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	<title>Arquivos Desamparo &#8211; Persona | Jornalismo Cultural</title>
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	<description>Desde 2015 provando que a distância entre Bergman, Lady Gaga e a novela das 9 nem existe.</description>
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		<title>A individuação de Annie Ernaux é O Acontecimento de todas nós</title>
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		<pubDate>Mon, 19 Sep 2022 20:01:43 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p>“Simplesmente isso não se vê. (&#8230;) Nos tomamos por pessoas, mas não somos pessoas. Somos, à nossa maneira, pequenos acontecimentos.” &#8211; Gilles Deleuze em aula ministrada no ano de 1980 no Centro Universitário de Vincennes, em Paris, na França. Raquel Dutra Quando, em 2000, Annie Ernaux intitulou o livro que abriria pela primeira vez ao &#8230; <a href="http://personaunesp.com.br/o-acontecimento-livro-critica/" class="more-link">Continue lendo<span class="screen-reader-text"> "A individuação de Annie Ernaux é O Acontecimento de todas nós"</span></a></p>
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										<content:encoded><![CDATA[<figure id="attachment_28782" aria-describedby="caption-attachment-28782" style="width: 800px" class="wp-caption alignnone"><img fetchpriority="high" decoding="async" class="size-medium wp-image-28782" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/09/clubelivrowordpressaaaaaaa-800x420.jpg" alt="" width="800" height="420" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/09/clubelivrowordpressaaaaaaa-800x420.jpg 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/09/clubelivrowordpressaaaaaaa-768x404.jpg 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/09/clubelivrowordpressaaaaaaa.jpg 1024w" sizes="(max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 984px) 61vw, (max-width: 1362px) 45vw, 600px" /><figcaption id="caption-attachment-28782" class="wp-caption-text">O mês de Julho foi marcado pela discussão acerca dos direitos reprodutivos das mulheres no Brasil e no mundo, e o Clube do Livro do Persona acompanhou o movimento com a escolha de leitura de O Acontecimento, de Annie Ernaux (Foto: Fósforo/Arte: Ana Clara Abbate)</figcaption></figure>
<blockquote>
<p style="text-align: right;"><span style="font-weight: 400;">“</span><span style="font-weight: 400;">Simplesmente isso não se vê. (&#8230;) Nos tomamos por pessoas, mas não somos pessoas. Somos, à nossa maneira, pequenos acontecimentos.</span><span style="font-weight: 400;">”</span></p>
<p style="text-align: right;"><em><span style="font-weight: 400;">&#8211; Gilles Deleuze em aula ministrada no ano de 1980 no Centro Universitário de Vincennes, em Paris, na França.</span></em></p>
</blockquote>
<p><b>Raquel Dutra</b></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Quando, em 2000, Annie Ernaux intitulou o livro que abriria pela primeira vez ao mundo a sua experiência com uma gravidez indesejada e um aborto clandestino na França de 1960, ela com certeza estava ciente da referência filosófica que marcaria a sua obra, mas não imaginava com a mesma intensidade a dimensão da sua representação – e, por consequência, o rompimento que </span><i><span style="font-weight: 400;">O Acontecimento</span></i><span style="font-weight: 400;"> provocaria com suas próprias conceituações. É que, enquanto o termo do título evoca a ideia de uma experiência de individuação (como o próprio detentor da “<a href="http://periodicoseletronicos.ufma.br/index.php/ricultsociedade/article/view/12998">filosofia do acontecimento</a>”definiu</span><span style="font-weight: 400;">), todo o desenvolvimento do livro trata de uma história particular vivida a nível universal (mais precisamente, presente em </span><a href="https://www.dw.com/pt-br/quase-metade-das-gravidezes-no-mundo-%C3%A9-indesejada-aponta-onu/a-61322325#:~:text=A%20cada%20ano%2C%20cerca%20de,de%20acordo%20com%20o%20UNFPA."><span style="font-weight: 400;">quase metade</span></a><span style="font-weight: 400;"> das vivências em questão do mundo).</span></p>
<p><span id="more-28766"></span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">O exercício de desenvolver as referências filosóficas e leituras sociais de </span><i><span style="font-weight: 400;">O Acontecimento</span></i><span style="font-weight: 400;">, no entanto, são ocorrências restritas ao lugar do leitor. Na linguagem da escritora e professora francesa nascida em 1940 e vista como uma das </span><a href="https://www1.folha.uol.com.br/ilustrada/2021/05/conheca-annie-ernaux-que-escreveu-para-apagar-uma-traicao-e-se-tornou-best-seller.shtml"><span style="font-weight: 400;">principais vozes feministas</span></a><span style="font-weight: 400;"> da contemporaneidade, não existe nenhuma pretensão. Seu instrumento como literata é a palavra direta e substantiva (como bem traduzem os títulos de seus livros), cujo objetivo é “</span><i><span style="font-weight: 400;">resistir ao lirismo da cólera ou da dor”</span></i><span style="font-weight: 400;"> a fim de construir a verossimilhança da sua experiência, que ela transforma em livro quarenta anos depois. A partir de suas memórias do período registradas em seus diários, Ernaux retorna aos seus 23 anos, quando, depois de deixar um contexto familiar marcado pelo cotidiano interiorano da classe operária francesa do século XX, engravidou contra a sua vontade em meio aos seus estudos sobre Literatura Moderna na Universidade de Rouen, no auge de sua juventude. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Nas palavras da autora, uma das mais importantes da França na atualidade, a história cria o pano de fundo para um texto que se aproxima de um ensaio, tratando sobre a onipresença da lei e os imperativos que regem o corpo das mulheres ao longo dos anos. Essa prática singular em analisar as relações que existem entre o público e o privado, o concreto e o abstrato, é só o primeiro dos muitos méritos do décimo livro de Annie, que como característica principal da sua Literatura, agraciada com o </span><a href="https://www1.folha.uol.com.br/ilustrada/2019/06/annie-ernaux-faz-da-memoria-um-admiravel-prazer-literario.shtml"><span style="font-weight: 400;">Prêmio Marguerite Duras</span></a><span style="font-weight: 400;"> em 2008, já tem até o seu nome próprio cunhado pelos estudiosos de sua obra: </span><a href="https://www.fosforoeditora.com.br/catalogo/o-lugar-annie-ernaux/"><i><span style="font-weight: 400;">autosociobiografia</span></i></a><span style="font-weight: 400;">. Em julho de 2022, cinco meses depois da publicação do livro no Brasil pela tradução de Isadora de Araújo Pontes, e quando o Clube do Livro Persona o escolheu como a sua décima leitura, nada se mostrou tão socialmente atual quanto as experiências de Ernaux em 1963.</span></p>
<p><figure id="attachment_28767" aria-describedby="caption-attachment-28767" style="width: 1640px" class="wp-caption alignnone"><img decoding="async" class="wp-image-28767 size-full" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/09/imagem-1-2.jpg" alt="Fotografia em preto e branco da autora Annie Ernaux. Ela é uma mulher de meia idade, branca, tem cabelos lisos claros. Annie está alinhada à esquerda e olha para a câmera. Sua mão direita está apoiada no rosto e ela veste uma camisa em tom médio. Ao fundo, existe uma sala desfocada." width="1640" height="1100" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/09/imagem-1-2.jpg 1640w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/09/imagem-1-2-800x537.jpg 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/09/imagem-1-2-1024x687.jpg 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/09/imagem-1-2-768x515.jpg 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/09/imagem-1-2-1536x1030.jpg 1536w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/09/imagem-1-2-1200x805.jpg 1200w" sizes="(max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 1362px) 62vw, 840px" /><figcaption id="caption-attachment-28767" class="wp-caption-text">“(&#8230;) A única escrita correta me pareceu ser a recusa de toda ficção, mais tarde chamada de ‘autosociobiografia’, porque quase sempre me baseio numa relação de mim mesma com a realidade sócio-histórica”, refletiu Annie sobre seu quarto livro, O Lugar [Foto: Babelio]</figcaption></figure><span style="font-weight: 400;">No dia 24 de Junho, a Suprema Corte dos Estados Unidos votou de maneira contrária à manutenção do entendimento do aborto como </span><a href="https://www1.folha.uol.com.br/mundo/2022/06/entenda-o-que-muda-apos-a-decisao-da-suprema-corte-dos-eua-sobre-aborto.shtml"><span style="font-weight: 400;">direito fundamental</span></a><span style="font-weight: 400;">, até então definido pela lei nacional desde 1973. Na prática, isso quer dizer que o país não tem mais o compromisso de fornecer o método como serviço de saúde pública de maneira universal, o que significa que cada estado fica livre para criar sua própria legislação e entendimento para a questão – e segundo estudos, pelo menos metade deles deve retroceder no que diz respeito à legalização do aborto. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">É fato que as decisões na chamada “</span><i><span style="font-weight: 400;">Terra da Liberdade”</span></i><span style="font-weight: 400;"> impactam os debates dos demais países do globo, mas no Brasil o assunto surgiu de maneira ainda mais urgente: por meio do jornal </span><a href="https://theintercept.com/2022/06/20/video-juiza-sc-menina-11-anos-estupro-aborto/"><i><span style="font-weight: 400;">The Intercept Brasil</span></i></a><span style="font-weight: 400;">, tornou-se público um caso de uma menina grávida em decorrência de um estupro aos 11 anos, que foi não só impedida de realizar um aborto legal (embora a atual legislação do país esteja sempre ameaçada), como também orientada pela juíza de seu próprio processo a desistir do procedimento.</span></p>
<p><figure id="attachment_28768" aria-describedby="caption-attachment-28768" style="width: 984px" class="wp-caption alignnone"><img decoding="async" class="wp-image-28768 size-full" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/09/imagem-2-4.jpg" alt="Fotografia de um protesto pela legalização do aborto na Colômbia. A imagem mostra uma mulher em segundo plano segurando uma bandeira verde, que em espanhol, diz “poder decidir”" width="984" height="656" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/09/imagem-2-4.jpg 984w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/09/imagem-2-4-800x533.jpg 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/09/imagem-2-4-768x512.jpg 768w" sizes="(max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 1362px) 62vw, 840px" /><figcaption id="caption-attachment-28768" class="wp-caption-text">Na América Latina, o debate se amplia, com destaque para a recente descriminalização do aborto até a 24ª semana de gestação na Colômbia, em Janeiro deste ano, além das legislações já consolidadas da Argentina (2020) e Uruguai (2012) [Foto: Luisa Gonzalez/Reuters]</figcaption></figure><span style="font-weight: 400;">Desta forma, quando a obra da autora foi colocada em foco diante do mundo novamente, especialmente por conta do sucesso da </span><a href="https://mulhernocinema.com/especiais/premiado-em-veneza-o-acontecimento-retrata-solidao-do-aborto/"><span style="font-weight: 400;">adaptação cinematográfica</span></a><span style="font-weight: 400;"> dirigida por Audrey Diwan, o intervalo de tempo e espaço entre a experiência particular de Ernaux e o aqui e agora não apresentava diferença. Mas antes de qualquer ocorrência de </span><i><span style="font-weight: 400;">O Acontecimento</span></i><span style="font-weight: 400;"> se reproduzir na vida real, a voz do livro já identificava o tal fenômeno da atemporalidade através da permanência de suas próprias palavras.</span></p>
<blockquote>
<p style="text-align: left;"><span style="font-weight: 400;">“</span><span style="font-weight: 400;">Acabo de achar entre meus papéis essa cena, escrita há vários meses. Percebo que eu tinha usado as mesmas palavras (&#8230;). Essa impossibilidade de dizer as coisas com palavras diferentes, essa união definitiva da realidade passada e de uma imagem que exclui qualquer outra, me parecem a prova de que realmente vivi assim o acontecimento.</span><span style="font-weight: 400;">”</span></p>
</blockquote>
<p><span style="font-weight: 400;">Como evidência da importância que a experiência tem para a história e obra autosociobiográfica de Annie Ernaux, existe a própria </span><a href="https://www.livrariamegafauna.com.br/colunistas/rita-palmeira/um-peso-no-ventre/"><span style="font-weight: 400;">presença do assunto</span></a><span style="font-weight: 400;">, que é debatido desde a primeira vez que a autora assinou um livro. </span><i><span style="font-weight: 400;">Les Armoires Vides</span></i><span style="font-weight: 400;"> (</span><i><span style="font-weight: 400;">Os Armários Vazios</span></i><span style="font-weight: 400;">, numa tradução livre), seu romance de estreia publicado na França em 1974, já trazia uma narrativa autobiográfica que introduziu os temas de </span><i><span style="font-weight: 400;">O Acontecimento</span></i><span style="font-weight: 400;"> com uma conjuração temporal impressionante: um ano antes da interrupção voluntária da gravidez ser legalizada no país.</span></p>
<figure id="attachment_28769" aria-describedby="caption-attachment-28769" style="width: 1881px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="wp-image-28769 size-full" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/09/imagem-3-1-scaled-e1663607239820.jpg" alt="Cena do filme O Acontecimento. A imagem mostra a personagem principal esterilizando uma longa agulha com o fogo de um isqueiro. Está de noite e a chama ilumina a foto, capturada por cima do ombro da personagem. O cenário é um quarto." width="1881" height="1382" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/09/imagem-3-1-scaled-e1663607239820.jpg 1881w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/09/imagem-3-1-scaled-e1663607239820-800x588.jpg 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/09/imagem-3-1-scaled-e1663607239820-1024x752.jpg 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/09/imagem-3-1-scaled-e1663607239820-768x564.jpg 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/09/imagem-3-1-scaled-e1663607239820-1536x1129.jpg 1536w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/09/imagem-3-1-scaled-e1663607239820-1200x882.jpg 1200w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 1362px) 62vw, 840px" /><figcaption id="caption-attachment-28769" class="wp-caption-text">Em 2021, a adaptação cinematográfica dirigida e roteirizada por Audrey Diwan foi apreciada com o Leão de Ouro, prêmio máximo do Festival de Veneza (Foto: Zeta Filmes)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">Se a História e a biografia já são esferas inicialmente distintas aproximadas pela Literatura de Ernaux, não é desafio nenhum para a autora mesclar um </span><a href="https://rascunho.com.br/noticias/annie-ernaux-escreve-autobiografia-impessoal-em-os-anos/"><span style="font-weight: 400;">caráter metalinguístico</span></a><span style="font-weight: 400;"> ao livro a fim de refletir sobre seu ofício. Nesse sentido, </span><i><span style="font-weight: 400;">O Acontecimento</span></i><span style="font-weight: 400;"> parte de maneira nada linear de um lugar de observação das relações que as mulheres mantêm sobre si mesmas para analisar a dimensão de poder que a escritora constrói com seu próprio texto – pois essa é a identidade singular de Annie Ernaux, muito influenciada pelas suas formadoras francesas: observar a si mesma para melhor observar o mundo ao seu redor.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">A consciência direta disso vem junto das suas tomadas de conclusão mais profundas. No nível radical que o texto de Ernaux atinge com </span><i><span style="font-weight: 400;">O Acontecimento</span></i><span style="font-weight: 400;">, a autora não só relembra com criticidade a terrível prática da Arte de seguir o hábito da sociedade de não ver valor de representação e legitimidade em determinadas histórias, como coloca toda a relevância de seu ofício justamente nesse lugar. A personagem principal </span><a href="https://www1.folha.uol.com.br/ilustrada/2019/06/annie-ernaux-faz-da-memoria-um-admiravel-prazer-literario.shtml"><span style="font-weight: 400;">é ela mesma</span></a><span style="font-weight: 400;">, uma jovem em um processo de exercício profundo de suas liberdades, que vive em um embate com as restrições impostas a ela no mundo externo. Assim, Annie toma como trabalho o reportar essa vida de uma mulher que não corresponde aos padrões socialmente impostos ao seu gênero, desde suas motivações até seus arrependimentos.  </span></p>
<blockquote><p><span style="font-weight: 400;">“</span><span style="font-weight: 400;">Eliminei a única culpa que senti a respeito desse acontecimento &#8211; que ele tenha acontecido e que eu não tenha feito nada dele. (&#8230;) Pois, para além de todas as razões sociais e psicológicas que pude encontrar naquilo que vivi, existe uma da qual estou mais certa do que tudo: as coisas aconteceram comigo para que eu as conte. E o verdadeiro objetivo da minha vida talvez seja apenas este: que meu corpo, minhas sensações e meus pensamentos se tornem escrita, isto é, algo inteligível e geral, minha existência completamente dissolvida na cabeça e na vida dos outros.</span><span style="font-weight: 400;">”</span></p></blockquote>
<figure id="attachment_28772" aria-describedby="caption-attachment-28772" style="width: 1200px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="wp-image-28772 size-full" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/09/imagem-4-1.jpg" alt="Fotografia de Annie Ernaux. A autora está ao centro, num sofá azul. Ela usa uma camisa preta, seus cabelos são claros e lisos. Annie sorri levemente para a foto. Ao fundo, existe uma estante de livros. " width="1200" height="800" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/09/imagem-4-1.jpg 1200w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/09/imagem-4-1-800x533.jpg 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/09/imagem-4-1-1024x683.jpg 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/09/imagem-4-1-768x512.jpg 768w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 1362px) 62vw, 840px" /><figcaption id="caption-attachment-28772" class="wp-caption-text">No Brasil, apenas outras duas obras de Annie Ernaux foram publicadas: Os Anos e O Lugar, ambas de 2021 (Foto: Ulf Andersen/AFP)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">É no ínterim de </span><i><span style="font-weight: 400;">O Acontecimento</span></i><span style="font-weight: 400;"> que Ernaux verbaliza e nomeia de maneira objetiva a sua própria identidade literária, mas foi em seu quarto livro que a autora consolidou sua órbita ao redor de ideais de emancipação e rompimento. </span><a href="https://www.plural.jor.br/colunas/papel-maquina/o-lugar-annie-ernaux/"><i><span style="font-weight: 400;">O Lugar</span></i></a><span style="font-weight: 400;">, obra vencedora do prêmio Renaudot em 1983, que traz sua família para o centro da história, firmou o nome de Annie em seu lugar de relevância para a Literatura contemporânea com uma narrativa firme de distanciamento de suas raízes, um processo realizado em prol de se tornar quem se almeja ser. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">No entanto, nenhum símbolo pode dizer mais sobre emancipação e liberdade do que o que marca a narrativa de </span><i><span style="font-weight: 400;">O Acontecimento</span></i><span style="font-weight: 400;"> – não à toa, ele é nomeado assim, de maneira um pouco mais subjetiva do que os títulos costumeiros de Annie Ernaux. Muito mais do que um processo concreto que confere a uma mulher o poder sobre o seu próprio corpo, a autora insere mais uma camada à sua mistura de biografia, história e sociologia, entendo o aborto a partir de uma </span><a href="https://www.revistas.usp.br/nonplus/article/view/149189"><span style="font-weight: 400;">ótica quase filosófica</span></a><span style="font-weight: 400;">: uma experiência plenamente humana, que permite acesso ao ciclo e aos extremos completo da vida, desde seu início, até o seu fim. </span></p>
<blockquote><p><span style="font-weight: 400;">“</span><span style="font-weight: 400;">Sei que hoje eu precisava dessa provação e desse sacrifício para desejar ter filhos. Para aceitar essa violência da reprodução no meu corpo e me tornar, por minha vez, lugar de passagem das gerações.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Terminei de pôr em palavras isso que se revela para mim como uma experiência humana total, da vida e da morte, do tempo, da moral e do interdito, da lei, uma experiência vivida de um extremo a outro pelo corpo.</span><span style="font-weight: 400;">”</span></p></blockquote>
<p><span style="font-weight: 400;">Entre aspirações, significações e conclusões tão amplas sobre a sua experiência, a autora não deixa de sentir o que lhe foi particularmente marcante daquela época: </span><a href="https://revistarosa.com/5/a-dor-da-clandestinidade"><span style="font-weight: 400;">a solidão e o desamparo</span></a><span style="font-weight: 400;">, em nível legal, social, institucional e cultural. O choque vem da simples dificuldade da jovem Annie em enxergar as diferenças de gênero através de seu olhar tão livre e independente, que não vê outro lugar para si mesma se não aquele de completa igualdade com os demais. Nada disso, no entanto, define </span><i><span style="font-weight: 400;">O Acontecimento</span></i><span style="font-weight: 400;">, uma vez que a obra não existe de maneira a transformar a vida de Annie Ernaux em – literalmente – um livro aberto.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Inevitavelmente, é o que acontece, mas seus relatos íntimos, reflexões metalinguísticas e críticas sociais estão na obra com um objetivo bem definido: destacar a maneira como, além de tudo, essa experiência universal de desapropriação de si mesma causa uma </span><a href="https://personaunesp.com.br/never-rarely-sometimes-always-critica/"><span style="font-weight: 400;">uniformização violenta</span></a><span style="font-weight: 400;"> das nossas identidades – o que vai na direção contrária do nosso movimento de emancipação individual e coletivo. No mundo em que vivemos, nenhuma história sobre aborto é só uma história sobre aborto, e nenhuma experiência de violência de gênero </span><a href="https://diplomatique.org.br/quem-sao-elas-o-perfil-das-mulheres-que-abortam-no-brasil/"><span style="font-weight: 400;">é individualizada</span></a><span style="font-weight: 400;"> em seu alvo da vez. E as palavras de Annie Ernaux parecem ser as únicas possíveis para compreender que </span><i><span style="font-weight: 400;">O Acontecimento</span></i><span style="font-weight: 400;"> dela nunca foi – e nunca será – só dela.</span></p>
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