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	<title>Arquivos Humberto Carrão &#8211; Persona | Jornalismo Cultural</title>
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	<description>Desde 2015 provando que a distância entre Bergman, Lady Gaga e a novela das 9 nem existe.</description>
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		<title>5 anos de Marighella e a contestação de uma narrativa única</title>
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		<pubDate>Fri, 22 Nov 2024 20:01:44 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p>Maria Clara Alves Tão emblemática quanto polêmica, Marighella, cinebiografia dirigida por Wagner Moura, completa cinco anos em Novembro de 2024. Inspirado no livro Marighella: O guerrilheiro que incendiou o mundo, de Mário Magalhães, o filme foi o primeiro trabalho do ator como diretor de Cinema e emplacou como uma de suas produções mais complexas, desafiadoras &#8230; <a href="http://personaunesp.com.br/5-anos-de-marighella-e-a-contestacao-de-uma-narrativa-unica-critica/" class="more-link">Continue lendo<span class="screen-reader-text"> "5 anos de Marighella e a contestação de uma narrativa única"</span></a></p>
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										<content:encoded><![CDATA[<p><figure id="attachment_34479" aria-describedby="caption-attachment-34479" style="width: 800px" class="wp-caption alignnone"><img fetchpriority="high" decoding="async" class="size-medium wp-image-34479" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2024/11/Imagem-1-800x444.jpg" alt="[Texto alternativo: O ator Seu Jorge, interpretando Carlos Marighella, está localizado no centro da foto, olhando para seu filho Carlinhos, à esquerda. Ao fundo, há um céu nublado e acinzentado.]" width="800" height="444" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2024/11/Imagem-1-800x444.jpg 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2024/11/Imagem-1-768x426.jpg 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2024/11/Imagem-1.jpg 1024w" sizes="(max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 984px) 61vw, (max-width: 1362px) 45vw, 600px" /><figcaption id="caption-attachment-34479" class="wp-caption-text">A produção passa por quatro dos 58 anos vividos por aquele que era o ‘inimigo número um do Brasil’ (Foto: O2 Filmes)</figcaption></figure><b>Maria Clara Alves</b></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Tão emblemática quanto polêmica, </span><i><span style="font-weight: 400;">Marighella</span></i><span style="font-weight: 400;">, cinebiografia dirigida por Wagner Moura, completa cinco anos em Novembro de 2024. Inspirado no livro </span><i><span style="font-weight: 400;">Marighella: O guerrilheiro que incendiou o mundo,</span></i><span style="font-weight: 400;"> de Mário Magalhães, o filme foi o primeiro trabalho do ator como diretor de Cinema e emplacou como uma de suas produções mais complexas, desafiadoras e, sobretudo, emocionantes. A partir do </span><a href="https://www.youtube.com/watch?v=MEKNun7N9ns"><span style="font-weight: 400;">fascínio</span></a><span style="font-weight: 400;"> do cineasta por movimentos populares de resistência, fica claro que o longa-metragem</span> <span style="font-weight: 400;">foi pensado a partir da necessidade de recontar a história da Ditadura Militar por um ponto de vista mais </span><a href="https://www.significados.com.br/foice-e-o-martelo/"><span style="font-weight: 400;">vermelho</span></a><span style="font-weight: 400;"> e visceral.</span></p>
<p><span id="more-34474"></span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">O Carlos Marighella da história nasceu em Salvador e foi o mais velho de oito irmãos. Seu pai, Augusto Marighella, era um imigrante italiano que veio para o Brasil em uma das </span><a href="https://www.todamateria.com.br/imigracao-no-brasil/#:~:text=Com%20a%20proibi%C3%A7%C3%A3o%20do%20tr%C3%A1fico,de%20imigrantes%20europeus%20no%20pa%C3%ADs."><span style="font-weight: 400;">ondas de incentivo à imigração</span></a><span style="font-weight: 400;"> após a abolição. No século XIX, sua mãe, Maria Rita dos Santos, era filha de escravos e tinha origem sudanesa, da etnia </span><a href="https://www.youtube.com/watch?v=mvCzydN5kak"><span style="font-weight: 400;">haussá</span></a><span style="font-weight: 400;">. Desde cedo, o menino se destacava pela </span><a href="https://aventurasnahistoria.com.br/noticias/desventuras/e-ruim-em-exatas-faca-como-marighella-e-use-poesia-seu-favor.phtml"><span style="font-weight: 400;">habilidade com as palavras</span></a><span style="font-weight: 400;"> na escola. Anos mais tarde, ele teria se radicalizado e passado a militar como deputado federal pelo Partido Comunista Brasileiro (PCB), com o qual </span><a href="https://memorialdademocracia.com.br/card/pcb-fecha-questao-contra-luta-armada"><span style="font-weight: 400;">rompeu</span></a><span style="font-weight: 400;"> após a renúncia de João Goulart. Depois, juntou-se à Aliança Nacional Libertadora (ANL), pela qual lutou até o ano da sua morte (1969).</span></p>
<p><figure id="attachment_34478" aria-describedby="caption-attachment-34478" style="width: 800px" class="wp-caption alignnone"><img decoding="async" class="size-medium wp-image-34478" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2024/11/Imagem-2-1-800x481.jpg" alt="[Texto alternativo: Na foto, há quatro pessoas enumeradas da esquerda para a direita, sendo elas Seu Jorge, Wagner Moura, Bruno Gagliasso e Bella Camero, segurando uma camiseta vermelha de tom vibrante com o rosto de Carlos Marighella. O fundo atrás é de cor azul e é do Festival Internacional de Cinema de Berlim.]" width="800" height="481" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2024/11/Imagem-2-1-800x481.jpg 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2024/11/Imagem-2-1-1024x615.jpg 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2024/11/Imagem-2-1-768x461.jpg 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2024/11/Imagem-2-1-1200x721.jpg 1200w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2024/11/Imagem-2-1.jpg 1265w" sizes="(max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 984px) 61vw, (max-width: 1362px) 45vw, 600px" /><figcaption id="caption-attachment-34478" class="wp-caption-text">Marighella teve sua primeira aparição em terras estrangeiras frente a conflitos com a Ancine em 2019 (Foto: John Macdougall/AFP)</figcaption></figure><span style="font-weight: 400;">Desde a sua idealização, o filme enfrentou </span><a href="https://www.omelete.com.br/especiais/wagner-moura-o-que-aconteceu-com-lancamento-de-marighella-foi-censura/"><span style="font-weight: 400;">grandes dificuldades</span></a><span style="font-weight: 400;"> relacionadas à  propagação de conteúdos falsos, ameaças e falta de apoio financeiro. A carreira consolidada de Wagner Moura no ramo da atuação pouco serviu como fator de convencimento para muitas das grandes e tradicionais produtoras cinematográficas do país, que buscavam não se associar com a figura do guerrilheiro – tido como </span><a href="https://pcb.org.br/portal2/31046"><span style="font-weight: 400;">revolucionário</span></a><span style="font-weight: 400;"> para algumas pessoas e </span><a href="https://www.terra.com.br/noticias/brasil/politica/saiba-quem-foi-carlos-marighella-guerrilheiro-comunista-adepto-do-terror-na-luta-contra-a-ditadura,d2f152d4cf43cc8c3b17372f52f5d20cskntyhar.html"><span style="font-weight: 400;">terrorista</span></a><span style="font-weight: 400;"> para uma parcela muito maior dessas. </span><i><span style="font-weight: 400;">A </span></i><span style="font-weight: 400;">obra</span> <span style="font-weight: 400;">se desenrolou, de fato, sob o selo da produtora independente </span><i><span style="font-weight: 400;">O2 Filmes</span></i><span style="font-weight: 400;"> e foi exibida, pela primeira vez, em Fevereiro de 2019, no </span><a href="https://g1.globo.com/pop-arte/cinema/noticia/2019/02/15/wagner-moura-lanca-marighella-no-festival-de-berlim-e-posa-com-placa-de-marielle-franco.ghtml"><i><span style="font-weight: 400;">69° Festival Internacional de Cinema de Berlim</span></i></a><span style="font-weight: 400;">, embora tenha estreado oficialmente nos cinemas brasileiros apenas em 2021.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Em 2019, o longa tinha sido cancelado pela </span><a href="https://www.politize.com.br/ancine/#"><i><span style="font-weight: 400;">Agência Nacional de Cinema</span></i></a><i><span style="font-weight: 400;"> (Ancine)</span></i><span style="font-weight: 400;"> devido à produtora não ter entregue a documentação sobre os investimentos que custearam o filme dentro do prazo. Ao mesmo tempo, a agência era </span><a href="https://g1.globo.com/politica/noticia/2019/07/19/se-nao-puder-ter-filtro-nos-extinguiremos-a-ancine-diz-bolsonaro.ghtml"><span style="font-weight: 400;">ameaçada de extinção</span></a><span style="font-weight: 400;"> caso o seu catálogo não fosse revisto. Isso foi mais uma adição à </span><a href="https://youtu.be/tnW3ErkJtO0?feature=shared"><span style="font-weight: 400;">lista de dificuldades</span></a><span style="font-weight: 400;"> que quase custaram a estreia de </span><i><span style="font-weight: 400;">Marighella</span></i><span style="font-weight: 400;">.</span></p>
<p><figure id="attachment_34477" aria-describedby="caption-attachment-34477" style="width: 800px" class="wp-caption alignnone"><img decoding="async" class="size-medium wp-image-34477" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2024/11/Imagem-3-1-800x487.jpg" alt="[Texto alternativo: Ao centro da foto, nota-se Carlos Marighella (Seu Jorge) vestindo uma regata branca com uma blusa azul claro de manga por cima. Ele aparenta estar conversando, dada a abertura da boca e a direção dos seus olhos. No fundo, há uma parede de tom esverdeado, devido à iluminação, com alguns objetos encostados nela, como um lampião, dois bastões e um vaso de planta.]" width="800" height="487" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2024/11/Imagem-3-1-800x487.jpg 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2024/11/Imagem-3-1-1024x623.jpg 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2024/11/Imagem-3-1-768x468.jpg 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2024/11/Imagem-3-1-1200x730.jpg 1200w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2024/11/Imagem-3-1.jpg 1237w" sizes="(max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 984px) 61vw, (max-width: 1362px) 45vw, 600px" /><figcaption id="caption-attachment-34477" class="wp-caption-text">Os ideais de Marighella não morrem com ele, mas perseveram na rejeição (Foto: O2 Filmes)</figcaption></figure><span style="font-weight: 400;">Apesar da sua minutagem não comercial, o longa-metragem – distribuído em conjunto pela </span><i><span style="font-weight: 400;">Paris Filmes e Downtown Filmes</span></i><span style="font-weight: 400;"> – ganhou as salas de cinema por todo o Brasil e se consagrou como a </span><a href="https://blogdacidadania.com.br/2021/12/marighella-teve-1-16-do-publico-do-homem-aranha/"><span style="font-weight: 400;">maior bilheteria nacional</span></a><span style="font-weight: 400;"> de 2021. O roteiro, escrito por Wagner Moura em conjunto com o produtor Felipe Braga, trabalha com dois extremos do baiano: a afetuosidade com o filho e o desgosto, visível no olhar, com a figura dos militares. A expressividade do protagonista é, inclusive, um dos pontos de destaque da trama. Os olhos profundos e penetrantes de Seu Jorge se destacam nas cenas em que o ator está presente e conferem camadas de sensibilidade à personagem, cativando o público e instigando a afinidade dele com Marighella.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">A sucessão rápida e violenta das cenas fomenta sensações de ansiedade e tensão no espectador, com o objetivo de transmitir a adrenalina, o amor pelo próprio país e o medo das personagens. As câmeras são rápidas para acompanhar os momentos de embate e fuga dos combatentes, mas também conseguem </span><a href="https://youtu.be/OIxAan_abLw?feature=shared"><span style="font-weight: 400;">captar fielmente a essência</span></a><span style="font-weight: 400;"> de cenas mais paradas de diálogo, com sombreados sempre presentes e que se tornam responsáveis pela carga de seriedade. A narrativa progride com a execução de membros da ALN: primeiro Maria (Ana Paula Bouzas), depois Guilherme (Guilherme Ferraz), Rafael (Rafael Lozano), Humberto (Humberto Carrão), Jorge (Jorge Paz) e Jorge Salles (Herson Capri).</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Era questão de tempo para que as autoridades chegassem até o protagonista e a ambientação, marcada pelo maior contraste das cores e iluminação escurecida, também incita essa agonia. O </span><a href="https://youtu.be/PK8bJq4Qcx0?feature=shared"><span style="font-weight: 400;">trabalho com as câmeras</span></a><span style="font-weight: 400;"> – com direção de Adrian Teijido – e o uso dos diferentes tipos de luz foram essenciais para acompanhar toda a dinamicidade da luta armada no ambiente urbano. Além disso, o trabalho de produção, coordenado por Andrea Barata Ribeiro e Bel Berlinck, contou com muitas cenas gravadas no período da noite, quando a penumbra intensifica as expressões das personagens e as sensações incitadas no público.</span></p>
<p><figure id="attachment_34476" aria-describedby="caption-attachment-34476" style="width: 480px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-full wp-image-34476" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2024/11/Imagem-4.gif" alt="[Texto alternativo: O GIF mostra um recorte do trailer oficial do filme Marighella, em que o guerrilheiro (Seu Jorge) está olhando fixamente para a câmera e se aproxima enquanto ela o grava. Há um fundo amarronzado, borrado e escuro por trás da personagem. Em seguida, os nomes do diretor e do longa são exibidos.]" width="480" height="254" /><figcaption id="caption-attachment-34476" class="wp-caption-text">Os olhos de Seu Jorge interpelam o espectador a não desviar o seu olhar nem por um segundo (GIF: O2 Filmes)</figcaption></figure><span style="font-weight: 400;">A cinebiografia trabalha com a ideia de contrastes que vai sendo retomada sucessivamente ao decorrer do filme, a exemplo da representação do baiano, que levava a frase ‘</span><i><span style="font-weight: 400;">olho por olho</span></i><span style="font-weight: 400;">’ como um mantra para tomar decisões, até a memória dos momentos que a personagem compartilha com Carlinhos, seu único filho. A </span><a href="https://youtu.be/f-Ahp2_1Gcs?feature=shared"><span style="font-weight: 400;">conexão</span></a><span style="font-weight: 400;"> entre pai e filho – mesmo com a distância e a perseguição política – é frequentemente retomada na trama, sendo fundamental para mostrar o </span><a href="https://revistacontinente.com.br/secoes/entrevista/wagner-moura-e-seu-jorge-falam-sobre--marighella-"><span style="font-weight: 400;">lado humano</span></a><span style="font-weight: 400;">, muitas vezes, negado de Carlos Marighella, que se contrapõe à sua representação depreciativa no imaginário coletivo brasileiro.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">O fardo da morte, em</span><i><span style="font-weight: 400;"> Marighella</span></i><span style="font-weight: 400;">, é tratado da forma mais fria possível. O lado amargo da luta armada é retratado a todo momento ao mostrar a </span><a href="https://memoriasdaditadura.org.br/repressao-e-violacao-de-direitos-humanos/"><span style="font-weight: 400;">discrepância</span></a><span style="font-weight: 400;"> entre guerrilheiros e militares, esses que tinham todo o aparato bélico e midiático a seu favor. A ambientação sombria das cenas evidencia a solidão e desumanização dos combatentes que, enquanto questionadores, não eram vistos e nem tratados como brasileiros. A angústia e melancolia tomam conta do enredo e de quem o assiste como uma neblina, dificultando a digestão de cenas mais leves, que se tornam cada vez mais escassas frente às diversas cenas gráficas de violência.</span></p>
<p><figure id="attachment_34475" aria-describedby="caption-attachment-34475" style="width: 800px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-full wp-image-34475" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2024/11/Imagem-5-1.jpg" alt="[Texto alternativo: À direita da fotografia, o ator Seu Jorge, interpretando Carlos Marighella, carrega seu filho nos braços, que os envolvem no pescoço. O adulto está de cabeça baixa, enquanto a criança observa a passagem de militares pelas ruas do Rio de Janeiro.]" width="800" height="450" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2024/11/Imagem-5-1.jpg 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2024/11/Imagem-5-1-768x432.jpg 768w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 984px) 61vw, (max-width: 1362px) 45vw, 600px" /><figcaption id="caption-attachment-34475" class="wp-caption-text">A produção tem grande carga emocional por explorar os lados de um Carlos Marighella guerrilheiro, marido e pai (Foto: O2 Filmes)</figcaption></figure><span style="font-weight: 400;">O lado humano de Marighella é explicitado, principalmente, nas trocas que ele tem com </span><a href="https://www.metro1.com.br/noticias/bahia/147837,tive-a-sorte-de-ser-filho-de-marighella-e-nao-pude-desfrutar-dele-diz-filho-do-guerrilheiro-morto-durante-a-ditadura-militar"><span style="font-weight: 400;">Carlinhos</span></a><span style="font-weight: 400;">, levando-o no peito e no pensamento. Ainda que vivesse como fugitivo, o guerrilheiro fez do amor de seu filho o seu norte, direção que seguiu até o final de sua vida. A narrativa não linear faz um trabalho excepcional ao retratar os acontecimentos com alguns pensamentos e comentários do protagonista, possibilitando a compreensão aprofundada das múltiplas faces de uma das figuras mais polêmicas do Brasil até hoje.</span></p>
<p><i><span style="font-weight: 400;">Marighella</span></i><span style="font-weight: 400;"> passa obrigatoriamente pelo campo de debate político e dialoga com aqueles que têm interesse em conhecer os valores de uma das pessoas mais </span><a href="https://diplomatique.org.br/marighella-entre-o-fato-a-fake-news-e-a-ficcao/"><span style="font-weight: 400;">controversas</span></a><span style="font-weight: 400;"> do país, seja para questioná-la ou admirá-la. Apesar do salto temporal do enredo para os dias atuais, muitas questões permanecem as mesmas, especialmente a distorção dos fatos sobre o revolucionário. A obra conseguiu entregar uma cinebiografia condizente com a história conturbada e mal interpretada de Carlos, permanecendo como uma crítica ácida à sociedade brasileira.</span></p>
<div class="jetpack-video-wrapper"><iframe loading="lazy" title="Marighella | Trailer Oficial" width="840" height="473" src="https://www.youtube.com/embed/fd8oX1u8gRA?feature=oembed" frameborder="0" allow="accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share" referrerpolicy="strict-origin-when-cross-origin" allowfullscreen></iframe></div>
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		<title>Wagner Moura faz de Marighella uma experiência coletiva</title>
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		<pubDate>Tue, 30 Nov 2021 16:36:53 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p>Vitor Evangelista 52 anos se passaram desde que Carlos Marighella foi alvejado por tiros em uma emboscada, dentro de um carro na Alameda Casa Branca, em São Paulo. O momento, marcado para sempre nos livros de História como mais um dos massacres políticos e sociais da Ditadura Militar, agora é transposto às telas da ficção, &#8230; <a href="http://personaunesp.com.br/marighella-critica/" class="more-link">Continue lendo<span class="screen-reader-text"> "Wagner Moura faz de Marighella uma experiência coletiva"</span></a></p>
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										<content:encoded><![CDATA[<figure id="attachment_24928" aria-describedby="caption-attachment-24928" style="width: 1086px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-full wp-image-24928" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/11/um.jpg" alt="Cena do filme Marighella, mostra Seu Jorge, um homem negro e adulto, com o filho no colo, uma criança que usa camisa branca e se abraça ao pescoço do pai. A cena é de dia e ao fundo vemos árvores e carros." width="1086" height="652" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/11/um.jpg 1086w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/11/um-800x480.jpg 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/11/um-1024x615.jpg 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/11/um-768x461.jpg 768w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 1362px) 62vw, 840px" /><figcaption id="caption-attachment-24928" class="wp-caption-text">A coletiva de imprensa de Marighella ocorreu no Cine Marquise, na Avenida Paulista, à duas quadras de distância do local onde o Guerrilheiro foi assassinado em 1969 (Foto: O2 Filmes)</figcaption></figure>
<p><strong>Vitor Evangelista</strong></p>
<p><span style="font-weight: 400;">52 anos se passaram desde que </span><a href="https://www.uol.com.br/splash/noticias/2021/11/04/marighella-historia-quem-foi.htm"><span style="font-weight: 400;">Carlos Marighella</span></a><span style="font-weight: 400;"> foi alvejado por tiros em uma emboscada, dentro de um carro na Alameda Casa Branca, em São Paulo. O momento, marcado para sempre nos livros de História como mais um dos massacres políticos e sociais da Ditadura Militar, agora é transposto às telas da ficção, na dolorosa constatação de que o Brasil de 1969 dialoga com eloquência e pesar com o país de 2021. </span><i><span style="font-weight: 400;">Marighella</span></i><span style="font-weight: 400;">, cinebiografia do </span><a href="https://traduagindo.com/2021/05/08/entrevista-com-carlos-marighella/"><span style="font-weight: 400;">Guerrilheiro que Incendiou o Mundo</span></a><span style="font-weight: 400;">, aposta no Cinema de ação e revolta para, em meio ao banho de sangue e lágrimas, exprimir esperança.</span></p>
<p><span id="more-24927"></span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">A árdua tarefa de transformar a vida e a morte de Carlos Marighella em Arte não é recente. Na verdade, a ideia surgiu em 2013, como revelou o diretor Wagner Moura no evento de pré-estreia que aconteceu em São Paulo, no Cine Marquise da Avenida Paulista, no fim de outubro. Quando entrou em contato com o </span><a href="https://www.youtube.com/watch?v=BsmGBsfrVEU"><span style="font-weight: 400;">livro de Mário Magalhães</span></a><span style="font-weight: 400;">, a decisão de ter alguém de esquerda e baiano no comando da produção pareceu uma combinação mágica para o ator, que sempre teve vontade de assumir o posto da direção, mas achou que o faria com uma obra menor, focada em poucos personagens e em uma história mais simples.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">E simples não é nem de longe sinônimo de </span><i><span style="font-weight: 400;">Marighella</span></i><span style="font-weight: 400;">. A publicação de Magalhães se estende por centenas e centenas de páginas, mas o recorte de Moura foi astuto o bastante para entender o recado. Ele queria, a princípio, devolver ao imaginário popular essa figura que foi amaldiçoada, e, fascinado por histórias de revolta, encontrou nesse filme o veículo ideal para unir o útil ao agradável. É certo que sua escolha inicial para viver o protagonista acabou não indo para frente e, após a saída de Mano Brown, o </span><a href="https://www.youtube.com/watch?v=5Os1zJQALz8"><span style="font-weight: 400;">poeta lutador</span></a><span style="font-weight: 400;"> que não fazia concessões, chegou Seu Jorge.</span></p>
<figure id="attachment_24929" aria-describedby="caption-attachment-24929" style="width: 1280px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-full wp-image-24929" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/11/dois.jpg" alt="Cena do filme Marighella, mostra o protagonista Seu Jorge usando terno e sentado, olhando para a frente com a cara fechada. Ele é um homem adulto, de pele negra e cabelos pretos." width="1280" height="720" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/11/dois.jpg 1280w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/11/dois-800x450.jpg 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/11/dois-1024x576.jpg 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/11/dois-768x432.jpg 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/11/dois-1200x675.jpg 1200w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 1362px) 62vw, 840px" /><figcaption id="caption-attachment-24929" class="wp-caption-text">O filme dilui os posicionamentos comunistas de Carlos Marighella, pintando uma imagem mais forte de patriota e nacionalista do militante (Foto: O2 Filmes)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">Também presente na coletiva, o artista não poupou elogios ao trabalho do diretor e foi muito sincero na hora de colocar em palavras o que atuar em </span><i><span style="font-weight: 400;">Marighella </span></i><span style="font-weight: 400;">significava para sua própria jornada de reconexão com o Brasil, país pelo qual é apaixonado e se encontrava distante. Esse fogo de ardência é sentido em cada uma de suas preciosas e carregadas cenas. Quando banha seu filho Carlinhos no mar, numa construção que brinca com o </span><a href="https://personaunesp.com.br/moonlight-kendrick-lamar/"><span style="font-weight: 400;">batismo de </span><i><span style="font-weight: 400;">Moonlight</span></i></a><span style="font-weight: 400;">, Seu Jorge já anuncia que as próximas duas horas e quarenta serão constituídas de </span><a href="https://www.youtube.com/watch?v=f8tXFV_bkPU"><span style="font-weight: 400;">fortes emoções</span></a><span style="font-weight: 400;">.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">A história se divide em duas. Mesclando momentos em 1964, após a instauração do golpe apoiado pelos EUA, e em 1968, logo depois de Marighella cofundar a Ação Libertadora Nacional (ALN). Dessa forma, a direção de Moura, em conjunto ao roteiro escrito por ele e </span><a href="https://vimeo.com/225578736"><span style="font-weight: 400;">Felipe Braga</span></a><span style="font-weight: 400;">, se priva de perpassar cada momento da criação e amadurecimento do protagonista, dando fôlego e tempo de tela para os dilemas de um Marighella envelhecendo, além de manejar com destreza o desenvolvimento de alguns coadjuvantes. Em 64, Seu Jorge é eufórico e a preocupação de revolta floresce por seus expressivos olhos. A maior qualidade dessa atuação, entretanto, se reserva aos momentos de calmaria, quando o ator abaixa a guarda.</span></p>
<figure id="attachment_24930" aria-describedby="caption-attachment-24930" style="width: 1046px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-full wp-image-24930" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/11/tres.jpg" alt="Cena do filme Marighella, mostra Seu Jorge em foco, de lado, e Humberto Carrão, branco e de barba preta. ao fundo desfocado." width="1046" height="638" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/11/tres.jpg 1046w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/11/tres-800x488.jpg 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/11/tres-1024x625.jpg 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/11/tres-768x468.jpg 768w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 1362px) 62vw, 840px" /><figcaption id="caption-attachment-24930" class="wp-caption-text">Wagner Moura ilumina a figura da Religião e a importância dos freis dominicanos na luta contra a Ditadura Militar, ressaltando a coragem dos homens e a crueldade a que foram submetidos (Foto: O2 Filmes)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">Para viver um </span><a href="https://www1.folha.uol.com.br/ilustrada/2021/10/seu-jorge-diz-que-ataques-a-marighella-sao-racistas-e-pais-nao-sabe-lidar-com-isso.shtml"><span style="font-weight: 400;">homem negro</span></a><span style="font-weight: 400;"> de pele clara, a escalação de Seu Jorge causou um rebuliço na mídia, visto que o ator tem a pele retinta. Na exibição para a imprensa, Wagner Moura detalhou o processo de </span><i><span style="font-weight: 400;">casting</span></i><span style="font-weight: 400;"> e que o objetivo era</span><i><span style="font-weight: 400;"> “empretecer”</span></i><span style="font-weight: 400;"> Marighella, neto de escravos sudaneses e filho de uma mãe nascida no ano da abolição. A </span><a href="https://oglobo.globo.com/cultura/como-homem-negro-de-50-anos-tenho-questoes-diz-seu-jorge-interprete-de-marighella-pixinguinha-no-cinema-25255500"><span style="font-weight: 400;">questão racial</span></a><span style="font-weight: 400;"> era intrínseca à vivência e a luta do baiano, e enquanto a produção enfatiza esse ponto de tensão, ela acaba também diluindo outra de suas características de formação: o </span><a href="https://memoriasdaditadura.org.br/biografias-da-resistencia/carlos-marighella/"><span style="font-weight: 400;">comunismo</span></a><span style="font-weight: 400;">. Por mais que o roteiro deixe de escanteio os ideais do protagonista, quem conhece a História tem noção de sua posição marxista-leninista, e dos objetivos do combate à Ditadura Militar. Além da busca por igualdade e justiça, a ALN enxergava a necessidade da luta armada como caminho para a instalação de um governo popular revolucionário no Brasil. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">No contraste, </span><a href="https://www.omelete.com.br/especiais/entrevista-bruno-gagliasso-marighella/"><span style="font-weight: 400;">Bruno Gagliasso</span></a><span style="font-weight: 400;"> encarna a escória do mundo na figura de Lúcio, policial que vai à caça dos militantes e guerrilheiros. O personagem, embora tenha outro nome, é a representação de </span><a href="https://memoriasdaditadura.org.br/biografias-da-ditadura/delegado-fleury/"><span style="font-weight: 400;">Sérgio Fleury</span></a><span style="font-weight: 400;">, delegado responsável por arquitetar a morte de Marighella. Quando perguntado na coletiva de que maneira deu nuances ao mal absoluto, o global revelou a dificuldade de se preparar para o papel. Pai de crianças negras, ele interpreta um racista e fascista desmedido, raivoso e violento. Gagliasso não opta pelo óbvio quando vocifera cada uma das ofensas cuspidas em tela, ele abraça o lado político da empreitada, contornando sua atuação ao redor da denúncia e do imediatismo do </span><a href="https://economia.uol.com.br/noticias/estadao-conteudo/2021/10/19/bolsonaro-nega-ter-culpa-pela-crise-ache-um-cara-melhor.htm"><span style="font-weight: 400;">Brasil de 2021</span></a><span style="font-weight: 400;">.</span></p>
<figure id="attachment_24931" aria-describedby="caption-attachment-24931" style="width: 2560px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-full wp-image-24931" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/11/quatro.jpeg" alt="Cena noturna do filme Marighella, mostra vários homens com armas apontadas para um mesmo lugar, atirando." width="2560" height="1404" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/11/quatro.jpeg 2560w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/11/quatro-800x439.jpeg 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/11/quatro-1024x562.jpeg 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/11/quatro-768x421.jpeg 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/11/quatro-1536x842.jpeg 1536w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/11/quatro-2048x1123.jpeg 2048w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/11/quatro-1200x658.jpeg 1200w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 1362px) 62vw, 840px" /><figcaption id="caption-attachment-24931" class="wp-caption-text">Embora demore a mostrar em tela as torturas da Ditadura, quando o filme dedica uma longa sequência ao momento, ele não poupa o teor da brutalidade e da violência (Foto: O2 Filmes)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">A </span><a href="https://noticias.uol.com.br/colunas/leonardo-sakamoto/2020/01/14/marighella-nao-e-caso-isolado-cultura-esta-sob-censura-diz-wagner-moura.htm"><span style="font-weight: 400;">censura</span></a><span style="font-weight: 400;"> que atingiu o filme não foi acaso do destino. Como efeito cascata, Wagner Moura insistiu em catalogar esse bolsão de caos político entre os anos 13 e 21, desde as </span><a href="https://revistagalileu.globo.com/Revista/noticia/2018/06/manifestacoes-de-junho-de-2013-completam-cinco-anos-o-que-mudou.html"><span style="font-weight: 400;">Manifestações de Junho</span></a><span style="font-weight: 400;">, o </span><a href="https://personaunesp.com.br/democracia-em-vertigem-critica/"><span style="font-weight: 400;">Golpe de 2016</span></a><span style="font-weight: 400;"> e a eleição de Bolsonaro dois anos mais tarde, até chegar ao hoje, </span><a href="https://brasil.elpais.com/brasil/2021-04-16/inacao-e-desinformacao-do-governo-bolsonaro-agravam-a-pandemia-no-brasil.html"><span style="font-weight: 400;">pandêmico</span></a><span style="font-weight: 400;">, enclausurado, natimorto. Quando subiu ao poder, o presidente não demorou a </span><a href="https://www1.folha.uol.com.br/ilustrada/2019/09/em-ofensiva-contra-ancine-bolsonaro-corta-43-de-fundo-do-audiovisual.shtml"><span style="font-weight: 400;">cortar verbas da Cultura</span></a><span style="font-weight: 400;">, e a Ancine, agência responsável pela retomada e pela frutífera colheita do </span><a href="https://personaunesp.com.br/entrevista-lirio-ferreira/"><span style="font-weight: 400;">Cinema nacional pós-anos 90</span></a><span style="font-weight: 400;">, acabou inerte, dormente, sangrando. </span><i><span style="font-weight: 400;">Marighella </span></i><span style="font-weight: 400;">estreou em 2019, no </span><a href="https://g1.globo.com/pop-arte/cinema/noticia/2019/02/15/wagner-moura-lanca-marighella-no-festival-de-berlim-e-posa-com-placa-de-marielle-franco.ghtml"><span style="font-weight: 400;">Festival de Berlim</span></a><span style="font-weight: 400;">, mas só pôde prestigiar uma exibição na terra que o concebeu dois anos depois.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">A projeção no Cine Marquise foi a segunda coletiva do longa, depois daquela inaugural na </span><a href="https://entretenimento.uol.com.br/noticias/redacao/2019/02/14/marighella-e-aplaudido-pelo-publico-em-1-exibicao-no-festival-de-berlim.htm"><span style="font-weight: 400;">Alemanha</span></a><span style="font-weight: 400;">. A produtora Andrea Barata Ribeiro foi enfática quando detalhou os percalços enfrentados pelo filme, desde pedidos negados pela Ancine (em um momento onde Bolsonaro enfatizava que </span><a href="https://g1.globo.com/politica/noticia/2019/07/19/se-nao-puder-ter-filtro-nos-extinguiremos-a-ancine-diz-bolsonaro.ghtml"><span style="font-weight: 400;">filtraria o que achasse necessário</span></a><span style="font-weight: 400;">) até a dificuldade de entrar em cartaz. Ano passado, a ideia era um lançamento no Dia da Consciência Negra, que acabou não ocorrendo. Esse ano, eles conseguiram chegar em Novembro, mês simbólico para tudo que </span><i><span style="font-weight: 400;">Marighella </span></i><span style="font-weight: 400;">significa. </span></p>
<figure id="attachment_24932" aria-describedby="caption-attachment-24932" style="width: 768px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-full wp-image-24932" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/11/cinco.jpg" alt="Cena do filme Marighella, mostra Adriana Esteves sentada e olhando para a janela. Ela é branca, tem cabelos escuros e é iluminada pela luz do sol que entra pela janela." width="768" height="512" /><figcaption id="caption-attachment-24932" class="wp-caption-text">Adriana Esteves teve o prazer de visitar a dona Clara da vida real e relatou que a presença de Marighella na residência da mulher é gigantesca: “a impressão é que ele vai tocar a campainha” (Foto: O2 Filmes)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">Além de ser uma ficção que coloca lentes dramáticas na jornada dos guerrilheiros, </span><i><span style="font-weight: 400;">Marighella </span></i><span style="font-weight: 400;">precisava funcionar como filme. Por mais que nem todos os acontecimentos tenham de fato acontecido, Wagner Moura enfatiza que eles são plausíveis para aqueles personagens. </span><a href="https://www.youtube.com/watch?v=DCFttf8ZgfY"><span style="font-weight: 400;">Maria Marighella</span></a><span style="font-weight: 400;">, atriz e neta de Carlos, é quem simboliza na carne esse elo forte com a realidade. Ela interpreta sua própria avó Elza, a mãe de seu pai, e faz da pequena presença na rodagem um dos corações pulsantes da obra.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Sua contraparte, e espécie de irmã de alma, é Clara, personagem de </span><a href="https://www.youtube.com/watch?v=i33O69m4Ci0"><span style="font-weight: 400;">Adriana Esteves</span></a><span style="font-weight: 400;">, esposa de Marighella. A atriz, que assistiu ao longa pela primeira vez apenas dois dias antes da exibição na Avenida Paulista, tinha emoção no olhar quando ressaltou o poder do amor de um filme como esse, o poder de empatia e de esperança manufaturado pela visão do diretor. O exemplo mais claro fica perto da conclusão, quando depois de morto, Marighella tem sua foto exibida em uma redação de jornal.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Lá, Carlinhos e sua mãe se chocam com o terror da realidade. Na hora em que Moura parece que cortará para o preto e dará por encerrada a experiência de quase 3 horas, o diretor, então aliado à montagem de Lucas Gonzaga, nos transporta para a residência de Clara. Esteves, aflita e absorta, quase que sentindo o momento sem ao menos ter a confirmação do assassinato, abraça o espectador. Ela sofre, chora, se conecta à personagem de Maria Marighella sem a necessidade de compartilhar o espaço físico. A </span><a href="https://www.youtube.com/watch?v=LQeqMMI1m9M"><span style="font-weight: 400;">força</span></a><span style="font-weight: 400;"> dessa decisão de Moura é sentida em segundo plano, correndo pelas beiradas. </span></p>
<figure id="attachment_24933" aria-describedby="caption-attachment-24933" style="width: 1280px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-full wp-image-24933" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/11/seis.jpg" alt="Cena do filme Marighella, mostra de perfil o ator Bruno Gagliasso urinando na parede. Está de dia e a câmera mostra apenas seu rosto e ombros, mas seus olhos miram o chão. " width="1280" height="720" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/11/seis.jpg 1280w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/11/seis-800x450.jpg 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/11/seis-1024x576.jpg 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/11/seis-768x432.jpg 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/11/seis-1200x675.jpg 1200w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 1362px) 62vw, 840px" /><figcaption id="caption-attachment-24933" class="wp-caption-text">No exercício de entregar o filme para as comunidades da qual Marighella fez parte, o longa teve exibições especiais na companhia da Coalizão Negra Por Direitos, além de uma pré-estreia na Bahia, terra natal do protagonista (Foto: O2 Filmes)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">O contraste de gerações entre Marighella e os companheiros de luta pode parecer desencaixado à princípio, mas é uma deliberação proposital. Com a Arte acostumada a representar seus militantes jovens demais, o filme coloca esse homem de cinquenta anos para liderar uma galera que mal chegou aos trinta. O </span><a href="https://www.marxists.org/portugues/marighella/1969/manual/index.htm"><i><span style="font-weight: 400;">Mini-Manual do Guerrilheiro Urbano</span></i></a><span style="font-weight: 400;"> (1969), como bem relembra Maria Marighella em sua fala sobre a importância da juventude, dá “funções” a cada um dos grupos, dos artistas, aos estudantes e aos cidadãos “comuns”. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Colocar em cena Seu Jorge ao lado de nomes como Humberto Carrão, Bella Camero e Jorge Paz serve para mostrar que essas pessoas tinham vidas, sonhos felizes, trabalhos ordinários e muito a perder. </span><a href="https://oglobo.globo.com/cultura/revista-da-tv/humberto-carrao-nao-sei-jogar-jogo-das-celebridades-nem-quero-1-24209398"><span style="font-weight: 400;">Carrão</span></a><span style="font-weight: 400;">, escondido por uma barba espessa e uma camada de suor que o camufla em cena, vive pela euforia do grito e da rebelião. </span><a href="https://www.youtube.com/watch?v=HRGyhfZCXGU"><span style="font-weight: 400;">Camero</span></a><span style="font-weight: 400;"> tem a sensatez aliada ao fogo da inquietação, e </span><a href="https://www.metropoles.com/entretenimento/cinema/ator-da-periferia-do-df-supera-dificuldades-e-e-destaque-em-marighella"><span style="font-weight: 400;">Paz</span></a><span style="font-weight: 400;">, o coadjuvante mais importante do longa, cultiva o medo do amanhã pela família e a destreza do hoje pela verdade e pela justiça. Quando o filme poda cada uma de suas raízes, o sentimento de amargor é sinônimo de melancolia, mas nunca de derrota.</span></p>
<figure id="attachment_24934" aria-describedby="caption-attachment-24934" style="width: 1200px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-full wp-image-24934" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/11/sete.jpg" alt="Cena do filme Marighella, mostra o ator Humberto Carrão com um jornal na mão e fumando na calçada. Ele é branco, tem barbas e cabelos volumosos e escuros e usa uma camisa estampada marrom com o botão de cima aberto." width="1200" height="667" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/11/sete.jpg 1200w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/11/sete-800x445.jpg 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/11/sete-1024x569.jpg 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/11/sete-768x427.jpg 768w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 1362px) 62vw, 840px" /><figcaption id="caption-attachment-24934" class="wp-caption-text">Embora tenha sido exibido ao mesmo tempo em que rolava a 45ª Mostra de SP, Wagner Moura disse que o filme “foi evitado” pela organização do Festival, que prezava por longas inéditos em sua programação (Foto: O2 Filmes)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">A experiência coletiva que </span><i><span style="font-weight: 400;">Marighella </span></i><span style="font-weight: 400;">aflora mora no debate, na troca de ideias e na propagação do senso de luta. Não cabe apontar o que o filme “adaptou corretamente” a história ou julgar as liberdades tomadas pela Sétima Arte. Tendo como objetivo primário funcionar dentro do gênero da ficção, </span><i><span style="font-weight: 400;">Marighella </span></i><span style="font-weight: 400;">não pinta seu protagonista como herói demais, ou vilão de menos. Seu Jorge dá vida a um </span><a href="https://www.youtube.com/watch?v=fd8oX1u8gRA"><span style="font-weight: 400;">homem repleto de falhas e sonhos</span></a><span style="font-weight: 400;">, que encontrava na agitação e na manifestação a única maneira de pregar seus ideais. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">O </span><a href="https://www.instagram.com/p/CSSlAR6rKGT/"><span style="font-weight: 400;">Cinema no Brasil</span></a><span style="font-weight: 400;">, como em qualquer outro lugar do mundo, vem munido de ideologias e comentários sociais. Mas, se quem assiste acredita que a luta pelos direitos sociais, a igualdade, o antifascismo e o </span><a href="https://www.ecycle.com.br/antirracista/"><span style="font-weight: 400;">antirracismo</span></a><span style="font-weight: 400;"> são “manobras de esquerda” ou “posições radicais de doutrinação”, o problema não está dentro das quase três horas de realização cinematográfica. </span></p>
<figure id="attachment_24935" aria-describedby="caption-attachment-24935" style="width: 768px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-full wp-image-24935" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/11/oito.jpg" alt="Cena do filme Marighella. A foto em preto e branco mostra Seu Jorge em pé e olhando para o lado, usando camisa branca." width="768" height="512" /><figcaption id="caption-attachment-24935" class="wp-caption-text">Recentemente, o <a href="https://istoe.com.br/193279_A+FARSA+NA+MORTE+DE+MARIGHELLA+/">fotógrafo Sérgio Jorge</a> realizou uma encenação da pose real de Marighella assassinado no veículo, mostrando uma versão diferente da veiculada pelos militares (Foto: O2 Filmes)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">Anos depois de dar vida a um </span><a href="https://personaunesp.com.br/cidade-de-deus-tropa-de-elite/"><span style="font-weight: 400;">Capitão Nascimento</span></a><span style="font-weight: 400;"> que se tornou bandeira de uma direita autoritária e violenta e a um </span><a href="https://www.youtube.com/watch?v=LxuIhjvhePA"><span style="font-weight: 400;">Pablo Escobar</span></a><span style="font-weight: 400;"> que caia facilmente na visão norte-americana de gato e rato, hoje Wagner Moura realiza um Cinema de ação com significado e mensagem mais delimitados. Ele não faria um filme deste calibre e com essa pegada se não fosse orgânico ao material base, como ressaltou na coletiva, definindo a obra como um híbrido de gêneros.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Extrapolando o meio-termo entre o surreal e o mundano, o filme ensurdece pelo desenho de som altíssimo e que valoriza cada caixinha da sala de cinema. Mas o absurdo tempo do corte final enfraquece uma obra que poderia chegar ao mesmo lugar (ou até a um patamar elevado) com muitos minutos a menos. Como diretor de primeira viagem, Wagner Moura faz o primordial aqui: </span><a href="https://oglobo.globo.com/cultura/marighella-ja-filme-brasileiro-mais-assistido-em-2021-apos-quatro-dias-nos-cinemas-25265660"><span style="font-weight: 400;">coloca o filme na boca do povo</span></a><span style="font-weight: 400;">, se estica para além do telão branco e se senta ao lado do espectador, plantando dúvidas, opiniões e fomentando o que o Cinema sempre se prestou a fazer, mudar perspectivas e criar sensações. </span></p>
<figure id="attachment_24936" aria-describedby="caption-attachment-24936" style="width: 800px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-full wp-image-24936" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/11/nove.png" alt="Foto da coletiva de imprensa, mostra os atores, produtores e roteiristas posando para a foto, reunidos e todos de máscara" width="800" height="450" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/11/nove.png 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/11/nove-768x432.png 768w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 984px) 61vw, (max-width: 1362px) 45vw, 600px" /><figcaption id="caption-attachment-24936" class="wp-caption-text">A coletiva de Marighella aconteceu dia 29 de outubro, no Cine Marquise da Avenida Paulista, com a presença do elenco, produtora, roteiristas e do diretor do filme (Foto: <a href="https://almapreta.com/sessao/cultura/marighella-estreia-nos-cinemas-um-filme-sobre-esperanca-diz-wagner-moura">Alma Preta</a>)</figcaption></figure>
<p><i><span style="font-weight: 400;">Marighella </span></i><span style="font-weight: 400;">é barulhento, essencialmente violento e tem em sua formação uma mensagem de motim que, sem problemas ou empecilhos, conversa com o Brasil governado por Bolsonaro mas gerido pelo caos. Vai incomodar, </span><a href="https://portalpopline.com.br/imdb-identifica-mutirao-notas-baixas-marighella/"><span style="font-weight: 400;">vai ser incomodado</span></a><span style="font-weight: 400;"> e sinaliza uma marca para o Cinema “popular”, já carregada por produções sem o mesmo alcance ou interesse da audiência. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Para efeito de comparação, no mesmo mês em que </span><i><span style="font-weight: 400;">Marighella </span></i><span style="font-weight: 400;">preencheu suas cerca de trezentas salas, </span><a href="https://www.otempo.com.br/diversao/potente-e-necessario-cabeca-de-nego-estreia-nos-cinemas-nesta-quinta-1.2558528"><i><span style="font-weight: 400;">Cabeça de Nêgo</span></i></a><span style="font-weight: 400;">, filme que também lida com questões raciais em um Brasil ebulindo, mal chegou a compor notas de rodapé. A </span><a href="https://www.omelete.com.br/filmes/marighella-cena-pos-creditos"><span style="font-weight: 400;">cena pós-créditos</span></a><span style="font-weight: 400;">, nascida de um improviso do elenco, é o clímax da paixão dos realizadores. Tomando de solavanco o hino nacional, há muito nos surrupiado, os atores colocam para fora o sentimento de nacionalismo apagado quando o assunto é comunismo, o bicho-papão do século XXI. Os guerrilheiros amavam o Brasil, Carlos Marighella amava o Brasil, </span><a href="https://aventurasnahistoria.uol.com.br/noticias/historia-hoje/wagner-moura-esclarece-cena-pos-credito-de-marighella.phtml"><span style="font-weight: 400;">Wagner Moura ama o Brasil</span></a><span style="font-weight: 400;">. </span></p>
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		<title>5 anos depois, Aquarius supera o reacionarismo e envelhece como vinho</title>
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		<pubDate>Wed, 01 Sep 2021 16:05:20 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p>Gabriela Reimberg É impossível falar de Aquarius sem mencionar o caótico frenesi que atravessava a política brasileira em seu ano de seu lançamento. A narrativa de aversão à esquerda, predominante na mídia, recebeu mal o filme quando, em maio de 2016, no Festival de Cinema mais importante da Europa, o elenco tomou a iniciativa de &#8230; <a href="http://personaunesp.com.br/aquarius-5-anos/" class="more-link">Continue lendo<span class="screen-reader-text"> "5 anos depois, Aquarius supera o reacionarismo e envelhece como vinho"</span></a></p>
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										<content:encoded><![CDATA[<figure id="attachment_22298" aria-describedby="caption-attachment-22298" style="width: 800px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-full wp-image-22298" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/08/f1.png" alt="Foto que compõe o pôster de “Aquarius”. Na imagem, temos Clara, a personagem de Sônia Braga, uma mulher de meia idade com a pele clara, o cabelo preso e usa uma blusa preta e cinza de manga comprida.. Clara está olhando para cima, com a cabeça inclinada para a esquerda. Ao fundo, entre ela, temos dois muros: um que parece ser um jardim vertical, à esquerda, e o outro, de concreto, à direita. A foto foi tirada de dia. " width="800" height="512" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/08/f1.png 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/08/f1-768x492.png 768w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 984px) 61vw, (max-width: 1362px) 45vw, 600px" /><figcaption id="caption-attachment-22298" class="wp-caption-text">Em seu ano de lançamento, o filme protagonizado por Sônia Braga não agradou nada os cidadãos de bem (Foto: Victor Jucá)</figcaption></figure>
<p><b>Gabriela Reimberg</b></p>
<p><span style="font-weight: 400;">É impossível falar de </span><i><span style="font-weight: 400;">Aquarius</span></i><span style="font-weight: 400;"> sem mencionar o caótico frenesi que atravessava a política brasileira em seu ano de seu lançamento. A narrativa de aversão à esquerda, predominante na </span><a href="https://www.brasildefato.com.br/2016/09/02/midia-brasileira-construiu-narrativa-novelizada-do-impeachment"><span style="font-weight: 400;">mídia</span></a><span style="font-weight: 400;">, recebeu mal o filme quando, em maio de 2016, no </span><a href="https://www.festival-cannes.com/en/"><span style="font-weight: 400;">Festival de Cinema</span></a><span style="font-weight: 400;"> mais importante da Europa, o elenco tomou a iniciativa de protestar contra o </span><a href="https://brasil.elpais.com/brasil/2016/08/31/opinion/1472650538_750062.html"><i><span style="font-weight: 400;">impeachment</span></i><span style="font-weight: 400;"> ilegítimo</span></a><span style="font-weight: 400;"> que levou Michel Temer à presidência. </span><i><span style="font-weight: 400;">“Assim que Aquarius estrear no Brasil, o dever das pessoas de bem é boicotá-lo”</span></i><span style="font-weight: 400;">, dizia uma </span><a href="https://veja.abril.com.br/blog/reinaldo/assim-que-aquarius-estrear-no-brasil-o-dever-das-pessoas-de-bem-e-boicota-lo-que-os-esquerdistas-garantam-a-bilheteria/"><span style="font-weight: 400;">matéria</span></a><span style="font-weight: 400;"> da época. Foi no berço desse borbulhante caldeirão de reacionarismo que o segundo longa de Kleber Mendonça Filho veio ao mundo. </span></p>
<p><span id="more-22296"></span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Apesar da recepção hostil em casa, </span><i><span style="font-weight: 400;">Aquarius</span></i><span style="font-weight: 400;"> foi, talvez, um dos filmes brasileiros da última década </span><a href="https://www.adorocinema.com/noticias/filmes/noticia-121893/"><span style="font-weight: 400;">mais consagrados no exterior</span></a><span style="font-weight: 400;">. Com temas que </span><a href="https://www.bbc.com/portuguese/geral-36322435"><span style="font-weight: 400;">transpassam</span></a><span style="font-weight: 400;"> barreiras linguísticas e culturais &#8211; ora de forma pragmática -, como os abusos do capital e a desigualdade social &#8211; ora de forma subjetiva -, como a memória e os laços com o passado, </span><i><span style="font-weight: 400;">Aquarius</span></i><span style="font-weight: 400;"> é sobre angústias que afligem a todos nós.</span></p>
<figure id="attachment_22299" aria-describedby="caption-attachment-22299" style="width: 1800px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-full wp-image-22299" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/08/f2.jpg" alt="Foto do elenco de Aquarius no Festival de Cannes. São dez pessoas, entre homens e mulheres de pele clara que, em fila indiana, sob o tapete vermelho, seguram cartazes em inglês e francês com mensagens de protesto contra o impeachment da ex presidenta Dilma Rousseff. Todos estão usando roupas formais - os homens de terno e as mulheres de vestido. A foto foi tirada de dia. " width="1800" height="1200" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/08/f2.jpg 1800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/08/f2-800x533.jpg 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/08/f2-1024x683.jpg 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/08/f2-768x512.jpg 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/08/f2-1536x1024.jpg 1536w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/08/f2-1200x800.jpg 1200w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 1362px) 62vw, 840px" /><figcaption id="caption-attachment-22299" class="wp-caption-text">Elenco de Aquarius em Cannes segura cartazes em inglês e francês que dizem: “O Brasil não é mais uma democracia”, “Nós vamos resistir”, “Um golpe de estado está acontecendo no Brasil” e “O mundo não pode aceitar este governo ilegítimo” (Foto: Antonio Barros)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">Ambientada em Recife, a trama acompanha a história de Clara, representada pela fascinante </span><a href="http://artecult.com/atuacao-de-sonia-braga-e-destaque-da-revista-rolling-stones/"><span style="font-weight: 400;">Sônia Braga</span></a><span style="font-weight: 400;">, uma jornalista aposentada que se recusa a sair de seu charmoso apartamento na praia de Boa Viagem, no edifício Aquarius, onde passou toda a sua juventude. Sendo a única moradora ali residente, Clara se vê pressionada pelo insistente Diego, interpretado por Humberto Carrão, representante de uma construtora que pretende tombar o prédio para empreender um condomínio de luxo. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">É a clássica relação de vilão-herói. O personagem ambicioso de Diego personifica o </span><a href="https://www.ufjf.br/pa8/files/2015/03/7B1_ESPECULA%C3%87%C3%83O-IMOBILI%C3%81RIA.pdf"><span style="font-weight: 400;">capital especulativo</span></a><span style="font-weight: 400;"> que, no espaço urbano, transforma tudo em concreto. Já Clara é a politizada protagonista que luta até o final para defender seus valores. Apesar do relacionamento conflituoso, entretanto, os dois pertencem à mesma classe abastada de Recife e têm muito mais em comum do que a gente imagina. Enquanto Diego não esconde sua presunção de filho herdeiro, que estudou nos Estados Unidos, Clara parece não querer pertencer a essa casta: mesmo sendo dona de cinco outros imóveis, ela insiste em morar no antigo </span><i><span style="font-weight: 400;">Aquarius</span></i><span style="font-weight: 400;"> e levar uma vida modesta. É a contradição da elite que não se enxerga como tal. </span></p>
<figure id="attachment_22300" aria-describedby="caption-attachment-22300" style="width: 1498px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-full wp-image-22300" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/08/f5.jpeg" alt="Sônia Braga em frente ao edifício Aquarius, cenário do filme que leva o mesmo nome. Ela está de braços abertos, olhando para cima, e usa uma blusa preta de mangas até o cotovelo. Novamente, ela aparece entre os dois muros - o jardim vertical e o de concreto. Atrás, podemos observar a fachada do edifício, azul celeste, com os dizeres “Edf. Aquarius” e “560”. A entrada e a porta têm formatos arredondados. " width="1498" height="1000" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/08/f5.jpeg 1498w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/08/f5-800x534.jpeg 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/08/f5-1024x684.jpeg 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/08/f5-768x513.jpeg 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/08/f5-1200x801.jpeg 1200w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 1362px) 62vw, 840px" /><figcaption id="caption-attachment-22300" class="wp-caption-text">Sônia Braga apareceu na lista das 25 melhores atuações de 2016 pela Rolling Stones (Foto: Victor Jucá)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">Kleber aborda de forma sutil, quase microscópica, essas relações de classe. Em uma reunião com os irmãos, Clara revira os álbuns de fotos da família e encontra um punhado de imagens em que a ex-empregada, Juvenita, aparece ao fundo, como figurante, cuidando das crianças. Ela se lembra perfeitamente de suas habilidades na cozinha, mas não de seu nome. Esse apagamento de identidade também é simbolizado na figura da atual empregada, Ladjane (Zoraide Coleto), uma senhora de idade que mora na periferia de Recife e, ao contrário da protagonista, não teve o privilégio de desfrutar de sua aposentadoria despreocupadamente. Embora o filme pinte a relação entre Ladjane e Clara como amistosa, é possível perceber que existe uma hierarquia de </span><a href="https://www.portalintercom.org.br/anais/nordeste2016/resumos/R52-0022-1.pdf"><span style="font-weight: 400;">patrão e empregado</span></a><span style="font-weight: 400;"> muito bem delimitada entre as duas, causando um quê de desconforto ao telespectador. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">É aqui que o diretor se destaca no Cinema nacional. Ao atribuir falhas tão particulares aos seus personagens, Kleber consegue denunciar as anomalias éticas da sociedade brasileira sem precisar apelar ao panfletário e ao caricato. A personagem de Sônia Braga é o puro suco dessas falhas. Ainda que ela se sobressaia por sua feminilidade e personalidade ímpares, Clara é cheia de defeitos: é chata, arrogante, inconveniente, esnobe e muito &#8211; mas muito &#8211; pedante. Mais do que isso, ela é o retrato fiel de uma </span><a href="https://michaelis.uol.com.br/busca?id=9oaPO"><span style="font-weight: 400;">pequena burguesia</span></a><span style="font-weight: 400;"> metida à besta que luta contra uma forma de opressão &#8211; a especulação imobiliária -, enquanto pratica outra &#8211; a exploração por meio do trabalho doméstico. </span></p>
<figure id="attachment_22301" aria-describedby="caption-attachment-22301" style="width: 1200px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-full wp-image-22301" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/08/f3.jpg" alt="Cena do filme Aquarius. Humberto Carrão, que interpreta Diego - um homem branco com barba e bigode -, está conversando, de frente, com a personagem Clara, interpretada por Sônia Braga - uma mulher de pele clara com cabelos pretos e presos. No meio deles, temos Ladjane, a empregada doméstica de Clara, uma mulher idosa de pele clara, com cabelos grisalhos e óculos. Clara e Diego estão olhando um para o outro, de perfil, enquanto Clara é a única que olha para a câmera, com uma expressão aérea. A cena foi gravada de dia e se passa no estacionamento do edifício Aquarius, com árvores circundando todos os personagens. " width="1200" height="630" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/08/f3.jpg 1200w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/08/f3-800x420.jpg 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/08/f3-1024x538.jpg 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/08/f3-768x403.jpg 768w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 1362px) 62vw, 840px" /><figcaption id="caption-attachment-22301" class="wp-caption-text">Da esquerda para a direita: Diego, Ladjane e Clara (Foto: Cinemascópio)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">Quanto aos conflitos subjetivos, </span><i><span style="font-weight: 400;">Aquarius</span></i><span style="font-weight: 400;"> também acerta em cheio. Para quem assistiu </span><a href="https://www.youtube.com/watch?v=qlheaoLnewE&amp;ab_channel=Ingresso.com"><i><span style="font-weight: 400;">Bacurau</span></i></a><span style="font-weight: 400;"> (2019), o mais recente filme do diretor pernambucano, é notável o vínculo entre as tramas. A personagem de Sônia Braga é a amálgama da cidade de Bacurau: ambos resistem à tentativa de aniquilação de suas histórias. Além disso, o vínculo afetivo do ser humano com o espaço, seja ele urbano ou não, é uma temática presente nas duas obras.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Falando em espaço, é interessante observar como Kleber brinca com a trilha sonora, logo no início do filme. Ao som de </span><a href="https://open.spotify.com/track/14XfK65ySuVy1SHo9Jwi1R?si=2dc22a7d04b74631"><span style="font-weight: 400;">Taiguara</span></a><span style="font-weight: 400;">, somos introduzidos à uma Recife em preto e branco, com um ar saudosista, ainda em processo de urbanização. “</span><i><span style="font-weight: 400;">Trago em meu corpo as marcas do meu tempo</span></i><span style="font-weight: 400;">”, diz a música. É como se a cidade estivesse falando com a gente. E, de fato, a cidade é personagem em </span><i><span style="font-weight: 400;">Aquarius</span></i><span style="font-weight: 400;">: ela representa a troca do velho pelo novo. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Já o apartamento de Clara é um ponto fora da curva. Entre discos de vinil, livros e álbuns de fotos, onde a saudade e a melancolia se emaranham docemente, o apartamento é um museu de memórias imateriais e materiais. Em um mundo cada vez mais permeado pela </span><a href="http://www.estrategiaemfoco.com.br/a-era-do-efemero-ou-da-modernidade-liquida/"><span style="font-weight: 400;">cultura do efêmero</span></a><span style="font-weight: 400;">, onde o consumo excessivo e a </span><a href="https://www.youtube.com/watch?v=dxbD0pUzjP0"><span style="font-weight: 400;">obsolescência programada</span></a><span style="font-weight: 400;"> reinam, </span><i><span style="font-weight: 400;">Aquarius</span></i><span style="font-weight: 400;"> busca mostrar que o espaço, e os objetos, têm um valor sentimental uno &#8211; quase sacro. </span></p>
<figure id="attachment_22302" aria-describedby="caption-attachment-22302" style="width: 1120px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-full wp-image-22302" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/08/f4.jpg" alt="Cena do filme Aquarius. Clara, personagem de Sônia Braga, está sentada com as pernas cruzadas no sofá de sua sala, escrevendo em um caderno que apoia sob o colo. Dessa vez, Clara está com os cabelos soltos e usa um vestido verde. Atrás dela, temos uma estante de livros e uma mesa de canto, com um abajur ligado. Existem outros objetos ao fundo, mas estão desfocados. A cena provavelmente foi gravada à noite. A única luz que existe é a que vem do abajur, dando um ar aconchegante à sala. " width="1120" height="685" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/08/f4.jpg 1120w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/08/f4-800x489.jpg 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/08/f4-1024x626.jpg 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/08/f4-768x470.jpg 768w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 1362px) 62vw, 840px" /><figcaption id="caption-attachment-22302" class="wp-caption-text">“Quando você gosta, é vintage. Quando você não gosta, é velho”  (Foto: Cinemascópio)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">Mas, calma! Embora o longa aborde temas tão universais e inerentes ao ser humano, não é todo mundo que consegue digeri-lo bem. As duas horas e meia de duração, com uma fotografia pouco dinâmica, </span><a href="https://www.youtube.com/watch?v=2TIX2Ycc_Vc"><span style="font-weight: 400;">diálogos arrastados</span></a><span style="font-weight: 400;"> e cenas de silêncio absoluto, </span><i><span style="font-weight: 400;">Aquarius</span></i><span style="font-weight: 400;">, para algumas pessoas, pode acabar virando aquele filme que a gente deixa rolando em segundo plano enquanto tira uma sonequinha no sofá. É preciso ter sensibilidade e capacidade de mergulhar nas emoções e nas sensações que a obra provoca. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">No fim, a única conclusão certeira é que temos aqui uma saborosa história de superação. Cinco anos depois, é possível assistir ao filme e tirar as mesmas lições que qualquer outra pessoa em 2016 poderia ter feito: a especulação imobiliária é predatória, os </span><a href="https://screenanarchy.com/2016/10/new-york-2016-review-aquarius-explores-indescreet-charm-of-brazilian-bourgeoisie.html"><span style="font-weight: 400;">ricos são hipócritas</span></a><span style="font-weight: 400;">, as rugas são virtudes e a cidade é um espaço de trocas fraternas. Agora, mais importante que isso, é saber que, mesmo depois de tanta demagogia e reacionarismo, para o desgosto do cidadão de bem, </span><i><span style="font-weight: 400;">Aquarius</span></i><span style="font-weight: 400;"> conseguiu se consolidar como um clássico contemporâneo do Cinema brasileiro. Não é que o tempo realmente cura tudo? </span></p>
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		<title>Amor de Mãe e a ruptura da teledramaturgia brasileira</title>
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		<pubDate>Sun, 11 Apr 2021 20:06:55 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p>Vitória Silva O meio cultural está em constante mutação. Com o passar dos anos, fomos alterando e desenvolvendo as nossas formas de consumir conteúdo, seja pelo meio impresso, radiofônico ou televisivo. Assim como os meios mudam, o seu público também muda. Temas que no século passado eram tratados com normalidade não são mais cabíveis nos &#8230; <a href="http://personaunesp.com.br/amor-de-mae-critica/" class="more-link">Continue lendo<span class="screen-reader-text"> "Amor de Mãe e a ruptura da teledramaturgia brasileira"</span></a></p>
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										<content:encoded><![CDATA[<figure id="attachment_19843" aria-describedby="caption-attachment-19843" style="width: 1200px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="wp-image-19843 size-full" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/04/imagem-1.jpg" alt="Cena da novela Amor de Mãe. Nela, vemos a família de dona Lurdes reunida no sofá da casa, sorrindo para a foto. À esquerda e atrás de todos, está Ryan, de cabelo descolorido e regata cinza. Abaixo dele, da esquerda à direita, vemos Camila, mulher negra vestindo roupa vermelha; Danilo, homem branco, de cabelos castanhos e camiseta cinza. Dona Lurdes está ao centro, sorrindo, de óculos com acessório que impede de cair, e cabelos pretos. Ao lado dela, estão Érica e Magno. " width="1200" height="675" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/04/imagem-1.jpg 1200w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/04/imagem-1-300x169.jpg 300w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/04/imagem-1-1024x576.jpg 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/04/imagem-1-768x432.jpg 768w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 1362px) 62vw, 840px" /><figcaption id="caption-attachment-19843" class="wp-caption-text">A produção de Manuela Dias chegou ao fim, mas deixa marcas eternas na televisão (Foto: Globo)</figcaption></figure>
<p><strong>Vitória Silva</strong></p>
<p><span style="font-weight: 400;">O meio cultural está em constante mutação. Com o passar dos anos, fomos alterando e desenvolvendo as nossas formas de consumir conteúdo, seja pelo meio impresso, radiofônico ou televisivo. Assim como os meios mudam, o seu público também muda. Temas que no século passado eram tratados com normalidade não são mais cabíveis nos dias atuais. Dessa forma, os produtos culturais foram recebendo novas vestimentas. Hoje, já sabemos que nem toda narrativa precisa ter uma </span><a href="https://personaunesp.com.br/fleabag-2a-temp-critica/"><span style="font-weight: 400;">mocinha que vai atrás do seu par romântico</span></a><span style="font-weight: 400;">, assim como estereotipar personagens homossexuais não é (e nunca deveria ter sido) motivo de piada.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Essa revolução iria se estender, é claro, para o mundo das novelas. Uma das principais formas de entretenimento do público brasileiro, </span><a href="https://agenciabrasil.ebc.com.br/economia/noticia/2018-02/uso-de-celular-e-acesso-internet-sao-tendencias-crescentes-no-brasil"><span style="font-weight: 400;">grande adepto do sofá</span></a><span style="font-weight: 400;">. Com a ascensão dos </span><i><span style="font-weight: 400;">streamings </span></i><span style="font-weight: 400;">e a concorrência cada vez maior de seriados, a teledramaturgia precisou se modificar. Assistir histórias com desfechos sem pé nem cabeça já havia se tornado algo rotineiro, “coisa de novela”, como se o gênero tivesse que ser sinônimo de algo mal feito. Não dava para sustentar um público cada vez mais em busca de abordagens sérias e profundas com os mesmos temas batidos de sempre. </span></p>
<p><span id="more-19834"></span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">E o meio novelesco sentiu essa necessidade de mudança. Temáticas relevantes passaram a ser cada vez mais trabalhadas no horário nobre, e algumas até provocaram discussões que se elevaram para o ambiente social, como o </span><a href="https://oglobo.globo.com/cultura/revista-da-tv/o-outro-lado-do-paraiso-traz-machismo-assedio-ao-horario-nobre-21977955"><span style="font-weight: 400;">machismo</span></a><span style="font-weight: 400;"> abordado em </span><i><span style="font-weight: 400;">O Outro Lado do Paraíso</span></i><span style="font-weight: 400;"> e a questão da </span><a href="https://www.uol.com.br/universa/noticias/redacao/2020/10/02/a-forca-do-querer-pessoas-trans-contam-como-novela-impactou-suas-vidas.htm"><span style="font-weight: 400;">transição de gênero</span></a><span style="font-weight: 400;"> em </span><i><span style="font-weight: 400;">A Força do Querer</span></i><span style="font-weight: 400;">. Recentemente, a reprise</span> <span style="font-weight: 400;">de </span><i><span style="font-weight: 400;">Fina Estampa</span></i><span style="font-weight: 400;"> na </span><i><span style="font-weight: 400;">Globo </span></i><span style="font-weight: 400;">até causou </span><a href="https://emais.estadao.com.br/noticias/tv,fina-estampa-atores-criticaram-o-proprio-trabalho-apos-reprise,70003443642"><span style="font-weight: 400;">certo espanto e repulsa</span></a><span style="font-weight: 400;">, por uma abordagem já retrógrada e que se pautava apenas em um arco de vingança de uma personagem histérica e sem motivações. </span></p>
<figure id="attachment_19835" aria-describedby="caption-attachment-19835" style="width: 1280px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="wp-image-19835 size-full" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/04/imagem2-2.jpg" alt="Foto de divulgação da novela Amor de Mãe. Nela, vemos as três protagonistas da novela paradas na rua, olhando com cara séria para a câmera. À esquerda, vemos Thelma, interpretada por Adriana Esteves. Ela é branca, de pele clara e cabelos escuros na altura dos ombros, veste camisa xadrez vermelha e calça jeans. Ao meio está Lourdes, papel de Regina Casé, mulher nordestina, de pele clara, cabelos pretos e óculos de grau com armação marrom claro. Ela usa um vestido amarelo e leva uma bolsa preta a tiracolo. À direita está Vitória, vivida por Tais Araújo, uma mulher negra, de cabelo preso num coque e terninho bege, usando camiseta preta de gola alta. Está de dia e podemos ver carros desfocados estacionados ao fundo." width="1280" height="854" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/04/imagem2-2.jpg 1280w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/04/imagem2-2-300x200.jpg 300w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/04/imagem2-2-1024x683.jpg 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/04/imagem2-2-768x512.jpg 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/04/imagem2-2-1200x801.jpg 1200w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 1362px) 62vw, 840px" /><figcaption id="caption-attachment-19835" class="wp-caption-text">Amor de Mãe marcou o nascimento dos<a href="https://g1.globo.com/rj/rio-de-janeiro/noticia/2019/08/08/conheca-o-mg4-conjunto-de-3-novos-estudios-da-globo.ghtml"> estúdios MG4</a>, o maior complexo de produção de conteúdo da América Latina (Foto: Globo)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">Um dos lançamentos mais recentes da emissora veio para romper de vez com padrões novelescos até então impostos. Escrita e criada por Manuela Dias, </span><i><span style="font-weight: 400;">Amor de Mãe</span></i><span style="font-weight: 400;"> já nasceu com altas expectativas. A autora foi a mesma que deu vida para a minissérie </span><i><span style="font-weight: 400;">Ligações Perigosas</span></i><span style="font-weight: 400;"> e a grandiosa </span><i><span style="font-weight: 400;">Justiça</span></i><span style="font-weight: 400;">, que foi </span><a href="https://www.omelete.com.br/series-tv/justica-ganha-duas-nomeacoes-ao-emmy-internacional-confira-lista-de-indicados"><span style="font-weight: 400;">indicada ao </span><i><span style="font-weight: 400;">Emmy </span></i><span style="font-weight: 400;">Internacional</span></a><span style="font-weight: 400;">. Manuela fez escola em como trabalhar narrativas realistas e com críticas sociais como pano de fundo, conseguindo entrelaça-las da maneira mais natural possível. Seu novo desafio era fazer o mesmo em um dos produtos principais da televisão: a novela das nove. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Para isso, Dias decidiu contar sua história a partir de uma das figuras centrais da vida de qualquer brasileiro. </span><i><span style="font-weight: 400;">Amor de Mãe</span></i><span style="font-weight: 400;"> envolve a narrativa de três matriarcas, de diferentes personalidades e classes sociais: Lurdes (Regina Casé), Vitória (Tais Araújo) e Thelma (Adriana Esteves). A carismática dona Lurdes é o grande laço que conecta todas elas. Mãe de cinco filhos e natural da cidade fictícia de Malaquitas, do Rio Grande do Norte, a empregada doméstica tem como motivação principal encontrar o filho do meio, Domênico, que foi vendido por seu ex-marido quando ainda era criança.</span></p>
<figure id="attachment_19836" aria-describedby="caption-attachment-19836" style="width: 1600px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="wp-image-19836 size-full" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/04/imagem3-2.jpg" alt="Cena da novela Amor de Mãe. Nela, vemos Vitória e Paulo dentro de um carro. Ela é vivida por Tais Araújo, uma mulher negra que está no banco do passageiro, usando roupa amarela e tem o cabelo solto. Ele é vivido por Fabrício Boliveira, está no banco do motorista, desfocado, tem a pele negra, barba escura e usa óculos com armação transparente. " width="1600" height="1020" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/04/imagem3-2.jpg 1600w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/04/imagem3-2-300x191.jpg 300w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/04/imagem3-2-1024x653.jpg 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/04/imagem3-2-768x490.jpg 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/04/imagem3-2-1536x979.jpg 1536w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/04/imagem3-2-1200x765.jpg 1200w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 1362px) 62vw, 840px" /><figcaption id="caption-attachment-19836" class="wp-caption-text">A primeira fase da novela contou com muitas participações especiais, entre elas, Fabrício Boliveira, Vera Holtz e Júlio Andrade (Foto: Globo)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">A novela se inicia com ela contando sua história para a advogada Vitória Amorim, para quem iria trabalhar como babá logo depois. Ao contrário de Lurdes, a personagem de Tais Araújo ainda tinha o anseio de se tornar mãe, mas, além das dificuldades em engravidar, também havia perdido o seu primeiro bebê. Então, ela adota o menino Tiago (Pedro Guilherme Rodrigues), que chega para mudar suas percepções sobre a vida e seu olhar duro e frio sobre algumas questões.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Nesse início, Lurdes também conhece Thelma, que, logo no primeiro encontro, descobre que tem um </span><a href="https://drauziovarella.uol.com.br/doencas-e-sintomas/aneurisma-cerebral/#:~:text=Aneurisma%20cerebral%20%C3%A9%20uma%20dilata%C3%A7%C3%A3o,de%20uma%20art%C3%A9ria%20do%20c%C3%A9rebro."><span style="font-weight: 400;">aneurisma cerebral</span></a><span style="font-weight: 400;">. Dona de um restaurante português no Bairro do Passeio, ela é mãe do jovem Danilo (Chay Suede). E nutre uma paixão completamente obsessiva e manipuladora em relação ao filho, que evidencia um forte sentimento de superproteção, especialmente pelo fato dele ter sobrevivido a um incêndio em sua casa quando ainda era criança, que tirou a vida de seu marido.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Com os três arcos principais construídos, as narrativas passam a se encontrar nos mais diversos aspectos. A questão ambiental é uma das temáticas centrais de <em>Amor de Mãe</em>, com as constantes tentativas de grupos ativistas em derrubarem Álvaro da Nóbrega (Irandhir Santos), dono da empresa de plástico PWA. Colocar um empresário corrupto e autor de diversos crimes ambientais como vilão principal é transpor para a tela a realidade que observamos </span><a href="https://g1.globo.com/politica/noticia/2020/05/22/ministro-do-meio-ambiente-defende-passar-a-boiada-e-mudar-regramento-e-simplificar-normas.ghtml"><span style="font-weight: 400;">todos os dias no noticiário</span></a><span style="font-weight: 400;">. Entre suas ações ilícitas, o magnata é responsável por despejar dejetos de sua indústria na Baía de Guanabara. E tem como seu maior rival o ambientalista Davi Moretti (Vladimir Brichta), que mais tarde se relacionaria com Vitória. </span></p>
<figure id="attachment_19837" aria-describedby="caption-attachment-19837" style="width: 1981px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="wp-image-19837 size-full" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/04/imagem4-3.jpg" alt="Cena da novela Amor de Mãe. Nela, vemos Magno, Lurdes, Sandro e Katia. Os personagens estão na prisão, em uma visita para Sandro. Da esquerda para a direita: Magno é vivido por Juliano Cazarré, um homem branco e forte, usando camisa preta. Lurdes, papel de Regina Casé, é uma mulher nordestina, de pele clara, cabelos pretos e óculos de grau com armação marrom claro. Ela usa um vestido amarelo e abraça Sandro, papel de Humberto Carrão, um homem branco, jovem, de cabelos rentes à cabeça e que veste uma camiseta clara. Katia é a personagem interpretada por Vera Holtz, uma mulher branca, de cabelos grisalhos e roupa preta. Ela é a única sentada na cena e segura a mão de Sandro." width="1981" height="1114" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/04/imagem4-3.jpg 1981w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/04/imagem4-3-300x169.jpg 300w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/04/imagem4-3-1024x576.jpg 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/04/imagem4-3-768x432.jpg 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/04/imagem4-3-1536x864.jpg 1536w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/04/imagem4-3-1200x675.jpg 1200w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 1362px) 62vw, 840px" /><figcaption id="caption-attachment-19837" class="wp-caption-text">Um easter egg interessante da novela é que o personagem Sandro, interpretado por Humberto Carrão, vez ou outra <a href="https://gshow.globo.com/novelas/amor-de-mae/noticia/amor-de-mae-faz-homenagem-a-avenida-brasil-e-web-comemora.ghtml">aparecia com a camiseta do Divino F. C.</a>, clube de futebol da novela Avenida Brasil que tinha o personagem de Murilo Benício como jogador (Foto: Globo)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">Em meio a essa sinuca de bico, a advogada passa a enfrentar um dilema ético e moral, e a maternidade se mostra como a grande potência transformadora em sua vida. Se antes ela pautava suas atitudes apenas em formas de se favorecer e crescer profissionalmente, agora ela busca aquilo que possa servir de bom exemplo e motivo de orgulho para seus filhos. Com isso, decide romper o contrato com Álvaro, mesmo que custe perder todos os luxos e regalias da vida que costumava ter. Habituados com histórias de mulheres pobres que surpreendentemente </span><a href="https://tvefamosos.uol.com.br/listas/finas-mas-nem-tanto-escandalosas-das-novelas-que-lembram-maria-da-paz.htm"><span style="font-weight: 400;">conseguem enriquecer</span></a><span style="font-weight: 400;">, passamos a assistir uma narrativa oposta. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">A </span><a href="https://epoca.globo.com/ideias/noticia/2015/01/bo-ensino-publico-no-brasilb-ruim-desigual-e-estagnado.html"><span style="font-weight: 400;">precariedade do sistema educacional brasileiro</span></a><span style="font-weight: 400;"> também é uma das temáticas sociais incorporadas na trama. A partir das vivências de Camila (Jéssica Ellen), filha caçula de Lurdes, como professora de História do colégio público Luis Gama, são tratadas questões como a falta de investimento e apoio governamental. A personagem ainda protagoniza discursos com reflexões essenciais em suas aulas, e inicia a ocupação do colégio com seus alunos, um </span><a href="https://www.politize.com.br/ocupacoes-de-escolas-entenda/"><span style="font-weight: 400;">símbolo do movimento estudantil</span></a><span style="font-weight: 400;">.</span></p>
<figure id="attachment_19838" aria-describedby="caption-attachment-19838" style="width: 1280px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="wp-image-19838 size-full" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/04/imagem5-1.jpg" alt="Cena da novela Amor de Mãe. Nela, vemos Lurdes e Camila na formatura da jovem. Camila, uma jovem negra, está de beca azul marinho e abraça sua mãe Lurdes, que segura o canudo de formatura da filha com felicidade. Ao redor delas, vemos uma porção de formandos com sorrisos nos rostos." width="1280" height="853" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/04/imagem5-1.jpg 1280w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/04/imagem5-1-300x200.jpg 300w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/04/imagem5-1-1024x682.jpg 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/04/imagem5-1-768x512.jpg 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/04/imagem5-1-1200x800.jpg 1200w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 1362px) 62vw, 840px" /><figcaption id="caption-attachment-19838" class="wp-caption-text">As temáticas tratadas em Amor de Mãe se cruzam com a realidade em diversos momentos; questões raciais são trazidas à tona pelas personagens de Jéssica Ellen e Tais Araújo (Foto: Globo)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">Assim como toda novela costuma se adaptar aos acontecimentos do cotidiano, </span><i><span style="font-weight: 400;">Amor de Mãe</span></i><span style="font-weight: 400;"> teve que se moldar para um cenário inesperado. Com a pandemia de covid-19, as </span><a href="https://kogut.oglobo.globo.com/noticias-da-tv/noticia/2020/03/globo-cancela-gravacoes-de-amor-de-mae-por-causa-de-pandemia-de-coronavirus.html"><span style="font-weight: 400;">gravações foram interrompidas</span></a><span style="font-weight: 400;">, e retornaram apenas no segundo semestre de 2020. Diante desse novo contexto, Manuela Dias repensou o roteiro da segunda fase de sua produção, trazendo a crise sanitária para o universo de seus personagens, algo já adotado por </span><a href="https://personaunesp.com.br/sob-pressao-plantao-covid-critica/"><span style="font-weight: 400;">outras produções da </span><i><span style="font-weight: 400;">Globo</span></i></a><span style="font-weight: 400;">. Além de ser importante tratar sobre o assunto no meio midiático, foi uma ótima maneira de adotar protocolos de distanciamento nas cenas de forma natural.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Aproveitando o seu núcleo de profissionais da saúde, a obra ainda conseguiu retratar a rotina difícil daqueles que trabalham dentro dos hospitais. No entanto, com um vírus que tem um comportamento incerto tanto para a ciência quanto para a sociedade, </span><a href="https://tvefamosos.uol.com.br/noticias/redacao/2021/03/29/especialistas-analisam-erros-em-amor-de-mae-em-cenas-sobre-covid.htm"><span style="font-weight: 400;">a novela não foi isenta de erros</span></a><span style="font-weight: 400;">. Desde a adoção de protocolos incorretos, até beijos em acrílico e o desuso de máscaras em momentos oportunos. Ainda é uma realidade arriscada de ser retratada rigidamente na ficção, mas talvez a falta de alguns cuidados também tenha sido um bom exemplo para demonstrar o </span><a href="https://www.nexojornal.com.br/expresso/2021/01/08/A-atitude-do-Brasil-diante-de-200-mil-mortes-pela-covid-19"><span style="font-weight: 400;">descaso da população brasileira</span></a><span style="font-weight: 400;"> diante desse cenário tão agravante.</span></p>
<figure id="attachment_19839" aria-describedby="caption-attachment-19839" style="width: 1086px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="wp-image-19839 size-full" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/04/imagem6-1.jpg" alt="Cena da novela Amor de Mãe. Nela, vemos Érica, papel de Nanda Costa, lavando máscaras. Ela está no fundo da imagem, enquanto em primeiro planos vemos 3 máscaras desfocadas, secando num varal. Érica é branca, tem cabelos curtos acima dos ombros e veste um camisetão branco com estampa, além de usar uma máscara branca. Ao lado dela, vemos uma bacia vermelha. " width="1086" height="652" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/04/imagem6-1.jpg 1086w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/04/imagem6-1-300x180.jpg 300w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/04/imagem6-1-1024x615.jpg 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/04/imagem6-1-768x461.jpg 768w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 1362px) 62vw, 840px" /><figcaption id="caption-attachment-19839" class="wp-caption-text">Manuela ainda conseguiu incluir alguns novos hábitos criados pela pandemia, como a cultura ascendente das lives e chamadas de vídeo; é impossível não se identificar com dona Lurdes reclamando enquanto higieniza as compras do mercado (Foto: Globo)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">Em meio a todo esse contexto pandêmico, a segunda fase da trama deu continuidade para a narrativa de Lurdes em busca de Domênico, que descobre a verdadeira identidade do menino e passa a, involuntariamente, ter Thelma como sua principal inimiga. A obsessão em fazer de tudo para não perder seu filho atinge níveis cada vez mais </span><a href="https://tvefamosos.uol.com.br/noticias/redacao/2021/02/24/adriana-esteves-sobre-thelma-carminha-deve-ter-ficado-assustada.htm"><span style="font-weight: 400;">doentios e criminosos</span></a><span style="font-weight: 400;">, com a entrega de cenas que só Adriana Esteves seria capaz de realizar. Em conjunto, Danilo volta a questionar a identidade de sua mãe biológica, indicando para um caminho que mais tarde vai se cruzar. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Nesse desenrolar, os demais núcleos da novela pareceram apenas agir para sustentar a narrativa principal. Enquanto alguns ficaram patinando sob a mesma história, outros personagens tiveram </span><a href="https://observatoriodatv.uol.com.br/noticias/morte-besta-de-lucas-em-amor-de-mae-gera-insatisfacao-do-publico-cena-patetica"><span style="font-weight: 400;">destinos previsíveis e de fácil solução</span></a><span style="font-weight: 400;">. Com um arco já quase resolvido na primeira fase, Vitória se envolve em tramas que não vem a acrescentar nada diretamente, como o retorno inesperado de sua mãe, interpretada pela atriz Eliane Giardini. Por outro lado, Penha (Clarissa Pinheiro) e Leila (Arieta Côrrea), que no início eram figuras pouco significativas, têm a melhor evolução como personagens, além de ganharem um </span><a href="https://gshow.globo.com/podcast/novela-das-9/noticia/penha-e-leila-terminam-juntas-em-amor-de-mae-e-clarissa-pinheiro-diz-super-a-favor-dessa-uniao.ghtml"><span style="font-weight: 400;">arco de redenção essencial</span></a><span style="font-weight: 400;"> ao encerramento da trama.</span></p>
<figure id="attachment_19840" aria-describedby="caption-attachment-19840" style="width: 1600px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="wp-image-19840 size-full" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/04/imagem7.jpg" alt="Cena da novela Amor de Mãe. Nela vemos a personagem Jane, interpreta por Isabel Teixeira. Ela é uma mulher branca de cabelos cacheados e grisalhos, e olhos claros. Jane usa óculos de grau e veste uma blusa de manga comprida com listras verdes, azuis, brancas e amarelas. Ela está com a mão esquerda segurando o lado esquerdo do óculos." width="1600" height="954" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/04/imagem7.jpg 1600w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/04/imagem7-300x179.jpg 300w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/04/imagem7-1024x611.jpg 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/04/imagem7-768x458.jpg 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/04/imagem7-1536x916.jpg 1536w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/04/imagem7-1200x716.jpg 1200w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 1362px) 62vw, 840px" /><figcaption id="caption-attachment-19840" class="wp-caption-text">Um ponto alto da produção foi trazer rostos incomuns para a telinha, além das brilhantes Arieta e Clarissa, conhecemos Isabel Teixeira, que interpretou Jane, em seu papel de estreia no mundo das novelas, apesar de já acumular anos de carreira nos palcos (Foto: Globo)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">A reta final de</span><i><span style="font-weight: 400;"> Amor de Mãe</span></i><span style="font-weight: 400;"> ainda contou com uma sucessão de acontecimentos trágicos, e bem difíceis de serem digeridos em meio a </span><a href="https://www.cnnbrasil.com.br/saude/2021/04/08/brasil-bate-recorde-e-registra-4249-mortes-por-covid-19-em-24h"><span style="font-weight: 400;">triste realidade</span></a><span style="font-weight: 400;"> que nos assola. Talvez a brusca redução de capítulos tenha condensado todas as catástrofes de uma vez só, e o surgimento de um equilíbrio foi imprescindível. Assim, emergiram alívios cômicos como a princesa unicórnio, protagonizada por Durval &#8211; o que com certeza não é uma reclamação, pois Enrique Díaz é genial em tudo que se propõe -, e a investida cada vez maior na construção de pares românticos, um clichê do qual não foi possível se isentar.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Além da troca frequente de casais, outros acabaram surgindo inesperadamente, e em muitos momentos se tornaram a única motivação dos personagens. Érica (Nanda Costa) acaba se apaixonando por Davi, acompanhando a recuperação do mesmo após sofrer um atentado a mando de Álvaro. No mesmo passo que Lídia (Malu Galli) e Magno (Juliano Cazarré) se encontram e se unem para conseguirem curar a doença da filha Brenda (Clara Galinari). Enquanto Ryan (Thiago Martins) reata com a tenista Marina (Erika Januza), e protagonizam um enredo raso e banal sobre a </span><a href="https://www.bbc.com/portuguese/geral-53537542"><span style="font-weight: 400;">cultura do cancelamento</span></a><span style="font-weight: 400;">.  </span></p>
<figure id="attachment_19841" aria-describedby="caption-attachment-19841" style="width: 1500px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="wp-image-19841 size-full" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/04/imagem8.jpg" alt="Cena da novela Amor de Mãe. Nela vemos os personagens Lurdes, interpretada por Regina Casé, e Danilo, interpretado por Chay Suede, se abraçando em frente a um matagal na estrada. Lurdes é uma mulher branca, de cabelos escuros e compridos; ela veste uma blusa marrom de mangas compridas e usa óculos de grau. Danilo é um homem branco, de cabelos castanhos claros e cacheados; ele veste uma camiseta branca." width="1500" height="994" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/04/imagem8.jpg 1500w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/04/imagem8-300x199.jpg 300w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/04/imagem8-1024x679.jpg 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/04/imagem8-768x509.jpg 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/04/imagem8-1200x795.jpg 1200w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 1362px) 62vw, 840px" /><figcaption id="caption-attachment-19841" class="wp-caption-text">O encontro entre mãe e filho foi a última cena gravada da novela, e Regina Casé e Chay Suede ficaram dias sem se ver para conseguirem entregar toda a tensão necessária  (Foto: Globo)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">O encontro mais aguardado da televisão nos últimos tempos demorou, demorou muito, mas finalmente aconteceu. Após sucessivas, e até arrastadas, tentativas de fugir da prisão criada por Thelma, Lurdes conseguiu encontrar seu filho Domênico. Uma cena que não precisa ser poupada de elogios, não somente pela </span><a href="https://www.youtube.com/watch?v=m-UHo5VG9WQ"><span style="font-weight: 400;">entrega da atuação</span></a><span style="font-weight: 400;"> de Regina Casé e Chay Suede, mas por todo simbolismo que ela carrega. É o marco e representatividade da força materna. Uma verdadeira homenagem a todas as mães.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">E se por um lado comemoramos a morte do cruel Álvaro da Nóbrega, encerrando de vez seu duelo com Raul (Murilo Benício), </span><a href="https://gshow.globo.com/novelas/amor-de-mae/noticia/final-feliz-de-lurdes-e-morte-de-thelma-confira-todos-os-desfechos-de-amor-de-mae.ghtml"><span style="font-weight: 400;">o fim da antagonista Thelma</span></a><span style="font-weight: 400;"> foi um tanto reflexivo. Mesmo com todas as atrocidades cometidas pela personagem, é questionável pensar que sua única motivação sempre foi o bem e o amor de seu filho, por mais excessiva que fosse. Após ter o aneurisma estourado, ela consegue encerrar sua trajetória com aquilo que se dedicou a vida inteira. Morreu sendo chamada de mãe.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Assim, o laço criado pelas três protagonistas se finaliza de fato, e consolida os diversos papéis maternos explorados ao longo dos 125 capítulos de <em>Amor de Mãe</em>. Lurdes finalmente tem sua família completa, após anos de luta, com seus cinco filhos reunidos. Vitória se vê na posição de matriarca e profissional que sempre almejou, ao lado do seu marido Raul e seus três filhos. Sua irmã, Natália (Clarissa Kiste), deixa de ser mãe solo ao reatar seu casamento com Durval, enquanto, no mesmo páreo, Miranda (Débora Lamm) inicia um segundo relacionamento, após o divórcio com Matias (Milhem Cortaz). Por fim, Betina (Isis Valverde) está prestes a iniciar a vida materna ao lado de Sandro. </span></p>
<figure id="attachment_19842" aria-describedby="caption-attachment-19842" style="width: 1360px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="wp-image-19842 size-full" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/04/imagem9.jpg" alt="Cena da novela Amor de Mãe. Na imagem, as personagens Lurdes, Thelma e Vitória estão em uma sala do hospital. Lurdes, interpretada por Regina Casé, está ao lado esquerdo; ela é uma mulher branca, de cabelos compridos escuros, e veste um vestido florido e usa uma bolsa. Ao centro, está Thelma, interpretada por Adriana Esteves, internada em uma cama de hospital. Ela é uma mulher branca, de cabelos castanhos e está com avental de hospital. Ao lado direito, está Vitória, interpretada por Tais Araújo. Ela é uma mulher negra, com cabelos presos em um coque baixo; ela veste uma blusa branca de gola alta, um colete e calça brancos. " width="1360" height="850" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/04/imagem9.jpg 1360w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/04/imagem9-300x188.jpg 300w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/04/imagem9-1024x640.jpg 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/04/imagem9-768x480.jpg 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/04/imagem9-1200x750.jpg 1200w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 1362px) 62vw, 840px" /><figcaption id="caption-attachment-19842" class="wp-caption-text">“Ser mãe é uma força muito estranha, meu filho” (Foto: Globo)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">Manuela Dias não reinventou a roda ao trazer como narrativa principal a busca de uma mãe pelo seu filho perdido, algo já trabalhado por inúmeras vezes em telenovelas, como vimos de forma similar em </span><i><span style="font-weight: 400;">A Favorita</span></i><span style="font-weight: 400;">, por exemplo. Sua inovação se dá pelo tratamento que ela atribuiu para um tema tão complexo e controverso, que é o Amor de Mãe. E fez isso sob o olhar brilhante e cinematográfico de José Luiz Villamarim, que assumiu a direção artística da obra. Dias errou e acertou, como todas novelas e produções fazem, mas proporcionou </span><a href="https://twitter.com/personaunesp/status/1381055775955693575"><span style="font-weight: 400;">momentos impactantes</span></a><span style="font-weight: 400;"> que poucos conseguem atingir. Que a autora continue a contar belas histórias, que nos façam entreter, refletir e também emocionar.</span></p>
<p><i><span style="font-weight: 400;">Amor de Mãe</span></i><span style="font-weight: 400;"> é um verdadeiro divisor de águas na teledramaturgia brasileira. Com uma nova estética novelesca, a produção conseguiu entregar uma narrativa profunda e que traz temas importantes para a plataforma mais popular que qualquer </span><i><span style="font-weight: 400;">Netflix</span></i><span style="font-weight: 400;">, que é a televisão. E ainda nos presenteou com uma das personagens mais queridas da história das novelas. Dona Lurdes e sua família já deixam profundas saudades. </span></p>
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