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	<title>Arquivos Mostra COP 30 &#8211; Persona | Jornalismo Cultural</title>
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	<description>Desde 2015 provando que a distância entre Bergman, Lady Gaga e a novela das 9 nem existe.</description>
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		<title>No limiar da denúncia colonial, Transamazônia permanece à beira do confronto</title>
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		<pubDate>Tue, 06 Jan 2026 17:43:08 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p>Arthur Caires A Amazônia, no cinema internacional, costuma surgir como superfície de projeção: um espaço onde fantasias espirituais, dilemas morais e impasses civilizatórios são encenados a partir de um olhar estrangeiro. Transamazônia, quarto longa-metragem da diretora sul-africana Pia Marais, se insere diretamente nessa tradição. Estreado no Festival de Locarno em 2024 e apresentado no Brasil &#8230; <a href="http://personaunesp.com.br/no-limiar-da-denuncia-colonial-transamazonia-permanece-a-beira-do-confronto/" class="more-link">Continue lendo<span class="screen-reader-text"> "No limiar da denúncia colonial, Transamazônia permanece à beira do confronto"</span></a></p>
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										<content:encoded><![CDATA[<figure id="attachment_36676" aria-describedby="caption-attachment-36676" style="width: 800px" class="wp-caption alignnone"><img fetchpriority="high" decoding="async" class="size-medium wp-image-36676" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2026/01/35-800x450.png" alt="Uma paisagem de floresta tropical densa, úmida e nebulosa. No centro da imagem, sobre o chão lamacento e escuro, veem-se destroços metálicos retorcidos, aparentemente de uma pequena aeronave acidentada. Raios de luz solar filtram através da neblina e das grandes folhas de palmeiras." width="800" height="450" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2026/01/35-800x450.png 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2026/01/35-1024x576.png 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2026/01/35-768x432.png 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2026/01/35-1536x864.png 1536w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2026/01/35-1200x675.png 1200w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2026/01/35.png 1920w" sizes="(max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 984px) 61vw, (max-width: 1362px) 45vw, 600px" /><figcaption id="caption-attachment-36676" class="wp-caption-text">A trama parte da sobrevivência de Rebecca aos destroços de um acidente aéreo (Foto: Filmes do Estação)</figcaption></figure>
<p><b>Arthur Caires</b></p>
<p><span style="font-weight: 400;">A Amazônia, no cinema internacional, costuma surgir como superfície de projeção: um espaço onde fantasias espirituais, dilemas morais e impasses civilizatórios são encenados a partir de um olhar estrangeiro. </span><i><span style="font-weight: 400;">Transamazônia</span></i><span style="font-weight: 400;">, quarto longa-metragem da diretora sul-africana Pia Marais, se insere diretamente nessa tradição. Estreado no Festival de Locarno em 2024 e apresentado no Brasil no </span><a href="https://www.festivaldorio.com.br/br/noticias/pia-marais-fala-sobre-transamazonia-filme-que-retrata-exploracao-da-fe-e-da-floresta"><span style="font-weight: 400;">Festival do Rio</span></a><span style="font-weight: 400;"> – onde integrou a Mostra COP 30 em 2025 –, o filme carrega consigo o peso simbólico de falar sobre fé, meio ambiente e povos indígenas a partir de uma coprodução intercontinental (França, Alemanha, Suíça, Tailândia e Brasil). Desde a gênese do projeto, inspirada livremente na história real de Juliane Koepcke – a única sobrevivente de um acidente aéreo na Amazônia peruana em 1971 –, a obra se constrói sobre deslocamentos: culturais, geográficos e narrativos.</span></p>
<p><span id="more-36669"></span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">A trama acompanha Rebecca (Helena Zengel), jovem que sobrevive à queda de um avião na floresta amazônica e passa a ser vista como um milagre vivo pela comunidade religiosa pentecostal liderada por seu pai, o missionário estrangeiro Lawrence Byrne (Jeremy Xido). A partir desse ponto, </span><i><span style="font-weight: 400;">Transamazônia </span></i><span style="font-weight: 400;">articula três vertentes narrativas: a relação entre pai e filha, marcada por manipulação e silêncio; a aculturação religiosa como prática histórica de dominação; e o embate entre </span><a href="https://g1.globo.com/meio-ambiente/noticia/2025/07/08/madeireiros-ilegais-lucram-com-projetos-de-credito-de-carbono-na-amazonia.ghtml"><span style="font-weight: 400;">madeireiros ilegais</span></a><span style="font-weight: 400;"> e uma comunidade indígena que protege seu território. A ambição da obra está justamente em fazer esses eixos colidirem, mas sua fragilidade aparece quando nenhum deles é aprofundado o suficiente para sustentar o peso das questões que levanta.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">No centro emocional da narrativa está a relação entre Rebecca e Lawrence. A ascensão da jovem como figura milagrosa, capaz de fazer pessoas voltarem a andar ou despertarem de um coma, é instrumentalizada pelo pai como capital simbólico de sua igreja. </span><a href="https://www.lagoanerd.com.br/post/a-lenda-de-ochi-fantasia-da-a24-ganha-novos-cartazes"><span style="font-weight: 400;">Helena Zengel</span></a><span style="font-weight: 400;"> entrega uma performance contida, que sugere fissuras internas mais interessantes do que se é permitido explorar no roteiro, assinado por Pia Marais, Willem Droste e Martin Rosefeldt. Já Jeremy Xido constrói um Lawrence ambíguo, dividido entre fé, poder e paternidade, mas limitado por um arco dramático que frequentemente soa mal resolvido. Revelações tardias e pouco orgânicas, como segredos familiares descobertos de maneira abrupta, enfraquecem o conflito íntimo que poderia funcionar como espelho das ruínas morais provocadas pela ganância humana.</span></p>
<figure id="attachment_36675" aria-describedby="caption-attachment-36675" style="width: 800px" class="wp-caption alignnone"><img decoding="async" class="size-medium wp-image-36675" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2026/01/34-800x450.png" alt="Sob uma iluminação fria e azulada, Rebecca (Helena Zengel) e seu pai Lawrence (Jeremy Xido) estão de pé, lado a lado, segurando microfones próximos à boca. Ambos vestem roupas brancas e parecem cantar ou orar de olhos fechados ou baixos. O fundo é composto por uma cortina branca translúcida." width="800" height="450" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2026/01/34-800x450.png 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2026/01/34-1024x576.png 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2026/01/34-768x432.png 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2026/01/34-1536x864.png 1536w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2026/01/34-1200x675.png 1200w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2026/01/34.png 1920w" sizes="(max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 984px) 61vw, (max-width: 1362px) 45vw, 600px" /><figcaption id="caption-attachment-36675" class="wp-caption-text">A ascensão da jovem Rebecca como figura &#8220;milagrosa&#8221; é instrumentalizada pelo pai missionário como capital simbólico para sua igreja pentecostal (Foto: Filmes do Estação)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">Sob a perspectiva de Pia Marais, a aculturação religiosa surge como um costume que o Brasil conhece desde os primeiros anos da colonização. O missionarismo de Lawrence além de prática espiritual, é uma forma de reorganizar o ambiente, os corpos e as crenças locais. O filme acerta ao apontar esse mecanismo como parte de um novo colonialismo, no qual </span><a href="https://www.jornalopcao.com.br/colunas-e-blogs/faltou-dizer-colunas-e-blogs/juros-aos-ceus-existe-uma-linha-tenue-entre-fe-lucro-e-manipulacao-697496/"><span style="font-weight: 400;">fé, lucro e poder</span></a><span style="font-weight: 400;"> caminham juntos. No entanto, permanece no limiar da denúncia: identifica o problema, mas evita tensioná-lo até as últimas consequências, preferindo uma abordagem ambígua que nunca se transforma em confronto direto.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">O mesmo ocorre no eixo ambiental. Filmado majoritariamente no território indígena </span><a href="https://cop.dol.com.br/belem-para/povo-asurini-lanca-plano-de-gestao-ambiental-para-terra-indigena-koatinemo/7046/"><span style="font-weight: 400;">Asurini do Xingu</span></a><span style="font-weight: 400;">, com sequências rodadas também na Guiana Francesa, em áreas liberadas para o desmatamento, </span><i><span style="font-weight: 400;">Transamazônia </span></i><span style="font-weight: 400;">apresenta o conflito entre madeireiros ilegais e povos originários como pano de fundo constante. Há momentos de forte presença dos personagens indígenas, como o Silas, interpretado por Hamã Sateré, descendente das etnias Tikuna e Sateré-Mawé, cuja performance se destaca justamente pela economia de palavras e intensidade corporal. Ainda assim, esses personagens raramente têm voz narrativa própria. O longa opta por observá-los à distância, reduzindo sua participação a reações de raiva ou resistência, sem lhes conceder perspectiva, discurso ou centralidade.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Essa escolha revela um problema estrutural que atravessa seus 112 minutos. O conflito se organiza, em grande medida, como o embate entre dois grupos de personagens brancos – missionários e exploradores – tendo os povos indígenas como objeto da disputa, e não como sujeitos da narrativa. O resultado é uma sensação de déjà-vu: esse conceito já foi explorado inúmeras vezes pelo Cinema, e a expectativa era por uma abordagem mais revolucionária. Em vez disso, a produção flerta perigosamente com a lógica do </span><a href="https://mundonegro.inf.br/o-complexo-do-branco-salvador-no-cinema-norte-americano/"><i><span style="font-weight: 400;">white savior</span></i></a><span style="font-weight: 400;">. Se a intenção era escapar dessa armadilha, o resultado final não consegue se desvencilhar dela.</span></p>
<figure id="attachment_36670" aria-describedby="caption-attachment-36670" style="width: 800px" class="wp-caption alignnone"><img decoding="async" class="size-medium wp-image-36670" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2026/01/image1-800x532.jpg" alt="Um close-up na floresta mostra Silas (Hamã Sateré), um jovem indígena de cabelos escuros e colar de contas olhando seriamente para a esquerda, ao lado de Rebecca (Helena Zengel), uma jovem branca de cabelos loiros cacheados olhando para a direita. Ela usa um colar com uma pequena cruz dourada. O fundo é uma vegetação densa e desfocada." width="800" height="532" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2026/01/image1-800x532.jpg 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2026/01/image1-1024x682.jpg 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2026/01/image1-768x511.jpg 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2026/01/image1-1200x799.jpg 1200w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2026/01/image1.jpg 1202w" sizes="(max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 984px) 61vw, (max-width: 1362px) 45vw, 600px" /><figcaption id="caption-attachment-36670" class="wp-caption-text">Os personagens indígenas, apesar de performances intensas, por vezes são observados à distância, sem centralidade narrativa (Foto: Filmes do Estação)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">Formalmente, </span><i><span style="font-weight: 400;">Transamazônia </span></i><span style="font-weight: 400;">é dirigido com segurança. A fotografia de Mathieu de Montgrand constrói uma Amazônia imersiva e atmosférica, frequentemente celebrada pela crítica por sua beleza e força sensorial. A floresta garante uma atmosfera sobrenatural, conferindo à obra um tom entre o thriller ambiental e o drama espiritual. No entanto, essa mesma atmosfera, em alguns momentos, se sobrepõe à densidade dramática: a forma engole o conflito, e o impacto estético não se converte em aprofundamento narrativo. O elenco de apoio – que inclui os brasileiros </span><a href="https://gq.globo.com/artes-e-cultura/noticia/2025/05/ator-revela-como-foi-gravar-cena-de-abuso-em-filme-perguntei-se-estava-tudo-bem.ghtml"><span style="font-weight: 400;">Rômulo Braga</span></a><span style="font-weight: 400;">, com sua presença sempre sólida, e Philipp Lavra – reforça essa sensação de potencial subutilizado.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Ao final, </span><i><span style="font-weight: 400;">Transamazônia </span></i><span style="font-weight: 400;">se revela um filme de intenções claras e execução contida. As três vertentes que estruturam a narrativa coexistem, mas não se atravessam com a força que prometem. Ainda assim, por mais que o longa não aprofunde plenamente esses tópicos, ele é suficiente para colocar holofotes sobre discussões urgentes, especialmente no contexto contemporâneo de exploração ambiental e fé lucrativa. Pia Marais entrega um retrato </span><a href="https://agenciadecomunicacao.uneb.br/primeira-escola-brasileira-do-pensamento-decolonial-inicia-atividades-na-uneb-programacao-vai-ate-30-08/"><span style="font-weight: 400;">anticolonial</span></a><span style="font-weight: 400;"> que permanece à beira de seu verdadeiro potencial: observando fissuras importantes, mas hesitando em atravessá-las.</span></p>
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