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	<title>Arquivos Classe operária &#8211; Persona | Jornalismo Cultural</title>
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	<description>Desde 2015 provando que a distância entre Bergman, Lady Gaga e a novela das 9 nem existe.</description>
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		<title>A individuação de Annie Ernaux é O Acontecimento de todas nós</title>
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		<pubDate>Mon, 19 Sep 2022 20:01:43 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p>“Simplesmente isso não se vê. (&#8230;) Nos tomamos por pessoas, mas não somos pessoas. Somos, à nossa maneira, pequenos acontecimentos.” &#8211; Gilles Deleuze em aula ministrada no ano de 1980 no Centro Universitário de Vincennes, em Paris, na França. Raquel Dutra Quando, em 2000, Annie Ernaux intitulou o livro que abriria pela primeira vez ao &#8230; <a href="http://personaunesp.com.br/o-acontecimento-livro-critica/" class="more-link">Continue lendo<span class="screen-reader-text"> "A individuação de Annie Ernaux é O Acontecimento de todas nós"</span></a></p>
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										<content:encoded><![CDATA[<figure id="attachment_28782" aria-describedby="caption-attachment-28782" style="width: 800px" class="wp-caption alignnone"><img fetchpriority="high" decoding="async" class="size-medium wp-image-28782" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/09/clubelivrowordpressaaaaaaa-800x420.jpg" alt="" width="800" height="420" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/09/clubelivrowordpressaaaaaaa-800x420.jpg 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/09/clubelivrowordpressaaaaaaa-768x404.jpg 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/09/clubelivrowordpressaaaaaaa.jpg 1024w" sizes="(max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 984px) 61vw, (max-width: 1362px) 45vw, 600px" /><figcaption id="caption-attachment-28782" class="wp-caption-text">O mês de Julho foi marcado pela discussão acerca dos direitos reprodutivos das mulheres no Brasil e no mundo, e o Clube do Livro do Persona acompanhou o movimento com a escolha de leitura de O Acontecimento, de Annie Ernaux (Foto: Fósforo/Arte: Ana Clara Abbate)</figcaption></figure>
<blockquote>
<p style="text-align: right;"><span style="font-weight: 400;">“</span><span style="font-weight: 400;">Simplesmente isso não se vê. (&#8230;) Nos tomamos por pessoas, mas não somos pessoas. Somos, à nossa maneira, pequenos acontecimentos.</span><span style="font-weight: 400;">”</span></p>
<p style="text-align: right;"><em><span style="font-weight: 400;">&#8211; Gilles Deleuze em aula ministrada no ano de 1980 no Centro Universitário de Vincennes, em Paris, na França.</span></em></p>
</blockquote>
<p><b>Raquel Dutra</b></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Quando, em 2000, Annie Ernaux intitulou o livro que abriria pela primeira vez ao mundo a sua experiência com uma gravidez indesejada e um aborto clandestino na França de 1960, ela com certeza estava ciente da referência filosófica que marcaria a sua obra, mas não imaginava com a mesma intensidade a dimensão da sua representação – e, por consequência, o rompimento que </span><i><span style="font-weight: 400;">O Acontecimento</span></i><span style="font-weight: 400;"> provocaria com suas próprias conceituações. É que, enquanto o termo do título evoca a ideia de uma experiência de individuação (como o próprio detentor da “<a href="http://periodicoseletronicos.ufma.br/index.php/ricultsociedade/article/view/12998">filosofia do acontecimento</a>”definiu</span><span style="font-weight: 400;">), todo o desenvolvimento do livro trata de uma história particular vivida a nível universal (mais precisamente, presente em </span><a href="https://www.dw.com/pt-br/quase-metade-das-gravidezes-no-mundo-%C3%A9-indesejada-aponta-onu/a-61322325#:~:text=A%20cada%20ano%2C%20cerca%20de,de%20acordo%20com%20o%20UNFPA."><span style="font-weight: 400;">quase metade</span></a><span style="font-weight: 400;"> das vivências em questão do mundo).</span></p>
<p><span id="more-28766"></span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">O exercício de desenvolver as referências filosóficas e leituras sociais de </span><i><span style="font-weight: 400;">O Acontecimento</span></i><span style="font-weight: 400;">, no entanto, são ocorrências restritas ao lugar do leitor. Na linguagem da escritora e professora francesa nascida em 1940 e vista como uma das </span><a href="https://www1.folha.uol.com.br/ilustrada/2021/05/conheca-annie-ernaux-que-escreveu-para-apagar-uma-traicao-e-se-tornou-best-seller.shtml"><span style="font-weight: 400;">principais vozes feministas</span></a><span style="font-weight: 400;"> da contemporaneidade, não existe nenhuma pretensão. Seu instrumento como literata é a palavra direta e substantiva (como bem traduzem os títulos de seus livros), cujo objetivo é “</span><i><span style="font-weight: 400;">resistir ao lirismo da cólera ou da dor”</span></i><span style="font-weight: 400;"> a fim de construir a verossimilhança da sua experiência, que ela transforma em livro quarenta anos depois. A partir de suas memórias do período registradas em seus diários, Ernaux retorna aos seus 23 anos, quando, depois de deixar um contexto familiar marcado pelo cotidiano interiorano da classe operária francesa do século XX, engravidou contra a sua vontade em meio aos seus estudos sobre Literatura Moderna na Universidade de Rouen, no auge de sua juventude. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Nas palavras da autora, uma das mais importantes da França na atualidade, a história cria o pano de fundo para um texto que se aproxima de um ensaio, tratando sobre a onipresença da lei e os imperativos que regem o corpo das mulheres ao longo dos anos. Essa prática singular em analisar as relações que existem entre o público e o privado, o concreto e o abstrato, é só o primeiro dos muitos méritos do décimo livro de Annie, que como característica principal da sua Literatura, agraciada com o </span><a href="https://www1.folha.uol.com.br/ilustrada/2019/06/annie-ernaux-faz-da-memoria-um-admiravel-prazer-literario.shtml"><span style="font-weight: 400;">Prêmio Marguerite Duras</span></a><span style="font-weight: 400;"> em 2008, já tem até o seu nome próprio cunhado pelos estudiosos de sua obra: </span><a href="https://www.fosforoeditora.com.br/catalogo/o-lugar-annie-ernaux/"><i><span style="font-weight: 400;">autosociobiografia</span></i></a><span style="font-weight: 400;">. Em julho de 2022, cinco meses depois da publicação do livro no Brasil pela tradução de Isadora de Araújo Pontes, e quando o Clube do Livro Persona o escolheu como a sua décima leitura, nada se mostrou tão socialmente atual quanto as experiências de Ernaux em 1963.</span></p>
<p><figure id="attachment_28767" aria-describedby="caption-attachment-28767" style="width: 1640px" class="wp-caption alignnone"><img decoding="async" class="wp-image-28767 size-full" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/09/imagem-1-2.jpg" alt="Fotografia em preto e branco da autora Annie Ernaux. Ela é uma mulher de meia idade, branca, tem cabelos lisos claros. Annie está alinhada à esquerda e olha para a câmera. Sua mão direita está apoiada no rosto e ela veste uma camisa em tom médio. Ao fundo, existe uma sala desfocada." width="1640" height="1100" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/09/imagem-1-2.jpg 1640w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/09/imagem-1-2-800x537.jpg 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/09/imagem-1-2-1024x687.jpg 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/09/imagem-1-2-768x515.jpg 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/09/imagem-1-2-1536x1030.jpg 1536w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/09/imagem-1-2-1200x805.jpg 1200w" sizes="(max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 1362px) 62vw, 840px" /><figcaption id="caption-attachment-28767" class="wp-caption-text">“(&#8230;) A única escrita correta me pareceu ser a recusa de toda ficção, mais tarde chamada de ‘autosociobiografia’, porque quase sempre me baseio numa relação de mim mesma com a realidade sócio-histórica”, refletiu Annie sobre seu quarto livro, O Lugar [Foto: Babelio]</figcaption></figure><span style="font-weight: 400;">No dia 24 de Junho, a Suprema Corte dos Estados Unidos votou de maneira contrária à manutenção do entendimento do aborto como </span><a href="https://www1.folha.uol.com.br/mundo/2022/06/entenda-o-que-muda-apos-a-decisao-da-suprema-corte-dos-eua-sobre-aborto.shtml"><span style="font-weight: 400;">direito fundamental</span></a><span style="font-weight: 400;">, até então definido pela lei nacional desde 1973. Na prática, isso quer dizer que o país não tem mais o compromisso de fornecer o método como serviço de saúde pública de maneira universal, o que significa que cada estado fica livre para criar sua própria legislação e entendimento para a questão – e segundo estudos, pelo menos metade deles deve retroceder no que diz respeito à legalização do aborto. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">É fato que as decisões na chamada “</span><i><span style="font-weight: 400;">Terra da Liberdade”</span></i><span style="font-weight: 400;"> impactam os debates dos demais países do globo, mas no Brasil o assunto surgiu de maneira ainda mais urgente: por meio do jornal </span><a href="https://theintercept.com/2022/06/20/video-juiza-sc-menina-11-anos-estupro-aborto/"><i><span style="font-weight: 400;">The Intercept Brasil</span></i></a><span style="font-weight: 400;">, tornou-se público um caso de uma menina grávida em decorrência de um estupro aos 11 anos, que foi não só impedida de realizar um aborto legal (embora a atual legislação do país esteja sempre ameaçada), como também orientada pela juíza de seu próprio processo a desistir do procedimento.</span></p>
<p><figure id="attachment_28768" aria-describedby="caption-attachment-28768" style="width: 984px" class="wp-caption alignnone"><img decoding="async" class="wp-image-28768 size-full" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/09/imagem-2-4.jpg" alt="Fotografia de um protesto pela legalização do aborto na Colômbia. A imagem mostra uma mulher em segundo plano segurando uma bandeira verde, que em espanhol, diz “poder decidir”" width="984" height="656" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/09/imagem-2-4.jpg 984w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/09/imagem-2-4-800x533.jpg 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/09/imagem-2-4-768x512.jpg 768w" sizes="(max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 1362px) 62vw, 840px" /><figcaption id="caption-attachment-28768" class="wp-caption-text">Na América Latina, o debate se amplia, com destaque para a recente descriminalização do aborto até a 24ª semana de gestação na Colômbia, em Janeiro deste ano, além das legislações já consolidadas da Argentina (2020) e Uruguai (2012) [Foto: Luisa Gonzalez/Reuters]</figcaption></figure><span style="font-weight: 400;">Desta forma, quando a obra da autora foi colocada em foco diante do mundo novamente, especialmente por conta do sucesso da </span><a href="https://mulhernocinema.com/especiais/premiado-em-veneza-o-acontecimento-retrata-solidao-do-aborto/"><span style="font-weight: 400;">adaptação cinematográfica</span></a><span style="font-weight: 400;"> dirigida por Audrey Diwan, o intervalo de tempo e espaço entre a experiência particular de Ernaux e o aqui e agora não apresentava diferença. Mas antes de qualquer ocorrência de </span><i><span style="font-weight: 400;">O Acontecimento</span></i><span style="font-weight: 400;"> se reproduzir na vida real, a voz do livro já identificava o tal fenômeno da atemporalidade através da permanência de suas próprias palavras.</span></p>
<blockquote>
<p style="text-align: left;"><span style="font-weight: 400;">“</span><span style="font-weight: 400;">Acabo de achar entre meus papéis essa cena, escrita há vários meses. Percebo que eu tinha usado as mesmas palavras (&#8230;). Essa impossibilidade de dizer as coisas com palavras diferentes, essa união definitiva da realidade passada e de uma imagem que exclui qualquer outra, me parecem a prova de que realmente vivi assim o acontecimento.</span><span style="font-weight: 400;">”</span></p>
</blockquote>
<p><span style="font-weight: 400;">Como evidência da importância que a experiência tem para a história e obra autosociobiográfica de Annie Ernaux, existe a própria </span><a href="https://www.livrariamegafauna.com.br/colunistas/rita-palmeira/um-peso-no-ventre/"><span style="font-weight: 400;">presença do assunto</span></a><span style="font-weight: 400;">, que é debatido desde a primeira vez que a autora assinou um livro. </span><i><span style="font-weight: 400;">Les Armoires Vides</span></i><span style="font-weight: 400;"> (</span><i><span style="font-weight: 400;">Os Armários Vazios</span></i><span style="font-weight: 400;">, numa tradução livre), seu romance de estreia publicado na França em 1974, já trazia uma narrativa autobiográfica que introduziu os temas de </span><i><span style="font-weight: 400;">O Acontecimento</span></i><span style="font-weight: 400;"> com uma conjuração temporal impressionante: um ano antes da interrupção voluntária da gravidez ser legalizada no país.</span></p>
<figure id="attachment_28769" aria-describedby="caption-attachment-28769" style="width: 1881px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="wp-image-28769 size-full" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/09/imagem-3-1-scaled-e1663607239820.jpg" alt="Cena do filme O Acontecimento. A imagem mostra a personagem principal esterilizando uma longa agulha com o fogo de um isqueiro. Está de noite e a chama ilumina a foto, capturada por cima do ombro da personagem. O cenário é um quarto." width="1881" height="1382" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/09/imagem-3-1-scaled-e1663607239820.jpg 1881w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/09/imagem-3-1-scaled-e1663607239820-800x588.jpg 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/09/imagem-3-1-scaled-e1663607239820-1024x752.jpg 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/09/imagem-3-1-scaled-e1663607239820-768x564.jpg 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/09/imagem-3-1-scaled-e1663607239820-1536x1129.jpg 1536w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/09/imagem-3-1-scaled-e1663607239820-1200x882.jpg 1200w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 1362px) 62vw, 840px" /><figcaption id="caption-attachment-28769" class="wp-caption-text">Em 2021, a adaptação cinematográfica dirigida e roteirizada por Audrey Diwan foi apreciada com o Leão de Ouro, prêmio máximo do Festival de Veneza (Foto: Zeta Filmes)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">Se a História e a biografia já são esferas inicialmente distintas aproximadas pela Literatura de Ernaux, não é desafio nenhum para a autora mesclar um </span><a href="https://rascunho.com.br/noticias/annie-ernaux-escreve-autobiografia-impessoal-em-os-anos/"><span style="font-weight: 400;">caráter metalinguístico</span></a><span style="font-weight: 400;"> ao livro a fim de refletir sobre seu ofício. Nesse sentido, </span><i><span style="font-weight: 400;">O Acontecimento</span></i><span style="font-weight: 400;"> parte de maneira nada linear de um lugar de observação das relações que as mulheres mantêm sobre si mesmas para analisar a dimensão de poder que a escritora constrói com seu próprio texto – pois essa é a identidade singular de Annie Ernaux, muito influenciada pelas suas formadoras francesas: observar a si mesma para melhor observar o mundo ao seu redor.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">A consciência direta disso vem junto das suas tomadas de conclusão mais profundas. No nível radical que o texto de Ernaux atinge com </span><i><span style="font-weight: 400;">O Acontecimento</span></i><span style="font-weight: 400;">, a autora não só relembra com criticidade a terrível prática da Arte de seguir o hábito da sociedade de não ver valor de representação e legitimidade em determinadas histórias, como coloca toda a relevância de seu ofício justamente nesse lugar. A personagem principal </span><a href="https://www1.folha.uol.com.br/ilustrada/2019/06/annie-ernaux-faz-da-memoria-um-admiravel-prazer-literario.shtml"><span style="font-weight: 400;">é ela mesma</span></a><span style="font-weight: 400;">, uma jovem em um processo de exercício profundo de suas liberdades, que vive em um embate com as restrições impostas a ela no mundo externo. Assim, Annie toma como trabalho o reportar essa vida de uma mulher que não corresponde aos padrões socialmente impostos ao seu gênero, desde suas motivações até seus arrependimentos.  </span></p>
<blockquote><p><span style="font-weight: 400;">“</span><span style="font-weight: 400;">Eliminei a única culpa que senti a respeito desse acontecimento &#8211; que ele tenha acontecido e que eu não tenha feito nada dele. (&#8230;) Pois, para além de todas as razões sociais e psicológicas que pude encontrar naquilo que vivi, existe uma da qual estou mais certa do que tudo: as coisas aconteceram comigo para que eu as conte. E o verdadeiro objetivo da minha vida talvez seja apenas este: que meu corpo, minhas sensações e meus pensamentos se tornem escrita, isto é, algo inteligível e geral, minha existência completamente dissolvida na cabeça e na vida dos outros.</span><span style="font-weight: 400;">”</span></p></blockquote>
<figure id="attachment_28772" aria-describedby="caption-attachment-28772" style="width: 1200px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="wp-image-28772 size-full" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/09/imagem-4-1.jpg" alt="Fotografia de Annie Ernaux. A autora está ao centro, num sofá azul. Ela usa uma camisa preta, seus cabelos são claros e lisos. Annie sorri levemente para a foto. Ao fundo, existe uma estante de livros. " width="1200" height="800" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/09/imagem-4-1.jpg 1200w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/09/imagem-4-1-800x533.jpg 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/09/imagem-4-1-1024x683.jpg 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2022/09/imagem-4-1-768x512.jpg 768w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 1362px) 62vw, 840px" /><figcaption id="caption-attachment-28772" class="wp-caption-text">No Brasil, apenas outras duas obras de Annie Ernaux foram publicadas: Os Anos e O Lugar, ambas de 2021 (Foto: Ulf Andersen/AFP)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">É no ínterim de </span><i><span style="font-weight: 400;">O Acontecimento</span></i><span style="font-weight: 400;"> que Ernaux verbaliza e nomeia de maneira objetiva a sua própria identidade literária, mas foi em seu quarto livro que a autora consolidou sua órbita ao redor de ideais de emancipação e rompimento. </span><a href="https://www.plural.jor.br/colunas/papel-maquina/o-lugar-annie-ernaux/"><i><span style="font-weight: 400;">O Lugar</span></i></a><span style="font-weight: 400;">, obra vencedora do prêmio Renaudot em 1983, que traz sua família para o centro da história, firmou o nome de Annie em seu lugar de relevância para a Literatura contemporânea com uma narrativa firme de distanciamento de suas raízes, um processo realizado em prol de se tornar quem se almeja ser. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">No entanto, nenhum símbolo pode dizer mais sobre emancipação e liberdade do que o que marca a narrativa de </span><i><span style="font-weight: 400;">O Acontecimento</span></i><span style="font-weight: 400;"> – não à toa, ele é nomeado assim, de maneira um pouco mais subjetiva do que os títulos costumeiros de Annie Ernaux. Muito mais do que um processo concreto que confere a uma mulher o poder sobre o seu próprio corpo, a autora insere mais uma camada à sua mistura de biografia, história e sociologia, entendo o aborto a partir de uma </span><a href="https://www.revistas.usp.br/nonplus/article/view/149189"><span style="font-weight: 400;">ótica quase filosófica</span></a><span style="font-weight: 400;">: uma experiência plenamente humana, que permite acesso ao ciclo e aos extremos completo da vida, desde seu início, até o seu fim. </span></p>
<blockquote><p><span style="font-weight: 400;">“</span><span style="font-weight: 400;">Sei que hoje eu precisava dessa provação e desse sacrifício para desejar ter filhos. Para aceitar essa violência da reprodução no meu corpo e me tornar, por minha vez, lugar de passagem das gerações.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Terminei de pôr em palavras isso que se revela para mim como uma experiência humana total, da vida e da morte, do tempo, da moral e do interdito, da lei, uma experiência vivida de um extremo a outro pelo corpo.</span><span style="font-weight: 400;">”</span></p></blockquote>
<p><span style="font-weight: 400;">Entre aspirações, significações e conclusões tão amplas sobre a sua experiência, a autora não deixa de sentir o que lhe foi particularmente marcante daquela época: </span><a href="https://revistarosa.com/5/a-dor-da-clandestinidade"><span style="font-weight: 400;">a solidão e o desamparo</span></a><span style="font-weight: 400;">, em nível legal, social, institucional e cultural. O choque vem da simples dificuldade da jovem Annie em enxergar as diferenças de gênero através de seu olhar tão livre e independente, que não vê outro lugar para si mesma se não aquele de completa igualdade com os demais. Nada disso, no entanto, define </span><i><span style="font-weight: 400;">O Acontecimento</span></i><span style="font-weight: 400;">, uma vez que a obra não existe de maneira a transformar a vida de Annie Ernaux em – literalmente – um livro aberto.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Inevitavelmente, é o que acontece, mas seus relatos íntimos, reflexões metalinguísticas e críticas sociais estão na obra com um objetivo bem definido: destacar a maneira como, além de tudo, essa experiência universal de desapropriação de si mesma causa uma </span><a href="https://personaunesp.com.br/never-rarely-sometimes-always-critica/"><span style="font-weight: 400;">uniformização violenta</span></a><span style="font-weight: 400;"> das nossas identidades – o que vai na direção contrária do nosso movimento de emancipação individual e coletivo. No mundo em que vivemos, nenhuma história sobre aborto é só uma história sobre aborto, e nenhuma experiência de violência de gênero </span><a href="https://diplomatique.org.br/quem-sao-elas-o-perfil-das-mulheres-que-abortam-no-brasil/"><span style="font-weight: 400;">é individualizada</span></a><span style="font-weight: 400;"> em seu alvo da vez. E as palavras de Annie Ernaux parecem ser as únicas possíveis para compreender que </span><i><span style="font-weight: 400;">O Acontecimento</span></i><span style="font-weight: 400;"> dela nunca foi – e nunca será – só dela.</span></p>
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		<title>50 anos de Construção: Deus lhe pague, Chico Buarque</title>
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		<pubDate>Sat, 19 Jun 2021 05:22:24 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p>Caroline Campos  O roteiro das aulas sobre a ditadura militar, traçado nas salas de Ensino Médio e cursinhos ao longo do país, é padronizado: em algum momento, quando introduzido os malabarismos para escapar da censura e as músicas de protesto contra o regime, Chico Buarque de Hollanda será citado. Será, no mínimo, mencionado – pode &#8230; <a href="http://personaunesp.com.br/chico-buarque-construcao-50-anos/" class="more-link">Continue lendo<span class="screen-reader-text"> "50 anos de Construção: Deus lhe pague, Chico Buarque"</span></a></p>
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										<content:encoded><![CDATA[<figure id="attachment_21238" aria-describedby="caption-attachment-21238" style="width: 1200px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-full wp-image-21238" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/06/chicobuarqueconstrucaolpcapa.jpg" alt="" width="1200" height="1200" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/06/chicobuarqueconstrucaolpcapa.jpg 1200w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/06/chicobuarqueconstrucaolpcapa-800x800.jpg 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/06/chicobuarqueconstrucaolpcapa-1024x1024.jpg 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/06/chicobuarqueconstrucaolpcapa-150x150.jpg 150w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/06/chicobuarqueconstrucaolpcapa-768x768.jpg 768w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 1362px) 62vw, 840px" /><figcaption id="caption-attachment-21238" class="wp-caption-text">A foto de Chico foi tirada por Carlos Leonam e enquadrada na arte de Aldo Luz, que também assinou a capa de Krig-ha, Bandolo de Raul Seixas (Foto: Philips)</figcaption></figure>
<p><b>Caroline Campos</b></p>
<p><span style="font-weight: 400;"> O roteiro das aulas sobre a </span><a href="https://carolacampos.medium.com/por-que-n%C3%A3o-devemos-comemorar-o-golpe-militar-de-64-cdf6adfc2c44"><span style="font-weight: 400;">ditadura militar</span></a><span style="font-weight: 400;">, traçado nas salas de Ensino Médio e cursinhos ao longo do país, é padronizado: em algum momento, quando introduzido os malabarismos para escapar da censura e as músicas de protesto contra o regime, </span><a href="https://universoretro.com.br/os-72-anos-de-chico-buarque-e-a-importancia-do-artista-para-a-musica-popular-brasileira/"><span style="font-weight: 400;">Chico Buarque de Hollanda</span></a><span style="font-weight: 400;"> será citado. Será, no mínimo, mencionado – pode anotar. Não é para menos, afinal, Chico integra a gama de </span><a href="https://personaunesp.com.br/falso-brilhante-45-anos/"><span style="font-weight: 400;">artistas brasileiros</span></a><span style="font-weight: 400;"> que sofreram com a repressão e a tesourada em suas composições para que se adequassem aos </span><i><span style="font-weight: 400;">bons princípios </span></i><span style="font-weight: 400;">dos governos militares. Mas o carioca tem um </span><i><span style="font-weight: 400;">quê</span></i><span style="font-weight: 400;"> especial.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Perseguido pelos milicos em meio aos devaneios do </span><i><span style="font-weight: 400;">“milagre econômico”</span></i><span style="font-weight: 400;"> da trupe de </span><a href="https://mundoeducacao.uol.com.br/historiadobrasil/generalemilio-garrastazu-medici.htm"><span style="font-weight: 400;">Médici</span></a><span style="font-weight: 400;">, a situação se tornou insustentável a ponto de, em 1969, </span><a href="https://m.folha.uol.com.br/ilustrada/2014/06/1472740-no-aniversario-de-chico-buarque-conheca-70-curiosidades-sobre-ele.shtml"><span style="font-weight: 400;">Chico Buarque</span></a><span style="font-weight: 400;"> deixar o Brasil e se instalar na Itália, em um </span><a href="https://www1.folha.uol.com.br/banco-de-dados/2020/03/1970-depois-de-14-meses-exilado-o-cantor-chico-buarque-esta-de-volta-ao-brasil.shtml"><span style="font-weight: 400;">autoexílio</span></a><span style="font-weight: 400;"> que durou pouco mais de um ano. O resultado de toda essa história </span><a href="https://www.bbc.com/portuguese/geral-56409701"><span style="font-weight: 400;">completa 50 anos em 2021</span></a><span style="font-weight: 400;">; quando o músico enfim retornou, no início da longa década de 70, trouxe com ele as letras daquele que se tornaria seu primeiro manifesto político. Nascia </span><i><span style="font-weight: 400;">Construção</span></i><span style="font-weight: 400;">.</span></p>
<p><span id="more-21234"></span></p>
<figure id="attachment_21236" aria-describedby="caption-attachment-21236" style="width: 2400px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-full wp-image-21236" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/06/15846426245e73ba40a6e96_1584642624_3x2_rt.jpg" alt="" width="2400" height="1600" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/06/15846426245e73ba40a6e96_1584642624_3x2_rt.jpg 2400w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/06/15846426245e73ba40a6e96_1584642624_3x2_rt-800x533.jpg 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/06/15846426245e73ba40a6e96_1584642624_3x2_rt-1024x683.jpg 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/06/15846426245e73ba40a6e96_1584642624_3x2_rt-768x512.jpg 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/06/15846426245e73ba40a6e96_1584642624_3x2_rt-1536x1024.jpg 1536w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/06/15846426245e73ba40a6e96_1584642624_3x2_rt-2048x1365.jpg 2048w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/06/15846426245e73ba40a6e96_1584642624_3x2_rt-1200x800.jpg 1200w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 1362px) 62vw, 840px" /><figcaption id="caption-attachment-21236" class="wp-caption-text">Chico Buarque retornou ao Brasil dia 20 de março de 1970, com a esposa Marieta Severo e a filha Silvia (Foto: Folha de S. Paulo)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">Lançado em 1971, </span><a href="https://vavel.media/br/2018/01/15/musica/868095-5-motivos-para-voc-escutar-o-album-construcao-de-chico-buarque.html"><span style="font-weight: 400;">o oitavo disco</span></a><span style="font-weight: 400;"> de um dos maiores cancionistas da história da música brasileira foi também o segundo gravado pela </span><i><span style="font-weight: 400;">Philips</span></i><span style="font-weight: 400;">, que pouco antes havia lançado </span><a href="https://www.youtube.com/watch?v=hpPmzIO7ehI"><i><span style="font-weight: 400;">Chico Buarque de Hollanda nº 4</span></i></a><span style="font-weight: 400;">. O sucesso de </span><a href="https://g1.globo.com/pop-arte/musica/blog/mauro-ferreira/post/2021/01/10/album-que-alicercou-obra-de-chico-buarque-ha-50-anos-construcao-retem-a-contundencia-de-1971.ghtml"><i><span style="font-weight: 400;">Construção</span></i></a><span style="font-weight: 400;">, no entanto,</span> <span style="font-weight: 400;">foi astronômico. A gravadora precisou terceirizar os concorrentes para dar conta da prensagem, resultado dos 140 mil discos vendidos só no primeiro mês. Aquele álbum de capa marrom e meia hora de duração bombou pelo país, levando o filho de </span><a href="http://desafios.ipea.gov.br/index.php?option=com_content&amp;view=article&amp;id=2252:catid=28&amp;Itemid=23"><span style="font-weight: 400;">Sérgio Buarque de Hollanda</span></a><span style="font-weight: 400;"> a reconfigurar a dinâmica do cenário político-cultural em um Brasil amordaçado pelo medo.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Chico Buarque era </span><a href="http://www.observatoriodaimprensa.com.br/diretorio-academico/a-censura-as-musicas-de-chico-buarque-na-ditadura-1964-1985/"><span style="font-weight: 400;">figurinha carimbada dos censores</span></a><span style="font-weight: 400;"> que rondavam o país do AI-5. Como a inteligência não era uma característica das patentes militares, as letras irônicas e provocativas do músico passavam despercebidas pelos oficiais, que não demoravam muito a perceber a burrada e voltar atrás nas decisões. </span><a href="http://www.chicobuarque.com.br/sanatorio/julinho.htm"><span style="font-weight: 400;">Julinho da Adelaide</span></a><span style="font-weight: 400;">, inclusive, nasceu nesse período como uma nova tentativa do carioca de driblar seus algozes. O carimbo de </span><i><span style="font-weight: 400;">vetado</span></i><span style="font-weight: 400;"> já era até familiar ao cantor. Foi assim com </span><a href="https://curitibadegraca.com.br/apesar-de-voce-chico-buarque/#:~:text=Chico%20Buarque%20comp%C3%B4s%20%E2%80%9CApesar%20de,falasse%20de%20um%20relacionamento%20amoroso&amp;text=%E2%80%9CApesar%20de%20voc%C3%AA%E2%80%9D%20foi%20composta,no%20auge%20da%20ditadura%20militar.&amp;text=Ela%20faz%20parte%20do%20disco,Buarque%E2%80%9D%2C%20lan%C3%A7ado%20em%201978."><i><span style="font-weight: 400;">Apesar de você</span></i></a><span style="font-weight: 400;">, foi assim com </span><a href="https://personaunesp.com.br/critica-clube-da-esquina/"><i><span style="font-weight: 400;">Cálice</span></i></a><span style="font-weight: 400;"> e, claro, foi assim com </span><i><span style="font-weight: 400;">Construção</span></i><span style="font-weight: 400;">.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Dentre suas dez faixas, o </span><a href="https://www.musicontherun.net/2016/06/discos-para-historia-construcao-chico-buarque-1971.html"><span style="font-weight: 400;">LP</span></a><span style="font-weight: 400;"> é marcado por um samba melancólico, tensionado pela própria realidade. Chico agoniza em suas melodias, construindo um paradoxo suave-agressivo para escancarar sua indignação em um disco indigesto, de um homem que enfrentou diretamente as consequências do</span><i><span style="font-weight: 400;"> ame-o ou deixe-o</span></i><span style="font-weight: 400;"> e ainda regurgitava em cima das lembranças do exílio. </span><a href="http://www.aescotilha.com.br/musica/vitrola/chico-buarque-talento-censura-e-os-45-anos-de-construcao/"><i><span style="font-weight: 400;">Construção</span></i><span style="font-weight: 400;"> elevou os parâmetros</span></a><span style="font-weight: 400;">, aumentou as apostas, e, com seu pulso político firme, vibrante e vivo, uniu uma estética artística especialmente coesa e centrada ao grito de guerra entalado na garganta da Liberdade.</span></p>
<figure id="attachment_21237" aria-describedby="caption-attachment-21237" style="width: 840px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="wp-image-21237 size-large" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/06/117600243-265b43fb-11b0-4f6a-bb11-a11608050ce4-851x1024.jpg" alt="" width="840" height="1011" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/06/117600243-265b43fb-11b0-4f6a-bb11-a11608050ce4-851x1024.jpg 851w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/06/117600243-265b43fb-11b0-4f6a-bb11-a11608050ce4-665x800.jpg 665w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/06/117600243-265b43fb-11b0-4f6a-bb11-a11608050ce4-768x924.jpg 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/06/117600243-265b43fb-11b0-4f6a-bb11-a11608050ce4.jpg 984w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 1362px) 62vw, 840px" /><figcaption id="caption-attachment-21237" class="wp-caption-text">Cordão foi uma das centenas de músicas de Chico Buarque vetadas pelos censores (Foto: Arquivo Nacional)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">Composto ao lado de </span><a href="http://culturabrasil.cmais.com.br/playlists/as-raras-parcerias-de-vinicius#:~:text=Outro%20nome%20da%20MPB%20que,Valsinha%22%20e%20%22Desalento%22.&amp;text=O%20encontro%20para%20Vinicius%20nunca%20passava%20em%20branco."><span style="font-weight: 400;">Vinícius de Moraes</span></a><span style="font-weight: 400;">, Tom Jobim e Toquinho, </span><a href="http://sitenocenaculo.com.br/construcao-de-chico-buarque-completa-50-anos-ainda-atual-contra-o-arbitrio/"><span style="font-weight: 400;">o álbum</span></a><span style="font-weight: 400;"> também contou com a direção musical de </span><a href="https://g1.globo.com/pop-arte/musica/blog/mauro-ferreira/post/2021/03/24/chico-buarque-exalta-o-talento-de-magro-em-tributo-ao-arranjador-do-mpb4.ghtml"><span style="font-weight: 400;">Magro</span></a><span style="font-weight: 400;">, do quarteto </span><a href="https://www.youtube.com/watch?v=3ALZNNUQdYM"><span style="font-weight: 400;">MPB4</span></a><span style="font-weight: 400;">, e arranjos do maestro tropicalista </span><a href="https://www.nexojornal.com.br/podcast/2018/06/08/Qual-a-import%C3%A2ncia-de-Rog%C3%A9rio-Duprat-o-maestro-arranjador-da-Tropic%C3%A1lia"><span style="font-weight: 400;">Rogério Duprat</span></a><span style="font-weight: 400;">. Chico estava, sem dúvidas, bem acompanhado. Assim, é </span><i><span style="font-weight: 400;">Deus Lhe Pague</span></i><span style="font-weight: 400;"> que abre o disco, com uma sonoridade quase sombria e um vocal sóbrio e ecoado. A canção funciona como um sátira, alegorizando um agradecimento aos generais </span><i><span style="font-weight: 400;">por me deixar respirar, por me deixar existir</span></i><span style="font-weight: 400;">.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Apesar de separadas por duas outras músicas, </span><a href="https://www.youtube.com/watch?v=rxiafycMSTY&amp;list=PLVnkoLiLMTm6iJV3-bYN6I5lwBBJZLOQy&amp;index=1"><i><span style="font-weight: 400;">Deus Lhe Pague</span></i></a> <span style="font-weight: 400;">e </span><a href="https://www.youtube.com/watch?v=wBfVsucRe1w&amp;list=PLVnkoLiLMTm6iJV3-bYN6I5lwBBJZLOQy&amp;index=4"><i><span style="font-weight: 400;">Construção</span></i></a><span style="font-weight: 400;"> são irmãs de luta e sangue. Ambas foram orquestradas por Duprat, que dá a suas óperas tons crescentes conforme os versos vão ficando cada vez mais fechados, claustrofóbicos. </span><i><span style="font-weight: 400;">Construção</span></i><span style="font-weight: 400;">, a faixa que deu título ao álbum, é inigualável – em 2009, a canção estampou o </span><a href="https://rollingstone.uol.com.br/edicao/37/noticia-3939/"><span style="font-weight: 400;">primeiro lugar da lista de melhores músicas brasileiras</span></a><span style="font-weight: 400;"> da revista </span><i><span style="font-weight: 400;">Rolling Stone</span></i><span style="font-weight: 400;">. Ela se costura à primeira em seus versos finais, que reprisa as sentenças acusatórias depois de uma narrativa extremamente bem delineada entre as composições nacionais.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Foi nos mais de </span><a href="https://comunicacaoescrita.com/analise-construcao-chico-buarque/"><span style="font-weight: 400;">seis minutos de </span><i><span style="font-weight: 400;">Construção</span></i></a><span style="font-weight: 400;"> que Chico Buarque contou a história de um dos milhares de trabalhadores urbanos da década de 70. O suposto milagre econômico durante o período propulsionou o setor da construção civil, mobilizando um batalhão de operários-máquinas para erguer prédios nas grandes cidades. A vida descartável desses homens foi o motor da </span><a href="http://artecult.com/musica-poesia-construcao/"><span style="font-weight: 400;">composição buarqueana</span></a><span style="font-weight: 400;">, que conta com versos alexandrinos, de 12 sílabas, todos terminados em palavras proparoxítonas, que rimam apenas em decorrência da sílaba tônica.</span></p>
<div class="jetpack-video-wrapper"><iframe loading="lazy" title="Construção | Chico Buarque (Vídeo Oficial)" width="840" height="630" src="https://www.youtube.com/embed/suia_i5dEZc?feature=oembed" frameborder="0" allow="accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share" referrerpolicy="strict-origin-when-cross-origin" allowfullscreen></iframe></div>
<p><span style="font-weight: 400;">Além da métrica incomparável da faixa, </span><a href="https://canalcienciascriminais.jusbrasil.com.br/artigos/637733133/construcao-chico-buarque-e-a-desconstrucao-do-ser"><span style="font-weight: 400;">Chico cria um jogo de palavras</span></a><span style="font-weight: 400;"> que trocam de lugar e vão se encaixando em novas posições, enquanto o cantor repete, três vezes, a mesma história sem estampar, propositalmente, sensibilidade pelo fato –</span><i><span style="font-weight: 400;"> morreu na contramão atrapalhando o</span></i> <i><span style="font-weight: 400;">tráfego, o</span></i> <i><span style="font-weight: 400;">público, o</span></i> <i><span style="font-weight: 400;">sábado</span></i><span style="font-weight: 400;">. Sua vida é insignificante, sua morte é indigna de atenção. </span><i><span style="font-weight: 400;">Construção </span></i><span style="font-weight: 400;">dói, assusta e revolta; não é à toa que a música é </span><a href="https://www.ufrgs.br/jornal/tijolos-de-um-pais-em-construcao-em-chico-buarque/"><span style="font-weight: 400;">estudada para vestibulares</span></a><span style="font-weight: 400;">, analisada por pesquisadores e ouvida sagradamente pelos apaixonados pelo Buarque-filho.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">O disco chegou </span><i><span style="font-weight: 400;">quase </span></i><span style="font-weight: 400;">integralmente às lojas. </span><a href="https://www.youtube.com/watch?v=6OoyRyePx6o&amp;list=PLVnkoLiLMTm6iJV3-bYN6I5lwBBJZLOQy&amp;index=7"><i><span style="font-weight: 400;">Samba de Orly</span></i></a><span style="font-weight: 400;">, que foi escrita com Toquinho e Vinícius de Moraes, precisou passar por adaptações para conseguir a aprovação dos censores. </span><i><span style="font-weight: 400;">Pela omissão, um tanto forçada</span></i><span style="font-weight: 400;"> se tornou </span><i><span style="font-weight: 400;">pela duração, dessa temporada</span></i><span style="font-weight: 400;">, que é especificamente o verso que Vinícius contribuiu à faixa. Mesmo sendo o samba mais animado de </span><i><span style="font-weight: 400;">Construção</span></i><span style="font-weight: 400;">, a vividez dos instrumentos disfarça o fato de ter sido feito ainda na Itália, como se o carioca exilado enviasse suas lembranças à Cidade Maravilhosa, cheio de saudade de casa. </span></p>
<p><a href="https://www.youtube.com/watch?v=XjWSYQwR-4I&amp;list=PLVnkoLiLMTm6iJV3-bYN6I5lwBBJZLOQy&amp;index=3"><i><span style="font-weight: 400;">Desalento</span></i></a><span style="font-weight: 400;">, por sua vez, foi órfã de outro trabalho. No começo de 1970, Chico lançou um compacto com duas músicas, </span><a href="https://www.youtube.com/watch?v=LZJ6QGSpVSk"><i><span style="font-weight: 400;">Apesar de você</span></i></a><span style="font-weight: 400;"> e </span><i><span style="font-weight: 400;">Desalento</span></i><span style="font-weight: 400;">. Comicamente, o registro foi liberado pela censura, que não sacou a acidez impenetrável da primeira canção. Quando os militares voltaram atrás, apenas a parceira ganhou passe livre para integrar o disco posterior. Assim como </span><a href="https://www.youtube.com/watch?v=SyDrAH5jrqw&amp;list=PLVnkoLiLMTm6iJV3-bYN6I5lwBBJZLOQy&amp;index=6"><i><span style="font-weight: 400;">Olha Maria (Amparo)</span></i></a><span style="font-weight: 400;">, que tem piano de </span><a href="https://cultura.uol.com.br/radio/programas/tom-jobim/2021/02/19/21_as-parcerias-de-tom-jobim-com-vinicius-de-moraes-e-chico-buarque.html"><span style="font-weight: 400;">Tom Jobim</span></a><span style="font-weight: 400;"> e parceria com Moraes, </span><i><span style="font-weight: 400;">Desalento</span></i><span style="font-weight: 400;"> não possui nenhuma roupagem política bem definida, mas a atmosfera desiludida e abatida de ambas as faixas refletiam muito do sentimento geral da população brasileira.</span></p>
<figure id="attachment_21235" aria-describedby="caption-attachment-21235" style="width: 1600px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-full wp-image-21235" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/06/MPB-4-2.jpg" alt="" width="1600" height="1040" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/06/MPB-4-2.jpg 1600w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/06/MPB-4-2-800x520.jpg 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/06/MPB-4-2-1024x666.jpg 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/06/MPB-4-2-768x499.jpg 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/06/MPB-4-2-1536x998.jpg 1536w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/06/MPB-4-2-1200x780.jpg 1200w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 1362px) 62vw, 840px" /><figcaption id="caption-attachment-21235" class="wp-caption-text">Chico era quase o quinto membro do grupo MPB4, tanto que <span style="font-weight: 400;">s vozes do conjunto aparecem nas músicas Deus lhe Pague, Desalento, Construção, Samba de Orly e Minha História </span>(Foto: <a href="https://acervofolha.blogfolha.uol.com.br/2017/10/21/ha-50-anos-festival-da-tv-record-reuniu-roberto-carlos-gil-caetano-e-chico-e-deu-novo-rumo-a-mpb/">Folha de S. Paulo</a>)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">Se de um lado Chico constrói músicas explicitamente críticas e do outro ele cria melodias românticas mais suaves, o que há no meio? A resposta é </span><a href="https://www.youtube.com/watch?v=cPxuSErXvsQ&amp;list=PLVnkoLiLMTm6iJV3-bYN6I5lwBBJZLOQy&amp;index=5"><i><span style="font-weight: 400;">Cordão</span></i></a><span style="font-weight: 400;">, a quinta entre as dez canções do LP. Sutil e amena à primeira vista, é repetindo a afirmação de </span><i><span style="font-weight: 400;">que ninguém vai me acorrentar enquanto eu puder cantar</span></i><span style="font-weight: 400;"> que Chico ganhou mais um carimbo de </span><i><span style="font-weight: 400;">vetado</span></i><span style="font-weight: 400;"> do governo. </span><i><span style="font-weight: 400;">Nas grades do coração </span></i><span style="font-weight: 400;">teve que se transformar em </span><i><span style="font-weight: 400;">as portas do coração</span></i><span style="font-weight: 400;">, e </span><i><span style="font-weight: 400;">Cordão </span></i><span style="font-weight: 400;">foi considerada um protesto contra a ordem vigente, mesmo com suas múltiplas interpretações.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Independente das músicas serem analisadas em grupo ou individualmente, não se pode separá-las da obra como um todo. Cada escolha musical e narrativa de </span><i><span style="font-weight: 400;">Construção </span></i><span style="font-weight: 400;">equivale a um alicerce que mantém o disco de pé meio século após seu lançamento. A coerência estética e temática de Chico Buarque é como uma criatura ainda viva, se alimentando dos rumos do país que a criou, ora debochando, ora estrebuchando.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">A própria </span><a href="https://www.youtube.com/watch?v=dHYOVuq_Fco&amp;list=PLVnkoLiLMTm6iJV3-bYN6I5lwBBJZLOQy&amp;index=2"><i><span style="font-weight: 400;">Cotidiano</span></i></a><span style="font-weight: 400;">, que viria a se tornar um dos maiores clássicos da discografia de Buarque, é desenvolvida com ironia repetitiva para relatar a rotina entediada da vida de um casal comum. Brincando com construções iniciadas por </span><i><span style="font-weight: 400;">todo dia</span></i><span style="font-weight: 400;">, </span><i><span style="font-weight: 400;">Cotidiano </span></i><span style="font-weight: 400;">serve para cansar – cansar o cantor, o ouvinte e os personagens. E, claro, isso é o que torna a música ainda mais atraente, principalmente quando contraposta com o romantismo breve e idealizado de </span><a href="https://www.youtube.com/watch?v=RhLJFYwutUs&amp;list=PLVnkoLiLMTm6iJV3-bYN6I5lwBBJZLOQy&amp;index=8"><i><span style="font-weight: 400;">Valsinha</span></i></a><span style="font-weight: 400;">.</span></p>
<div class="jetpack-video-wrapper"><iframe loading="lazy" title="Re: CHICO BUARQUE toquinho samba de orly" width="840" height="630" src="https://www.youtube.com/embed/68m7W9cVup4?feature=oembed" frameborder="0" allow="accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share" referrerpolicy="strict-origin-when-cross-origin" allowfullscreen></iframe></div>
<p><a href="https://www.youtube.com/watch?v=gZEivZvGohs&amp;list=PLVnkoLiLMTm6iJV3-bYN6I5lwBBJZLOQy&amp;index=9"><i><span style="font-weight: 400;">Minha História</span></i></a><span style="font-weight: 400;">, versão de </span><a href="https://www.youtube.com/watch?v=bL3b2qLrRdw"><i><span style="font-weight: 400;">Gesù Bambino</span></i></a><span style="font-weight: 400;">, dos italianos Lucio Dalla e Paola Pallottino, abre os caminhos para a finalização de </span><i><span style="font-weight: 400;">Construção</span></i><span style="font-weight: 400;">, mas por se tratar de uma letra que referenciava Jesus em meio a </span><i><span style="font-weight: 400;">ladrões e amantes</span></i><span style="font-weight: 400;"> – afinal, segundo a Bíblia, Jesus andou entre soldados e governantes, não é? –, o nome de </span><i><span style="font-weight: 400;">Menino Jesus </span></i><span style="font-weight: 400;">foi barrado. Depois de tanta dureza, não é de se surpreender que Chico opte por finalizar seu disco com um </span><a href="https://www.youtube.com/watch?v=TdtLk3005BM&amp;list=PLVnkoLiLMTm6iJV3-bYN6I5lwBBJZLOQy&amp;index=10"><i><span style="font-weight: 400;">Acalanto</span></i></a><span style="font-weight: 400;">, feito para sua filha Helena, na época com um ano. Mesmo com o tom lúdico e sereno, o recado do compositor está claro: </span><i><span style="font-weight: 400;">não vale a pena despertar</span></i><span style="font-weight: 400;">. Não nesse mundo, não nesse país.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Há muito ainda o que se discutir sobre </span><i><span style="font-weight: 400;">Construção</span></i><span style="font-weight: 400;">. </span><a href="https://g1.globo.com/pop-arte/musica/blog/mauro-ferreira/post/2018/05/01/construcao-album-que-expos-evolucao-poetica-de-chico-e-relancado-em-lp.ghtml"><span style="font-weight: 400;">50 anos depois</span></a><span style="font-weight: 400;">, em um Brasil que teima em eleger generais, que sustenta um genocida responsável por quase 500 mil mortes, não é à toa que </span><a href="http://www.chicobuarque.com.br/texto/entrevistas/entre_realidade.htm"><span style="font-weight: 400;">Chico</span></a><span style="font-weight: 400;"> esteja guardado a sete chaves dentro de sua casa. O registro buarqueano pertence, mais do que nunca, à atualidade. O Brasil ainda está em construção, e seus tijolos, infelizmente, são erguidos com o sangue do próprio povo. Mas amanhã vai ser outro dia.</span></p>
<p><iframe loading="lazy" title="Spotify Embed: Construção" width="100%" height="380" allowtransparency="true" frameborder="0" allow="encrypted-media" src="https://open.spotify.com/embed/album/7yrRo2o4XzDfv3mNnkPRE5"></iframe></p>
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