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	<title>Arquivos Poesia &#8211; Persona | Jornalismo Cultural</title>
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	<description>Desde 2015 provando que a distância entre Bergman, Lady Gaga e a novela das 9 nem existe.</description>
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		<title>Sobre a Terra Somos Belos por Um Instante: Ocean Vuong e a escrita como coragem de quem não tem escolha</title>
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		<pubDate>Fri, 25 Aug 2023 21:14:37 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p>Mariana Freire de Moraes “Estou escrevendo para você de dentro de um corpo que era teu. O que é o mesmo que dizer: estou escrevendo como um filho.” Nas primeiras páginas de Sobre a terra somos belos por um instante, o autor Ocean Vuong constrói sua posição durante toda a narrativa na tentativa de se &#8230; <a href="http://personaunesp.com.br/sobre-a-terra-somos-belos-por-um-instante/" class="more-link">Continue lendo<span class="screen-reader-text"> "Sobre a Terra Somos Belos por Um Instante: Ocean Vuong e a escrita como coragem de quem não tem escolha"</span></a></p>
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										<content:encoded><![CDATA[<figure id="attachment_31358" aria-describedby="caption-attachment-31358" style="width: 800px" class="wp-caption aligncenter"><img fetchpriority="high" decoding="async" class="size-medium wp-image-31358" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/08/capa_word_press-800x420.png" alt="" width="800" height="420" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/08/capa_word_press-800x420.png 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/08/capa_word_press-768x404.png 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/08/capa_word_press.png 1024w" sizes="(max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 984px) 61vw, (max-width: 1362px) 45vw, 600px" /><figcaption id="caption-attachment-31358" class="wp-caption-text">A estreia de Ocean Vuong na prosa, após a aclamada reunião de poemas Céu noturno crivado de balas, é um complexo testemunho autobiográfico escolhido pelo Clube do Livro do Persona (Foto: Rocco/Arte: Francisco Tigre)</figcaption></figure>
<p><strong>Mariana Freire de Moraes</strong></p>
<blockquote><p>“<i>Estou escrevendo para você de dentro de um corpo que era teu. O que é o mesmo que dizer: estou escrevendo como um filho.</i>”</p></blockquote>
<p><span style="font-weight: 400;">Nas primeiras páginas de </span><a href="https://www.rocco.com.br/livro/sobre-a-terra-somos-belos-por-um-instante/"><i><span style="font-weight: 400;">Sobre a terra somos belos por um instante</span></i></a><span style="font-weight: 400;">, o autor Ocean Vuong constrói sua posição durante toda a narrativa na tentativa de se refazer, se ver e perdoar por meio da alteridade de uma comunicação ao mesmo tempo concreta e hipotética. Através do resgate analítico da memória e da apresentação do ambiente, Vuong, chamado de Cachorrinho pela avó, escreve cartas para sua mãe, analfabeta funcional, revisitando episódios da infância no Vietnã e de sua adolescência nos Estados Unidos.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Colonialismo, maternidade, identidade, sexualidade, violência e luto são os pilares do livro, cujos episódios de trauma rememorados traçam um caminho linear para o entendimento da história de três gerações da </span><a href="https://amp.theguardian.com/books/2017/oct/03/ocean-vuong-forward-prize-vietnam-war-saigon-night-sky-with-exit-wounds"><span style="font-weight: 400;">família do escritor</span></a><span style="font-weight: 400;">,</span> <span style="font-weight: 400;">e as complexidades recalcadas de pessoas estruturadas em meio à guerra, ao preconceito, ao refúgio e à vulnerabilidade. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Começando pelas memórias quando criança em um Vietnã desestabilizado pela guerra, Cachorrinho – a maneira que Vuong também se retrata em sua escrita – inicia o romance relembrando das primeiras vezes em que sua </span><a href="https://www.anothermag.com/fashion-beauty/14347/bjork-ocean-vuong-in-conversation-another-magazine-aw22"><span style="font-weight: 400;">mãe</span></a><span style="font-weight: 400;"> foi violenta com ele. No acesso à infância, o escritor lembra alguns momentos em que ensina a matriarca a escrever, reproduzindo o que aprendeu naquele dia no jardim de infância. Esse é o momento em que a vulnerabilidade de quem o cria é escancarada para ele e que percebe que possui o que ela precisa para resolver esse problema. De uma forma sutil e perturbadora, esse episódio demonstra a maneira que o autor consegue colocar os dois se olhando do mesmo lugar. </span></p>
<blockquote><p><span style="font-weight: 400;">“</span><i><span style="font-weight: 400;">Você é uma mãe, Mãe. Você também é um monstro. Mas eu também sou – e é por isso que eu não posso me afastar de você. E é por isso que eu peguei a mais solitária criação de deus e te coloquei dentro dela.</span></i><span style="font-weight: 400;">”</span></p></blockquote>
<figure id="attachment_31354" aria-describedby="caption-attachment-31354" style="width: 401px" class="wp-caption aligncenter"><img decoding="async" class=" wp-image-31354" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/08/602-559x800.webp" alt="Na foto, duas mulheres e uma criança estão sentadas em um banco de madeira. As mulheres ficam nos cantos, enquanto o bebê no meio. Estão dentro de uma casa, ao fundo, aparece o vulto de outra mulher, do lado de fora do cômodo. Atrás, percebe-se uma janela, uma porta e roupas penduradas. No primeiro plano, uma mulher, ao canto esquerdo, está sentada ao lado de uma criança pequena. Sua pele é amarela, seus cabelos pretos estão presos. Ela veste um macacão branco, com estampa de flores azuis. Está descalça e sorri fixadamente à câmera. Assim como a criança ao seu lado, que também tem cabelos e olhos pretos. Veste uma camiseta branca com uma gola laranja e estampada com desenhos, que está enfiada dentro de um shorts roxo claro. Ao lado da criança, à direita, uma outra mulher, de cabelo curto e preto, na altura do pescoço e com uma franja cortada, também sorri à foto. Ela usa uma blusa rosa clara e uma calça branca. Está de pernas cruzadas." width="401" height="574" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/08/602-559x800.webp 559w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/08/602.webp 600w" sizes="(max-width: 401px) 85vw, 401px" /><figcaption id="caption-attachment-31354" class="wp-caption-text">A foto que ilustra a edição estadunidense de Céu noturno crivado de balas retrata o autor com dois anos, ao lado de sua mãe e sua tia no campo de refugiados nas Filipinas (Foto: Ocean Vuong)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">Passando pela situação de </span><a href="https://www.acnur.org/portugues/quem-ajudamos/refugiados/"><span style="font-weight: 400;">refugiado</span></a><span style="font-weight: 400;"> quando criança, em um paralelo sensível com o nascimento e morte de sua avó – entre o Vietnã e Estado Unidos –, a narrativa se torna mais política e identitária. A partir do momento que Cachorrinho conta a história das mulheres que o criaram, frutos de um estupro de guerra, nada segue sem que pautas sociais sejam colocadas de forma explícita, no entanto, nunca deixando com que a </span><a href="https://www.quatrocincoum.com.br/br/resenhas/literatura/como-alguem-pode-ser-uma-sensacao"><span style="font-weight: 400;">poética</span></a><span style="font-weight: 400;"> fique em segundo plano. Assim, Vuong cria uma atmosfera sólida de questionamento, ao mesmo tempo que deixa claro as complexidades subjetivas geradas a partir desses contextos, e quão decisivas são essas condições para que ele seja ele mesmo, a mãe seja a mãe e o país seja o país. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Chegando aos Estados Unidos, na casa de seu pai com quem nunca conviveu, o escritor tem um espaço para descobrir e explorar sua sexualidade (atualmente se identifica como uma pessoa </span><a href="https://g1.globo.com/google/amp/pop-arte/diversidade/noticia/2022/06/29/o-que-e-ser-queer.ghtml"><span style="font-weight: 400;">queer</span></a><span style="font-weight: 400;">). No livro, Vuong relata suas primeiras experiências com um homem pobre como ele, porém branco: Trevor, a única pessoa com quem ele realmente desenvolve uma relação além de sua mãe e avó. De uma forma totalmente analítica, o escritor apresenta todas as fases dessa relação, passando pelo estranhamento, o escatológico, as drogas, o entendimento, a identidade, o amor e a morte. Cachorrinho pôde conhecer a vulnerabilidade e a violência do amor e de uma relação que requer um entendimento político, social, subjetivo e identitário que não foi apresentado a nenhum dos dois, tornando tudo mais difícil e mais intenso na mesma medida.</span></p>
<figure id="attachment_31355" aria-describedby="caption-attachment-31355" style="width: 800px" class="wp-caption aligncenter"><img decoding="async" class="size-medium wp-image-31355" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/08/ocean-vuong-and-mother-800x583.webp" alt=" Sob o fundo de um arbusto flores vermelhas, o autor, criança, é segurado no colo por sua mãe, que tem seu cabelo cacheado cortado curto e usa uma camisa manga longa vermelha, com uma estampa preta na frente. A criança usa uma camiseta polo branca com listras azuis claras e escuras, e uma parte de baixo azulada. Segura um coelho de pelúcia branco, com detalhes lilases." width="800" height="583" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/08/ocean-vuong-and-mother-800x583.webp 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/08/ocean-vuong-and-mother-1024x746.webp 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/08/ocean-vuong-and-mother-768x560.webp 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/08/ocean-vuong-and-mother-1536x1119.webp 1536w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/08/ocean-vuong-and-mother-2048x1492.webp 2048w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/08/ocean-vuong-and-mother-1200x875.webp 1200w" sizes="(max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 984px) 61vw, (max-width: 1362px) 45vw, 600px" /><figcaption id="caption-attachment-31355" class="wp-caption-text">Quando sua mãe faleceu de complicações de um câncer de mama, Vuong demonstrou seu luto nas redes sociais: ‘‘(&#8230;) você me ensinou que nossa dor não é nosso destino – mas nossa razão.’’ (Foto: Ocean Vuong)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">O resgate da memória nas passagens da infância no meio da narrativa linear da história do Cachorrinho é o traço mais analítico de </span><i><span style="font-weight: 400;">Sobre a Terra Somos Belos por um Instante</span></i><span style="font-weight: 400;">. Ocean Vuong usa a </span><a href="https://www.theguardian.com/books/2023/jun/03/ocean-vuong-i-dont-believe-writer-should-just-keep-writing-as-long-as-theyre-alive-time-is-a-mother-paperback"><span style="font-weight: 400;">escrita</span></a><span style="font-weight: 400;"> como ferramenta de articulação e busca, narrando sempre em primeira pessoa e, diretamente com a sua mãe, faz com que o objetivo de suas cartas nunca seja esquecido: dizer que se é. As coisas mais duras são lembradas de um jeito poético e grotesco, e quase sempre seguidas de uma imagem que bate de frente com a beleza apresentada de forma visual pela escrita. </span></p>
<blockquote><p><i><span style="font-weight: 400;">“Uma vez você me perguntou o que é ser um escritor. Então vamos lá. Sete dos meus amigos estão mortos. Quatro de overdose.”</span></i></p></blockquote>
<p><span style="font-weight: 400;">Cachorrinho tem acesso ao </span><a href="https://talkeasypod.com/ocean-vuong/"><span style="font-weight: 400;">significado social</span></a><span style="font-weight: 400;"> de sua existência a partir do momento em que começa a reunir os episódios traumáticos de sua vida e colocá-los em uma posição de questionamento: ser um homem vietnamita refugiado, queer, adicto e pobre nos Estados Unidos </span><a href="https://gayletter.com/ocean-vuong/"><span style="font-weight: 400;">significa algo</span></a><span style="font-weight: 400;">. Além disso,as pessoas em volta dele fazem parte desse significado e a escrita tem o papel de síntese de sua própria vida. É como se, caso não fosse um escritor, Vuong jamais poderia contar quem é a ninguém, nem mesmo a sua mãe.</span></p>
<div class="jetpack-video-wrapper"><iframe loading="lazy" title="Ocean Vuong Shares His Advice for Aspiring Writers | Louisiana Channel" width="840" height="473" src="https://www.youtube.com/embed/mG7JpAg1mrw?feature=oembed" frameborder="0" allow="accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share" referrerpolicy="strict-origin-when-cross-origin" allowfullscreen></iframe></div>
<p><span style="font-weight: 400;">A busca pela </span><a href="https://www.gq.com/story/ocean-vuong-interview"><span style="font-weight: 400;">identidade</span></a><span style="font-weight: 400;"> nunca acaba, mas toma um outro caráter. Depois que Cachorrinho entende sua existência, quem sua mãe e sua avó foram, e quem seu novo país abriga, o fluxo se torna outro e assume uma calma assustada de quem sabe que seu lugar está predefinido. Então, a subjetividade assume, mais que nunca, o papel de resgate do que nunca foi dado e uma possibilidade de se reconhecer no mundo. A escrita é o que salva: é o que salvou Cachorrinho de sua relação com sua mãe, que termina o livro rindo enquanto se lembra. </span></p>
<blockquote><p><i><span style="font-weight: 400;">“Porque o pôr do sol, assim como a sobrevivência, existe apenas à beira de seu desaparecimento. Para ser belo, você primeiro precisa ser visto, mas ser visto sempre permite que você seja caçado.”</span></i></p></blockquote>
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		<title>Os curtas brasileiros do 28º Festival É Tudo Verdade</title>
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		<pubDate>Wed, 03 May 2023 22:46:04 +0000</pubDate>
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										<content:encoded><![CDATA[<figure id="attachment_30837" aria-describedby="caption-attachment-30837" style="width: 1024px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="wp-image-30837 size-full" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/05/etudovddwordpress.jpg" alt="" width="1024" height="576" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/05/etudovddwordpress.jpg 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/05/etudovddwordpress-800x450.jpg 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/05/etudovddwordpress-768x432.jpg 768w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 1362px) 62vw, 840px" /><figcaption id="caption-attachment-30837" class="wp-caption-text">Na 28ª edição do Festival Internacional de Documentários É Tudo Verdade, o Persona acompanhou os filmes da Competição Brasileira de Curtas-Metragens (Foto: Hans Gunter Flieg/Acervo Instituto Moreira Salles/É Tudo Verdade/Arte: Ana Clara Abbate/Texto de abertura: Bruno Andrade)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">Entre os dias 13 e 23 de abril, o </span><a href="https://personaunesp.com.br/cobertura-festival-e-tudo-verdade-2022/"><span style="font-weight: 400;">Festival Internacional de Documentários É Tudo Verdade</span></a><span style="font-weight: 400;"> voltou totalmente às salas presenciais dos cinemas espalhados em São Paulo e Rio de Janeiro. Com exibições gratuitas no Centro Cultural São Paulo, Cine Marquise, Cinemateca Brasileira, Sesc 24 de Maio e IMS Paulista, o festival teve também Sessões Especiais virtuais, exibindo nas plataformas de </span><i><span style="font-weight: 400;">streaming </span></i><span style="font-weight: 400;">Itaú Cultural Play e Sesc Digital sete dos nove filmes da Competição Brasileira de Curtas-Metragens e dois longas da Mostra Foco Latino-Americano (</span><i><span style="font-weight: 400;">Beleza Silenciosa</span></i><span style="font-weight: 400;">, de Jasmín Mara Lópeza, e </span><i><span style="font-weight: 400;">Hot Club de Montevideo</span></i><span style="font-weight: 400;">, de Maximiliano Contenti).</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Com 72 títulos de 34 países, o festival – fundado em 1996 por </span><a href="https://www.amazon.com.br/Cinema-Real-Cole%C3%A7%C3%A3o-Port%C3%A1til-26/dp/8540506475/ref=sr_1_2?qid=1682964097&amp;refinements=p_27%3AAmir+Labaki&amp;s=books&amp;sr=1-2"><span style="font-weight: 400;">Amir Labaki </span></a><span style="font-weight: 400;">– homenageou dois grandes cineastas na sua 28ª edição: </span><a href="https://www1.folha.uol.com.br/ilustrada/2023/04/curtas-de-humberto-mauro-deslumbram-pelo-talento-do-velho-cineasta.shtml"><span style="font-weight: 400;">Humberto Mauro</span></a><span style="font-weight: 400;"> (1897–1983), “</span><i><span style="font-weight: 400;">um dos inventores do Brasil cinematográfico</span></i><span style="font-weight: 400;">”, que “</span><i><span style="font-weight: 400;">impõe-se quando o próprio país e logo seu Cinema enfrentam nova reconstrução</span></i><span style="font-weight: 400;">”, exibindo dez de seus filmes e dois documentários; e </span><a href="https://piaui.folha.uol.com.br/materia/pelo-contrario/"><span style="font-weight: 400;">Jean-Luc Godard</span></a><span style="font-weight: 400;"> (1930–2022), com a apresentação dos oito episódios da sua série documental </span><a href="https://www.fosforoeditora.com.br/catalogo/historias-do-cinema/"><i><span style="font-weight: 400;">História(s) do Cinema</span></i></a><span style="font-weight: 400;"> (1987-1998),</span><span style="font-weight: 400;"> considerada a obra-prima da última parte de sua carreira, cujo conteúdo foi constantemente retrabalhado pelo autor e cuja produção durou cerca de dez anos.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">O alcance do É Tudo Verdade, o maior festival de Documentários do mundo, é reconhecido pela</span><a href="https://personaunesp.com.br/oscar-2022-cerimonia-artigo/"> <span style="font-weight: 400;">Academia de Artes e Ciências Cinematográficas</span></a><span style="font-weight: 400;">, que classifica diretamente os filmes vencedores dos prêmios dos júris nas Competições Brasileiras e Internacionais de Longas/Médias e de Curtas-Metragens para apreciação ao </span><a href="https://personaunesp.com.br/os-curtas-do-oscar-2023/"><i><span style="font-weight: 400;">Oscar</span></i></a><span style="font-weight: 400;"> do próximo ano. </span><span style="font-weight: 400;">Longe das sessões presenciais, o </span><b>Persona</b><span style="font-weight: 400;"> assistiu à distância os curtas-metragens brasileiros disponíveis no </span><i><span style="font-weight: 400;">streaming</span></i><span style="font-weight: 400;">. Dos sete filmes da Competição Brasileira de Curtas exibidos remotamente, quatro tiveram sua estreia mundial no <a href="https://www1.folha.uol.com.br/ilustrada/2023/03/e-tudo-verdade-exibe-serie-celebre-de-godard-e-filmes-sobre-guerra-da-ucrania.shtml">É Tudo Verdade</a>, que também expôs, apenas presencialmente, </span><a href="http://etudoverdade.com.br/br/filme/50869-Ferro%60s-bar"><i><span style="font-weight: 400;">Ferro’s Bar</span></i></a> <span style="font-weight: 400;"> (Menção Honrosa na categoria)</span><span style="font-weight: 400;">, dirigido por Aline A. Assis, Fernanda Elias, Nayla Guerra e Rita Quadros, e </span><a href="http://etudoverdade.com.br/br/filme/50465-O-Materialismo-Historico-da-Flecha-contra-o-Relogio"><i><span style="font-weight: 400;">O Materialismo Histórico da Flecha Contra o Relógio</span></i></a><span style="font-weight: 400;">, de Carlos Adriano.</span></p>
<p><i><span style="font-weight: 400;">Mãri hi – A Árvore do Sonho</span></i><span style="font-weight: 400;">, de </span><a href="https://g1.globo.com/rr/roraima/noticia/2023/04/25/primeiro-cineasta-yanomami-ganha-premio-em-festival-internacional-de-documentarios.ghtml"><span style="font-weight: 400;">Morzaniel Ɨramari</span></a><span style="font-weight: 400;">, além de ter sua estreia mundial no É Tudo Verdade, foi o grande vencedor da Competição Brasileira de Curtas-Metragens, recebendo também o Prêmio Mistika. Produzido em parceria da </span><i><span style="font-weight: 400;">ARUAC Filmes</span></i><span style="font-weight: 400;"> com a Hutukara Associação Yanomami, o curta do cineasta yanomami aborda o conhecimento de seu povo sobre os sonhos, com a participação e narração da liderança indígena e xamã, </span><a href="https://ea.fflch.usp.br/autor/davi-kopenawa"><span style="font-weight: 400;">Davi Kopenawa</span></a><span style="font-weight: 400;">. “</span><i><span style="font-weight: 400;">A luta yanomami vai continuar até o fim</span></i><span style="font-weight: 400;">”, disse Ɨramari.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Abaixo, você fica com a curadoria do <strong>Persona </strong>feita por </span><b>Bruno Andrade</b><span style="font-weight: 400;">, </span><b>Enzo Caramori</b><span style="font-weight: 400;">, </span><b>Guilherme Veiga</b><span style="font-weight: 400;">, </span><b>Jamily Rigonatto</b><span style="font-weight: 400;">, </span><b>Nathalia Tetzner</b><span style="font-weight: 400;"> e </span><b>Vitória Gomez</b>, que deixam su<span style="font-weight: 400;">as impressões </span><span style="font-weight: 400;">sobre <strong>Os curtas brasileiros do </strong></span><strong>28º Festival É Tudo Verdade</strong><span style="font-weight: 400;">.</span></p>
<p><span id="more-30777"></span></p>
<h2>Curtas-metragens</h2>
<figure id="attachment_30786" aria-describedby="caption-attachment-30786" style="width: 739px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-full wp-image-30786" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/05/images.jpeg" alt="Cena do documentário Mãri hi - A Árvore do Sonho. Na imagem, duas mulheres indígenas de cabelos e olhos escuros parecem observar algo no céu. Uma delas segura uma criança no colo. A luz do Sol ainda está iluminando a paisagem. Ao fundo, o cenário é a aldeia onde vivem." width="739" height="415" /><figcaption id="caption-attachment-30786" class="wp-caption-text">“Vamos compartilhar este pensamento para juntos ficarmos mais sábios”, diz Davi Kopenawa Yanomami (Foto: ARUAC Filmes)</figcaption></figure>
<p><b>Mãri hi &#8211; A Árvore do Sonho (Morzaniel Ɨramari, 17’, 2023)</b></p>
<p><a href="https://g1.globo.com/rr/roraima/noticia/2023/04/25/primeiro-cineasta-yanomami-ganha-premio-em-festival-internacional-de-documentarios.ghtml"><span style="font-weight: 400;">Morzaniel Ɨramari</span></a><span style="font-weight: 400;"> enfrenta na pele os efeitos nocivos da exploração do garimpo desde os seus primeiros anos de vida. No Cinema, ele encontrou uma forma de registrar a história de seu povo, atravessada pela constante luta por direitos. Com o curta-documentário </span><a href="https://www.google.com/amp/s/www.estadao.com.br/amp/cultura/p-de-pop/morzaniel-iramari-filma-a-luta-yanomami/%3ftype=post"><i><span style="font-weight: 400;">Mãri hi &#8211; A Árvore do Sonho</span></i></a><span style="font-weight: 400;">,  o primeiro yanomami a se tornar diretor foi selecionado para o Festival </span><a href="https://personaunesp.com.br/cobertura-festival-e-tudo-verdade-2022/"><span style="font-weight: 400;">É Tudo Verdade</span></a><span style="font-weight: 400;">, em que venceu a categoria de Melhor Documentário da Competição Brasileira de Curtas-Metragens. A obra trata da relação mística entre os moradores da &#8220;</span><i><span style="font-weight: 400;">terra-floresta</span></i><span style="font-weight: 400;">&#8221; e a semente de árvore que concede os sonhos ao mundo de todos.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Carregado de um olhar intimista e da narração precisa de </span><a href="https://www.youtube.com/watch?v=5byN3rhbZKs"><span style="font-weight: 400;">Davi Kopenawa</span></a><span style="font-weight: 400;">, Ɨramari não pretende explicar o linguajar característico ou as tradições cultivadas pela sua cultura, mas sim fazer o público experienciar algo único. Em meio ao clima monótono, é a composição sensível de alguém que vivencia tal realidade que transforma a atmosfera do filme em algo </span><a href="https://sumauma.com/os-xamas-sonham-e-falam-que-a-floresta-esta-chorando-porque-esta-destruida/"><span style="font-weight: 400;">brutalmente mágico</span></a><span style="font-weight: 400;">. Ao passo em que Kopenawa escreve em seu caderno e os desenhos das crianças yanomami colorem a tela, a conclusão caminha para um tema um tanto quanto universal, afinal, &#8220;</span><i><span style="font-weight: 400;">com árvore do sonho nós sonhamos longe”</span></i><span style="font-weight: 400;">. </span><b>&#8211; Nathalia Tetzner</b></p>
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<figure id="attachment_30782" aria-describedby="caption-attachment-30782" style="width: 886px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="wp-image-30782 size-full" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/04/cama-vazia-e1682968412948.png" alt="" width="886" height="626" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/04/cama-vazia-e1682968412948.png 886w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/04/cama-vazia-e1682968412948-800x565.png 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/04/cama-vazia-e1682968412948-768x543.png 768w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 1362px) 62vw, 840px" /><figcaption id="caption-attachment-30782" class="wp-caption-text">No curta de cinco minutos, vemos imagens de Jean-Claude Bernardet durante seu tratamento de câncer, que ganha tons assombrosos e desesperançosos (Foto: Fábio Rogério e Jean-Claude Bernardet)</figcaption></figure>
<p><b>Cama Vazia (Fábio Rogério e Jean-Claude Bernardet, 5’, 2023)</b></p>
<p><span style="font-weight: 400;">“</span><i><span style="font-weight: 400;">Pior que eu tenho pavor da velhice</span></i><span style="font-weight: 400;">” – </span><i><span style="font-weight: 400;">Cama Vazia </span></i><span style="font-weight: 400;">se inicia com um áudio em fundo preto; trata-se da voz de Sônia Silk, a personagem interpretada por Helena Ignez em </span><i><span style="font-weight: 400;">Copacabana Mon Amour </span></i><span style="font-weight: 400;">(1970), de <a href="https://enciclopedia.itaucultural.org.br/pessoa15983/rogerio-sganzerla">Rogério Sganzerla</a>. O Cinema marginal de Sganzerla, marcado principalmente pela ironia, emerge como referência no curta de 5 minutos dirigido por Fábio Rogério e </span><a href="https://www1.folha.uol.com.br/ilustrada/2021/06/jean-claude-bernardet-fala-de-aids-e-de-cancer-em-livro-sem-meias-palavras.shtml"><span style="font-weight: 400;">Jean-Claude Bernardet</span></a><span style="font-weight: 400;">. Acompanhando um homem idoso – o próprio Bernardet – em tratamento de uma doença que nunca é explicitada, enxergamos o que poderia ser sua aparente decomposição social, visto que, no pequeno filme, essa desintegração não é apenas corporal.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Montado como uma sequência de fotografias, não demora para percebermos que </span><i><span style="font-weight: 400;">Cama Vazia</span></i><span style="font-weight: 400;"> é a documentação do tratamento contra o câncer de Jean-Claude Bernardet, também exposto por ele no livro </span><a href="https://www.companhiadasletras.com.br/livro/9786559210480/o-corpo-critico"><i><span style="font-weight: 400;">O Corpo Crítico</span></i></a><span style="font-weight: 400;"> (2021), em que aborda a “</span><i><span style="font-weight: 400;">faceta robótica</span></i><span style="font-weight: 400;">” dos médicos e enfermeiros durante a terapia. É essa característica desoladora que mais fica em evidência no curta-metragem, pois sua narração compreende que seu &#8220;</span><i><span style="font-weight: 400;">corpo octogenário, aidético e canceroso”</span></i><span style="font-weight: 400;">, como ele mesmo descreve, é apenas um mecanismo, uma possibilidade de lucro e uma máquina que carrega o câncer, que preocupa mais os médicos do “</span><i><span style="font-weight: 400;">que o portador do tumor</span></i><span style="font-weight: 400;">”. No curta, o desencanto da obra é, também, um desencanto do próprio autor – negando-se a dar seguimento ao processo terapêutico –, que liga sua condição ao capitalismo e constrói, junto a Fábio Rogério, um ensaio sobre a morte na pós-modernidade. </span><b>&#8211; Bruno Andrade</b></p>
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<figure id="attachment_30796" aria-describedby="caption-attachment-30796" style="width: 959px" class="wp-caption aligncenter"><img loading="lazy" decoding="async" class="wp-image-30796 size-full" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/05/Captura-de-tela-2023-04-28-125221.png" alt="" width="959" height="538" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/05/Captura-de-tela-2023-04-28-125221.png 959w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/05/Captura-de-tela-2023-04-28-125221-800x449.png 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/05/Captura-de-tela-2023-04-28-125221-768x431.png 768w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 1362px) 62vw, 840px" /><figcaption id="caption-attachment-30796" class="wp-caption-text">A expulsão dos habitantes do Morro Castello são registradas pela lente de Guilherme dos Santos, em arquivos recentemente recuperados por instituições da memória brasileira e revisitados por França (Foto: Instituto Moreira Salles/Rio Memórias)</figcaption></figure>
<p><b>BAMBAMBÃ (Andréa França, 12’, 2022)</b></p>
<p><span style="font-weight: 400;">É tradicional do exercício da prática do Cinema de Arquivo a segmentação de imagens de </span><a href="https://brapci.inf.br/index.php/res/v/203561"><i><span style="font-weight: 400;">found footage</span></i></a> <span style="font-weight: 400;">em seus míseros detalhes para descobrir, assim, algo que transpareça a realidade de um coletivo. Em</span> <a href="https://ims.com.br/filme/no-intenso-agora/"><i><span style="font-weight: 400;">No Intenso Agora</span></i> </a><span style="font-weight: 400;">(2017)</span><i><span style="font-weight: 400;">, </span></i><span style="font-weight: 400;">o diretor João Moreira Salles olha a uma babá que fica no último plano de um filme familiar para entender as condições de classe da sociedade carioca; já em </span><a href="https://www.youtube.com/watch?v=OyThQGBZFMI"><i><span style="font-weight: 400;">BAMBAMBÃ</span></i></a><i><span style="font-weight: 400;">,</span></i><span style="font-weight: 400;"> Andréa França faz uma compilação de uma categoria específica de imagens – as das mudanças urbanas que atravessaram a metrópole no início do século – como uma tentativa de orientar o olhar do espectador ao seu tema de estudo.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Com Patrícia Machado na pesquisa, a diretora do curta, também </span><a href="http://www.pos.com.puc-rio.br/br/texto/259/curta-produzido-por-professoras-do-ppgcom-e-selecionado-para-o-festival-e-tudo-verdade"><span style="font-weight: 400;">professora</span></a><span style="font-weight: 400;"> universitária, mistura a teoria histórico-sociológica ao estudo do momento estético das imagens fotográficas e do panorama cultural da época. Assim, os movimentos gentrificadores como o &#8220;</span><a href="https://ims.com.br/exposicao/moderna-pelo-avesso_ims-paulista/"><span style="font-weight: 400;">bota-abaixo</span></a><span style="font-weight: 400;">&#8221; e o início da favelização do Rio de Janeiro são diretamente relacionados ao plano civilizatório de uma modernidade brasileira – que culmina nas tantas </span><a href="https://www.brasildefato.com.br/2022/02/17/excludente-elitista-e-patriarcal-pesquisadora-amplia-olhar-critico-sobre-semana-de-22"><span style="font-weight: 400;">contradições</span></a><span style="font-weight: 400;"> que envolvem a </span><a href="https://personaunesp.com.br/as-mulheres-da-semana-de-22-artigo/"><span style="font-weight: 400;">Semana de Arte de 22</span></a> <span style="font-weight: 400;">–</span><span style="font-weight: 400;">, tudo através da análise da natureza das fotografias da época: registros amadores, por homens da elite, de uma sociedade tradicional em desaparecimento. </span><b>&#8211; Enzo Caramori</b></p>
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<figure id="attachment_30834" aria-describedby="caption-attachment-30834" style="width: 1366px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-full wp-image-30834" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/05/Vanh-Go-To-Laklano.png" alt="" width="1366" height="768" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/05/Vanh-Go-To-Laklano.png 1366w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/05/Vanh-Go-To-Laklano-800x450.png 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/05/Vanh-Go-To-Laklano-1024x576.png 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/05/Vanh-Go-To-Laklano-768x432.png 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/05/Vanh-Go-To-Laklano-1200x675.png 1200w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 1362px) 62vw, 840px" /><figcaption id="caption-attachment-30834" class="wp-caption-text">A construção da barragem do Norte dividiu os povos indígenas locais em 10 aldeias diferentes (Foto: Calêndula Filmes)</figcaption></figure>
<p><b>Vãnh Gõ Tõ Laklãnõ (Barbara Pettres, Flávia Person e Walderes Coctá Priprá, 25’, 2022)</b></p>
<p><span style="font-weight: 400;">A barragem Norte de José Boiteux é a maior obra de contenção de cheias no Brasil. A inauguração, em 1972, deu oportunidades de trabalho a imigrantes e reduziu as inundações no Vale do Itajaí. Do outro lado, porém, desde então alaga boa parte das terras Laklãnõ/Xokleng. Os povos indígenas do local, em Santa Catarina, são mais antigos que qualquer construção ou processo social de imigração e, ainda assim, vêem sua cultura ser </span><a href="https://www.uol.com.br/ecoa/ultimas-noticias/2020/06/02/o-que-e-o-marco-temporal-e-como-ele-impacta-indigenas-brasileiros.htm"><span style="font-weight: 400;">diluída</span></a><span style="font-weight: 400;">. Do idioma às escolas evacuadas por condições precárias, </span><a href="https://www.youtube.com/watch?v=AX1giw-b62g"><i><span style="font-weight: 400;">Vãnh Gõ Tõ Laklãnõ</span></i></a> <span style="font-weight: 400;">remonta a história dos povos ali situados, com focos sensíveis e atentos a quem fez parte de sua construção.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">É através da visão de seus próprios integrantes que o curta-metragem documental reconstrói os Laklãnõ/Xokleng: um pastor indígena que prega a fé evangélica em sua língua nativa para que esta continue viva; uma </span><a href="https://ccs2.ufpel.edu.br/wp/2019/11/13/alunos-se-reunem-com-primeira-indigena-de-formacao-arqueologica-do-pais/"><span style="font-weight: 400;">arqueóloga</span></a><span style="font-weight: 400;">, Walderes Coctá Priprá (uma das diretoras da obra), discute como o preconceito do povo branco estereotipa os indígenas para minimizá-los de seus direitos: um poeta recita as consequências da instalação da barragem para os moradores locais: “</span><i><span style="font-weight: 400;">de uma utilidade imensa, mas também prejudicial</span></i><span style="font-weight: 400;">”. Com um trabalho de som que imerge na natureza e no cotidiano local, e uma escuta sincera a quem expõe sua verdade, </span><i><span style="font-weight: 400;">Vãnh Gõ Tõ Laklãnõ </span></i><span style="font-weight: 400;">venceu o Prêmio Canal Brasil de Curtas do festival, e </span><span style="font-weight: 400;">mostra o impacto e importância do Marco Temporal no país. </span><b>&#8211; Vitória Gomez</b></p>
<hr />
<figure id="attachment_30781" aria-describedby="caption-attachment-30781" style="width: 1288px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="wp-image-30781 size-full" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/04/retratos-de-piratininga.png" alt="" width="1288" height="624" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/04/retratos-de-piratininga.png 1288w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/04/retratos-de-piratininga-800x388.png 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/04/retratos-de-piratininga-1024x496.png 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/04/retratos-de-piratininga-768x372.png 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/04/retratos-de-piratininga-1200x581.png 1200w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 1362px) 62vw, 840px" /><figcaption id="caption-attachment-30781" class="wp-caption-text">Com Retratos de Piratininga, André Manfrim reflete sobre as narrativas presentes nos monumentos de São Paulo (Foto: Filmes de Taipa)</figcaption></figure>
<p><b>Retratos de Piratininga (André Manfrim, 17’, 2023)</b></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Em 2021, a queima da estátua de Borba Gato, na Zona Sul de São Paulo, reacendeu o debate sobre a memória colonial amplamente resguardada na História da Arte. Rapidamente rechaçado por líderes conservadores e pela polícia, o ato apontou para apenas uma faceta da memória conservada nos espaços públicos. Fato é que o tipo de história que se quer contar – ou lembrar – também diz respeito ao tipo de sociedade que se quer criar. Borba Gato, líder bandeirante, foi apenas um dos homenageados pelas ruas da capital: no centro velho de São Paulo – região onde se encontra a Praça da Sé –, estão as estátuas do jesuíta José de Anchieta, Apóstolo Paulo (que dá nome a cidade) e Tibiriçá, indígena que se converteu ao cristianismo.</span> <span style="font-weight: 400;">O diretor </span><a href="https://www.youtube.com/watch?v=ByN9DTDXDvE&amp;ab_channel=piquebandeirafilmes"><span style="font-weight: 400;">André Manfrim</span></a><span style="font-weight: 400;"> parte desses monumentos para tentar enxergar o que eles nos dizem sobre o passado e, principalmente, sobre o presente.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Com narração de André Abujamra, </span><a href="http://etudoverdade.com.br/br/filme/51504-Retratos-de-Piratininga"><i><span style="font-weight: 400;">Retratos de Piratininga</span></i></a> <span style="font-weight: 400;">é um filme lento, visivelmente artesanal, com caráter quase didático. Através de pesquisa sobre as obras filmadas, o curta-metragem cria um diálogo entre as imagens gravadas e a voz de Abujamra, que nos confidencia os segredos guardados pelos monumentos. Há, portanto, um filme ensaio, que parte da análise e reflexão sobre a memória preservada após a colonização – memória essa, muitas vezes, romantizada nas Artes. Trata-se de um curta que desmonta as narrativas da formação da cidade de São Paulo, que integram nosso imaginário e que, nos meandros da História, se revelam marcadas pela fé e pela violência. </span><b>&#8211; Bruno Andrade</b></p>
<hr />
<figure id="attachment_30802" aria-describedby="caption-attachment-30802" style="width: 1024px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="wp-image-30802 size-full" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/05/Todavia-sinto.jpg" alt="Cena do curta-metragem Todavia Sinto. Na imagem, a protagonista olha o seu reflexo em um espelho. Ela é uma mulher negra de cabelos crespos presos e segura o espelho entre as pernas." width="1024" height="574" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/05/Todavia-sinto.jpg 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/05/Todavia-sinto-800x448.jpg 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/05/Todavia-sinto-768x431.jpg 768w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 1362px) 62vw, 840px" /><figcaption id="caption-attachment-30802" class="wp-caption-text">Poético e doloroso, Todavia Sinto, co-produzido na Espanha e em Cuba, ganhou o Prêmio EDT, da Associação de Profissionais de Edição Audiovisual, para Melhor Montagem no Festival É Tudo Verdade de 2023 (Foto: EICTV)</figcaption></figure>
<p><b>Todavia Sinto (Evelyn Santos, 9’, 2022)</b></p>
<p><span style="font-weight: 400;">O que acontece quando o positivo chega? Qual é o peso de uma decisão? Alguém é capaz de verdadeiramente entender? Sob a direção de Evelyn Santos, o concorrente da Competição Brasileira de Curta-Metragem na 28ª edição do </span><a href="http://etudoverdade.com.br/br/pag/vencedores2023"><span style="font-weight: 400;">Festival É Tudo Verdade</span></a><span style="font-weight: 400;">, </span><i><span style="font-weight: 400;">Todavia Sinto</span></i><span style="font-weight: 400;">, não se compromete a responder, mas fomentar as perguntas que afogam uma pessoa quando a gravidez se torna uma realidade. Debaixo das águas turbulentas de emoções tão singulares, a produção mostra o ar se esvaindo de um corpo que perde sua individualização sem deixar de estar completamente sozinho. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Com as imagens misturando o movimento agressivo das ondas e os </span><i><span style="font-weight: 400;">frames</span></i><span style="font-weight: 400;"> detalhistas da construção da imagem da mulher grávida, assistir o curta é uma experiência brilhante e extremamente sufocante. Enquanto escutamos as perguntas e opiniões de quem está fora da anatomia que carrega o feto, as escolhas parecem cada vez mais pessoais e tomadas por uma dor intransferível, inserida no telespectador como a laceração de uma faca afiada. Seja na escolha de </span><a href="https://personaunesp.com.br/o-acontecimento-livro-critica/"><span style="font-weight: 400;">abortar</span></a><span style="font-weight: 400;"> ou seguir a gestação, os olhares externos jamais deixariam de expor seus pensamentos próprios e, por mais que tentem, compreender plenamente é uma tarefa impossível. Em um oceano de complexidades, nada é capaz de dividir a verdade vivente na humanidade de quem, todavia, sente. </span><b>– Jamily Rigonatto </b></p>
<hr />
<figure id="attachment_30787" aria-describedby="caption-attachment-30787" style="width: 1920px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="wp-image-30787 size-full" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/05/Aos-Mortos-Um-Lugar-para-Habitar.jpeg" alt="Cena do curta-documental Aos Mortos, Um Lugar para Habitar. Nela vemos um arquivo pessoal que mostra Sandra Maria Costa Barbosa, personagem central da obra. Sandra era uma mulher branca, de meia idade, de cabelos castanhos e olhos pretos. A imagem, que por ser de arquivo, emula a estética de um VHS, dá um close em Sandra, que devido ao sol, olha para o lado com os olhos cerrados. Ao fundo, vemos uma praia." width="1920" height="1228" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/05/Aos-Mortos-Um-Lugar-para-Habitar.jpeg 1920w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/05/Aos-Mortos-Um-Lugar-para-Habitar-800x512.jpeg 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/05/Aos-Mortos-Um-Lugar-para-Habitar-1024x655.jpeg 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/05/Aos-Mortos-Um-Lugar-para-Habitar-768x491.jpeg 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/05/Aos-Mortos-Um-Lugar-para-Habitar-1536x982.jpeg 1536w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/05/Aos-Mortos-Um-Lugar-para-Habitar-1200x768.jpeg 1200w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 1362px) 62vw, 840px" /><figcaption id="caption-attachment-30787" class="wp-caption-text">O curta é a tentativa mais singela e certeira de dar rosto aos números (Foto: Orla Filmes)</figcaption></figure>
<p><b>Aos Mortos, Um Lugar para Habitar (Victor Costa Lopes, 7’, 2023)</b></p>
<p><span style="font-weight: 400;">“</span><i><span style="font-weight: 400;">A melhor maneira de garantir que os mortos não causarão desordem é, não apenas enterrá-los, mas enterrar também seus restos, os seus destroços. Arquivos são uma parte desses restos e destroços</span></i><span style="font-weight: 400;">”. É com a frase do filósofo camaronês </span><a href="https://www.politize.com.br/necropolitica-o-que-e/"><span style="font-weight: 400;">Achille Mbembe</span></a><span style="font-weight: 400;"> que </span><i><span style="font-weight: 400;">Aos Mortos, Um Lugar para Habitar</span></i><span style="font-weight: 400;">, do diretor cearense Victor Costa Lopes, se ambienta a partir do relatório base da CPI da pandemia, que teve início ainda em 2021, um dos anos de pico da doença.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Muito mais que um minuto de silêncio, o curta é uma invocação de sete minutos à memória de Sandra Maria Costa Barbosa, uma das mais de 700 mil vítimas da covid-19 aqui no Brasil. Por mais que pareça pessoal, a produção é consciente ao florescer um sentimento único a cada um de nós, que, de uma forma ou de outra, fomos afetados não só pela pandemia mas também pelo descaso do governo Bolsonaro, fazendo que a Sandra e suas lembranças se transmutem em diferentes faces.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">É fato que a memória é a última coisa de nossos entes que permanece viva em nós, mas </span><a href="http://etudoverdade.com.br/br/filme/51539-Aos-Mortos--um-Lugar-para-Habitar"><i><span style="font-weight: 400;">Aos Mortos, Um Lugar para Habitar</span></i></a><span style="font-weight: 400;"> mostra que, devido a uma condução criminosa da pandemia, tudo que a precede nos foi tirado. Desde um diagnóstico preciso, um enterro honroso e até mesmo um tratamento confortável e digno para algo que podia ou não ser iminente. Os mortos? Foram escorraçados, e o único lugar seguro para habitar foi a nossa memória. </span><b>&#8211; Guilherme Veiga</b></p>
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		<title>Manuel Bandeira não engole sapos diante do academicismo literário</title>
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		<pubDate>Wed, 16 Feb 2022 18:42:04 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p>Quatro anos antes da Semana de 1922, o poeta brasileiro já repensava a Literatura nacional por meio de características modernistas Eduardo Rota Hilário Entre Baleias e burrinhos pedreses, há um bom tempo que a Literatura brasileira dá vida aos bichos mais singulares do cenário criativo nacional. Sendo alguns mais conhecidos do que outros, em uma &#8230; <a href="http://personaunesp.com.br/manuel-bandeira-os-sapos-literatura-modernista-artigo/" class="more-link">Continue lendo<span class="screen-reader-text"> "Manuel Bandeira não engole sapos diante do academicismo literário"</span></a></p>
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										<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: right;"><i>Quatro anos antes da Semana de 1922, o poeta brasileiro já repensava a Literatura nacional por meio de características modernistas</i></p>
<figure id="attachment_26072" aria-describedby="caption-attachment-26072" style="width: 1000px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-full wp-image-26072" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/02/Imagem-1-3.jpg" alt="Pintura da artista brasileira Tarsila do Amaral. Imagem retangular horizontal. Na parte superior, vemos um céu azulado e alguns cactos verdes. Uma espécie de caverna ocupa quase toda a imagem. Por meio dessa cavidade rochosa, observamos um fundo bege, uma espécie de lago e, mais à direita, um sapo verde. A pintura inteira apresenta características cubistas. " width="1000" height="816" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/02/Imagem-1-3.jpg 1000w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/02/Imagem-1-3-800x653.jpg 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/02/Imagem-1-3-768x627.jpg 768w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 1362px) 62vw, 840px" /><figcaption id="caption-attachment-26072" class="wp-caption-text">Publicado no livro Carnaval, de 1919, o poema Os Sapos, de Manuel Bandeira, antecipou as características da Literatura criada pela primeira geração modernista brasileira; na imagem, vemos a pintura O Sapo, de 1928, feita por Tarsila do Amaral (Foto: Romulo Fialdini)</figcaption></figure>
<p><b>Eduardo Rota Hilário</b></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Entre </span><a href="https://guiadoestudante.abril.com.br/estudo/vidas-secas-conheca-os-personagens-da-obra/#:~:text=BALEIA%20%E2%80%93%20personagem%20curiosa.,no%20momento%20de%20sua%20morte."><span style="font-weight: 400;">Baleias</span></a><span style="font-weight: 400;"> e </span><a href="https://guiadoestudante.abril.com.br/estudo/sagarana-resumo-da-obra-de-guimaraes-rosa/"><span style="font-weight: 400;">burrinhos pedreses</span></a><span style="font-weight: 400;">, há um bom tempo que a </span><a href="https://personaunesp.com.br/tag/literatura-brasileira/"><span style="font-weight: 400;">Literatura brasileira</span></a><span style="font-weight: 400;"> dá vida aos bichos mais singulares do cenário criativo nacional. Sendo alguns mais conhecidos do que outros, em uma possível lista das mais memoráveis dessas criaturas, os sapos de Manuel Bandeira com certeza garantiriam uma posição e reconhecimento bastante nobres e justos. Criados pelo artista recifense em poema homônimo, de 1918, </span><i><span style="font-weight: 400;">Os Sapos</span></i><span style="font-weight: 400;"> só foram publicados em 1919, no livro </span><a href="https://ufmg.br/comunicacao/noticias/livro-carnaval-de-manuel-bandeira-completa-100-anos"><i><span style="font-weight: 400;">Carnaval</span></i></a><span style="font-weight: 400;"> &#8211; mas foi na </span><a href="https://personaunesp.com.br/tag/semana-de-arte-moderna/"><span style="font-weight: 400;">Semana de Arte Moderna de 1922</span></a> <span style="font-weight: 400;">que conquistaram de fato uma grande projeção.</span></p>
<p><span id="more-26071"></span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Bandeira </span><a href="https://www.bbc.com/portuguese/geral-60321269#:~:text=A%20leitura%20de%20Os%20sapos,%22Jo%C3%A3o%20Batista%20do%20Modernismo%22."><span style="font-weight: 400;">não esteve</span></a><span style="font-weight: 400;"> no evento, é verdade. Mas isso não impediu que, no dia 15 de fevereiro, durante a segunda das três noites da Semana, o poeta Ronald de Carvalho declamasse aquele que, com segurança, pode ser considerado a “</span><a href="https://www.socialistamorena.com.br/semana-de-arte-moderna-91-anos-os-sapos-de-manuel-bandeira/"><i><span style="font-weight: 400;">declaração de princípios dos modernistas</span></i></a><span style="font-weight: 400;">”, especialmente nas artes literárias. Recebidos com gritos e vaias, </span><i><span style="font-weight: 400;">Os Sapos</span></i><span style="font-weight: 400;"> expunham como elemento central uma crítica bem-humorada aos poetas parnasianos &#8211; demasiadamente apegados a uma Arte mais tradicional -, dando espaço à tão desejada &#8211; e, hoje em dia, super conhecida, </span><a href="https://www1.folha.uol.com.br/colunas/ruycastro/2022/01/nos-bracos-da-academia.shtml?origin=folha"><span style="font-weight: 400;">mas pouco questionada</span></a><span style="font-weight: 400;"> &#8211; ruptura com o academicismo regrado e rígido. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Em aspectos formais, o que se observa de início no poema é uma apropriação minuciosa da excessiva preocupação estética parnasiana. Formado por </span><a href="https://brasilescola.uol.com.br/o-que-e/portugues/o-que-e-redondilha.htm#:~:text=Chama%2Dse%20redondilha%20o%20recurso,sete%20s%C3%ADlabas%20s%C3%A3o%20redondilhas%20maiores."><span style="font-weight: 400;">redondilhas menores</span></a><span style="font-weight: 400;">, isto é, por versos de cinco sílabas poéticas, e rimas principalmente </span><a href="https://mundoeducacao.uol.com.br/literatura/as-rimas-suas-combinacoes.htm"><span style="font-weight: 400;">alternadas</span></a><span style="font-weight: 400;">, o texto de Bandeira pouco se afasta, nesse sentido, da tradição que antecede o Modernismo. A isso, soma-se a evidente elaboração sonora do poema, que busca imitar o coaxar de sapos em versos como “</span><i><span style="font-weight: 400;">-“Meu pai foi à guerra!”/-“Não foi!” -“Foi!” -“Não foi!”</span></i><span style="font-weight: 400;">”</span> <span style="font-weight: 400;">&#8211; provavelmente, os mais famosos de toda a obra. </span></p>
<figure id="attachment_26073" aria-describedby="caption-attachment-26073" style="width: 1920px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-full wp-image-26073" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/02/Imagem-2-3.jpg" alt="Cena do filme O Poeta do Castelo. Fotografia retangular horizontal em preto e branco. À esquerda, Manuel Bandeira encontra-se deitado, com uma máquina de datilografar no colo e alguns livros ao seu redor. Ele é um homem de roupa listrada, óculos e está concentrado. À direita, podemos ver uma estante com livros." width="1920" height="1080" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/02/Imagem-2-3.jpg 1920w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/02/Imagem-2-3-800x450.jpg 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/02/Imagem-2-3-1024x576.jpg 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/02/Imagem-2-3-768x432.jpg 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/02/Imagem-2-3-1536x864.jpg 1536w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/02/Imagem-2-3-1200x675.jpg 1200w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 1362px) 62vw, 840px" /><figcaption id="caption-attachment-26073" class="wp-caption-text">Manuel Bandeira em cena do filme O Poeta do Castelo, de 1959 (Foto: Saga Filmes/Instituto Moreira Salles)</figcaption></figure>
<p><a href="https://www.culturagenial.com/poema-os-sapos-manuel-bandeira/"><span style="font-weight: 400;">A métrica regular, a sonoridade e as rimas</span></a><span style="font-weight: 400;"> de </span><i><span style="font-weight: 400;">Os Sapos</span></i><span style="font-weight: 400;">, no entanto, têm uma decisiva razão de ser. Ao observarmos o conteúdo de todas as estrofes, percebemos que a apropriação de Bandeira nada mais é do que um surpreendente recurso irônico. Desse modo, as características fundamentais da </span><a href="https://www.todamateria.com.br/primeira-geracao-modernista/"><span style="font-weight: 400;">primeira geração modernista</span></a><span style="font-weight: 400;"> já começavam a ganhar forma em um trabalho de 1918, quatro anos antes da existência de uma Semana de Arte Moderna. A ironia, o humor e a paródia, por exemplo, guiam </span><i><span style="font-weight: 400;">Os Sapos</span></i><span style="font-weight: 400;"> do início ao fim, estando presentes em maior ou menor grau de sutileza.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Resgatando Olavo Bilac, um dos maiores símbolos do Parnasianismo brasileiro, torna-se inevitável retomar o poema </span><a href="http://biblio.com.br/defaultz.asp?link=http://biblio.com.br/conteudo/OlavoBilac/profissaodefe.htm"><i><span style="font-weight: 400;">Profissão de Fé</span></i></a><span style="font-weight: 400;">: obra geralmente lembrada por estabelecer uma famosa comparação entre os trabalhos do </span><a href="https://www.coladaweb.com/guia-de-profissoes/ourives"><span style="font-weight: 400;">ourives</span></a><span style="font-weight: 400;"> e do poeta. Ou, como diz o próprio autor, “</span><i><span style="font-weight: 400;">Invejo o ourives quando escrevo:/Imito o amor/Com que ele, em ouro, o alto relevo/Faz de uma flor.</span></i><span style="font-weight: 400;">” Sem esse repertório, torna-se bem difícil &#8211; se não impossível &#8211; compreender a paródia construída ao longo dos versos de </span><i><span style="font-weight: 400;">Os Sapos</span></i><span style="font-weight: 400;">.      </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">“</span><i><span style="font-weight: 400;">Brada em um assomo/O sapo-tanoeiro:/– “A grande arte é como/Lavor de joalheiro.</span></i><span style="font-weight: 400;">”, escreve Manuel Bandeira. Desde o princípio, é o sapo-tanoeiro quem dita as regras da suposta ‘boa poesia’. Olhando somente para esses versos, a crítica em forma de paródia é nítida, mas pode parecer também implícita. Retornando à terceira estrofe, no entanto, concluímos que Bandeira não poupou palavras ao apontar que o sapo-tanoeiro é ninguém menos que o “</span><i><span style="font-weight: 400;">parnasiano aguado</span></i><span style="font-weight: 400;">”. Ao parodiar a </span><i><span style="font-weight: 400;">Profissão de Fé</span></i><span style="font-weight: 400;"> parnasiana, podemos muito bem supor que esse anfíbio é, na verdade, o próprio </span><a href="https://www.academia.org.br/academicos/olavo-bilac/biografia"><span style="font-weight: 400;">Bilac</span></a><span style="font-weight: 400;">. </span></p>
<figure id="attachment_26074" aria-describedby="caption-attachment-26074" style="width: 1000px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-full wp-image-26074" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/02/Imagem-3-2.jpg" alt="Página do livro Poesias, de Olavo Bilac. Fotografia quadrada, com fundo branco. A página ocupa quase toda a imagem. Trata-se de um papel amarelado, no qual lemos, de cima para baixo, Olavo Bilac, Poesias, Nona Edição Revista. Abaixo, em um retângulo de bordas pretas, lemos Panóplias, Via Láctea, Sarças de Fogo, Alma Inquieta, As Viagens, O Caçador de Esmeraldas e Tarde. Mais embaixo, lemos Livraria Francisco Alves, Rio de Janeiro, São Paulo, Belo Horizonte, 1922. Todas as palavras estão em letras pretas. " width="1000" height="1000" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/02/Imagem-3-2.jpg 1000w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/02/Imagem-3-2-800x800.jpg 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/02/Imagem-3-2-150x150.jpg 150w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/02/Imagem-3-2-768x768.jpg 768w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 1362px) 62vw, 840px" /><figcaption id="caption-attachment-26074" class="wp-caption-text">Olavo Bilac é um dos nomes mais lembrados do Parnasianismo brasileiro (Foto: Harpya Colecionáveis &amp; Antiguidades)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">Se essa rejeição ao Parnasianismo, visto como uma Arte tradicional e conservadora, é uma das características mais lembradas do </span><a href="https://www.culturagenial.com/modernismo/"><span style="font-weight: 400;">Modernismo</span></a><span style="font-weight: 400;">, a ironia e o humor deveriam vir logo em seguida. Nas falas do sapo-tanoeiro, esses dois elementos beiram até mesmo certo grau de deboche: “</span><i><span style="font-weight: 400;">Vede como primo/Em comer os hiatos!/Que arte! E nunca rimo/Os termos cognatos.</span></i><span style="font-weight: 400;">” Nessa visão, a única habilidade dos ‘antigos’ poetas era valorizar com cautela o lado formal de um texto. O fazer poético era, portanto, extremamente limitado.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Com o tempo, o que se percebe é que </span><i><span style="font-weight: 400;">Os Sapos</span></i><span style="font-weight: 400;"> são uma obra totalmente </span><a href="https://www.instagram.com/p/CCua53GDAof/"><span style="font-weight: 400;">metalinguística</span></a><span style="font-weight: 400;">. Isso se dá, porém, de forma inusitada. Critica-se a todo momento o diferencial dos parnasianos. Ou seja, o poema acaba abordando a maneira como ele mesmo não deveria ser. Trata-se, então, de uma metalinguagem também irônica. É, enfim, o grito da poesia brasileira contra as “</span><i><span style="font-weight: 400;">fôrmas</span></i><span style="font-weight: 400;">” que, em determinados pontos de vista, aprisionam e tornam vazias as expressões singulares de cada escritor.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Além disso, a obra em análise pode ser considerada ainda um exemplo daquilo que se convencionou chamar de poema-piada. O </span><a href="http://www.algumapoesia.com.br/poesia2/poesianet171.htm"><i><span style="font-weight: 400;">Senhor Feudal</span></i></a><span style="font-weight: 400;">, de Oswald de Andrade, talvez demonstre melhor esse tipo de criação consideravelmente comum na primeira geração do Modernismo: “</span><i><span style="font-weight: 400;">Se Pedro Segundo/Vier aqui/Com história/Eu boto ele na cadeia</span></i><span style="font-weight: 400;">”. De qualquer modo, os versos de </span><i><span style="font-weight: 400;">Os Sapos</span></i><span style="font-weight: 400;"> também carregam muito humor, motivo pelo qual o poema pode &#8211; mas não tem a obrigação de &#8211; ser inserido na classificação mencionada.</span></p>
<figure id="attachment_26075" aria-describedby="caption-attachment-26075" style="width: 843px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-full wp-image-26075" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/02/Imagem-4-2.jpg" alt="Pintura da artista brasileira Tarsila do Amaral. Imagem retangular vertical, com fundo acinzentado. Oswald ocupa quase todo o quadro. Ele é um homem de cabelos relativamente curtos, olha para a esquerda e veste terno, camisa e gravata." width="843" height="1024" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/02/Imagem-4-2.jpg 843w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/02/Imagem-4-2-659x800.jpg 659w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/02/Imagem-4-2-768x933.jpg 768w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 1362px) 62vw, 840px" /><figcaption id="caption-attachment-26075" class="wp-caption-text">Retrato de Oswald de Andrade, obra de 1923, da pintora Tarsila do Amaral (Foto: Romulo Fialdini)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">Certo é que, desmistificando uma provável </span><a href="https://www.posfacio.com.br/2011/06/11/deuses-e-sapos-uma-leitura-do-poema-os-sapos-de-manuel-bandeira/"><span style="font-weight: 400;">imagem endeusada</span></a><span style="font-weight: 400;"> de seus antecessores, Manuel Bandeira retrata os parnasianos como seres marginalizados, utilizando, para tanto, a figura geralmente rejeitada dos sapos. Destrói-se, assim, a noção exagerada de que “</span><i><span style="font-weight: 400;">Não há mais poesia,/Mas há artes poéticas…”</span></i><span style="font-weight: 400;">”, e aponta-se, enfim, para uma realidade histórica completamente distinta daquilo que era transformado em poesia. Em alguma medida, trata-se do Modernismo inconformado com tantos poetas em desacordo com o turbilhão multifatorial daquela época.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Mas nem todo sapo era ruim ou desprezível. </span><a href="http://www.nilc.icmc.usp.br/nilc/literatura/macuna.ma.htm"><span style="font-weight: 400;">No fundo do brejo fértil</span></a><span style="font-weight: 400;">, nasceu o cururu, herói do Modernismo. Brincadeiras à parte, a figura do sapo-cururu, no fim do poema, pode ser lida com tranquilidade como uma caracterização dos futuros modernistas. Envolvido por uma </span><a href="https://www.youtube.com/watch?v=ZrxjmULA9Ug"><span style="font-weight: 400;">canção popular</span></a><span style="font-weight: 400;"> e, portanto, por uma linguagem mais próxima do cotidiano, o sapo-cururu é quem destoa da “</span><i><span style="font-weight: 400;">grita</span></i><span style="font-weight: 400;">” parnasiana. Aliás, o coitado mal sabia que o futuro era mais próximo de si mesmo do que daqueles outros seres ‘</span><a href="https://www.youtube.com/watch?v=X7LZaOScIqU"><span style="font-weight: 400;">quadrados</span></a><span style="font-weight: 400;">’ &#8211; ou será que sabia?</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Sendo essa uma dúvida eterna, é melhor que nos preocupemos com outras analogias. Isso porque </span><i><span style="font-weight: 400;">Os Sapos</span></i><span style="font-weight: 400;"> misturam </span><a href="https://brasilescola.uol.com.br/literatura/rimas-pobre-rica-rara-preciosa.htm"><span style="font-weight: 400;">rimas ricas e pobres</span></a><span style="font-weight: 400;">, e há quem leia as primeiras como uma metáfora para o Parnasianismo, enquanto as segundas representariam os destoantes modernistas. Já em aspectos mais formais, o uso de aspas e travessões ao longo de cada ‘coaxar poético’ sem dúvida remete aos diálogos comumente utilizados em um gênero muito amado pelo Modernismo, mãe eterna de nomes como </span><a href="https://www.amazon.com.br/Macuna%C3%ADma-Her%C3%B3i-Sem-Nenhum-Car%C3%A1ter/dp/6586490472/ref=asc_df_6586490472/?tag=googleshopp00-20&amp;linkCode=df0&amp;hvadid=379715911398&amp;hvpos=&amp;hvnetw=g&amp;hvrand=3342612176804072851&amp;hvpone=&amp;hvptwo=&amp;hvqmt=&amp;hvdev=c&amp;hvdvcmdl=&amp;hvlocint=&amp;hvlocphy=9074225&amp;hvtargid=pla-1785663324432&amp;psc=1"><i><span style="font-weight: 400;">Macunaíma</span></i></a><span style="font-weight: 400;"> e </span><a href="https://www.amazon.com.br/Mem%C3%B3rias-sentimentais-Miramar-Oswald-Andrade/dp/8535927417/ref=sr_1_1_sspa?keywords=memorias+sentimentais+de+joao+miramar&amp;qid=1644931986&amp;s=books&amp;sprefix=memorias+sen%2Cstripbooks%2C209&amp;sr=1-1-spons&amp;psc=1&amp;spLa=ZW5jcnlwdGVkUXVhbGlmaWVyPUE2TUtOVVhVT1JLMVUmZW5jcnlwdGVkSWQ9QTAxMzc1MDUxMzdVMjVINFJRSTFYJmVuY3J5cHRlZEFkSWQ9QTA1NjE1MzgzVTBGUjYyNjBNQ1FQJndpZGdldE5hbWU9c3BfYXRmJmFjdGlvbj1jbGlja1JlZGlyZWN0JmRvTm90TG9nQ2xpY2s9dHJ1ZQ=="><i><span style="font-weight: 400;">Memórias Sentimentais de João Miramar</span></i></a><span style="font-weight: 400;">: a prosa.</span></p>
<figure id="attachment_26076" aria-describedby="caption-attachment-26076" style="width: 600px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-full wp-image-26076" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/02/Imagem-5-2.jpg" alt="Pôster do filme Macunaíma. Imagem retangular vertical, com fundo azul. Várias personagens do longa-metragem ocupam todo o cartaz. No centro, uma das versões do personagem Macunaíma olha para cima, de olhos fechados, abre os braços e exclama “Ai, que preguiça!” em um balão branco, típico de histórias em quadrinhos. Uma personagem indígena o abraça. Embaixo de Macunaíma, um homem exclama, por meio de outro balão branco, “Tá gostoso, coração, tá?”. Cobrindo as partes íntimas do protagonista, há uma faixa branca na qual se lê Macunaíma em letras verdes. Na parte inferior do pôster, lemos os créditos do filme. " width="600" height="889" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/02/Imagem-5-2.jpg 600w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/02/Imagem-5-2-540x800.jpg 540w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 984px) 61vw, (max-width: 1362px) 45vw, 600px" /><figcaption id="caption-attachment-26076" class="wp-caption-text">Pôster do filme Macunaíma, de 1969, baseado no livro de Mário de Andrade e dirigido por Joaquim Pedro de Andrade (Foto: Difilm/Filmes do Sêrro/Memórias da Ditadura)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">De fato, são muitas as questões que podem ser levantadas a partir de um único poema. Há defesas recentes, por exemplo, de que o Modernismo e o Parnasianismo </span><a href="https://www.jornalopcao.com.br/opcao-cultural/parnasianismo-brasileiro-e-ensinado-nas-escolas-como-o-modernismo-em-negativo-90053/#:~:text=Em%20tal%20narrativa%2C%20de%20natureza,po%C3%A9tica%20pedante%2C%20alienada%20e%20obsoleta."><span style="font-weight: 400;">não são ensinados da melhor maneira possível</span></a><span style="font-weight: 400;"> nas escolas brasileiras, sendo limitados a movimentos culturais opostos. Por outro lado, poderíamos imaginar que, por mais que as Artes não tenham a obrigação de reproduzir a realidade vigente, espera-se que elas reflitam minimamente um espírito de época &#8211; e, talvez, pela perda gradual disso, o Parnasianismo estivesse realmente ultrapassado quando os modernistas ganharam força.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Praticamente inquestionável, no entanto, é a percepção de que, </span><a href="https://personaunesp.com.br/tag/100-anos/"><span style="font-weight: 400;">100 anos</span></a><span style="font-weight: 400;"> após ser declamado, o poema </span><i><span style="font-weight: 400;">Os Sapos</span></i><span style="font-weight: 400;"> continua atual quando queremos abordar o ainda existente apego a diferentes regras para definir o que é bom ou não dentro do ramo cultural. É possível inclusive suspeitar que, nos dias de hoje, muitos atos dos modernistas </span><a href="https://g1.globo.com/mg/zona-da-mata/noticia/2022/02/07/praia-intervencao-que-propoe-quebra-de-padroes-de-corpos-causa-polemica-nasredessociais-em-juiz-de-fora.ghtml"><span style="font-weight: 400;">causariam verdadeiros escândalos</span></a><span style="font-weight: 400;"> nesta nação. Para os inconformados, restariam as famosas palavras de Caetano Veloso, </span><a href="https://open.spotify.com/track/4zTjoiwEMmgQICf4krcDMc?si=6084309fa2e74f6f"><span style="font-weight: 400;">discursadas</span></a><span style="font-weight: 400;"> em 1968: “</span><i><span style="font-weight: 400;">Vocês não estão entendendo nada, nada, nada, absolutamente nada.</span></i><span style="font-weight: 400;">”</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">No fim, este texto não seria tão completo sem a leitura de excelentes análises e comentários, como os escritos por Rebeca Fuks, Cleonice Machado e Emmanuel Santiago &#8211; todos disponíveis em </span><i><span style="font-weight: 400;">hiperlinks </span></i><span style="font-weight: 400;">ao longo dos parágrafos deste artigo. Em acréscimo, mesmo que esta nova reflexão não traga tantas novidades, buscar entender o que, de certa forma, antecipou a </span><a href="https://personaunesp.com.br/tag/semana-de-22/"><span style="font-weight: 400;">Semana de 1922</span></a><span style="font-weight: 400;">, além das características essenciais à primeira geração modernista já presentes em </span><i><span style="font-weight: 400;">Os Sapos</span></i><span style="font-weight: 400;">, serão sempre duas atitudes muito válidas. E, no meu caso, é uma forma bem particular de rememorar experiências vividas ao lado de </span><a href="https://www1.folha.uol.com.br/cotidiano/2021/10/mortes-cativante-e-genial-despertou-nos-alunos-o-amor-pelos-livros.shtml"><span style="font-weight: 400;">uma grande mestra</span></a><span style="font-weight: 400;">.</span></p>
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		<title>Entre o vírus e o verme, morre aos poucos um país</title>
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		<pubDate>Wed, 04 Aug 2021 20:04:37 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p>Eduardo Rota Hilário Um Brasil à deriva, sem controle sobre a pandemia de covid-19 e diariamente deturpado pelo desgoverno de Jair Bolsonaro: esse é o cenário que ambienta o novo livro de André Plez. Lançado em 2021 pela Editora Penalux, Entre o vírus e o verme se esgueiram poemas expõe, já na capa, aqueles que &#8230; <a href="http://personaunesp.com.br/entre-o-virus-e-o-verme-se-esgueiram-poemas-critica/" class="more-link">Continue lendo<span class="screen-reader-text"> "Entre o vírus e o verme, morre aos poucos um país"</span></a></p>
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										<content:encoded><![CDATA[<figure id="attachment_21869" aria-describedby="caption-attachment-21869" style="width: 1080px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-full wp-image-21869" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/07/Imagem-1-3.jpg" alt="Capa do livro Entre o vírus e o verme se esgueiram poemas. Fotografia quadrada. Ao fundo, uma parede de tijolos expostos, de cor cinza, apoia o livro. Na parte superior da capa, pode-se ler “Entre o vírus e o verme se esgueiram poemas” em letras tortas, de cor verde claro, com exceção de “vírus” e “verme”, grafados em branco. No centro da capa, sobre um fundo verde escuro, há um losango verde claro com a imagem do novo coronavírus, fazendo alusão à bandeira do Brasil. No canto inferior esquerdo da capa, lê-se “André Plez” em letras brancas. Sob o livro, há um apoio de madeira. " width="1080" height="1080" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/07/Imagem-1-3.jpg 1080w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/07/Imagem-1-3-800x800.jpg 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/07/Imagem-1-3-1024x1024.jpg 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/07/Imagem-1-3-150x150.jpg 150w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/07/Imagem-1-3-768x768.jpg 768w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 1362px) 62vw, 840px" /><figcaption id="caption-attachment-21869" class="wp-caption-text">Novo livro de André Plez, Entre o vírus e o verme se esgueiram poemas aborda temas urgentes com uma lírica que se assume engajada (Foto: Editora Penalux)</figcaption></figure>
<p><b>Eduardo Rota Hilário</b></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Um Brasil à deriva, sem controle sobre a pandemia de covid-19 e </span><a href="https://www.nexojornal.com.br/expresso/2021/07/02/Do-negacionismo-%C3%A0-corrup%C3%A7%C3%A3o-o-que-move-a-indigna%C3%A7%C3%A3o-nacional"><span style="font-weight: 400;">diariamente deturpado pelo desgoverno de Jair Bolsonaro</span></a><span style="font-weight: 400;">: esse é o cenário que ambienta o novo livro de André Plez. Lançado em 2021 pela Editora Penalux, </span><a href="https://www.youtube.com/watch?v=iEzcBsRGT1s"><i><span style="font-weight: 400;">Entre o vírus e o verme se esgueiram poemas</span></i></a><span style="font-weight: 400;"> expõe, já na capa, aqueles que serão dois verdadeiros inimigos do país. É justamente nesse primeiro contato imagético que nos deparamos com uma bandeira nacional sem o clássico céu estrelado, coberto pelo tenebroso novo coronavírus, enquanto vestígios de vermes, metáfora para o abominável Presidente da República, emergem do fundo esverdeado de nosso maior símbolo pátrio.</span></p>
<p><span id="more-21868"></span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Antes de adentrar os textos, o leitor deve ter consciência de que está diante de uma lírica declaradamente engajada. </span><i><span style="font-weight: 400;">“Versos em fúria”</span></i><span style="font-weight: 400;">, como classifica o poeta Marcio Dal Rio no prefácio da obra, não há isenção nessa literatura que denuncia e cutuca nossas feridas mais recentes. Desde </span><i><span style="font-weight: 400;">entre sombras e sóis</span></i><span style="font-weight: 400;">, poema que abre o livro, fixa-se na memória a imagem de um país decadente. </span><i><span style="font-weight: 400;">“Pobre de nós &#8211; os que sonham”</span></i><span style="font-weight: 400;">, lamenta um verso: será preciso conhecer a fundo o momento presente para então </span><i><span style="font-weight: 400;">“resgatar nossa consciência crítica para suportar e combater a opressão que nos cerca”</span></i><span style="font-weight: 400;">, dever defendido por Plez à </span><a href="https://www.recantodasletras.com.br/entrevistas/7285607"><span style="font-weight: 400;">Revista Literária da Lusofonia</span></a><span style="font-weight: 400;">.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Se uma das funções da arte é, hoje, a militância, as criações que a assumem ou se destacam pela preocupação estética, ou correm o risco de cair em discursos vazios. No caso da poesia de André Plez, o lapidar cauteloso do texto é nítido. Seja pela estrofe única, sem espaçamento entre palavras, de </span><i><span style="font-weight: 400;">#ELESIM</span></i><span style="font-weight: 400;">, estrutura que explicita que </span><a href="https://www.youtube.com/watch?v=KczwxvO3-iE"><span style="font-weight: 400;">os preconceitos de Bolsonaro eram frequentes e óbvios</span></a><span style="font-weight: 400;">, ou pelos flertes com o </span><a href="https://www.youtube.com/watch?v=iTcrYWFM1_w"><span style="font-weight: 400;">concretismo</span></a><span style="font-weight: 400;"> de alguns poemas sem título, o autor não deixa aspectos formais a desejar. Mesmo em versos livres, tal qual os de </span><a href="https://www.youtube.com/watch?v=gnFM8cdJjpk"><i><span style="font-weight: 400;">aspas</span></i></a><span style="font-weight: 400;">, elementos como o diálogo entre gramática e literatura confirmam um poeta consciente do que e de como escreve.</span></p>
<blockquote><p><span style="font-weight: 400;">“as aspas sangram</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">como se torturadas fossem</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">em uma cruz pós-calvário</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">que ostenta o nome do salvador</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">para celebrar a tortura”</span></p></blockquote>
<p><span style="font-weight: 400;">Preocupado com as atualidades, seria injusto dizer que </span><i><span style="font-weight: 400;">Entre o vírus e o verme se esgueiram poemas</span></i><span style="font-weight: 400;"> ignora o passado, principalmente os períodos mais recentes. Nos versos de </span><i><span style="font-weight: 400;">2016</span></i><span style="font-weight: 400;">, por exemplo, a indignação com </span><i><span style="font-weight: 400;">“o golpe”</span></i><span style="font-weight: 400;"> que </span><i><span style="font-weight: 400;">“pariu um golpe maior que o golpe”</span></i><span style="font-weight: 400;"> faz clara alusão a tudo que Dilma Rousseff, </span><a href="http://personaunesp.com.br/alvorada-critica/"><span style="font-weight: 400;">então presidenta do país</span></a><span style="font-weight: 400;">, enfrentou naquele ano. Já em </span><i><span style="font-weight: 400;">o nove dedos</span></i><span style="font-weight: 400;">, o poeta redime o ex-presidente Lula das </span><a href="https://www.conjur.com.br/2021-jun-21/restam-lula-tres-acoes-tramitacao-justica-federal"><span style="font-weight: 400;">acusações de corrupção que vem sofrendo nos últimos tempos</span></a><span style="font-weight: 400;">. Dessa maneira, há em todo o livro a sensação de que os noticiários de ontem e hoje foram poetizados, sempre sob a ótica de posicionamentos críticos, progressistas e transparentes.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Apesar de toda dor, sofrimento e náusea que rondam a obra, a ironia e o humor também encontram, em algumas páginas, espaço como ferramenta de luta. Melhor ilustração disso é o poema </span><i><span style="font-weight: 400;">diálogo sensato</span></i><span style="font-weight: 400;">, que simula uma conversa entre um emissor com noções básicas de ciência, referindo-se à </span><a href="https://www.youtube.com/watch?v=ambANBIHjCI"><span style="font-weight: 400;">seleção natural de Charles Darwin</span></a><span style="font-weight: 400;">, e um receptor que só entende de</span><i><span style="font-weight: 400;"> “</span></i><a href="https://g1.globo.com/sp/campinas-regiao/terra-da-gente/noticia/apelido-da-selecao-brasileira-veio-de-ave-de-canto-melodico-e-porte-elegante.ghtml"><i><span style="font-weight: 400;">seleção canarinho</span></i></a><i><span style="font-weight: 400;">”</span></i><span style="font-weight: 400;">. No fim da prosa, o emissor prefere não corrigir o receptor, pois sabe que não o convencerá de algo importante, como tomar vacina. Ele apenas deixa a teoria de Darwin se desenvolver na prática.</span></p>
<figure id="attachment_21870" aria-describedby="caption-attachment-21870" style="width: 840px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="wp-image-21870 size-large" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/07/Imagem-2-4-1016x1024.jpg" alt="Fotografia quadrada, em preto e branco, do escritor André Plez. Ele ocupa quase toda a foto, principalmente o centro e o canto inferior esquerdo. André é um homem branco, de cabelos longos e barba. Ele olha para a câmera com seriedade. Ao fundo, há uma parede onde vemos parte de um retrato de uma menina. " width="840" height="847" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/07/Imagem-2-4-1016x1024.jpg 1016w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/07/Imagem-2-4-794x800.jpg 794w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/07/Imagem-2-4-150x150.jpg 150w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/07/Imagem-2-4-768x774.jpg 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/07/Imagem-2-4-1525x1536.jpg 1525w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/07/Imagem-2-4-1200x1209.jpg 1200w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/07/Imagem-2-4.jpg 2000w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 1362px) 62vw, 840px" /><figcaption id="caption-attachment-21870" class="wp-caption-text">Sempre atento ao conteúdo e aos aspectos formais do texto, André Plez é eclético ao juntar versos livres, soneto, poemas de inspiração concreta e outros tipos de escrita em um mesmo livro (Foto: André Plez)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">Por outro lado, há momentos no livro em que nos deparamos com episódios que seriam cômicos, quer não fossem trágicos e, até certo ponto, reais. É o caso de </span><i><span style="font-weight: 400;">releitura de Renoir</span></i><span style="font-weight: 400;">, texto que dialoga com o quadro </span><a href="https://aventurasnahistoria.uol.com.br/noticias/reportagem/perseguicao-nazista-e-monotonia-quem-sao-meninas-na-tela-rosa-e-azul.phtml"><i><span style="font-weight: 400;">Rosa e azul &#8211; As meninas Cahen d&#8217;Anvers</span></i></a><span style="font-weight: 400;">, do pintor francês Pierre-Auguste Renoir. Nos versos, as principais figuras dessa obra de arte aparecem com vestidos cor-de-rosa, sem espaço para roupas femininas azuis, numa espécie de aceitação das </span><a href="https://www.youtube.com/watch?v=XneG8mC5CGo"><span style="font-weight: 400;">normas de gênero</span></a><span style="font-weight: 400;"> que a ministra da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos, Damares Alves, sonhava em impor aos brasileiros em 2019. Diante desse horror, versa o poeta: </span><i><span style="font-weight: 400;">“assim persiste a nova tela/(que exala podridão)/pintada toda de rosa”</span></i><span style="font-weight: 400;">. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Pode-se imaginar que, diante de um cenário tão caótico, com uma </span><a href="https://www.nexojornal.com.br/especial/2021/03/10/Pol%C3%ADtica-mortal-o-Brasil-em-afli%C3%A7%C3%A3o-ap%C3%B3s-um-ano-de-pandemia"><span style="font-weight: 400;">nação aflita e desiludida</span></a><span style="font-weight: 400;">, nem mesmo o eu-lírico sai intacto do que registra. Na verdade, pouco a pouco, ele morre. Esmaga-se </span><i><span style="font-weight: 400;">“ante as trevas/de infecundas e malditas palavras/que deve ouvir e relatar e gravar e poetar”</span></i><span style="font-weight: 400;">, como confessa um dos textos sem título, de influência concreta. </span></p>
<div class="jetpack-video-wrapper"><span class="embed-youtube" style="text-align:center; display: block;"><iframe loading="lazy" class="youtube-player" width="840" height="473" src="https://www.youtube.com/embed/ffLS2vM94S8?version=3&#038;rel=1&#038;showsearch=0&#038;showinfo=1&#038;iv_load_policy=1&#038;fs=1&#038;hl=pt-BR&#038;autohide=2&#038;wmode=transparent" allowfullscreen="true" style="border:0;" sandbox="allow-scripts allow-same-origin allow-popups allow-presentation allow-popups-to-escape-sandbox"></iframe></span></div>
<p><span style="font-weight: 400;">Identificados com o desgosto daquele que tudo narra, sofremos um pouco da mesma morte lenta no respiro de cada página virada. Algumas vezes, até criamos nossas próprias obras a partir daquilo que foi escrito. Prova disso são as </span><a href="https://www.youtube.com/watch?v=Qwkfpi2PJr4"><span style="font-weight: 400;">releituras audiovisuais de trechos do livro</span></a><span style="font-weight: 400;"> desenvolvidas pelo grupo mocoquense de Cinema e Teatro TPM&amp;Cinema, conterrâneo de André Plez, em um diálogo inevitável entre diferentes expressões artísticas.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">De maneira geral,</span><i><span style="font-weight: 400;"> Entre o vírus e o verme se esgueiram poemas</span></i><span style="font-weight: 400;"> é um livro de pouca esperança. No entanto, seria um erro afirmar que esse sentimento é totalmente desprezado pelo autor. Em </span><i><span style="font-weight: 400;">aos idólatras, uma rosa!</span></i><span style="font-weight: 400;">, primeiro sinal mais sólido de que bons tempos um dia retornarão, o poeta faz referência explícita a </span><a href="https://www.youtube.com/watch?v=BerOSwF-l20"><span style="font-weight: 400;">Carlos Drummond de Andrade</span></a><span style="font-weight: 400;">. Isso porque, quando a </span><i><span style="font-weight: 400;">“rosa drummondiana irrompe o asfalto”</span></i><span style="font-weight: 400;">, temos certeza de que</span><i><span style="font-weight: 400;"> “um dia/brindaremos/nossa face/ilesa”</span></i><span style="font-weight: 400;">. </span></p>
<p><a href="https://www.literaturaefechadura.com.br/2021/04/17/o-entre-o-virus-e-o-verme-se-esgueiram-poemas-e-um-retrato-do-pais-do-deus-acima-de-todos-por-marcelo-frota/"><span style="font-weight: 400;">Não sem cicatrizes</span></a><span style="font-weight: 400;">, como também indica esse poema. Ou como lucidamente lembra o penúltimo, </span><i><span style="font-weight: 400;">Marcas</span></i><span style="font-weight: 400;">: </span><i><span style="font-weight: 400;">“o poema carrega/uma cicatriz/de quem diz”</span></i><span style="font-weight: 400;"> &#8211; traduzindo uma realidade da obra inteira. Como lição, aprendemos que é preciso enxergar antes de tudo o caos, para que possamos no mínimo desejar mudanças e, assim, alimentar qualquer espírito esperançoso.</span></p>
<blockquote><p><span style="font-weight: 400;">“um dia, afinal,</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">seremos nós de novo</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">porém</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">intubados”</span></p></blockquote>
<p><span style="font-weight: 400;">Quem lê esse livro na efervescência dos acontecimentos nacionais certamente não chegará a um fim delimitado. Continuará lendo ou dando espiadas em várias páginas, na tentativa de absorver aos poucos conteúdos densos, de numerosas nuances. Urgente, porque é uma </span><a href="https://www.youtube.com/watch?v=ljP0SJOJMtk"><span style="font-weight: 400;">resposta à barbárie</span></a><span style="font-weight: 400;"> a que assistimos, essa obra afasta toda zona de conforto possível e provoca-nos o </span><i><span style="font-weight: 400;">“nó na garganta”</span></i><span style="font-weight: 400;"> anunciado no poema </span><i><span style="font-weight: 400;">máscara</span></i><span style="font-weight: 400;">. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Pode ser que não se torne um clássico, já que a arte enviesada nem sempre é amplamente aceita e compreendida. Pode ser que também seja alertado pelo público por usar, de maneira pejorativa, termos como</span><i><span style="font-weight: 400;"> “demência”</span></i><span style="font-weight: 400;">, </span><a href="https://jornalismorio.espm.br/destaque/os-impactos-dos-termos-capacitistas/"><span style="font-weight: 400;">vício de linguagem cada vez mais apontado como capacitista</span></a><span style="font-weight: 400;">. Mas uma coisa é certa: estamos diante de um belo e caprichoso documento histórico, que capta muito bem, com exatidão e crítica, o momento que atravessamos hoje.         </span></p>
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