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	<title>Arquivos En Helt Vanlig Familj &#8211; Persona | Jornalismo Cultural</title>
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	<description>Desde 2015 provando que a distância entre Bergman, Lady Gaga e a novela das 9 nem existe.</description>
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		<title>Uma família quase perfeita subverte a justiça sueca</title>
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		<pubDate>Sat, 15 May 2021 16:42:48 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p>Caroline Campos Pai pastor, mãe advogada e filha prodígio. Essa é a fórmula infalível para produzir uma família bem vista, amigável e exemplar, certo? O autor sueco M.T. Edvardsson parece discordar. Parte da parceria com a Companhia das Letras e publicado sob o selo da Suma, Uma família quase perfeita é um thriller intenso e &#8230; <a href="http://personaunesp.com.br/uma-familia-quase-perfeita-critica/" class="more-link">Continue lendo<span class="screen-reader-text"> "Uma família quase perfeita subverte a justiça sueca"</span></a></p>
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										<content:encoded><![CDATA[<figure id="attachment_20676" aria-describedby="caption-attachment-20676" style="width: 1920px" class="wp-caption alignnone"><img fetchpriority="high" decoding="async" class="wp-image-20676 size-full" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/05/Design-sem-nome-4.png" alt="Arte com a capa do livro Uma família quase perfeita. No canto esquerdo superior, vemos o símbolo do persona: o olho com íris vermelha. Abaixo dele, há uma silhueta em vinho do rosto de uma mulher. No centro da imagem, a capa do livro cinza, com duas siilhuetas em vinho nas laterais e uma em preto no centro. Dentro dela, há a imagem de uma garota andando de bicleta e o título do livro em branco. No alto, o nome M.T. EDVARDSSON está em vinho. A direita, outra silhueta, dessa vez do rosto de um homem, também está em vinho. Abaixo, o selo da parceria com a Cia das Letras em azul." width="1920" height="1080" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/05/Design-sem-nome-4.png 1920w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/05/Design-sem-nome-4-300x169.png 300w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/05/Design-sem-nome-4-1024x576.png 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/05/Design-sem-nome-4-768x432.png 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/05/Design-sem-nome-4-1536x864.png 1536w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/05/Design-sem-nome-4-1200x675.png 1200w" sizes="(max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 1362px) 62vw, 840px" /><figcaption id="caption-attachment-20676" class="wp-caption-text">A resenha anterior da parceria foi o goiano Apague a luz se for chorar, de Fabiane Guimarães (Foto: Guilherme Xavier/Suma; Arte: Caroline Campos)</figcaption></figure>
<p><b>Caroline Campos</b></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Pai pastor, mãe advogada e filha prodígio. Essa é a fórmula infalível para produzir uma família bem vista, amigável e exemplar, certo? O autor sueco M.T. Edvardsson parece discordar. Parte da </span><a href="https://personaunesp.com.br/tag/parceria-cia-das-letras/"><span style="font-weight: 400;">parceria</span></a><span style="font-weight: 400;"> com a </span><a href="https://personaunesp.com.br/apague-a-luz-se-for-chorar-critica/"><i><span style="font-weight: 400;">Companhia das Letras</span></i></a><span style="font-weight: 400;"> e publicado sob o selo da </span><i><span style="font-weight: 400;">Suma</span></i><span style="font-weight: 400;">, </span><a href="https://www.youtube.com/watch?v=woqf-Ug9Gdk"><i><span style="font-weight: 400;">Uma família quase perfeita</span></i></a><span style="font-weight: 400;"> é um </span><i><span style="font-weight: 400;">thriller</span></i><span style="font-weight: 400;"> intenso e envolvente sobre a verdadeira face da justiça e as situações extremas que podemos nos colocar para proteger aquilo que nos é mais sagrado. Mas, </span><b>atenção</b><span style="font-weight: 400;">: o livro possui gatilhos relacionados à violência sexual e psicológica. A narrativa pode causar perturbações em leitores mais sensíveis aos temas. </span></p>
<p><span id="more-20674"></span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Através das 376 páginas traduzidas por Natalie Gerhardt, Edvardsson se diverte às custas da curiosidade de seu leitor para tentar responder: quem matou Christopher Olsen? A principal suspeita, já detida e investigada, é Stella Sandell. Aquela Stella, filha do benevolente pastor Adam e da talentosa advogada Ulrika. O choque atravessa os quatro cantos da pequena cidade de Lund, abalada com o fato de que uma garota de 18 anos possa ter matado brutalmente com golpes de faca um empresário de sucesso. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">No entanto, passada a tempestade, os sussurros começam &#8211; Stella era uma garota problemática, agressiva e incapaz de resistir aos seus impulsos. O tribunal público já havia dado sua sentença, todos conheciam sua reputação, e a família intocável dos Sandell começava a desabar. O primeiro testemunho é dele, </span><i><span style="font-weight: 400;">O Pai</span></i><span style="font-weight: 400;">. A história nos é contada sob o ponto de vista de Adam na parte um do livro, e o que se inicia com o relato de um homem cristão passando por dilemas éticos e se lamentando com metáforas bíblicas, se transforma em uma narrativa paranoica acerca de um moralismo falido e hipócrita vindo de um pastor que a todos julgava.</span></p>
<p style="text-align: right;"><i><span style="font-weight: 400;">Do fruto de sua boca o homem se beneficia, e o </span></i><i><span style="font-weight: 400;">trabalho de suas mãos será recompensado.</span></i></p>
<p style="text-align: right;"><i><span style="font-weight: 400;">Provérbios 12:14</span></i></p>
<figure id="attachment_20679" aria-describedby="caption-attachment-20679" style="width: 840px" class="wp-caption alignnone"><img decoding="async" class="wp-image-20679 size-large" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/05/dsc_0041_Easy-Resize.com_-1024x686.jpg" alt="Fotografia de M.T. Edvardsson. O sueco está enquadrado na direita da imagem, na região do peito para cima. Ele é um homem branco, de meia idade e careca. M.T. usa uma jaqueta azul e um cachecol cinza." width="840" height="563" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/05/dsc_0041_Easy-Resize.com_-1024x686.jpg 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/05/dsc_0041_Easy-Resize.com_-300x201.jpg 300w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/05/dsc_0041_Easy-Resize.com_-768x514.jpg 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/05/dsc_0041_Easy-Resize.com_-1200x803.jpg 1200w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/05/dsc_0041_Easy-Resize.com_.jpg 1280w" sizes="(max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 1362px) 62vw, 840px" /><figcaption id="caption-attachment-20679" class="wp-caption-text">M.T., abreviação para Mattias, utiliza citações antes do início de cada parte do livro, explicando, através delas, um pouco da personalidade do personagem que irá assumir a narração (Foto: M.T. Edvardsson)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">A visão de Adam sobre a própria filha é uma grande disputa por controle. Superprotetor e beirando o abusivo, o pai é nosso primeiro contato com quem, afinal, pode ser Stella. Surpreendemente, percebemos que o pastor não faz a menor ideia da resposta &#8211; tudo que ele vê é quem gostaria que ela fosse, ingênua, passiva e vulnerável. A </span><i><span style="font-weight: 400;">persona</span></i><span style="font-weight: 400;"> de Adam vai caindo aos pedaços conforme ele se arrisca em suas investigações, e podemos ouvir a reverberação da risada do autor sueco, que escolheu justamente um pastor,</span><i><span style="font-weight: 400;"> símbolo da verdade e da bondade</span></i><span style="font-weight: 400;">, para iniciar sua história conturbada e ser o patriarca de uma família que preza, acima de tudo, pelas aparências. Custe o que custar. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Antes mesmo do tom da primeira narrativa se tornar cansativo, M.T. Edvardsson troca os papéis e passa o microfone para a estrela do </span><i><span style="font-weight: 400;">show</span></i><span style="font-weight: 400;">, Stella. Já confinada em uma cela, </span><i><span style="font-weight: 400;">A Filha</span></i><span style="font-weight: 400;"> é assombrada por ações muito anteriores ao assassinato. Apesar da tentativa de simpatizar nem que seja o mínimo com a jovem, cada pensamento e lembrança que ela retoma nos dá vontade de gritar. Mimada, infantil e arrogante, Stella Sandell sofre do mal do </span><i><span style="font-weight: 400;">filho-de-pais-classe-alta-que-não-consegue-se-encontrar</span></i><span style="font-weight: 400;">. Prepare os olhos para as inevitáveis e automáticas reviradas. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Mesmo que a garota não seja culpada pelas inúmeras situações que cria, ela com certeza sabe piorá-las com suas crises de raiva violentas e birras intensas. Os problemas de Stella, no entanto, não são superficialmente abordados. A necessidade de garantir a fachada da família fez com que seus pais a prendessem em uma cúpula emocional, onde a proibição era clara &#8211; </span><i><span style="font-weight: 400;">em casa a gente resolve; não faça um escândalo</span></i><span style="font-weight: 400;">. Sua rebeldia adolescente e personalidade explosiva foram o empurrão que faltava para a jovem se afogar dentro do próprio aquário e iniciar uma jornada que, se não fosse por Amina, sua melhor amiga, seria gradualmente autodestrutiva.</span></p>
<p style="text-align: right;"><i><span style="font-weight: 400;">Que te parece? Não ficaria apagada a mancha dum só </span></i><i><span style="font-weight: 400;">crime, insignificante, com milhares de boas ações?</span></i></p>
<p style="text-align: right;"><i><span style="font-weight: 400;">Fiódor Dostoiévski, Crime e Castigo</span></i></p>
<figure id="attachment_20677" aria-describedby="caption-attachment-20677" style="width: 840px" class="wp-caption alignnone"><img decoding="async" class="wp-image-20677 size-large" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/05/en-helt-vanlig-famlij-1024x768.jpg" alt="Fotografia do livro En Helt Vanlig Familj. O livro está no centro da imagem, fotografado de cima para baixo. A capa contém o nome do livro em letras brancas e grandes, formando um bloco de texto. O fundo da capa é preto com símbolos de fumaça. Ele está apoiado em um batente de madeira." width="840" height="630" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/05/en-helt-vanlig-famlij-1024x768.jpg 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/05/en-helt-vanlig-famlij-300x225.jpg 300w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/05/en-helt-vanlig-famlij-768x576.jpg 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/05/en-helt-vanlig-famlij-1536x1152.jpg 1536w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/05/en-helt-vanlig-famlij-1200x900.jpg 1200w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/05/en-helt-vanlig-famlij.jpg 1600w" sizes="(max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 1362px) 62vw, 840px" /><figcaption id="caption-attachment-20677" class="wp-caption-text">Capa original sueca, com o título En Helt Vanlig Familj (Foto: Västmanbok)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">Quando chega a vez de Ulrika, já estamos levemente aborrecidos. Claro que o objetivo de um suspense é deixar o leitor na expectativa até a conclusão da história, mas as idas e vindas entre passado e presente de </span><i><span style="font-weight: 400;">Uma família quase perfeita</span></i><span style="font-weight: 400;"> rendem uma série de momentos anticlimáticos e repetições desnecessárias. Assim, o testemunho d’</span><i><span style="font-weight: 400;">A Mãe </span></i><span style="font-weight: 400;">é o ponto de vista escolhido para as grandes revelações da trama. O julgamento de Stella rouba a cena e aguça os ânimos, mas é quase engolido pelos devaneios entediantes da advogada, que retoma, capítulo sim capítulo não, os mesmos acontecimentos já abordados por Adam e Stella anteriormente. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">No entanto, o mais interessante da narrativa de Edvardsson é sua capacidade de diferenciar seus personagens através da escrita. Os Sandell possuem convicções diferentes, idades distantes e um </span><i><span style="font-weight: 400;">modus operandi</span></i><span style="font-weight: 400;"> muito próprio de cada personalidade e o autor não só os entende como também os explora decisivamente. As outras duas figuras-chave para solucionar o suspense, Christopher e Amina, são abordados apenas pelos olhos do trio, mas incrementam a carga dramática de uma trama familiar complexa por si só e se encarregam de unir as três pontas soltas da obra sueca.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Apesar da qualidade de </span><i><span style="font-weight: 400;">Uma família quase perfeita</span></i><span style="font-weight: 400;">, que cumpre o mistério que propõe, M.T. Edvardsson utiliza demasiadamente da violência sexual contra suas personagens femininas. São três estupros abordados contra três mulheres diferentes, e a sensação de mal estar é impossível de ser ignorada, mesmo que nenhum deles seja detalhado ou descrito. Em pelo menos duas das situações, as jovens recebem traços neuróticos e quase maníacos em suas características pós-violência para reforçar as consequentes marcas psicológicas e o sistema penal, irrefutavelmente falho em acolher essas garotas, da Suécia.</span></p>
<p style="text-align: right;"><i><span style="font-weight: 400;">Não existe justiça &#8211; nem dentro nem fora dos tribunais.</span></i></p>
<p style="text-align: right;"><i><span style="font-weight: 400;">Clarence Darrow</span></i></p>
<figure id="attachment_20675" aria-describedby="caption-attachment-20675" style="width: 591px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="wp-image-20675 size-full" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/05/Captura-de-Tela-48.png" alt="Fotografia de M.T. Edvardsson. M.T. está no centro da imagem e segura quatro livros em suas mãos - diversas versões de sua obra Uma família quase perfeita. Ele é um homem branco, de meia idade e careca e usa uma camiseta simples verde. Ao fundo, vemos um grande jardim." width="591" height="587" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/05/Captura-de-Tela-48.png 591w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/05/Captura-de-Tela-48-300x298.png 300w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/05/Captura-de-Tela-48-150x150.png 150w" sizes="auto, (max-width: 591px) 85vw, 591px" /><figcaption id="caption-attachment-20675" class="wp-caption-text">O título “Uma família quase perfeita” poderia ter saído de um filme digno de Sessão da Tarde (Foto: M.T. Edvardsson)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">O final do livro de Edvardsson não é moldado para ser surpreendente, pois o sueco soube se garantir com seus </span><i><span style="font-weight: 400;">comos </span></i><span style="font-weight: 400;">e </span><i><span style="font-weight: 400;">porquês </span></i><span style="font-weight: 400;">para não precisar depender, de fato, de um </span><i><span style="font-weight: 400;">quem</span></i><span style="font-weight: 400;">. Quando as conclusões se desenrolam, até esquecemos de nos questionar a identidade do responsável por empunhar a faca que estripou Christopher Olsen. O epílogo responde a dúvida, para o alívio dos curiosos de plantão, mas toda a atmosfera construída nas últimas páginas dispensa considerações óbvias como a face do assassino. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Se o mérito da leitura cativante pertence aos capítulos curtos ou à construção de uma matilha afiada em pele de cordeirinhos assustados que o sueco proporciona, cabe ao leitor decidir. Mas </span><a href="https://www.companhiadasletras.com.br/detalhe.php?codigo=28000562"><i><span style="font-weight: 400;">Uma família quase perfeita</span></i></a><span style="font-weight: 400;"> é uma obra natural para integrar o catálogo de suspenses da </span><i><span style="font-weight: 400;">Suma</span></i><span style="font-weight: 400;">, e, mesmo sem muitas reviravoltas marcantes, o livro consegue jogar de um lado para o outro o principal investigador desse assassinato: você.</span></p>
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