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	<title>Arquivos Raymond S. Persi &#8211; Persona | Jornalismo Cultural</title>
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	<description>Desde 2015 provando que a distância entre Bergman, Lady Gaga e a novela das 9 nem existe.</description>
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	<title>Arquivos Raymond S. Persi &#8211; Persona | Jornalismo Cultural</title>
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		<title>Zootopia 2 e o peso de existir: uma continuação ansiosa, política e necessária</title>
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		<pubDate>Mon, 01 Dec 2025 18:18:11 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p>Aviso: O texto contém alguns spoilers Marcela Jardim Depois de quase uma década da primeira produção, Zootopia 2 chega como uma continuação que entende a própria pressão de existir, e faz disso um tema, uma ferramenta narrativa e um comentário metalinguístico. Desde o primeiro ato, o filme assume uma necessidade que é necessário se provar &#8230; <a href="http://personaunesp.com.br/critica-zootopia-2/" class="more-link">Continue lendo<span class="screen-reader-text"> "Zootopia 2 e o peso de existir: uma continuação ansiosa, política e necessária"</span></a></p>
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										<content:encoded><![CDATA[<p><b><i>Aviso: </i></b><i><span style="font-weight: 400;">O texto contém alguns spoilers</span></i></p>
<figure id="attachment_36506" aria-describedby="caption-attachment-36506" style="width: 800px" class="wp-caption alignnone"><img fetchpriority="high" decoding="async" class="size-medium wp-image-36506" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2025/12/image2-800x449.png" alt="Cena de Zootopia 2. A cena mostra Nick Wilde e Judy Hopps em um ambiente noturno elegante, vestidos formalmente e voltados um para o outro em um plano médio que destaca sua interação. Nick, em um terno preto e com seu olhar charmoso e irônico, contrasta com Judy, que usa um vestido amarelo vibrante e exibe uma expressão atenta e confiante. O fundo desfocado com luzes festivas e neve cria uma atmosfera romântica e acolhedora. A arte digital, com estilo próximo ao da animação 3D da Disney, apresenta cores vibrantes, texturas cuidadosas e iluminação suave, reforçando o clima íntimo e celebrativo do momento." width="800" height="449" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2025/12/image2-800x449.png 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2025/12/image2-768x431.png 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2025/12/image2.png 1024w" sizes="(max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 984px) 61vw, (max-width: 1362px) 45vw, 600px" /><figcaption id="caption-attachment-36506" class="wp-caption-text">A versão brasileira do filme conta com o retorno de Monica Iozzi e Rodrigo Lombardi como os protagonistas (Foto: Walt Disney Animation Studios)</figcaption></figure>
<p><b>Marcela Jardim</b></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Depois de quase uma década da primeira produção, </span><i><span style="font-weight: 400;">Zootopia 2</span></i><span style="font-weight: 400;"> chega como uma continuação que entende a própria pressão de existir, e faz disso um tema, uma ferramenta narrativa e um comentário metalinguístico. Desde o primeiro ato, o filme assume uma necessidade que é necessário se provar a todo tempo, ecoando o dilema dos próprios protagonistas, Judy Hopps (</span><a href="https://personaunesp.com.br/once-upon-a-time-10-anos/"><span style="font-weight: 400;">Ginnifer Goodwin</span></a><span style="font-weight: 400;">) e Nick Wilde (</span><a href="https://personaunesp.com.br/air-a-historia-por-tras-do-logo-critica/"><span style="font-weight: 400;">Jason Bateman</span></a><span style="font-weight: 400;">), que continuam carregando a tensão entre ser reconhecidos e ser suficientes. Esse jogo reflexivo de evidencia quando o novo prefeito, um ator vaidoso e caricatural, surge como sátira da política-espetáculo: um líder cuja função é performar confiança, não construí-la. A piada é ácida e evidente, mas funciona como crítica ao modo como celebridades e figuras públicas ocupam cargos de poder numa sociedade que trata governar como entretenimento.</span></p>
<p><span id="more-36504"></span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">A dinâmica clássica entre </span><a href="https://br.ign.com/zootopia-2/148673/news/quimica-inegavel-diretores-de-zootopia-2-nao-descartam-possivel-romance-entre-judy-hopps-e-nick-wild"><span style="font-weight: 400;">Judy e Nick</span></a><span style="font-weight: 400;"> permanece a mesma: a policial certinha, disciplinada, que acredita que ética pode mover montanhas, e o malandro afiado que conhece a cidade de dentro do caos. Esse contraste volta como motor narrativo, acentuado pelas diferenças da dupla, levando os personagens até uma ‘terapia de casal’, brincando com a intertextualidade da dupla funcionar quase como um casal que evita admitir isso. As sessões de treinamento emocional obrigatórias, recheadas de frases prontas e referências à linguagem de </span><i><span style="font-weight: 400;">coaching</span></i><span style="font-weight: 400;">, parecem tiradas diretamente de </span><i><span style="font-weight: 400;">podcasts </span></i><span style="font-weight: 400;">contemporâneos sobre relacionamentos, masculinidade, vulnerabilidade e comunicação não violenta. A produção entende e referencia a cultura atual, além de se divertir com ela.</span></p>
<figure id="attachment_36505" aria-describedby="caption-attachment-36505" style="width: 800px" class="wp-caption alignnone"><img decoding="async" class="size-medium wp-image-36505" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2025/12/image1-800x450.png" alt="Cena de Zootopia 2. A cena apresenta três personagens: um gato cinzento (Patalberto), uma coelha (Judy) e uma cobra azul (Gary), todos expressando forte surpresa diante de algo fora do quadro. O enquadramento próximo destaca rostos e ombros, reforçando o choque nas expressões. A iluminação suave e o fundo desfocado mantêm o foco nos personagens: o gato com casaco verde e mochila laranja, a coelha com casaco azul marinho e olhos arregalados, e a cobra azul com olhos amarelos e língua bifurcada. O estilo segue a estética típica da Disney, com texturas detalhadas e cores vibrantes. A luz quente sugere um pôr ou nascer do sol, criando um clima de suspense e antecipação sobre o que eles estão observando." width="800" height="450" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2025/12/image1-800x450.png 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2025/12/image1-1024x576.png 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2025/12/image1-768x432.png 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2025/12/image1-1536x864.png 1536w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2025/12/image1-1200x675.png 1200w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2025/12/image1.png 1920w" sizes="(max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 984px) 61vw, (max-width: 1362px) 45vw, 600px" /><figcaption id="caption-attachment-36505" class="wp-caption-text">Uma continuação foi considerada ainda em 2016, ano de lançamento do primeiro filme, pelos diretores (Foto: Walt Disney Animation Studios)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">O roteiro aproveita esse tom próprio para explorar o tema das diferenças culturais de maneira ainda mais explícita. A relação entre espécies retorna como metáfora para choques culturais, formas de comunicação distintas e conflitos de convivência. Isso fica evidente nas sequências envolvendo o sistema de metrô e os enormes canos suspensos, que remetem à </span><a href="https://brasilescola.uol.com.br/brasil/urbanizacao.htm"><span style="font-weight: 400;">urbanização problemática</span></a><span style="font-weight: 400;"> de cidades como Nova Iorque e São Paulo. A mensagem é clara: convivência multicultural exige adaptação e respeito, algo que ecoa também no subtexto sobre como imigrantes e estrangeiros construíram boa parte da infraestrutura dos Estados Unidos, porém raramente são creditados por isso. Em </span><i><span style="font-weight: 400;">Zootopia 2</span></i><span style="font-weight: 400;">, até mesmo a engenharia urbana vira comentário político.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Ao mesmo tempo, o filme abraça a estética contemporânea ao inserir referências a outros clássicos da animação, incluindo </span><a href="https://www.youtube.com/watch?v=iryIGZlE5B4"><i><span style="font-weight: 400;">Ratatouille</span></i></a><span style="font-weight: 400;"> (2007), onde um animal chefe de cozinha aparece com um rato na cabeça. Por outro lado, há também um paralelo direto com casos de plágio corporativo, propriedade intelectual e o eterno embate entre criatividade e capitalismo. O antagonismo, aliás, é mais profundo do que vilões caricatos: o verdadeiro mal aqui são os ricos poderosos, donos de terras, donos de marcas, donos de narrativas. O longa toca em eugenia de forma crítica, denunciando discursos que tentam justificar a exclusão de certas espécies, como os répteis e aves, sob a desculpa de ‘ordem natural’.</span></p>
<figure id="attachment_36507" aria-describedby="caption-attachment-36507" style="width: 768px" class="wp-caption alignnone"><img decoding="async" class="size-full wp-image-36507" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2025/12/image3.png" alt="Cena de Zootopia 2. A cena mostra Nick Wilde e Judy Hopps remando juntos em um barco, ambos surpresos e em alerta enquanto atravessam um rio pitoresco. O plano médio destaca a parceria dos dois, que seguram os remos lado a lado e reagem a algo inesperado no ambiente. Nick, com sua pelagem laranja e camisa rosa florida, exibe preocupação, enquanto Judy, com colete azul e olhar atento, parece assustada. A arte digital segue o estilo vibrante da Disney, com texturas detalhadas nos personagens e na água. O cenário de pântano ou rio, cercado por vegetação e construções charmosas, iluminado por luz natural, cria um clima de aventura e antecipação." width="768" height="433" /><figcaption id="caption-attachment-36507" class="wp-caption-text">Shakira compôs uma música original para o filme, chamada Zoo, em parceria com Ed Sheeran (Foto: Walt Disney Animation Studios)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">Um dos momentos mais simbólicos é a quebra da caneta de cenoura, aquele dispositivo icônico que salvou </span><a href="https://www.ingresso.com/noticias/qual-relacao-entre-judy-e-nick-em-zootopia-2"><span style="font-weight: 400;">Judy e Nick</span></a><span style="font-weight: 400;"> no primeiro filme. Aqui, ela se parte ao meio como metáfora da fragmentação da confiança, da amizade e dos pactos que sustentavam a dupla. É uma ruptura silenciosa, mas emocionalmente densa, que representa a pressão externa corroendo vínculos afetivos. A obra trata essa cena com a delicadeza de quem entende que relações, sejam de trabalho ou amorosas, não quebram de uma vez, e sim racham, desfiam, se desgastam até que o objeto simbólico finalmente cede.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">A volta da cantora Gazelle (</span><a href="https://personaunesp.com.br/las-mujeres-ya-no-lloran-critica/"><span style="font-weight: 400;">Shakira</span></a><span style="font-weight: 400;">) reforça o espírito pop da franquia, agora com mais aparições e um discurso mais politizado que acompanha o próprio retorno da artista ao </span><i><span style="font-weight: 400;">mainstream</span></i><span style="font-weight: 400;">. Diferente do primeiro, em que surgia praticamente apenas no número musical, Gazelle aqui participa efetivamente da narrativa e ganha cenas que ampliam sua presença no universo animal. Em outra face, Nibbles Castanheira (Fortune Feimster), a castora </span><i><span style="font-weight: 400;">podcaster</span></i><span style="font-weight: 400;"> de teorias da conspiração, e Gary A’Cobra (</span><a href="https://personaunesp.com.br/passagem-critica/"><span style="font-weight: 400;">Ke Huy Quan</span></a><span style="font-weight: 400;">), injustamente acusado como vilão, funcionam como alívios cômicos bem calibrados dentro da trama. Diferente de coadjuvantes que pesam ou desviam o foco, eles não soam saturados ou inconvenientes, são personagens autênticos, com personalidades próprias, cuja comicidade nasce da narrativa e não de exagero. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Além disso, o retorno de Bellwether (</span><a href="https://personaunesp.com.br/tudo-em-todo-o-lugar-ao-mesmo-tempo-critica/"><span style="font-weight: 400;">Jenny Slate</span></a><span style="font-weight: 400;">) e do preguiça Flecha (</span><a href="https://personaunesp.com.br/wi-fi-ralph-critica/"><span style="font-weight: 400;">Raymond S. Persi</span></a><span style="font-weight: 400;">) cria um contraste cômico e nostálgico essencial à narrativa. Bellwether aparece na penitenciária e tenta fugir de Zootopia, enquanto Flecha ajuda Nick a salvar Judy, usando sua velocidade nas estradas. Em outra vertente, o longa mergulha nas discussões sobre saúde mental ao mostrar Judy lidando com crises de ansiedade diante de padrões inalcançáveis, enquanto Nick enfrenta o fantasma de nunca ser plenamente visto além da imagem de trambiqueiro. A própria cidade surge como um organismo exausto, adoecendo sob o peso das desigualdades e das pressões constantes do cotidiano urbano.</span></p>
<figure id="attachment_36508" aria-describedby="caption-attachment-36508" style="width: 800px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-medium wp-image-36508" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2025/12/image4-800x335.png" alt="Cena de Zootopia 2. A cena mostra Judy Hopps, Nick Wilde e Gary A’Cobra em um momento tenso no topo de uma montanha, reagindo com surpresa e medo enquanto uma serpente azul interage com eles. O enquadramento dinâmico acentua a altura e o perigo, com Judy em uniforme policial e Nick em sua camisa rosa florida, ambos com expressões de choque. A serpente azul, curiosa, ocupa o centro da composição. A arte digital segue o estilo típico da Disney/Pixar, com cores vibrantes, texturas detalhadas e iluminação natural. O cenário montanhoso, com penhascos, névoa e uma casa de madeira, reforça a atmosfera dramática e de suspense." width="800" height="335" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2025/12/image4-800x335.png 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2025/12/image4-768x322.png 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2025/12/image4.png 984w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 984px) 61vw, (max-width: 1362px) 45vw, 600px" /><figcaption id="caption-attachment-36508" class="wp-caption-text">A cena pós crédito da produção indica a volta de aves em Zootopia (Foto: Walt Disney Animation Studios)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">O filme reforça, com sensibilidade, que </span><i><span style="font-weight: 400;">“um animal sozinho não pode carregar o mundo nos ombros”</span></i><span style="font-weight: 400;">. A frase funciona como um manifesto contra o conceito de hiperindividualização neoliberal que molda a vida real e aparece traduzida em metáforas urbanas, pressões de trabalho, </span><i><span style="font-weight: 400;">burnout </span></i><span style="font-weight: 400;">e na necessidade de apoio comunitário. Essa discussão ganha ainda mais força quando o vilão disfarçado, Patalberto Linceslei (</span><a href="https://personaunesp.com.br/critica-7a-temporada-de-brooklyn-nine-nine/"><span style="font-weight: 400;">Andy Samberg</span></a><span style="font-weight: 400;">), é revelado como um antagonista movido não por ambição pura, mas por um desejo desesperado de aprovação familiar, algo que expõe o impacto psicológico das expectativas sociais e afetivas.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">No final, </span><a href="https://www.youtube.com/watch?v=z-C1VtXQr6o"><i><span style="font-weight: 400;">Zootopia 2</span></i></a><span style="font-weight: 400;"> é uma sequência que tenta se justificar, se reafirmar e se provar. E justamente por assumir essa busca por pertencimento é que funciona tão bem como obra da atualidade: ele é ansioso, hiperconectado, cheio de referências, autoconsciente, vulnerável e politizado. Assim como Judy e Nick, a própria animação tenta encontrar seu lugar num mundo saturado de narrativas, e talvez seja exatamente essa honestidade que o torna tão necessário.</span></p>
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