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	<title>Arquivos Lésbica &#8211; Persona | Jornalismo Cultural</title>
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	<description>Desde 2015 provando que a distância entre Bergman, Lady Gaga e a novela das 9 nem existe.</description>
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		<title>O Essencial de Perigosas Sapatas é uma colher de chá para a solidão lésbica</title>
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		<pubDate>Tue, 27 Jun 2023 13:32:40 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p>Ana Cegatti Por que estamos lutando por um pedaço de torta se a torta está podre?  &#8211; Alison Bechdel O desastre de Chernobyl, a guerra Irã-Iraque e o corte mullet foram alguns episódios hediondos que fizeram dos anos 1980 um período inesquecível para o mundo. No entanto, o posto de maior atrocidade da década foi &#8230; <a href="http://personaunesp.com.br/o-essencial-de-perigosas-sapatas-critica/" class="more-link">Continue lendo<span class="screen-reader-text"> "O Essencial de Perigosas Sapatas é uma colher de chá para a solidão lésbica"</span></a></p>
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										<content:encoded><![CDATA[<figure id="attachment_31167" aria-describedby="caption-attachment-31167" style="width: 2235px" class="wp-caption alignnone"><img fetchpriority="high" decoding="async" class="size-full wp-image-31167" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/06/Imagem-1-capa.jpg" alt="Capa do livro O Essencial de Perigosas Sapatas. Fundo amarelo na parte superior e fundo rosa mais abaixo. Na parte superior, está o título do livro com “O Essencial de” escrito em preto e “Perigosas Sapatas” escrito em vinho. Abaixo do título, à esquerda, está o escrito “Da autora de Fun Home” na cor preta, e, à direita está escrito o nome da autora “Alison Bechdel” na cor preta. Ao centro, em destaque, aparecem Mo e sua namorada. Mo é uma mulher branca, jovem, tem cabelo curto e castanho, usa óculos redondos, está usando uma blusa listrada em preto e branco e uma calça jeans azul. Ela está com as mãos nos glúteos de sua namorada, que aparece de costas. A namorada de Mo é uma mulher branca, jovem, tem cabelo curto e loiro, usa óculos redondos, está usando uma blusa marrom de gola alta e uma calça branca. Do lado esquerdo da capa, está o escrito “Estrelando” em preto, seguido por 3 círculos, um embaixo do outro. Em cada círculo, há uma ilustração de uma personagem e seu respectivo nome. Na coluna do lado esquerdo, estão as personagens Toni, Harriet e Clarice. Na coluna do lado direito, estão as personagens Lois, Ginger e Sparrow. No canto inferior esquerdo, há a logo da editora Todavia." width="2235" height="2560" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/06/Imagem-1-capa.jpg 2235w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/06/Imagem-1-capa-698x800.jpg 698w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/06/Imagem-1-capa-894x1024.jpg 894w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/06/Imagem-1-capa-768x880.jpg 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/06/Imagem-1-capa-1341x1536.jpg 1341w" sizes="(max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 1362px) 62vw, 840px" /><figcaption id="caption-attachment-31167" class="wp-caption-text">O Essencial de Perigosas Sapatas apalpa regiões sensíveis do patriarcado (Foto: Todavia)</figcaption></figure>
<p><b>Ana Cegatti</b></p>
<blockquote><p><i><span style="font-weight: 400;">Por que estamos lutando por um pedaço de torta se a torta está podre?</span></i></p>
<p><span style="font-weight: 400;"> &#8211; Alison Bechdel</span></p></blockquote>
<p><span style="font-weight: 400;">O desastre de Chernobyl, a guerra Irã-Iraque e o corte </span><i><span style="font-weight: 400;">mullet </span></i><span style="font-weight: 400;">foram alguns episódios hediondos que fizeram dos anos 1980 um período inesquecível para o mundo. No entanto, o posto de maior atrocidade da década foi designado à </span><a href="https://www.hypeness.com.br/2019/04/criadora-diz-que-teste-de-bechdel-era-apenas-uma-piada-sumiria-se-nao-fossem-as-feministas-do-cinema/"><span style="font-weight: 400;">Alison Bechdel</span></a><span style="font-weight: 400;">, cartunista estadunidense que ousou ganhar as páginas dos jornais com tirinhas sobre uma ameaça maior do que qualquer explosão nuclear: lésbicas. Em uma singela homenagem, a editora </span><i><span style="font-weight: 400;">Todavia </span></i><span style="font-weight: 400;">publica uma coletânea, traduzida por </span><a href="https://www.youtube.com/watch?v=kovEVpNLU_c"><span style="font-weight: 400;">Carol Bensimon</span></a><span style="font-weight: 400;">, das principais histórias da série </span><i><span style="font-weight: 400;">Perigosas Sapatas</span></i><span style="font-weight: 400;">, cuja essência está em um grupo de amigas lésbicas praticando atos tenebrosos tais como trabalhar e lavar a louça. No fim, elas são perigosas para quem?</span></p>
<p><span id="more-31164"></span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Ao longo de 40 anos, as tirinhas de Bechdel alugaram um espaço significativo tanto nas folhas impressas, quanto nas cabeças conservadoras que engoliram em seco os aperitivos da autora. Esta, por sua vez, também é o nome por trás de </span><a href="https://personaunesp.com.br/critica-fun-home/"><i><span style="font-weight: 400;">Fun Home</span></i></a><span style="font-weight: 400;">, uma autobiografia vencedora do prêmio </span><a href="https://www.comic-con.org/awards/eisner-awards-current-info"><span style="font-weight: 400;">Eisner</span></a><span style="font-weight: 400;"> e adaptada aos palcos da </span><a href="https://www.youtube.com/watch?v=Gputc-vy_zg"><span style="font-weight: 400;">Broadway</span></a><i><span style="font-weight: 400;">. </span></i><span style="font-weight: 400;">Apesar dessas conquistas memoráveis, o legado de Alison Bechdel não começa em estatuetas nem termina quando as cortinas do teatro se fecham. Enquanto a maioria das pessoas encantava-se com HQs sobre homens mascarados com um bíceps relativamente grande, Bechdel era vista como figura materna, ou melhor, como uma </span><a href="https://lithub.com/on-finding-a-hero-in-alison-bechdel/"><span style="font-weight: 400;">heroína</span></a><span style="font-weight: 400;"> sem capa por garotas lésbicas.</span></p>
<figure id="attachment_31168" aria-describedby="caption-attachment-31168" style="width: 4764px" class="wp-caption alignnone"><img decoding="async" class="wp-image-31168 size-full" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/06/Imagem-2.jpg" alt="Foto de Alison Bechdel ao lado de uma ilustração autoral. No lado esquerdo da imagem, está um desenho de uma mulher de costas, com cabelo curto preto e um top preto. No lado direito da imagem, está Alison Bechdel, uma mulher branca adulta. Ela tem cabelo curto preto, está usando uma camisa azul e está com a mão direita levantada tocando na tela na qual está o desenho." width="4764" height="2974" /><figcaption id="caption-attachment-31168" class="wp-caption-text">Alison Bechdel usa, com propriedade, fontes da própria cabeça para escrever suas histórias (Foto: John D. &amp; Catherine T. Macarthur Foundation)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">Sabe-se que, em tempos recentes, a </span><a href="https://www.youtube.com/watch?v=OEWXa5bSFuE"><span style="font-weight: 400;">cultura </span><i><span style="font-weight: 400;">pop</span></i></a><span style="font-weight: 400;"> está tentando abraçar a letra L, seja mostrando beijos homoafetivos de suma irrelevância, como em </span><a href="https://variety.com/2019/film/news/star-wars-gay-kiss-lgbtq-representation-hollywood-rise-of-skywalker-1203449661/"><i><span style="font-weight: 400;">Star Wars</span></i></a><span style="font-weight: 400;">, ou esbanjando lésbicas brancas de </span><a href="https://medium.com/@guzinskilaura/o-apagamento-da-bandeira-l%C3%A9sbica-e-a-cria%C3%A7%C3%A3o-de-novas-bandeiras-79d3d4ddf747"><span style="font-weight: 400;">batom</span></a><span style="font-weight: 400;"> em histórias medíocres. Héteros, gays ou bissexuais podem até tentar, mas nunca entenderão, de fato, o sentimento tão vazio quanto intenso de ver uma paixão se esvaindo pela inevitável priorização de um homem e o medo instintivo de ficar sozinha e ser, consequentemente, esquecida. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Apesar de parecer óbvio, é preciso reiterar que não há ninguém melhor para retratar uma mulher lésbica do que uma mulher lésbica. Dessa forma, Alison Bechdel honra a </span><a href="https://www.matinaljornalismo.com.br/parentese/quadrinhos-em-revista/alison-bechdel-uma-jornada-em-torno-do-eu/"><span style="font-weight: 400;">própria realidade</span></a><span style="font-weight: 400;"> e coloca nada além de puro amor em cada uma das personagens, talvez com um propósito empático de resgatar um amor que nunca recebeu. A autora transforma as protagonistas Mo, Toni, Harriet, Clarice, Louis, Ginger e Sparrow em companhias propositalmente imperfeitas diante da solidão imposta à </span><a href="https://periodicos.uff.br/revistagenero/article/download/30947/18036/106213"><span style="font-weight: 400;">mulher lésbica</span></a><span style="font-weight: 400;">, que não tem o luxo de errar, ou melhor, ser bagunçada e perigosa.</span></p>
<blockquote class="instagram-media" data-instgrm-captioned data-instgrm-permalink="https://www.instagram.com/p/BNKOdSkjXzo/?utm_source=ig_embed&amp;utm_campaign=loading" data-instgrm-version="14" style=" background:#FFF; border:0; border-radius:3px; box-shadow:0 0 1px 0 rgba(0,0,0,0.5),0 1px 10px 0 rgba(0,0,0,0.15); margin: 1px; max-width:658px; min-width:326px; padding:0; width:99.375%; width:-webkit-calc(100% - 2px); width:calc(100% - 2px);">
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<p></a></p>
<p style=" color:#c9c8cd; font-family:Arial,sans-serif; font-size:14px; line-height:17px; margin-bottom:0; margin-top:8px; overflow:hidden; padding:8px 0 7px; text-align:center; text-overflow:ellipsis; white-space:nowrap;"><a href="https://www.instagram.com/p/BNKOdSkjXzo/?utm_source=ig_embed&amp;utm_campaign=loading" style=" color:#c9c8cd; font-family:Arial,sans-serif; font-size:14px; font-style:normal; font-weight:normal; line-height:17px; text-decoration:none;" target="_blank">A post shared by @alisonbechdel</a></p>
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</blockquote>
<p><script async src="//platform.instagram.com/en_US/embeds.js"></script></p>
<p><span style="font-weight: 400;">As personagens de </span><i><span style="font-weight: 400;">O Essencial de Perigosas Sapatas</span></i><span style="font-weight: 400;"> são verdadeiras agentes do caos. Embora não soltem teia pela mão ou saibam voar, elas são capazes de algo ainda mais impressionante: beijar mulheres. De fato, não é um </span><a href="https://www.youtube.com/watch?v=2k7TsDwL5qk"><span style="font-weight: 400;">superpoder</span></a><span style="font-weight: 400;">, mas é um </span><a href="https://youtu.be/L0oeqAQ1qE8?t=75"><span style="font-weight: 400;">ato revolucionário</span></a><span style="font-weight: 400;"> cuja desenvoltura é atravessada por um eterno conflito entre o pessoal e o político. É nesse caminho contrastante e tortuoso pelo qual a protagonista Mo investiga suas facetas e as expõe de forma </span><a href="https://www.youtube.com/watch?v=g7TWm2CPZCo"><span style="font-weight: 400;">íntima</span></a><span style="font-weight: 400;"> e genuína, de tal modo que os rabiscos e as palavras parecem ganhar vida a fim de acolher as leitoras lésbicas em uma forma da obra de dizer: “eu te entendo”.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">No imaginário tradicional, o significado de revolução jamais recairia sobre uma mulher de óculos redondos desesperada por atos carnais. Além disso, o que as pessoas veriam de tão </span><a href="https://monografias.ufma.br/jspui/bitstream/123456789/6092/1/BrendaCarolineSantosdaSilva.pdf"><span style="font-weight: 400;">inspirador</span></a><span style="font-weight: 400;"> nessa mesma mulher cujo nome poderia ser facilmente dado a um animal de estimação? Mo não nasceu para cumprir um propósito divino de emancipação lésbica, ou seja, ela não é uma figura inalcançável ou idealizada. Aliás, a graça está na possibilidade de encontrá-la fora das páginas, seja na famosa </span><a href="https://miscelaneaecia.com.br/bares-lgbt-vila-madalena/"><span style="font-weight: 400;">Vila Madalena</span></a><span style="font-weight: 400;"> ou em algum bar de esquina interiorano. Afinal, existem muitas Mos mundo afora esperando por uma chance de serem vistas, ouvidas e lidas. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">O grande desafio de Mo em </span><i><span style="font-weight: 400;">Perigosas Sapatas </span></i><span style="font-weight: 400;">não envolve um ato descomunal físico ou político, mas </span><a href="https://vitralizado.com/hq/papo-com-alison-bechdel-autora-de-o-segredo-da-forca-sobre-humana-o-bem-individual-e-o-bem-coletivo/"><span style="font-weight: 400;">pessoal</span></a><span style="font-weight: 400;">. A protagonista faz questão de expressar sua intelectualidade e consegue articular explicações para qualquer evento </span><a href="https://elle.com.br/materia/o-essencial-de-perigosas-sapatas-traz-o-melhor-das-tiras-de-alison-bechdel"><span style="font-weight: 400;">geopolítico</span></a><span style="font-weight: 400;">. No entanto, ela se desespera ao perceber que seu pragmatismo não passa de uma cortina de fumaça para um medo colossal do incontrolável: ter sentimentos. Assim, sua jornada é pautada pelo conflito entre conhecimento e ingenuidade, de tal modo que, eventualmente, a militante abaixa a guarda e consegue perceber o quão belo é se deixar levar pelo inexplicável.</span></p>
<figure id="attachment_31166" aria-describedby="caption-attachment-31166" style="width: 1098px" class="wp-caption alignnone"><img decoding="async" class="size-full wp-image-31166" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/06/Imagem-4.png" alt=" Ilustração da personagem Mo. Mo é uma mulher que tem cabelo curto, usa óculos redondos e uma blusa listrada. Ela está com uma expressão de confusão, com a sobrancelha direita levantada, olhos arregalados e a boca retraída." width="1098" height="645" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/06/Imagem-4.png 1098w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/06/Imagem-4-800x470.png 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/06/Imagem-4-1024x602.png 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/06/Imagem-4-768x451.png 768w" sizes="(max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 1362px) 62vw, 840px" /><figcaption id="caption-attachment-31166" class="wp-caption-text">Mo não sabe diferenciar um encontro de um jantar entre amigas, mas mesmo assim se arrisca nas construções de intimidade (Arte: Alison Bechdel)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">Do começo ao fim, o grupo protagonista não cede à imparcialidade patética da esfera sociopolítica. Verdade seja dita: é um mundo muito pequeno para as palavras “lésbica” e “imparcial” coexistirem. Querendo ou não, o lema </span><a href="https://www.queridoclassico.com/2023/02/um-teto-todo-seu-virginia-woolf.html"><span style="font-weight: 400;">feminista</span></a><span style="font-weight: 400;"> dos anos 1960, “</span><a href="https://brasil.elpais.com/brasil/2019/07/05/cultura/1562337766_757567.html"><i><span style="font-weight: 400;">o pessoal é político</span></i></a><span style="font-weight: 400;">”,</span> <span style="font-weight: 400;">é uma aberração que nunca deixou de assombrar o indivíduo cujo rótulo só pode ser um: frouxo. Em suma, a autenticidade carregada por cada uma das personagens faz da obra uma bagunça linda demais para ser arrumada.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Diante de representações miseráveis da letra L na cultura </span><i><span style="font-weight: 400;">pop</span></i><span style="font-weight: 400;">, </span><i><span style="font-weight: 400;">Perigosas Sapatas </span></i><span style="font-weight: 400;">é um respiro, ainda que sua complexa doçura deixe qualquer um sem ar. Aliás, a obra reitera que ser doce não é usar esmalte ou andar de salto, isto é, Bechdel coloca uma lupa em mulheres cujos cabelos das axilas são mais longos que os da cabeça. Em suma, incluir a </span><a href="https://medium.com/@ellamouras/ser-uma-l%C3%A9sbica-desfeminilizada-%C3%A9-ser-odiada-por-todos-os-lados-e-eu-estou-exausta-23a83f0372ac"><span style="font-weight: 400;">desfeminilidade</span></a><span style="font-weight: 400;">, assim como a </span><a href="https://www.raiolaser.net/home/para-ficar-de-olho-essencialismo-e-interseccionalidade-encarando-as-perigosas-sapatas"><span style="font-weight: 400;">interseccionalidade</span></a><span style="font-weight: 400;">, é um soco no estômago para quem acredita que postar “</span><i><span style="font-weight: 400;">girl power</span></i><span style="font-weight: 400;">” nas redes sociais enquanto divide quarto com racista e coleciona acusações de assédio é empoderador. </span></p>
<figure id="attachment_31165" aria-describedby="caption-attachment-31165" style="width: 800px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-full wp-image-31165" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/06/Imagem-5.jpg" alt="Ilustração de diversas personagens criadas por Alison Bechdel. Elas estão na fila de uma bilheteria. Da esquerda para a direita, mostra-se a cobradora da bilheteria usando um uniforme rosa e uma gravata borboleta; Harriet usando uma jaqueta amarela e uma calça azul; Mo usando uma jaqueta jeans e uma calça jeans; Ginger usando um terno roxo e uma calça azul; Clarice usando um terno listrado verde e roxo e uma saia também listrada verde e roxa; Toni usando uma jaqueta roxa e uma calça rosa, e Jezanna usando uma jaqueta rosa e uma calça branca com detalhes roxos." width="800" height="496" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/06/Imagem-5.jpg 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/06/Imagem-5-768x476.jpg 768w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 984px) 61vw, (max-width: 1362px) 45vw, 600px" /><figcaption id="caption-attachment-31165" class="wp-caption-text">As personagens de Bechdel fazem fila para espantar perrecos, ou melhor, feministas liberais (Arte: Alison Bechdel)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">A lesbiandade não é um </span><a href="https://viltoreis.com/teste-de-bechdel/"><span style="font-weight: 400;">conto de fadas</span></a><span style="font-weight: 400;"> e seria um erro retratá-la como tal. O fato é: há traições, medos e incertezas na narrativa cuja aliança com a realidade é um acerto de Alison Bechdel. Esta, em nenhum momento, abandona a verdade, de tal modo que as protagonistas da HQ estão despidas de filtros e se entrelaçam com cenários nos quais elas encaram suas interioridades e amadurecem. Em outras palavras, além das batalhas travadas com a conjuntura patriarcal e </span><a href="http://www.fg2013.wwc2017.eventos.dype.com.br/resources/anais/20/1373338752_ARQUIVO_IsabellaTymburibaElian.pdf"><span style="font-weight: 400;">heteronormativa</span></a><span style="font-weight: 400;">, as protagonistas enfrentam conflitos internos, mas não o fazem sozinhas. </span></p>
<p><i><span style="font-weight: 400;">Perigosas Sapatas </span></i><span style="font-weight: 400;">é, sobretudo, um grito melódico o qual cumpre um nobre dever de espantar o maior medo de qualquer garota lésbica: a </span><a href="https://medium.com/revistahelenas/invisibilidade-l%C3%A9sbica-uma-arma-usada-contra-todas-n%C3%B3s-h21-2b435bea2d96"><span style="font-weight: 400;">solidão</span></a><span style="font-weight: 400;">. A obra de Bechdel é um lar que acolhe corações ansiosos por uma chance de disparar sem temor e expulsa mentes heterossexuais frustradas, as quais têm a pachorra de dizer que queriam ter nascido lésbicas. Diga-se de passagem: a obra é capaz de convencer qualquer um a dar o nome de “Mo” para o animal de estimação. No fim, ser lésbica é acordar todo dia com um impulso de sentir tudo o que há para sentir e ser perigosa é deixar o </span><a href="https://www.youtube.com/watch?v=wvsP_lzh2-8"><span style="font-weight: 400;">Sol</span></a><span style="font-weight: 400;"> entrar em um ambiente que ama o frio &#8211; e ser revolucionária é ser os dois.</span></p>
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		<title>O amor não é óbvio é o retrato de um primeiro amor entre garotas</title>
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		<pubDate>Tue, 12 Jul 2022 16:49:39 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p>Monique Marquesini Da busca por registrar e contar histórias felizes de amor entre garotas, origina-se O amor não é óbvio. Publicada em 2019, a obra é a estreia da admirável autora baiana Elayne Baeta e marca o primeiro best-seller lésbico nacional a atingir a lista de mais vendidos do país. Anteriormente lançado em formato digital &#8230; <a href="http://personaunesp.com.br/o-amor-nao-e-obvio-critica/" class="more-link">Continue lendo<span class="screen-reader-text"> "O amor não é óbvio é o retrato de um primeiro amor entre garotas"</span></a></p>
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										<content:encoded><![CDATA[<figure id="attachment_28131" aria-describedby="caption-attachment-28131" style="width: 556px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="wp-image-28131 size-medium" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/07/91Pu4WNKISL-556x800.jpg" alt="capa do livro O amor não é óbvio. No meio, em frente a um fundo rosa escuro, está a capa. A ilustração do livro, está em preto e branco, de duas garotas, no estilo colagem. A da direita tem o cabelo longo, liso e repicado, ela usa óculos redondos e está segurando um binóculo com as mãos. Ao lado dela está uma garota de cabelos curtos e lisos, vestida com uma jaqueta jeans cheia de bottons. Ainda, na parte superior, está o nome da autora e o do livro." width="556" height="800" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/07/91Pu4WNKISL-556x800.jpg 556w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/07/91Pu4WNKISL-711x1024.jpg 711w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/07/91Pu4WNKISL-768x1106.jpg 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/07/91Pu4WNKISL-1067x1536.jpg 1067w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/07/91Pu4WNKISL-1422x2048.jpg 1422w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/07/91Pu4WNKISL-1200x1728.jpg 1200w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/07/91Pu4WNKISL.jpg 1778w" sizes="auto, (max-width: 556px) 85vw, 556px" /><figcaption id="caption-attachment-28131" class="wp-caption-text">A capa de O amor não é óbvio, um dos principais romances lésbicos do país, também foi ilustrado pela talentosa autora Elayne Baeta (Foto: Editora Record)</figcaption></figure>
<p><b>Monique Marquesini</b></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Da busca por registrar e contar histórias felizes de amor entre garotas, origina-se </span><i><span style="font-weight: 400;">O amor não é óbvio</span></i><span style="font-weight: 400;">. Publicada em 2019, a obra é a estreia da admirável autora baiana Elayne Baeta e marca o primeiro </span><i><span style="font-weight: 400;">best-seller</span></i><span style="font-weight: 400;"> lésbico nacional a atingir a</span> <a href="https://veja.abril.com.br/livros-mais-vendidos/"><span style="font-weight: 400;">lista de mais vendidos</span></a><span style="font-weight: 400;"> do país. Anteriormente lançado em formato digital de forma independente, o romance  ganhou espaço na Literatura brasileira e foi lançado pela Editora </span><i><span style="font-weight: 400;">Record</span></i><span style="font-weight: 400;">, sob o selo </span><i><span style="font-weight: 400;">Galera</span></i><span style="font-weight: 400;">. A escritora, ilustradora e </span><a href="https://entretetizei.com.br/5-livros-de-poemas-incriveis-para-conhecer/"><span style="font-weight: 400;">poeta</span></a> <span style="font-weight: 400;">só escreve sobre o que já sentiu no peito, e talvez por isso, suas narrativas sejam nada óbvias.</span></p>
<p><span id="more-28130"></span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">O livro de Elay (o apelido da autora) narra uma fase da adolescência de Íris e Édra, duas meninas no último ano do Ensino Médio que nunca conversaram. A doce Íris Pêssego é viciada em novelas e não perde um capítulo da sua favorita, </span><i><span style="font-weight: 400;">Amor em atos</span></i><span style="font-weight: 400;">, junto de sua improvável amiga, a vizinha dona Símia, de 68 anos. Ainda, ela é apaixonada por Cadu Sena, o garoto de quem gosta desde a oitava série &#8211; e que finalmente está solteiro. Só que a narrativa de </span><a href="https://www.youtube.com/watch?v=DvvD5LyIYdM"><i><span style="font-weight: 400;">O amor não é óbvio</span></i></a> <span style="font-weight: 400;">não é tão intuitiva quanto parece. </span></p>
<figure id="attachment_28132" aria-describedby="caption-attachment-28132" style="width: 639px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-medium wp-image-28132" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/07/Imagem-2-2-639x800.jpg" alt="Fotografia quadrada da autora Elayne Baeta. Na imagem está o rosto de Elayne Baeta, ela é branca, tem cabelos castanhos e curtos, usa um piercing no septo e na sobrancelha. Ela está com uma camiseta preta e um cachecol vinho, está em uma pose lateral, cobrindo metade do rosto com seus livros O amor não é óbvio e Oxe Baby. " width="639" height="800" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/07/Imagem-2-2-639x800.jpg 639w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/07/Imagem-2-2.jpg 647w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 984px) 61vw, (max-width: 1362px) 45vw, 600px" /><figcaption id="caption-attachment-28132" class="wp-caption-text">Elayne Baeta participou da Bienal do Livro 2022, em São Paulo, autografando livros, e também esteve na mesa do painel sobre personagens LGBTQIA+ em diferentes gêneros literários (Foto: Elayne Baeta)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">A próxima personagem &#8211; a quem somos apresentados de forma excêntrica &#8211; é Édra Norr. Isso não porque a garota se envolveu em um escândalo na escola ou por ter mudado de cidade &#8211; mas por ser a nova namorada de Camila Dourado, que deixou Cadu Sena. A partir daí, entre os cochichos e conversas, Íris começa um experimento para entender o motivo do relacionamento ter acabado e para descobrir mais sobre Édra. E ela não demora para desvendar o </span><a href="https://youtu.be/DNXfr5x5jl8"><span style="font-weight: 400;">charme da garota</span></a><span style="font-weight: 400;">. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Talvez um dos únicos pontos baixos da narrativa de </span><a href="https://www.youtube.com/watch?v=DNXfr5x5jl8"><i><span style="font-weight: 400;">O amor não é óbvio</span></i></a> <span style="font-weight: 400;">esteja nessa investigação: no começo, a protagonista pode soar um pouco obcecada com a vida da menina, mas, ao longo da história, o leitor consegue entender o motivo para tudo isso. Nesse momento, Íris pega sua bicicleta amarela e seu binóculo para observar sua colega de turma por toda cidade de São Patrique. Por mais estranho que pareça em um primeiro momento, a menina de 17 anos não entende o porquê de querer tanto saber da garota. Tudo só fica claro quando ela desvenda seu desejo. </span></p>
<blockquote><p><span style="font-weight: 400;">“Tudo com Édra era dez vezes mais bonito. E eu queria saber o porquê. E não queria também. Nem tudo precisa ser compreendido.”</span></p></blockquote>
<figure id="attachment_28133" aria-describedby="caption-attachment-28133" style="width: 564px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-full wp-image-28133" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/07/Imagem-3-2.jpg" alt="Fotografia quadrada da ilustração do poster da pré venda do livro. Na imagem está a mão de Elayne, ela é branca e tem uma tatuagem de lua no dedo do meio. Além da tatuagem de flores no braço,há uma mesa branca com alguns materiais escolares. A folha sulfite branca tem o desenho das personagens Íris e Édra se beijando, uma com uma camisa jeans e a outra com uma bandeira LGBTQIA+ nas costas." width="564" height="564" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/07/Imagem-3-2.jpg 564w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/07/Imagem-3-2-150x150.jpg 150w" sizes="auto, (max-width: 564px) 85vw, 564px" /><figcaption id="caption-attachment-28133" class="wp-caption-text">A história de amor é uma colisão de asteroides, forte e intensa, e mostra que encontrar-se é extraordinário (Foto: Elayne Baeta)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">É nesse cenário de uma cidade pequena, tardes assistindo novela, passeios de bicicleta, descobertas sobre sua sexualidade, medos, primeiras vezes e adolescência que a história das garotas se desenrola. Uma das partes mais curiosas de </span><i><span style="font-weight: 400;">O amor não é óbvio</span></i><span style="font-weight: 400;"> se esconde justamente na </span><a href="https://herserendipity.medium.com/a-heteronormatividade-como-empecilho-no-desenvolvimento-de-hist%C3%B3rias-ou-porque-casais-h%C3%A9teros-s%C3%A3o-17f3c0d3cd66"><span style="font-weight: 400;">heteronormatividade</span></a><span style="font-weight: 400;"> vivida pela  grande maioria dos jovens, já que Íris nunca tinha sequer pensado em enxergar outra menina com olhares românticos.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">A construção da amizade e da </span><a href="https://www.google.com/amp/s/bookriot.com/sapphic-novels/amp/"><span style="font-weight: 400;">relação</span></a><span style="font-weight: 400;"> de Édra e Íris é muito aconchegante ao leitor, uma vez que, ao decorrer do experimento, elas acabam ficando mais próximas &#8211; e descobrem como são extremamente compatíveis. As personagens criadas por Elayne Baeta são um complemento perfeito: Íris, cheia de medos e inseguranças, se junta a uma garota autoconfiante como Édra. </span></p>
<p><i><span style="font-weight: 400;">O amor não é óbvio</span></i><span style="font-weight: 400;"> foi escrito quando Elay tinha apenas 19 anos &#8211; talvez seja essa a chave para tanta sensibilidade por parte da autora. A primeira publicação da obra foi feita pelo </span><i><span style="font-weight: 400;">Wattpad</span></i><span style="font-weight: 400;">, em partes, e aconteceu de forma independente, ou seja, sem o apoio de um grupo editorial: foi assim que ela alcançou um enorme e fiel público. Antes mesmo de conseguir reconhecimento nacional, o livro é fundamental por ser de autoria de uma </span><a href="https://www.nexojornal.com.br/estante/favoritos/2022/5-livros-escritos-por-autoras-l%C3%A9sbicas"><span style="font-weight: 400;">mulher lésbica</span></a><span style="font-weight: 400;"> &#8211; que muitas vezes tem suas vivências esquecidas dos romances literários.</span></p>
<figure id="attachment_28134" aria-describedby="caption-attachment-28134" style="width: 588px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-full wp-image-28134" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/07/Imagem-4-1.jpg" alt="Fotografia quadrada do segundo livro publicado por Elayne. A capa do livro é rosa, tem uma Polaroid no meio com uma foto da autora, ao lado tem alguns fósforos e detalhes em preto. O fundo é de um tapete preto e branco, além de outras Polaroids no chão perto do livro. " width="588" height="732" /><figcaption id="caption-attachment-28134" class="wp-caption-text">A arte de contar e escrever histórias é antiga na vida da autora: sentindo falta de se enxergar nas histórias, ela deu vida a suas narrativas (Foto: Elayne Baeta)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">Além de </span><i><span style="font-weight: 400;">O amor não é óbvio</span></i><span style="font-weight: 400;">, Elayne Baeta é responsável por diversos outros projetos, que têm a visibilidade e a representatividade lésbica como ponto central. A autora produziu alguns episódios de seu </span><i><span style="font-weight: 400;">podcast </span></i><a href="https://open.spotify.com/show/0aJUkr5kRwM3hL3sRWJ2wP?si=Fq85zPvYRWOAsriTcsUX8g"><i><span style="font-weight: 400;">Lésbica &amp; Ansiosa</span></i></a><span style="font-weight: 400;">, com histórias sobre seus sentimentos. Outro projeto de grande relevância foi </span><i><span style="font-weight: 400;">Sozinhas</span></i><span style="font-weight: 400;">, uma mistura de </span><i><span style="font-weight: 400;">podcast</span></i><span style="font-weight: 400;"> com livro, que teve grande significância na vida de Elayne: o lucro das vendas foi utilizado para realizar o sonho da mudança da escritora para a capital paulista. Seu mais recente lançamento é o livro de poesias </span><a href="https://lesbout.com.br/resenha-oxe-baby-um-livro-de-poesias-para-garotas-que-amam-garotas/?amp=1"><i><span style="font-weight: 400;">Oxe, Baby</span></i></a><span style="font-weight: 400;">, um relato muito mais pessoal sobre a sua vida, ou como ela mesmo diz, uma autobiografia poética. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">As</span> <span style="font-weight: 400;">produções da autora são um</span> <span style="font-weight: 400;">retrato aconchegante e confortável para meninas que nunca se viram representadas nas páginas dos romances adolescentes. </span><a href="https://queer.ig.com.br/2021-12-04/elayne-baeta-livros.html"><span style="font-weight: 400;">Elayne</span></a><span style="font-weight: 400;"> é gigante, uma mulher lésbica nordestina, conquistando espaços jamais alcançados. Nós, garotas que gostamos de garotas, não podemos deixar de vê-la com olhar acolhedor. É lindo acompanhar </span><i><span style="font-weight: 400;">O amor não é óbvio, </span></i><span style="font-weight: 400;">com um primeiro amor cheio de erros, defeitos e acertos. A relação de Íris e Édra é humana e (em uma referência ao livro) é uma história “</span><i><span style="font-weight: 400;">laranja forte e cheia de </span></i><a href="https://www.youtube.com/watch?v=x2cnAWpiUs8"><i><span style="font-weight: 400;">aliens</span></i></a><span style="font-weight: 400;">”. </span></p>
<blockquote><p><span style="font-weight: 400;">“Essa coragem pulsante. Essa conquista&#8230; Em usar um vestido que ninguém rasga. Laranja forte. Laranja (extraordinariamente) forte.”</span></p></blockquote>
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		<title>Em nome de Verhoeven, todos bebem do sangue de Benedetta</title>
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		<pubDate>Wed, 20 Apr 2022 18:55:49 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p>Ayra Mori Intocável, a figura da freira se tornou fonte de lascivas fantasias. Cobertas pelo mistério do tecido negro de seus hábitos, enclausuradas pela solidez das paredes de pedra e tomadas pela devoção santificada por Jesus, desde a origem da Igreja Católica como organização, a silhueta inconfundível das noivas de Cristo corporificou-se, do espírito à &#8230; <a href="http://personaunesp.com.br/benedetta-critica/" class="more-link">Continue lendo<span class="screen-reader-text"> "Em nome de Verhoeven, todos bebem do sangue de Benedetta"</span></a></p>
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										<content:encoded><![CDATA[<figure id="attachment_27355" aria-describedby="caption-attachment-27355" style="width: 1920px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-full wp-image-27355" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/04/img1.png" alt="Cena do filme Benedetta. Nela, está o rosto de Benedetta aproximado. Benedetta é uma freira adulta branca. Ela veste um hábito. Seus olhos e boca estão fechados. No olho esquerdo, um polegar passa água benta por cima. O polegar é de uma pessoa branca. O olho direito também está umedecido pela água." width="1920" height="797" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/04/img1.png 1920w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/04/img1-800x332.png 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/04/img1-1024x425.png 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/04/img1-768x319.png 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/04/img1-1536x638.png 1536w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/04/img1-1200x498.png 1200w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 1362px) 62vw, 840px" /><figcaption id="caption-attachment-27355" class="wp-caption-text">De santa imaculada à iconografia sexual, Benedetta é a falsa heroína do drama controverso de Paul Verhoeven, que após sua estreia mundial em Cannes 2021 inflamou <a href="https://twitter.com/TheNYFF/status/1442193742396465155?ref_src=twsrc%5Etfw%7Ctwcamp%5Etweetembed%7Ctwterm%5E1442193742396465155%7Ctwgr%5E%7Ctwcon%5Es1_&amp;ref_url=https%3A%2F%2Fmag.sapo.pt%2Fassets%2Fstatic%2Ftwitter_embed.html%3Furl%3Dhttps%3A%2F%2Ftwitter.com%2FTheNYFF%2Fstatus%2F1442193742396465155">protestos</a> pela crítica conservadora (Foto: SBS Productions)</figcaption></figure>
<p><b>Ayra Mori</b></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Intocável, a figura da freira se tornou fonte de lascivas fantasias. Cobertas pelo mistério do tecido negro de seus hábitos, enclausuradas pela solidez das paredes de pedra e tomadas pela devoção santificada por Jesus, desde a origem da Igreja Católica como organização, a silhueta inconfundível das noivas de Cristo corporificou-se, do espírito à carne, contra o olhar. Desse olhar reprimido emergiu uma miríade de representações cuja maior tentação se debruça no magnetismo feminino oculto dentro de um convento. No retorno de </span><a href="https://personaunesp.com.br/?s=Paul+Verhoeven"><span style="font-weight: 400;">Paul Verhoeven</span></a><span style="font-weight: 400;"> em </span><a href="https://g1.globo.com/pop-arte/cinema/noticia/2021/07/09/cineasta-paul-verhoeven-volta-a-cannes-com-historia-de-freiras-lesbicas.ghtml"><i><span style="font-weight: 400;">Cannes </span></i><span style="font-weight: 400;">2021</span></a><span style="font-weight: 400;">, o drama semi-biográfico </span><i><span style="font-weight: 400;">Benedetta</span></i><span style="font-weight: 400;"> tateia o subgênero, revelando, por trás do protagonismo progressivo das mulheres enquadradas em cena, um agressivo observador – masculino.</span></p>
<p><span id="more-27354"></span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Na Sétima Arte, o subgênero se popularizou em particular nas décadas de 1970 e 1980, passando a ser identificado como </span><a href="https://mubi.com/notebook/posts/the-deuce-notebook-sister-acts"><i><span style="font-weight: 400;">nunsploitation</span></i></a><span style="font-weight: 400;">. Despertado pela obra-prima ainda censurada do diretor Ken Russell, </span><i><span style="font-weight: 400;">Os Demônios</span></i><span style="font-weight: 400;"> (</span><i><span style="font-weight: 400;">The Devils</span></i><span style="font-weight: 400;">), assim como as demais ramificações do Cinema Apelativo (ou </span><a href="https://judao.com.br/explorando-o-exploitation/"><i><span style="font-weight: 400;">exploitation</span></i></a><span style="font-weight: 400;">), o tropo dos subgêneros de freiras desmascara a corrupção dos valores morais difundido pelo conservadorismo da sociedade tradicional, aqui, especialmente da Igreja Católica. Nele, a espetacularização da violência é levada ao máximo, com direito a nudez excessiva, mutilação revelada, homoerotismo e, bem, sexo.</span></p>
<figure id="attachment_27356" aria-describedby="caption-attachment-27356" style="width: 1920px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-full wp-image-27356" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/04/img2.png" alt="Cena do filme Benedetta. Nela, está uma parede de pedra cinza com um furo redondo no centro da imagem. Do outro lado da parede, está o olho da Abadessa Felicitá, uma freira branca de meia idade. Só é possível ver o olho verde da mulher. Na frente da parede, a parte de um aparador de madeira aparece na cena e, acima dele, um objeto metálico cilíndrico com detalhes nas laterais. A cena é escura, iluminada por uma luz alaranjada refletida nas texturas irregulares da parede e no metal do objeto." width="1920" height="803" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/04/img2.png 1920w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/04/img2-800x335.png 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/04/img2-1024x428.png 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/04/img2-768x321.png 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/04/img2-1536x642.png 1536w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/04/img2-1200x502.png 1200w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 1362px) 62vw, 840px" /><figcaption id="caption-attachment-27356" class="wp-caption-text">Para Verhoeven, o roteiro adaptado a partir de um livro escrito por uma mulher e a operação de mulheres em cargos de direção de fotografia, direção de arte e direção-assistente, seria o suficiente para impedir um olhar masculino fetichista sobre as cenas de sexo (Foto: SBS Productions)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">Despido de qualquer moralismo simulado, a violência posta em cena nesses filmes esteve intimamente vinculada com o </span><a href="https://periodicos.uff.br/cantareira/article/view/44237"><span style="font-weight: 400;">contexto do período</span></a><span style="font-weight: 400;">: a ascensão da contracultura concomitante à uma atmosfera selvagem dos conflitos urbanos. E em reação as forças disciplinadoras do “civilizador” branco, cristão e heterossexual, o subgênero marginal transgrediu o “</span><a href="https://maugosto.medium.com/no-escurinho-do-cinema-a-l%C3%ADngua-do-desejo-c39fa613f7d1"><span style="font-weight: 400;">bom gosto</span></a><span style="font-weight: 400;">” da indústria cinematográfica estadunidense hegemônica, pondo o sexo em posição central da trama, à semelhança de toda a filmografia do holandês Paul Verhoeven. O sexo não como ferramenta narrativa simplesmente utilitária, mas como uma linguagem simbólica autodeterminante na crítica de estruturas problemáticas.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Para quem acompanha o universo cinematográfico de Verhoeven, fica bastante evidente o apelo do cineasta sobre o subgênero. Dos filmes holandeses do início da carreira até a rejeição de seu Cinema em Hollywood, ele sempre pregou afincadamente sexo com poder. Compreendendo a hipocrisia </span><a href="https://bloodknife.com/everyone-beautiful-no-one-horny/"><span style="font-weight: 400;">puritana</span></a><span style="font-weight: 400;"> dos grandes estúdios norte-americanos, a direção de Verhoeven exacerbou a violência em níveis brutais – a agressividade da força policial em </span><i><span style="font-weight: 400;">RoboCop: O Policial do Futuro</span></i><span style="font-weight: 400;">; o erotismo sadomasoquista de </span><i><span style="font-weight: 400;">Instinto Selvagem</span></i><span style="font-weight: 400;">; o hiperbolismo </span><i><span style="font-weight: 400;">camp</span></i><span style="font-weight: 400;"> do magnífico </span><a href="https://personaunesp.com.br/showgirls-25-anos/"><i><span style="font-weight: 400;">Showgirls</span></i></a><span style="font-weight: 400;">; a sátira belicista mal interpretada de </span><i><span style="font-weight: 400;">Tropas Estelares</span></i><span style="font-weight: 400;">; e o trauma intragável de </span><a href="https://valkirias.com.br/elle/"><i><span style="font-weight: 400;">Elle</span></i></a><span style="font-weight: 400;">, são exemplos do porquê Verhoeven e </span><i><span style="font-weight: 400;">nunsploitation </span></i><span style="font-weight: 400;">pareceu ser o casamento perfeito.</span></p>
<figure id="attachment_27357" aria-describedby="caption-attachment-27357" style="width: 640px" class="wp-caption aligncenter"><img loading="lazy" decoding="async" class="wp-image-27357 size-large" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/04/img3-640x1024.jpg" alt="Capa do livro Immodest Acts: The Life of a Lesbian Nun in Renaissance Italy, versão original de Atos Impuros: A Vida de Uma Freira Lésbica na Itália da Renascença. No centro da imagem, está um recorte de uma gravura e o fundo restante da imagem está em um tom de ocre. Nela, está a figura de duas freiras brancas. A primeira, está rezando com os olhos abertos e mãos unidas em sinal de oração. A segunda, está por trás da primeira, encarando-a, com uma mão esquerda apalpando um dos seios da outra mulher e a mão direita acima do ombro da outra mulher. Ambas vestem um hábito com tecidos branco e preto, de cima para baixo. O véu delas é coberto por um tecido acinzentado e translúcido. Ao lado das duas está o recorte de duas figuras irreconhecíveis. A figura da esquerda mostra parte de um corpo vestido de um tecido azul marinho e azul com bolinhas, de cima para baixo. A figura da direita mostra parte de um corpo vestido de um tecido branco. O fundo da gravura é um azul turquesa desbotado, com parte de uma árvore aparecendo. A gravura apresenta marcas do tempo como trincas, texturas irregulares e pontos desbotados. Nas laterais da gravura estão dois retângulos estampados por desenho florido nas cores laranja, verde e preto. Na parte superior da capa está o título do livro em fonte serifada preta e caixa alta. A palavra “Acts” é ornada por detalhes floridos em preto. Na parte inferior da capa é possível ler o subtítulo do livro, também em fonte serifada preta. E abaixo, por último, está o nome da autora Judith C. Brown, em caixa alta, na mesma fonte das demais." width="640" height="1024" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/04/img3-640x1024.jpg 640w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/04/img3-500x800.jpg 500w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/04/img3-768x1229.jpg 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/04/img3.jpg 850w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 984px) 61vw, (max-width: 1362px) 45vw, 600px" /><figcaption id="caption-attachment-27357" class="wp-caption-text">Capa da edição original de Atos Impuros: A Vida de Uma Freira Lésbica na Itália da Renascença, que serviu de referência para a adaptação cinematográfica de Verhoeven sobre a história real de Benedetta Carlini (Foto: Oxford University Press)</figcaption></figure>
<p><i><span style="font-weight: 400;">Benedetta </span></i><span style="font-weight: 400;">foi baseado na história real de uma freira italiana do século XVII, cuja vida foi documentada detalhadamente pela historiadora da Universidade de Stanford, </span><a href="https://www.nytimes.com/1986/01/19/books/divine-visions-diabolical-obsessions.html"><span style="font-weight: 400;">Judith C. Brown</span></a><span style="font-weight: 400;">, no livro </span><i><span style="font-weight: 400;">Atos Impuros: A Vida de Uma Freira Lésbica na Itália da Renascença</span></i><span style="font-weight: 400;">. Publicado em 1986, o livro reuniu as transcrições do primeiro caso de lesbianismo registrado pela Igreja entre duas irmãs: Benedetta Carlini (Virginie Efira), uma jovem freira em ascensão que posteriormente tornou-se abadessa de seu convento na Pescia, em Toscana, e Bartolomea (Daphne Patakia), uma noviça incubada de acompanhar a primeira.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Nascida de uma família abastada, Benedetta ingressou na vida beata aos nove anos de idade sem grandes determinações, exceto pelo seu dom espiritual – a habilidade de ter visões sobrenaturais com Cristo. Exatamente o tipo de visões extáticas descritas um século antes por </span><a href="https://www.ihu.unisinos.br/591974"><span style="font-weight: 400;">Santa Teresa D’Ávila</span></a><span style="font-weight: 400;">, freira carmelita e exemplo máximo do poder erótico da extrema religiosidade feminina. Episódios de imensa agonia, contudo, foram descritos pela santa com forte caráter sexual.</span></p>
<blockquote>
<p style="text-align: left;"><span style="font-weight: 400;">“</span><span style="font-weight: 400;">Eu vi em sua mão uma longa lança de ouro cuja ponta parecia ser um pequeno fogo. Ele parecia penetrá-la várias vezes no meu coração e perfurar minhas entranhas; (&#8230;) deixando-me em fogo, com um grande amor em Deus. A dor era tão grande, que me fez gemer, e ainda assim foi superando a doçura desta dor excessiva, eu não pude querer livrar-me dela.</span><span style="font-weight: 400;">”</span></p>
</blockquote>
<figure id="attachment_27358" aria-describedby="caption-attachment-27358" style="width: 1920px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-full wp-image-27358" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/04/img4.png" alt="Cena do filme Benedetta. Nela, está a imagem de uma ferida aberta ampliada por um objeto de vidro com um líquido translúcido amarelado. A ferida mostra um corte transversal de uma pele, revelando parte da carne, ensanguentada. À esquerda, está um tecido cobrindo a pele. À direita, a pele está relevada com manchas de sangue ainda fresco." width="1920" height="797" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/04/img4.png 1920w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/04/img4-800x332.png 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/04/img4-1024x425.png 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/04/img4-768x319.png 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/04/img4-1536x638.png 1536w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/04/img4-1200x498.png 1200w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 1362px) 62vw, 840px" /><figcaption id="caption-attachment-27358" class="wp-caption-text">Além da revelação de visões místicas, Benedetta também exibiu sinais de estigmas – as feridas de Jesus Cristo crucificado (Foto: SBS Productions)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">E similar à </span><a href="https://proximarte.com/2021/10/12/o-extase-de-santa-teresa-de-gian-lorenzo-bernini/"><span style="font-weight: 400;">figura barroca</span></a><span style="font-weight: 400;"> de uma Santa Teresa desfalecida, as revelações místicas de Benedetta também lhe permitiram transgredir as restrições sociais de seu tempo. Quando em transe, suas visões eram embelezadas por teatralidade, sadomasoquismo e paixão. Possuída por uma divindade masculina, amar outra mulher não seria profano, pois assim era a vontade sagrada. Ela não podia responder por algo que, segundo ela, não estava consciente. Dessa maneira, enganando aos demais e a si mesma, a sexualidade de Benedetta esteve intimamente arraigada com o imaginário criado por ela, dando licença para que ela não somente amasse Bartolomea, mas que, em retrospecto, fosse igualmente amada, </span><a href="https://personaunesp.com.br/senhoritas-em-uniforme-90-anos/"><span style="font-weight: 400;">livre de culpas</span></a><span style="font-weight: 400;">.</span></p>
<blockquote>
<p style="text-align: left;"><span style="font-weight: 400;">“</span><span style="font-weight: 400;">Quando eu punha a mão ali, era como se um punhal a ferisse (&#8230;) e com a minha mão ali, ela parecia agitar-se menos. (&#8230;) Às vezes ela me chamava duas vezes numa noite (&#8230;) e dizia ‘Segure-me, ajude-me’ (&#8230;) logo que eu a escutava, eu colocava a mão no coração dela e a acalmava. (&#8230;) E quando Ele pôs (o coração) dentro dela, eu comecei a ver que a carne se levantava e se movia devagar, bem devagar (&#8230;) eu o toquei e parecia tão grande e tão quente que minha mão não pôde suportar.</span><span style="font-weight: 400;">”</span></p>
</blockquote>
<p><span style="font-weight: 400;">Mas Verhoeven não é um romântico e sua natureza é </span><a href="https://www.apaladewalsh.com/2016/04/paul-verhoeven-e-a-critica-espectacular-do-espectaculo/"><span style="font-weight: 400;">escandalosa</span></a><span style="font-weight: 400;">. Em nome da interpretação realista dos fatos históricos, somada à estimulação dos excessos comum do cineasta, a versão cinematográfica de </span><i><span style="font-weight: 400;">Benedetta </span></i><span style="font-weight: 400;">permite se guiar pelas torções fantasiosas do desejo blasfemo das duas freiras, </span><span style="font-weight: 400;">sem nunca reivindicar inteiramente o potencial erótico como possibilidade revolucionária da desobediência das amantes.</span></p>
<figure id="attachment_27359" aria-describedby="caption-attachment-27359" style="width: 1920px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-full wp-image-27359" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/04/img5.png" alt="Cena do filme Benedetta. Nela, está Benedetta na frente e Bartolomea atrás, a segunda, mexendo no seio da primeira por trás de um véu translúcido azulado que as divide. Ambas estão deitadas na cama, divididas por esse véu. Benedetta é uma mulher adulta branca de cabelos loiros compridos. Seu rosto está voltado para cima, com os olhos fechados, boca aberta e um seio revelado. Bartolomea é uma mulher adulta branca de cabelos castanhos compridos. Ela olha Benedetta enquanto põe uma de suas mãos sobre o seio revelado de Benedetta. Ambas vestem uma camisola branca. O tecido das roupas de cama são brancas. A cena é durante a noite escura. A luz passa pelo véu que divide as duas mulheres." width="1920" height="801" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/04/img5.png 1920w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/04/img5-800x334.png 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/04/img5-1024x427.png 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/04/img5-768x320.png 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/04/img5-1536x641.png 1536w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/04/img5-1200x501.png 1200w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 1362px) 62vw, 840px" /><figcaption id="caption-attachment-27359" class="wp-caption-text">Sobre o <a href="https://oglobo.globo.com/cultura/a-franca-perdeu-barco-do-metoo-diz-atriz-adele-haenel-24299546">pretexto desonesto</a> de que na França o puritanismo age diferente de Hollywood, o diretor afirmou não contar com um coordenador de intimidade no set de filmagens, no qual as atrizes Virginie Efira e Daphne Patakia foram as responsáveis por assumir a dianteira (Foto: SBS Productions)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">Inserido no interior de uma sociedade matriarcal, longe da domesticidade compulsória da heterossexualidade, </span><i><span style="font-weight: 400;">Benedetta </span></i><span style="font-weight: 400;">é uma história fundamentalmente feminina. As personagens, mulheres, enclausuradas pela repressão do convento, não conhecem nada além do feminino. Como um boneco crucificado, Jesus é uma figura andrógina, assexuada. No entanto, há um silencioso duelo entre a irmandade comunitária e o poder patriarcal. As manifestações sobrenaturais de Benedetta sinalizavam uma perigosa ameaça à </span><a href="https://www.bbc.com/portuguese/geral-59750393#:~:text=O%20problema%20%C3%A9%20o%20clericalismo%2C%20utilizar%20a%20superioridade%20em%20raz%C3%A3o%20do%20cargo.%20Muitas%20vezes%20isso%20impede%20as%20den%C3%BAncias.%20Esse%20clericalismo%20foi%20incorporado%20por%20tantas%20mulheres%20que%20s%C3%A3o%20madres%20superioras%20ou%20que%20t%C3%AAm%20fun%C3%A7%C3%B5es%20de%20poder.%20N%C3%A3o%20%C3%A9%20tanto%20uma%20quest%C3%A3o%20de%20g%C3%AAnero%2C%20mas%20de%20hierarquia."><span style="font-weight: 400;">ortodoxia da Igreja Católica</span></a><span style="font-weight: 400;">. Primeiro, porque existia uma hierarquia rigidamente vertical do poder eclesiástico; segundo, porque as mulheres eram sistematicamente consideradas o </span><a href="http://revistatempodeconquista.com.br/documents/RTC25/PEDROGOMESERACHELPENTEADO.pdf"><span style="font-weight: 400;">sexo mais fraco</span></a><span style="font-weight: 400;">.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Assim, como poderia Deus se comunicar com uma mulher e não com um homem? Era Benedetta uma escolhida divina ou uma vítima de </span><a href="https://www.fflch.usp.br/638"><span style="font-weight: 400;">possessão demoníaca</span></a><span style="font-weight: 400;">? Seria uma freira capaz de diferenciar a fonte dessas visões? O resultado foi o início de um julgamento liderado por um grupo de homens da fé, responsáveis por determinar o destino de Benedetta, de santa venerada à pária farsante. A partir desta metade do filme, a crítica acima da instituição católica se agudiza. Proporcionalmente à Igreja, a falsa heroína entende que sua visão lhe concede poder e emancipação da autoridade eclesiástica – nem que isso sugerisse a mutilação de sua própria carne.</span></p>
<figure id="attachment_27360" aria-describedby="caption-attachment-27360" style="width: 1920px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-full wp-image-27360" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/04/img6.png" alt="Cena do filme Benedetta. Nela, está Felicitá, curvada com a mão sobre a boca que derrama sangue. Ela é uma freira branca de meia idade. Ela olha para o chão. No fundo da imagem está uma cama e uma parede totalmente na sombra. A imagem é escura e a mulher é refletida por uma contraluz." width="1920" height="803" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/04/img6.png 1920w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/04/img6-800x335.png 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/04/img6-1024x428.png 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/04/img6-768x321.png 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/04/img6-1536x642.png 1536w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/04/img6-1200x502.png 1200w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 1362px) 62vw, 840px" /><figcaption id="caption-attachment-27360" class="wp-caption-text">Charlotte Rampling também integrou o elenco de Benedetta com sua extraordinária interpretação, sedimentada pelas nuances sutis da atriz como Abadessa Felicitá (Foto: SBS Productions)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">No filme, a dor é instrumento de elevação de Benedetta que, quando criança, aprende que “</span><a href="http://pepsic.bvsalud.org/scielo.php?script=sci_arttext&amp;pid=S1808-42812010000300005#:~:text=Primeiramente%2C%20a%20Igreja%20recomendou%20aos,que%20todo%20crist%C3%A3o%20deveria%20almejar."><i><span style="font-weight: 400;">o seu maior inimigo é o seu corpo</span></i></a><span style="font-weight: 400;">”. O corpo, como uma gaiola claustrofóbica na qual ela jamais deve se sentir confortável. Somente adulta, posteriormente à chegada de Bartolomea, um impulso desperta a castidade compulsória da freira. Diante de um objeto refletor, pela primeira vez, ela explora o próprio seio, em curiosidade. O mesmo seio que antes se espelhava em figuras não sexuais para ela – o seio do mármore leitoso de uma Virgem Maria esculpida; o seio de uma irmã freira acometida pelo câncer de mama; e o seio em lactação de uma mulher grávida.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Diferente dos protestos reacionários sobre a nudez excessiva das atrizes em tela, no filme, ela não é gratuita, apenas </span><a href="https://www.correiobraziliense.com.br/diversao-e-arte/2021/11/4961797-nao-queria-causar-diz-diretor-de-filme-em-que-freiras-se-masturbam.html#:~:text=%22O%20que%20muitos%20veem%20como%20provoca%C3%A7%C3%A3o%20neste%20filme%20n%C3%A3o%20%C3%A9%20nada%20al%C3%A9m%20de%20eu%20tentando%20me%20manter%20pr%C3%B3ximo%20da%20realidade.%20E%20tendo%20respeito%20pelo%20passado%20%2D%20n%C3%B3s%20n%C3%A3o%20precisamos%20gostar%20do%20que%20fizemos%20ao%20longo%20da%20hist%C3%B3ria%2C%20mas%20n%C3%B3s%20n%C3%A3o%20devemos%20apagar%20nada%22"><span style="font-weight: 400;">cruelmente realista</span></a><span style="font-weight: 400;">. As cenas de sexo são duas: o despertar sexual de Benedetta com Bartolomea e a simulação de um instrumento erótico esculpido na estatueta de uma Virgem Maria. Não inseridos na lógica de trabalho, </span><a href="https://mulhernocinema.com/entrevistas/coordenadoras-de-intimidade-como-estas-profissionais-trabalham-nos-sets-da-era-metoo/"><span style="font-weight: 400;">segurança nos </span><i><span style="font-weight: 400;">sets</span></i></a> <span style="font-weight: 400;">de filmagem e validação da misoginia, a discussão acima do </span><a href="https://www.instagram.com/personaunesp/p/CTf99zgB72l/?utm_medium=copy_link"><span style="font-weight: 400;">sexo no audiovisual</span></a><span style="font-weight: 400;">, aqui, soa moralista e vazia. Para Verhoeven, o erotismo é grotesco, desagradável e excitante, permeando as ambivalências entre sagrado e profano, bem e mal, repressão e libertinagem, dor e prazer, indulgência e abnegação, religião e ciência.</span></p>
<figure id="attachment_27361" aria-describedby="caption-attachment-27361" style="width: 1920px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-full wp-image-27361" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/04/img7.png" alt="Cena do filme Benedetta. Nela, está Bartolomea deitada sobre Benedetta. Embaixo, Benedetta olha para cima com seus olhos e boca abertos. Ela é uma mulher adulta branca de cabelos loiros compridos, vestida por uma camisola branca. Sua mão segura a cabeça de Bartolomea que está sobre o seu corpo. Bartolomea encara a câmera, de boca fechada. Ela é uma mulher adulta branca de cabelos castanhos compridos. Nua, ela segura o braço de Benedetta. No fundo, está uma vela acesa e a estatueta de uma Virgem Maria. A imagem é escura, refletida pelo fogo da vela em chamas." width="1920" height="802" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/04/img7.png 1920w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/04/img7-800x334.png 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/04/img7-1024x428.png 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/04/img7-768x321.png 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/04/img7-1536x642.png 1536w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/04/img7-1200x501.png 1200w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 1362px) 62vw, 840px" /><figcaption id="caption-attachment-27361" class="wp-caption-text">A história real de Benedetta Carlini, condenada à prisão, é o relato mais completo entre os poucos casos de amor lésbico registrado pela Igreja Católica (Foto: SBS Productions)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">Então, ultrapassada a fronteira do carnal, Benedetta encontra, tanto no sexo, quanto na dor, a resposta de que se seu corpo é inimigo, seu corpo é também seu aparato. E aqui, o drama renascentista de Verhoeven ativa um odor putrefato. Particularmente em uma sequência questionável, ainda que não sexualizada, da punição de Bartolomea após ser acusada de sodomia, quem </span><a href="https://www.hollywoodinsider.com/final-girl-trope/"><span style="font-weight: 400;">coisifica o corpo das mulheres</span></a><span style="font-weight: 400;"> em instrumento para a crítica de uma instituição falida, não são as personagens femininas, mas Paul Verhoeven, o cineasta holandês por trás do olho que tudo enxerga.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Quando aparenta transgredir as chagas das estruturas tradicionais, Verhoeven nunca chega até o fim. Sob o hábito de uma freira cheia de apetite, o cineasta gradativamente empalidece a autoexpressão das protagonistas quando converte seus corpos – </span><a href="https://garage.vice.com/en_us/article/pawmwk/revenge-review"><span style="font-weight: 400;">sobretudo, suas dores</span></a><span style="font-weight: 400;"> –, em único meio para a emancipação monástica, feminina e </span><a href="https://valkirias.com.br/a-invisibilidade-lesbica-no-cinema/"><i><span style="font-weight: 400;">queer</span></i></a><span style="font-weight: 400;">. Mesmo com a ressignificação de um dos subgêneros mais misóginos do Cinema pelo relato verídico de Benedetta, o diretor reafirma involuntariamente o </span><i><span style="font-weight: 400;">voyeurismo </span></i><span style="font-weight: 400;">masculino que vislumbra a atrativa dupla negação entre a “</span><i><span style="font-weight: 400;">freira intocável</span></i><span style="font-weight: 400;">” e “</span><i><span style="font-weight: 400;">lésbica inalcançável</span></i><span style="font-weight: 400;">”. Passados quase quatro séculos desde o julgamento abusivo de Benedetta Carlini, em 2021, Verhoeven faz com que, mais uma vez, todos bebam do sangue dela. Somente pelo sofrimento de seu corpo, inteiramente esgotado, se atinge a libertação, à sombra de uma justificativa que soa tão dissimulada quanto a corrupção clerical criticada por ele.</span></p>
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		<title>Sou feliz porque sei, com certeza, que ela me ama: 90 anos de Senhoritas em Uniforme</title>
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		<pubDate>Thu, 16 Dec 2021 15:01:06 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p>Ayra Mori 1931, dentro de um internato, se deu o primeiro beijo lésbico reconhecido pela história da Sétima Arte. O título é honra, não dos tímidos beijos trocados por um casal de mulheres arlequinamente dançantes em Le départ d’Arlequin et de Pierrette (1900), da pioneira mãe do Cinema, Alice Guy-Blaché, ou do sex appeal de &#8230; <a href="http://personaunesp.com.br/senhoritas-em-uniforme-90-anos/" class="more-link">Continue lendo<span class="screen-reader-text"> "Sou feliz porque sei, com certeza, que ela me ama: 90 anos de Senhoritas em Uniforme"</span></a></p>
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]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p><figure id="attachment_25392" aria-describedby="caption-attachment-25392" style="width: 1600px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-full wp-image-25392" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/12/img1-1.jpg" alt="Cena do filme Senhoritas em Uniforme de Leontine Sagan. Nela está Fräulein von Bernburg, interpretada por Dorothea Wieck, e Manuela, interpretada por Hertha Thiele. Ambas são mulheres brancas e se encaram. Fräulein von Bernburg segura o rosto de Manuela com as mãos, inclinando-o para cima. A fotografia é em preto e branco com filtro granulado. Os tons escuros se esfumam junto do branco que parece brilhar. A proporção da tela é de 1.20:1." width="1600" height="1353" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/12/img1-1.jpg 1600w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/12/img1-1-800x677.jpg 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/12/img1-1-1024x866.jpg 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/12/img1-1-768x649.jpg 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/12/img1-1-1536x1299.jpg 1536w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/12/img1-1-1200x1015.jpg 1200w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 1362px) 62vw, 840px" /><figcaption id="caption-attachment-25392" class="wp-caption-text">Precursor do Cinema queer, Mädchen in Uniform (título original de Senhoritas em Uniforme) foi a estreia da curta filmografia de Leontine Sagan [Foto: Deutsche Film-Gemeinschaft]</figcaption></figure><b>Ayra Mori</b></p>
<p><span style="font-weight: 400;">1931, dentro de um internato, se deu o primeiro beijo lésbico reconhecido pela história da Sétima Arte. O título é honra, não dos tímidos beijos trocados por um casal de mulheres arlequinamente dançantes em </span><a href="https://www.splicetoday.com/moving-pictures/dancing-with-alice-guy-blache"><i><span style="font-weight: 400;">Le départ d’Arlequin et de Pierrette</span></i></a><span style="font-weight: 400;"> (1900), da pioneira mãe do Cinema, </span><a href="https://mulhernocinema.com/entrevistas/documentario-recupera-trajetoria-de-alice-guy-blache-a-primeira-cineasta-da-historia/"><span style="font-weight: 400;">Alice Guy-Blaché</span></a><span style="font-weight: 400;">, ou do </span><i><span style="font-weight: 400;">sex appeal</span></i><span style="font-weight: 400;"> de um beijo sáfico roubado por uma Marlene Dietrich andrógina em </span><a href="http://www.contracampo.com.br/85/dvdmarrocos.htm"><i><span style="font-weight: 400;">Marrocos</span></i></a><span style="font-weight: 400;"> (1930), mas sim, por direito, de </span><i><span style="font-weight: 400;">Senhoritas em Uniforme</span></i><span style="font-weight: 400;"> (1931). Marco do audiovisual LGBTQIA+, a produção alemã determinou os destinos da ficção </span><i><span style="font-weight: 400;">queer </span></i><span style="font-weight: 400;">ao longo de seus 90 anos, revelando com sensibilidade o florescer do desejo lésbico. E realizado por uma equipe de mulheres, na desobediência, é alcançada a libertação.</span></p>
<p><span id="more-25391"></span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Do roteiro à execução, a perspectiva do filme é inteiramente feminina. Baseado na peça teatral </span><i><span style="font-weight: 400;">Gestern und Heute</span></i><span style="font-weight: 400;"> (1930), escrita por </span><a href="https://legacyprojectchicago.org/person/christa-winsloe"><span style="font-weight: 400;">Christa Winsloe</span></a><span style="font-weight: 400;"> – ex-Baronesa assumidamente lésbica –, a história relata a experiência pessoal da dramaturga ao viver sobre a austeridade de um colégio interno em Postdam, ainda na adolescência. O sucesso da trama levou à adaptação de </span><a href="https://feitoporelas.com.br/feito-por-elas-155-senhoritas-em-uniforme/"><span style="font-weight: 400;">Leontine Sagan</span></a><span style="font-weight: 400;"> no ano seguinte e outra em 1958, uma refilmagem quase idêntica da original, dirigida por </span><a href="https://50anosdefilmes.com.br/2012/senhoritas-em-uniforme-madchen-in-uniform/"><span style="font-weight: 400;">Géza von Radványi</span></a><span style="font-weight: 400;">. Em ambos, o elenco é todo composto por mulheres. A única presença masculina se manifesta simbolicamente através da imobilidade dos heróis de guerra imortalizados no mármore das esculturas que cercam a arquitetura sóbria do internato.</span></p>
<figure id="attachment_25393" aria-describedby="caption-attachment-25393" style="width: 1061px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-full wp-image-25393" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/12/img2.jpg" alt="Cena do filme Senhoritas em Uniforme de Leontine Sagan. Nela está em fileira um grupo de colegiais que cantam de frente para a câmera. O uniforme delas é um vestido listrado com golas brancas e um laço central, além de um broche arredondado, semelhante a um cravo. A fotografia é em preto e branco com filtro granulado. A proporção da tela é de 1.20:1." width="1061" height="887" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/12/img2.jpg 1061w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/12/img2-800x669.jpg 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/12/img2-1024x856.jpg 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/12/img2-768x642.jpg 768w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 1362px) 62vw, 840px" /><figcaption id="caption-attachment-25393" class="wp-caption-text">O filme venceu a categoria de Melhor Perfeição Técnica na primeira edição do Festival de Veneza em 1932 (Foto: Deutsche Film-Gemeinschaft)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">Nos primeiros minutos do filme, somos introduzidos à protagonista. Ela é Manuela (Hertha Thiele), uma adolescente de 14 anos, enviada de malgrado para um internato destinado </span><a href="https://thehotpinkpen.com/2020/09/02/leontine-sagans-german-cult-classic-madchen-in-uniform-hails-a-ground-breaking-all-female-cast-filmed-in-1931/"><span style="font-weight: 400;">somente à moças</span></a><span style="font-weight: 400;">. Praticamente órfã, ela perdeu precocemente a mãe, enquanto o pai, como um “bom” soldado prussiano, ausenta-se do papel de educar a filha. Uma menina especialmente sensível, Manuela se depara de imediato com o autoritarismo da diretora Fräulein von Nordeck zur Nidden (Emilia Unda). Por consequência, entra em conflito a irreverência da aliança fraterna entre as colegiais contra a tirania da instituição patriarcal representada pelas professoras. Bom, </span><a href="https://www.tcm.com/video/1578953/madchen-in-uniform-1931-movie-clip-why-are-you-shaking"><span style="font-weight: 400;">nem toda professora</span></a><span style="font-weight: 400;">.</span></p>
<blockquote><p><span style="font-weight: 400;">— </span><span style="font-weight: 400;">Cuidado para não se apaixonar.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">— </span><span style="font-weight: 400;">Por quê?</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">— </span><span style="font-weight: 400;">Porque todas as garotas têm uma queda pela Srta. Fräulein von Bernburg.</span></p></blockquote>
<p><span style="font-weight: 400;">Foi o conselho oferecido à recém-chegada pelas novas colegas, não como um aviso moral, mas como um subtexto brincalhão, mandando-a entrar na longa fila de admiradoras. Atravessando as paredes frias dos dormitórios compartilhados, dos vestiários confessionais ou, ainda, das cortinas que separam cada cabine do banheiro, a </span><a href="https://kiradeshler.substack.com/p/madchen-in-uniforms-revolutionary"><span style="font-weight: 400;">admiração pela professora</span></a><span style="font-weight: 400;"> Fräulein von Bernburg (Dorothea Wieck) é consenso entre as garotas – e com Manuela, não foi diferente. A professora é culta, elegante e incrivelmente bela. Diferente das matriarcas mais tradicionais, Fräulein von Bernburg é compreensiva, valorizando o afeto no aprendizado, tanto quanto na disciplina. Não há como não se encantar por uma mulher tão fascinante quanto ela.</span></p>
<figure id="attachment_25394" aria-describedby="caption-attachment-25394" style="width: 700px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="wp-image-25394" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/12/img3.jpg" alt="Cena do filme Senhoritas em Uniforme de Leontine Sagan. Nela está Fräulein von Bernburg, interpretada por Dorothea Wieck, e Manuela, interpretada por Hertha Thiele. Fräulein von Bernburg é uma mulher branca. De cabelo preso em coque, ela veste um vestido escuro. Já Manuela, é uma adolescente branca. Seu cabelo está preso em um rabo de cavalo frouxo e ela veste uma camisola branca. Ambas se encaram. Manuela está de costas para a câmera, levantando-se da cama de encontro com Fräulein von Bernburg. O fundo é um dormitório compartilhado com camas metálicas. A fotografia é em preto e branco com filtro granulado. Os tons escuros se esfumam junto do branco que parece brilhar. A proporção da tela é de 1.20:1." width="700" height="586" /><figcaption id="caption-attachment-25394" class="wp-caption-text">Fenômeno do Cinema LGBTQIA+, a naturalização do lesbianismo de Senhoritas em Uniforme ressoa nos 90 anos de sua história, desde os experimentalismos vanguardistas de Chantal Akerman aos retratos homoeróticos de Céline Sciamma (Foto: Deutsche Film-Gemeinschaft)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">As garotas adoram Fräulein von Bernburg, dançam juntas, bordam dentro de um coração as iniciais de seus nomes combinados com a da professora e confessam naturalmente a paixão pela mulher mais velha. </span><a href="https://personaunesp.com.br/retrato-jovem-chamas-critica/"><span style="font-weight: 400;">O </span><i><span style="font-weight: 400;">queerness </span></i><span style="font-weight: 400;">é normalizado</span></a><span style="font-weight: 400;">, abrindo-se as portas de um universo íntimo emancipado das amarras compulsórias da sociedade heterossexual, celebrando o amor em suas muitas formas – maternal (Fräulein von Bernburg), fraternal (Ilse) ou, mesmo, homossexual (Manuela). O erotismo lésbico se apresenta com inocência, não como algo sujo. E Manuela fica completamente hipnotizada pela professora.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Na </span><a href="https://youtu.be/mBrAsTARANY"><span style="font-weight: 400;">cena mais memorável do filme</span></a><span style="font-weight: 400;">, uma fileira de colegiais em camisolas brancas, esperam ansiosamente o beijo de boa noite de Fräulein von Bernburg. A professora caminha de cama em cama, beijando testa por testa como num </span><i><span style="font-weight: 400;">eros </span></i><span style="font-weight: 400;">ritualístico. A última é Manuela, que espera ansiosamente pela sua vez, observando a professora cruzar, sem pressa, o dormitório. Seguida por </span><i><span style="font-weight: 400;">close-ups</span></i><span style="font-weight: 400;"> de olhares cheios de desejo, a antecipação é inquietante. Cresce em Manuela um sentimento inebriante, confundindo, despertando. Quando chega a sua vez, ela abraça a mulher mais velha, quase implorando por um beijo nos lábios, que lhe é concedido.</span></p>
<blockquote><p><span style="font-weight: 400;">— </span><span style="font-weight: 400;">Quando você diz boa noite e fecha a porta do quarto, encaro-a na escuridão. Eu quero me levantar e ir até você, mas sei que não posso. Penso que quando eu sair da escola, você ainda estará aqui. E toda noite, você beijará novas garotas.</span></p></blockquote>
<figure id="attachment_25395" aria-describedby="caption-attachment-25395" style="width: 1353px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-full wp-image-25395" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/12/img4.jpg" alt="Cena do filme Senhoritas em Uniforme de Leontine Sagan. Nela está Manuela, interpretada por Hertha Thiele. Manuela, é uma adolescente branca. Seu cabelo está preso em um rabo de cavalo frouxo e ela veste uma camisola branca. A imagem é close-up do rosto de Manuela, inclinado para a esquerda. Ela aparenta estar triste. O fundo é cinza. A fotografia é em preto e branco com filtro granulado. Os tons escuros se esfumam junto do branco que parece brilhar. A proporção da tela é de 1.20:1." width="1353" height="1121" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/12/img4.jpg 1353w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/12/img4-800x663.jpg 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/12/img4-1024x848.jpg 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/12/img4-768x636.jpg 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/12/img4-1200x994.jpg 1200w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 1362px) 62vw, 840px" /><figcaption id="caption-attachment-25395" class="wp-caption-text">Hertha Thiele viveu à altura da bravura de Manuela, assumindo postura contrária ao regime totalitário e tornando-se febre entre as adolescentes que enviavam cartas de adoração à atriz (Foto: Deutsche Film-Gemeinschaft)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">Apesar do </span><a href="http://www.mnemocine.com.br/index.php/cinema-categoria/24-histcinema/89-notas-para-uma-historia-do-cinema-homossexual-na-era-dos-regimes-totalitarios"><span style="font-weight: 400;">clima propício para explorar questões de gênero e sexualidade</span></a><span style="font-weight: 400;"> na Alemanha, que se tornou uma espécie de meca LGBTQIA+ nas décadas anteriores, </span><i><span style="font-weight: 400;">Senhoritas em Uniforme</span></i><span style="font-weight: 400;"> foi feito no auge da decadência progressista de Weimar. Avançava o ativismo </span><i><span style="font-weight: 400;">queer </span></i><span style="font-weight: 400;">no país, graças à </span><i><span style="font-weight: 400;">Liga Mundial pela Reforma Sexual</span></i><span style="font-weight: 400;"> do sexólogo gay </span><a href="https://revistahibrida.com.br/2019/04/12/magnus-hirschfeld-o-medico-gay-e-judeu-que-defendia-lgbts-do-nazismo/"><span style="font-weight: 400;">Magnus Hirschfeld</span></a><span style="font-weight: 400;"> e, acredite se quiser, havia mais de cinquenta bares lésbicos (</span><i><span style="font-weight: 400;">Damenklub</span></i><span style="font-weight: 400;">) somente em Berlim. Ninguém diria que em dois anos </span><a href="https://revistahibrida.com.br/2019/04/19/a-perseguicao-contra-mulheres-queer-durante-o-holocausto/"><span style="font-weight: 400;">tudo mudaria</span></a><span style="font-weight: 400;">.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">As únicas três produções dirigidas por Sagan davam sinais de um movimento nascente que transcendia a dramaticidade do </span><a href="https://www.aicinema.com.br/expressionismo-alemao-movimentos-cinematograficos/"><span style="font-weight: 400;">expressionismo alemão</span></a><span style="font-weight: 400;">, como em </span><a href="https://jornal.usp.br/cultura/cem-anos-depois-o-gabinete-do-dr-caligari-reflete-panico-atual/"><i><span style="font-weight: 400;">O Gabinete do Dr. Caligari</span></i></a><span style="font-weight: 400;"> (1920), de Robert Wiene. O claro-escuro não buscava mais acentuar as distorções psicológicas de um personagem masculino perturbado, pelo contrário, a cineasta sutilmente combinava elementos estilísticos expressionistas com a performance orgânica de suas atrizes, evocando a subjetividade da psique feminina. O preto se ilumina, o branco cintila. Sobre a tela prateada as emoções se derramam calorosamente entre os encontros de olhares perdidos.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Nos detalhes, a direção de Sagan se excede. Cada toque, cada carícia, cada vislumbre são enquadrados por uma soberba câmera que irradia deslumbrantemente o rosto das adolescentes. Os retratos são sutis, simplistas, cândidos e angelicalmente lindos. Romântico em sua narrativa, em sua forma, </span><i><span style="font-weight: 400;">Senhoritas em Uniforme</span></i><span style="font-weight: 400;"> enfatiza o indizível acima do dito. A expressividade do olhar de uma Manuela desolada é suficiente para compreender todas as dores da garota, carregando consigo as reminiscências das agonias dilacerantes de uma Joana d’Arc (Renée Jeanne Falconetti) em julgamento, no clássico </span><a href="https://personacinema.com.br/a-paixao-de-joana-darc-dreyer-dc97377c87ef"><i><span style="font-weight: 400;">A Paixão de Joana d’Arc</span></i></a><span style="font-weight: 400;"> (1928).</span></p>
<figure id="attachment_25396" aria-describedby="caption-attachment-25396" style="width: 1000px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-full wp-image-25396" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/12/img5.jpg" alt="Cena do filme Senhoritas em Uniforme de Leontine Sagan. Nela está um grupo de colegiais que conversam sobre uma escada. O uniforme delas é um vestido listrado com golas brancas e um laço central, além de um broche arredondado, semelhante a um cravo. No centro está Ilse, interpretada por Ellen Schwanneke, que olha para o além com as mãos cruzadas acima do peito. No fundo é possível ver as paredes do internato, além da continuação do guarda-corpo da escada que está à frente das garotas. A fotografia é em preto e branco com filtro granulado. A proporção da tela é de 1.20:1." width="1000" height="750" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/12/img5.jpg 1000w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/12/img5-800x600.jpg 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/12/img5-768x576.jpg 768w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 1362px) 62vw, 840px" /><figcaption id="caption-attachment-25396" class="wp-caption-text">“Apenas a imagine pelada” (Foto: Deutsche Film-Gemeinschaft)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">Infelizmente, com a tomada do poder pelo partido nazista, esse brilho se apagou quando a propaganda militar assumiu o controle da produção cultural alemã. Fato é que dentro do fascismo, não há espaço para a expansão do eu. O individualismo de Sagan foi comprimido na vida e na Arte. Além de ter sido proibido nos Estados Unidos perante o </span><a href="http://obviousmag.org/archives/2013/05/hollywood_os_anos_da_censura.html"><i><span style="font-weight: 400;">Código Hays</span></i></a><span style="font-weight: 400;"> – a censura foi retirada somente devido à moções conduzidas por uma </span><a href="https://www.nationalgeographicbrasil.com/cultura/2018/06/12-figuras-lgbt-historicas-que-mudaram-o-mundo#:~:text=A%20antiga%20primeira,que%20n%C3%B3s%20dizemos.%E2%80%9D"><span style="font-weight: 400;">influente aliada</span></a><span style="font-weight: 400;">, a primeira dama Eleanor Roosevelt –, </span><i><span style="font-weight: 400;">Senhoritas em Uniforme</span></i><span style="font-weight: 400;"> foi visto como perigo pelo então ministro da Cultura, Joseph Goebbels, que ordenou que todas as cópias do filme fossem queimadas. Mas, por sorte, uma das cópias existentes fora da Alemanha sobreviveu, junto com o legado de Sagan.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Inevitavelmente, o filme carrega em suas veias um evidente caráter político. Era uma Europa entreguerras, devastada pela fome e ameaçada pelo nascente partido nazista. A despótica diretora Fräulein von Nordeck zur Nidden é a personificação de toda a perversidade do regime autoritário de Hitler. “</span><i><span style="font-weight: 400;">Nós, prussianos, conhecemos a fome. Elas são filhas de soldados e, se Deus quiser, mães de soldados</span></i><span style="font-weight: 400;">”, declara a superiora, que sujeita as garotas à privação intencional de comida. Para ela, o sofrimento as dignifica, como verdadeiras </span><a href="https://open.spotify.com/track/6VIgGcxTOjPpvFUrFzM2TO?si=74eab7e2a384491d"><span style="font-weight: 400;">mulheres de Atenas</span></a><span style="font-weight: 400;">, instruídas aos bons costumes da Prússia, ao casamento e à fé.</span></p>
<figure id="attachment_25397" aria-describedby="caption-attachment-25397" style="width: 915px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-full wp-image-25397" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/12/img6.jpg" alt="Cena do filme Senhoritas em Uniforme de Leontine Sagan. Nela está Fräulein von Bernburg, interpretada por Dorothea Wieck, e Manuela, interpretada por Hertha Thiele. Ambas são mulheres brancas. Fräulein von Bernburg segura em seus braços Manuela, essa que está de cabeça baixa. A fotografia é em preto e branco com filtro granulado. Os tons escuros se esfumam junto do branco que parece brilhar. A proporção da tela é de 1.20:1." width="915" height="768" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/12/img6.jpg 915w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/12/img6-800x671.jpg 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/12/img6-768x645.jpg 768w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 1362px) 62vw, 840px" /><figcaption id="caption-attachment-25397" class="wp-caption-text">Com a tomada de Hitler sobre a Alemanha, Leontine Sagan fugiu para a Inglaterra e Christa Winsloe foi assassinada por um agente da Gestapo em 1944, enquanto exilava-se na Riviera Francesa (Foto: Deutsche Film-Gemeinschaft)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">Contudo, embora seja uma obstinada declaração antifacista, no âmago de </span><i><span style="font-weight: 400;">Senhoritas em Uniforme</span></i><span style="font-weight: 400;">, afirma-se, antes de mais nada, uma história de amadurecimento. Sagan emparelha a consciência sociopolítica de seu tempo à representação hormonal dos primeiros amores, refletindo na narrativa uma experiência universal sob a especificidade de uma </span><a href="http://www.fiepbulletin.net/index.php/fiepbulletin/article/view/86.a1.38"><span style="font-weight: 400;">lente homoerótica</span></a><span style="font-weight: 400;">. Os corpos se maturam e, por trás das cortinas do internato, </span><a href="https://www.bfi.org.uk/features/madchen-in-uniform-leontine-sagan"><span style="font-weight: 400;">desperta-se silenciosamente o desejo</span></a><span style="font-weight: 400;">. Porém, uma vez que uma Manuela embriagada declara o seu amor para Fräulein von Bernburg, um limite é transgredido. Até que ponto a afeição homossocial entre as garotas era permitida?</span></p>
<blockquote><p><span style="font-weight: 400;">— </span><span style="font-weight: 400;">Você não deveria pensar nessas coisas, muito menos falar sobre. Você deve voltar aos seus sentidos. Você deve ser curada custe o que custar.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">— </span><span style="font-weight: 400;">Curada? Sobre o quê?</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">— </span><span style="font-weight: 400;">Você não deveria me amar… tanto.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">— </span><span style="font-weight: 400;">Por que não?</span></p></blockquote>
<p><span style="font-weight: 400;">Os sentimentos, ora naturalizados pelo companheirismo sáfico das colegas, só eram aceitáveis devido à falta de meninos – não deviam significar nada além disso. Assim, firma-se um contrato taciturno que restringe essas afeições homoeróticas a um determinado estágio da juventude daquelas adolescentes que, com o tempo, sentiriam-se </span><a href="https://periodicos.ufrn.br/bagoas/article/view/2309"><span style="font-weight: 400;">compelidas a se entender como heterossexuais</span></a><span style="font-weight: 400;">. O filme se encerra com a certeza do amor de Manuela que entende, com medo, a influência de seus sentimentos sobre o futuro, enxergando, na morte, a única saída. Mas é na aliança que o último ato se finda.</span></p>
<figure id="attachment_25398" aria-describedby="caption-attachment-25398" style="width: 916px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-full wp-image-25398" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/12/img7.jpg" alt="Cena do filme Senhoritas em Uniforme de Leontine Sagan. Nela está Ilse, interpretada por Ellen Schwanneke, e Manuela, interpretada por Hertha Thiele. Ambas são garotas brancas e se encaram. Ilse segura firme o rosto de Manuela com as mãos. O uniforme delas é um vestido listrado com golas brancas e um laço central. A fotografia é em preto e branco com filtro granulado. Os tons escuros se esfumam junto do branco que parece brilhar. A proporção da tela é de 1.20:1." width="916" height="768" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/12/img7.jpg 916w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/12/img7-800x671.jpg 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/12/img7-768x644.jpg 768w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 1362px) 62vw, 840px" /><figcaption id="caption-attachment-25398" class="wp-caption-text">“Foi estranho. Bernburg não disse uma única palavra. Mas ela te assistiu. Você não pode nem imaginar de quão perto ela te assistiu.” (Foto: Deutsche Film-Gemeinschaft)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">Rebelando-se contra a tirania de Fräulein von Nordeck zur Nidden, as colegas se unem em solidariedade à Manuela. Proibidas, elas marcham juntas pelos corredores do internato em desobediência ao regime opressivo da superiora. Aqui, o poder é delas, o poder é do povo. Elas salvam a vida de Manuela ao passo que reivindicam a própria autonomia, encontrando a si mesmas apesar das estruturas repressivas. Em todo o seu </span><a href="https://www.criterion.com/current/posts/7429-the-femme-solidarity-and-queer-allyship-of-m-dchen-in-uniform"><span style="font-weight: 400;">potencial revolucionário</span></a><span style="font-weight: 400;">, </span><i><span style="font-weight: 400;">Senhoritas em Uniforme</span></i><span style="font-weight: 400;"> é um hino aos primeiros amores. Aqueles que ainda não estamos preparados para entender, para aceitar, mas que resistem, ainda que no limite de uma memória já desbotada.</span></p>
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