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	<title>Arquivos Critics Choice Documentary Awards &#8211; Persona | Jornalismo Cultural</title>
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		<title>Fire of love: um legado de amor e Ciência</title>
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		<pubDate>Tue, 07 Mar 2023 19:50:27 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p>Vitória Gomez Longe dos grandes números de bilheteria e do glamour do tapete vermelho, os documentários compartilham o modo divino do Cinema de contar a vida. Aqui, o retrato é através da própria realidade. Neles, sem os artifícios da ficção, o desafio se torna envolver com a apresentação de uma verdade nua e crua &#8211; &#8230; <a href="http://personaunesp.com.br/fire-of-love-critica/" class="more-link">Continue lendo<span class="screen-reader-text"> "Fire of love: um legado de amor e Ciência"</span></a></p>
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										<content:encoded><![CDATA[<figure id="attachment_30213" aria-describedby="caption-attachment-30213" style="width: 1189px" class="wp-caption alignnone"><img fetchpriority="high" decoding="async" class="size-full wp-image-30213" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/03/Captura-de-tela-2023-03-07-163557.png" alt="" width="1189" height="667" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/03/Captura-de-tela-2023-03-07-163557.png 1189w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/03/Captura-de-tela-2023-03-07-163557-800x449.png 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/03/Captura-de-tela-2023-03-07-163557-1024x574.png 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/03/Captura-de-tela-2023-03-07-163557-768x431.png 768w" sizes="(max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 1362px) 62vw, 840px" /><figcaption id="caption-attachment-30213" class="wp-caption-text">Exibido no Festival de Sundance, Fire of Love foi adquirido pela National Geographic e concorre ao Oscar de Melhor Documentário (Foto: Disney+)</figcaption></figure>
<p><b>Vitória Gomez</b></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Longe dos grandes números de bilheteria e do </span><i><span style="font-weight: 400;">glamour</span></i><span style="font-weight: 400;"> do tapete vermelho, os documentários compartilham o </span><a href="https://globoplay.globo.com/v/1335121/"><span style="font-weight: 400;">modo divino</span></a><span style="font-weight: 400;"> do Cinema de contar a vida. Aqui, o retrato é através da própria realidade. Neles, sem os artifícios da ficção, o desafio se torna envolver com a apresentação de uma verdade nua e crua &#8211; ou pelo menos, da </span><a href="https://personaunesp.com.br/navalny-critica/"><span style="font-weight: 400;">verdade de quem a conta</span></a><span style="font-weight: 400;">, já que a imparcialidade de um interlocutor é apenas sua, e não absoluta. Em </span><i><span style="font-weight: 400;">Vulcões: A Tragédia de Katia e Maurice Krafft</span></i><span style="font-weight: 400;">, porém, a História é tecida de acordo com as fotografias e filmagens da câmera e dos arquivos de Katia e Maurice Krafft, vulcanólogos franceses pioneiros no trabalho com vulcões.</span></p>
<p><span id="more-30208"></span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Enquadrando as vésperas da </span><a href="https://arstechnica.com/gaming/2023/01/love-among-the-volcanoes-fire-of-love-remembers-maurice-and-katia-krafft/"><span style="font-weight: 400;">morte dos dois</span></a><span style="font-weight: 400;"> como fio condutor da narrativa, o destino está traçado e a diretora Sara Dosa usa dos 93 minutos seguintes para recontar seus caminhos até ali. De forma curiosa, as gravações tomam forma sob a narração ora convidativa, ora morna de Miranda July. A atriz encarrega-se da importante tarefa de, junto à edição, tornar o compilado de imagens um todo, e relata os abalos sísmicos e seus aspectos técnicos tão amorosamente quanto fala sobre a relação romântica entre os dois protagonistas. </span></p>
<figure id="attachment_30212" aria-describedby="caption-attachment-30212" style="width: 1024px" class="wp-caption alignnone"><img decoding="async" class="size-full wp-image-30212" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/03/vulcoes-1.jpg" alt="" width="1024" height="576" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/03/vulcoes-1.jpg 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/03/vulcoes-1-800x450.jpg 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/03/vulcoes-1-768x432.jpg 768w" sizes="(max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 1362px) 62vw, 840px" /><figcaption id="caption-attachment-30212" class="wp-caption-text">Unida a química, a física e a geologia, a vulcanologia é a área do conhecimento que se dedica ao estudo de vulcões ativos e inativos (Foto: Disney+)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">O próprio título original do documentário é exemplificativo em retratar seu teor: </span><i><span style="font-weight: 400;">Fire of Love </span></i><span style="font-weight: 400;">(em tradução livre para o português, “fogo do amor”) é mais sobre a relação de amor de Katia e Maurice um pelo outro e de ambos pelo objeto da profissão do que é sobre os abalos sísmicos documentados em si. Os dois, que se conheceram na década de 1960, na Universidade de Estrasburgo, na França, descobriram uma </span><a href="https://www.nationalgeographic.es/ciencia/2023/01/katia-krafft-de-profesion-exploradora-de-volcanes"><span style="font-weight: 400;">peculiar paixão</span></a><span style="font-weight: 400;"> em comum pelos vulcões e, em uma época em que a área de conhecimento ainda era escassa de profissionais, se debruçaram juntos sobre os gigantes terrestres &#8211; quase literalmente.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Juntos como uma dupla no amor, na vida e na ciência, o casal passou a lua de mel e os primeiros momentos como casados na ilha de Stromboli, que abriga um dos três vulcões ativos da Itália. É mesclando as aventuras enquanto vulcanólogos aos depoimentos dos Krafft enquanto casal que </span><i><span style="font-weight: 400;">Vulcões </span></i><span style="font-weight: 400;">prende a atenção. Para eles, “</span><i><span style="font-weight: 400;">a vulcanologia é uma ciência da observação</span></i><span style="font-weight: 400;">”; para nós, a animação dos dois diante dos seres quase mitológicos, imensos demais para serem incompreendidos, e a </span><a href="https://www.thedailybeast.com/obsessed/fire-of-love-interview-about-married-couple-that-died-on-a-volcano"><span style="font-weight: 400;">coragem</span></a><span style="font-weight: 400;"> de explorá-los juntos, é que valem a pena a observação.</span></p>
<figure id="attachment_30211" aria-describedby="caption-attachment-30211" style="width: 1920px" class="wp-caption alignnone"><img decoding="async" class="size-full wp-image-30211" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/03/vulcoes-2.jpg" alt="" width="1920" height="709" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/03/vulcoes-2.jpg 1920w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/03/vulcoes-2-800x295.jpg 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/03/vulcoes-2-1024x378.jpg 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/03/vulcoes-2-768x284.jpg 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/03/vulcoes-2-1536x567.jpg 1536w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/03/vulcoes-2-1200x443.jpg 1200w" sizes="(max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 1362px) 62vw, 840px" /><figcaption id="caption-attachment-30211" class="wp-caption-text">Esnobado na mesma categoria do Oscar, Fire of Love venceu o prêmio de melhor montagem no Festival de Sundance (Foto: Disney+)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">Colecionando centenas de horas de gravação, longas-metragens, fotografias e obras literárias, as produções de Katia e Maurice Krafft não só serviram de </span><a href="https://www.indiewire.com/2022/11/toolkit-fire-of-love-director-sara-dosa-1234782375/"><span style="font-weight: 400;">inspiração para Dosa</span></a><span style="font-weight: 400;">: o cineasta Werner Herzog também foi um dos que bebeu da fonte do legado dos franceses. Em </span><a href="https://www.youtube.com/watch?v=6uMsFhxcMgw"><i><span style="font-weight: 400;">Visita ao Inferno</span></i></a><span style="font-weight: 400;">, o diretor investiga a relação entre Homem e misticismo lidando com vulcões ativos, e usando de passagens documentais do casal. No mesmo ano, Herzog lança </span><i><span style="font-weight: 400;">The Fire Within: A Requiem for Katia and Maurice Krafft</span></i><span style="font-weight: 400;">. Com a mesma proposta de </span><i><span style="font-weight: 400;">Fire of Love</span></i><span style="font-weight: 400;">, o alemão une filmagens dos Krafft para discorrer sobre a vida pessoal dos dois.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Entre um vasto acervo de material, a </span><a href="https://personaunesp.com.br/tudo-em-todo-o-lugar-ao-mesmo-tempo-critica/"><span style="font-weight: 400;">eletrizante montagem</span></a><span style="font-weight: 400;"> de Erin Casper e Jocelyne Chaput impulsiona </span><i><span style="font-weight: 400;">Vulcões</span></i><span style="font-weight: 400;">. A narração literária de July só é possível graças ao trabalho das editoras em compilar trechos sem contexto, depoimentos e artifícios animados, como mapas e infográficos de vulcões, de forma coesa e estável. Dando espaço para Maurice e Katia proferirem suas declarações de amor um ao outro, e para os abalos sísmicos acontecerem em tela no seu tempo real, a sensibilidade da dupla mescla a contação de histórias ao trabalho da vulcanologia e os momentos de reflexão que o próprio casal demanda em suas gravações, em que apresentam </span><a href="https://personaunesp.com.br/colectiv-critica/"><span style="font-weight: 400;">imagens surpreendentes</span></a><span style="font-weight: 400;">, quase lúdicas.</span></p>
<figure id="attachment_30209" aria-describedby="caption-attachment-30209" style="width: 1280px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-full wp-image-30209" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/03/vulcoes.jpg" alt="" width="1280" height="720" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/03/vulcoes.jpg 1280w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/03/vulcoes-800x450.jpg 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/03/vulcoes-1024x576.jpg 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/03/vulcoes-768x432.jpg 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/03/vulcoes-1200x675.jpg 1200w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 1362px) 62vw, 840px" /><figcaption id="caption-attachment-30209" class="wp-caption-text">No Critics&#8217; Choice Documentary Awards, Fire of Love venceu Melhor Documentário de Arquivo, além de ter sido indicado em outras seis categorias (Foto: Disney+)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">Em determinados momentos de </span><i><span style="font-weight: 400;">Fire of Love</span></i><span style="font-weight: 400;">, Maurice, convertido em um </span><i><span style="font-weight: 400;">popstar</span></i><span style="font-weight: 400;">, afirma saber que morreria em um vulcão. </span><a href="https://www.parquecientec.usp.br/publicacoes/katia-krafft"><span style="font-weight: 400;">Katia</span></a><span style="font-weight: 400;">, em outra passagem, sabe que seu destino é do lado do marido, onde quer que fosse &#8211; mas os dois já sabiam onde seria. Como um contraponto &#8211; ela calculista e estudiosa, ele aventureiro e imprudente a ponto de entrar em um lago de ácido e sonhar em descer um rio de lava em um barco -, a dupla cativa com suas personalidades. Seja dançando com trajes metálicos em frente a um vulcão em erupção ou discutindo os aspectos técnicos de um abalo, os Krafft mantiveram seu </span><a href="https://personaunesp.com.br/crip-camp-revolucao-pela-inclusao-critica/"><span style="font-weight: 400;">legado de amor</span></a><span style="font-weight: 400;"> e de ciência.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Em vida, os vulcanólogos se tornaram referência na área, a ponto de serem chamados toda vez que uma erupção se iniciava. Eles presenciaram os assassinatos causados pelo Mount Saint Helen, nos Estados Unidos; passaram pelo inconstante </span><a href="https://www.nationalgeographicbrasil.com/meio-ambiente/2021/06/um-dos-vulcoes-mais-perigosos-da-africa-o-monte-nyiragongo-entrou-em-erupcao"><span style="font-weight: 400;">Nyiragongo</span></a><span style="font-weight: 400;">, no Congo; o até então inocente e turístico Krafla, na Islândia; e o destruidor Nevado del Ruiz, na Colômbia. Foi no pós-tragédia do vulcão colombiano que Katia e Maurice, que optaram por não ter filhos para investigar as maravilhas naturais, decidiram seu projeto final. O casal sabia do potencial destruidor do seu objeto de trabalho, e, após a morte de cerca de 23 mil pessoas por negligência do Estado da Colômbia, que havia sido avisado de que o Nevado del Ruiz poderia entrar em atividade, escolheu dedicar seu tempo e estudo para alertar autoridades acerca dos </span><a href="https://agenciaeconordeste.com.br/a-erupcao-do-vulcao-anak-krakatoa-na-indonesia/"><span style="font-weight: 400;">perigos dos abalos</span></a><span style="font-weight: 400;"> e das medidas de proteção.</span></p>
<figure id="attachment_30210" aria-describedby="caption-attachment-30210" style="width: 1240px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-full wp-image-30210" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/03/vulcoes-3.jpeg" alt="" width="1240" height="698" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/03/vulcoes-3.jpeg 1240w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/03/vulcoes-3-800x450.jpeg 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/03/vulcoes-3-1024x576.jpeg 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/03/vulcoes-3-768x432.jpeg 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/03/vulcoes-3-1200x675.jpeg 1200w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 1362px) 62vw, 840px" /><figcaption id="caption-attachment-30210" class="wp-caption-text">No Oscar 2023, Fire of love compete com <a href="https://personaunesp.com.br/tudo-o-que-respira-critica/">Tudo o Que Respira</a>, All the Beauty and the Bloodshed, A House Made of Splinters e Navalny (Foto: Disney+)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">Em uma das categorias mais diversas e </span><a href="https://personaunesp.com.br/escrevendo-com-fogo-critica/"><span style="font-weight: 400;">políticas</span></a><span style="font-weight: 400;"> do </span><i><span style="font-weight: 400;">Oscar</span></i><span style="font-weight: 400;">, o retrato de vida e trabalho do casal francês abocanhou uma indicação como Melhor Documentário em Longa-metragem, mesma nomeação conquistado no </span><i><span style="font-weight: 400;">BAFTA</span></i><span style="font-weight: 400;">, o </span><i><span style="font-weight: 400;">Oscar </span></i><span style="font-weight: 400;">britânico. Indicado em Documentário, que é Cinema, sim: como a </span><a href="https://personaunesp.com.br/animacao-oscar-artigo/"><span style="font-weight: 400;">Animação</span></a><span style="font-weight: 400;"> ou a ficção, se Katia e Maurice Krafft abraçaram o documental como meio para a Arte, por que a </span><a href="https://deadline.com/2023/03/fire-of-love-searchlight-pictures-theatrical-remake-oscar-nominated-national-geographic-documentary-love-story-french-volcanologists-1235277089/"><span style="font-weight: 400;">indústria cinematográfica reluta</span></a><span style="font-weight: 400;"> em o fazer?</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Ao final, a homenagem à dupla só não supera o sucesso da trajetória profissional dos vulcanólogos. O projeto de alerta e </span><a href="https://brasil.elpais.com/brasil/2015/11/12/internacional/1447365646_003055.html"><span style="font-weight: 400;">conscientização</span></a><span style="font-weight: 400;"> salvou vidas, mas não a dos Krafft. Na observação do Mount Uzen, em erupção no Japão, os dois não deixaram o território e filmaram os destroços causados pelo gigante terrestre. O casal foi encontrado morto, lado a lado e de mãos dadas. Em memória a eles e ao seu legado, </span><i><span style="font-weight: 400;">Vulcões: A Tragédia de Katia e Maurice Krafft </span></i><span style="font-weight: 400;">relata sua morte, mas também o trabalho de uma vida. De </span><a href="https://www.bbc.com/portuguese/articles/cj5yye4z369o"><span style="font-weight: 400;">duas vidas</span></a><span style="font-weight: 400;">, unidas pela paixão pelos vulcões, retratadas pela paixão pelo Cinema. </span></p>
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		<title>O sonho da Ascensão é uma farsa</title>
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		<pubDate>Fri, 25 Mar 2022 16:39:07 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p>Enrico Souto “Trabalhe duro, e todos os seus sonhos se realizarão”. Esse é um tipo de fala muito familiar para nós, que vivemos imersos em um sociedade capitalista que preza por liberdade acima de tudo – inclusive, de nossa própria humanidade. E, afinal, se mesmo Bong Joon-Ho se surpreendeu em como pessoas do mundo inteiro &#8230; <a href="http://personaunesp.com.br/ascensao-documentario-critica/" class="more-link">Continue lendo<span class="screen-reader-text"> "O sonho da Ascensão é uma farsa"</span></a></p>
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										<content:encoded><![CDATA[<figure id="attachment_26943" aria-describedby="caption-attachment-26943" style="width: 3840px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-full wp-image-26943" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/03/IMAGEM-1.webp" alt="Cena do documentário Ascension. Imagem retangular e colorida. Nela, vemos uma garota asiática, sentada de frente para o seu celular, que fica preso sobre um tripé com uma iluminação de luz branca em formato de anel. Ela fala algo enquanto olha para o aparelho e levanta com a mão esquerda um tênis branco na altura de seu rosto." width="3840" height="2160" /><figcaption id="caption-attachment-26943" class="wp-caption-text">Indicado a Melhor Documentário no Oscar 2022, Ascension está entre três dos cinco filmes selecionados para a categoria este ano que são dirigidos por mulheres (Foto: MTV Documentary Films)</figcaption></figure>
<p><b>Enrico Souto</b></p>
<p><i><span style="font-weight: 400;">“Trabalhe duro, e todos os seus sonhos se realizarão”</span></i><span style="font-weight: 400;">. Esse é um tipo de fala muito familiar para nós, que vivemos imersos em um sociedade capitalista que preza por liberdade acima de tudo – inclusive, de nossa </span><a href="https://latinoamerica21.com/br/entre-o-sonho-americano-e-o-purgatorio/"><span style="font-weight: 400;">própria humanidade</span></a><span style="font-weight: 400;">. E, afinal, se mesmo </span><a href="https://www.ihu.unisinos.br/78-noticias/596211-quanto-mais-extremo-o-capitalismo-mais-extrema-e-a-desigualdade-afirma-diretor-do-filme-parasita"><span style="font-weight: 400;">Bong Joon-Ho</span></a><span style="font-weight: 400;"> se surpreendeu em como pessoas do mundo inteiro se identificaram com o seu (mais localizado possível) </span><a href="https://personaunesp.com.br/parasita-critica/"><span style="font-weight: 400;">retrato</span></a><span style="font-weight: 400;"> do capitalismo tardio sul-coreano, nossas vivências dentro desse sistema começam a se costurar, transcendendo territórios e aproximando-se de uma experiência universal. Entretanto, essa frase em específico é retirada de uma propaganda de rua do governo chinês. E a China não é capitalista.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">A atual conjuntura econômica chinesa é complexa e um fenômeno único na história. Vivendo hoje um “</span><a href="https://www.youtube.com/watch?v=o5sXPAUmeKg"><span style="font-weight: 400;">socialismo de mercado</span></a><span style="font-weight: 400;">”, essa </span><a href="https://www.youtube.com/watch?v=eJpqTO-PaY0"><span style="font-weight: 400;">alternativa</span></a><span style="font-weight: 400;"> ao socialismo tradicional surge quando a China, para evitar sofrer boicotes, embargos e barrar seu desenvolvimento produtivo, se viu na necessidade de fundir-se à lógica mundial de comércio capitalista, em concomitante à outras formas coletivas de propriedade. Contudo, o que parecia uma </span><a href="https://revistas.face.ufmg.br/index.php/novaeconomia/article/view/5544"><span style="font-weight: 400;">relação mutualística</span></a><span style="font-weight: 400;"> logo revela-se um violento parasitismo, que passa a contaminar cada aspecto de sua sociedade. E, à vista disso, os efeitos desse fenômeno são percebidos com muita sensibilidade por </span><a href="https://www.youtube.com/watch?v=lHLGfZjm4vM"><span style="font-weight: 400;">Jessica Kingdon</span></a><span style="font-weight: 400;"> em </span><a href="https://personaunesp.com.br/tag/melhor-documentario/"><i><span style="font-weight: 400;">Ascension</span></i></a><span style="font-weight: 400;">, sua estreia como diretora de longa-metragens, que consta entre os indicados a Melhor Documentário do </span><a href="https://personaunesp.com.br/tag/oscar-2022/"><i><span style="font-weight: 400;">Oscar </span></i><span style="font-weight: 400;">2022</span></a><span style="font-weight: 400;">. </span></p>
<p><span id="more-26942"></span></p>
<figure id="attachment_26944" aria-describedby="caption-attachment-26944" style="width: 1920px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-full wp-image-26944" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/03/IMAGEM-2-10.jpg" alt="Cena do documentário Ascension. Imagem retangular e colorida. Nela, vemos uma operária chinesa, vestindo uma jaqueta azul e vermelha, com o cotovelo e a mão apoiados sobre uma bacia cinza. Ela segura uma garrafa de plástico transparente em uma das mãos, e a posiciona de forma que dê a impressão de que ela está dirigindo o objeto até a sua boca. Na bacia, se encontram inúmeras garrafas iguais às que ela segura." width="1920" height="1080" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/03/IMAGEM-2-10.jpg 1920w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/03/IMAGEM-2-10-800x450.jpg 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/03/IMAGEM-2-10-1024x576.jpg 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/03/IMAGEM-2-10-768x432.jpg 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/03/IMAGEM-2-10-1536x864.jpg 1536w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/03/IMAGEM-2-10-1200x675.jpg 1200w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 1362px) 62vw, 840px" /><figcaption id="caption-attachment-26944" class="wp-caption-text">Gravado por 52 locações chinesas ao todo, Ascension foi comercializado no Brasil pelo serviço de streaming Paramount+ (Foto: MTV Documentary Films)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">O filme gira em torno da doutrina do “</span><a href="https://chinavistos.com.br/sonho-chines/"><span style="font-weight: 400;">sonho chinês</span></a><span style="font-weight: 400;">” – que pouco se conecta essencialmente com o que conhecemos como “sonho americano”. Esse conceito foi apresentado por Xi Jinping, presidente do país, em 2012 e, desde então, tem sido posto como projeto político nacional. Baseando-se em condutas da China Antiga, seu maior objetivo é finalmente </span><a href="https://pcdob.org.br/noticias/socialismo-na-nova-era-garantia-da-realizacao-do-sonho-chines/"><span style="font-weight: 400;">expurgar os traumas</span></a><span style="font-weight: 400;"> do país – com um longo passado de colonização e </span><a href="https://www.terra.com.br/noticias/educacao/historia/japao-contra-china-o-massacre-de-nanquim,8008affdfb1ea310VgnCLD200000bbcceb0aRCRD.html"><span style="font-weight: 400;">dominação externa</span></a><span style="font-weight: 400;"> –, superar suas crises, ultrapassar a hegemonia capitalista e estabelecer-se como a maior potência econômica e tecnológica da civilização moderna.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Ao contrário dos fundamentos de liberdade e crescimento individual pregados no ocidente, o sonho chinês, além de basear-se em um forte sentimento nacionalista e em rígidas normas sociais, coloca-se como um processo coletivo em seu cerne. </span><i><span style="font-weight: 400;">“O sonho chinês é, acima de tudo, o sonho do povo. Nós devemos realizá-lo dependendo proximamente das pessoas”</span></i><span style="font-weight: 400;">, </span><a href="http://portuguese.people.com.cn/n3/2019/0930/c309806-9619647.html"><span style="font-weight: 400;">são as palavras</span></a><span style="font-weight: 400;"> de Xi Jinping. Porém, a obra de Kingdon demonstra como, conforme o país se entrelaçou com a economia mundial, a busca pelo “rejuvenescimento da nação chinesa” confirma-se corrompida. De </span><a href="https://www.consumidormoderno.com.br/2019/07/23/made-in-china-como-virou-a-industria-do-mundo/"><span style="font-weight: 400;">fábrica do mundo</span></a><span style="font-weight: 400;"> a </span><a href="https://www.indexlaw.org/index.php/revistadtmat/article/view/1240"><span style="font-weight: 400;">sociedade de consumo</span></a><span style="font-weight: 400;">, a estrutura socioeconômica inerentemente contraditória da China faz com que os cenários expostos pelo longa sejam assustadoramente reconhecíveis a nós.  </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Apesar da contextualização geral feita aqui, não é necessária nenhuma dessas informações para absorver a </span><a href="https://www.theguardian.com/film/2022/jan/10/ascension-review-chinas-bizarre-descent-into-capitalist-excess"><span style="font-weight: 400;">mensagem de </span><i><span style="font-weight: 400;">Ascensão</span></i></a><span style="font-weight: 400;"> – como foi traduzido para cá. Diferente do que pode ter parecido até agora, o documentário não tem cunho teórico, muito menos informativo. A partir de uma estética limpa e minimalista, Kingdon dispensa explicações metódicas e narrações expositivas, decidindo focar somente na observação silenciosa das pessoas e de como aquelas condições afetam tanto sua rotina quanto sua relação com os outros e com sua própria subjetividade.</span></p>
<figure id="attachment_26945" aria-describedby="caption-attachment-26945" style="width: 1200px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-full wp-image-26945" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/03/IMAGEM-3-13.jpg" alt="Fotografia retangular e colorida. Nela, vemos um grupo de três pessoas que se apoiam sobre uma parede. Sobre ela, está colado um outdoor com uma propaganda chinesa. A imagem que entra em foco na peça publicitária é a de uma boneca japonesa, que veste um kimono vermelho estampado com flores, e os dizeres são todos escritos em ideogramas chineses. Porém, o que chama a atenção são grandes rasgos que se apresentam sobre parte do pôster." width="1200" height="675" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/03/IMAGEM-3-13.jpg 1200w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/03/IMAGEM-3-13-800x450.jpg 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/03/IMAGEM-3-13-1024x576.jpg 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/03/IMAGEM-3-13-768x432.jpg 768w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 1362px) 62vw, 840px" /><figcaption id="caption-attachment-26945" class="wp-caption-text">As propagandas do governo, que disseminam a palavra do sonho chinês, costumam se apropriar a arte tradicional do país, evocando o nacionalismo da população; na imagem, três pessoas à frente de um pôster do sonho chinês adulterado (Foto: Reprodução)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">Jessica Kingdon já havia explorado as circunstâncias humanitárias da China no premiado documentário de curta-metragem </span><a href="https://vimeo.com/265913637"><i><span style="font-weight: 400;">Commodity City</span></i></a><span style="font-weight: 400;">, que examina a vida de comerciantes do </span><a href="https://destinochina.com/atacado-no-mercado-de-yiwu-na-china/"><span style="font-weight: 400;">Mercado de Yuwi</span></a><span style="font-weight: 400;">, mas decide expandir seus horizontes e investigar um panorama mais amplo. De descendência judaica e chinesa, a cineasta americana, sem nunca necessitar de verbalizações, não esconde o quão pessoais estes registros são para ela. Seu primeiro longa é nomeado a partir de um poema do seu próprio avô, Zheng Ze, escrito no ápice do </span><a href="https://iscap.pt/cei/e-rei/n9vol1/artigos/Lanfeng%20Zhou_O%20S%C3%A9culo%20de%20Humilha%C3%A7%C3%A3o%20e%20a%20sua%20influ%C3%AAncia%20na%20constru%C3%A7%C3%A3o%20da%20identidade%20nacional%20na%20China.pdf"><span style="font-weight: 400;">Século da humilhação</span></a><span style="font-weight: 400;">, em 1912 – um período de grande crise na história da China, logo antes da Primeira Guerra Mundial. Kingdon, então, se apossa das inquietudes de seu avô e ressignifica aqueles versos para tentar compreender a realidade de hoje.</span></p>
<blockquote><p><span style="font-weight: 400;">“Minha espada em mãos, eu ascendo até a torre.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Eu olho para longe, esperando aliviar minhas aflições.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">A torre é alta demais para escalar.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Em vez disso, meus problemas só aumentam.”</span></p></blockquote>
<p><span style="font-weight: 400;">Após esse enxerto, logo nos transportamos para dentro do </span><a href="https://www.youtube.com/watch?v=WeIsyqRLjXI"><span style="font-weight: 400;">sensível olhar</span></a><span style="font-weight: 400;"> de Kingdon. Acompanhamos uma comoção em um centro comercial chinês, onde os recrutadores das fábricas, com seus megafones, gritam a plenos pulmões ofertas de trabalho à multidão aflita. Os direitos mais básicos, como um ambiente ventilado ou cadeiras para se sentar, são anunciados como benefícios exclusivos e imperdíveis, enquanto a falta de rigor sanitário é considerada um atrativo para uma população que não consegue acesso sequer a exames médicos. Tudo isso por um salário pífio e irrisório, o que não impede que as ruas continuem abarrotadas.</span></p>
<p><figure id="attachment_26946" aria-describedby="caption-attachment-26946" style="width: 1200px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-full wp-image-26946" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/03/IMAGEM-4-1.webp" alt="Cena do documentário Ascension. Imagem retangular e colorida. Vemos, de cima, em uma visão panorâmica, a imagem de uma extensa piscina que ocupa o terraço de um prédio luxuoso. Além disso, três funcionários vestindo ternos andam sobre a ponta do terraço, aparentemente concluindo uma manutenção na piscina, sem nenhum tipo de equipamento de segurança." width="1200" height="675" /><figcaption id="caption-attachment-26946" class="wp-caption-text">“Para mim, [fazer o filme] foi muito sobre entender o capitalismo em um contexto diferente, fora dos Estados Unidos, em um país que ainda nomeia-se comunista”, disse Jessica Kingdon, <a href="https://www.youtube.com/watch?v=hhSyuhHroW0">em entrevista</a> ao GoldDerby (Foto: MTV Documentary Films)</figcaption></figure><span style="font-weight: 400;">Nesse início, a câmera posiciona-se afastada, separada daquele corpo social e fluxo urbano. A perspectiva vêm de cima e exprime-se através de um olhar invasivo, que se embrenha sobre o cotidiano dessas pessoas sem que elas nem percebam. Mesmo com o distanciamento, a sensação é de abjeção, como se o simples ato de observar fosse rude ou até imoral. Com isso, Kingdon – que também assina a cinematografia – assume o mesmo lugar de nós, </span><a href="https://pantheon.ufrj.br/handle/11422/2501"><span style="font-weight: 400;">espectadores ocidentais</span></a><span style="font-weight: 400;">: o de estrangeira. Ainda que seja parte de sua ancestralidade, a cineasta entende sua posição como leiga e se prontifica a mergulhar no âmago da humanidade daquele povo.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">E, então, ao invés do que a introdução incita, somos levados a uma jornada interna e confidente a esse universo lúgubre. Cruzamos por diversos fragmentos da vida chinesa e, toda vez que pulamos de um cenário a outro, essa consciência de uma aproximação comedida volta a aparecer, dando ao filme um </span><a href="https://repositorio.bc.ufg.br/bitstream/ri/4205/5/TCCG%20-%20Jornalismo%20-%20Marielle%20Alves.pdf"><span style="font-weight: 400;">caráter lúdico</span></a><span style="font-weight: 400;"> de curiosidade e constante descoberta, sempre acompanhado de um incômodo frio na espinha. A fotografia é hipnotizante, utilizando-se do contraste entre enquadramentos abertos e fechados para criar uma </span><a href="https://www.youtube.com/watch?v=8QwIXfNACK0"><span style="font-weight: 400;">corrente surreal de imagens</span></a><span style="font-weight: 400;">. </span><i><span style="font-weight: 400;">Ascension</span></i><span style="font-weight: 400;"> não precisa dizer nada, não só porque toda a sua carga de significado se apresenta dentro da sua rica linguagem cinematográfica, mas também pois sua narrativa depende de uma bagagem de signos que somente a enunciação jamais abarcaria. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Assim sendo, os trabalhadores das fábricas chinesas são os primeiros contingentes a serem abordados. Se a promessa de urbanização e modernização chinesa foi cumprida, isso não impediu que o mercado de exportação do país continuasse explorando a população local mais vulnerável, a partir de uma </span><a href="https://www.engeplus.com.br/noticia/economia/2017/por-que-os-produtos-da-china-sao-mais-baratos"><span style="font-weight: 400;">mão-de-obra barata</span></a><span style="font-weight: 400;"> e sucateada, implementada em condições insalubres e indignas. Presenciamos as trabalhadoras debruçadas sobre diferentes linhas de montagem, ocupando funções automatizadas, </span><a href="https://jacobin.com.br/2022/01/para-marx-a-alienacao-era-central-para-a-compreensao-do-capitalismo/"><span style="font-weight: 400;">alheios do processo</span></a><span style="font-weight: 400;"> de formação daqueles produtos e, consequentemente, do valor legítimo de seu trabalho – ao mesmo tempo que nunca verão os frutos dessa labuta.</span></p>
<figure id="attachment_26947" aria-describedby="caption-attachment-26947" style="width: 1800px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-full wp-image-26947" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/03/IMAGEM-5-6.jpg" alt="Cena do documentário Ascension. Imagem retangular e colorida. Nela, vemos uma mulher de costas, segurando seu celular em uma das mãos, e a cabeça de uma boneca realista em tamanho real, posta sobre uma torre de apoio, na outra. Nas duas mãos ela veste luvas de proteção brancas. Sobre a mesma mesa onde se apoia a cabeça, vemos espalhadas diversas outras partes da boneca, como pernas, braços e torsos." width="1800" height="1013" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/03/IMAGEM-5-6.jpg 1800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/03/IMAGEM-5-6-800x450.jpg 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/03/IMAGEM-5-6-1024x576.jpg 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/03/IMAGEM-5-6-768x432.jpg 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/03/IMAGEM-5-6-1536x864.jpg 1536w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/03/IMAGEM-5-6-1200x675.jpg 1200w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 1362px) 62vw, 840px" /><figcaption id="caption-attachment-26947" class="wp-caption-text">Essa abordagem observacional e sutil também possibilitou que o filme transmitisse sua mensagem de forma mais sofisticada e menos tendenciosa, dando abertura para interpretações alternativas do público, mas sem deixar de se posicionar da sua maneira (Foto: MTV Documentary Films)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">É desse modo que os paradoxos inerentes ao socialismo chinês tomam forma na nossa frente. Aliando-se à </span><a href="https://www.uol/noticias/especiais/retrospectiva-nyt-china.htm#china-abraca-a-globalizacao"><span style="font-weight: 400;">globalização</span></a><span style="font-weight: 400;">, no esforço por alçar autonomia política e econômica, ironicamente a China se vê mais uma vez refém do imperialismo ocidental. Da produção de camisetas que estampam o </span><i><span style="font-weight: 400;">slogan</span></i><span style="font-weight: 400;"> do </span><a href="https://www.cnnbrasil.com.br/internacional/inteligencia-de-trump-china-e-a-maior-ameaca-aos-eua-desde-a-segunda-guerra/"><span style="font-weight: 400;">governo de Trump</span></a><span style="font-weight: 400;"> à grotescamente meticulosa fabricação de bonecas sexuais: todos produtos que serão exportados e consumidos por homens de uma elite ocidental branca, e esculpidos por mulheres da classe operária chinesa em circunstâncias impróprias e perigosas. Fatalmente, espelha-se ali as </span><a href="https://www.comciencia.br/a-china-na-economia-mundo-capitalista-de-1840-aos-dias-atuais-da-incorporacao-forcada-a-integracao-total-voluntaria-e-irreversivel/"><span style="font-weight: 400;">convenções sistemáticas do capitalismo</span></a></p>
<p><i><span style="font-weight: 400;">Ascension</span></i><span style="font-weight: 400;"> também mostra como esse modelo de </span><a href="https://www.youtube.com/watch?v=4a4XBSaNTBQ"><span style="font-weight: 400;">produção alienada</span></a><span style="font-weight: 400;"> é conduzida para outras </span><a href="http://www.anpad.org.br/admin/pdf/2012_GPR310%20TC.pdf"><span style="font-weight: 400;">dimensões sociais</span></a><span style="font-weight: 400;">. Cursos de preparação profissional formam-se sobre um molde praticamente militarizado, baseado em </span><a href="http://www.justificando.com/2017/12/12/acesso-justica-o-drama-da-classe-trabalhadora-nao-comecou-com-reforma-trabalhista/"><span style="font-weight: 400;">hierarquias severas</span></a><span style="font-weight: 400;"> e sem espaço para debate e pensamento crítico. Em um treinamento de mordomos, por exemplo, eles são ensinados a manter sempre a postura de submissão: </span><i><span style="font-weight: 400;">“Nossos clientes são principalmente pessoas ricas, que tendem a fazer o que bem entenderem e a depositar seu mau-humor em vocês. E vocês, como membros da indústria de serviço, precisam agir profissionalmente”</span></i><span style="font-weight: 400;">, é o que aponta a instrutora.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">São nesses momentos, quando Kingdon aprofunda-se na contraposição entre os trabalhadores e a aristocracia chinesa – cegamente obcecada pela cultura europeia –, que o documentário ganha um tom quase tragicômico. A partir de sua segunda metade, vemos as implicações da tal busca por desenvolvimento tecnológico e a </span><a href="http://www.anpad.org.br/admin/pdf/2012_GPR310%20TC.pdf"><span style="font-weight: 400;">transição do país</span></a><span style="font-weight: 400;"> de uma nação industrial para mais uma </span><a href="https://aun.webhostusp.sti.usp.br/index.php/2021/09/02/economia-da-atencao-e-universo-das-telas-entenda-por-que-e-tao-dificil-se-desconectar/"><span style="font-weight: 400;">economia de atenção</span></a><span style="font-weight: 400;"> no auge do </span><a href="https://ambitojuridico.com.br/cadernos/direito-do-trabalho/uberizacao-da-revolucao-no-mundo-capitalista-a-evolucao-das-novas-formas-de-trabalho-humano/"><span style="font-weight: 400;">capitalismo selvagem</span></a><span style="font-weight: 400;">. A ideia de que, na </span><a href="https://www.youtube.com/watch?v=rrXFBSD0nRw"><span style="font-weight: 400;">era da </span><i><span style="font-weight: 400;">internet</span></i></a><span style="font-weight: 400;">, ou você influencia ou é influenciado, é completamente abraçada por uma nova classe empreendedora que reduz tudo à mercadoria. Qualquer conhecimento que não possa ser monetizado torna-se obsoleto, enquanto a concepção do sonho chinês é deturpada e transformada em um discurso meritocrático vazio de ascensão e </span><a href="https://www.brasildefato.com.br/2019/10/25/e-preciso-combater-o-individualismo-e-o-consumismo-diz-stedile-em-evento-na-ufpa"><span style="font-weight: 400;">ganho individual</span></a><span style="font-weight: 400;">.</span></p>
<figure id="attachment_26948" aria-describedby="caption-attachment-26948" style="width: 4096px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-full wp-image-26948" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/03/IMAGEM-6-1.webp" alt="Cena do documentário Ascension. Imagem retangular e colorida. Nela, vemos de cima, um grupo enorme de pessoas, vestindo bóias rosas e amarelas, sendo levados pela correnteza de uma grande piscina de um parque aquático. O cenário é dia." width="4096" height="2160" /><figcaption id="caption-attachment-26948" class="wp-caption-text">Mesmo liderando as indicações no Critics Choice Documentary Awards ao lado de Summer of Soul, Ascension infelizmente saiu da premiação sem ser contemplado (Foto: MTV Documentary Films)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">A trilha sonora de Dan Deacon, ainda que excessivamente eclética – ora firmada em uma </span><a href="http://akgerber.com/moi.html"><span style="font-weight: 400;">sonoridade rumorosa</span></a><span style="font-weight: 400;">, ora acústica, regrada por instrumentos de corda –, cumpre seu papel em denotar a discrepância absurda entre contextos tão fisicamente próximos. Quando os sintetizadores futuristas e sintéticos do compositor são sobrepostos aos ruídos caóticos e indistintos de uma festa de formatura de um grupo de estudantes de </span><a href="https://www.youtube.com/watch?v=VFaEaJakl_A"><span style="font-weight: 400;">classe-média</span></a><span style="font-weight: 400;">, procurando sobre aquele parque aquático algum tipo de validação e </span><a href="https://www.scielo.br/j/tes/a/FZdfwbdkV66fsJGzJwyGVpP/?lang=pt"><span style="font-weight: 400;">recompensa imediata</span></a><span style="font-weight: 400;">, crentes de que com empenho eles conquistarão tudo que desejarem, prova-se ainda mais artificial a construção dessas relações – superficiais e alheias da realidade.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Indo além do seu formidável comentário político, Jessica Kingdon entrega uma brilhante experiência sensorial. Mostrando que fazer um bom documentário não depende apenas de um extenso acervo de informação, a diretora usa todos os elementos da linguagem cinematográfica ao seu favor, instigando nossos sentidos e nos transferindo para dentro desse cenário destrutivo da forma mais palpável que uma obra audiovisual chega. No </span><i><span style="font-weight: 400;">Oscar</span></i><span style="font-weight: 400;">, em que foi indicado para Melhor Documentário, </span><i><span style="font-weight: 400;">Ascension</span></i><span style="font-weight: 400;"> acompanha uma leva de documentários sobre a questão da China que deram as caras em anos anteriores, como o curta </span><a href="https://personaunesp.com.br/do-not-split-critica/"><i><span style="font-weight: 400;">Do Not Split</span></i></a><span style="font-weight: 400;"> e </span><a href="https://www.brasildefato.com.br/2020/03/01/artigo-filme-industria-americana-mostra-precarizacao-do-trabalho-crua-e-desigual"><i><span style="font-weight: 400;">Indústria Americana</span></i></a><span style="font-weight: 400;">, que ganhou na mesma categoria em 2020. Porém, para esse ano, sua chance de vitória é pouca, dado que saiu de mãos vazias na maioria das grandes premiações em que foi indicado, enquanto compete aqui com gigantes como </span><a href="https://personaunesp.com.br/flee-critica/"><i><span style="font-weight: 400;">Flee</span></i></a><span style="font-weight: 400;"> e </span><a href="https://personaunesp.com.br/summer-of-soul-critica/"><i><span style="font-weight: 400;">Summer of Soul</span></i></a><span style="font-weight: 400;">.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Por meio de um estudo íntimo e refinado, </span><i><span style="font-weight: 400;">Ascension</span></i><span style="font-weight: 400;"> revela que ecos da ideologia americana contaminaram os quatro cantos da China. Talvez o “sonho chinês” já não pareça tão distante dos preceitos do “sonho americano”. No fim das contas, é a mesma falácia de que, com persistência e força de vontade, tudo é possível. Ideia essa calcada sobre o sangue de trabalhadores e de uma falsa esperança que legitima opressões, à medida que edificada minuciosamente para esterilizar qualquer fagulha de reação e isentar os verdadeiros responsáveis por tamanhas atrocidades. E é assim que, ao testemunhar paralelos entre a decadente realidade chinesa e a nossa, sob o olhar preciso de Jessica Kingdon, não existe outra conclusão possível: </span><a href="https://www.youtube.com/watch?v=ChgT6KcJfog"><span style="font-weight: 400;">reconciliações são impossíveis</span></a><span style="font-weight: 400;"> com a farsa do capitalismo. </span></p>
<div class="jetpack-video-wrapper"><iframe loading="lazy" title="Ascension Trailer | MTV Entertainment Studios" width="840" height="473" src="https://www.youtube.com/embed/c7Z4DRhy9pI?feature=oembed" frameborder="0" allow="accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share" referrerpolicy="strict-origin-when-cross-origin" allowfullscreen></iframe></div>
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		<title>Hunger Ward: o mundo precisa ver o quanto as pessoas do Iémen sofrem</title>
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		<pubDate>Sun, 11 Apr 2021 20:16:38 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p>Aviso: esse texto contém imagens sensíveis de crianças em situação de desnutrição. Vitória Lopes Gomez É impossível assistir Hunger Ward sem desviar os olhos. O curta-metragem acompanha duas profissionais de saúde em clínicas de alimentação terapêutica no Iémen, onde lutam para salvar crianças da morte por desnutrição. Sem hesitar em filmar o sofrimento, o diretor &#8230; <a href="http://personaunesp.com.br/hunger-ward-critica/" class="more-link">Continue lendo<span class="screen-reader-text"> "Hunger Ward: o mundo precisa ver o quanto as pessoas do Iémen sofrem"</span></a></p>
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										<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: left;"><i><span style="font-weight: 400;">Aviso: esse texto contém imagens sensíveis de crianças em situação de desnutrição.</span></i></p>
<figure id="attachment_19799" aria-describedby="caption-attachment-19799" style="width: 840px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-large wp-image-19799" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/04/hunger-ward-1-1024x576.jpg" alt="Foto de divulgação de Hunger Ward. Na imagem, uma menina iemenita, muito magra, aparentando ter cerca de cinco anos, de pele amarronzada e cabelos castanhos, senta sob uma cama, ao centro, e sorri para a câmera. Ela está em uma sala de paredes rosadas na clínica de reabilitação." width="840" height="473" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/04/hunger-ward-1-1024x576.jpg 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/04/hunger-ward-1-300x169.jpg 300w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/04/hunger-ward-1-768x432.jpg 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/04/hunger-ward-1-1200x675.jpg 1200w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/04/hunger-ward-1.jpg 1280w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 1362px) 62vw, 840px" /><figcaption id="caption-attachment-19799" class="wp-caption-text">Distribuído no Brasil pela Paramount+, Hunger Ward concorre ao Oscar 2021 na categoria Melhor Documentário em Curta Metragem (Foto: Paramount+)</figcaption></figure>
<p><b>Vitória Lopes Gomez</b></p>
<p><span style="font-weight: 400;">É impossível assistir </span><i><span style="font-weight: 400;">Hunger Ward</span></i><span style="font-weight: 400;"> sem desviar os olhos. O curta-metragem acompanha duas profissionais de saúde em clínicas de alimentação terapêutica no Iémen, onde lutam para salvar crianças da morte por desnutrição. Sem hesitar em filmar o sofrimento, o diretor dinamarquês </span><a href="https://www.lagrandeobserver.com/news/local/academy-award-nominee-credits-eastern-for-success/article_ab1c1122-9627-11eb-8f83-933e33b618a4.html"><span style="font-weight: 400;">Skye Fitzgerald</span></a><span style="font-weight: 400;"> usa da dolorida exposição das vítimas para denunciar a mais triste das consequências da guerra que assola o país: a fome, que, só em 2020, ameaçou a vida de cerca de </span><a href="https://news.un.org/pt/story/2020/10/1730892"><span style="font-weight: 400;">100 mil crianças</span></a><span style="font-weight: 400;">.</span></p>
<p><span id="more-19798"></span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Se o “cinema humanitário” de Fitzgerald, como ele mesmo </span><a href="https://businessdoceurope.com/academy-award-short-doc-nominee-hunger-award-by-skye-fitzgerald/"><span style="font-weight: 400;">descreve</span></a><span style="font-weight: 400;">, não parece tão humano ao apontar câmeras para bebês debilitados e famílias recém-notificadas da perda, o relato de um sobrevivente justifica: “</span><i><span style="font-weight: 400;">o mundo precisa ver o quanto as pessoas do Iêmen sofrem</span></i><span style="font-weight: 400;">”. O próprio diretor, em uma </span><a href="https://www.hungerward.org/the-film"><span style="font-weight: 400;">declaração no </span><i><span style="font-weight: 400;">site</span></i></a> <span style="font-weight: 400;">do projeto, revela a </span><a href="https://unric.org/pt/iemen-a-maior-crise-humanitaria-do-mundo/"><span style="font-weight: 400;">urgência da realidade</span></a><span style="font-weight: 400;"> e como filmá-la pode </span><a href="https://www.goldderby.com/feature/skye-fitzgerald-hunger-ward-director-oscar-video-interview-1204169230/"><span style="font-weight: 400;">gerar a empatia</span></a><span style="font-weight: 400;"> necessária para estimular uma mudança. Nem mesmo cabe aqui destrinchar méritos ou defeitos da produção, quando esta atinge com sucesso seu objetivo de sensibilizar e conscientizar quanto a necessidade imediata de ação.</span></p>
<figure id="attachment_19800" aria-describedby="caption-attachment-19800" style="width: 840px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-large wp-image-19800" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/04/hunger-ward-2-1024x576.jpg" alt="Cena de Hunger Ward. Na imagem, a enfermeira Mekkia Mahdi, uma mulher de pele amarronzada, vestindo um jaleco branco e um hijab amarelo com estampas pretas, se inclina sobre um leito hospitalar, em que uma criança muito magra chora." width="840" height="473" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/04/hunger-ward-2-1024x576.jpg 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/04/hunger-ward-2-300x169.jpg 300w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/04/hunger-ward-2-768x432.jpg 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/04/hunger-ward-2-1536x864.jpg 1536w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/04/hunger-ward-2-1200x675.jpg 1200w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/04/hunger-ward-2.jpg 1920w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 1362px) 62vw, 840px" /><figcaption id="caption-attachment-19800" class="wp-caption-text">Hunger Ward foi filmado em cerca de 30 dias entre janeiro e fevereiro de 2020, em uma clínica no norte e outra no sul do Iémen (Foto: Paramount+)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">O formato documental do curta-metragem não se apoia em longas descrições ou em uma narração impessoal, mas aproxima a realidade ao construir uma espécie de diário de bordo da médica Aida Alsadeeq e da enfermeira Mekkia Mahdi, que atuam nas duas clínicas onde o filme toma lugar. Combinando as gravações nos centros de reabilitação e os depoimentos das profissionais a inserções de planos de escolas destruídas, edifícios em ruínas e até a filmagem de um ataque aéreo, </span><i><span style="font-weight: 400;">Hunger Ward </span></i><span style="font-weight: 400;">conecta causas e consequências e apresenta um relato em primeira mão do saldo da guerra às vítimas. As imagens por si só são fortes, difíceis de assistir sem um </span><i><span style="font-weight: 400;">pause</span></i><span style="font-weight: 400;"> para digeri-las e o caráter documental só aumenta a indignação: o que vemos é a realidade de muitas crianças. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Apesar de servir como um </span><a href="https://www.wweek.com/arts/movies/2021/03/22/portland-filmmaker-skye-fitzgeralds-most-recent-documentary-was-just-nominated-for-an-oscar-that-doesnt-mean-he-enjoyed-making-it/"><span style="font-weight: 400;">relatório</span></a><span style="font-weight: 400;">, escancarando a urgência de ação, o filme não se dá ao trabalho de discorrer sobre o </span><a href="https://g1.globo.com/mundo/noticia/2018/12/17/guerra-no-iemen-o-ano-novo-incerto-da-pior-crise-humanitaria-do-planeta.ghtml"><span style="font-weight: 400;">conflito</span></a><span style="font-weight: 400;"> em si, seus motivos ou lados. Isso realmente importa quando </span><a href="https://istoe.com.br/metade-das-criancas-do-iemen-sofrerao-desnutricao-em-2021-alerta-a-onu/"><span style="font-weight: 400;">crianças estão morrendo</span></a><span style="font-weight: 400;">? Ainda, a realidade que afeta muitos é resultado de interesses maiores e a produção não se acovarda em lembrar o caráter essencialmente político dos acontecimentos. Ao final, para não tirar o peso das imagens que expõe, o curta </span><a href="https://www.politize.com.br/crise-no-iemen/"><span style="font-weight: 400;">brevemente contextualiza</span></a><span style="font-weight: 400;">: a fome que acomete crianças é consequência de um bloqueio de alimentos e medicamentos imposto pela Arábia Saudita, que, por sua vez, recebe apoio bélico, estratégico e operacional direto dos Estados Unidos e de países da Europa.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Coincidentemente, um mês antes da produção ser oficialmente indicada, o presidente norte-americano Joe Biden não falhou em colocar seu país como Pacificador ao </span><a href="https://www.cnbc.com/2021/02/04/biden-will-announce-end-of-us-support-for-offensive-operations-in-yemen.html"><span style="font-weight: 400;">pedir o fim da guerra</span></a><span style="font-weight: 400;"> no Iémen, ao mesmo tempo que segue apoiando os árabes a garantirem a soberania local e, consequentemente, a </span><a href="https://www.cnbc.com/2021/03/09/biden-wants-yemen-war-to-end-but-may-have-worsened-it-analyst-says.html"><span style="font-weight: 400;">continuidade do conflito</span></a><span style="font-weight: 400;">. Não é possível extrair a política da realidade e </span><i><span style="font-weight: 400;">Hunger Ward</span></i><span style="font-weight: 400;"> é o depoimento cru e bárbaro do resultado dessa guerra esquecida, que </span><a href="https://news.un.org/pt/story/2021/02/1741322"><span style="font-weight: 400;">atinge e mata crianças</span></a><span style="font-weight: 400;"> que nada têm a ver com os </span><a href="https://www.msf.org.br/noticias/crise-humanitaria-no-iemen-e-impulsionada-pelo-envolvimento-de-governos-na-guerra"><span style="font-weight: 400;">interesses de países</span></a><span style="font-weight: 400;"> imperialistas.</span></p>
<figure id="attachment_19801" aria-describedby="caption-attachment-19801" style="width: 840px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-full wp-image-19801" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/04/hunger-ward-3.jpg" alt="Cena de Hunger Ward. Na imagem, a médica Aida Alsadeeq, uma mulher de pele amarronzada, vestindo um jaleco branco e um hijab marrom, está em pé em frente a uma mesa branca, em seu consultório na clínica de reabilitação." width="840" height="554" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/04/hunger-ward-3.jpg 840w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/04/hunger-ward-3-300x198.jpg 300w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/04/hunger-ward-3-768x507.jpg 768w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 1362px) 62vw, 840px" /><figcaption id="caption-attachment-19801" class="wp-caption-text">Hunger Ward é o desfecho da trilogia de filmes que foca em grandes crises humanitárias do mundo, seguindo Na Fronteira com a Síria (50 Feet from Syria) e Refúgio no Mar (Lifeboat) (Foto: Paramount+)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">Indicado como </span><a href="https://personaunesp.com.br/tag/melhor-documentario-em-curta-metragem/"><span style="font-weight: 400;">Melhor Documentário em Curta-Metragem</span></a><span style="font-weight: 400;">, </span><i><span style="font-weight: 400;">Hunger Ward</span></i><span style="font-weight: 400;"> foi nomeado na mesma categoria ao </span><a href="http://www.criticschoice.com/2020docwinners/"><i><span style="font-weight: 400;">Critics Choice Documentary Awards</span></i></a><span style="font-weight: 400;">, que abre a temporada de premiações. No entanto, isso ainda não diz muito: a maioria dos concorrentes também ostentam outras indicações, mais ou menos significativas quando se trata de um termômetro para o </span><a href="https://personaunesp.com.br/tag/oscar-2021/"><i><span style="font-weight: 400;">Oscar</span></i></a><span style="font-weight: 400;">.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">O diretor Skye Fitzgerald, que em fevereiro ganhou Melhor Diretor de Documentário em Curta-Metragem no </span><i><span style="font-weight: 400;">Social Impact Media Awards </span></i><span style="font-weight: 400;">com </span><i><span style="font-weight: 400;">Hunger Ward</span></i><span style="font-weight: 400;">, já é conhecido da Academia. Em 2019, o dinamarquês dirigiu </span><i><span style="font-weight: 400;">Lifeboat</span></i><span style="font-weight: 400;">, que </span><a href="https://www.youtube.com/watch?v=Lo15GlDfTB8"><span style="font-weight: 400;">documenta</span></a><span style="font-weight: 400;"> a travessia de refugiados líbios no Mediterrâneo e também foi indicado como Melhor Documentário em Curta. Há dois anos, os votantes mostraram que estão de olho no estilo de </span><a href="https://www.productionhub.com/blog/post/oscars-2019-skye-fitzgerald-talks-oscar-nominated-documentary-lifeboat"><span style="font-weight: 400;">Fitzgerald</span></a><span style="font-weight: 400;"> e ele segue a mesma linha em 2021. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">A disputa na categoria é </span><a href="https://www.termometrooscar.com/melhor-documentaacuterio-em-curta-metragem.html"><span style="font-weight: 400;">acirrada pela imprevisibilidade</span></a><span style="font-weight: 400;">. A </span><i><span style="font-weight: 400;">Netflix</span></i><span style="font-weight: 400;">, que prevaleceu em 2019 com </span><a href="https://www.youtube.com/watch?v=Lrm2pD0qofM"><i><span style="font-weight: 400;">Absorvendo o Tabu</span></i></a><span style="font-weight: 400;">, também tem um forte competidor esse ano, com </span><a href="https://personaunesp.com.br/uma-cancao-para-latasha-critica/"><i><span style="font-weight: 400;">Uma Canção para Latasha</span></i></a><span style="font-weight: 400;">. Independentemente das chances de vitória, o </span><a href="https://datebook.sfchronicle.com/movies-tv/lifeboat-director-skye-fitzgerald-talks-about-finding-hope-amid-mass-tragedy"><span style="font-weight: 400;">poder do cinema humanitário</span></a><span style="font-weight: 400;"> se mantém: o sofrimento das pessoas do Iémen é um pouco mais conhecido depois de </span><i><span style="font-weight: 400;">Hunger Ward</span></i><span style="font-weight: 400;">, ainda que isso </span><a href="https://ultimosegundo.ig.com.br/mundo/2021-02-04/joe-biden-e-aprovado-por-6-em-cada-10-americanos-aponta-pesquisa.html"><span style="font-weight: 400;">não faça muito efeito para o país</span></a><span style="font-weight: 400;"> anfitrião do </span><i><span style="font-weight: 400;">Oscar</span></i><span style="font-weight: 400;">.</span></p>
<div class="jetpack-video-wrapper"><iframe loading="lazy" title="HUNGER WARD 60-Sec Trailer (2020)" width="840" height="473" src="https://www.youtube.com/embed/QvI77NPYLqs?feature=oembed" frameborder="0" allow="accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share" referrerpolicy="strict-origin-when-cross-origin" allowfullscreen></iframe></div>
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