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	<title>Arquivos Vitor Soares &#8211; Persona | Jornalismo Cultural</title>
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	<description>Desde 2015 provando que a distância entre Bergman, Lady Gaga e a novela das 9 nem existe.</description>
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	<title>Arquivos Vitor Soares &#8211; Persona | Jornalismo Cultural</title>
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		<title>Novo Mundo: O velho heroísmo eurocêntrico na nova novela das seis global</title>
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		<pubDate>Mon, 27 Mar 2017 22:55:52 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Televisão]]></category>
		<category><![CDATA[Crítica]]></category>
		<category><![CDATA[Globo]]></category>
		<category><![CDATA[Vitor Soares]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Vitor Soares A teledramaturgia brasileira, que é instrumento de interesses muito menos difusos do que sua falsa pluralidade pretende demonstrar, tem na ficção sempre os mesmos heróis. A narrativa histórica romântica, que o tempo canonizou no ideário popular, é contada e recontada inúmeras vezes.A &#8220;novidade&#8221; é a novela das seis da Rede Globo, Novo Mundo, &#8230; <a href="http://personaunesp.com.br/novo-mundo-novela/" class="more-link">Continue lendo<span class="screen-reader-text"> "Novo Mundo: O velho heroísmo eurocêntrico na nova novela das seis global"</span></a></p>
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										<content:encoded><![CDATA[<figure id="attachment_7435" aria-describedby="caption-attachment-7435" style="width: 511px" class="wp-caption aligncenter"><img fetchpriority="high" decoding="async" class="size-full wp-image-7435" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2017/03/unnamed.jpg" alt="Logotipo da novela Mundo Novo" width="511" height="288" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2017/03/unnamed.jpg 511w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2017/03/unnamed-300x169.jpg 300w" sizes="(max-width: 511px) 85vw, 511px" /><figcaption id="caption-attachment-7435" class="wp-caption-text">Logotipo da novela Mundo Novo</figcaption></figure>
<p style="text-align: left;"><strong><br />
Vitor Soares</strong><br />
A teledramaturgia brasileira, que é instrumento de interesses muito menos difusos do que sua falsa pluralidade pretende demonstrar, tem na ficção sempre os mesmos heróis. A narrativa histórica romântica, que o tempo canonizou no ideário popular, é contada e recontada inúmeras vezes.<span id="more-7426"></span>A &#8220;novidade&#8221; é a novela das seis da Rede Globo, <em>Novo Mundo</em>, que estreou na última semana. Nela, os eventos de 1808 a 1822 &#8211; período colonial brasileiro &#8211; são evidenciados e tematizados sob a perspectiva, novamente, das elites dessas terras (e das outras).</p>
<p>A história tem uma premissa simples. Nos anos que antecedem a Independência do Brasil, nos deparamos com um Dom Pedro (Caio Castro), até então príncipe regente, mimado e incorrigível, que espera sua esposa, a arquiduquesa austríaca Leopoldina (Letícia Colin), chegar ao Brasil, após um casamento feito por procuração &#8211; acordo entre reinos. O mundo vivia um momento conturbado. O cerco inglês, o florescimento do capitalismo e as ameaças de Napoleão à Coroa Portuguesa mudariam de vez os rumos da história do país.</p>
<figure id="attachment_7432" aria-describedby="caption-attachment-7432" style="width: 325px" class="wp-caption aligncenter"><img decoding="async" class="size-full wp-image-7432" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2017/03/images-4.jpg" alt="Caio Castro como Dom Pedro I" width="325" height="452" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2017/03/images-4.jpg 325w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2017/03/images-4-216x300.jpg 216w" sizes="(max-width: 325px) 85vw, 325px" /><figcaption id="caption-attachment-7432" class="wp-caption-text">Caio Castro como Dom Pedro I</figcaption></figure>
<p>Na viagem de navio desde a Europa, Leopoldina traz sua professora de português, a inglesa Anna Mill (Isabelle Drummond), que, durante a viagem, vai viver um romance com o ator Joaquim Martinho (Chay Suede). É amor à primeira vista, romantizado de tudo. Os jovens se ardem com versos de Camões.</p>
<p>Como personagens secundários, dentro da narrativa “global”, ainda temos o ambicioso comandante inglês Thomas Johnson (Gabriel Braga Nunes), e o índio criado por brancos, Piatã (Rodrigo Simas), irmão de criação da professora Mill.</p>
<p>Segundo a emissora em seu portal oficial, a partir desses personagens reconheceremos a formação do Brasil:</p>
<blockquote><p><i>O público poderá ver como foi construído o famoso jeitinho brasileiro, no que resultaram as influências europeias, africanas e indígenas, a mistura de povos e a formação desta sociedade.</i></p></blockquote>
<p>É interessante notar que, segundo essa narrativa, se consideramos logo de cara seus protagonistas, o Brasil é bem menos plural do que a própria Globo, através da abordagem superficial da diversidade em sua programação, costuma pregar.</p>
<figure id="attachment_7433" aria-describedby="caption-attachment-7433" style="width: 460px" class="wp-caption aligncenter"><img decoding="async" class="size-full wp-image-7433" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2017/03/images-5.jpg" alt="Professora Mill (Isabele Drummond)" width="460" height="319" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2017/03/images-5.jpg 460w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2017/03/images-5-300x208.jpg 300w" sizes="(max-width: 460px) 85vw, 460px" /><figcaption id="caption-attachment-7433" class="wp-caption-text">Professora Mill (Isabele Drummond)</figcaption></figure>
<p>Não é à toa que rasgam elogios aos espaços (brandos espaços) dados às minorias na grade. A Globo mostra, numa roupagem muitas vezes convincente, alguns aspectos superficiais da cultura popular. Esporadicamente, como se prestasse contas a alguma moralidade quase imperceptível. Mas, no dia a dia, em sua grade ficcional e no hard news, pouco vemos, já que, no primeiro, temos o resgate do heroísmo eurocêntrico e, no segundo, a “questão da carne” toma todo o principal noticiário da emissora. Enquanto isso, no Senado, os trabalhadores voltam ao século XX, ou antes, tendo seus direitos cerceados de forma brutal e silenciosa.</p>
<p>Mas ninguém vai se dar conta, porque na tevê Dom Pedro é ídolo, o maior problema do Brasil é a bilionária empresa fraudulenta que caiu e, veja só, até Maria do Carmo voltou. A novela <em>Senhora do Destino</em>, sucesso em 2004, está de volta às tardes, em Vale a Pena Ver de Novo. Como o povo não vai se animar revendo a inspiradora história de alguém pobre que vence na vida por conta própria, apesar de todos os desafios? É assim que deve ser, não é? Contra tudo e todos: só assim é possível vencer!</p>
<figure id="attachment_7431" aria-describedby="caption-attachment-7431" style="width: 498px" class="wp-caption aligncenter"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-full wp-image-7431" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2017/03/images-3.jpg" alt="Desembarque de Cabral em Porto Seguro, de Oscar Pereira da Silva (1922)" width="498" height="295" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2017/03/images-3.jpg 498w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2017/03/images-3-300x178.jpg 300w" sizes="auto, (max-width: 498px) 85vw, 498px" /><figcaption id="caption-attachment-7431" class="wp-caption-text">Desembarque de Cabral em Porto Seguro, de Oscar Pereira da Silva (1922)</figcaption></figure>
<p>Os portugueses, novamente como heróis dos episódios de 1500, representam só isso: “ferida que dói” nos outros “e não se sente” na pele dos vencedores da história; aliás que, para essa parcela da sociedade, os vencedores, a novela deve ser mesmo apenas uma reles história de amor em alto mar.</p>
<p>Além-mar, no Brasil, a trilha sonora de <em>Novo Mundo</em>, assinada pelo produtor musical Sacha Amback, trata de cumprir seu papel dentro da trama, dessa vez heroificando o fútil e desinteressado Dom Pedro. Numa das cenas iniciais, a música epopeica acompanha o príncipe em seu cavalo, enquanto ele, descalço, fugindo das balas do marido de sua amada, passa pelo populacho coadjuvante. Esse último, secundário, esquecido, estendendo lençóis brancos no sol logo cedo.</p>
<p>Fotografia bonita, cenário bonito, enredo grotesco.</p>
<p>Há esplendor, para a Globo, na sinopse que a emissora publicou em seu portal. Assim, eles contam com entusiasmo alguns conflitos da trama:</p>
<blockquote><p><i>Na novela, uma mulher que era escrava se envolve com um austríaco afortunado, um índio branco não consegue se adaptar à vida na mata, um branco torna-se índio, um monarca transmite seus ideais através de mensagens anônimas na Imprensa e muito além.</i></p></blockquote>
<p>&#8220;E muito além”.</p>
<p>A novela da Globo não comete um equívoco inocente; inocente seria falar em equívocos, nesse caso. É essa a história que querem contar, de fato. <em>Novo Mundo</em> é escrita por profissionais gabaritados, de formação acadêmica de primeira no país, cientes das implicações desta narrativa. Thereza Falcão e Alessandro Marson são velhos de casa, mas só agora a dupla teve a oportunidade de assinar sua própria novela; antes, apenas roteirizavam como colaboradores.</p>
<p>O caso é que a Globo resolveu mudar. Segundo Daniel Castro, do Notícias da TV, as próximas novelas do horário das nove terão novas duplas também. No atual elenco de roteiristas, apenas uma mulher é figura antiga: a portuguesa Maria Adelaide Amaral, autora de novelas como <em>Sonho Meu</em>, de 1993, e <em>Anjo Mau</em>, de 1997.</p>
<p><iframe loading="lazy" src="https://www.youtube.com/embed/17tBOylPS_M?rel=0" width="640" height="360" frameborder="0" allowfullscreen="allowfullscreen"></iframe></p>
<p>Em dois anos, dez novos autores farão parte do time da emissora. Os figurões aclamados pelos <i>chairmen</i>? Todos fora. Qual seria o objetivo? A audiência das novelas têm caído, é verdade, mas a influência ainda é pujante. Trocar os autores, como disse <span style="font-size: medium;">Silvio de Abreu</span><span style="font-size: medium;">, o diretor de teledramaturgia da Globo,</span> <a href="http://noticiasdatv.uol.com.br/noticia/televisao/globo-encosta-veteranos-e-promove-maior-renovacao-de-todos-os-tempos-11393" target="_blank">em entrevista ao UOL</a>, é uma tentativa de salvar algo que há décadas é sucesso, pois “sem novos talentos exercendo o ofício de escrever, o gênero telenovela fatalmente terá seus dias contados”.</p>
<p>Na prática, sabemos que é bem mais complexo do que “ter talento ou não”. A edição é pesada. Os autores de <em>Novo Mundo</em>, <a href="http://gshow.globo.com/Bastidores/noticia/thereza-falcao-e-alessandro-marson-sao-os-autores-de-novo-mundo-conheca-o-trabalho.ghtml" target="_blank">em vídeo do GShow no qual apresentam a telenovela</a>, dizem que foi preciso se enquadrar em “requisitos” da Globo para que a sinopse fosse aprovada. Só após muitas adequações a novela ganhou vida.</p>
<p>Sobre a trama de <em>Novo Mundo</em>, não há muito o que esperar. A estreia alcançou 22 pontos de audiência, segundo o Ibope; 4 pontos abaixo da última novela, <em>Sol Nascente</em>. As pretensões podem mudar em vista de mais quedas de audiência, afetando todo esse jogo narrativo ou acabando com ele, como outras vezes aconteceu. No espectro da ganância, ainda há muita margem para o cúmulo.</p>
<p>Talvez o personagem Piatã, único não-branco entre as personagens principais, tenha dito a frase mais simbólica até então:<i> &#8220;eu não sei nem de onde eu vim&#8221;.</i></p>
<figure id="attachment_7434" aria-describedby="caption-attachment-7434" style="width: 540px" class="wp-caption aligncenter"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-full wp-image-7434" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2017/03/tvg-20170104-ea-novo-mundo-20.jpg" alt="Joaquim Martinho (Chay Suede). " width="540" height="304" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2017/03/tvg-20170104-ea-novo-mundo-20.jpg 540w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2017/03/tvg-20170104-ea-novo-mundo-20-300x169.jpg 300w" sizes="auto, (max-width: 540px) 85vw, 540px" /><figcaption id="caption-attachment-7434" class="wp-caption-text">Joaquim Martinho (Chay Suede)</figcaption></figure>
<p>Piatã, índio que não conhece suas raízes, criado por brancos europeus (mais do que isso: criado pela visão europeia) é como o brasileiro que, diariamente, absorve o discurso apaziguador por toda parte, de que a história é bonita e cheia de heróis. O brasileiro não reconhece nos tempos sua essência e sua cultura, porque o herói é sempre o mesmo: branco e a cavalo, de navio e empunhando a espada.</p>
<p>No fim das contas, a história do Brasil, vendida por sua principal emissora de televisão, é mesmo a de um aventureiro inspirado em Jack Sparrow, com uma professora de português inglesa, um rei mimado e seu casamento com uma arquiduquesa austríaca. De fato. Para a Globo e seus interesses, o Brasil é mesmo branco e tem sobrenome europeu.</p>
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		<title>As veias abertas da América Latina: um presente, poético e catastrófico, à consciência histórica contemporânea</title>
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		<dc:creator><![CDATA[]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 26 Jul 2016 22:10:00 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Literatura]]></category>
		<category><![CDATA[Eduardo Galeano]]></category>
		<category><![CDATA[Vitor Soares]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Vitor Soares &#8220;Vivemos hoje novas formas de vida, novos regimes precisam criar identidades que se adaptem a eles. Daí que é comum hoje governos e meios de comunicação inventarem um passado. Como dizia George Orwell, estamos em uma idade em que o presente controla o passado.&#8221; (Erick Hobsbawm, historiador britânico) &#8220;Aqueles que não conhecem a &#8230; <a href="http://personaunesp.com.br/as-veias-abertas-da-america-latina-presente-poetico-catastrofico-consciencia-historica-contemporanea/" class="more-link">Continue lendo<span class="screen-reader-text"> "As veias abertas da América Latina: um presente, poético e catastrófico, à consciência histórica contemporânea"</span></a></p>
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]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p><strong>Vitor Soares</strong></p>
<p>&#8220;<em>Vivemos hoje novas formas de vida, novos regimes precisam criar identidades que se adaptem a eles. Daí que é comum hoje governos e meios de comunicação inventarem um passado. Como dizia George Orwell, estamos em uma idade em que o presente controla o passado.</em>&#8221; (Erick Hobsbawm, historiador britânico)<span id="more-3351"></span></p>
<p>&#8220;<em>Aqueles que não conhecem a história estão fadados a repeti-la.</em>&#8221; (Edmund Burke, filósofo irlandês)</p>
<p><img loading="lazy" decoding="async" class="alignnone size-full wp-image-3379" src="https://criticapersona.files.wordpress.com/2016/07/galeano-las-venas.png" alt="galeano-las-venas" width="700" height="700" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2016/07/galeano-las-venas.png 700w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2016/07/galeano-las-venas-150x150.png 150w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2016/07/galeano-las-venas-300x300.png 300w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 984px) 61vw, (max-width: 1362px) 45vw, 600px" /></p>
<p>Quando a grandiosa obra do jornalista e escritor uruguaio Eduardo Galeano foi escrita, no início dos anos 1970, o mundo vivia sob grande instabilidade política e ideológica. A década, que findava com o frenesi de Woodstock e o fortalecimento do movimento pacifista de contracultura, trazia consigo o temor de um cruel desfecho para a Guerra Fria que, indiretamente, matava aos montes nos campos de batalha vietnamitas. Nas Américas veio o chumbo golpista. O exílio, primeiro na Argentina e, posteriormente, na Catalunha, entre 1973 e 1985, mostra quão perigosa poderia ser a influência de Galeano para as ditaduras espalhadas pelo continente. Tendo vendido milhões de cópias ao redor do globo, <em>As veias abertas da América Latina</em> é provavelmente um dos olhares mais completos acerca da suplantação deste continente pelos interesses do Mercado Mundial.</p>
<p>O livro começa com uma denúncia sobre o trabalho infantil, mostrando desde o início o teor ácido dos relatos. E a primeira parte se desenvolve através dos acontecimentos em torno da riqueza das terras latino-americanas; passando pelas brutais conquistas europeias na América, não esquecendo das resistências indígena e africana, tão apagadas pela história. Galeano mostra como o capitalismo esgotou mananciais, solos e braços humanos nas Américas; e termina traçando um paralelo dessa conjuntura exploratória com a construção de um império, onde reinam as empresas &#8211; pequenas parcelas dos seres humanos.</p>
<p>O capítulo &#8220;As treze colônias do norte e a importância de não nascer importante&#8221;, ainda na primeira parte, explica a diferença entre a América além do México e abaixo dele, ao passo em que a segunda parte compreende o império estadunidense como um poder hegemônico de influência já estabelecido; levando a um entendimento mais atual das penúrias do continente tratado. Embora escrito no início dos anos 70, não perde a atualidade, assim como bem lamentou o próprio Eduardo Galeano em 2010.</p>
<p><img loading="lazy" decoding="async" class=" size-full wp-image-3381 aligncenter" src="https://criticapersona.files.wordpress.com/2016/07/download-as-veias-abertas-da-america-latina-eduardo-galeano-em-epub-mobi-e-pdf-367x574.jpg" alt="Download-As-Veias-Abertas-da-America-Latina-Eduardo-Galeano-em-ePUB-mobi-e-PDF-367x574" width="367" height="574" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2016/07/download-as-veias-abertas-da-america-latina-eduardo-galeano-em-epub-mobi-e-pdf-367x574.jpg 367w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2016/07/download-as-veias-abertas-da-america-latina-eduardo-galeano-em-epub-mobi-e-pdf-367x574-192x300.jpg 192w" sizes="auto, (max-width: 367px) 85vw, 367px" /></p>
<p>Galeano tende a se preocupar, quase sempre, com a questão dos trabalhadores ao longo do tempo &#8211; dos indígenas à classe proletária atual -, explorados na América Latina e Caribe. A luta de classes, o racismo, o machismo &#8211; entre outros tantos assuntos vigentes no contexto -, se fundamentam pelo senso crítico do próprio leitor à medida em que os fatos históricos são postos em reflexão. Com efeito, não à toa deve-se olhar o livro como um retrato; um compilado de relatos, dados e certezas, onde todas as formas de sub-humanização forçada são críveis e visíveis, dando ao espectador todo o necessário para uma única visão final: a América Latina vive, ainda hoje, a sangria das amarras históricas.</p>
<figure id="attachment_3375" aria-describedby="caption-attachment-3375" style="width: 800px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="alignnone size-full wp-image-3375" src="https://criticapersona.files.wordpress.com/2016/07/memorial-agencia-brasil.jpg" alt="memorial-agencia-brasil" width="800" height="535" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2016/07/memorial-agencia-brasil.jpg 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2016/07/memorial-agencia-brasil-300x201.jpg 300w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2016/07/memorial-agencia-brasil-768x514.jpg 768w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 984px) 61vw, (max-width: 1362px) 45vw, 600px" /><figcaption id="caption-attachment-3375" class="wp-caption-text">Escultura <em>Mão</em>, de Oscar Niemeyer, na Praça Cívica em São Paulo. (Foto: Agência Brasil)</figcaption></figure>
<p>Manifestações artísticas a posteriori prenunciam um olhar semelhante sobre os trabalhadores. Quem chega na Praça Cívica do Memorial da América Latina, em São Paulo, encontra, esplendorosa, a escultura <em>Mão</em> de Oscar Niemeyer. Em toda sua simbologia estética, a obra pode dizer-se, com certeza, uma extensão daquilo que representa o livro de Galeano. Com 7 metros de altura, em concreto, é mais do que uma obra ideológica: trata-se de um reconhecimento, ainda que não libertador por si só &#8211; como o próprio Niemeyer disse a respeito da obra -, das penúrias do povo latino-americano. O mapa da América Latina, no centro da palma, d&#8217;onde verte até o pulso, como numa ferida, o sangue do continente, se encontra em baixo-relevo, como tentasse, Niemeyer, fazer entender quão cravada em nossa pele estão os males da história. A própria mão aberta e erguida, objeto central da escultura, pode significar a figura mais explorada ao longo do tempo: o trabalhador braçal &#8211; no caso, seu objeto de sobrevivência. Tudo é livre interpretação; vislumbre dos sentidos.</p>
<p>Do livro &#8211; sobre aquilo que se encontra estruturalmente -, não espere uma linha cronológica, pronta a lhe entregar soluções ou respostas direcionadas a isso ou aquilo. A estrutura na qual os fatos são narrados não se preocupa em delinear as conjunturas de cada tempo culminando numa progressão linear das viradas históricas. Muito pelo contrário: tudo é dividido em temas que podem partir de uma época a outra; Galeano conta fatos soltos no tempo. Isso não quer dizer que as conjunturas e as viradas históricas não estão presentes, mas que elas não estão ligadas à estrutura em que os fatos se inserem no livro.</p>
<p>Uma compreensão final sobre a importância de <em>As veias abertas da América Latina</em>, deve-se atentar para o quão prodigiosa fora a dominação de todos os povos da América Latina pelo capitalismo, tão evidenciada pelo autor. A classe trabalhadora atual vive na mesmice do salário no fim do mês e os mecanismos legais garantem enorme normalidade aos aspectos rotineiros e exploratórios da nossa sociedade. No livro, é mostrado como em toda a história os mecanismos legais corroboraram para a  crescente exploração contemporânea. Mais de 500 anos após atracar em terras do Novo Mundo, Cristovão Colombo, tudo se mantêm na mais perfeita normalidade entre exploradores e explorados. Sim! Um olhar para o passado &#8211; é tudo que propõe Galeano para que possamos entender tudo.</p>
<figure id="attachment_3373" aria-describedby="caption-attachment-3373" style="width: 701px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="alignnone size-full wp-image-3373" src="https://criticapersona.files.wordpress.com/2016/07/20090418102403852afp.jpg" alt="20090418102403852afp" width="701" height="421" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2016/07/20090418102403852afp.jpg 701w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2016/07/20090418102403852afp-300x180.jpg 300w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 984px) 61vw, (max-width: 1362px) 45vw, 600px" /><figcaption id="caption-attachment-3373" class="wp-caption-text">Hugo Chávez presenteando Barack Obama com um exemplar do livro em 2009 (Foto: Portal G1)</figcaption></figure>
<p>Agora, como exercício de consciência, imagine o presidente do país símbolo do capitalismo mundial receber das mãos de um líder progressista um dos livros mais representativos da esquerda em todos os tempos. Não falo de um Marx, mas de um Galeano &#8211; dessas terras mesmas. Coisa rica de se ver!  Aconteceu numa reunião da Cúpula das Américas, em 2009. O então presidente da Venezuela Hugo Chávez presenteou o líder estadunidense Barack Obama com um exemplar de <em>As veias abertas da América Latina</em>. O gesto simbólico, em tempos onde a diplomacia amigável, ainda que falaciosa, predomina no continente, não passou de um ato irônico; nada mais que isso.</p>
<p>O livro entregue a Obama era uma edição em espanhol, língua não falada por ele. Ainda fosse em inglês! Teria algum presidente estadunidense sensibilidade e/ou desejo para entender a obra? Muitos quiseram saber. Em poucas horas, o livro chegou ao <em>top</em> 10 dos livros mais vendidos dos Estados Unidos. Mas de que ironia estamos falando? Se a resposta não lhe veio de imediato ou,  se por responsabilidade pessoal, sinta-se obrigado a compreendê-la por completo &#8211; a ironia e a história -, corra para a livraria ou biblioteca mais próxima e tome para si uma das mais trágicas histórias da raça humana: a minha, a sua e a de toda a América Latina.</p>
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