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	<title>Arquivos Ciência &#8211; Persona | Jornalismo Cultural</title>
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	<description>Desde 2015 provando que a distância entre Bergman, Lady Gaga e a novela das 9 nem existe.</description>
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		<title>Dentro de si, escute as feras: entre a autobiografia e a etnografia de Nastassja Martin</title>
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		<pubDate>Thu, 27 Apr 2023 20:51:11 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p>Enzo Caramori Outono. Todo encontro com o Outro revela-se como uma experiência de arrebatamento: da violência de deixar um pedaço de si e desprender-se da unidade do Eu ao movimento da alteridade de achar-se nos olhos do desconhecido. No caso da antropóloga Nastassja Martin, ressonante no livro Escute as feras, a experiência é do deslumbramento &#8230; <a href="http://personaunesp.com.br/escute-as-feras/" class="more-link">Continue lendo<span class="screen-reader-text"> "Dentro de si, escute as feras: entre a autobiografia e a etnografia de Nastassja Martin"</span></a></p>
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										<content:encoded><![CDATA[<figure id="attachment_30726" aria-describedby="caption-attachment-30726" style="width: 800px" class="wp-caption aligncenter"><img fetchpriority="high" decoding="async" class="size-medium wp-image-30726" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/04/ESCUTEASFERAS_WORDPRESS-800x420.png" alt="Imagem retangular de fundo branco. No canto superior, está centralizado a logo do Persona, um olho com íris na cor cinza e pupila em preto no formato triangular de play. Ao lado da logo, está o selo “Clube do Livro” em letras transparentes colocadas sobre um fundo preto. Abaixo está escrito “Dentro de si, escute as feras: entre a autobiografia e a etnografia de Nastassja Martin” em letras pretas, sendo &quot;escute as feras&quot; em letras cinzas. Mais abaixo, no canto esquerdo, há a capa do livro cujo fundo é branco. Na parte superior direita da capa, há o nome da autora Nastassja Martin escrito em letras pretas. Na parte superior esquerda, há o título do livro “Escute as Feras” escrito em letras pretas. Mais abaixo, está uma ilustração de um borrão preto com uma silhueta similar ao de um urso. Ao lado direito da imagem da capa, está o escrito &quot;Ao encontrarem-se uma no olhar da outra, a antropóloga e a ursa, próximas a um vulcão no extremo leste siberiano, marcam mutuamente os seus destinos e fundem a condição de fera e humana.&quot; em letras pretas. Abaixo do texto está escrito “Por&quot; em letras pretas e &quot;Enzo Caramori&quot; em letras cinzas." width="800" height="420" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/04/ESCUTEASFERAS_WORDPRESS-800x420.png 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/04/ESCUTEASFERAS_WORDPRESS-768x404.png 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/04/ESCUTEASFERAS_WORDPRESS.png 1024w" sizes="(max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 984px) 61vw, (max-width: 1362px) 45vw, 600px" /><figcaption id="caption-attachment-30726" class="wp-caption-text">Nastassja Martin esteve na programação principal da 20ª Flip junto a Tamara Klink na mesa ‘‘<a href="https://www.youtube.com/watch?v=Gcn42bH6IkA">Desterrando o susto</a>’’, e seu Escute as feras foi a leitura do Clube do Livro do Persona em Fevereiro (Foto: Editora 34/Arte: Ana Cegatti)</figcaption></figure>
<p><b>Enzo Caramori</b></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Outono. Todo encontro com o Outro revela-se como uma experiência de arrebatamento: da violência de deixar um pedaço de si e desprender-se da unidade do Eu ao movimento da alteridade de achar-se nos olhos do desconhecido. No caso da antropóloga </span><a href="https://quatrocincoum.folha.uol.com.br/br/noticias/flip/cinco-curiosidades-sobre-nastassja-martin"><span style="font-weight: 400;">Nastassja Martin</span></a><span style="font-weight: 400;">, ressonante no livro </span><a href="https://www.editora34.com.br/detalhe.asp?id=1111&amp;busca=escute%20as%20feras"><i><span style="font-weight: 400;">Escute as feras</span></i></a><span style="font-weight: 400;">, a experiência é do deslumbramento de um beijo e da brutalidade de um ataque e contra-ataque. Ao encontrarem-se uma no olhar da outra, a antropóloga e a ursa, próximas a um vulcão no extremo leste siberiano, marcam mutuamente os seus destinos e fundem a condição de fera e humana.</span></p>
<p><span id="more-30721"></span></p>
<p><a href="https://leituras.org/escute/"><span style="font-weight: 400;">Ursa-mulher e mulher-ursa</span></a><span style="font-weight: 400;">, uma foge para dentro da bruma, com pedaços de uma mandíbula e ferida por um quebra-gelo; a outra, guarda-se na neve, vermelha de seu próprio sangue. Na falta do que se doou na troca desse primal encontro, refunda-se um sistema de crenças de povos como os </span><a href="https://www.editionsladecouverte.fr/a_l_est_des_reves-9782359251241#:~:text=Apr%C3%A8s%20avoir%20travaill%C3%A9,monde%20sa%20vitalit%C3%A9."><i><span style="font-weight: 400;">evenki</span></i></a><span style="font-weight: 400;"> – estudados por Martin em 2015, quando é desfigurada – em que a predestinação do enlace de seus destinos é a base do exercício da vida, animal e humana, em comunidade. </span></p>
<p><i><span style="font-weight: 400;">Escute as feras, </span></i><span style="font-weight: 400;">trazido ao Brasil pela tradução de Camila Boldrini e Daniel Lühmanné, é regido pelo atrito que a própria autora estabelece entre si mesma e sua imersão em modelos de visualização da vida vinculados ao </span><a href="https://www1.folha.uol.com.br/fsp/ilustrad/fq1010200620.htm"><span style="font-weight: 400;">animismo</span></a><span style="font-weight: 400;">: uma união do ambiente e da existência humana e animal em um único fluxo vital. </span><span style="font-weight: 400;">“</span><i><span style="font-weight: 400;">Miêdka”</span></i><span style="font-weight: 400;"> e “</span><i><span style="font-weight: 400;">matukha”</span></i><span style="font-weight: 400;"> são termos do idioma </span><i><span style="font-weight: 400;">even</span></i><span style="font-weight: 400;"> que identificam sua condição de sobrevivência e transmutação, após o enfrentamento com o urso, à situação anormal de humanidade que lhe é atribuída. À </span><a href="https://erratanaturae.com/autores/nastassja-martin/"><span style="font-weight: 400;">antropóloga</span></a><span style="font-weight: 400;">, esse estado de pária estrutura uma mudança na maneira que enxerga a si mesma – em um espaço de excepcionalidade, um tanto </span><a href="https://www.newyorker.com/books/page-turner/learning-to-love-the-bear-that-attacked-you#:~:text=I%20assumed%20that,of%20her%20experience."><span style="font-weight: 400;">inadequado</span></a><span style="font-weight: 400;"> ao seu desenvolvimento de pesquisadora –, que altera o tom etnográfico para, também, hibridizar o texto.</span></p>
<figure id="attachment_30723" aria-describedby="caption-attachment-30723" style="width: 800px" class="wp-caption aligncenter"><img decoding="async" class="size-medium wp-image-30723" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/04/martinmartin-1-800x471.jpg" alt="Foto em preto e branco da antropóloga Nastassja Martin. No primeiro plano, uma mulher branca, de cabelos loiros presos em um coque desarrumado que cai em sua nuca. Ela olha ao horizonte e está vestida com uma blusa clara e um casaco, similar a uma jaqueta, preto. Ao fundo, montanhas rochosas e um céu nebuloso." width="800" height="471" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/04/martinmartin-1-800x471.jpg 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/04/martinmartin-1-1024x602.jpg 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/04/martinmartin-1-768x452.jpg 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/04/martinmartin-1-1200x706.jpg 1200w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/04/martinmartin-1.jpg 1224w" sizes="(max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 984px) 61vw, (max-width: 1362px) 45vw, 600px" /><figcaption id="caption-attachment-30723" class="wp-caption-text">Orientada pelo antropólogo Philippe Descola, Nastassja Martin escreve sua tese de doutorado sobre o povo Gwich’in, do Alasca (Foto: Alexandre Lacroix)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">Estilisticamente, Martin constrói um registro experimental e total do que se dedicou a analisar, no exercício de sua ciência, e de suas inscrições sensíveis aos acontecimentos, meticulosamente medidas pela sua escrita. Entre a etnografia e a autobiografia, a metodologia de Martin é o cruzamento de dois cadernos de viagem, descritos como diurno e noturno. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">O primeiro tem suas páginas preenchidas por notas de viagem, fragmentos do que percebe em sua imersão com os </span><i><span style="font-weight: 400;">even </span></i><span style="font-weight: 400;">e a desperta atenção, mesmo com todos os dilemas que atravessam a etnografia. O segundo é do âmbito da </span><a href="https://www.youtube.com/watch?v=D7Z6AZnD9hc"><span style="font-weight: 400;">escrita do sonho</span></a><span style="font-weight: 400;">, que evoca o íntimo e o exterior numa poética de imagens quase ritualísticas, como pinturas rupestres que reincidem um mundo do sentimento selvagem e da máxima expressão da vida, na igualdade da relação animal ou humana. São contrastes significativos tanto em sua maneira de visualização do mundo e de sua própria sobrevivência que, na narrativa, não se institui de uma moralização da violência nem de um arco de redenção; quanto de sua escrita: variável de momentos cirúrgicos de descrição a até fluxos bestiais e oníricos de prosa.</span></p>
<blockquote>
<p style="text-align: left;"><span style="font-weight: 400;">‘‘Fantasmático do desejo próprio às florestas, aos predadores solitários, à sua raiva, ao seu orgulho e à sua vigília. Tensão de seus encontros inesperados, inconfessáveis, improváveis, em devir, no entanto. Porque sozinhos eles se perdem, porque sozinhos eles se fecham, porque sozinhos eles esquecem. O cruzamento de seus olhares os salva de si mesmos ao projetá-los na alteridade daquele que os enfrenta. O cruzamento de seus olhares os mantém vivos.’’</span></p>
</blockquote>
<p><span style="font-weight: 400;">Na dualidade estabelecida à estrutura de seu texto, a autora mobiliza a etnografia para a escrita de si quando desafiada a </span><a href="https://www.philomag.com/articles/nastassja-martin-je-minteresse-la-possibilite-dune-metamorphose"><span style="font-weight: 400;">redescobrir</span></a><span style="font-weight: 400;"> a si mesma – com seu rosto desfigurado, do qual a ursa tomou-lhe parte da maçã do rosto e da mandíbula –, nesse novo território tomado de tensões: o seu próprio corpo. As questões psicológicas que a atravessam durante transferências incessantes por antigos hospitais da antiga ordem soviética, onde é posta à selvageria dos procedimentos médicos e legais envolvendo nacionalidade e gênero, é onde pensa um motivo maior a seu fatal encontro, que lhe propõe um </span><a href="https://www1.folha.uol.com.br/colunas/mariosergioconti/2021/10/antropologa-perdoa-urso-que-a-atacou-em-livro-que-iguala-homens-e-animais.shtml"><span style="font-weight: 400;">novo significado</span></a><span style="font-weight: 400;"> por ainda estar viva. Portanto, no equívoco de sua epistemologia mas no exercício de uma liricidade autobiográfica, a evidente marca deixada pela espécie companheira à crença </span><i><span style="font-weight: 400;">even </span></i><span style="font-weight: 400;">é mais uma oportunidade individual de entender-se do que realmente uma maneira de debruçar-se sobre sua estrutura de pesquisa.</span></p>
<figure id="attachment_30724" aria-describedby="caption-attachment-30724" style="width: 800px" class="wp-caption aligncenter"><img decoding="async" class="size-full wp-image-30724" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/04/The-Bear.jpg" alt="Rascunho feito a grafite pelo artista expressionista Edvard Munch. Na esquerda, observa-se um vulto de uma mulher ajoelhada abraçando um urso, não preenchido, o que lhe dá a impressão de ser branco ou claro. Os traços de grafites são evidentes. À direita, observa-se uma figura parecida, no entanto a mulher está mais agachada e abraça um urso agora escuro, negro, preenchdio pelo grafite." width="800" height="607" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/04/The-Bear.jpg 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2023/04/The-Bear-768x583.jpg 768w" sizes="(max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 984px) 61vw, (max-width: 1362px) 45vw, 600px" /><figcaption id="caption-attachment-30724" class="wp-caption-text">‘‘Há tempos vim preparando o terreno que me levaria até a boca do urso, em direção ao seu beijo’’ (Arte: Edvard Munch)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">Ainda é tempo das mitologias. Existe, nos gestos conflitantes do enquadramento de seu encontro com a ursa — muitas vezes descrito enquanto um abraço e um beijo — uma determinada </span><a href="https://thebaffler.com/latest/bear-witness-goldman"><span style="font-weight: 400;">eroticidade</span></a><span style="font-weight: 400;"> que parte da percepção de uma afetação, para além de necessariamente, de afeto, na qual a violência torna-se um espaço de proximidade inigualável. Se </span><i><span style="font-weight: 400;">Escute as feras </span></i><span style="font-weight: 400;">é uma fábula calculada nesses contrastes e escrita sobre a tradição indígena do sonho explorada por Ailton Krenak e pelas filosofias yanomami estudadas por </span><a href="https://gamarevista.uol.com.br/semana/sonhou-com-o-que/hanna-limulja-fala-da-cultura-yanomami-a-partir-de-seus-sonhos/"><span style="font-weight: 400;">Hanna Limulja</span></a><span style="font-weight: 400;">, sua moral naturalmente reivindica outros modos de vida, ou, como colocado pela pensadora </span><a href="https://personaunesp.com.br/eo-critica/#:~:text=pensadora%20Donna%20Haraway"><span style="font-weight: 400;">Donna Haraway</span></a><span style="font-weight: 400;">, uma &#8220;</span><i><span style="font-weight: 400;">autre-mondialisation</span></i><span style="font-weight: 400;">&#8221; (outra-mundialização). </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Quando o pulso ferino de primalidade toma conta da experimentação de Nastassja Martin, é pela memória que constrói um espaço conjunto e verdadeiro. Aquele que, como nas imagens feitas a dedo em escuras grutas, remonta um </span><a href="https://autonomialiteraria.com.br/sonho-de-outras-feras/"><span style="font-weight: 400;">passado mágico</span></a><span style="font-weight: 400;"> e possível, por outros exercícios de fazer o mundo, onde a técnica não colocou um corpo acima do outro, uma mulher abaixo de um homem e um humano-bixo acima de outras vidas.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Escavar o susto é, para essa </span><a href="https://12ft.io/proxy?q=https%3A%2F%2Fwww1.folha.uol.com.br%2Filustrada%2F2021%2F12%2Fescute-as-feras-nos-desperta-o-desejo-de-conhecer-um-urso.shtml"><span style="font-weight: 400;">narrativa de sobrevivência</span></a><span style="font-weight: 400;"> tomada de divagações — importantes para a composição do retrato sensível de si mesma —, encontrar sua própria essência, ao mesmo tempo que acessa a realidade antropológica da península de </span><span style="font-weight: 400;"> Kamtchátka, o lugar de</span><span style="font-weight: 400;"> seus estudos. Para a mitologia </span><i><span style="font-weight: 400;">even, </span></i><span style="font-weight: 400;">o olhar do urso em si não é perigoso pela tentativa de vingança do antropocentrismo ou do domínio de um espaço vital, mas sim pelo fato de que, nos olhos da animalidade humana, as outras formas de vida encontram-se e entendem a si próprias em sua condição de alteridade. </span><a href="https://www.nytimes.com/2021/11/24/books/review-in-eye-of-wild-nastassja-martin.html"><span style="font-weight: 400;">A ursa</span></a><span style="font-weight: 400;"> é tanto atacada por Nastassja – uma fera, em seus próprio papel – quanto devolve o susto, em uma metáfora da vida real sobre o misterioso assombro que é entender a si no outro.</span></p>
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		<title>O Filho das Monarcas tem uma herança de transformação</title>
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					<description><![CDATA[<p>Raquel Dutra A metamorfose de Filho das Monarcas é sugerida desde sua primeira cena. Quando um pesquisador curioso rompe cuidadosamente o casulo de uma borboleta logo antes de uma voz ancestral explicar um dos muitos significados atribuídos àquele processo, Alexis Gambis sussurra ao público da 45ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo que sua &#8230; <a href="http://personaunesp.com.br/o-filho-das-monarcas-critica/" class="more-link">Continue lendo<span class="screen-reader-text"> "O Filho das Monarcas tem uma herança de transformação"</span></a></p>
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										<content:encoded><![CDATA[<figure id="attachment_24434" aria-describedby="caption-attachment-24434" style="width: 2000px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-full wp-image-24434" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/11/monarcas-1.jpg" alt="Cena do filme Filho das Monarcas." width="2000" height="857" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/11/monarcas-1.jpg 2000w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/11/monarcas-1-800x343.jpg 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/11/monarcas-1-1024x439.jpg 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/11/monarcas-1-768x329.jpg 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/11/monarcas-1-1536x658.jpg 1536w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/11/monarcas-1-1200x514.jpg 1200w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 1362px) 62vw, 840px" /><figcaption id="caption-attachment-24434" class="wp-caption-text">A produção realizada entre México e Estados Unidos é parte da seção Perspectiva Internacional da 45ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo (Foto: Wide Management)</figcaption></figure>
<p><b>Raquel Dutra</b></p>
<p><span style="font-weight: 400;">A metamorfose de </span><i><span style="font-weight: 400;">Filho das Monarcas</span></i><span style="font-weight: 400;"> é sugerida desde sua primeira cena. Quando um pesquisador curioso rompe cuidadosamente o casulo de uma borboleta logo antes de uma voz ancestral explicar um dos muitos significados atribuídos àquele processo, Alexis Gambis sussurra ao público da 45ª </span><a href="https://personaunesp.com.br/tag/mostra-internacional-de-cinema-em-sao-paulo/"><span style="font-weight: 400;">Mostra Internacional</span></a><span style="font-weight: 400;"> de Cinema em São Paulo que sua história existirá em </span><a href="https://variety.com/2021/film/reviews/son-of-monarchs-review-1235091465/"><span style="font-weight: 400;">algum lugar entre as ideias</span></a><span style="font-weight: 400;"> de modernidade e tradição, ciência e arte, natureza e tecnologia, relações e separações, mudanças e raízes.</span></p>
<p><span id="more-24433"></span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">O gancho de </span><i><span style="font-weight: 400;">Filho das Monarcas</span></i><span style="font-weight: 400;"> &#8211; e apenas ele &#8211; é simples: a obra relaciona os significados do </span><a href="https://companhiadeviagem.blogosfera.uol.com.br/2015/03/20/conheca-a-fantastica-migracao-das-borboletas-monarcas/"><span style="font-weight: 400;">processo migratório</span></a><span style="font-weight: 400;"> de uma espécie de borboleta repleta de sentidos para a cultura latino-americana com as experiências e ciclos da existência humana. O vetor dessa transmutação narrativa é Mendel (Tenoch Huerta Mejía), um biólogo mexicano vivendo em Nova York que precisa retornar à sua cidade natal, situada nas </span><a href="https://www.maxmilhas.com.br/blog/colunista/festa-no-ceu-do-santuario-das-borboletas-monarca-mexico"><span style="font-weight: 400;">florestas de borboletas de Michoacán</span></a><span style="font-weight: 400;">. O motivo é dizer adeus à sua avó, que foi responsável pela criação dele e de seu irmão Simón (Noé Hernández) depois da morte de seus pais em uma enchente de uma mina na região, e a consequência é enfrentar traumas do passado e lidar com o desencadear de uma profunda reflexão sobre sua identidade.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Como alertado, a história de </span><i><span style="font-weight: 400;">Filho das Monarcas</span></i><span style="font-weight: 400;"> <em>(Hijo de</em> Monarcas, no original) traça um rumo ao contrário do que é esperado em obras do gênero. Antes de contextualizar a vida de Mendel como pesquisador e </span><a href="https://brasil.elpais.com/brasil/2015/02/28/internacional/1425159560_545362.html"><span style="font-weight: 400;">imigrante</span></a><span style="font-weight: 400;"> na metrópole estadunidense, para desenvolver gradativamente o nosso conhecimento sobre o personagem a partir de um ponto de partida, o filme nos coloca primeiro diante no momento delicado que ele vive em seu núcleo familiar, gerando um incômodo narrativo que harmoniza perfeitamente com o efeito que o filme mantém até o final.</span></p>
<figure id="attachment_24435" aria-describedby="caption-attachment-24435" style="width: 2000px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-full wp-image-24435" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/11/monarcas-2.jpg" alt="Cena do filme Filho das Monarcas." width="2000" height="838" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/11/monarcas-2.jpg 2000w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/11/monarcas-2-800x335.jpg 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/11/monarcas-2-1024x429.jpg 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/11/monarcas-2-768x322.jpg 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/11/monarcas-2-1536x644.jpg 1536w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/11/monarcas-2-1200x503.jpg 1200w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 1362px) 62vw, 840px" /><figcaption id="caption-attachment-24435" class="wp-caption-text">O filme também possui contornos autobiográficos do cineasta e também biólogo Alexis Gambis, fortalecendo a vitória do filme no Alfred P. Sloan Foundation Feature Film Prize, prêmio do Festival de Sundance que reconhece retratos da Ciência no Cinema (Foto: Wide Management)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">A escolha de </span><i><span style="font-weight: 400;">Filho das Monarcas</span></i><span style="font-weight: 400;"> em mostrar primeiro os traumas do protagonista para depois apresentar a forma como ele segue a vida apesar deles é o que fortalece seu impacto. Seja na interpretação fascinante que </span><a href="https://legadodamarvel.com.br/conheca-o-polemico-tenoch-huerta-ator-que-fara-o-namor-na-marvel/"><span style="font-weight: 400;">Mejía</span></a><span style="font-weight: 400;"> faz do complexo Mendel (vista nos momentos de conflitos da relação com o irmão e nas interações dele com os demais familiares e amigos) ou na riqueza metafórica do roteiro de </span><a href="https://nyuad.nyu.edu/en/academics/divisions/science/faculty/alexis-gambis.html"><span style="font-weight: 400;">Gambis</span></a><span style="font-weight: 400;"> (que atinge seu ápice quando ele faz o personagem tatuar borboletas nos braços usando a própria tinta de uma delas), a dimensão psicológica do protagonista não é nada sutil ao público, mas parecem ser despercebida pelos personagens do filme.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Assim, </span><i><span style="font-weight: 400;">Filho das Monarcas</span></i><span style="font-weight: 400;"> é (des)orientado por paradoxos. Indo de uma aproximação com uma estética documental até flertes com o realismo mágico, a produção detém uma linguagem experimental e muitos cantos poéticos de reflexões sociais, filosóficas, culturais, artísticas e científicas. O encanto das imagens sobrevoa o peso do roteiro, que tenta se encaixar na leveza de seu elenco. E se a fotografia de </span><a href="https://www.instagram.com/alejandromejiadop/"><span style="font-weight: 400;">Alejandro Mejía</span></a><span style="font-weight: 400;"> perde o fôlego nas paisagens naturais, não demora a recuperá-lo na observação controlada das borboletas em microscópios, enquanto a trilha de </span><a href="https://www.cristobalmaryan.com/"><span style="font-weight: 400;">Cristóbal MarYán</span></a><span style="font-weight: 400;"> persegue um som que liga melodias eletrônicas e tecnológicas à harmonias acústicas e clássicas.</span></p>
<figure id="attachment_24436" aria-describedby="caption-attachment-24436" style="width: 2000px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" class="size-full wp-image-24436" src="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/11/monarcas-3.jpg" alt="Cena do filme Filho das Monarcas." width="2000" height="1125" srcset="http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/11/monarcas-3.jpg 2000w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/11/monarcas-3-800x450.jpg 800w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/11/monarcas-3-1024x576.jpg 1024w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/11/monarcas-3-768x432.jpg 768w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/11/monarcas-3-1536x864.jpg 1536w, http://personaunesp.com.br/wp-content/uploads/2021/11/monarcas-3-1200x675.jpg 1200w" sizes="auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 1362px) 62vw, 840px" /><figcaption id="caption-attachment-24436" class="wp-caption-text">O rosto de <span style="font-weight: 400;">Tenoch Huerta Mejía</span> é conhecido de Narcos: México, e em 2022, o ator poderá ser encontrado em um vilão do próximo filme do Pantera Negra (Foto: Wide Management)</figcaption></figure>
<p><span style="font-weight: 400;">A fascinação do cineasta venezuelano pelos contrastes aparece também de forma mais direta no filme. O fio narrativo não é linear nem no tempo presente, e à sua construção temporal, </span><i><span style="font-weight: 400;">Filho das Monarcas</span></i><span style="font-weight: 400;"> ainda mistura </span><i><span style="font-weight: 400;">flashbacks</span></i><span style="font-weight: 400;"> repentinos. Neles, a obra ilumina a infância de Mendel com uma criança doce e curiosa, que incomoda seu irmão mais velho com algumas questões mais difíceis da vida. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Então, de repente, saímos da frieza nova-iorquina para tomar parte de mais um rito de luto da família de Mendel, onde ele ainda encontra tempo para trazer o tema da imigração que é indissociável da história em críticas ao </span><a href="https://agenciabrasil.ebc.com.br/internacional/noticia/2020-06/trump-pretende-acabar-em-seis-meses-com-programa-de-imigracao-dreamers"><span style="font-weight: 400;">governo de Donald Trump</span></a><span style="font-weight: 400;">. Não contente em compreender um mundo em 97 minutos, o filme também adota num ritmo lento, apostando alto em sua experiência.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Mas pelos ciclos de </span><i><span style="font-weight: 400;">Filho das Monarcas</span></i><span style="font-weight: 400;">, vale a pena esperar. É fato que o filme tem dificuldade em coordenar tantos elementos temáticos, narrativos e técnicos, mas &#8211; sem desfazer a graça de identificar as metáforas da obra &#8211; não existe outro processo a ser adotado diante de uma história repleta de poder figurativo além de abraçar tudo num casulo e observar a sua evolução.</span></p>
<div class="jetpack-video-wrapper"><iframe loading="lazy" title="Son of Monarchs Trailer #1 (2021) | Movieclips Indie" width="840" height="473" src="https://www.youtube.com/embed/7WDk_mPU5Wc?feature=oembed" frameborder="0" allow="accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share" referrerpolicy="strict-origin-when-cross-origin" allowfullscreen></iframe></div>
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