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	<title>Arquivos Haroldo de Campos &#8211; Persona | Jornalismo Cultural</title>
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	<description>Desde 2015 provando que a distância entre Bergman, Lady Gaga e a novela das 9 nem existe.</description>
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		<title>A Longa Viagem do Ônibus Amarelo é guiada por gestos de Cinema</title>
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		<pubDate>Thu, 16 Nov 2023 22:44:22 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p>Enzo Caramori É incerto se a noite afora, que entrava em um pequeno corredor na rua Augusta, é que invadia uma sala escura com seus barulhos, ou se seria o novo filme do diretor Júlio Bressane que venta e, acima de tudo, uiva. Na sessão de A Longa Viagem do Ônibus Amarelo (2023) na 47ª &#8230; <a href="http://personaunesp.com.br/a-longa-viagem-do-onibus-amarelo-critica/" class="more-link">Continue lendo<span class="screen-reader-text"> "A Longa Viagem do Ônibus Amarelo é guiada por gestos de Cinema"</span></a></p>
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										<content:encoded><![CDATA[<figure id="attachment_31860" aria-describedby="caption-attachment-31860" style="width: 744px" class="wp-caption aligncenter"><img fetchpriority="high" decoding="async" class="wp-image-31860 size-full" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/11/Captura-de-tela-2023-11-16-193340.png" alt="" width="744" height="543" /><figcaption id="caption-attachment-31860" class="wp-caption-text">A viagem de Júlio Bressane recupera desde antigos filmes familiares feitos em Super 8 e versões brutas de seus filmes até imagens amadoras feitas durante a pandemia de Covid-19 (Foto: TB Produções)</figcaption></figure>
<p><b>Enzo Caramori</b></p>
<p><span style="font-weight: 400;">É incerto se a noite afora, que entrava em um pequeno corredor na rua Augusta, é que invadia uma sala escura com seus barulhos, ou se seria o novo filme do diretor Júlio Bressane que venta e, acima de tudo, uiva. Na sessão de </span><a href="https://43.mostra.org/br/filme/10783-A-Longa-Viagem-do-Onibus-Amarelo"><i><span style="font-weight: 400;">A Longa Viagem do Ônibus Amarelo</span></i></a> <span style="font-weight: 400;">(2023)</span> <span style="font-weight: 400;">na 47ª </span><a href="https://personaunesp.com.br/tag/mostra-internacional-de-cinema-em-sao-paulo/"><span style="font-weight: 400;">Mostra Internacional de Cinema em São Paulo</span></a><span style="font-weight: 400;">, algo de misterioso ressoava durante a experiência de quatrocentos minutos, sete horas e variados tempos. O resgate, pelo próprio diretor em conjunto com seu montador Rodrigo Lima, de sua vasta filmografia e de seu acervo íntimo de imagens, instaura uma determinada fantasmagoria do que é, realmente, uma experiência de Cinema. </span></p>
<p><span id="more-31859"></span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">A palavra monumento, que atravessa as descrições do longa e do trabalho de Bressane, é o índice que dá a essência do que o diretor busca em uma corrente de fragmentos de imagens que nunca se apossam de valor narrativo algum, mas se multiplicam, refazem e se repetem, exigindo do espectador não necessariamente o assistir; mas o olhar. Da mesma forma que se pode flanear, distrair-se e olhar de diversos ângulos para um monumento, </span><i><span style="font-weight: 400;">A Longa Viagem do Ônibus Amarelo </span></i><span style="font-weight: 400;">convoca uma viagem estética por imagens, domando o tempo e restituindo a vertigem de um passado distante. É um monumento para além de sua duração de uma tarde, mas por se construir pelo </span><a href="https://www1.folha.uol.com.br/ilustrada/2023/10/o-cinema-esta-oculto-nos-filmes-diz-julio-bressane-premiado-na-mostra-de-sp.shtml"><span style="font-weight: 400;">desvelamento</span></a><span style="font-weight: 400;"> da montagem – a estrutura verdadeiramente primal dos filmes – em construir uma vasta estrutura quase arquivística, em que tudo que Bressane produziu, sendo um dos maiores realizadores brasileiros de Cinema, eterniza-se em um ritmo onírico, descontínuo e poético da Memória.</span></p>
<figure id="attachment_31861" aria-describedby="caption-attachment-31861" style="width: 721px" class="wp-caption aligncenter"><img decoding="async" class="size-full wp-image-31861" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/11/Captura-de-tela-2023-11-16-193645.png" alt="" width="721" height="442" /><figcaption id="caption-attachment-31861" class="wp-caption-text">Júlio Bressane foi o autor homenageado na 47ª edição da Mostra Internacional de Cinema em São Paulo (Foto: TB Produções)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">Talvez o enquadramento de </span><i><span style="font-weight: 400;">A Longa Viagem do Ônibus Amarelo </span></i><span style="font-weight: 400;">em uma sinopse fechada possa atribuir como elemento central o que o Cinema e a vivência com imagens surte à experiência vivida. No entanto, nessa lógica, qualquer cobrança de comentário do autor sobre o que registrou e viveu – como a viagem que dá nome ao filme, realizada com sua companheira Rosa Dias e o cineasta Andrea Tonacci – não entende o que, verdadeiramente, reverbera seu fluxo e seu ritmo de imagens que parecem muito mais almejar o gesto do que o sentido. Variadas </span><a href="https://cinemarama.wordpress.com/2023/04/22/bafici-2023-a-longa-viagem-do-onibus-amarelo/"><span style="font-weight: 400;">sequências</span></a><span style="font-weight: 400;"> são suscitadas por movimentos, objetos e espaços que desencadeiam a montagem: a claquete, uma câmera na mão, o subir, a língua e o descer de uma escada são alguns dos exemplos de imagens postas em sequências com um teor infinito e espiralar. Procuradas e escavadas nos filmes do diretor, essas cenas, aqui, não são referenciadas em uma condição de índices a suas próprias histórias, mas simplesmente a suas propriedades enquanto gestos de Cinema.  </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Produzido no processo de restauração de seu </span><a href="https://www1.folha.uol.com.br/ilustrada/2023/06/julio-bressane-sintetiza-seus-quase-60-filmes-em-obra-de-7-horas-com-cenas-ineditas.shtml"><span style="font-weight: 400;">material fílmico</span></a><span style="font-weight: 400;">, o caráter de sua montagem promove o toque mútuo de suas filmagens amadoras e familiares com suas peças ficcionais, que não constroem nenhum novo gênero ou algo híbrido como uma autoficção. Até mesmo essas categorias – de ficção ou documentário – são diluídas a favor de uma dinâmica intrincada, em que seus longas ficcionais são colocados em uma seara íntima e o íntimo é proposto a ficcionalização, funcionando numa ordem de montagem e de percepção em que são colocados a uma mesma condição.</span></p>
<p><a href="https://www.metropoles.com/entretenimento/julio-bressane-sera-homenageado-na-mostra-internacional-de-cinema"><span style="font-weight: 400;">Júlio Bressane</span></a><span style="font-weight: 400;"> percebe imagens por imagens, não pelo que elas possam construir em significado pela integridade e unidade, mas enquanto palimpsestos nos quais o tempo se imprime e se apaga novamente pela maneira elétrica em que a memória não somente individual, mas do filme – mídia e entidade de criação – se faz em sua vida. É mais um </span><a href="https://limiterevista.com/2023/07/11/conversa-com-julio-bressane-i/"><span style="font-weight: 400;">biografema</span></a><span style="font-weight: 400;"> do que uma biografia, enredando a partir da ficção e da não literalidade da memória a uma adaptação do real em imagens que avançam e retrocedem e que parecem, em um certo momento, serem um </span><i><span style="font-weight: 400;">making-of </span></i><span style="font-weight: 400;">não só da vida particular, mas de uma escritura específica do Cinema Brasileiro.</span></p>
<figure id="attachment_31862" aria-describedby="caption-attachment-31862" style="width: 800px" class="wp-caption aligncenter"><img decoding="async" class="size-medium wp-image-31862" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/11/UzMBFQBpZmZyLmZpb25hLW9ubGluZS5uZXQ0AGF0dGFjaG1lbnRzL2ZmMGMyZGYyLWQ4N2ItNDFlYi05YzgxLTlhN2ZiNDI1NTI1Zi5qcGc-1-800x450.webp" alt="" width="800" height="450" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/11/UzMBFQBpZmZyLmZpb25hLW9ubGluZS5uZXQ0AGF0dGFjaG1lbnRzL2ZmMGMyZGYyLWQ4N2ItNDFlYi05YzgxLTlhN2ZiNDI1NTI1Zi5qcGc-1-800x450.webp 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/11/UzMBFQBpZmZyLmZpb25hLW9ubGluZS5uZXQ0AGF0dGFjaG1lbnRzL2ZmMGMyZGYyLWQ4N2ItNDFlYi05YzgxLTlhN2ZiNDI1NTI1Zi5qcGc-1-1024x576.webp 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/11/UzMBFQBpZmZyLmZpb25hLW9ubGluZS5uZXQ0AGF0dGFjaG1lbnRzL2ZmMGMyZGYyLWQ4N2ItNDFlYi05YzgxLTlhN2ZiNDI1NTI1Zi5qcGc-1-768x432.webp 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/11/UzMBFQBpZmZyLmZpb25hLW9ubGluZS5uZXQ0AGF0dGFjaG1lbnRzL2ZmMGMyZGYyLWQ4N2ItNDFlYi05YzgxLTlhN2ZiNDI1NTI1Zi5qcGc-1-1536x864.webp 1536w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/11/UzMBFQBpZmZyLmZpb25hLW9ubGluZS5uZXQ0AGF0dGFjaG1lbnRzL2ZmMGMyZGYyLWQ4N2ItNDFlYi05YzgxLTlhN2ZiNDI1NTI1Zi5qcGc-1-1200x675.webp 1200w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/11/UzMBFQBpZmZyLmZpb25hLW9ubGluZS5uZXQ0AGF0dGFjaG1lbnRzL2ZmMGMyZGYyLWQ4N2ItNDFlYi05YzgxLTlhN2ZiNDI1NTI1Zi5qcGc-1.webp 2048w" sizes="(max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 984px) 61vw, (max-width: 1362px) 45vw, 600px" /><figcaption id="caption-attachment-31862" class="wp-caption-text">O recorte de uma História específica do país e do própria filmografia de Bressane se dá pela presença de personagens como Gal Costa, Haroldo de Campos e Grande Otelo (Foto: TB Produções)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">O Cinema não se lembra como as enciclopédias e os dicionários, e também não se esquece como os </span><a href="https://olhave.com.br/2018/10/atlas-mnemosyne-busca-infinita-por-arquivar-imagens-e-pensamentos/"><span style="font-weight: 400;">arquivos</span></a><span style="font-weight: 400;">. Mais contempla, internamente, dentro de seus blocos de ações, o mundo que o rodeia. Especialmente, </span><i><span style="font-weight: 400;">A Longa Viagem do Ônibus Amarelo </span></i><span style="font-weight: 400;">faz que, mesmo dispondo-se de títulos de linguagem cinematográfica complexa e sofisticada, os filmes apenas sejam pares de olhos comuns descobrindo novas paisagens e combinações de sentido, numa viagem-captura em que até mesmo o que não pertence ao espectador – a História íntima – desperte o esplendor. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Os rastros de uma montagem que beira o caráter confessional, expondo as obsessões estéticas e conceituais da grande autoria de Júlio Bressane, situa além de um caráter ontológico do Cinema, em que o silêncio inaugura a obra. Como um preâmbulo aos sentidos imagináveis, uma elegia não a suas seis décadas de produção, mas à memória registrada e seu suporte, como a vida, tão efêmera, mas ao mesmo tempo eterna, na forma de Arte.</span></p>
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