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	<title>Arquivos Yasutomo Chikuma &#8211; Persona | Jornalismo Cultural</title>
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	<description>Desde 2015 provando que a distância entre Bergman, Lady Gaga e a novela das 9 nem existe.</description>
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		<title>Persona Entrevista: Yasutomo Chikuma</title>
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		<pubDate>Wed, 26 Nov 2025 16:52:14 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p>Gabriel Diaz O silêncio é capaz de ser tão expressivo quanto a palavra, e o amor – quando não se realiza nos corpos – encontra refúgio na memória. Na seção Perspectiva Internacional, a 49ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo apresenta o novo longa de Yasutomo Chikuma: O Espaço Mais Profundo em Nós. A &#8230; <a href="http://personaunesp.com.br/persona-entrevista-yasutomo-chikuma/" class="more-link">Continue lendo<span class="screen-reader-text"> "Persona Entrevista: Yasutomo Chikuma"</span></a></p>
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										<content:encoded><![CDATA[<figure id="attachment_36479" aria-describedby="caption-attachment-36479" style="width: 800px" class="wp-caption alignnone"><img fetchpriority="high" decoding="async" class="size-medium wp-image-36479" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2025/11/Persona-entrevista-3-800x450.png" alt="Card gráfico de entrevista em estilo editorial. No fundo, um padrão abstrato em tons de verde escuro e turquesa cria ondas fluidas que remetem a gravuras japonesas. À esquerda, aparece o logotipo em forma de olho e os textos “Persona Entrevista” e “49ª Mostra Internacional de Cinema – São Paulo Int’l Film Festival”. À direita, dentro de um enquadramento de bordas arredondadas, há o retrato de uma pessoa com expressão neutra, usando boné claro e óculos de sol apoiados sobre a aba. A luz quente do exterior ilumina parcialmente o rosto, enquanto o fundo desfocado sugere um ambiente urbano." width="800" height="450" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2025/11/Persona-entrevista-3-800x450.png 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2025/11/Persona-entrevista-3-1024x576.png 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2025/11/Persona-entrevista-3-768x432.png 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2025/11/Persona-entrevista-3-1536x864.png 1536w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2025/11/Persona-entrevista-3-1200x675.png 1200w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2025/11/Persona-entrevista-3.png 1600w" sizes="(max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 984px) 61vw, (max-width: 1362px) 45vw, 600px" /><figcaption id="caption-attachment-36479" class="wp-caption-text">Diretamente do Japão, Yasutomo Chikuma iniciou sua carreira no cinema experimental antes de migrar para longas narrativos (Arte: Arthur Caires / Foto: Tai Ouchi)</figcaption></figure>
<p><b>Gabriel Diaz</b></p>
<p><span style="font-weight: 400;">O silêncio é capaz de ser tão expressivo quanto a palavra, e o amor – quando não se realiza nos corpos – encontra refúgio na memória. Na seção Perspectiva Internacional, a </span><a href="https://personaunesp.com.br/tag/49a-mostra-internacional-de-cinema-em-sao-paulo/"><span style="font-weight: 400;">49ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo</span></a><span style="font-weight: 400;"> apresenta o novo longa de Yasutomo Chikuma: </span><i><span style="font-weight: 400;">O Espaço Mais Profundo em Nós</span></i><span style="font-weight: 400;">. A trama parte do vínculo íntimo entre Kaori (Momoko Fukuchi), uma mulher arromântica e assexual, e Takeru (Kanichiro), um homem que não suporta mais o próprio corpo, para refletir sobre a impossibilidade do amor e a persistência da culpa nessa ausência. Após a morte de Takeru, Kaori viaja com Nakano (Ryutaro Nakagawa), seu amigo, até o litoral onde ele se matou. </span></p>
<p><span id="more-36471"></span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Nascido em 1983, Chikuma iniciou sua carreira como ator em 2004, porém foi como diretor que se consolidou no circuito internacional. Seu primeiro longa, </span><i><span style="font-weight: 400;">Now, I&#8230; </span></i><span style="font-weight: 400;">(2009), abriu caminho para uma filmografia marcada pela investigação do invisível. Depois, vieram </span><i><span style="font-weight: 400;">The Ark in the Mirage</span></i><span style="font-weight: 400;"> (2015), que estreou no Festival de Karlovy Vary, e </span><i><span style="font-weight: 400;">Two Silhouettes</span></i><span style="font-weight: 400;"> (2020), uma história de amor mística que reforçou sua assinatura autoral. Mais recentemente, </span><a href="https://www.dailymotion.com/video/x8kyziz"><i><span style="font-weight: 400;">As It Flows</span></i></a><span style="font-weight: 400;"> (2022) confirmou seu interesse por narrativas que se desenrolam entre o silêncio e a memória.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Sua cinematografia foca em olhar para dentro, onde o humano é sempre o território mais inexplorado. Com planos longos e uma atmosfera que mistura serenidade e vertigem, o diretor japonês constrói um cinema em que a água, a ausência e o corpo masculino são territórios de investigação. Não se trata apenas de símbolos, porém também são como respirações. Seus personagens, presos entre a ternura e o vazio, descobrem que amar pode ser um gesto sem posse e que chorar é a forma mais autêntica de existir. A partir disso, o </span><a href="https://personaunesp.com.br/tag/persona-entrevista/"><span style="font-weight: 400;">Persona Entrevista</span></a><span style="font-weight: 400;"> evidencia os segredos e as motivações de Yasutomo Chikuma para a construção de sua história.</span></p>
<figure id="attachment_36472" aria-describedby="caption-attachment-36472" style="width: 800px" class="wp-caption alignnone"><img decoding="async" class="size-medium wp-image-36472" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2025/11/file_2025-11-18_05.38.08-800x391.png" alt="Fotografia de um homem e uma mulher à beira mar enquanto observam o horizonte em silêncio. Ela está de costas, com uma saia longa e jaqueta clara, enquanto ele, de sobretudo escuro, permanece um pouco afastado. O mar calmo e o céu azul compõem uma paisagem serena, marcada pela distância emocional entre os dois." width="800" height="391" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2025/11/file_2025-11-18_05.38.08-800x391.png 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2025/11/file_2025-11-18_05.38.08-1024x500.png 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2025/11/file_2025-11-18_05.38.08-768x375.png 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2025/11/file_2025-11-18_05.38.08-1536x750.png 1536w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2025/11/file_2025-11-18_05.38.08-1200x586.png 1200w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2025/11/file_2025-11-18_05.38.08.png 1600w" sizes="(max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 984px) 61vw, (max-width: 1362px) 45vw, 600px" /><figcaption id="caption-attachment-36472" class="wp-caption-text">Segundo o diretor, o filme foi rodado inteiramente em locações reais no litoral japonês, sem o uso de estúdios (Foto: MUBI)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">O título do filme carrega a promessa de que há algo profundo em nós, algo que o audiovisual tenta alcançar. Entretanto, o que, exatamente, Chikuma procura nesse fundo?</span></p>
<p><b>Sobre o título da obra, o que representa o “espaço mais profundo de nós”?</b></p>
<p><b>Yasutomo Chikuma: </b><i><span style="font-weight: 400;">“É o lugar onde guardamos o que não sabemos nomear. Talvez o amor, talvez o medo, talvez apenas um eco. Eu acredito que todo ser humano carrega um mar interno, e é ali que se perdem as pessoas que amamos. O cinema tenta iluminar esse fundo, mas só consegue tocar a superfície.”</span></i></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Apesar de não conhecer a língua portuguesa e estar acompanhado de uma tradutora, o diretor parece conversar do mesmo modo que captura a filmagem, sem pressa e, principalmente, atento ao que não cabe nas palavras. A ideia do mar interno perpassa toda a sua filmografia. A água nunca é apenas cenário, chega a ser um estado emocional ou até uma memória que se dissolve. É sobre o espaço entre o que somos e o que perdemos. No filme, Kaori observa o litoral com a mesma expressão de quem tenta decifrar um enigma sem solução. O mar é Takeru, depois que ele deixa de ter corpo, depois que a morte o transforma em ausência.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Se o diretor busca investigar o invisível, é porque ele entende que o amor não é plenitude, ao contrário disso, é o espaço impossível de ser habitado, o espelho que corta quem tenta se ver nele. Kaori e Takeru compartilham uma vida que não se consome e não segue as regras do desejo ou da posse. Eles existem um ao lado do outro, todavia nunca inteiramente juntos.</span></p>
<p><b>O filme parece filmar o amor não como uma plenitude, mas como um espaço impossível de ser habitado. O que o levou a essa ideia?</b></p>
<p><b>Yasutomo Chikuma: </b><i><span style="font-weight: 400;">“Eu sempre vi o amor como um espelho rachado. Quando duas pessoas tentam se ver nele, acabam cortadas pela própria imagem. Kaori e Takeru não sabem amar como o mundo ensina. Eles se amam em silêncio, em cuidado, em ausência. E isso é, para mim, o gesto mais radical. O filme não quer preencher esse espaço, mas respeitar o vazio que o amor deixa.”</span></i></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Há uma ternura contida entre os dois personagens, quase como se fossem parentes. A protagonista segura um copo de um jeito específico, Takeru olha para o horizonte sem dizer nada. São gestos pequenos, contudo carregados de significado. O diretor não idealiza essa relação, porém diz como ela é imperfeita, incompleta e real.</span></p>
<p><b>Kaori é uma mulher assexual, mas o filme nunca reduz isso a um rótulo. Há uma ternura contida entre ela e Takeru, quase como se fossem parentes. Como você trabalhou essa relação sem cair em idealização?</b></p>
<p><b>Yasutomo Chikuma: </b><i><span style="font-weight: 400;">“O afeto entre eles não precisa de desejo. Ele se manifesta na rotina, no jeito como ela segura um copo ou ele observa o mar. Quis filmar o amor como uma presença invisível, algo que só existe quando não é nomeado. A assexualidade aqui é um território de sutileza, de resistência à leitura fácil do corpo como necessidade.”</span></i></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Chikuma começa a falar devagar, escolhendo cada palavra como quem monta um quebra-cabeça. Ele parece consciente de que está lidando com algo que o cinema japonês raramente representa, um vínculo que não cabe nas categorias disponíveis. O longa nunca transformou a assexualidade de Kaori em um problema ou em curiosidade. É apenas o modo como ela existe no mundo, assim como o modo no qual ama Takeru.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Entretanto, para prosseguir, é necessário retornar ao elemento fundamental do brilho cinematográfico de Chikuma: a água. Ela aparece em todos os seus filmes e, em </span><i><span style="font-weight: 400;">O Espaço Mais Profundo em Nós</span></i><span style="font-weight: 400;">, o litoral não é apenas o lugar onde Takeru morreu – é o espaço onde Kaori tenta processar a perda, onde ela se afoga para tentar se ver outra vez.</span></p>
<p><b>A água aparece constantemente no filme, seja no mar ou nas lágrimas que nunca chegam a cair. Qual o significado desse elemento visual em sua obra?</b></p>
<p><b>Chikuma: </b><i><span style="font-weight: 400;">“A água é o espaço entre o que somos e o que perdemos. Ela dissolve a forma, mistura o vivo e o morto. Quando filmo o mar, não quero extrair a beleza, quero manter a suspensão dele. É um elemento que mantém os personagens entre estados e o mar é o corpo de Takeru depois que ele deixa de ser um corpo. É também o espelho onde Kaori se afoga para tentar se ver outra vez.”</span></i></p>
<figure id="attachment_36473" aria-describedby="caption-attachment-36473" style="width: 800px" class="wp-caption alignnone"><img decoding="async" class="size-medium wp-image-36473" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2025/11/file_2025-11-18_05.38.12-800x431.png" alt="Frame de uma mulher de costas, vestindo roupas escuras, enquanto observa duas velas acesas posicionadas sobre uma pequena estrutura metálica embutida em uma parede de mármore claro. O enquadramento é simétrico e minimalista, com tons frios e luz suave, transmitindo uma sensação de luto e introspecção. À direita, vê-se um elevador fechado e à esquerda, uma placa discreta reforça o ambiente institucional." width="800" height="431" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2025/11/file_2025-11-18_05.38.12-800x431.png 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2025/11/file_2025-11-18_05.38.12-1024x552.png 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2025/11/file_2025-11-18_05.38.12-768x414.png 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2025/11/file_2025-11-18_05.38.12.png 1167w" sizes="(max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 984px) 61vw, (max-width: 1362px) 45vw, 600px" /><figcaption id="caption-attachment-36473" class="wp-caption-text">O diretor esteve presente na 16ª Conferência Asiática sobre Mídia, Comunicação e Cinema (Foto: MUBI)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">Quando Kaori e Nakano caminham juntos ao litoral, eles atravessam um limiar invisível, marcado pela transição da presença para a ausência. Todavia, talvez não haja compreensão capaz. Possivelmente, o filme seja justamente sobre a impossibilidade de entender o que se perdeu.</span></p>
<p><b>E se pensarmos a água como um rito de passagem?</b></p>
<p><b>Chikuma: </b><i><span style="font-weight: 400;">“Sim, a água funciona como um rito de passagem no filme. Ela não é apenas um cenário, mas um espaço de transformação. Quando Kaori e Nakano caminham junto ao mar, ou quando Takeru se afasta, a água marca a passagem de um estado para outro. Seja da presença para a ausência ou da confusão para a compreensão, continua sendo um espelho. É um lugar onde os personagens enfrentam a própria finitude e descobrem algo sobre si mesmos.”</span></i></p>
<p><i><span style="font-weight: 400;">“Cada mergulho, cada reflexão sobre o mar, é como atravessar um limiar invisível, uma espécie de batismo silencioso que não purifica, mas revela a profundidade do que se carrega dentro. O tempo é a matéria do esquecimento. Eu filmo como quem tenta segurar a poeira antes que ela se misture ao vento. Por isso os planos longos não querem mostrar nada, querem permitir que algo aconteça. O cinema é o único lugar onde o passado ainda respira.”</span></i></p>
<p><span style="font-weight: 400;">A partir dessa narrativa, Chikuma domina e fala sobre o tempo como matéria do esquecimento. Sua última frase mostra o quanto ele se interessa em permitir que algo aconteça, tentando segurar a poeira antes que ela se misture ao vento. A morte de Takeru acontece fora de quadro. Não há violência, não há espetáculo. Ele simplesmente desaparece, e o que resta é o silêncio. Kaori não chora e, se realmente chora, as lágrimas nunca chegam a cair. O luto, no filme, não tem som.</span></p>
<p><b>A morte de Takeru é tratada sem violência, quase como um desaparecimento. Como foi lidar com o suicídio de modo tão sereno?</b></p>
<p><b>Chikuma: </b><i><span style="font-weight: 400;">“Eu não queria transformar a morte em espetáculo. A morte, no filme, é apenas mais um gesto humano. Ela não grita, apenas sussurra. Talvez porque eu próprio não a tema, eu temo mais o que sobra dela: o silêncio. Kaori não chora porque entende que o luto não tem som. O suicídio de Takeru não é uma punição, é uma forma de dizer ‘eu não consigo mais continuar sendo visto’.”</span></i></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Chikuma insiste em expressar um homem que se quebra, não por fraqueza, mas por excesso de sensibilidade. Dentro das telas, o masculino é sempre o corpo que resiste e, nessa obra, ele é o corpo que cede, que se entrega, que desiste. E Kaori é o olhar que acolhe o fracasso do outro, sem qualquer julgamento.</span></p>
<p><b>Em vários momentos, Kaori e Nakano parecem refletir sobre a fragilidade do homem. Há um olhar político nesse gesto?</b></p>
<p><b>Chikuma: </b><i><span style="font-weight: 400;">“Todo filme é político quando se nega a repetir um gesto. Eu quis filmar um homem que se quebra, não por fraqueza, mas por excesso de sensibilidade. O masculino, no cinema, é sempre o corpo que resiste. Eu quis o contrário: o corpo que cede, que se entrega, que desiste. E quis que o feminino observasse isso sem julgar. Kaori é o olhar que acolhe o fracasso do outro.”</span></i></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Com isso, Yasutomo Chikuma convida o espectador a atravessar rios e mares internos e a olhar para o que se perde e o que permanece. A sua produção não oferece respostas claras, apenas a delicadeza de permanecer diante do mistério.</span></p>
<blockquote><p><i><span style="font-weight: 400;">&#8220;No mar, cada passo é como atravessar um limiar invisível, uma espécie de batismo silencioso que não purifica, mas revela a profundidade do que se carrega dentro&#8221;</span></i></p></blockquote>
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		<title>O Espaço Mais Profundo em Nós permanece à superfície</title>
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		<pubDate>Tue, 18 Nov 2025 13:00:26 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Cinema]]></category>
		<category><![CDATA[2025]]></category>
		<category><![CDATA[49ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo]]></category>
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		<category><![CDATA[Crítica]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Gabriel Diaz O Espaço Mais Profundo em Nós confirma o olhar de Yasutomo Chikuma para o invisível. Seu cinema se volta ao que não se pode tocar, às zonas de silêncio entre o amor e o luto. Nesta história, apresentada na seção Perspectiva Internacional da 49ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo, Kaori (Momoko &#8230; <a href="http://personaunesp.com.br/o-espaco-mais-profundo-em-nos-critica/" class="more-link">Continue lendo<span class="screen-reader-text"> "O Espaço Mais Profundo em Nós permanece à superfície"</span></a></p>
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										<content:encoded><![CDATA[<figure id="attachment_36376" aria-describedby="caption-attachment-36376" style="width: 512px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="wp-image-36376 size-full" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2025/11/OEspacoEntreNos-1.png" alt="O rosto de uma jovem é parcialmente iluminado por uma luz verde-azulada que incide lateralmente, criando um contraste suave entre brilho e sombra. Seus cabelos longos caem sobre o rosto, e o olhar baixo sugere introspecção ou melancolia. O fundo é escuro, reforçando a atmosfera etérea e contemplativa da cena." width="512" height="288" /><figcaption id="caption-attachment-36376" class="wp-caption-text">O filme está entre os indicados ao Prêmio NETPAC no Festival Internacional de Cinema de Calcutá (Foto: MUBI)</figcaption></figure>
<p><b>Gabriel Diaz</b></p>
<p><i><span style="font-weight: 400;">O Espaço Mais Profundo em Nós</span></i><span style="font-weight: 400;"> confirma o olhar de Yasutomo Chikuma para o invisível. Seu cinema se volta ao que não se pode tocar, às zonas de silêncio entre o amor e o luto. Nesta história, apresentada na seção Perspectiva Internacional da </span><a href="https://personaunesp.com.br/tag/49a-mostra-internacional-de-cinema-em-sao-paulo/"><span style="font-weight: 400;">49ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo</span></a><span style="font-weight: 400;">, Kaori (Momoko Fukuchi), uma mulher </span><a href="https://queer.ig.com.br/2022-04-09/o-que-e-arromantico.html"><span style="font-weight: 400;">arromântica</span></a><span style="font-weight: 400;"> e assexual, compartilha uma vida com Takeru (Kanichiro), um homem em conflito com o próprio corpo e sua permanência no mundo. A relação dos dois é feita de gestos e pausas – uma convivência que não se consome, apenas se sustenta. Quando Takeru morre, o que resta a Kaori é caminhar entre a lembrança e o vazio, acompanhada por Nakano (Ryutaro Nakagawa), o amigo que talvez também tenha amado o mesmo homem.</span></p>
<p><span id="more-36375"></span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">O diretor registra o que acontece dentro da quietude. Seus planos longos e respirações prolongadas, características típicas do </span><a href="https://www.bfi.org.uk/lists/10-great-slow-films"><i><span style="font-weight: 400;">slow cinema</span></i></a><span style="font-weight: 400;">, criam a sensação de que o tempo se dilata diante de cada movimento. O litoral, local em que a narrativa se desenrola, não funciona como paisagem, mas como projeção do estado interior de Kaori – o movimento das ondas replica o ritmo de sua consciência, sua respiração irregular diante do </span><a href="https://rollingstone.com.br/noticia/6-filmes-com-cenas-de-luto-emocionantes-de-harry-potter-adoraveis-mulheres/"><span style="font-weight: 400;">luto</span></a><span style="font-weight: 400;">. Nesse espaço suspenso, o filme se torna uma escuta do que o silêncio tenta dizer e daquilo que o amor nunca soube nomear.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Na cultura japonesa, a morte não é ruptura, mas passagem. Existe o conceito de </span><a href="https://voyapon.com/death-in-japan-spirituality-culture/#htoc-gimu-the-unsolvable-moral-debt"><i><span style="font-weight: 400;">gimu</span></i></a><span style="font-weight: 400;">, a dívida moral impagável que os filhos têm para com aqueles que lhes deram a vida – uma gratidão que se estende para além do fim. Os mortos permanecem próximos dos vivos, habitando o </span><a href="https://brasilescola.uol.com.br/religiao/xintoismo.htm"><i><span style="font-weight: 400;">anoyo</span></i></a><span style="font-weight: 400;">, o além que se comunica constantemente com este mundo. Para que essa </span><a href="https://funerariasantacasa24h.com.br/funeral-japones/"><span style="font-weight: 400;">travessia</span></a><span style="font-weight: 400;"> ocorra em paz, é preciso resolver tudo: nenhum rancor, nenhuma dúvida, nenhum vínculo mal encerrado. Chikuma filma justamente esse espaço de indefinição, onde Kaori não consegue encerrar Takeru porque o afeto entre eles nunca teve a linguagem do desejo ou da posse. Como pode se despedir de alguém que nunca coube nas categorias tradicionais de amor?</span></p>
<figure id="attachment_36377" aria-describedby="caption-attachment-36377" style="width: 700px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-full wp-image-36377" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2025/11/OEspacoEntreNos-2.png" alt="Um jovem está sentado ao ar livre, envolto em um casaco branco e cachecol preto, olhando para frente com expressão de tristeza contida. A luz natural do amanhecer ou entardecer banha suavemente seu rosto, enquanto o fundo desfocado revela árvores e um céu pálido, sugerindo um momento de solidão e reflexão." width="700" height="394" /><figcaption id="caption-attachment-36377" class="wp-caption-text">A figura de Takeru representa a impossibilidade de fixação e funciona como ausência estruturante (Foto: MUBI)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">A resposta está personificada na protagonista: ela não segue os padrões do conceito amoroso. A </span><a href="https://valkirias.com.br/assexualidade-arromanticidade-e-a-falta-de-representacao-na-cultura-pop/"><span style="font-weight: 400;">assexualidade</span></a><span style="font-weight: 400;"> no cinema ainda é sub-representada, aparecendo majoritariamente em papéis secundários ou tratada como problema a ser resolvido. Chikuma faz o oposto: coloca Kaori no centro da narrativa, não como ausência, e sim como presença que redefine os termos da relação. Sua assexualidade não é obstáculo ao afeto, é a própria forma dele. O filme reconhece que a cultura possui rituais para esposas, amantes, filhos, porém não para quem habita essas </span><a href="https://revistacult.uol.com.br/home/teoria-queer-e-os-desafios-as-molduras-do-olhar/"><span style="font-weight: 400;">zonas sem nome</span></a><span style="font-weight: 400;">. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Nos versos </span><i><span style="font-weight: 400;">“Meu bem, vamos viver a vida / Então vem, senão eu vou perder quem sou”</span></i><span style="font-weight: 400;">, a música </span><a href="https://open.spotify.com/intl-pt/track/0KpA8R3NM3N0JB4NAGbAxO?si=b1cfdd561a324af3"><i><span style="font-weight: 400;">Life on Mars?</span></i></a><span style="font-weight: 400;">, na versão de </span><a href="https://personaunesp.com.br/5-anos-de-marighella-e-a-contestacao-de-uma-narrativa-unica-critica/"><span style="font-weight: 400;">Seu Jorge</span></a><span style="font-weight: 400;">, captura a mesma inquietação do audiovisual: a diferença entre estar vivo e verdadeiramente viver. Kaori não pode performar o luto esperado, porque o vínculo que tinha com Takeru nunca se encaixou nas categorias disponíveis. O que resta, então, é inventar uma linguagem para esse </span><a href="https://abmluto.org.br/sobre-o-sentido-da-existencia-o-luto-e-a-morte/"><span style="font-weight: 400;">vazio</span></a><span style="font-weight: 400;"> – e é isso que a obra tenta fazer, ainda que nem sempre consiga. Os dois compartilham um afeto que não depende do desejo, mas da permanência. A produção encontra beleza nas pequenas repetições, como o modo como ela segura um copo, o olhar dele perdido no horizonte. Ainda assim, o diretor às vezes se prende à própria delicadeza. A contenção que deveria revelar o mistério acaba domesticando-o, demonstrando que a sutileza se confunde com apagamento, e a introspecção se torna ausência de conflito.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Há diálogos entre o longa e toda uma indústria que não se contenta com respostas fáceis. A água, elemento recorrente em toda a </span><a href="https://filmow.com/yasutomo-chikuma-a505238/filmografia/"><span style="font-weight: 400;">filmografia</span></a><span style="font-weight: 400;"> de Chikuma, carrega aqui um duplo sentido: é refúgio e dissolução, juntamente com a memória e o esquecimento. O diretor a utiliza como símbolo de cadência diante de um fluxo que conecta cada respiração e cada intervalo. Quando Kaori observa o mar, o que se reflete não é a imagem do que perdeu, é a impossibilidade de compreender essa perda. A câmera, atenta e pudorosa, mantém uma </span><a href="https://www.spescoladeteatro.org.br/noticia/o-que-e-distanciamento-no-teatro"><span style="font-weight: 400;">distância</span></a><span style="font-weight: 400;"> que é também ética: filma sem invadir, enquanto olha sem exigir resposta.</span></p>
<figure id="attachment_36378" aria-describedby="caption-attachment-36378" style="width: 800px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-medium wp-image-36378" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2025/11/OEspacoEntreNos-3-800x391.png" alt="À beira-mar, um homem e uma mulher observam o horizonte em silêncio. Ela está de costas, com uma saia longa e jaqueta clara, enquanto ele, de sobretudo escuro, permanece um pouco afastado. O mar calmo e o céu azul compõem uma paisagem serena, marcada pela distância emocional entre os dois." width="800" height="391" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2025/11/OEspacoEntreNos-3-800x391.png 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2025/11/OEspacoEntreNos-3-1024x500.png 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2025/11/OEspacoEntreNos-3-768x375.png 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2025/11/OEspacoEntreNos-3-1536x750.png 1536w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2025/11/OEspacoEntreNos-3-1200x586.png 1200w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2025/11/OEspacoEntreNos-3.png 1600w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 984px) 61vw, (max-width: 1362px) 45vw, 600px" /><figcaption id="caption-attachment-36378" class="wp-caption-text">No longa, a paisagem marinha é o espaço entre o que somos e o que perdemos (Foto: MUBI)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">Visualmente, a produção é irrepreensível. A fotografia cria um universo onde tudo parece prestes a se desfazer, contudo há uma distância entre a intenção estética e o impacto emocional – tal qual o aflito entre a estética do belo e o sublime de </span><a href="https://pensamentoextemporaneo.com.br/?p=2544"><span style="font-weight: 400;">Immanuel Kant</span></a><span style="font-weight: 400;">. Ao perseguir a beleza como constância, Chikuma transforma o estranhamento em ornamento. Seu cinema respira, porém sem mudança de ar: o andamento é sempre o mesmo, a emoção permanece contida, até quando o tema exige transbordamento.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Com a chegada de Nakano, a trama se aproxima do ensaio e se afasta do drama. A comunicação dele com Kaori investiga o que restou de Takeru ou o vazio que ele deixou. Os dois voltam às mesmas perguntas: o que significa amar sem possuir? Como guardar alguém que nunca quis ser guardado? No entanto, o roteiro hesita diante da própria ambição. Essas questões se repetem sem ganhar novas camadas, sem que os personagens (ou o longa) se arrisquem a perdê-las de vista. O que deveria ser um aprofundamento vira insistência, e a </span><a href="https://cantodosclassicos.com/20-filmes-minimalistas-que-merecem-sua-atencao/"><span style="font-weight: 400;">densidade</span></a><span style="font-weight: 400;"> se dilui na repetição.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Não é um trabalho à altura dos grandes </span><a href="https://japanhousesp.com.br/story/os-encantos-do-cinema-japones-historia-e-perspectivas/"><span style="font-weight: 400;">dramas japoneses</span></a><span style="font-weight: 400;"> recentes, mas possui uma inquietação que o mantém vivo. Apesar da honestidade em sua tentativa de filmar o luto como estado, </span><i><span style="font-weight: 400;">O Espaço Mais Profundo em Nós</span></i><span style="font-weight: 400;"> propõe investigar o fundo que o Cinema só consegue tocar pela superfície, porém recua diante do próprio abismo – apenas o que resta é a dúvida. O diretor filma o mistério, entretanto não se permite habitá-lo. A obra anuncia um mergulho e permanece à beira. Kaori precisava de uma linguagem para um luto sem categoria, todavia o que o Cinema lhe oferece é apenas </span><a href="https://entretenimento.r7.com/entretetizei/especial-o-aconchego-silencioso-do-cinema-japones-13082025/"><span style="font-weight: 400;">silêncio</span></a><span style="font-weight: 400;"> decorativo. A inquietação está lá, mas também contida, ornamentada, protegida de si mesma. Falta ao filme a coragem de se perder e, justamente, nessa perda que a Sétima Arte encontra o que não se pode nomear.</span></p>
<div class="jetpack-video-wrapper"><iframe loading="lazy" title="【2025年サンパウロ国際映画祭正式出品作品】映画『そこにきみはいて』60秒予告" width="840" height="473" src="https://www.youtube.com/embed/1E7yrKhn6TU?feature=oembed" frameborder="0" allow="accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share" referrerpolicy="strict-origin-when-cross-origin" allowfullscreen></iframe></div>
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