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	<title>Arquivos Quebec &#8211; Persona | Jornalismo Cultural</title>
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	<description>Desde 2015 provando que a distância entre Bergman, Lady Gaga e a novela das 9 nem existe.</description>
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		<title>Roussil – A Liberdade da Imaginação prova que o Cinema é uma das principais armas contra o esquecimento</title>
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		<pubDate>Tue, 04 Nov 2025 20:35:17 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Cinema]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Arthur Caires Há algo muito humano no ato de lutar contra o esquecimento. A Arte, quando nasce, já carrega em si uma resistência ao tempo, uma tentativa de permanecer quando tudo o mais se dissolve. R. Roussil – A Liberdade da Imaginação, dirigido por Maxime-Claude L’Écuyer e que está em exibição na 49ª Mostra Internacional &#8230; <a href="http://personaunesp.com.br/roussil-a-liberdade-da-imaginacao-prova-que-o-cinema-e-uma-das-principais-armas-contra-o-esquecimento/" class="more-link">Continue lendo<span class="screen-reader-text"> "Roussil – A Liberdade da Imaginação prova que o Cinema é uma das principais armas contra o esquecimento"</span></a></p>
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										<content:encoded><![CDATA[<figure id="attachment_36171" aria-describedby="caption-attachment-36171" style="width: 800px" class="wp-caption alignnone"><img fetchpriority="high" decoding="async" class="size-medium wp-image-36171" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2025/11/image3-2-800x450.png" alt="Uma escultura alta e abstrata de Robert Roussil, de cor clara, com uma forma humanóide estilizada. A figura, que se assemelha a uma pessoa dançando com braços curvos e erguidos, está posicionada ao ar livre contra um fundo escuro de um paredão rochoso." width="800" height="450" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2025/11/image3-2-800x450.png 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2025/11/image3-2-1024x576.png 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2025/11/image3-2-768x432.png 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2025/11/image3-2-1536x864.png 1536w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2025/11/image3-2-1200x675.png 1200w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2025/11/image3-2.png 1920w" sizes="(max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 984px) 61vw, (max-width: 1362px) 45vw, 600px" /><figcaption id="caption-attachment-36171" class="wp-caption-text">As esculturas de Roussil resistem ao tempo – monumentos de imaginação e aço (Foto: Tulp Films)</figcaption></figure>
<p><b>Arthur Caires</b></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Há algo muito humano no ato de lutar contra o esquecimento. A Arte, quando nasce, já carrega em si uma resistência ao tempo, uma tentativa de permanecer quando tudo o mais se dissolve. </span><i><span style="font-weight: 400;">R. Roussil – A Liberdade da Imaginação</span></i><span style="font-weight: 400;">, dirigido por Maxime-Claude L’Écuyer e que está em exibição na </span><a href="https://personaunesp.com.br/tag/49a-mostra-internacional-de-cinema-em-sao-paulo/"><span style="font-weight: 400;">49ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo</span></a><span style="font-weight: 400;">, na categoria Competição Novos Diretores, surge como um desses gestos de resistência. Mais do que resgatar a figura de um escultor esquecido, o filme convoca o espectador a pensar na Arte como um modo de permanecer vivo na memória dos outros, mesmo quando a matéria se desgasta.</span></p>
<p><span id="more-36170"></span></p>
<p><a href="https://artpublicmontreal.ca/en/artiste/roussil-robert/"><span style="font-weight: 400;">Robert Roussil</span></a><span style="font-weight: 400;">, um dos nomes centrais da escultura moderna em Quebec, foi um artista que fez da liberdade de expressão o princípio e o fim de sua obra. Expulso de seu próprio país por desafiar convenções artísticas e políticas, Roussil encontrou na França e, mais tarde, na região de Provence-Alpes-Côte d’Azur, o espaço ideal para construir uma utopia pessoal: um moinho transformado em ateliê, refúgio e extensão de seu imaginário. Desde sua morte, em 2013, o brilho desse legado parece ter sido engolido pelo silêncio, e é justamente esse eco que o documentário procura reverberar.</span></p>
<figure id="attachment_36173" aria-describedby="caption-attachment-36173" style="width: 800px" class="wp-caption alignnone"><img decoding="async" class="size-medium wp-image-36173" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2025/11/image2-1-800x450.png" alt="Uma escultura abstrata e orgânica de Robert Roussil, de cor bronze ou marrom, com formas longas e sinuosas que lembram um animal deitado ou raízes. A escultura está sobre um gramado, com vegetação e um paredão rochoso ao fundo, onde outra escultura branca é vista à distância." width="800" height="450" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2025/11/image2-1-800x450.png 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2025/11/image2-1-1024x576.png 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2025/11/image2-1-768x432.png 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2025/11/image2-1-1536x864.png 1536w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2025/11/image2-1-1200x675.png 1200w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2025/11/image2-1.png 1920w" sizes="(max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 984px) 61vw, (max-width: 1362px) 45vw, 600px" /><figcaption id="caption-attachment-36173" class="wp-caption-text">L’Écuyer captura o silêncio como se fosse parte da paisagem de Roussil (Foto: Tulp Films)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">A narrativa, construída com sensibilidade e precisão, alterna imagens de arquivo, entrevistas com o próprio artista e depoimentos de quem conviveu com ele. À primeira vista, o formato poderia sugerir uma abordagem tradicional – o conhecido mosaico de vozes e memórias –, mas </span><a href="https://mostra.org/diretores/maxime-claude-lecuyer"><span style="font-weight: 400;">L’Écuyer</span></a><span style="font-weight: 400;"> o transforma em algo mais íntimo e poético. A câmera percorre as locações de Roussil, especialmente sua casa e seu estúdio, como se investigasse as frestas por onde a criatividade ainda escapa.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Entre poesias recitadas e animações que dialogam com as esculturas, o documentário encontra um ritmo próprio, quase meditativo. As imagens fazem uma reinvenção com o artista. É como se o filme também se tornasse uma escultura, moldando o tempo com a mesma delicadeza com que Roussil </span><a href="https://artpublicmontreal.ca/en/oeuvre/hommage-a-rene-levesque/"><span style="font-weight: 400;">moldava o metal</span></a><span style="font-weight: 400;">. Há um diálogo silencioso entre a densidade do ferro e a leveza da imaginação, entre o gesto concreto e o impulso de sonhar. A trilha sonora reforça essa dualidade: ora introspectiva, ora grandiosa, ela sustenta o caráter sensorial da experiência.</span></p>
<figure id="attachment_36172" aria-describedby="caption-attachment-36172" style="width: 800px" class="wp-caption alignnone"><img decoding="async" class="size-medium wp-image-36172" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2025/11/image1-3-800x450.png" alt="O diretor Maxime-Claude L’Écuyer, um homem de cabelos escuros e barba, vestindo uma jaqueta jeans, está em pé ao lado de um cartaz preto da 49ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, contra uma parede amarela." width="800" height="450" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2025/11/image1-3-800x450.png 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2025/11/image1-3-1024x576.png 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2025/11/image1-3-768x432.png 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2025/11/image1-3-1536x864.png 1536w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2025/11/image1-3-1200x675.png 1200w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2025/11/image1-3.png 1920w" sizes="(max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 984px) 61vw, (max-width: 1362px) 45vw, 600px" /><figcaption id="caption-attachment-36172" class="wp-caption-text">Maxime-Claude L’Écuyer esteve na 49ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo (Foto: Fênix Filmes)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">Apesar da beleza formal, o </span><a href="https://www.mnbaq.org/en/programming/cinema/robert-roussil-le-cul-par-terre?utm_source=chatgpt.com"><i><span style="font-weight: 400;">R. Roussil – A Liberdade da Imaginação</span></i></a><span style="font-weight: 400;"> flerta por vezes com a repetição e o didatismo, especialmente ao insistir em apresentar o artista sob o mesmo enquadramento reverente. No entanto, essa repetição também pode ser lida como um espelhamento da própria memória, que insiste, retorna e reitera para não desaparecer. O documentário recupera o fôlego no desfecho, quando abandona a estrutura explicativa e se entrega ao sentimento puro de lembrança. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Em sua essência, o longa de </span><a href="https://mostra.org/jornal-da-mostra/mostra-exibe-filmes-gratuitos-nas-plataformas-sesc-digital-spcine-play-e-itau-cultural-play?utm_source=chatgpt.com"><span style="font-weight: 400;">L’Écuyer</span></a><span style="font-weight: 400;"> é um convite à reflexão sobre a preservação da Arte e sobre o papel que temos, como espectadores e cidadãos, de manter vivas as vozes que moldaram o imaginário coletivo. Roussil acreditava que a imaginação era a forma mais autêntica de liberdade – e talvez, ao revisitá-lo, o Cinema reafirme exatamente isso. Porque lembrar é um ato político. E imaginar, ainda hoje, é um modo de existir.</span></p>
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		<title>Loucuras mostra a poligamia como remédio para um distúrbio incurável</title>
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		<pubDate>Fri, 31 Oct 2025 14:06:17 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p>Gabriel Diaz Sob o disfarce de liberdade, ainda há a fragilidade de uma geração que tenta racionalizar o desejo. Segundo o dicionário Michaelis, a poligamia é, em essência, a união reprodutiva entre três ou mais indivíduos de uma espécie. Nos países ocidentais, especialmente no Canadá (onde o filme se originou), ela é criminalizada por ser &#8230; <a href="http://personaunesp.com.br/loucuras-mostra-a-poligamia-como-remedio-para-um-disturbio-incuravel/" class="more-link">Continue lendo<span class="screen-reader-text"> "Loucuras mostra a poligamia como remédio para um distúrbio incurável"</span></a></p>
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										<content:encoded><![CDATA[<figure id="attachment_36081" aria-describedby="caption-attachment-36081" style="width: 800px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-medium wp-image-36081" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2025/10/image1-16-800x400.png" alt="Uma mulher e um homem estão muito próximos, encostados um no outro. A mulher segura o ombro do homem com as duas mãos e o observa com expressão emocionada. Ele retribui o olhar, de óculos e expressão corada. Ambos vestem roupas escuras, e o ambiente parece interno, com luz suave." width="800" height="400" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2025/10/image1-16-800x400.png 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2025/10/image1-16-1024x512.png 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2025/10/image1-16-768x384.png 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2025/10/image1-16.png 1200w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 984px) 61vw, (max-width: 1362px) 45vw, 600px" /><figcaption id="caption-attachment-36081" class="wp-caption-text">O longa quebequense apresenta uma história de exploração e autodescoberta sexual (Foto: Coop Vidéo de Montréal)</figcaption></figure>
<p><b>Gabriel Diaz</b></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Sob o disfarce de liberdade, ainda há a fragilidade de uma geração que tenta racionalizar o desejo. Segundo o dicionário </span><i><span style="font-weight: 400;">Michaelis</span></i><span style="font-weight: 400;">, a poligamia é, em essência, a união reprodutiva entre três ou mais indivíduos de uma espécie. Nos países ocidentais, especialmente no </span><a href="https://www.conjur.com.br/2011-nov-25/poligamia-fere-direitos-humanos-fundamentais-afirma-ministro-canada/"><span style="font-weight: 400;">Canadá</span></a><span style="font-weight: 400;"> (onde o filme se originou), ela é criminalizada por ser considerada uma ruptura da estrutura social monogâmica. Porém, em </span><a href="https://www.youtube.com/watch?v=w1ZfKWzpTt4"><span style="font-weight: 400;">Loucuras</span></a><span style="font-weight: 400;">, exibido na seção Competição Novos Diretores da </span><a href="https://personaunesp.com.br/tag/49a-mostra-internacional-de-cinema-em-sao-paulo/"><span style="font-weight: 400;">49ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo</span></a><span style="font-weight: 400;">, o conceito se converte em metáfora: não a transgressão da lei, mas a do próprio sentimento. O diretor Éric K. Boulianne, também protagonista, transforma a ideia de ‘muitos amores’ em uma tentativa desesperada de curar o vazio de um casamento esgotado.</span></p>
<p><span id="more-36080"></span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">François (Éric K. Boulianne) e Julie (Catherine Chabot) estão juntos há dezesseis anos, pais de duas filhas, e vivem um cotidiano regido mais por função do que por afeto. A trama se inicia com uma provocação: após ouvir experiências de casais adeptos de </span><a href="https://www.bbc.com/portuguese/vert-cap-62476758"><span style="font-weight: 400;">relacionamentos abertos</span></a><span style="font-weight: 400;">, os dois passam a se perguntar se o que sentem ainda é amor ou apenas costume. A decisão de abrir o relacionamento nasce mais da inquietação do que da coragem, tornando-se um gesto de autopreservação que acaba expondo suas fissuras mais íntimas. Dividido em seis capítulos inspirados pela </span><a href="https://ecoarte.info/rotoscopia/"><span style="font-weight: 400;">rotoscopia</span></a><span style="font-weight: 400;"> do Cinema da </span><a href="https://www.oldest.org/uncategorized/oldest-animated-movies/"><span style="font-weight: 400;">animação à mão</span></a><span style="font-weight: 400;">, o longa opera quase como uma autópsia do amor: examina cada fragmento do que um dia foi vital, revelando que a proposta é também a causa da doença.</span></p>
<figure id="attachment_36082" aria-describedby="caption-attachment-36082" style="width: 800px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-medium wp-image-36082" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2025/10/image2-14-800x450.png" alt="Um casal está sentado à mesa de jantar com taças de vinho pela metade. A mulher veste uma blusa xadrez em tons de marrom e branco; o homem usa suéter escuro com camisa por baixo. Eles olham para frente, atentos a algo fora do enquadramento. O ambiente tem luz quente e uma planta no canto." width="800" height="450" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2025/10/image2-14-800x450.png 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2025/10/image2-14-1024x576.png 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2025/10/image2-14-768x432.png 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2025/10/image2-14.png 1200w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 984px) 61vw, (max-width: 1362px) 45vw, 600px" /><figcaption id="caption-attachment-36082" class="wp-caption-text">O filme foi exibido no Festival Internacional de Cinema de Locarno (Foto: Coop Vidéo de Montréal)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">O grande mérito de </span><i><span style="font-weight: 400;">Loucuras </span></i><span style="font-weight: 400;">está em deslocar o debate sobre a monogamia. A fragilidade não está no formato do relacionamento, porém na forma como ele é usado para maquiar o cansaço cotidiano. O que o filme questiona, ainda que sem plena consciência, é a crença moderna de que o amor pode ser reconfigurado pela via terapêutica, seguindo o </span><a href="https://mrochapsico.com.br/blog/a-teoria-do-amor-liquido-de-bauman-reflexoes-psicologicas-sobre-relacoes-e-a-modernidade/"><span style="font-weight: 400;">amor líquido</span></a><span style="font-weight: 400;"> de Zygmunt Bauman – como se abrir o relacionamento fosse um remédio contra o tédio e não uma nova forma de confinamento. Julie e François fingem neutralidade diante do desconforto, mas o corpo não mente: o constrangimento durante o sexo e as conversas constroem um retrato mais sincero do que qualquer diálogo ensaiado. A indiferença que tentam performar é apenas mais uma forma de desespero.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Catherine Chabot, no papel de Julie, entrega uma atuação delicada, oscilando entre curiosidade e repressão, enquanto Boulianne constrói um François errático e teimoso, dividido entre a vaidade ferida e a carência emocional. A química entre eles não é incendiária, todavia é justamente essa ausência de fogo que torna a obra verossímil: </span><i><span style="font-weight: 400;">Loucuras </span></i><span style="font-weight: 400;">é sobre a combustão que não vem, sobre o desejo que se converte em protocolo. Constantemente, as duas filhas funcionam como espelho e alívio cômico na </span><a href="https://www.youtube.com/watch?v=EyEpFkVlV5o&amp;t"><span style="font-weight: 400;">narrativa</span></a><span style="font-weight: 400;">, evidenciando o contraste entre a inocência infantil e a artificialidade adulta – apesar delas saberem mais o que estão fazendo do que os próprios pais. A família inteira, afinal, participa do experimento e é isso que torna a trama mais incômoda e honesta.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Há uma secura calculada: o longa observa o amor com a mesma frieza com que seus protagonistas vivem, de forma semelhante ao desgaste conjugal que ocorre em </span><a href="https://personaunesp.com.br/historia-de-um-casamento-critica/"><i><span style="font-weight: 400;">História de um Casamento</span></i></a><span style="font-weight: 400;"> (2019). Nas cenas, Boulianne assume discretamente um ritmo que beira a lentidão, permitindo que os silêncios e os olhares sustentem o peso do roteiro. Os tons dessaturados presentes na fotografia reforçam o confinamento emocional do casal e o humor, presente em situações cotidianas, serve mais como defesa do que como alívio. </span></p>
<figure id="attachment_36083" aria-describedby="caption-attachment-36083" style="width: 800px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-medium wp-image-36083" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2025/10/image3-16-800x400.png" alt=" Um casal se beija em um quarto com iluminação amarelada. A mulher, de cabelo preso, segura o rosto do homem, que usa óculos. Ao fundo, há uma parede com padrão geométrico e parte de um abajur. A cena é íntima e filmada de perto." width="800" height="400" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2025/10/image3-16-800x400.png 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2025/10/image3-16-1024x512.png 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2025/10/image3-16-768x384.png 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2025/10/image3-16.png 1200w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 984px) 61vw, (max-width: 1362px) 45vw, 600px" /><figcaption id="caption-attachment-36083" class="wp-caption-text">O diretor Éric K. Boulianne relata que o longa é uma reflexão sobre o casal moderno e uma ode ao amor (Foto: Coop Vidéo de Montréal)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">O longa</span> <span style="font-weight: 400;">é uma </span><a href="https://www.youtube.com/watch?v=9AQX2sRfuW8"><span style="font-weight: 400;">comédia</span></a><span style="font-weight: 400;"> que tenta ser </span><i><span style="font-weight: 400;">sexy</span></i><span style="font-weight: 400;">, porém acaba soando melancólico. A direção articula ironia e tristeza em doses desiguais, revelando um olhar que, ainda que hesitante, é profundamente humano. O que poderia ser apenas uma pseudo-infidelidade se transforma em uma reflexão sobre o medo de desaparecer dentro da própria rotina, afetando os dois simultaneamente. As ‘loucuras’ do título, afinal, não são os encontros sexuais, mas o delírio de acreditar que o amor pode ser administrado como um experimento.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Em seu desfecho, o filme não oferece redenção e termina onde começou: na dúvida, tal qual um círculo cíclico. Aquele casal que, antes, buscava multiplicar o desejo, agora encontra apenas a confirmação de sua escassez. A poligamia, tratada como tábua de salvação, se revela apenas uma nova forma de solidão. </span><i><span style="font-weight: 400;">Loucuras </span></i><span style="font-weight: 400;">é, portanto, menos sobre liberdade e mais sobre o mal-estar contemporâneo, assim como </span><a href="https://colunastortas.com.br/o-mal-estar-na-civilizacao-sigmund-freud/"><span style="font-weight: 400;">Freud</span></a><span style="font-weight: 400;"> dizia. É sobre a tentativa de sustentar o amor com argumentos quando o corpo já desistiu de sentir, alimentando mais esse fracasso que a produção encontra sua beleza: uma crônica do esgotamento afetivo de nosso tempo, em que amar se tornou uma forma sofisticada de sobrevivência.</span></p>
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