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	<title>Arquivos Kiran Sonia Sawar &#8211; Persona | Jornalismo Cultural</title>
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	<description>Desde 2015 provando que a distância entre Bergman, Lady Gaga e a novela das 9 nem existe.</description>
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		<title>Seremos sempre incapazes de ouvir os gritos de Listen?</title>
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		<pubDate>Mon, 01 Nov 2021 16:38:13 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p>Nathália Mendes Limpe bem seus ouvidos para assistir o drama português Listen exibido na 45ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo. Nele, a surdez nada tem a ver com a falta de audição, mas com a racional ignorância daqueles que ouvem muito bem. No longa escrito e dirigido por Ana Rocha Sousa, um casal &#8230; <a href="http://personaunesp.com.br/listen-critica/" class="more-link">Continue lendo<span class="screen-reader-text"> "Seremos sempre incapazes de ouvir os gritos de Listen?"</span></a></p>
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										<content:encoded><![CDATA[<figure id="attachment_24307" aria-describedby="caption-attachment-24307" style="width: 1152px" class="wp-caption alignnone"><img fetchpriority="high" decoding="async" class="size-full wp-image-24307" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/11/3.png" alt="Cena do filme Listen. Na imagem, há uma mulher e um homem sentados com uma cadeira separando os dois. Na esquerda, a mulher está sentada olhando para o lado com uma expressão de ligeira aflição; ela é branca de cabelos loiros e usa uma blusa lilás e segura um casaco roxo entre as mãos que estão entrelaçadas em cima das pernas. No canto direito, o homem também olha para o lado com atenção; ele é branco com cabelos castanhos e barba branca por fazer, usa uma camiseta azul com jaqueta verde muito desgastada por cima, uma calça cinza e segura um lápis e um papel para anotar em cima das pernas. A cadeira que os separa é em madeira clara e estofado bege. O fundo é uma parede com a metade de cima em papel de parede azul e folhagens claras, e a parte de baixo é de madeira listrada branca." width="1152" height="662" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/11/3.png 1152w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/11/3-800x460.png 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/11/3-1024x588.png 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/11/3-768x441.png 768w" sizes="(max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 1362px) 62vw, 840px" /><figcaption id="caption-attachment-24307" class="wp-caption-text">Uma família de imigrantes sofre silenciosamente na luta contra a Segurança Social britânica em Listen, filme exibido na seção Perspectiva Internacional da 45ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo (Foto: Bando à Parte)</figcaption></figure>
<p><b>Nathália Mendes</b></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Limpe bem seus ouvidos para assistir o drama português </span><a href="https://www.youtube.com/watch?v=hR7jyodiFQM"><i><span style="font-weight: 400;">Listen</span></i></a><span style="font-weight: 400;"> exibido na 45ª </span><a href="https://personaunesp.com.br/tag/mostra-internacional-de-cinema-em-sao-paulo/"><span style="font-weight: 400;">Mostra Internacional</span></a><span style="font-weight: 400;"> de Cinema em São Paulo. Nele, a surdez nada tem a ver com a falta de audição, mas com a racional ignorância daqueles que ouvem muito bem. No longa escrito e dirigido por Ana Rocha Sousa, um casal de imigrantes portugueses tenta criar três filhos, sendo a do meio uma menina surda, e sobrevivendo de subempregos em uma dura Londres, até que o Serviço Social britânico tira as crianças de casa. É por esse duro retrato familiar que o longa pauta a silenciosa adoção forçada na Inglaterra.</span></p>
<p><span id="more-24306"></span></p>
<p><i><span style="font-weight: 400;">Listen</span></i><span style="font-weight: 400;"> estreou no </span><a href="https://www.magazine-hd.com/apps/wp/77o-festival-de-veneza-listen/"><span style="font-weight: 400;">77º Festival de Veneza</span></a><span style="font-weight: 400;"> em 2020 pela seção Horizontes com a sua coragem em narrar um assunto real em 3 línguas diferentes. No entanto, mesmo que o trabalho de Ana Rocha tenha sido recompensado com o grande prêmio de </span><a href="https://www.papodecinema.com.br/noticias/festival-de-veneza-2020-nomadland-vence-o-leao-de-ouro-confira-todos-os-premiados/"><span style="font-weight: 400;">Leão do Futuro</span></a><span style="font-weight: 400;"> e o Prêmio Especial do Júri, seu filme </span><a href="https://c7nema.net/producoes/item/91754-listen-fora-dos-oscars.html"><span style="font-weight: 400;">foi vetado</span></a><span style="font-weight: 400;"> para concorrer ao </span><i><span style="font-weight: 400;">Oscar </span></i><span style="font-weight: 400;">de Filme Internacional em 2021 por não ter mais da metade de diálogo em idiomas diferentes do inglês. Sem surpresas, dentro e fora do Cinema a língua de sinais não é bem-vinda, mesmo com uma personagem e sua atriz sendo surdas &#8211; e muito </span><a href="https://www.bbc.com/portuguese/geral-43285229"><span style="font-weight: 400;">bem premiadas</span></a><span style="font-weight: 400;">.</span></p>
<figure id="attachment_24308" aria-describedby="caption-attachment-24308" style="width: 1280px" class="wp-caption alignnone"><img decoding="async" class="size-full wp-image-24308" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/11/1.jpg" alt="Cena do filme Listen. Na imagem há duas crianças escondidas ao lado de um guarda-roupa. Um menino mais alto, branco de cabelos castanhos cacheados, usando óculos, camisa branca com gravata cinza e suéter preto por cima, que está atrás da irmã menor e encara com raiva. A menina menor está à frente do irmão e grudada na lateral do armário, ela é branca de cabelos loiros, usa camisa azul e suéter cinza por cima; seu rosto está metade escondido pelo guarda-roupa e sua mão esquerda segura nele. Do lado esquerdo está o guarda-roupa de madeira marrom com manchas de desgaste, e o fundo do lado direito é uma quina da parede de um lado azul e do outro com um papel de parede de dinossauros." width="1280" height="720" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/11/1.jpg 1280w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/11/1-800x450.jpg 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/11/1-1024x576.jpg 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/11/1-768x432.jpg 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/11/1-1200x675.jpg 1200w" sizes="(max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 1362px) 62vw, 840px" /><figcaption id="caption-attachment-24308" class="wp-caption-text">Maisie Sly, que vive a personagem surda Lu em Listen, é uma atriz também surda que protagonizou o filme The Silent Child, ganhador do Oscar 2018 de Melhor Curta-Metragem (Foto: Bando à Parte)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">O que você faria se fosse um imigrante, morando no subúrbio de outro país e o Serviço Social arrebentasse sua porta e levasse seus filhos sob a alegação de que você os machuca fisicamente? Essa é a situação que o casal Bela (Lúcia Moniz) e Jota (Ruben Garcia) se encontram. Ambos haviam recorrido anteriormente ao Estado britânico como a saída para seus problemas financeiros. Mas eles jamais imaginariam que teriam seus filhos arrancados de casa e colocados </span><a href="https://www.sundayguardianlive.com/lifestyle/12668-uk-forced-adoptions-are-backed-big-money"><span style="font-weight: 400;">à força no sistema de adoção</span></a><span style="font-weight: 400;"> sob a alegação de violência. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Ainda que toda a trama seja extremamente delicada e real ao que acontece na Inglaterra, a montagem fixa demais e o apelo emocional de um público específico são fatores que </span><a href="https://www.screendaily.com/reviews/listen-venice-review/5152697.article"><span style="font-weight: 400;">minam um pedaço</span></a><span style="font-weight: 400;"> do sucesso de</span><i><span style="font-weight: 400;"> Listen</span></i><span style="font-weight: 400;">. E isso é tão verídico que, como parte do roteiro, há uma quantidade enorme de vezes em que os personagens circundam o casal dizendo que </span><i><span style="font-weight: 400;">“os entendem”</span></i><span style="font-weight: 400;">. Não. Ninguém os entende. Todos somos filhos, mas nem todos temos filhos, e por mais que sejamos capazes de sentir empatia, a dor que Bela e Jota mostram &#8211; com uma bela atuação de seus atores &#8211; é o cerne da sensibilidade do longa.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Além de pautar essa </span><a href="https://www.youtube.com/watch?v=-Hq30osekas"><span style="font-weight: 400;">realidade assustadora</span></a><span style="font-weight: 400;">, a diretora de </span><i><span style="font-weight: 400;">Listen</span></i><span style="font-weight: 400;"> criou uma construção essencial através da surdez de Lu (Maisie Sly) para pautar a ignorância da sociedade. Já dentro do sistema de adoção, ninguém se comunicava com Lu, e durante uma das visitas que o casal faz aos filhos, o longa desenhou &#8211; em uma de suas melhores e mais nauseantes cenas &#8211; o desprezo pela única forma que a menina possuía em se comunicar com o mundo: a linguagem de sinais. No trecho em questão, o agente que supervisionava a família grita a plenos pulmões contra suas falas em português ou em sinais. A alegação era de que poderiam ser mensagens secretas para as crianças, mas o incômodo do homem se assemelhava à repugnância. </span></p>
<figure id="attachment_24309" aria-describedby="caption-attachment-24309" style="width: 1053px" class="wp-caption alignnone"><img decoding="async" class="size-full wp-image-24309" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/11/2.jpg" alt="Cena do filme Listen. Na imagem há uma mulher abraçada com sua filha no centro, e ao fundo, em desfoque, um policial vigiando-as. A mulher é branca e de cabelos loiros, usa uma blusa de mangas compridas caramelo, está segurando firme a filha que está atrás dela pelo braço, mostrando uma proteção, e sua expressão é de pânico e raiva. A menina é branca, está com o rosto escondido atrás da mãe, é loira e usa uma camiseta azul clara. Ao fundo, o policial está de uniforme preto." width="1053" height="702" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/11/2.jpg 1053w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/11/2-800x533.jpg 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/11/2-1024x683.jpg 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/11/2-768x512.jpg 768w" sizes="(max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 1362px) 62vw, 840px" /><figcaption id="caption-attachment-24309" class="wp-caption-text">Ana Rocha Sousa precisou de muita pesquisa para encontrar as informações de como o sistema de adoção forçada funcionava na Inglaterra e quantas histórias estavam escondidas debaixo dos panos (Foto: Bando à Parte)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">Mais um paralelo interessante foi criado para mostrar a comoção do outro diante de uma situação tão reprovável quanto tirar crianças à força de suas casas. Isso foi feito através de 3 personagens do Serviço Social: um agente completamente ordinário que reprova a família, uma outra em cima do muro entre seguir seu trabalho e sentir dó de Bela, e uma ex-agente e advogada que ajuda a família secretamente. Assim, o longa mostra como as pessoas que estão inseridas em </span><a href="https://www.connexionfrance.com/Practical/Family/uk-forced-adoption-policy-punishes-parents-who-have-committed-no-crime-campaigner-says"><span style="font-weight: 400;">sistemas desumanos</span></a><span style="font-weight: 400;"> possuem ouvidos que captam tudo, mas nem todos optam por escutar a dor de uma família destroçada. </span></p>
<p><i><span style="font-weight: 400;">“Ela tem culpa, ela conhece o sistema, ela sabe como funciona. Todo mundo sabe”</span></i><span style="font-weight: 400;"> foi a última fala de Bela, uma mãe que chega exausta ao final do filme por lutar tanto. Ela consegue Lu de volta, pois ninguém aceitou adotá-la pela surdez, e o filho mais velho Diego (James Felner) que havia fugido, mas perde sua bebê de 1 ano para o sistema de adoção britânico, que legalmente não desfaz adoções &#8211; ainda mais aquelas que foram, na verdade, crianças roubadas pelo próprio Estado. E trajando essa dura consciência, </span><i><span style="font-weight: 400;">Listen</span></i><span style="font-weight: 400;"> depositou toda sua bela simplicidade na </span><a href="https://mostraplay.mostra.org/film/listen/"><span style="font-weight: 400;">45ª Mostra de São Paulo</span></a><span style="font-weight: 400;">. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">A força que essa família exibiu ao lutar pelo que tinham de mais valioso expôs a gravidade de múltiplas realidades sufocantes, da adoção forçada ao isolamento de quem se comunica pelas mãos. Através de cenas muito particulares e com imagens detalhistas de seus personagens, nos aproximamos do sofrimento advindo de uma situação tão específica, alarmante e silenciosa. Como dito por </span><a href="https://variety.com/2020/film/global/venice-film-festival-ana-rocha-listen-1234761791/"><span style="font-weight: 400;">Ana Rocha Sousa</span></a><span style="font-weight: 400;">, </span><i><span style="font-weight: 400;">“A vida não é feita de palavras”</span></i><span style="font-weight: 400;">, e nem as mais fortes gritadas com todo o poderio das cordas vocais podem mudar o mundo. Mas talvez, quem sabe, os sinais.</span></p>
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