falso Brilhante</span></i><span style="font-weight: 400;">, Elis foi além. Não buscando uma narrativa de ascensão e realização plena de sonhos, mas subvertendo as expectativas e obviedades para ser, como sempre, verdadeira com o que sentia. E naquele momento, a dimensão sensível da artista era tomada pela decepção. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Como todo fenômeno conduzido por uma alma vivaz, a relevância de </span><i><span style="font-weight: 400;">Falso Brilhante</span></i><span style="font-weight: 400;">, que ainda tinha a direção cênica de <a href="http://enciclopedia.itaucultural.org.br/pessoa109259/myrian-muniz">Myriam Muniz</a> e musical de seu esposo, o pianista <a href="https://www.cesarcamargomariano.com/biografia/">Cesar Camargo Mariano</a>, superou todas as expectativas e transcendeu qualquer rotulação possível. O que de início tratava sobre os sentimentos pessoais de Elis quanto ao país e sua profissão se tornou um registro histórico e denunciante da situação do artista brasileiro e da sociedade como um todo da década de 70, que ainda sentia o reverberar dos <a href="https://www.camara.leg.br/radio/programas/279778-periodo-da-historia-do-brasil-conhecido-como-os-anos-de-chumbo/#:~:text=Nos%20%C3%BAltimos%20anos%20da%20d%C3%A9cada,chamados%20%22anos%20de%20chumbo%22.">anos de chumbo</a> do regime militar. </span></p>
<figure id="attachment_19094" aria-describedby="caption-attachment-19094" style="width: 840px" class="wp-caption alignnone"><img decoding="async" class="size-large wp-image-19094" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/03/capa-do-disco-e1616005157699-1024x509.jpg" alt="Capa e contracapa do disco Falso Brilhante, de Elis Regina. A imagem tem o fundo amarelo suave e é decorada por arabescos e pequenos elefantes, ilustrações com referências circenses que contornam a imagem. No lado direito, que compõe a capa do disco, está escrito o nome da artista em fonte circense colorida em branco e vermelho, em caixa alta. Embaixo do nome de Elis, está o nome do disco, numa fonte mais fina ainda clássica e em caixa alta, em preto. No lado esquerdo, que é a contracapa, existe uma ilustração de uma boneca segurando um ovo grande ao centro. Na lateral esquerda, pequeno, está a lista das músicas do disco." width="840" height="418" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/03/capa-do-disco-e1616005157699-1024x509.jpg 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/03/capa-do-disco-e1616005157699-300x149.jpg 300w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/03/capa-do-disco-e1616005157699-768x382.jpg 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/03/capa-do-disco-e1616005157699-1536x764.jpg 1536w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/03/capa-do-disco-e1616005157699-1200x597.jpg 1200w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/03/capa-do-disco-e1616005157699.jpg 1920w" sizes="(max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 1362px) 62vw, 840px" /><figcaption id="caption-attachment-19094" class="wp-caption-text">O nome do projeto foi retirado do bolero Dois Pra Lá, Dois Pra Cá, letra de Aldir Blanc famosa na voz de Elis que nada tinha a ver com a temática que a artista queria explorar, mas caiu como uma luva (Foto: Reprodução)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">O </span><i><span style="font-weight: 400;">show</span></i><span style="font-weight: 400;"> era impossível de se parar, e quando a ideia de registrar parte do repertório de </span><i><span style="font-weight: 400;">Falso Brilhante</span></i><span style="font-weight: 400;"> em estúdio surgiu, o tempo que Elis e sua equipe encontraram para gravar e </span><i><span style="font-weight: 400;">mixar </span></i><span style="font-weight: 400;">o disco foi um dos intervalos de folga das exibições, com a produção de <a href="https://www.correiobraziliense.com.br/app/noticia/diversao-e-arte/2011/08/21/interna_diversao_arte,266412/marco-mazzola-o-homem-que-testemunhou-e-fez-acontecer-a-historia-da-mpb.shtml">Marcos Mazzola</a>. E a aura do disco é especial desde sua mais inicial concepção. Gravado sob a produção entre as apresentações do espetáculo, o álbum tem o gosto raro da energia de Elis nos palcos. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Um dos maiores triunfos acaba por ser também um dos seu único defeitos. A rotina pesada do </span><i><span style="font-weight: 400;">show</span></i><span style="font-weight: 400;"> obviamente desgastou a artista e a disposição da banda, e é por isso que, numa análise unicamente técnica, o álbum é considerado inferior às obras anteriores &#8211; o maravilhoso </span><a href="https://open.spotify.com/album/3SE9n6EaVOJ81KA1KPLUWS?si=3fIdrnp4SgW9NVT1hdow6g"><i><span style="font-weight: 400;">Elis &amp; Tom</span></i></a><span style="font-weight: 400;">, de 1974 &#8211; e posteriores &#8211; o memorável </span><a href="https://open.spotify.com/album/67UdOjU4vLZx8yoHgXkNes?si=7IGHsz2VTSqsJGm9cKZDqg"><i><span style="font-weight: 400;">Elis</span></i></a><span style="font-weight: 400;">, de 1977, que carrega a canção que inspirou seu próximo espetáculo, </span><a href="http://enciclopedia.itaucultural.org.br/obra67781/transversal-do-tempo"><i><span style="font-weight: 400;">Transversal do Tempo</span></i></a><span style="font-weight: 400;">.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">O repertório também estava longe de ser leviano e exigia tudo e mais um pouco da artista. As 42 canções do </span><i><span style="font-weight: 400;">show</span></i><span style="font-weight: 400;"> dividiam-se em dois atos, passeando entre diferentes gêneros, tons, arranjos, </span><i><span style="font-weight: 400;">performances</span></i><span style="font-weight: 400;"> e línguas. Para o disco, a lista se condensou em 10 canções escolhidas a dedo para resumir perfeitamente o que era a ideia e execução de </span><i><span style="font-weight: 400;">Falso Brilhante</span></i><span style="font-weight: 400;">, contando ainda com algumas inéditas. Delas, surgem cantos de amor e versos apaixonados, protestos políticos, hinos de resistência evocando irmandade e expressões de sonhos e idealismo, ritmados no </span><i><span style="font-weight: 400;">samba</span></i><span style="font-weight: 400;">, </span><i><span style="font-weight: 400;">bolero</span></i><span style="font-weight: 400;"> e </span><i><span style="font-weight: 400;">rock</span></i><span style="font-weight: 400;"> e interpretados em português e espanhol.</span></p>
<figure id="attachment_19095" aria-describedby="caption-attachment-19095" style="width: 540px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-full wp-image-19095" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/03/Elis.jpg" alt="Fotografia de Elis Regina apresentando seu espetáculo Falso Brilhante. A artista está ao centro da imagem, ajoelhada no palco, segurando um microfone com a mão esquerda e esticando a direita para o lado. Elis olha para baixo, usando um chapéu com uma pena e um vestido branco estampado por estrelas prateadas. Ao fundo, é possível observar parte do cenário do show desfocado. A imagem está em preto e branco e Elis é iluminada por um foco de luz." width="540" height="525" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/03/Elis.jpg 540w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/03/Elis-300x292.jpg 300w" sizes="auto, (max-width: 540px) 85vw, 540px" /><figcaption id="caption-attachment-19095" class="wp-caption-text">Reza a lenda que quando os músicos e demais profissionais envolvidos no show, preocupados com Elis, alertaram-na sobre os riscos de forçar tanto as cordas vocais, ela respondeu: “Não se preocupe, não é a voz que canta” (Foto: Reprodução)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">O primeiro contato que </span><i><span style="font-weight: 400;">Falso Brilhante</span></i><span style="font-weight: 400;"> estabelece com o ouvinte já é irresistível de tamanha honra. Com o grande prazer que é ser chamado de “</span><i><span style="font-weight: 400;">meu grande amor</span></i><span style="font-weight: 400;">” por Elis Regina, somos convidados ao disco com uma das últimas músicas da </span><i><span style="font-weight: 400;">setlist</span></i><span style="font-weight: 400;"> do </span><i><span style="font-weight: 400;">show</span></i><span style="font-weight: 400;"> que se encaixa perfeitamente em sua abertura. “</span><i><span style="font-weight: 400;">Não quero lhe falar (…) /Das coisas que aprendi nos discos/Quero lhe falar como eu vivi/E tudo que aconteceu comigo</span></i><span style="font-weight: 400;">”, ela explica suas intenções com o projeto sob um acordes de um violão calmo e certeiro. Estamos na inconfundível </span><a href="https://genius.com/Elis-regina-como-nossos-pais-lyrics"><i><span style="font-weight: 400;">Como Nossos Pais</span></i></a><span style="font-weight: 400;">.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Não existe nada mais especial do que ser apresentado à obra da vida de Elis Regina &#8211; em todos os sentidos possíveis da expressão &#8211; do que através da canção que é uma das mais marcantes de sua carreira e de toda a história da música brasileira. Escrita por <a href="https://enciclopedia.itaucultural.org.br/pessoa101849/belchior">Belchior</a>, o gênio que ela descobriu e impulsionou, a canção fez história na interpretação da artista, que externalizava suas maiores desilusões numa universalidade e identificação que só pode ser atingida pelo artista que é tomado de sinceridade e coragem.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Aqui, já é possível concluir a adoração que a artista mantinha pela vida &#8211; a sua, a do próximo, da arte, da música e do Brasil. A Elis refletida em </span><i><span style="font-weight: 400;">Falso Brilhante</span></i><span style="font-weight: 400;"> é assim, fincada no presente, sempre visionária e nunca nostálgica. Seu inferno era o passado e o retrocesso, como ela continua a confessar “</span><i><span style="font-weight: 400;">Minha dor é perceber/Que apesar de termos feito tudo o que fizemos/Ainda somos os mesmos/E vivemos (…)Como os nossos pais</span></i><span style="font-weight: 400;">” em um dos versos mais conhecidos e atemporais da música brasileira.</span></p>
<div class="jetpack-video-wrapper"><iframe loading="lazy" title="Elis Regina - Como Nossos Pais" width="840" height="630" src="https://www.youtube.com/embed/2qqN4cEpPCw?feature=oembed" frameborder="0" allow="accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share" referrerpolicy="strict-origin-when-cross-origin" allowfullscreen></iframe></div>
<p><span style="font-weight: 400;">Da sua maior paixão nasce seu maior protesto, residente nos versos mais marcantes de </span><i><span style="font-weight: 400;">Falso Brilhante</span></i><span style="font-weight: 400;">. A artista que não chegou a viver seu futuro ousava vislumbrá-lo e pregar as possibilidades como forma de incentivar as pessoas a enfrentarem a situação do país e jamais se curvarem diante dela. “</span><i><span style="font-weight: 400;">Mas é você que ama o passado e que não vê (&#8230;)/Que o novo sempre vem”</span></i><span style="font-weight: 400;">, </span><i><span style="font-weight: 400;">“Vejo vir vindo no vento o cheiro da nova estação”</span></i><span style="font-weight: 400;"> e demais profecias esperançosas era o que mais se ouvia da obra da vida de Elis. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Tudo continua em </span><a href="https://genius.com/Elis-regina-velha-roupa-colorida-lyrics"><i><span style="font-weight: 400;">Velha Roupa Colorida</span></i></a><span style="font-weight: 400;">, mais uma composição de Belchior que decolou na voz da artista. Desafiada por um arranjo numa escala um pouco mais alta que o comum e com os vocais já arranhados da rotina intensa dos espetáculos, a <em>Pimentinha </em>canta com rouquidão “</span><i><span style="font-weight: 400;">Você não sente, não vê/Mas eu não posso deixar de dizer, meu amigo/ Que uma mudança em breve/Vai acontecer</span></i><span style="font-weight: 400;">” em um dos </span><i><span style="font-weight: 400;">rocks</span></i><span style="font-weight: 400;"> de </span><i><span style="font-weight: 400;">Falso Brilhante</span></i><span style="font-weight: 400;">. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Mudanças essas que se não acontecessem por si só, ela fazia acontecer, como foi com a sua existência vasta embora curta no planeta Terra e com </span><i><span style="font-weight: 400;">Falso Brilhante</span></i><span style="font-weight: 400;">. Elis ia atrás do novo. <a href="https://personaunesp.com.br/elis-viver-e-melhor-que-sonhar-critica/">Inaugurar</a> gêneros, </span><a href="https://www.youtube.com/watch?v=f0uOI__Gno8"><span style="font-weight: 400;">descobrir</span></a><span style="font-weight: 400;"> artistas, </span><a href="https://www.youtube.com/watch?v=ghUnVxgXvus"><span style="font-weight: 400;">impulsionar</span></a><span style="font-weight: 400;"> carreiras… Sua potência criativa já era conhecida e fascinante, então, quando ela propôs inverter a lógica do mercado musical &#8211; que primeiro pensava no disco e depois nos </span><i><span style="font-weight: 400;">shows</span></i><span style="font-weight: 400;"> e não o contrário, como ela fez ao arquitetar primeiro o espetáculo sem ter um material sonoro em processo de divulgação &#8211; o público, ou melhor dizendo, </span><i><span style="font-weight: 400;">o grande amor de Elis</span></i><span style="font-weight: 400;">, comprou a ideia de imediato. Juntos, eles transformaram o projeto sobre a sua vida no sucesso que foi, um recorde de bilheteria e até hoje <a href="https://genius.com/albums/Elis-regina/Falso-brilhante">o maior espetáculo do Brasil</a>. </span></p>
<figure id="attachment_19097" aria-describedby="caption-attachment-19097" style="width: 686px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="wp-image-19097 size-full" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/03/3482d60b372fe1c45bc9c88659fde7c7.jpg" alt="Fotografia de Elis Regina apresentando seu espetáculo Falso Brilhante. Na imagem, ela está à direita, sorridente e fantasiada de Carmem Miranda, com um adereço de frutas na cabeça. Ela veste uma outra fantasia junto com um de seus bailarinos, que está à sua frente, à esquerda da imagem. Eles estão de lado e a fotografia é em preto e branco." width="686" height="472" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/03/3482d60b372fe1c45bc9c88659fde7c7.jpg 686w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/03/3482d60b372fe1c45bc9c88659fde7c7-300x206.jpg 300w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 984px) 61vw, (max-width: 1362px) 45vw, 600px" /><figcaption id="caption-attachment-19097" class="wp-caption-text">“No presente, a mente, o corpo é diferente/E o passado é uma roupa/Que não nos serve mais” (Foto: Reprodução)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">Ecoar sua verdade, denúncias, coragem, história e pulsão de vida pelo Brasil inteiro ainda não saciava a sede de justiça e de verdade de Elis. Enxergando a amplitude e complexidade da <a href="http://memoriasdaditadura.org.br/sequencias-didaticas/ditaduras-militares-na-america-sul/">situação política da América Latina</a> naquele momento, ela sentiu a dor dos outros países que também vivam um dos momentos mais sombrios de suas histórias protagonizadas por regimes militares através de </span><a href="https://genius.com/Elis-regina-los-hermanos-lyrics"><i><span style="font-weight: 400;">Los Hermanos</span></i></a><span style="font-weight: 400;">, a primeira das canções em espanhol de </span><i><span style="font-weight: 400;">Falso Brilhante</span></i><span style="font-weight: 400;">. Nela, a artista veste um </span><i><span style="font-weight: 400;">flamenco</span></i><span style="font-weight: 400;"> cheio de identidade da resistência popular latino-americana e canta com sua força característica pelos muitos irmãos que se perdiam entre a repressão, exílio e a morte.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">No português, Elis disse o que tinha que dizer em </span><a href="https://genius.com/Elis-regina-um-por-todos-lyrics"><i><span style="font-weight: 400;">Um Por Todos</span></i></a><span style="font-weight: 400;">. Além de incentivar a união que a sociedade brasileira e a classe artística tanto precisavam exercitar naquele momento, ela também reconhecia o fatídico dia em que <a href="https://globoplay.globo.com/v/7289328/">sucumbiu ao medo</a> e abaixou a cabeça para a ditadura militar. Ligando isso com a decepção da vida de artista que é o tema central de </span><i><span style="font-weight: 400;">Falso Brilhante</span></i><span style="font-weight: 400;">, ela canta quase em tom de confissão e arrependimento: “</span><i><span style="font-weight: 400;">Eu te conheço, sei o preço da fama/E não esqueço/Que deitei em tua cama, em teu berço/Eu sei teu preço, eu te conheço”</span></i><span style="font-weight: 400;"> e revela a forma como lidou com seus próprios erros, reconhecendo sua responsabilidade e o apoio que encontrou: “</span><i><span style="font-weight: 400;">Lavo as mãos e prossigo adiante/Eu por mim mesma/Todos por mim”.</span></i></p>
<figure id="attachment_19096" aria-describedby="caption-attachment-19096" style="width: 650px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="wp-image-19096" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/03/18218_show-falso-brilhante-1976-acervo-pessoal.jpeg" alt="Fotografia de Elis Regina apresentando seu espetáculo Falso Brilhante. Na imagem, a artista está de lado, segurando uma bandeira com a mão direita virada para trás, e um microfone com a mão esquerda. Ela também usa um vestido branco estampado com estrelas prateadas e um chapéu com uma pena. O fundo da imagem é escuro e está em preto e branco." width="650" height="433" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/03/18218_show-falso-brilhante-1976-acervo-pessoal.jpeg 500w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/03/18218_show-falso-brilhante-1976-acervo-pessoal-300x200.jpeg 300w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 984px) 61vw, (max-width: 1362px) 45vw, 600px" /><figcaption id="caption-attachment-19096" class="wp-caption-text">“Nos perdemos pelo mundo/Voltamos a nos encontrar/E assim nos reconhecemos/Pelo longínquo olhar/Pelas estrofes que mordemos/Sementes de imensidão/E assim seguimos andando/Habituados à solidão/E em nós nossos mortos/Para que ninguém fique para trás” (Foto: Reprodução)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">A arte de Elis sentia tanto a vida e enxergava a realidade com tanta lucidez que, às vezes, sua criadora precisava escapar. E ciente de seu inferno, ela também sabia muito bem como era o seu paraíso, dividindo as paisagens dos seus sonhos em </span><a href="https://genius.com/Elis-regina-quero-lyrics"><i><span style="font-weight: 400;">Quero</span></i></a><span style="font-weight: 400;">. Guiada por flautas doces e coros suaves, a artista flutua na imaginação dos seus desejos, construídos em “</span><i><span style="font-weight: 400;">um mundo sem portas ou vidraças”</span></i><span style="font-weight: 400;"> e com “</span><i><span style="font-weight: 400;">floresta no lugar da cidade”</span></i><span style="font-weight: 400;">, incluindo “</span><i><span style="font-weight: 400;">beijar a face da lua”</span></i><span style="font-weight: 400;"> e acabar com tudo de ruim ao “</span><i><span style="font-weight: 400;">cobrir com flores campos de aço”</span></i><span style="font-weight: 400;">. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Nem toda a vida e fisicalidade do mundo era o suficiente para Elis. Ela precisava atingir o que estava além, e dentro das canções oníricas, ela também criava algo a mais e desenhava algo muito belo sobre as almas sonhadoras. As imaginações de </span><i><span style="font-weight: 400;">Falso Brilhante</span></i><span style="font-weight: 400;"> abraçam uma imensidão de pessoas que não são menos determinadas, corajosas ou firmes por ousar ir além da realidade, e </span><a href="https://genius.com/Elis-regina-o-cavaleiro-e-os-moinhos-lyrics"><i><span style="font-weight: 400;">O Cavaleiro E Os Moinhos</span></i></a><span style="font-weight: 400;"> comprova a tese. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">A composição dos consagradíssimos <a href="https://brasil.elpais.com/cultura/2020-05-04/aldir-blanc-compositor-de-grandes-hinos-da-luta-contra-a-ditadura-brasileira-morre-pelo-coronavirus.html">Aldir Blanc</a> e <a href="http://www.joaobosco.com.br/">João Bosco</a>, dupla frequente na música de Elis Regina, é um retrato de quem está pronto para ir à luta pela revolução porque já imaginou como tudo vai ser. Exaltando a capacidade de olhar além e imaginar o futuro, a artista defende a relevância do ser sonhador, que consiste, como ela mesma bem representou, em contar as possibilidades para as outras pessoas, torná-lo um pouco mais palpável e assim, motivar a luta por ele.</span></p>
<figure id="attachment_19098" aria-describedby="caption-attachment-19098" style="width: 463px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-full wp-image-19098" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/03/bd12c2110d3b5c93fb88607dd1b77ae2.jpg" alt="Fotografia de Elis Regina apresentando seu espetáculo Falso Brilhante. Na imagem, a artista está sentada em um balanço de madeira suspenso no palco, decorado por flores. Ela segura um microfone com a mão esquerda e olha para o público, cantando. Elis usa um vestido branco de mangas e o fundo da imagem é preto. A imagem é em preto e branco." width="463" height="718" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/03/bd12c2110d3b5c93fb88607dd1b77ae2.jpg 463w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/03/bd12c2110d3b5c93fb88607dd1b77ae2-193x300.jpg 193w" sizes="auto, (max-width: 463px) 85vw, 463px" /><figcaption id="caption-attachment-19098" class="wp-caption-text">Acreditar na existência dourada do sol/Mesmo que em plena boca/Nos bata o açoite contínuo da noite/Arrebentar a corrente que envolve o amanhã/Despertar as espadas/(&#8230;)/Sem fazer movimento/Mas tecendo o fio da água e do vento” (Foto: Reprodução)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">Voltando à vida, </span><i><span style="font-weight: 400;">Falso Brilhante</span></i><span style="font-weight: 400;"> também a adora. As músicas profundas em <a href="https://www1.folha.uol.com.br/poder/2020/08/arte-e-cultura-desafiaram-os-anos-de-chumbo-ao-propor-nas-entrelinhas-novos-modos-de-vida.shtml">significado e vivacidade</a> eram a forma que os artistas encontravam de se opor aos governos e políticas de morte, e em </span><a href="https://genius.com/Elis-regina-gracias-a-la-vida-lyrics"><i><span style="font-weight: 400;">Gracias a La Vida</span></i></a><span style="font-weight: 400;">, que abria o segundo ato do </span><i><span style="font-weight: 400;">show</span></i><span style="font-weight: 400;">, Elis explode a paixão que sentia por viver com uma riqueza enorme nas estrelinhas. A canção foi escrita e originalmente interpretada pela chilena <a href="https://www.youtube.com/watch?v=Y9OLbzGOxWY">Violeta Parra</a>, fundadora da música popular chilena e compositora de muitas das <a href="http://memoriasdaditadura.org.br/artistas/violeta-parra/">canções de resistência</a> que ecoaram pelo país na época.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Sem separar suas celebrações de seus protestos, </span><i><span style="font-weight: 400;">Falso Brilhante </span></i><span style="font-weight: 400;">geniosamente aniquila qualquer noção de oposição que pudesse surgir entre os dois elementos e grita da melhor maneira que nossa mera existência é política. Até brincando, Elis conseguia espalhar sua mensagem, inovando nas maneiras de driblar a <a href="http://memoriasdaditadura.org.br/sequencias-didaticas/censura/">censura</a>. A canção mais divertida do repertório, </span><i><span style="font-weight: 400;"><a href="https://genius.com/Elis-regina-jardins-de-infancia-lyrics">Jardins De Infância</a>, </span></i><span style="font-weight: 400;">critica o governo </span><span style="font-weight: 400;">de forma teatral e narrativizada, camuflada em um toque de </span><i><span style="font-weight: 400;">jazz</span></i><span style="font-weight: 400;">.</span></p>
<figure id="attachment_19106" aria-describedby="caption-attachment-19106" style="width: 800px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="wp-image-19106" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/03/9.png" alt="Fotografia de Elis Regina apresentando seu espetáculo Falso Brilhante. A artista está sentada no palco, ao centro da imagem, e apenas ela está iluminada. Ela está de lado, segura um microfone com a mão esquerda e olha para o lado esquerdo da imagem. Elis usa um vestido branco come strelas prateadas e um chapéu com uma pena azul." width="800" height="899" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/03/9.png 854w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/03/9-267x300.png 267w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/03/9-768x863.png 768w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 984px) 61vw, (max-width: 1362px) 45vw, 600px" /><figcaption id="caption-attachment-19106" class="wp-caption-text"><span style="font-weight: 400;">Registros de jornais disponibilizados no site oficial da artista contam que, nos bastidores de Falso Brilhante,  Elis era encontrada costurando as próprias roupas, em grande parte reaproveitadas de outros </span><i><span style="font-weight: 400;">shows</span></i><span style="font-weight: 400;">, fazendo a própria maquiagem e coordenando a montagem junto do resto da equipe, o que reforçava seu apelido de </span><span style="font-weight: 400;">a “</span><i><span style="font-weight: 400;">anti estrela</span></i><span style="font-weight: 400;">” da música brasileira </span>(Foto: Reprodução)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">A militante só descansava no amor. Ali, não tinha jeito, Elis se derretia na presença daquele que acordava sua veia romântica, sempre marcada na paixão das interpretações e nos arranjos musicais. A primeira declaração de <em>Falso Brilhante</em> é </span><a href="https://genius.com/Elis-regina-fascinacao-lyrics"><i><span style="font-weight: 400;">Fascinação</span></i></a><span style="font-weight: 400;">,</span><span style="font-weight: 400;"> popular valsa francesa traduzida para o português por Armando Louzada para que Elis e Cesar pudessem dançar entre as notas doces que cada um expressava à sua maneira, sob o cenário rico preparado pelos instrumentos clássicos. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Em </span><a href="https://genius.com/Elis-regina-tatuagem-lyrics"><i><span style="font-weight: 400;">Tatuagem</span></i></a><span style="font-weight: 400;">, o deleite é ainda mais especial. Nela, Elis só conversa com o piano do amado, numa profunda intimidade e marcante sensualidade. “</span><i><span style="font-weight: 400;">Quero brincar no teu corpo feito bailarina/Que logo te alucina, salta e te ilumina quando a noite vem/E nos músculos exaustos do teu braço/Repousar frouxa, farta, murcha, morta de cansaço”, </span></i><span style="font-weight: 400;">ela canta a letra de Chico Buarque olhando nos olhos de Cesar ao piano, de modo a deixar qualquer um que assistisse a cena constrangido por tamanha intensidade. Elis, no entanto, por nada conservava timidez. Muito menos da arte, muito menos do amor.</span></p>
<div class="jetpack-video-wrapper"><iframe loading="lazy" title="Elis Regina - &quot;Tatuagem&quot;" width="840" height="630" src="https://www.youtube.com/embed/sQGX1BmsLJk?feature=oembed" frameborder="0" allow="accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share" referrerpolicy="strict-origin-when-cross-origin" allowfullscreen></iframe></div>
<p><span style="font-weight: 400;">A intensidade que a viagem pela vida e sentimentos de Elis trazia era numa narrativa por si só disruptiva. A mensagem de </span><i><span style="font-weight: 400;">Falso Brilhante </span></i><span style="font-weight: 400;">era clara, e o </span><i><span style="font-weight: 400;">glamour </span></i><span style="font-weight: 400;">e a idealização &#8211; que não fosse de um sonho revolucionário &#8211; não cabiam na verdade de Elis</span><span style="font-weight: 400;">. Os que esperavam assistir algo melodramático sobre as lamentações de uma artista arrependida eram surpreendidos, já que a decepção, matéria-prima principal do projeto, não era algo romantizado, exaltado ou pintado como paralisante. O que Elis queria era superá-la, com a urgência de quem <a href="https://documentosrevelados.com.br/interrogatorio-de-elis-regina-pela-ditadura-militar-inspirou-sua-interpretacao-de-agnus-sei/">sentiu na pele</a> e viu de perto as ameaças contundentes ao que ela mais valorizava: a vida e a arte.  </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">O que ela criou como forma de se opor a isso tudo é o que se vê em </span><i><span style="font-weight: 400;">Falso Brilhante</span></i><span style="font-weight: 400;">. Com sua história de plano de fundo, ela desabafa, profetiza, imagina, desmente, celebra, denuncia, cuida, representa e sente. Vasta, ativa e complexa, ela mudou pra sempre a arte ao criar dentro de sua música algo que ilustra a própria vida, </span><span style="font-weight: 400;">motivada pela coragem, que nos faz continuar mesmo com o arrepio na espinha de medo do que virá pela frente, e na ousadia de tomar o coração como razão, de assumir sua personalidade, sua identidade, acertar e errar, se desculpar e continuar.</span></p>
<figure id="attachment_19100" aria-describedby="caption-attachment-19100" style="width: 990px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-full wp-image-19100" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/03/elis_falso_brilhante-1.jpg" alt="Fotografia de Elis Regina apresentando seu espetáculo Falso Brilhante. Na imagem, aparece apenas o rosto da artista, de perfil. Ela canta com as mãos no peito e olha para fora da imagem. Elis veste uma camiseta branca, seus cabelos são curtos." width="990" height="720" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/03/elis_falso_brilhante-1.jpg 990w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/03/elis_falso_brilhante-1-300x218.jpg 300w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/03/elis_falso_brilhante-1-768x559.jpg 768w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 1362px) 62vw, 840px" /><figcaption id="caption-attachment-19100" class="wp-caption-text">“Graças à vida, que tem me dado tanto/Tem me dado o sorriso e tem me dado o choro/Assim eu diferencio felicidade de dor/Os dois materiais que formam o meu canto/E o vosso canto que é o mesmo canto/E o canto de todos que é o meu próprio canto” (Foto: Reprodução)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">“</span><a href="https://tvcultura.com.br/videos/52486_elis-regina-jogo-da-verdade.html"><i><span style="font-weight: 400;">Eu queria morrer sendo eu</span></i></a><span style="font-weight: 400;">” ela disse em sua última entrevista em janeiro de 1982, seis anos depois de </span><i><span style="font-weight: 400;">Falso Brilhante</span></i><span style="font-weight: 400;"> e duas semanas antes de um dos eventos mais tristes que o calendário brasileiro já viu, o dia de sua morte. Nunca se contentando com nada menos do que ela tinha exatamente em mente, esse foi o maior feito que Elis Regina atingiu: ficar marcada na nossa história sendo ela. Sendo presente, sendo atemporal, sendo relevante, sendo transformadora, sendo corajosa, sendo expressiva, sendo sonhadora e sendo viva. E se ela disse que viver é melhor que sonhar, é melhor a gente acreditar.</span></p>
<p><iframe loading="lazy" title="Spotify Embed: Falso Brilhante" width="300" height="380" allowtransparency="true" frameborder="0" allow="encrypted-media" src="https://open.spotify.com/embed/album/18p3b48JyIK5XY90JmWxET?si=VHA2B3-ZSxaa87ErSrF4WA"></iframe></p>
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		<title>Não dá para adorar Elis Regina pelo avesso</title>
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		<pubDate>Tue, 15 Dec 2020 19:43:45 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p>Ana Júlia Trevisan Cantar Elis com certeza não é para qualquer um. Reconhecida até hoje como uma das maiores vozes da Música Popular Brasileira, as regravações de seu repertório não devem ser vistas a título de comparação, mas sempre são como forma de homenagear a cantora falecida em 1982. No entanto, a cantora baiana Illy, &#8230; <a href="http://personaunesp.com.br/te-adorando-pelo-avesso-critica/" class="more-link">Continue lendo<span class="screen-reader-text"> "Não dá para adorar Elis Regina pelo avesso"</span></a></p>
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										<content:encoded><![CDATA[<figure id="attachment_17103" aria-describedby="caption-attachment-17103" style="width: 1140px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-full wp-image-17103" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2020/12/illy_capa_imagem-1.jpg" alt="" width="1140" height="1140" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2020/12/illy_capa_imagem-1.jpg 1140w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2020/12/illy_capa_imagem-1-300x300.jpg 300w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2020/12/illy_capa_imagem-1-1024x1024.jpg 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2020/12/illy_capa_imagem-1-150x150.jpg 150w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2020/12/illy_capa_imagem-1-768x768.jpg 768w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 1362px) 62vw, 840px" /><figcaption id="caption-attachment-17103" class="wp-caption-text">Capa do álbum Te Adorando Pelo Avesso de Illy Gouveia (Foto: Reprodução)</figcaption></figure>
<p><strong>Ana Júlia Trevisan</strong></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Cantar </span><a href="https://personaunesp.com.br/elis-viver-e-melhor-que-sonhar-critica/"><span style="font-weight: 400;">Elis</span></a><span style="font-weight: 400;"> com certeza não é para qualquer um. Reconhecida até hoje como uma das maiores vozes da Música Popular Brasileira, as regravações de seu repertório não devem ser vistas a título de comparação, mas sempre são como forma de homenagear a cantora falecida em 1982. No entanto, a cantora baiana Illy, uma das novas vozes da MPB estava em bom </span><a href="https://www.youtube.com/watch?v=hcGaqkUQ05w"><span style="font-weight: 400;">voo</span></a><span style="font-weight: 400;"> com sua carreira até dar um tiro no próprio pé, falhando friamente na homenagem à </span><a href="http://memoriasdaditadura.org.br/artistas/elis-regina/"><i><span style="font-weight: 400;">Pimentinha</span></i></a> em <i><span style="font-weight: 400;">Te Adorando Pelo Avesso.</span></i></p>
<p><span id="more-17102"></span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">No álbum lançado em 2020, Illy Gouveia revisita as canções de Elis Regina. O  disco recebe esse nome por conta do trecho da composição de Chico Buarque,</span> <a href="https://www.youtube.com/watch?v=35FPZR24djg"><i><span style="font-weight: 400;">Atrás da Porta</span></i></a><span style="font-weight: 400;">, regravada por Elis na década de 70. E, partindo do ponto de vista de que a homenagem ficou completamente oposta ao esperado, o nome faz jus ao nome álbum. A capa de <em>Te Adorando Pelo Avesso </em>faz alusão a capa do disco de estúdio </span><i><span style="font-weight: 400;">Elis </span></i><span style="font-weight: 400;">(1973) e tem um trabalho de fotografia bem elaborado, mas o álbum escolhido como inspiração não é o de encarte mais marcante, como dos discos 1972 e 1977. Isso faz com que a referência não fique tão clara logo de início.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">A música de abertura do trabalho é</span><i><span style="font-weight: 400;"> Alô Alô Marciano</span></i><span style="font-weight: 400;">, composta por </span><a href="https://personaunesp.com.br/rita-lee-40-anos/"><span style="font-weight: 400;">Rita Lee</span></a><span style="font-weight: 400;"> e Roberto de Carvalho em plena ditadura militar. A letra traz a conversa de um humano e um extraterrestre, onde o humano desabafa sobre a situação brasileira, denunciando que está </span><i><span style="font-weight: 400;">“cada vez mais down no high society”</span></i><span style="font-weight: 400;">. Na regravação de Illy, a sonoridade, bem feita pelos instrumentistas, não sustenta a fraca interpretação da artista, que deixa apagada a crítica presente na canção, tornando-se apenas mais uma melodia em meio todo contexto que a música pretendia criar.</span></p>
<div class="jetpack-video-wrapper"><iframe loading="lazy" title="ILLY - Alô, Alô Marciano (Clipe Oficial)" width="840" height="473" src="https://www.youtube.com/embed/6j-JR2FGMiw?feature=oembed" frameborder="0" allow="accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share" referrerpolicy="strict-origin-when-cross-origin" allowfullscreen></iframe></div>
<p><span style="font-weight: 400;">Depois de</span><i><span style="font-weight: 400;"> Alô Alô Marciano</span></i><span style="font-weight: 400;"> vem a maior decepção do disco: </span><i><span style="font-weight: 400;">Como Nossos Pais</span></i><span style="font-weight: 400;">. Hino de uma geração, a composição da lenda </span><a href="https://personaunesp.com.br/belchior-quarenta-anos-alucinacao/"><span style="font-weight: 400;">Belchior</span></a><span style="font-weight: 400;"> tem uma das letras mais fortes da música nacional. Conhecida por sua atemporalidade, todo grito de resistência e luta social que a música representa foi diminuído a um mero </span><i><span style="font-weight: 400;">reggae</span></i><span style="font-weight: 400;">. O que não necessariamente é o problema, mas sim a sonoridade ter mais destaque do que a letra, abafando a História e toda força que essa música representa.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">O disco conta com a participação de outros dois cantores de sucesso no cenário atual da música, são eles </span><a href="https://www.youtube.com/watch?v=GYKOk_D5Am0"><span style="font-weight: 400;">Baco Exu do Blues</span></a><span style="font-weight: 400;"> e Silva. A participação de Baco salvou a regravação de </span><i><span style="font-weight: 400;">Me Deixas Louca</span></i><span style="font-weight: 400;">, música de forte sensualidade, que com sua voz rouca consegue transmitir a energia da canção, já a de Illy não passa nem perto do feito. Mas, se a canção do Exu do Blues conseguiu salvar a gravação, a de Silva contribuiu para afundar um pouco mais </span><i><span style="font-weight: 400;">Te Adorando pelo Avesso.</span></i></p>
<p><span style="font-weight: 400;">O cantor é uma admirável voz da MPB, mas não agregou positivamente na canção</span><i><span style="font-weight: 400;"> Atrás da Porta</span></i><span style="font-weight: 400;">. A música com o verso que batiza o álbum, conta a história de um divórcio inesperado e sofrido pelo eu lírico do começo ao fim. A regravação começa de maneira boa, redesenhada no estilo certo, no entanto, logo vem o desapontamento. A um certo ponto da música, os artistas transpassam o sentimento de estarem lendo a letra de </span><i><span style="font-weight: 400;">Atrás da Porta</span></i><span style="font-weight: 400;">, quebrando qualquer sentimento que o dueto pudesse transmitir.</span></p>
<figure id="attachment_17104" aria-describedby="caption-attachment-17104" style="width: 1600px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-full wp-image-17104" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2020/12/illy_imagem-2.jpg" alt="" width="1600" height="1115" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2020/12/illy_imagem-2.jpg 1600w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2020/12/illy_imagem-2-300x209.jpg 300w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2020/12/illy_imagem-2-1024x714.jpg 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2020/12/illy_imagem-2-768x535.jpg 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2020/12/illy_imagem-2-1536x1070.jpg 1536w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2020/12/illy_imagem-2-1200x836.jpg 1200w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 1362px) 62vw, 840px" /><figcaption id="caption-attachment-17104" class="wp-caption-text">“A ideia é justamente fazer de forma contemporânea ou até mesmo futurista as músicas que cresci ouvindo&#8221;, disse Illy em entrevista para o portal Tenho Mais Discos que Amigos! (Foto: Reprodução)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">Ao analisar o instrumental de forma separada das letras é fácil concluir que grande parte de <em>Te Adorando Pelo Avesso</em> foi bem produzida. Digo grande parte pois ele falha em duas canções: </span><i><span style="font-weight: 400;">Dois Pra Lá Dois Pra Cá</span></i><span style="font-weight: 400;"> e </span><i><span style="font-weight: 400;">Vida de Bailarina</span></i><span style="font-weight: 400;">. Na primeira, Illy repete o erro de </span><i><span style="font-weight: 400;">Me Deixas Louca</span></i><span style="font-weight: 400;"> e não imprime na música a sensualidade trazida na letra. Além disso, ao final foi incluído um conjunto de vozes masculinas que ficou anexada à música mas sem fazer o menor sentido naquilo que já havia sido apresentado ao longo da canção.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Em </span><i><span style="font-weight: 400;">Vida de Bailarina</span></i><span style="font-weight: 400;"> os erros já começam na introdução, com uma sonoridade que não se encaixa na dramaticidade da letra e nem no conjunto de músicas selecionadas pro álbum. O fator dramático da intensa letra, que traz uma história forte e real, também não é expressa no vocal leve da cantora, que mais uma vez diminui uma música significativa a uma balada desconexa.</span></p>
<figure id="attachment_17105" aria-describedby="caption-attachment-17105" style="width: 1280px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-full wp-image-17105" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2020/12/illy_imagem-3.jpg" alt="" width="1280" height="720" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2020/12/illy_imagem-3.jpg 1280w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2020/12/illy_imagem-3-300x169.jpg 300w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2020/12/illy_imagem-3-1024x576.jpg 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2020/12/illy_imagem-3-768x432.jpg 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2020/12/illy_imagem-3-1200x675.jpg 1200w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 1362px) 62vw, 840px" /><figcaption id="caption-attachment-17105" class="wp-caption-text">O álbum foi lançado após os singles “Alô Alô Marciano”, “Fascinação” e “Querelas do Brasil” (Foto: Julia Pavin)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">O arranjo bem pensado de </span><i><span style="font-weight: 400;">Fascinação</span></i><span style="font-weight: 400;"> poderia ter funcionado de maneira interessante para outras músicas, mas não para a própria. O </span><i><span style="font-weight: 400;">funk melody</span></i><span style="font-weight: 400;"> não casou com a composição francesa traduzida por Armando Louzada, muito menos com a interpretação feita por Illy. Passando a sensação que houve um desencontro entre a banda e a intérprete, como se a canção tocada fosse totalmente diferente da música na qual a cantora está dando voz. A nova versão se torna completamente esquecível.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">O maior problema de <em>Te Adorando Pelo Avesso</em> foi a escolha de repertório, músicas calorosas foram selecionadas para serem interpretadas por uma voz suave que soou fraca. O</span><i><span style="font-weight: 400;"> Trem Azul</span></i><span style="font-weight: 400;">, original de </span><a href="https://www.youtube.com/watch?v=eNxw9VBAcRo"><span style="font-weight: 400;">Milton Nascimento e Lô Borges</span></a><span style="font-weight: 400;">, foi eternizada com uma interpretação marcante de Elis, com o sentimento passado na canção ainda vivo no imaginário brasileiro por ter servido como hino de resistência a muitos presos políticos durante a ditadura. A faixa tem começo marcante na voz de Illy, mas se desfaz antes mesmo do refrão ser cantado pela primeira vez.</span></p>
<figure id="attachment_17106" aria-describedby="caption-attachment-17106" style="width: 2410px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-full wp-image-17106" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2020/12/illy_imagem-4.jpg" alt="" width="2410" height="1574" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2020/12/illy_imagem-4.jpg 2410w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2020/12/illy_imagem-4-300x196.jpg 300w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2020/12/illy_imagem-4-1024x669.jpg 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2020/12/illy_imagem-4-768x502.jpg 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2020/12/illy_imagem-4-1536x1003.jpg 1536w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2020/12/illy_imagem-4-2048x1338.jpg 2048w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2020/12/illy_imagem-4-1200x784.jpg 1200w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 1362px) 62vw, 840px" /><figcaption id="caption-attachment-17106" class="wp-caption-text">“Bahia, terra da felicidade” (Foto: Reprodução)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">A nona faixa de <em>Te Adorando Pelo Avesso</em>, </span><i><span style="font-weight: 400;">Na Baixa do Sapateiro</span></i><span style="font-weight: 400;">, apesar de ir na contramão do samba-canção gravado por Elis, é redesenhada de maneira correta, com um gosto diferente do que tinha sido apresentado até então. A regravação de Illy ao ritmo do </span><i><span style="font-weight: 400;">rock </span></i><span style="font-weight: 400;">se mostra forte, da forma que é esperada em todo álbum: uma homenagem à Elis que não seja cópia da cantora, mas que tenha a potência que a homenageada merece.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Em</span><i><span style="font-weight: 400;"> Ladeira da Preguiça,</span></i><span style="font-weight: 400;"> a preguiça foi na hora de mixar a faixa. O instrumental apresenta uma sonoridade que nos leva a pensar em </span><a href="https://gilbertogil.com.br/"><span style="font-weight: 400;">Gilberto Gil</span></a><span style="font-weight: 400;">, compositor da música, entretanto ele ficou desconexo de todo resto da canção. Erro que poderia ter sido evitado durante o processo de mixagem e pós-produção, e que comprova que o processo de construção do disco não ocorreu de forma natural, respeitando as limitações e corrigindo aquilo que fugia das expectativas. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Se o álbum foi uma sucessão de erros, ao caminhar para o final ele parece tentar se redimir. </span><a href="https://www.youtube.com/watch?v=qOP7zOQOHnQ"><i><span style="font-weight: 400;">Querelas do Brasil</span></i></a><span style="font-weight: 400;">, composição do saudoso Aldir Blanc, foi a melhor escolha do repertório de Illy. Além do arranjo pensado para a canção casar com a voz da intérprete, é um lado B de Elis essencial que a nova geração tenha conhecimento da letra crítica e denunciante. </span><i><span style="font-weight: 400;">“O Brazil não conhece o Brazil/O Brasil nunca foi ao Brazil” “O Brazil não merece o Brasil/O Brazil tá matando o Brasil” “Do Brasil S.O.S ao Brasil”.</span></i></p>
<figure id="attachment_17107" aria-describedby="caption-attachment-17107" style="width: 2048px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-full wp-image-17107" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2020/12/illy_imagem-5-scaled.jpg" alt="" width="2048" height="2560" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2020/12/illy_imagem-5-scaled.jpg 2048w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2020/12/illy_imagem-5-240x300.jpg 240w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2020/12/illy_imagem-5-819x1024.jpg 819w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2020/12/illy_imagem-5-768x960.jpg 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2020/12/illy_imagem-5-1229x1536.jpg 1229w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2020/12/illy_imagem-5-1638x2048.jpg 1638w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2020/12/illy_imagem-5-1200x1500.jpg 1200w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 1362px) 62vw, 840px" /><figcaption id="caption-attachment-17107" class="wp-caption-text">“Eu cresci ouvindo Elis e me sinto totalmente influenciada por ela e por sua força” (Foto: Reprodução)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">A música que encerra o álbum é </span><i><span style="font-weight: 400;">Vou Deitar e Rolar</span></i><span style="font-weight: 400;"> de Baden Powell e Paulo César Pinheiro, dupla responsável por respeitáveis clássicos da MPB. A quebra de expectativa é positiva nessa canção. Apesar da voz de Illy não sustentar todas as técnicas vocais escolhidas, sua assinatura fica impressa na faixa. O que foi planejado pra esse trabalho é alcançado apenas no final dele. Uma homenagem à Elis Regina que além de introduzir a nova geração ao repertório da cantora, tivesse a leitura e os arranjos feitos pela produção.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Admiro a coragem de Illy ao embarcar numa aventura que lhe traria um mar de críticas devido à importância da inalcançável discografia de Elis Regina. Não há problemas em recriar músicas tão vivas no imaginário coletivo brasileiro, mas o risco é alto. O que faltou para cantora foi uma ajuda técnica na seleção musical,  o lado fã deveria ser deixado de lado fazendo escolhas realistas que se encaixassem em sua voz suave. Cantar Elis é cantar uma parte frágil e sombria da História brasileira. O ritmo contemporâneo, quando não bem sustentado, como aconteceu nesse disco, soa desrespeitoso. </span></p>
<p><iframe loading="lazy" title="Spotify Embed: Te Adorando pelo Avesso" width="300" height="380" allowtransparency="true" frameborder="0" allow="encrypted-media" src="https://open.spotify.com/embed/album/5lvhRYId3zTtsJsDFbgXEh?si=oOlbE9V7QWS8cCYbp4JZkQ"></iframe></p>
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