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	<title>Arquivos Albert Bosch &#8211; Persona | Jornalismo Cultural</title>
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	<description>Desde 2015 provando que a distância entre Bergman, Lady Gaga e a novela das 9 nem existe.</description>
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		<title>Terra e tradição se abrem sob os pés da família de Alcarràs</title>
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		<pubDate>Thu, 03 Nov 2022 19:51:36 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p>Nathália Mendes “Eu não canto pela voz, [&#8230;] por quem canto é por minha terra, terra firme, casa amada”, dizem os versos cantados por Rogelio (Josep Abad), patriarca dos Solés que protagonizam Alcarràs, longa de Carla Simón exibido na 46ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, na Competição Novos Diretores. A obra, uma coprodução &#8230; <a href="http://personaunesp.com.br/alcarras-critica/" class="more-link">Continue lendo<span class="screen-reader-text"> "Terra e tradição se abrem sob os pés da família de Alcarràs"</span></a></p>
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										<content:encoded><![CDATA[<figure id="attachment_29148" aria-describedby="caption-attachment-29148" style="width: 1960px" class="wp-caption alignnone"><img fetchpriority="high" decoding="async" class="wp-image-29148 size-full" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/11/ALCARRAS4.jpg" alt="Imagem retangular que mostra uma cena do filme Algarràs. Uma família branca está em pé, todos virados de lado, olhando na direção esquerda da imagem. O fundo tem montanhas e plantações verdes." width="1960" height="1103" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/11/ALCARRAS4.jpg 1960w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/11/ALCARRAS4-800x450.jpg 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/11/ALCARRAS4-1024x576.jpg 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/11/ALCARRAS4-768x432.jpg 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/11/ALCARRAS4-1536x864.jpg 1536w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/11/ALCARRAS4-1200x675.jpg 1200w" sizes="(max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 1362px) 62vw, 840px" /><figcaption id="caption-attachment-29148" class="wp-caption-text">Exibido na Competição Novos Diretores da 46ª Mostra Internacional de São Paulo, o longa não esquece que uma tradicional família agricultora na Europa sempre conta com o trabalho braçal de imigrantes pretos (Foto: MUBI)</figcaption></figure>
<p><strong>Nathália Mendes</strong></p>
<p><span style="font-weight: 400;">“</span><i><span style="font-weight: 400;">Eu não canto pela voz, [&#8230;] por quem canto é por minha terra, terra firme, casa amada</span></i><span style="font-weight: 400;">”, dizem os versos cantados por Rogelio (Josep Abad), patriarca dos Solés que protagonizam </span><i><span style="font-weight: 400;">Alcarràs</span></i><span style="font-weight: 400;">, longa de Carla Simón exibido na 46ª </span><a href="https://personaunesp.com.br/tag/mostra-internacional-de-cinema-em-sao-paulo/"><span style="font-weight: 400;">Mostra Internacional</span></a><span style="font-weight: 400;"> de Cinema de São Paulo, na Competição Novos Diretores. A obra, uma coprodução espanhola e italiana, conta como uma família de agricultores no interior da Catalunha se vê sendo expulsa de sua propriedade após anos cultivando pêssegos naquela terra. E não há nada que se possa fazer. Diante das perdas inevitáveis, Rogelio acompanha em silêncio, assistindo com olhos carregados de tristeza a tradição de gerações se desfazer, bem como sua própria família.</span></p>
<p><span id="more-29147"></span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Sem documento formalmente escrito e assinado, o terreno foi “dado” aos Solés há muitos anos, um agradecimento dos Pinyols por terem sido protegidos durante a guerra espanhola. Este é </span><a href="https://www.estadao.com.br/cultura/cinema/em-cartaz-no-brasil-drama-catalao-alcarras-expoe-o-desafio-das-mudancas/"><span style="font-weight: 400;">o cânone que fundamenta a narrativa</span></a><span style="font-weight: 400;">. Com o passar do tempo e as mudanças geracionais, o novo primogênito que comanda a família não se contenta mais com plantações de pêssegos, mas quer o dinheiro que a energia gerada por painéis solares pode prover. Agora, o vínculo que um dia tiveram não importa mais. Sem compreender como os simbolismos são tão importantes para si e tão desprezíveis ao outro, o que resta ao avô Solé é tentar guardar os laços que mantém a tradição até o fim da colheita.</span></p>
<figure id="attachment_29149" aria-describedby="caption-attachment-29149" style="width: 1788px" class="wp-caption alignnone"><img decoding="async" class="wp-image-29149 size-full" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/11/alcarras-3-baja-1651143998.jpeg" alt="Imagem retangular que mostra uma cena do filme Algarràs. Uma família branca está reunida, sentada em uma mesa repleta de comidas. Eles estão virados para a direção da foto. Todos sorriem, se movimentam ou conversam uns com os outros." width="1788" height="1080" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/11/alcarras-3-baja-1651143998.jpeg 1788w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/11/alcarras-3-baja-1651143998-800x483.jpeg 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/11/alcarras-3-baja-1651143998-1024x619.jpeg 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/11/alcarras-3-baja-1651143998-768x464.jpeg 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/11/alcarras-3-baja-1651143998-1536x928.jpeg 1536w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/11/alcarras-3-baja-1651143998-1200x725.jpeg 1200w" sizes="(max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 1362px) 62vw, 840px" /><figcaption id="caption-attachment-29149" class="wp-caption-text">O sentimentalismo de Rogelio mistura decepção e relutância com a transição de gerações, de forma que mal assume o erro que levou os Solé àquela situação (Foto: MUBI)</figcaption></figure>
<p><i><span style="font-weight: 400;">Alcarràs</span></i><span style="font-weight: 400;"> é um longa da vida real. Não só por levar o nome da pequena cidade da Catalunha onde a própria família da diretora cultivava pêssegos, mas também pelo seu </span><a href="https://youtu.be/GM5-UtbZrQE?t=166"><span style="font-weight: 400;">elenco de atores amadores</span></a><span style="font-weight: 400;">, residentes daquele mesmo interior espanhol. O protagonismo é horizontal, todos ganham luz por completo, de forma igualitária; esta característica brilhante exemplifica como a vida simplesmente acontece. Além de Josep como o patriarca Solé, conhecemos seu sucessor e único filho homem Quimet (Jordi Pujol), a mulher dele, Dolors (Anna Otín), e seus filhos Roger (Albert Bosch), Mariona (Xènia Roset) e Iris (Ainet Jounou). </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Compondo os Solé, ainda, estão as irmãs de Quimet, Glòria (Berta Pipó) e Nati (Montse Oró), com seu marido Cisco (Carles Cabós) e filhos, os gêmeos Pau (Isaac Rovira) e Pere (Joel Rovira). Como uma família tradicional, os membros se relacionam uns com os outros de acordo com suas idades, o machismo geracional e o tradicionalismo aparecem, dando mais palco para os homens do que para as mulheres, mas sem caracterizar tais contrastes como tóxicos ou necessariamente opressores. Aos poucos, </span><a href="https://www.hollywoodreporter.com/movies/movie-reviews/alcarras-berlin-2022-1235094690/"><span style="font-weight: 400;">os conflitos explodem</span></a><span style="font-weight: 400;">, exatamente como deve ser. É quase como se eu estivesse assistindo a minha própria família.</span></p>
<figure id="attachment_29150" aria-describedby="caption-attachment-29150" style="width: 2560px" class="wp-caption alignnone"><img decoding="async" class="wp-image-29150 size-full" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/11/ALCARRAS6-scaled.jpg" alt="Imagem retangular que mostra uma cena do filme Algarràs. Na imagem um jovem branco está deitado em uma cama, uma criança de cabelos castanhos está deitada em seu peito e tem um braço transpassado por ele. Ambos olham na direção esquerda onde uma jovem está agachada atrás da cama, apenas seu pescoço e cabeça aparecem, olhando de volta para os dois." width="2560" height="1440" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/11/ALCARRAS6-scaled.jpg 2560w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/11/ALCARRAS6-800x450.jpg 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/11/ALCARRAS6-1024x576.jpg 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/11/ALCARRAS6-768x432.jpg 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/11/ALCARRAS6-1536x864.jpg 1536w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/11/ALCARRAS6-2048x1152.jpg 2048w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/11/ALCARRAS6-1200x675.jpg 1200w" sizes="(max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 1362px) 62vw, 840px" /><figcaption id="caption-attachment-29150" class="wp-caption-text">O protagonismo horizontal permite que cada personagem transmita frustração à sua maneira: enquanto Roger toma porre e deixa a plantação encharcar até que os pés das pessegueiras virem pura lama, Íris toca flauta nos ouvidos do pai o dia todo (Foto: MUBI)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">É curioso que a narrativa linear de </span><i><span style="font-weight: 400;">Alcarràs </span></i><span style="font-weight: 400;">seja, ao mesmo tempo, um ponto fraco e um ponto positivo. Sua semelhança com a realidade é tamanha que até a </span><a href="https://variety.com/2022/film/reviews/alcarras-review-1235182126/"><span style="font-weight: 400;">progressão de acontecimentos</span></a><span style="font-weight: 400;"> imita a vida: não abrimos os olhos todos os dias aguardando o clímax, a chegada de problemas ou da vitória. Na verdade, vivemos na simplicidade com que os segundos correm. Tal lentidão do cotidiano enfraquece o longa tanto quanto o constrói artisticamente, tecendo as teias de uma família silenciosamente frustrada. A inevitabilidade da desgraça que virá provoca fervor interno em suas personagens, esses que, tendo pouco direito de externalizá-lo, se mantêm quietos, transparecendo a raiva e a decepção em momentos específicos e de formas diferentes.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Se em </span><a href="https://www.cineset.com.br/verao-1993-longa-sensivel-e-pessoal-e-estreia-digna-do-cinema-espanhol/"><i><span style="font-weight: 400;">Verão 1993</span></i></a><span style="font-weight: 400;"> Simón estreou na direção narrando sua própria história, agora, em </span><i><span style="font-weight: 400;">Alcarràs, </span></i><span style="font-weight: 400;">ela transbordou realidade cultural. A iniciativa inteligentíssima de levar pessoas comuns para contar a obra fictícia que escreveu ao lado de Arnau Vilaró, este que também cresceu em uma família agricultora na Espanha, é o que dá brilhantismo à composição. A empreitada trabalhosa e brilhante trouxe a conquista do </span><a href="https://www.cnnbrasil.com.br/entretenimento/filme-espanhol-alcarras-ganha-urso-de-ouro-em-berlim/"><span style="font-weight: 400;">Urso de Ouro de Melhor Filme</span></a><span style="font-weight: 400;"> no Festival de Berlim de 2022. Mas, para além dos prêmios, a produção faz mais do que é possível medir através de estatuetas: transborda verdade. Assim, ao lado de um elenco com pertencimento, sua ficção é dotada de realismo, um retrato fielmente protagonizado por quem está inserido naquele contexto. </span></p>
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