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	<title>Arquivos Elena &#8211; Persona | Jornalismo Cultural</title>
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	<description>Desde 2015 provando que a distância entre Bergman, Lady Gaga e a novela das 9 nem existe.</description>
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		<title>A filha perdida de Elena Ferrante pode ser você</title>
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		<pubDate>Thu, 10 Feb 2022 20:43:02 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Literatura]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Raquel Dutra &#8220;As coisas mais difíceis de falar são as que nós mesmos não conseguimos entender&#8220;, define muito bem Elena Ferrante no que vem a ser o prólogo de seu terceiro romance. Lançado no Brasil em 2016 pela editora Intrínseca, A filha perdida traz o pseudônimo italiano, aclamado por suas  personagens femininas e reverenciado por &#8230; <a href="http://personaunesp.com.br/elena-ferrante-a-filha-perdida-critica/" class="more-link">Continue lendo<span class="screen-reader-text"> "A filha perdida de Elena Ferrante pode ser você"</span></a></p>
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										<content:encoded><![CDATA[<figure id="attachment_26020" aria-describedby="caption-attachment-26020" style="width: 1024px" class="wp-caption alignnone"><img fetchpriority="high" decoding="async" class="wp-image-26020 size-full" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/02/AFILHAPERDIDA_WORDPRESS_0222.jpg" alt="Imagem retangular de fundo laranja. Ao centro, foi adicionada a capa do livro A Filha Perdida, um selo escrito Clube do Livro Persona no canto direito inferior e o logo do Persona no canto esquerdo superior. A capa é repleta de casas de telhado marrom avermelhado, no estilo mediterrâneo. É possível ver o céu e o mar azuis e uma torre verde. Está escrito, em letras brancas, &quot;A FILHA PERDIDA&quot; e &quot;ELENA FERRANTE&quot;. Na parte inferior central, há o selo da Intrínseca." width="1024" height="538" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/02/AFILHAPERDIDA_WORDPRESS_0222.jpg 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/02/AFILHAPERDIDA_WORDPRESS_0222-800x420.jpg 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/02/AFILHAPERDIDA_WORDPRESS_0222-768x404.jpg 768w" sizes="(max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 1362px) 62vw, 840px" /><figcaption id="caption-attachment-26020" class="wp-caption-text">Recentemente adaptado para o cinema, A filha perdida foi a escolha para o mês de dezembro de 2021 no Clube do Livro do Persona (Foto: Intrínseca/Arte: Jho Brunhara)</figcaption></figure>
<p><b>Raquel Dutra</b></p>
<p><span style="font-weight: 400;">&#8220;</span><i><span style="font-weight: 400;">As coisas mais difíceis de falar são as que nós mesmos não conseguimos entender</span></i><span style="font-weight: 400;">&#8220;, define muito bem </span><a href="https://personaunesp.com.br/tag/elena-ferrante/"><span style="font-weight: 400;">Elena Ferrante</span></a><span style="font-weight: 400;"> no que vem a ser o prólogo de seu terceiro romance. Lançado no Brasil em 2016 pela editora </span><i><span style="font-weight: 400;">Intrínseca</span></i><span style="font-weight: 400;">, </span><i><span style="font-weight: 400;">A filha perdida</span></i><span style="font-weight: 400;"> traz o pseudônimo italiano, aclamado por suas  personagens femininas e reverenciado por sua honestidade cortante, numa proposta de encarar com honestidade o que talvez seja um dos principais aspectos da experiência da mulher na sociedade &#8211; e também </span><a href="https://blogueirasfeministas.com/2011/05/08/feminismo-maternidade-e-a-briga-nossa-de-cada-dia/"><span style="font-weight: 400;">um dos assuntos mais intocáveis</span></a><span style="font-weight: 400;"> desde o início dos tempos -: a maternidade.</span><span style="font-weight: 400;"> </span></p>
<p><span id="more-25952"></span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">O pretexto para uma análise do lugar mais comum da formação da sociedade também deveria ser simples e acessível, numa direção completamente inversa à que sua complexidade pode sugerir. Então, assim </span><i><span style="font-weight: 400;">A filha perdida</span></i><span style="font-weight: 400;"> (</span><i><span style="font-weight: 400;">La figlia oscura</span></i><span style="font-weight: 400;">, no original) o faz: o livro nos coloca para acompanhar a história de </span><a href="https://claudia.abril.com.br/coluna/cronicas-de-mae/escolhas-maternidade/"><span style="font-weight: 400;">uma mãe e suas filhas</span></a><span style="font-weight: 400;">, que recai também sobre a sua história com sua própria mãe e sua experiência enquanto filha. O recorte e o objeto escolhidos surgem de um período de férias de Leda, uma professora universitária de meia idade, divorciada e mãe de Bianca e Marta, de 22 e 24 anos, que procura descanso no litoral sul da Itália, próxima da cidade onde nasceu e cresceu, depois que as filhas vão morar com o pai em outro país.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Mas Elena Ferrante não permite que o mergulho da personagem fique apenas nas águas pacificamente salgadas e agradavelmente ondulosas. O que deveria ser um momento de repouso para Leda se transforma num processo intenso de autorreflexão, desencadeado a partir do momento em que a personagem repara uma família também de férias pela região. Ela estabelece uma </span><a href="https://artrianon.com/2022/01/14/a-filha-perdida-livro-e-filme-um-honesto-relato-entre-os-tabus-da-maternidade/"><span style="font-weight: 400;">identificação singular</span></a><span style="font-weight: 400;"> com Nina, a jovem mãe de Elena, que sempre se mostra um tanto deslocada do resto daquele grupo de pessoas &#8211; exceto quando exercendo passionalmente a sua maternidade. </span></p>
<figure id="attachment_25955" aria-describedby="caption-attachment-25955" style="width: 1280px" class="wp-caption alignnone"><img decoding="async" class="size-full wp-image-25955" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/02/maggie-perdida-1.jpg" alt="" width="1280" height="853" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/02/maggie-perdida-1.jpg 1280w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/02/maggie-perdida-1-800x533.jpg 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/02/maggie-perdida-1-1024x682.jpg 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/02/maggie-perdida-1-768x512.jpg 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/02/maggie-perdida-1-1200x800.jpg 1200w" sizes="(max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 1362px) 62vw, 840px" /><figcaption id="caption-attachment-25955" class="wp-caption-text">Nos cinemas, a história foi contada por Maggie Gyllenhaal, numa estreia impressionante da diretora e roteirista, que saiu premiada do <a href="https://www.instagram.com/p/CT5ssphNzJv/">Festival de Veneza 2021</a> (Foto: Yannis Drakoulidis/Netflix)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">Ao observar as cenas protagonizadas pela família napolitana e deixar-se afetar pela maresia enquanto sozinha e longe de casa, a protagonista de </span><i><span style="font-weight: 400;">A filha</span></i> <i><span style="font-weight: 400;">perdida</span></i><span style="font-weight: 400;"> acaba em memórias que remexem sentimentos profundos sobre sua família, infância, casamento e, principalmente, o início de sua vida como mãe. Impulsionada pela imersiva escrita em primeira pessoa, Elena Ferrante é dolorosamente sincera sob o pretexto de verbalizar as emoções de Leda, dedicando-se quase compulsivamente a um livro repleto de ‘canetadas’ sobre seu complexo tema central, que é marcado por </span><a href="https://leiturinha.com.br/blog/maternidade-real/"><span style="font-weight: 400;">vivências profundas</span></a><span style="font-weight: 400;"> de quem o experiencia, mas também alvo de uma </span><a href="https://cultura.estadao.com.br/noticias/televisao,a-filha-perdida-perturba-ao-tocar-na-sacralizacao-da-maternidade,70003941704"><span style="font-weight: 400;">sacralização</span></a><span style="font-weight: 400;"> histórica vinda de quem o observa de fora. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Por consequência &#8211; muito bem calculada, vale ressaltar -, a única coisa que não pode ser encontrada na protagonista é o estereótipo do </span><a href="https://personaunesp.com.br/amor-de-mae-critica/"><i><span style="font-weight: 400;">amor de mãe</span></i></a><span style="font-weight: 400;">. Leda está completamente à vontade conversando consigo mesma, e nada esconde de quem toma parte de suas emoções, mostrando-se uma personagem que, muito longe de ser agridoce, é acidamente amarga. Mas ao contrário do que todas as suas camadas podem sugerir, a protagonista de </span><i><span style="font-weight: 400;">A filha perdida</span></i><span style="font-weight: 400;"> é profundamente relacionável, como o resultado de um estudo preciso da mulher que é marcada pela inevitabilidade de pelo menos uma das duas vias trabalhadas pelo romance: a experiência de uma mulher </span><a href="https://www.imagempalavramovimento.com/single-post/2016/05/06/ser-m%C3%A3e-e-ser-filha"><span style="font-weight: 400;">como filha e como mãe</span></a><span style="font-weight: 400;">.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Seguindo o caminho de forte oposição aos polidos padrões patriarcais, a linguagem de Elena Ferrante não procura atender nada que não seja a verdade de quem vive além de todas as </span><a href="https://agorasoumae.com.br/estereotipo-de-mae-como-a-sociedade-limita-a-mulher-ao-de-mae/"><span style="font-weight: 400;">expectativas impossíveis</span></a><span style="font-weight: 400;"> de benevolência, controle e sabedoria. </span><i><span style="font-weight: 400;">A filha perdida</span></i><span style="font-weight: 400;"> não nos deixa enganar: a sinceridade de sua protagonista pode parecer autodepreciativa, mas Leda é austera demais até para o nível mais complexo de autopiedade e distanciamento da realidade. Vide os momentos mais críticos de sua história, onde é comum encontrar uma reação viciada da personagem, que como forma de se defender dos julgamentos, tentar compreender seu próprio comportamento e/ou até mesmo como forma de expressar a confusão mental que surge após relembrar memórias tão emocionalmente atribuladas, desabafa fria e sinceramente um &#8220;</span><i><span style="font-weight: 400;">Não sei o que aconteceu&#8221;</span></i><span style="font-weight: 400;">.</span></p>
<blockquote><p><span style="font-weight: 400;">“</span><span style="font-weight: 400;">Bianca uma vez gritou para mim, aos prantos: você sempre se acha superior. E Marta: por que você quis nos ter se não faz outra coisa além de se queixar de nós? Pedaços de palavras, sílabas apenas. <strong>Sempre chega o momento em que os filhos dizem com raiva e tristeza: por que você me deu a vida?</strong></span><span style="font-weight: 400;">”</span></p></blockquote>
<p><span style="font-weight: 400;">Mas se a narrativa recusa completamente o principal aspecto dos padrões maternais, outro elemento fundamental da experiência é o que mais transborda das vivências de Leda &#8211; e incomoda o leitor de </span><i><span style="font-weight: 400;">A filha perdida</span></i><span style="font-weight: 400;">. Ela nutre uma consciência concreta de tudo, desde o que recebeu da mãe, seus traumas, até o que deixou para as filhas e os padecimentos das garotas. Para encerrar o panorama emocional do livro, Ferrante orienta tudo isso para desencadear o sentimento mais silencioso de suas páginas reflexivamente barulhentas. E quanto à </span><a href="https://vogue.globo.com/moda/moda-news/noticia/2019/08/importancia-de-outras-maes-para-uma-maternidade-com-menos-culpa.html"><span style="font-weight: 400;">emoção mais ingrata</span></a><span style="font-weight: 400;"> para uma mulher que exerce o papel de mãe, não há o que ser discutido além da própria expressão da personagem: “</span><i><span style="font-weight: 400;">Era o sentimento de culpa: eu achava que todo sofrimento que atingisse as minhas filhas era fruto do já comprovado fracasso do meu amor</span></i><span style="font-weight: 400;">”.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">É assim que </span><i><span style="font-weight: 400;">A filha perdida</span></i><span style="font-weight: 400;"> compõe o retrato complexo do relacionamento mãe-e-filha, aprofundando uma análise sobre relações </span><a href="https://www.32rba.abant.org.br/arquivo/downloadpublic?q=YToyOntzOjY6InBhcmFtcyI7czozNToiYToxOntzOjEwOiJJRF9BUlFVSVZPIjtzOjQ6IjMyNDciO30iO3M6MToiaCI7czozMjoiZWQyMDQ3NDQ2MDQxZWIxZWE3OTJhODg0MmEwY2ZlYTciO30%3D"><span style="font-weight: 400;">intergeracionais</span></a><span style="font-weight: 400;">. Uma menina rigidamente criada em padrões de gênero se transforma em uma mulher que cria duas garotas em uma nova época, ciente dos comportamentos maternos que lhe foram traumáticos, mas que, ao mesmo tempo, ainda carrega marcas teimosas de estereótipos sexistas e misóginos. Não por acaso, a personagem carrega como certeza a ideia de que o que mais ama em suas filhas é o que é estranho à sua própria personalidade. Assim, Leda é indiscutivelmente uma filha machucada e uma mãe que machuca. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Entre comparações, intromissões e julgamentos que orientam sua interação com Marta e Bianca, Leda constrói sua autopercepção através da visão que as filhas têm dela &#8211; ou mais precisamente, a que acredita que elas têm. Entre ser aterrorizada pela possibilidade de infelicidade das garotas e manifestar comportamentos destrutivos para aspectos importantes da vida das duas, </span><a href="https://www.uol.com.br/universa/noticias/redacao/2019/04/11/por-que-tantas-mulheres-repetem-na-relacao-atitudes-que-criticavam-nas-maes.htm"><span style="font-weight: 400;">a relação paradoxal entre as mães e as filhas</span></a><span style="font-weight: 400;"> se mostra cada vez mais longe de ser um ideal. E enquanto isso, a trama de </span><i><span style="font-weight: 400;">A filha perdida</span></i><span style="font-weight: 400;"> se mostra cada vez mais próxima da realidade.</span></p>
<blockquote><p>“Nas conversas com as minhas filhas, ouço palavras ou expressões omitidas. Às vezes, elas ficam com raiva e dizem “mamãe, eu nunca falei isso, é você que está dizendo, você inventou isso”. Mas eu não invento nada, só escuto, <strong>o não dito fala mais que o não dito</strong>.”</p></blockquote>
<p><span style="font-weight: 400;">Em momento algum, porém, a escrita de Elena Ferrante coloca a sua protagonista em vestes vilanescas. É para aprofundar ainda mais </span><a href="https://glamour.globo.com/lifestyle/noticia/2022/01/a-filha-perdida-lembra-que-maes-sao-antes-de-tudo-mulheres.ghtml"><span style="font-weight: 400;">a humanidade da personagem</span></a><span style="font-weight: 400;">, aliás, que existe o gatilho da história, quando a imagem de Nina atrai o olhar de Leda. Ela já tem um histórico de encantamento por mulheres jovens manifestando felicidade e liberdade, como os devaneios do livro e algumas figurantes introduzem muito bem, mas encontrar alguém em seus </span><a href="https://www.revide.com.br/noticias/cidades/dia-das-maes-sobre-ser-mae-e-ser-jovem/"><span style="font-weight: 400;">vinte e poucos anos</span></a><span style="font-weight: 400;"> (aparentemente) contente com a própria maternidade é demais para aquele psicológico, que foi pego de surpresa por um ser crescendo dentro de si quando tinha 23 anos. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">É que a autora de </span><i><span style="font-weight: 400;">A filha perdida</span></i> <a href="https://valkirias.com.br/personagens-limitrofes-elena-ferrante/"><span style="font-weight: 400;">respeita demais suas personagens</span></a><span style="font-weight: 400;"> e nem mesmo a jovem-segunda-protagonista está ali apenas como um alvo de projeção. Não há como fugir da perspectiva das mães da história, afinal. Então, Nina também tem espaço para revelar suas questões à medida em que se aproxima de Leda. Oscilando radicalmente entre ilustrar uma mãe ideal e exemplificar a </span><a href="https://www.analuizadefigueiredosouza.com.br/post/maternidade-compuls%C3%B3ria-defini%C3%A7%C3%A3o-e-problematiza%C3%A7%C3%B5es#:~:text=De%20modo%20mais%20simples%2C%20conforme,represente%20de%20fato%20uma%20escolha.&amp;text=A%20socializa%C3%A7%C3%A3o%20feminina%20%C3%A9%20fortemente%20marcada%20pelo%20maternalismo."><span style="font-weight: 400;">maternidade compulsória</span></a><span style="font-weight: 400;"> &#8211; que apreende as meninas desde o momento em que elas passam a existir neste mundo -, a relação das duas segue complexa. Assim, Ferrante traz fôlego narrativo ao livro, mais como história e menos como análise social, ao mesmo tempo em que funde as duas perspectivas. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">“</span><a href="https://diariodonordeste.verdesmares.com.br/opiniao/colunistas/lorena-portela/a-filha-perdida-nao-funcionaria-com-um-pai-no-papel-principal-e-isso-e-um-problema-1.3180803"><i><span style="font-weight: 400;">E cadê o pai dessas crianças?</span></i></a><span style="font-weight: 400;">”, alguém que lê um texto sobre </span><i><span style="font-weight: 400;">A filha perdida</span></i><span style="font-weight: 400;"> pode se perguntar. Aqui está mais um estalo genial de Elena Ferrante: a completa desnecessidade de mencionarmos o homem que concebeu as garotas junto de Leda diz muito sobre o tipo de história encontrada em </span><i><span style="font-weight: 400;">A filha perdida</span></i><span style="font-weight: 400;">. Sem precisar da representação de uma figura de paternidade totalmente ausente, o livro mostra que pouco importa sua ação dentro da narrativa. E num retrato fiel de quem absorve a ideia social de que é a principal responsável pelos filhos numa série de cuidados tidos como impossíveis de serem divididos, a amargura de Leda não o tem entre seus principais alvos.</span></p>
<blockquote><p>“Assim, aos vinte e poucos anos, qualquer outra brincadeira havia acabado para mim. O pai corria mundo afora, uma oportunidade atrás da outra. Não tinha nem tempo de reparar o que fora copiado do seu corpo, como havia resultado a reprodução. Mal olhava as duas meninas, mas dizia com ternura verdadeira: são iguaizinhas a você. Gianni é um homem gentil, nossas filhas gostam dele. <strong>Ele cuidou pouco ou nada delas, mas, quando foi necessário, fez tudo o que podia, agora também faz tudo o que pode.</strong>”</p></blockquote>
<p><span style="font-weight: 400;">Para uma história totalmente fundamentada na densidade emocional de idas e vindas de sua protagonista, </span><i><span style="font-weight: 400;">A filha perdida</span></i><span style="font-weight: 400;"> se organiza num ritmo regular. Trazendo ordem ao caos, os capítulos de Elena Ferrante parecem seguir um padrão muito bem disfarçado, sempre desenrolando um momento presente que logo desencadeará uma reflexão íntima na personagem que narra a história. Entretanto, </span><a href="https://cultura.estadao.com.br/noticias/literatura,escrever-e-como-girar-a-faca-na-ferida-revela-elena-ferrante,70003417132"><span style="font-weight: 400;">a maestria da autora</span></a><span style="font-weight: 400;"> não permite conclusões precipitadas: em momento algum, essa construção se transforma num defeito do romance, já que a progressão de sua trama é tão imprevisível quanto o caminho da mente desenfreada de Leda.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Quanto às polêmicas sobre a identidade por trás de um dos nomes de maior sucesso da Literatura contemporânea, </span><i><span style="font-weight: 400;">A filha perdida</span></i><span style="font-weight: 400;"> estreita as possibilidades. A facilidade com que a autora arquiteta as digressões de Leda só pode surgir de um </span><a href="https://valkirias.com.br/as-mulheres-de-elena-ferrante/"><span style="font-weight: 400;">lugar radical de identificação e análise</span></a><span style="font-weight: 400;">. E é fato que a universalidade do tema faz com que a tradução do livro não seja um ponto de complicação para </span><a href="https://revistacult.uol.com.br/home/elena-ferrante-marcello-lino/"><span style="font-weight: 400;">Marcello Lino</span></a><span style="font-weight: 400;">, mas é de se questionar porque a edição brasileira não apostou numa transcrição que tivesse mais proximidade com as experiências que Elena Ferrante decidiu retratar. A impressão é de que a pessoa por trás do pseudônimo tem completa ciência de que isso poderia acontecer com as suas traduções pelo mundo, porque a objetividade de </span><i><span style="font-weight: 400;">A filha perdida</span></i><span style="font-weight: 400;"> ancora suas leituras mais profundas em representações concretas &#8211; a boneca, a pinha, o ventre, a agulha e quem sabe até a personagem que compartilha o mesmo nome da autora.</span></p>
<blockquote><p>“As línguas, para mim, têm um veneno secreto que de vez em quando aflora e para o qual não há antídoto.”</p></blockquote>
<p><span style="font-weight: 400;">É preciso ressaltar, no entanto, que a obra não se sufoca numa narrativa monotemática, mas ainda provoca reflexões sobre o próprio processo de formação de uma família, a cultura italiana e até observações linguísticas. </span><i><span style="font-weight: 400;">A filha perdida</span></i><span style="font-weight: 400;"> em nada é o que parece. Muito mais do que ancorar um suspense ou melodrama, o romance, de forma quase metalinguística ao trabalho de sua autora, está em algo além: </span><a href="https://brasil.elpais.com/brasil/2019/02/28/estilo/1551353871_772692.html"><span style="font-weight: 400;">o maior trabalho que se pode ter na vida</span></a><span style="font-weight: 400;"> enquanto em uma das posições mais difíceis que se pode estar dentro da sociedade. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Para suceder o aclamado </span><a href="https://www.instagram.com/p/COv4EEtHyKu/?utm_medium=copy_link"><i><span style="font-weight: 400;">Dias de Abandono</span></i></a><span style="font-weight: 400;"> (2002), visto por boa parte da crítica literária como o seu melhor romance, Elena Ferrante voltou o seu olhar para a complexidade deste processo, envolto em estereótipos de gênero, padrões históricos de comportamento, expectativas enormes de coisas que são muito maiores do que nós. Em seus caminhos para tal, </span><i><span style="font-weight: 400;">A filha perdida</span></i><span style="font-weight: 400;"> conclui uma observação: </span><a href="https://lunetas.com.br/a-filha-perdida/"><span style="font-weight: 400;">todas nós</span></a><span style="font-weight: 400;"> somos a filha perdida em algum aspecto. Menos a criação de Elena Ferrante, que é plenamente consciente de tudo isso, sabe onde está, e certamente saberá onde te encontrar.</span></p>
<p><a href="https://open.spotify.com/playlist/7qvhxwKpQrhRCZcqYqrl8f?si=b7bfd9811f1441f6">https://open.spotify.com/playlist/7qvhxwKpQrhRCZcqYqrl8f?si=b7bfd9811f1441f6</a></p>
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		<title>Elena: um retrato sensível e necessário para debater suicídio e depressão</title>
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		<pubDate>Thu, 10 Oct 2019 21:41:31 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p>Aviso de Gatilho: Elena pode conter elementos prejudiciais àqueles sofrendo com depressão ou pensamentos suicidas. Raquel Dutra  O segundo longa-metragem de Petra Costa leva o nome de sua irmã mais velha, a atriz Elena Andrade. Sob a premissa de retratar a história da jovem e os sentimentos que a família conserva por sua memória, Elena &#8230; <a href="http://personaunesp.com.br/elena-critica/" class="more-link">Continue lendo<span class="screen-reader-text"> "Elena: um retrato sensível e necessário para debater suicídio e depressão"</span></a></p>
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										<content:encoded><![CDATA[<p><em>Aviso de Gatilho: Elena pode conter elementos prejudiciais àqueles sofrendo com depressão ou pensamentos suicidas.</em></p>
<figure id="attachment_23479" aria-describedby="caption-attachment-23479" style="width: 2100px" class="wp-caption alignnone"><img decoding="async" class="wp-image-23479 size-full" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2019/10/elena-1.jpg" alt="Cena do filme Elena. A imagem mostra duas mulheres flutuando num rio de águas escuras. As duas mulheres estão do lado esquerdo da imagem, e a primeira está na parte de baixo, na horizontal, com a cabeça para o lado direito e os pés em direção ao centro da imagem, virados para o lado esquerdo; e a segunda na parte de cima, de cabeça para baixo, na diagonal. As duas usam vestidos longos em tons de bege. O fundo é preto." width="2100" height="1181" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2019/10/elena-1.jpg 2100w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2019/10/elena-1-800x450.jpg 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2019/10/elena-1-1024x576.jpg 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2019/10/elena-1-768x432.jpg 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2019/10/elena-1-1536x864.jpg 1536w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2019/10/elena-1-2048x1152.jpg 2048w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2019/10/elena-1-1200x675.jpg 1200w" sizes="(max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 1362px) 62vw, 840px" /><figcaption id="caption-attachment-23479" class="wp-caption-text">O documentário Elena mistura realidade e ficção para contar a história de vida da irmã da cineasta Petra Costa, diretora de Democracia em Vertigem (Foto: Busca Vida Filmes)</figcaption></figure>
<p><strong>Raquel Dutra </strong></p>
<p><span style="font-weight: 400;">O segundo longa-metragem de <a href="https://revistagalileu.globo.com/Cultura/noticia/2020/02/quem-e-petra-costa-cineasta-brasileira-indicada-ao-oscar.html">Petra Costa</a> leva o nome de sua irmã mais velha, a atriz Elena Andrade. Sob a premissa de retratar a história da jovem e os sentimentos que a família conserva por sua memória, <em>Elena</em> toca em debates ultra sensíveis acerca de <a href="https://pebmed.com.br/setembro-amarelo-a-depressao-e-a-ligacao-com-o-suicidio/">suicídio e depressão</a>, ao mesmo tempo em que carrega o valor de ser considerada como uma obra marcante da documentarista. No filme, tudo tem um único fim: construir um retrato íntimo e profundo da <a href="http://www.elenafilme.com/blog/a-historia-de-elena/">vida de Elena</a>, que aos vinte anos, tratando de doenças psicológicas e tentado se reerguer de desilusões profissionais, findou a sua própria vida.</span></p>
<p><span id="more-13003"></span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Aclamado pela crítica, <em>Elena</em> abriu o caminho para o sucesso que sua diretora encontraria em suas produções posteriores. Com sua estreia no <em>IDFA</em> (Festival Internacional de Documentários de Amsterdã) de 2012, o filme foi premiado como o </span><span style="font-weight: 400;">Melhor Documentário pelo Júri Popular, Melhor Direção, Montagem e Direção de Arte e todos os prêmios na </span><span style="font-weight: 400;">categoria documentário</span><span style="font-weight: 400;"> no 45º Festival de Brasília</span><span style="font-weight: 400;">. Em 2014, o filme também foi <a href="https://www.adorocinema.com/noticias/filmes/noticia-110134/">pré-selecionado para o <em>Oscar 2015</em></a> na categoria de Melhor Documentário.</span></p>
<p>Considerado uma experiência única no Cinema contemporâneo, <em>Elena</em> comprova que trabalhar com questões íntimas faz parte da identidade artística de Petra Costa. Identificamos <a href="https://hhmagazine.com.br/a-estetica-do-mal-estar-ou-o-estranhamente-familiar-em-democracia-em-vertigem/">o traço personalista</a> em sua produção mais recente e conhecida, <a href="http://personaunesp.com.br/critica-democracia-em-vertigem/"><i>Democracia em Vertigem</i></a>, mas desde o começo de sua carreira no Cinema a documentarista faz com que essa característica seja marcada. Neste caso, o tema é ainda mais pessoal, caindo na morte precoce da sua irmã mais velha. O enredo, por sua vez, é desenrolado a partir de registros das vivências de Elena em busca de seu sonho de ser atriz de Cinema, com os quais Petra estabelece um profundo sentimento de identificação.</p>
<figure id="attachment_23480" aria-describedby="caption-attachment-23480" style="width: 1600px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="wp-image-23480 size-full" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2019/10/elena-2-e1633021772855.jpg" alt="Cena do filme Elena. A imagem mostra um momento familiar entre Elena, Petra e a mãe. Primeiro, à esquerda, está Elena, uma adolescente branca de cabelos longos lisos e que veste uma camisa xadrez. Ela está de frente para a câmera mas olha para o lado, em direção ao centro da imagem, onde está a irmã Petra, ainda bebê, no colo da mãe, que está no lado direito da imagem. Ela usa uma camiseta amarela e o seu cabelo está preso num rabo no topo da cabeça. Petra olha para a irmã e aponta seu dedinho indicador em direção ao rosto dela. A mãe tem cabelos lisos curtos e usa uma camisa branca, segurando Petra no colo e olhando para o lado esquerdo, onde está Elena. Ao fundo, pode-se observar a estante de uma casa e uma planta pendurada na parede, tudo em desfoque. A imagem é colorida mas predomina em tons amarelados e alaranjados." width="1600" height="1056" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2019/10/elena-2-e1633021772855.jpg 1600w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2019/10/elena-2-e1633021772855-800x528.jpg 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2019/10/elena-2-e1633021772855-1024x676.jpg 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2019/10/elena-2-e1633021772855-768x507.jpg 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2019/10/elena-2-e1633021772855-1536x1014.jpg 1536w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2019/10/elena-2-e1633021772855-1200x792.jpg 1200w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 1362px) 62vw, 840px" /><figcaption id="caption-attachment-23480" class="wp-caption-text">Antes de Elena, Costa dirigiu o curta Olhos de Ressaca, de 2009 (Foto: Busca Vida Filmes)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">Numa eterna oscilação entre o objetivo e o abstrato, o prazer e a dor, <a href="http://centrocultural.sp.gov.br/2020/03/05/a-ficcao-documentada-ou-o-documentario-ficcionalizado/">o real e o ficcional</a>, o pessoal e o universal, Petra dá voz as cartas da sua irmã, refaz seus passos, encenações, revive memórias e até mesmo seus sonhos. É uma brincadeira tão profunda com elementos ditos opostos que, em alguns momentos, eles se tornam surpreendentemente similares. </span><span style="font-weight: 400;">E todos os aspectos do filme trabalham para essa fusão de sentimentos conflitantes, a se destacar, primeiro a trilha. A diretora traz toda a complexidade da música clássica de uma forma tão tátil que se torna simples a rendição do espectador aos sentimentos que a Petra deseja despertar. Alegria e melancolia são os principais, algumas vezes dentro de uma mesma faixa, outras vezes em diferentes, que se conversam maravilhosamente bem.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">À fotografia e edição do filme competiam a difícil tarefa de combinar os registros antigos de Elena com as novas imagens filmadas por Petra. Buscando também seguir a mesma linha de conciliação entre os opostos, o visual da produção faz o possível com os filmes antigos e com a harmonização das imagens e cores, mas este é um ponto que deixa a desejar. Entretanto, para reforçar a experiência de imersão no mundo de Elena e seu olhar sobre ela, Petra acerta ao misturar os diferentes registros de forma a confundir o espectador sobre suas autorias. Em muitas imagens, inclusive, o rosto das irmãs se confundiam, e o documentário é repleto destes detalhes sutis que entregam <a href="http://www.enecult.ufba.br/modulos/submissao/Upload-568/132323.pdf">a influência de Elena</a> na vida, sonhos, emoções, medos e personalidade de Petra.</span></p>
<figure id="attachment_13005" aria-describedby="caption-attachment-13005" style="width: 1883px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="wp-image-13005 size-full" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2019/10/foto-2.png" alt="Cena do filme Elena. A imagem mostra Elena e sua irmã Petra ainda bebê deitadas numa cama, num close nos rostos das irmãs. Elena é uma adolescente branca de cabelos lisos, e observa a irmã, no lado esquerdo da imagem, ao mesmo tempo em que segura a sua mãozinha próxima a sua bochecha esquerda. Petra, uma bebê, está deitada, de olhos fechados, abraçada com a irmã, e usa uma chupeta na boca." width="1883" height="1073" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2019/10/foto-2.png 1883w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2019/10/foto-2-300x171.png 300w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2019/10/foto-2-768x438.png 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2019/10/foto-2-1024x584.png 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2019/10/foto-2-1200x684.png 1200w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 1362px) 62vw, 840px" /><figcaption id="caption-attachment-13005" class="wp-caption-text">Petra ainda bebê com Elena; combinado com a sonorização e a narração de Petra, o trecho é um dos momentos mais emocionantes do filme (Foto: Busca Vida Filmes)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">As escolhas arriscadas de roteiro também são características fortes da diretora.</span><span style="font-weight: 400;"> Para <a href="https://www.aicinema.com.br/como-fazer-um-documentario/">os efeitos de sentido</a> buscados em um documentário, estabelecer a narração de <em>Elena</em> como um diálogo com a irmã é incomum e falha algumas vezes. Por se tratar de fatos tão íntimos, o espectador, conhecendo apenas o momento, necessita de uma contextualização um pouco mais abrangente. Contudo, a predominância dessa construção de narrativa é admirável porque revela muitos outros efeitos de sentido, como o de não invadir totalmente a intimidade de Elena.  Em momentos pontuais, Petra deixa de conversar com a irmã e tira de cena a narração escolhida para dar espaço a curtos (e emocionantes) depoimentos de pessoas que conviveram com ela, como um amigo que esteve próximo da atriz no dia de seu suicídio.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">A reconstrução da figura de Elena é um dos aspectos mais surpreendentes no roteiro e no filme como um todo. A diretora caracteriza a irmã de uma forma tão próxima e profunda que acompanhá-la ao decorrer do filme se torna uma experiência aflitiva, impressionante e dolorosa. Durante os 80 minutos, o espectador convive intimamente com as manifestações suicidas da jovem depressiva, repleta de sonhos e decepções. Assistimos através de lembranças esmaecidas a tristeza tomar conta da atriz cada vez mais, <a href="https://www.paho.org/pt/topicos/depressao">sufocando cada respiro de esperança</a> diante da vida. Acompanhamos com pesar Elena admitindo a falta de amor para consigo mesma, exigindo o máximo de si como atriz mesmo não estando saudável emocionalmente, se levando assim à exaustão</span> física e psicológica.</p>
<figure id="attachment_13006" aria-describedby="caption-attachment-13006" style="width: 1875px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="wp-image-13006 size-full" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2019/10/foto-3.png" alt="Cena do filme Elena. A imagem mostra Elena adolescente através de um espelho, quando ela se aprontava para uma apresentação de teatro. A imagem é um close em seu rosto, e ela é uma jovem branca, com os cabelos presos, e está fazendo uma maquiagem preta nos olhos." width="1875" height="1077" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2019/10/foto-3.png 1875w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2019/10/foto-3-300x172.png 300w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2019/10/foto-3-768x441.png 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2019/10/foto-3-1024x588.png 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2019/10/foto-3-1200x689.png 1200w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 1362px) 62vw, 840px" /><figcaption id="caption-attachment-13006" class="wp-caption-text">Elena em uma de suas apresentações teatrais, com cerca de 17 anos; quando ela morreu, Petra tinha sete anos (Foto: Busca Vida Filmes)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">Através de entrevistas com familiares e amigos de Elena, sentimos a dor, o desespero e a preocupação antes, “durante” e depois do <a href="https://www.paho.org/pt/topicos/suicidio">suicídio</a>. Petra possui uma capacidade transcendental de criar identificações entre as narrativas, o espectador e ela mesma. Mesmo retratando eventos tão pessoais, a humanidade escancarada dos fatos capta toda a nossa empatia. Sendo este um de seus objetivos ou não, Petra mostra que nossas angústias, dores, belezas, prazeres, necessidades, urgências e fraquezas na verdade podem ser radicalmente convergentes. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Quando lançado, o filme </span><a href="http://www.elenafilme.com/debates/"><span style="font-weight: 400;">movimentou debates</span></a><span style="font-weight: 400;"> acerca do tabu do suicídio no Brasil inteiro e o mesmo aconteceu quando chegou no catálogo da <em>Netflix</em> no começo de setembro, o mês de prevenção ao suicídio, em 2019. Desde 1990, ano da morte de Elena, o número de suicídios no Brasil teve um aumento de 30%. Hoje, entre os jovens, o suicídio é uma das maiores causas de morte e apresenta um o aumento de 2000%. Falar sobre o assunto livre de tabus </span><a href="https://g1.globo.com/ciencia-e-saude/noticia/2019/09/10/na-contramao-da-tendencia-mundial-taxa-de-suicidio-aumenta-7percent-no-brasil-em-seis-anos.ghtml"><span style="font-weight: 400;">nunca foi tão necessário</span></a><span style="font-weight: 400;">, e segundo as perspectivas, será cada vez mais. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Principalmente quando fora de ambientes privilegiados como o núcleo retratado em <em>Elena</em>, o debate sobre saúde mental precisa ser colocado como uma questão de saúde pública, e por isso, precisamos também enxergar </span><a href="http://www.epsjv.fiocruz.br/noticias/entrevista/o-suicidio-esta-associado-inclusive-a-crise-socioeconomica-que-nosso-pais"><span style="font-weight: 400;">as relações disso com o nosso contexto nacional</span></a><span style="font-weight: 400;">. Ele é resultado de crises econômicas, altas taxas de desemprego, saúde e educação precarizadas, e as políticas de prevenção ao suicídio perpassam todas essas esferas da sociedade.</span></p>
<figure id="attachment_13007" aria-describedby="caption-attachment-13007" style="width: 564px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="wp-image-13007 size-full" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2019/10/foto-4.jpg" alt="Cena do filme Elena. A imagem mostra um registro de um dos diários de Elena, que diz, escrito em tinta preta e letra cursiva sob um papel branco, a seguinte frase: &quot;Se a vida é simples, do que eu tenho medo?&quot;" width="564" height="256" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2019/10/foto-4.jpg 564w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2019/10/foto-4-300x136.jpg 300w" sizes="auto, (max-width: 564px) 85vw, 564px" /><figcaption id="caption-attachment-13007" class="wp-caption-text">&#8220;Se a vida é simples, do que eu tenho medo?&#8221; (Foto: Busca Vida Filmes)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">O documentário levanta a importância de estarmos atentos aos </span><a href="https://www.instagram.com/p/B2mmZCIFcTD/"><span style="font-weight: 400;">aspectos não-óbvios do suicídio</span></a><span style="font-weight: 400;"> e de se </span><a href="https://g1.globo.com/ciencia-e-saude/noticia/2019/09/09/setembro-amarelo-como-conversar-com-alguem-que-esta-pensando-em-cometer-suicidio.ghtml"><span style="font-weight: 400;">aprender a lidar</span></a><span style="font-weight: 400;"> com ele e </span><a href="https://eurekka.me/como-ajudar-alguem-com-depressao/"><span style="font-weight: 400;">com a depressão</span></a><span style="font-weight: 400;">. Também é uma obra importante para nos ajudar a debater e esclarecer a linha tênue que difere um retrato sensível da romantização. </span><a href="https://oglobo.globo.com/cultura/petra-costa-faz-retrato-afetivo-da-irma-morta-precocemente-em-documentario-8343197"><span style="font-weight: 400;">Como diz a própria cineasta</span></a><span style="font-weight: 400;">, Elena tem uma história que valia a pena contar. Sem intenção de ser uma biografia, uma homenagem ou apontar culpados. Mas sim conhecer e apresentar várias faces da irmã, sua “memória inconsolável”. Petra também faz questão de a destacar como parte do elenco do longa, honrando seu sonho de ser atriz de cinema. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Além da importância de todo o debate, </span><i><span style="font-weight: 400;">Elena</span></i><span style="font-weight: 400;"> mostra um movimento belíssimo de criar uma obra de Arte a partir das dores e perdas que nos rasgam o peito, por mais cruéis que elas sejam. Aliás, talvez a Arte seja exatamente isso: a transformação.</span></p>
<p>&nbsp;</p>
<p><i><span style="font-weight: 400;">No Brasil, o </span></i><a href="https://www.cvv.org.br/"><i><span style="font-weight: 400;">Centro de Valorização da Vida</span></i></a><i><span style="font-weight: 400;"> (CVV) promove apoio emocional atendendo gratuitamente todas as pessoas que querem e precisam conversar, sob total sigilo, por telefone (discando 188), e-mail e chat 24 horas todos os dias, além de postos de atendimento presencial.</span></i></p>
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