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	<title>Arquivos R. F. Kuang &#8211; Persona | Jornalismo Cultural</title>
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	<description>Desde 2015 provando que a distância entre Bergman, Lady Gaga e a novela das 9 nem existe.</description>
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		<title>Em Katábasis, R. F. Kuang transforma a universidade no verdadeiro inferno</title>
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		<pubDate>Thu, 13 Aug 2026 13:00:47 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Literatura]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Vitória Mendes Imagine que você está desenvolvendo sua tese de doutorado e, antes que você possa terminar, seu orientador venha a falecer. E somente ele poderia lhe garantir a tão sonhada carta de recomendação, capaz de abrir todas as portas imagináveis. O que você faria? Se aventuraria no Inferno para recuperar a alma do seu &#8230; <a href="http://personaunesp.com.br/critica-katabasis/" class="more-link">Continue lendo<span class="screen-reader-text"> "Em Katábasis, R. F. Kuang transforma a universidade no verdadeiro inferno"</span></a></p>
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										<content:encoded><![CDATA[<figure id="attachment_37414" aria-describedby="caption-attachment-37414" style="width: 540px" class="wp-caption alignnone"><img fetchpriority="high" decoding="async" class="size-medium wp-image-37414" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2026/08/foto-1-540x800.jpg" alt="" width="540" height="800" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2026/08/foto-1-540x800.jpg 540w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2026/08/foto-1-691x1024.jpg 691w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2026/08/foto-1-768x1138.jpg 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2026/08/foto-1.jpg 1012w" sizes="(max-width: 540px) 85vw, 540px" /><figcaption id="caption-attachment-37414" class="wp-caption-text">A obra causou debates no BookTok, nicho literário do TikTok, por ser considerada acadêmica e complexa de ler (Foto: Intrínseca)</figcaption></figure>
<p><b>Vitória Mendes</b></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Imagine que você está desenvolvendo sua tese de doutorado e, antes que você possa terminar, seu orientador venha a falecer. E somente ele poderia lhe garantir a tão sonhada carta de recomendação, capaz de abrir todas as portas imagináveis. O que você faria? Se aventuraria no Inferno para recuperar a alma do seu orientador, trazê-lo de volta e tê-lo na banca avaliadora? Alice Law, sim. Essa é a proposta de </span><i><span style="font-weight: 400;">Katábasis</span></i><span style="font-weight: 400;"> de </span><a href="https://youtu.be/y3nu9aPmLG4?si=1EJ9uoSlzwMc780k"><span style="font-weight: 400;">R. F. Kuang</span></a><span style="font-weight: 400;">, autora </span><i><span style="font-weight: 400;">best seller</span></i><span style="font-weight: 400;"> e aclamada pela escrita em </span><i><span style="font-weight: 400;">Babel</span></i><span style="font-weight: 400;"> (2022) e na trilogia </span><i><span style="font-weight: 400;">A Guerra da Papoula </span></i><span style="font-weight: 400;">(2018). Lançada em setembro de 2025 pela editora </span><i><span style="font-weight: 400;">Intrínseca</span></i><span style="font-weight: 400;"> e traduzida por Marina Vargas, a fantasia </span><a href="https://oglobo.globo.com/ela/gente/conheca-dark-academia-nova-estetica-que-moda-entre-os-jovens-do-tiktok-24687842"><i><span style="font-weight: 400;">dark academia</span></i></a><span style="font-weight: 400;"> tece uma narrativa onde filosofia, mitologia e universidade convergem com sagacidade e intelectualidade. </span></p>
<p><span id="more-37413"></span> <span style="font-weight: 400;">Em uma </span><i><span style="font-weight: 400;">Cambridge</span></i><span style="font-weight: 400;"> dos anos 80, no período </span><a href="https://youtu.be/lXzKMX8aPgw?si=VbvdvKLqtvs5K56m"><span style="font-weight: 400;">pós-moderno</span></a><span style="font-weight: 400;"> e </span><a href="https://youtu.be/DTOm6J69z8I?si=Wni2xluBITIDum7L"><span style="font-weight: 400;">pós-estruturalista</span></a><span style="font-weight: 400;">, onde o sistema de magia é guiado pela crença no impossível, gizes mágicos levam diretamente ao Inferno. É nesse cenário que Alice estuda Magia Análitica no programa de pós-graduação. Na área majoritariamente masculina, a jovem lida com a </span><a href="https://mpmt.mp.br/portalcao/news/723/109400/misoginia-saiba-o-que-e-e-conheca-a-lei-que-a-combate"><span style="font-weight: 400;">misoginia</span></a><span style="font-weight: 400;"> constante, assédios e, muitas vezes, negligencia sua própria saúde em nome da validação acadêmica. Para ela, trabalhar ao lado de Grimes, considerado o maior mago do mundo por suas valiosas contribuições durante a guerra, é um sonho sendo realizado. O rígido docente é idolatrado por Alice, que se submete a situações repulsivas sem sequer questionar os motivos. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Quando um experimento do qual Alice participou dá errado e o seu professor morre, a culpa passa a fazer parte dela e se torna um fator decisivo para que ela decida realizar sua própria </span><a href="https://www.jb.com.br/colunistas/olhar_para_dentro/2019/10/1019001-katabasis---o-inferno-da-separacao.html"><i><span style="font-weight: 400;">katábasis</span></i></a><span style="font-weight: 400;">, termo grego que se refere a uma jornada ao submundo, na esperança de trazer Grimes de volta a vida. O que ela não esperava era que Peter Murdoch, seu rival e também orientando de Grimes, tivesse a mesma ideia por motivos próprios. Para ambos, até mesmo perder a vida é mais aceitável do que fracassar academicamente. Com pequenos bastões encantados e mapas incertos de seus predecessores, </span><a href="https://www.youtube.com/watch?v=k5FTJ-AJJKI"><span style="font-weight: 400;">Dante</span></a><span style="font-weight: 400;"> e </span><a href="https://educacao.uol.com.br/disciplinas/artes/orfeu-e-euridice-mitos-inspiram-a-arte.htm"><span style="font-weight: 400;">Orfeu</span></a><span style="font-weight: 400;">, os dois chegam ao submundo e, ao invés de encontrarem um lugar sombrio, se deparam com um reflexo do campus de </span><i><span style="font-weight: 400;">Cambridge</span></i><span style="font-weight: 400;">, uma ironia e alívio que rapidamente desaparece. </span></p>
<figure id="attachment_37415" aria-describedby="caption-attachment-37415" style="width: 600px" class="wp-caption alignnone"><img decoding="async" class="size-full wp-image-37415" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2026/08/foto-2.jpg" alt="" width="600" height="800" /><figcaption id="caption-attachment-37415" class="wp-caption-text">Kuang já foi premiada pelo Prêmio Nebula, Locus Award, Crawford Award e British Book Awards (Foto: Julian Baumann)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">Entre mitologia, </span><a href="https://periodicos.ufpe.br/revistas/perspectivafilosofica/article/view/248951"><span style="font-weight: 400;">dialeteias</span></a><span style="font-weight: 400;">, filósofos mortos, dilemas universitários e um rio que arranca memórias, a rivalidade de Alice e Peter continua maior que do que nunca, e atravessar os oito tribunais do Inferno na busca pelo professor se mostra uma tarefa árdua. Os doutorandos enfrentam ameaças pouco convencionais e desafiam a própria magia e as convenções tradicionais. A narrativa, inegavelmente intelectual, alterna do passado para o presente e produz uma crítica direta às estruturas e ao balanço de poder no meio acadêmico. O sistema de magia baseado na força da crença e nos paradoxos é interessante e com potencial único na execução. Em uma obra imersiva, Kuang abraça a ideia de um Inferno identificável, mas inesperado.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Ao longo de 480 páginas, a jornada ao inferno também se revela um caminho metafórico por autoconhecimento. Em cada tribunal do Inferno, a autora explora os crimes cometidos em vida e a luta por redenção através do desenvolvimento de teses impossíveis de agradar às divindades avaliadoras, fazendo um paralelo com a academia. Provando sua relevância social, </span><i><span style="font-weight: 400;">Katábasis</span></i><span style="font-weight: 400;"> critica abertamente o meio acadêmico, a pressão para ser perfeito, alunos </span><a href="https://www.ufsm.br/midias/arco/a-sobrecarga-invisivel-na-universidade"><span style="font-weight: 400;">sobrecarregados</span></a><span style="font-weight: 400;">, abusos de poder, privilégios e ainda debate a </span><a href="https://brasil.elpais.com/economia/2021-07-18/a-meritocracia-e-uma-armadilha.html"><span style="font-weight: 400;">meritocracia</span></a><span style="font-weight: 400;">. Kuang retrata frustrações e desesperos com acidez, fazendo juz a </span><a href="https://www.instagram.com/p/C58aZ9MLzvr/?img_index=5"><span style="font-weight: 400;">estética</span></a> <i><span style="font-weight: 400;">dark academia</span></i><span style="font-weight: 400;"> e ao seu próprio estilo de escrita. A discussão sobre gênero, raça e classe é crua e sem romantização, expondo as cicatrizes do sistema educacional e das lideranças.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">A </span><a href="https://www.matinaljornalismo.com.br/rogerlerina/reportagens-roger-lerina/cultura-e-saude-mental-bem-estar-brasileiros/"><span style="font-weight: 400;">saúde mental</span></a><span style="font-weight: 400;"> dos universitários é o tema central, ainda que indiretamente. Os sentimentos de Alice e Peter são representados de forma desesperada, realista e se tornam indispensáveis no enredo e desenvolvimento dos personagens. Alice, que considera a carreira mais importante que a própria vida, passa por diversos espirais mentais e autodepreciativos que colidem diretamente com a necessidade de ser a melhor em tudo. A humanização que a autora insere nos personagens contribui para a exploração ampla do gênero literário, além de manter a narrativa viva, sensível e sincera. </span></p>
<blockquote><p><span style="font-weight: 400;">“Mas é claro que valia a pena. Era a única coisa que valia a pena. Ela tivera sorte de encontrar uma vocação que tornava todo o resto irrelevante, e qualquer coisa que fizesse você se esquecer de comer, beber, dormir ou manter relacionamentos básicos – qualquer coisa que deixasse você empolgada de um jeito irracional – tinha que ser perseguida com devoção absoluta”</span></p></blockquote>
<p><span style="font-weight: 400;">Kuang explora os paradoxos da filosofia, física e matemática, e se apoia em referências densas e específicas para ilustrar a </span><i><span style="font-weight: 400;">katábasis</span></i><span style="font-weight: 400;"> de Alice e Peter. Orfeu, em </span><a href="https://youtu.be/AXIseb1w69Q?si=RJPl8hJNkKw_kI2J"><i><span style="font-weight: 400;">A Odisseia</span></i></a><span style="font-weight: 400;"> de Homero, vai ao submundo em busca de Eurídice, transformando seu mapa em uma fantasia do luto. A divisão dos pecados no Inferno de Dante também se faz presente, assim como </span><a href="https://www.poetryfoundation.org/poems/47311/the-waste-land"><i><span style="font-weight: 400;">The Waste Land</span></i></a><span style="font-weight: 400;"> e até mesmo </span><a href="https://www.youtube.com/watch?v=O7S08_nwfGI"><span style="font-weight: 400;">Caroll</span></a><span style="font-weight: 400;"> e a metáfora da toca do coelho como jornada moral e filosófica. O livro é um prato cheio de reflexões nos mais diversos aspectos. As diferentes interpretações do submundo e seu governante, advindas da mitologia romana, grega e chinesa, enriquecem a obra e a tornam mais diversa. É evidente o domínio da autora sobre os conhecimentos, cada detalhe esbanja familiaridade. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Sendo mestre em filosofia, na área de Estudos Chineses, por </span><i><span style="font-weight: 400;">Cambridge</span></i><span style="font-weight: 400;">, em Estudos Chineses Contemporâneos por </span><i><span style="font-weight: 400;">Oxford</span></i><span style="font-weight: 400;"> e, atualmente, doutoranda em Literatura e Línguas do Leste da Ásia em </span><i><span style="font-weight: 400;">Yale</span></i><span style="font-weight: 400;">, a autora não é sutil ao transbordar suas próprias experiências na trama e fazer </span><a href="https://youtu.be/-76hoo9bgj0?si=7HjJfDDZkvyqti1F"><span style="font-weight: 400;">reflexões complexas</span></a><span style="font-weight: 400;"> com base em estudiosos de sucesso. Apesar de tornar a escrita rica, a quantidade de paradoxos, referências acadêmicas e explicações detalhistas, demonstra certa desconfiança na capacidade interpretativa e intelectual do leitor. Muitas reflexões não acrescentam nada à trama, apenas reforçam repetidamente que os personagens são mentes brilhantes, não deixando espaço para questionamentos próprios.</span></p>
<blockquote><p><span style="font-weight: 400;">“O mundo não era um sistema fechado, sempre havia uma exceção. Não havia nenhuma explicação para sua existência, nenhuma razão para esperar que tenha existido antes ou que voltará a existir. O universo é simplesmente incognoscível. Exceções surgiam o tempo todo, e tudo o que você precisava fazer para desafiar os limites era procurar”</span></p></blockquote>
<p><span style="font-weight: 400;">A ambientação do Inferno, apesar de interessante no início, não cria a tensão esperada. As ameaças são resolvidas excessivamente rápido, evitando a sensação de </span><a href="https://personaunesp.com.br/o-homem-de-giz-5-anos/"><span style="font-weight: 400;">perigo iminente</span></a><span style="font-weight: 400;"> e impedindo uma conexão maior com o cenário e os personagens além de seus conflitos internos. A trama envolvendo a </span><a href="https://cultureofchinese.com/traditions/folklore/folklore-cowherd-and-the-weaver-girl/?i=1"><span style="font-weight: 400;">Tecelã</span></a><span style="font-weight: 400;">, apesar de promissora, se torna apenas mais um obstáculo. Já a reviravolta dos verdadeiros vilões não impacta, ou explora o potencial da magia selvagem e os limites das descobertas científicas. A jornada, embora justificada pelos </span><a href="https://personaunesp.com.br/divertida-mente-2-critica/"><span style="font-weight: 400;">dilemas internos</span></a><span style="font-weight: 400;"> de Alice, se estende mais que o necessário, de forma que, nem mesmo os últimos capítulos conseguem surpreender.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Apesar de tropeçar na própria densidade e no excesso de referências e debates, o título se consolida como desafiador, relevante e singular entre as fantasias </span><i><span style="font-weight: 400;">dark academia</span></i><span style="font-weight: 400;">. Kuang constrói um universo que estimula intelectualmente, reinterpreta o submundo e dialoga com as ansiedades do ambiente acadêmico. A construção mental de Alice, na crítica social e no sistema de magia, se destacam mais do que a densidade estrutural, tornando a leitura agradável. </span><i><span style="font-weight: 400;">Katábasis</span></i><span style="font-weight: 400;"> é ambicioso, imperfeito e marcante à sua própria maneira. Entre tantos </span><a href="https://revistagalileu.globo.com/Ciencia/noticia/2018/01/11-paradoxos-que-vao-pirar-seu-cabecao.html"><span style="font-weight: 400;">paradoxos</span></a><span style="font-weight: 400;"> e dilemas, resta o questionamento: até que ponto o desejo pelo sucesso justificaria a descida ao submundo?</span></p>
<p>O post <a href="http://personaunesp.com.br/critica-katabasis/">Em Katábasis, R. F. Kuang transforma a universidade no verdadeiro inferno</a> apareceu primeiro em <a href="http://personaunesp.com.br">Persona | Jornalismo Cultural</a>.</p>
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