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	<title>Arquivos Mawusi Tulani &#8211; Persona | Jornalismo Cultural</title>
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	<description>Desde 2015 provando que a distância entre Bergman, Lady Gaga e a novela das 9 nem existe.</description>
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		<title>Criadas: o racismo sob uma lente intimista e familiar</title>
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		<pubDate>Fri, 14 Nov 2025 14:05:08 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Cinema]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Mariana Bezerra  E quando a empregada ‘da família’ é, de fato, uma parente? Criadas faz parte da programação da 49ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo na seção Mostra Brasil. O filme mergulha em uma história familiar para explorar as feridas – ainda abertas – do Brasil em relação ao racismo e à escravidão. &#8230; <a href="http://personaunesp.com.br/criadas-critica/" class="more-link">Continue lendo<span class="screen-reader-text"> "Criadas: o racismo sob uma lente intimista e familiar"</span></a></p>
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										<content:encoded><![CDATA[<figure id="attachment_36319" aria-describedby="caption-attachment-36319" style="width: 770px" class="wp-caption alignnone"><img fetchpriority="high" decoding="async" class="size-full wp-image-36319" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2025/11/image3-10.png" alt="Cena do filme Criadas. Duas crianças estão deitadas lado a lado, uma usando camiseta azul e a outra rosa- escuro (Sandra e Mariana, da esquerda para direita). A primeira é negra de pele retinta e a outra, também tem a pele negra, mas de um tom mais claro. A primeira tem o cabelo castanho trançado e a outra cabelo crespo ornamentado com fivelas coloridas. Uma mão adulta repousa sobre a cabeça de uma delas." width="770" height="323" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2025/11/image3-10.png 770w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2025/11/image3-10-768x322.png 768w" sizes="(max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 984px) 61vw, (max-width: 1362px) 45vw, 600px" /><figcaption id="caption-attachment-36319" class="wp-caption-text">Criadas explora uma relação que carrega feridas e conflitos surgidos na infância e originários de uma herança histórica (Foto: Vitrine Filmes)</figcaption></figure>
<p><b>Mariana Bezerra </b></p>
<p><span style="font-weight: 400;">E quando a empregada ‘da família’ é, de fato, uma parente?</span> <a href="https://mostra.org/filmes/criadas"><i><span style="font-weight: 400;">Criadas</span></i></a> <span style="font-weight: 400;">faz parte da programação da </span><a href="https://personaunesp.com.br/tag/49a-mostra-internacional-de-cinema-em-sao-paulo/"><span style="font-weight: 400;">49ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo</span></a><span style="font-weight: 400;"> na seção Mostra Brasil. O filme mergulha em uma história familiar para explorar as feridas – ainda abertas – do Brasil em relação ao racismo e à escravidão. O longa foi eleito pelo público como Melhor Filme Brasileiro de Ficção na </span><a href="https://mostra.org/jornal-da-mostra/filmes-premiados-da-49a-mostra"><span style="font-weight: 400;">premiação</span></a><span style="font-weight: 400;"> do festival. Não é à toa, uma vez que a história das primas Sandra (Vitória Rodrigues, na versão infantil) e Mariana (Alice Feitosa, na versão infantil) e suas famílias atravessa temas tão caros ao país. Elas cresceram juntas, mas não em uma típica relação: a mãe de Sandra era empregada da casa da irmã e, após anos, essa menina, agora uma adulta, retorna para São Paulo para assumir um emprego e buscar informações sobre a mãe desaparecida.</span><span id="more-36318"></span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Antes mesmo de roteiro e atuações entrarem em cena, a obra de Carol Rodrigues já se destaca pelo uso de símbolos, sendo o mais marcante deles o quadro </span><a href="https://oglobo.globo.com/cultura/artes-visuais/conheca-tela-redencao-de-cam-de-1895-destaque-em-mostra-no-mnba-22740416"><i><span style="font-weight: 400;">A redenção de Cam</span></i></a> <span style="font-weight: 400;">(1895)</span><i><span style="font-weight: 400;">, </span></i><span style="font-weight: 400;">de Modesto Brocos, em que há um bebê e um homem branco, uma senhora de pele retinta e uma mulher mais nova e também negra, mas de tom mais claro. A tela apresenta uma família ‘embranquecida’ por uma política eugenista de embranquecimento da população, além de uma avó que ergue as mãos ao céu em agradecimento. A figura serve como ilustração para a relação de Mariana (</span><a href="https://personaunesp.com.br/casa-de-antiguidades-critica/"><span style="font-weight: 400;">Ana Flavia Cavalcanti</span></a><span style="font-weight: 400;">) e Sandra (Mawusi Tulani), sendo a primeira uma mulher negra de pele mais clara, que cresceu em uma realidade privilegiada, enquanto a segunda, de pele retinta, viveu em uma condição de servidão à prima. Nessa exposição detalhista e orquestrada, a fotografia, assinada por Julia Zakia, cumpre o seu papel com primor.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Desde o início, a relação das duas mulheres – muito bem exposta pelas performances incríveis das protagonistas – parece conturbada, permeada pelos fantasmas da infância. Nesse caso, ‘fantasmas de carne e osso’, como a mãe de Sandra os chamava. Essas lendas infantis ganham vida na trama, como se os traumas nunca tivessem sido superados. As vozes e as figuras das meninas enquanto crianças ecoam pela casa, resgatando </span><a href="https://personaunesp.com.br/novembro-tenta-honrar-as-memorias-do-passado-mas-sucumbe-na-superficialidade/"><span style="font-weight: 400;">memórias</span></a><span style="font-weight: 400;">, como a do chamado de Mariana pela prima, enquanto a personagem de Tulani tentava estudar ou desempenhar outra atividade que não fosse servir àquela família. Esse cenário chama a atenção para a repetição dessa realidade, quase como num círculo vicioso: sempre que Sandra está feliz, tem uma boa notícia sobre o emprego ou mesmo está ocupada em seu projeto, Mariana tem alguma demanda a ser sanada. Esse contexto parte de um roteiro carregado de sentimento e, também, ironias e complexidade, o qual parece se arriscar sem medo em explorar contradições múltiplas.</span></p>
<figure id="attachment_36320" aria-describedby="caption-attachment-36320" style="width: 574px" class="wp-caption alignnone"><img decoding="async" class="size-full wp-image-36320" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2025/11/image1-9.jpg" alt="Cena do filme Criadas. Mariana, uma mulher negra, de cabelos castanhos e crespos e presos, está sentada, olhando atentamente para alguém que não aparece na imagem. Ela usa uma blusa marrom com babados nas mangas e tem expressão séria. Ao fundo, aparecem plantas verdes desfocadas." width="574" height="241" /><figcaption id="caption-attachment-36320" class="wp-caption-text">Ana Flávia Cavalcanti entrega uma performance brilhante como Mariana em Criadas (Foto: Vitrine Filmes)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">No que diz respeito às temáticas abordadas no filme, é interessante que o realismo fantástico tenha sido inserido no texto. Primeiramente, a cineasta abre espaço para que racismo e colorismo sejam vistos a partir dos olhares e através do sentimento das personagens. Por outro lado, esse resgate de memórias e a convivência com os tais fantasmas criam uma metáfora que aponta para algo amplo: mais do que aludir a vivências pessoais, </span><i><span style="font-weight: 400;">Criadas </span></i><span style="font-weight: 400;">coloca em cena os fantasmas da escravidão e a ancestralidade marcada por questões políticas e sociais, cujas consequências reverberam até hoje na sociedade brasileira, como a grande problemática da empregada </span><a href="https://rollingstone.com.br/noticia/idomesticai-que-estreia-nesta-sexta-3-leva-adiante-discussao-dos-empregados-domesticos-no-brasil/"><span style="font-weight: 400;">doméstica</span></a><span style="font-weight: 400;"> – na grande maioria das vezes negra – que é considerada ‘da família’. Aqui, o texto de Carol Rodrigues se vale dessas questões para expor o enraizamento do racismo e as dificuldades de falar sobre ele também em famílias negras. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Em seu primeiro longa, </span><a href="https://rsscarol.com/bio"><span style="font-weight: 400;">Rodrigues</span></a><span style="font-weight: 400;"> trabalha muito bem com a ambientação, uma vez que a casa serve de espaço para o retorno e afloramento dessas lembranças. Além disso, a imagem é bem construída através da iluminação e do som, que acompanha os tons melancólicos e de suspense do roteiro. Nos momentos em que o enredo se afasta desses aspectos e aborda a sensualidade das personagens ou introduz  cenas carregadas de outros tipos de tensão, os efeitos sonoros e a trilha sonora conseguem acompanhar essas flutuações de maneira harmônica.</span></p>
<figure id="attachment_36321" aria-describedby="caption-attachment-36321" style="width: 574px" class="wp-caption alignnone"><img decoding="async" class="size-full wp-image-36321" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2025/11/image2-11.jpg" alt="Cena do filme Criadas. Sandra, uma mulher de pele negra e cabelos crespos presos, sorri com alegria olhando para velas acesas em cima de um bolo, que não aparece na imagem. Ela veste uma blusa azul-clara. No fundo, há uma decoração composta por pratos de porcelana na parede." width="574" height="243" /><figcaption id="caption-attachment-36321" class="wp-caption-text">Em uma de suas visões, Sandra se imagina recebendo atenção e protagonismo em seu lar pela primeira vez (Foto: Vitrine Filmes)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">Os elementos do longa trabalham juntos para construir esse ar fantasmagórico e o suspense que ele exige. Apesar de instigante no início, em alguns momentos, os períodos de tensão se estendem demais e perdem o ponto de clímax. Ainda sobre a materialização dessas imagens de Sandra e Mariana enquanto crianças, não fica claro o que elas são, de fato, e isso não é, de forma alguma, um problema para o roteiro. Mas quando os fantasmas começam a agir de forma muito concreta, interferindo diretamente na realidade, a fantasia se torna uma questão. Isso acontece quando a pequena Sandra esconde o conjunto de facas de Mariana, que é chef de cozinha, e prejudica a sua vida profissional. Aqui, cria-se uma situação confusa, uma vez que essa ação não faz sentido algum diante do que se conhece da personagem de </span><a href="https://youtu.be/i0Y0VZTBVCs?si=P-yBAwstd2eHIjnZ"><span style="font-weight: 400;">Tulani</span></a><span style="font-weight: 400;">, que é tão delicadamente construída ao longo da narrativa.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Apesar desse quebra-cabeça, a aposta em ir além do literal caiu muito bem na trama e complementou o drama das personagens tão intimamente construídas – individual e coletivamente. Assim, </span><i><span style="font-weight: 400;">Criadas </span></i><span style="font-weight: 400;">consegue mergulhar no âmago de duas histórias marcadas por dilemas familiares e raciais e que se unem conflituosamente, mas que são permeadas de otimismo, pela ideia de que o futuro pode ser diferente. Dessa forma, também há esperança de que a casa que outrora carregou ares de ‘casa grande e senzala’ possa ser destruída e, quem sabe, refeita em um lar que possa romper com as imposições feitas pela </span><a href="https://personaunesp.com.br/critica-pecadores/"><span style="font-weight: 400;">discriminação</span></a><span style="font-weight: 400;"> que se instalou – em um movimento de dentro para fora – nessa família.</span></p>
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