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	<title>Arquivos Yoshio Kitagawa &#8211; Persona | Jornalismo Cultural</title>
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	<description>Desde 2015 provando que a distância entre Bergman, Lady Gaga e a novela das 9 nem existe.</description>
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		<title>Em Terra Perdida, o olhar infantil revela o peso de ser refugiado</title>
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		<pubDate>Fri, 07 Nov 2025 13:00:30 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p>Eduardo Dragoneti Há filmes que parecem nascer do silêncio – não o que acalma, mas o que grita. Terra Perdida, de Akio Fujimoto, é um desses. Exibido na seção Perspectiva Internacional da 49ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo, o longa do diretor japonês surge para contar uma história antiga, porém que o mundo &#8230; <a href="http://personaunesp.com.br/terra-perdida-critica/" class="more-link">Continue lendo<span class="screen-reader-text"> "Em Terra Perdida, o olhar infantil revela o peso de ser refugiado"</span></a></p>
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										<content:encoded><![CDATA[<figure id="attachment_36164" aria-describedby="caption-attachment-36164" style="width: 800px" class="wp-caption alignnone"><img fetchpriority="high" decoding="async" class="size-medium wp-image-36164" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2025/11/image2-4-800x450.jpg" alt="Cena do filme Terra Perdida. Somira, vestindo uma camiseta laranja, carrega o irmão mais novo, Shafi, vestindo uma camiseta branca, nas costas em um campo verde sob um céu nublado. Ambos têm expressões sérias." width="800" height="450" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2025/11/image2-4-800x450.jpg 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2025/11/image2-4-768x432.jpg 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2025/11/image2-4.jpg 856w" sizes="(max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 984px) 61vw, (max-width: 1362px) 45vw, 600px" /><figcaption id="caption-attachment-36164" class="wp-caption-text">O longa foi premiado com a Menção Especial do Júri na seção Orizzonti do 82º Festival de Veneza (Foto: Rediance)</figcaption></figure>
<p><b>Eduardo Dragoneti</b></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Há filmes que parecem nascer do silêncio – não o que acalma, mas o que grita. </span><i><span style="font-weight: 400;">Terra Perdida</span></i><span style="font-weight: 400;">, de Akio Fujimoto, é um desses. Exibido na seção Perspectiva Internacional da </span><a href="https://personaunesp.com.br/tag/49a-mostra-internacional-de-cinema-em-sao-paulo/"><span style="font-weight: 400;">49ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo</span></a><span style="font-weight: 400;">, o longa do diretor japonês surge para contar uma história antiga, porém que o mundo insiste em não ouvir. A trama acompanha dois irmãos </span><a href="https://www.bbc.com/portuguese/internacional-41257869"><span style="font-weight: 400;">Rohingya</span></a><span style="font-weight: 400;">, minoria muçulmana apátrida de Mianmar, Somira (Shomira Rias), de nove anos, e Shafi (Muhammad Shofik), de quatro, que partem ao lado da tia e do avô para uma jornada perigosa rumo à Malásia junto a outros refugiados, movidos pela esperança de reencontrar a família.</span><span id="more-36163"></span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">O destino é a casa de um tio, descrita pela tia simplesmente como uma casa com uma grande mangueira no quintal. Essa árvore, símbolo de tudo o que eles sonham em recuperar – abrigo, pertencimento e família – é também o ponto de partida para a visão que </span><a href="https://youtu.be/jgHYZp2pbLQ?si=R5u_MOMlJ7XKe2fR"><span style="font-weight: 400;">o cineasta</span></a><span style="font-weight: 400;"> tem sobre a infância em meio ao desamparo. Enquanto os adultos veem na mangueira uma promessa de estabilidade, as crianças a enxergam apenas como uma árvore grande e encantadora, sem compreender o peso simbólico que encontrá-la carrega.</span></p>
<figure id="attachment_36165" aria-describedby="caption-attachment-36165" style="width: 700px" class="wp-caption alignnone"><img decoding="async" class="size-full wp-image-36165" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2025/11/image1-2.jpg" alt="Cena do filme Terra Perdida. Somira, com uma camiseta branca e Shafi, vestindo uma camiseta estampada, ajoelhados entre outros refugiados, participam de uma oração coletiva em uma embarcação. Sérios, estão com as mãos juntas e erguidas rezando." width="700" height="394" /><figcaption id="caption-attachment-36165" class="wp-caption-text">O diretor japonês já havia explorado o tema da migração em Passage of Life (2017), inspirado em histórias reais de refugiados birmaneses vivendo no Japão (Foto: Rediance)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">O diretor recusa qualquer forma de estetizar o sofrimento dos Rohingya na tela. Sua câmera, quase sempre na altura das crianças, capta a vulnerabilidade humana. O uso da </span><a href="https://www.culturalsurvival.org/publications/cultural-survival-quarterly/language-crisis-rohingya"><span style="font-weight: 400;">língua nativa</span></a><span style="font-weight: 400;"> do povo e o elenco formado por não-atores da própria comunidade transformam </span><i><span style="font-weight: 400;">Terra Perdida</span></i><span style="font-weight: 400;"> em uma representação política e ética. Fujimoto filma com respeito, permitindo que cada olhar e cada pausa digam o que o roteiro não verbaliza. O realismo nasce da confiança entre quem filma e quem é filmado, mostrando a honestidade da produção em retratar as travessias de refugiados com a maior fidelidade possível.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Os silêncios são a base de todo o subtexto do longa. Em alguns momentos, eles funcionam como um convite à escuta e o espectador é levado a compartilhar o tempo das crianças. Seja procurando por comida, caminhando ou brincando de esconde-esconde – como deveria ser o comum –, a quietude engole quem assiste. Em outros instantes, porém, o silêncio se prolonga demais, e o que antes era imersão se aproxima da lentidão. É notável que Fujimoto sabe brincar com essa ideia, por já ter se aproveitado dela em </span><a href="https://variety.com/2017/film/reviews/passage-of-life-review-1202621265/"><i><span style="font-weight: 400;">Passage of Life </span></i><span style="font-weight: 400;">(2017)</span></a><span style="font-weight: 400;"> e </span><a href="https://variety.com/2020/film/asia/along-the-sea-by-fujimoto-akio-japan-vietnam-1234764996/"><i><span style="font-weight: 400;">Along the Sea </span></i><span style="font-weight: 400;">(2020)</span></a><span style="font-weight: 400;">, produções anteriores do diretor, mas escorrega nessa balança entre o silêncio que revela e o que esconde, o que aproxima e o que afasta o espectador.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Entre os dois irmãos, é Somira quem carrega o fardo da maturidade precoce. Aos nove anos, torna-se guardiã do irmão, mãe e guia por territórios que ela mesma desconhece. Infelizmente, esse papel se torna comum entre famílias refugiadas – a irmã mais velha tem a </span><a href="https://revistapesquisa.fapesp.br/sujeitos-invisiveis/"><span style="font-weight: 400;">infância interrompida</span></a><span style="font-weight: 400;">, convertida em uma responsabilidade que ela nunca deveria ter. O olhar da garota, que vai perdendo o brilho, é o eixo moral do enredo. Ela fica com a missão de proteger o caçula, contudo, ao mesmo tempo, precisa preservar nele a ideia de que ainda existe leveza no mundo, e a fotografia de Yoshio Kitagawa capta isso com delicadeza. Quando Shafi sorri, é porque Somira o permite.</span></p>
<figure id="attachment_36166" aria-describedby="caption-attachment-36166" style="width: 700px" class="wp-caption alignnone"><img decoding="async" class="size-full wp-image-36166" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2025/11/image3-3.jpg" alt="Cena do filme Terra Perdida. Somira, vestindo uma camiseta laranja e calça azul, e Shafi, com uma camiseta clara e calça cinza, observam o exterior por entre as frestas de uma cerca de madeira, ao lado de outros refugiados" width="700" height="394" /><figcaption id="caption-attachment-36166" class="wp-caption-text">Along the Sea (2020), de Fujimoto, foi apresentado no Festival Internacional de Cinema de San Sebastián, na Espanha (Foto: Rediance)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">A cinematografia é um dos grandes trunfos do filme. Kitagawa compõe imagens de uma beleza contida, com tons terrosos no ambiente que comunicam o emocional dos personagens. Seja no balanço do </span><a href="https://brasil.un.org/pt-br/69459-acnur-alerta-para-aumento-alarmante-de-tr%C3%A1fico-de-pessoas-no-sudeste-asi%C3%A1tico"><span style="font-weight: 400;">mar</span></a><span style="font-weight: 400;">, na densidade da floresta ou nas cidades que parecem engolir os pequenos corpos cansados dos protagonistas, as lentes nunca invadem, apenas observam. Esse olhar ajuizado é o que sustenta a verdade da obra, que prefere a empatia ao artifício e mantém o tom quase documental.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">O desfecho, com a morte de Somira, rompe qualquer idealização de superação. É um gesto duro, mas coerente com a </span><a href="https://brasil.un.org/pt-br/83667-uma-crian%C3%A7a-migrante-morre-ou-desaparece-todos-os-dias-no-mundo-diz-relat%C3%B3rio-da-onu"><span style="font-weight: 400;">lógica da travessia</span></a><span style="font-weight: 400;">. A cena final em que Shafi brinca de esconde-esconde sozinho, já abrigado por uma nova família, acreditando que a irmã voltará, devolve ao filme o ponto de partida: a infância como resistência em um cenário onde o direito de ser criança é tomado. A perda não é um evento isolado, e sim uma condição de quem precisa continuar sem saber o que resta.</span></p>
<p><i><span style="font-weight: 400;">Terra Perdida</span></i><span style="font-weight: 400;"> chega como um testemunho dos Rohingyas. Um Cinema que não busca por piedade, e sim memória para um povo invisível. Mesmo com tropeços no ritmo e uma contemplação exagerada que por vezes distancia o observador, Fujimoto consegue construir efetivamente uma experiência de profunda humanidade. Os Rohingyas, hoje espalhados por </span><a href="https://www.spf.org/apbi/news_en/b_240627.html"><span style="font-weight: 400;">campos de refugiados</span></a><span style="font-weight: 400;"> no Sudeste Asiático, continuam a enfrentar perseguição e esquecimento. Aclamado pela crítica, </span><i><span style="font-weight: 400;">Terra Perdida</span></i><span style="font-weight: 400;"> reafirma a importância da memória e a força de quem, mesmo diante do medo, continua a buscar um lugar de pertencimento.</span></p>
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